Textos do
Jornal Fraternizar

Edição nº 178 de Julho/Setembro 2010

 DESTAQUE 1

PEDRO MIGUEL

O menino crucificado numa das inúmeras cruzes

que as nossas Idolatrias corporativas estão sempre a fabricar

 

Pedro Miguel, 12 anos, Crucificado por uma Doença raríssima e de progressão acelerada, totalmente incontrolável pela Medicina, pelo menos, por agora (é o primeiro caso conhecido em Portugal em quem ela se manifesta), e que o obriga a ter de viver, dia e noite, estendido sobre a cama, olhar perdido no tecto do quarto, nunca virá a saber que faz o Destaque 1, desta edição do Jornal Fraternizar.

 

Pedro Miguel está já tão violenta­mente reduzido ao Essencial e sempre a ver o Invisível (é assim o ser-viver de todos os Crucificados do Mundo, cujas Cruzes, como a de Jesus, o Cruci­ficado Paradigmático da História e da Humanidade, as nossas ambições cor­po­rativas, os nossos egoísmos corporativos, as nossas graves omissões cor­porativas, as nossas preguiças mentais corporativas, numa palavra, todas as nos­sas Idolatrias corporativas, fabri­cam, a toda a hora do dia e da noite. e que, no seu todo, perfazem o mais Hediondo dos Crimes Estruturais His­tóricos que, depois, ainda por cima, justificamos /abençoamos /canoniza­mos com recurso ao Deus-Ídolo criado /sustentado pelos Sacerdotes, seja os sacerdotes clérigos-eclesiásticos, hoje em franco declínio, seja os sacerdotes laicos-ateus, hoje, em ascensão!), que tudo o mais já lhe passa ao lado.

Mas é ele próprio, Pedro Miguel, violentamente reduzido ao Essencial e sempre a ver o Invisível, que, sem disso ter consciência, me impele a escrevê-lo e, assim, através dele, a­nun­ciar toda esta Boa Notícia, parte integrante da Boa Notícia de Deus Criador, nosso Abbá-Mãe e de todos os Povos por igual. E a denunciar  todo o Perverso institucionalizado que, a propósito de situações como a de Pedro Miguel, por aí se pratica a rodos. Todo ele, Pedro Miguel, é, na sua mais completa Fragilidade Humana Desar­ma­da, Sacramento Vivo do Ser Huma­no, simplesmente Humano, sem nada de Poder, sem nada de Idolatria, sem nada de Pecado, e, ao mesmo tempo, de Deus Criador, nosso Abbá-Mãe, que nunca ninguém vê. Por isso, todo ele é Afecto Maiêutico, Ternura Maiêu­tica, Palavra-Maiêutica-ainda-por-escutar-na-História, Palavra feita Silên­cio que, ininterruptamente, nos grita. Sem que nós, de tão Inumanos que fazemos questão de ser, todos os dias, nos disponhamos a acolhê-la, a masti­gá-la, a fazê-la carne da nossa carne, Acção Política Maiêutica, Duelo Teoló­gico Desarmado, que sempre olha, com Ternura, os olhos de quantas, quan­tos, em cada hoje e aqui da Histó­ria, aceitam (ingenuamente, ou inte­res­sei­ra­mente?!) vestir a roupa, fazer o papel histórico de Verdugo /Carrasco /Algoz do Sistema mentiroso e assas­sino que tem por pai o Deus-Ídolo dos Sacerdotes e dos grandes Grupos Fi­nan­ceiros, o pai da Mentira e do As­sas­sínio Institucionalizados. Um Siste­ma intrinsecamente perverso, hoje, ca­da vez mais cientificamente organiza­do e apetrechado com os mais sofisti­ca­dos meios, que, sem descanso, está aí a descriar-nos, cada dia, um pedaço mais, até nos reduzir a populações /massas humanas infantilizadas, subsi­diadas, de mão estendida, medíocres, banais, venais, corruptas, servis, incul­tas, sem nenhuma consciência crítica, tolhidas de Medo, clientes pagantes de santuários, vermes rastejantes, eter­nos pagadores de promessas.

 

De como Pedro Miguel me bateu à porta, me falou, me fez sair ao seu encontro, no quarto onde intensamen­te vive a sua derradeira PÁSCOA, e, daí, me arrebatou /lançou ainda mais em Missão, a mesma de Jesus Século XXI, dá notícia o e-mail integral que transcrevo, de seguida, tal e qual como ele mo fez escrever, no dia 28 de Abril de 2010, e, agora, me impele a divul­gar, nesta edição n.º 178, do Jornal Fraternizar. Eis:

 

Dra. Fátima Pinto

Coordenadora da Acção Social do Distrito do Porto

 

Um beijo, de saudação.

Acabo de passar pela Acção Social do Concelho de Felgueiras, à procura da Dra. Dulce. No guichet de atendi­men­to, encontrei um funcionário, ao computador, e uma funcionária ao te­le­fone. Dirigi-me ao funcionário, rosto medonhamente fechado e carregado. Apeteceu-me fugir, mas resisti, porque o caso que me levou lá assim mo exigiu.

Saudei, com o meu habitual sor­riso e apresentei-me: Sou o Pe. Mário, residente em Macieira da Lixa e pro­curo a Dra. Dulce. Queria saber se ela se encontra de serviço.

O funcionário fez de conta que não ouviu. Carregou ainda mais o ros­to. A funcionária continuava ao telefo­ne com um(a) utente. Voltei a insistir com o funcionário. Ele, então, sem sair do seu mutismo e sem deixar o rosto carregado, limitou-se a apontar com esse mesmo rosto, em direcção à fun­cio­nária, ao seu lado esquerdo. Perce­bi que era ela quem poderia dar-me a informação. Aguardei que ela desli­gas­se o telefone. E repeti a apresenta­ção e o pedido.

Ela, também sem qualquer sinal de bom-atender, antes com ar agasta­do, respondeu que a Dra. Dulce não estava; que se encontrava de baixa médica, por um período de 30 dias. Reagi: Nesse caso, deverá ter ficado alguém a substituí-la, durante tão lon­go período de tempo, para que a Co­or­denação da Acção Social no Con­celho não fique parada. Se a senhora fazia o favor de me dizer quem era, para eu me dirigir à técnica substituta.

Limitou-se a dizer, laconicamente, que não havia ninguém a substituí-la! Reagi: Então a Coordenação da Acção Social no Concelho pára até a Dra. Dulce chegar?! A minha pergunta já levava alguma ironia no tom de voz. A funcionária limitou-se a confirmar que assim era, de facto. Voltei a reagir: Nesse caso, terei de me dirigir à Coor­de­nadora do Distrito do Porto, e é o que irei fazer de imediato, depois de sair daqui. A funcionária encolheu os ombros.

Afastei-me. Mas, quando ia a cru­zar a porta de saída, tive um impulso interior e, sob a acção dele, voltei a­trás, ao guichet, e disse para os dois: Saibam que vou embora um bocado incomodado. Nenhum deles reagiu. E afastei-me, entre o triste e o indignado. Até falei alto, sozinho: É isto um país?!

Aqui estou, depois de procurar o seu contacto via net e telefone. Via telefone, aí no Instituto, a simpatia foi total. E total a cooperação. Foi assim que obtive o seu e-mail.

 

O caso que me aflige é o caso do Pedro Miguel. Um menino de 12 anos que nasceu aparentemente perfeito e que se desenvolveu assim até aos seis anos. Era o mais inteligente e preco­cemente “maduro” no infantário. Aos seis anos, revelou-se-lhe uma doença que, em pouco tempo, o deixou total­mente como paraplégico.

Os pais procuraram-me, esta se­ma­na, porque estão a passar grandes dificuldades. Eu não estava em casa. Telefonaram, depois, e no dia seguin­te, ontem 27 de Abril, passei pessoal­mente lá por casa, ao início da tarde, com Maria Laura, da Comunidade de Base aqui de Macieira da Lixa, que a Dra. Dulce conhece muito bem.

O pai do menino estava a traba­lhar. O encontrou prolongou-se por mais de duas horas. Comunguei por inteiro o Pedro e a sua mãe, já total­mente “apanhada” pela situação do filho. Teve de abandonar o trabalho num infantário, já que o Pedro (não fala e ouve /vê alguma coisa, mas sem nunca manifestar quaisquer reacções ao que ouve /vê) precisa dela, 24 horas sobre 24 horas, enquanto o ma­rido trabalha e, mesmo, quando o ma­ri­do está em casa. Toda a vida do casal é inteira para o Pedro. Já nem vida so­cial consegue fazer.

O menino passa o tempo esten­dido na cama, sobre um colchão su­ple­mentar que os pais adquiriram, às suas custas, e que assim impede que o corpo do Pedro se torne uma chaga viva.

Antes da doença se manifestar e avançar de forma galopante, o casal que nem sequer suspeitava o que iria vir aí, levava uma vida cheia de sonhos e de projectos. Ambos trabalhavam, ela, funcionária num infantário, ele, operário numa fábrica de calçado, onde ainda trabalha.

Meteram-se, e bem, a comprar um apartamento (2.º andar) de um prédio, mediante um empréstimo bancário. Ti­nham a hipótese de chamar um se­gundo filho. Até que o firmamento de­sabou sobre eles.

A mãe meteu baixa médica e re­cebeu durante os anos que a lei prevê. Agora, não recebe mais. Apenas rece­be o apoio social atribuído à terceira pessoa. O pai do Pedro recebe em mé­dia mensal, pouco mais de 520 eu­ros.

Há a prestação mensal a pagar ao banco, ou ficam sem a casa. A pri­meira cadeira de rodas foi comprada por eles, 240 contos, pagos em pres­tações. Nem a técnica social do Hospital foi capaz de fazer alguma coi­sa, para que a cadeira fosse subsi­diada por inteiro, ou, ao menos em parte. Quando teve ser substituída, por o Pedro ter crescido, os pais foram oferecê-la a uma CERCI, para que outro menino ou menina desfrutasse dela. Estava como quando havia sido comprada por 240 contos.

Hoje, a cadeira de que dispõem, tem de ser novamente substituída, por­que o Pedro, cada dia mais fisicamente de­for­mado, já não tira proveito dela, só muitas dores, o que leva os pais até a evitar sair com ele de casa para a rua.

Estendido na cama, dia e noite, de barriga para o ar, o Pedro tem de ser alimentado por uma sonda, aberta na barriga, que leva a comida reduzida a papa, directa ao estômago, já sem ter de passar pela boca.

Acolhi o Pedro. Comunguei o Pedro. A mãe chorava. Falei-lhe do seu filho Pedro, como uma Graça /Bênção na sua casa, na sua família, não como um peso /pesadelo. Ela escutou-me, surpreendi­da, e acolheu a boa notícia no seu co­ração. E beijou ainda mais o filho, num poema de ternura inexcedível.

Mas as dificuldades financeiras (já para não falar das outras todas) já não são uma Graça /Bênção. São desgraça. Peso /pesadelo. Todos os meses, há o alimento para os três (a comida do Pe­dro tem de ser especial e sai mais cara); a prestação da casa para o banco; o condomínio; a água; a luz; o telefone; as despesas de manutenção do carrito que possuem desde os tempos em que o Pedro era um menino fulgurante entre os demais e com os demais. Há os me­di­ca­mentos para o Pedro e para os pais do Pedro, os quais já só conseguem dormir alguma coisa com recurso a medicação.

O caso já é do conhecimento da Dra. Dulce. Pelos vistos, com os poucos dinheiros que entram em casa, tudo somado, o casal não tem direito ao ren­dimento de reinserção. É um casal com princípios. Não é capaz de mentir. De enganar os Serviços e respectivas técni­cas. É honesto. Não escondem a casa que estão a pagar ao banco e que ad­qui­riram, antes do Pedro se ter tornado no que se tornou, um menino lindo de­mais, mas totalmente corpo pousado e quase imóvel numa cama, membros su­periores e inferiores cada vez mais re­tor­cidos, sem uma fala, sem um sorriso.

As células do cérebro queimaram-se e o Pedro é mais que 100% depen­dente, com tendência a agravar-se. A Dra. Dulce já conhece o caso. Já viu o Pedro. Mas nunca foi a casa do Pedro, como eu fui, logo que soube do caso. Disse logo: quero ver o Pedro no seu próprio ambiente familiar.

Os pais são o que se pode dizer de pais exemplares. Têm a casa que, se deixarem de pagar a prestação men­sal, volta a ser do banco. Um mimo de limpeza. Cuidam do Pedro como de Deus-feito-menino, Deus-feito-Pedro. Ao que me disse a mãe, a Dra. Dulce terá já agido, para que os pais do Pedro recebam um apoio social ocasional. Não mensal, como é da mais elementar justiça. E mesmo esse, ocasional, ainda não apareceu nenhuma vez.

Não sei qual a técnica, mas houve uma técnica social no activo que – ima­gine! – aconselhou o casal a divorciar-se no registo civil e, depois, continuar a fazer a sua vida como até aqui. Para que a mãe do Pedro, oficialmente di­vor­ciada no papel, tivesse direito ao ren­dimento de reinserção. O casal re­cusou, em nome da verdade e da di­gnidade. Prefere passar todos os dias a pão e sopa, a cometer semelhante in­dignidade.

A técnica em causa, em lugar de trabalhar para promover a dignidade das pessoas, dá-lhes a indicação de como elas devem corromper-se. É uma indignidade sem nome! Mas, quantos casos, por esse país, de pais assim di­vorciados no papel, por sugestão de uma técnica de serviço social?! A Dra. Fátima Pinto faz ideia de quantos? Se­rá que são indicações imanadas do respectivo Ministério, interessado em ter populações cada vez mais degra­dadas, desocupadas, a romper os ban­cos dos cafés e das confeitarias, a pros­tituir-se nas ruas, ao mesmo tempo que recebem mil euros /mês, 1.500 euros /mês, só porque cultivam a por­caria, a indignidade, a imbecilidade? Será que o Ministério quer populações assim, para que elas nunca se rebe­lem, nunca se levantem politicamente?

Estou indignado. E, ou vejo o caso do Pedro e dos seus pais (uma família crucificada pela doença galopante e previsivelmente mortal do filho que eles viram a desenvolver-se com toda a alegria do mundo até aos seis anos), de imediato acompanhado com afecto institucional, com respeito institucional, com Justiça institucional, ou vou para o youtube, onde já tenho página pes­soal, gritar-denunciar a situação. E para as televisões.

E, se, nem assim, nada acontecer de institucionalmente humano, no ca­so do Pedro Miguel, farei das tripas co­ração e, da minha pequena reforma de jornalista que também sou (670 eu­ros /mês), abdicarei de, pelo menos, cem euros /mês a favor desta família. Sou abertamente contra a Caridade­zinha, mas se a tanto me obrigarem os Serviços de Acção Social do Con­celho e do Distrito, é o que farei. Não como Caridadezinha, obviamente. Mas como um imperativo de consciência solidária.

Impossível conhecer o Pedro Mi­guel e os seus pais, comungar o Pedro Miguel e os seus pais e não compar­tilhar com os três parte da minha pe­que­na reforma de jornalista, da qual vivo, de nada mais!

A concluir: Dados da família do Pedro Miguel [que aqui, obviamente, omito].

Com afecto e com toda a expectativa

Padre Mário de Oliveira (ou da Lixa)

 

Este e-mail mereceu resposta, quase imediata, da Coordenadora Dis­trital. Uma resposta institucional à altura, o que só dignifica quem a teve. Aqui fica, na íntegra:

 

Boa tarde Senhor Padre Mário

Li muito atentamente a sua expo­sição e lamento muito a forma como foi atendido no Serviço Local de Fel­gueiras que, como é óbvio, é imper­doá­vel, seja para o senhor, seja para qualquer outro cidadão.

Como deve calcular a situação do Pedro nunca chegou ao meu conheci­mento e, tal como a apresenta, parece tratar-se de um caso em que se justifi­ca um acompanhamento. Pedirei à Drª Manuela Figueira, Directora deste Ser­viço e responsável, também, pela inter­venção junto das Famílias, que providencie para que a situação seja de ime­diato analisada. Na próxima 5ª feira, dia 6 de Maio, uma técnica en­trará em contacto com a mãe do Pedro.

Com os melhores cumprimentos.

 

A este e-mail da Coordenadora Distrital, reagi logo no dia 30, com um novo e-mail. Aqui se transcreve na íntegra

 

Mas como eu lhe agradeço e lhe beijo as mãos, Dra. Maria Fátima Pinto! Só desejo que o contacto da Dra. Manuela Figueira com a mãe do Pedro Miguel, 5.ª feira, 6 de Maio, seja também com o Pedro Miguel, lá em ca­sa. Porque o Pedro Miguel, a Fragili­dade Humana feita menino, é quem nos convoca e nos interpela. O encon­tro tem de ser, primeiro, com ele, no seu leito, no seu quarto. E que o en­contro não se fique pela recolha de dados, mas seja um encontro de afe­ctos. O primeiro a ter de ser escutado é o Pedro Miguel. Ele, como Deus Criador que nunca ninguém viu nem verá, fala a língua que só o coração humano escuta e entende. E escuta-nos a nós, sobretudo nas carícias /festas nos cabelos/nos beijos que lhe dermos nas mãos retorcidas, no rosto de anjo humano, e nos olhos. Todo ele, Pedro Miguel, é Fala, é Palavra, é Interpela­ção, é Fragilidade que nos desafia a sermos plena e integralmente Huma­nos. Se eu próprio, do meu primeiro encontro com ele (e com a mãe dele), lá em casa, saí ainda mais Humano do que quando entrei, o mesmo sucederá à Dra. Manuela Figueira, se ela, como técnica-pessoa-humana-que-é, também for capaz de se fazer mulher-menina para acolher /escutar /deixar-se inter­pelar pelo Pedro Miguel. Se tal Aconte­cer, é todo o Serviço Social que sairá a ganhar em Humanidade. Fico, pois, em activa Comunhão. Seu, Mário

 

Poucas horas, depois, fui informa­do, por novo e-mail, que a técnica que iria no dia 6 de Maio, a casa do Pedro Miguel e dos seus pais, não era a Dra. Manuela Figueira, mas uma outra, de nome Paula. Fiquei na expectativa. Mais ainda, a mãe do Pedro Miguel. E o dia 6 chegou. A mãe do Pedro Miguel ainda fez alguma pressão, para que eu esti­ves­se presente no encontro, mas eu não aceitei semelhante pressão. Jamais me quero ver no papel de benfeitor, de padrinho, de poder. A minha pre­sen­ça /intervenção, ou é maiêutica, co­mo a da parteira, ou não será. Escla­reci a mãe do Pedro Miguel que, em todo este caso, o Sujeito principal, é o Pedro Miguel, mais ninguém. Nem a sua mãe, muito menos eu. É o Pedro Miguel quem me chamou, me tocou, me mobi­lizou, me fez ir a Felgueiras pela técnica responsável, me impeliu a escrever. E tem de ser o Pedro Miguel a fazer andar as técnicas. Pedro Miguel violentamente Crucificado pela Doença que nós ainda não sabemos combater, neutralizar, por­que desviamos as nossas capacidades para outros projectos mais conformes às nossas ambições corporativas de do­mínio, em vez de as canalizarmos todas para o desenvolvimento, de dentro para fora, do Humano, em cada ser humano e em cada povo, é, na sua Fragilidade Humana total, o ser humano mais inter­pelador e, por isso, mais fecundo. A mãe do Pedro Miguel entendeu a Boa Notícia e ela própria se descobriu ani­mada da Força Maiêutica que o seu filho Pedro Miguel fez nascer nela. Pela mi­nha parte, prossegui o meu trabalho e aguardei pela noite, para saber como havia corrido a visita da técnica. O e-mail, a seguir, dá conta. Eis:

 

Dra. Fátima Pinto

Coordenadora da Acção Social do Distrito do Porto

É de tristeza a minha saudação.

Hoje [dia 6 de Maio], depois de jantar, fui a casa de Maria Laura que me acompanhou no meu primeiro en­contro com o Pedro Miguel na casa dos seus pais e, desde então, tem estado mais em contacto com ele e com a mãe dele. Fui saber como havia decorrido o encontro com a técnica que a Dra. Fátima anunciou que vinha hoje, 6 de Maio, lá a casa. A minha decepção foi total, como se fosse apunhalado. Afi­nal, não veio técnica nenhuma. Nem houve qualquer comunicação /explica­ção telefónica. A mãe do Pedro Miguel, a quem, há dias, havia dado a ler a nos­sa troca de e-mails, esteve toda a tarde de alerta. Inclusive, fez questão de que a mãe dela (avó do Pedro Mi­guel), também estivesse presente. A mãe dela chegou a vir cá para fora, sempre a ver quando chegava uma viatura que pudesse trazer a técnica. Ansiedade /expectativa enorme e, no final da tarde, a decepção total. Nin­guém apareceu. Ninguém telefonou. Ninguém deu qualquer explicação.

Dói muito, Dra. Fátima!

Ontem, o Pedro Miguel teve de voltar ao Hospital, aonde agora vai cada vez com mais frequência. A médica disse que o Pedro Miguel não poderá voltar a ser transportado na [segunda] cadeira de rodas, [esta, já] oferecida há dois anos, pelos serviços sociais do Hospital e que está tão nova, como quando lhe foi entregue. O seu corpo atrofiou-se tanto, que a cadeira deixou de lhe servir de ajuda e passou a ser instrumento de tortura. Tem de ter outra cadeira, adaptada ao corpo que ele agora é. A mãe deitou as mãos à cabe­ça, tanto mais que o Hospital, apenas dois anos depois, não poderá oferecer outra cadeira. É drama sobre drama. Problema sobre problema. E a técnica anunciada para hoje, 6 de Maio, não apa­receu, nem deu telefonicamente qual­quer explicação. Que tortura de país europeu, Dra. Fátima! Não posso mais. Por favor, procure saber o que se passou /o que se passa e diga-me alguma coisa amanhã, logo ao abrir o Serviço. Ou diga directamente à mãe do Pedro Miguel. Os contactos telefóni­cos dela foram no meu primeiro e-mail e encontra-os reproduzidos aqui, ao fundo. Tire-me deste pesadelo, ou eu, jornalista profissional que também sou, agirei em conformidade. Penso que, se tiver de o fazer, terei, não a sua repro­vação, mas a sua compreensão, senão mesmo o seu apoio pessoal, ainda que não institucional. Fico em grande e dolorosa expectativa. Seu, Mário

 

E como reagiu a Coordenadora Distrital a este e-mail? Assim:

 

Bom dia Padre Mário

Efectivamente a comunicação é sempre muito difícil e quando se pensa que está tudo acordado e bem concer­tado, percebe-se que parece ter volta­do a falhar. Foi isto que senti, quando recebi o seu mail, o que me levou, mes­mo antes de falar com a técnica que tinha assumido tratar da situação, falar de imediato com a mãe do Pedro Mi­guel e, eu própria, ir a casa dela.

No entanto, quando falei com a [nome da mãe de Pedro Miguel aqui omitido por mim], percebi que a situa­ção não era exactamente aquela que me relatou: na passada 4ª feira [dia 5] ela foi, efectivamente, con­ta­ctada [tele­fonicamente, ao que eu próprio vim a saber, depois, pela mãe do Pedro Mi­guel, e não em visita lá a casa, como estava anunciado para o dia 6] pela Dr. Dulce Vieira (que re­solveu antecipar o contacto dela mar­cado para o dia 6 de Maio) e ficou acor­dado que durante os seis próximos meses a Segurança Social iria compar­ti­cipar financeiramen­te a família para as despesas com o Pedro Miguel. A técnica teria, também, informado a se­nhora, que um outro su­b­sídio já teria sido proposto no mês de Maio, valor que a [omito, aqui, de novo, o nome da mãe] me diz já ter recebido [nesse preciso dia, ao que eu próprio confir­mei depois, junto da mãe do Pedro Miguel].

Não obstante tivesse ficado mais descansada, porque afinal nem tudo fal­hou, combinei com a [nome da mãe, aqui omitido por mim] que eu própria iria a casa dela hoje de tarde. Com os melhores cumprimentos.

 

Reagi, de imediato, a este e-mail da Coordenado Distrital, com outro e-mail. Assim:

 

Volto a beijar-lhes as mãos, Dra. Fátima. Mãos de Mulher com entra­nhas de Humanidade.

A mãe do Pedro Miguel acaba de me telefonar a dar a BOA NOTÍCIA. A Dra. Fátima veio lá pessoalmente a casa. Acompanhada de outra Colega também com entranhas de Humani­dade. E tudo está resolvido com Jus­tiça!

Como eu Canto e Danço! O Pedro Miguel, na sua Fragilidade Desarmada, é quem operou todo este Acontecimento de Humanização do Mundo. Bendita seja, Dra. Fátima, por lhe ter dado ACO­LHIMENTO.

Logo, depois do jantar, vou PAS­SAR (= Páscoa) lá por casa.

Temo que a mãe e o pai do Pedro Miguel me partam as costelas com o abraço fraterno /sororal que me querem dar e que eu lhes quero dar a ambos. O mesmo Abraço que o Pedro Miguel me deu, da primeira vez que me en­con­trei com ele. Nem sequer os pais sabiam o Filho /Dádiva /Graça, que têm. Agora sabem. Começam a saber. Rece­bemos dele, muito mais do que lhe pos­samos dar! É também este Abraço que recebi /recebo do Pedro Miguel que lhe dou, por agora, ainda via net. Seu, com Emoção e Alegria, Mário.

P.S.

E, agora, o que vai Acontecer de Libertação /Humanização na Segurança Social de Felgueiras? Não pode ficar tudo como antes. O Pedro Miguel pede que NASÇAMOS DE NOVO, finalmente Humanos! Como tenciona ACTUAR?

 

Eis. Resisti o mais que pude a tor­nar pública esta Boa Notícia. Sobretudo, pelo que ela leva também de Denún­cia. Mas não tive como continuar a re­sistir ao Apelo que o Pedro Miguel me fez neste sentido.

A Boa Notícia aqui fica. E a Denún­cia, também. Acolhamos uma e outra. Para Nascermos de Novo.


 

DESTAQUE 2

A aparição do papa em Portugal

O que escondeu /pôs a nu a obscena Encenação montada no país?

 

Tal como, em 1917, o clero de Ourém, às voltas com a restauração da sua Dio­cese de Leiria, integrada, há anos, no Patriarcado de Lisboa, e preocupado, como o demais clero do país, com o ru­mo que a Igreja católica romana, ape­nas sete anos depois da implantação da República, estava a tomar (ai! que saudade os clérigos tinham dos quase 800 anos de monarquia, durante os quais, esteve em vigor, em Portugal, a trilogia, Clero, Nobreza e Povo!), deci­diu fazer alguma coisa para tentar inverter a situação, também agora, em 2010, o alto clero da Cúria Romana decidiu apostar /investir tudo na visita do papa Bento XVI a Portugal.

 

Em 1917, um dos clérigos de Ou­rém, mais dado à escrita, provavelmen­te, o Cónego Formigão, disfarçado, du­rante anos, de Visconde de Montelo, meteu mãos à obra e, depres­sa, escre­veu um guião, em seis curtíssimos epi­só­dios men­sais (antes, porém, havia vi­a­jado até Lourdes, onde permaneceu mais de um mês, a procurar saber co­mo é que aquela mentira da “aparição da imaculada conceição” havia tido êxi­to, em França!), para umas outras tantas “aparições da senhora do rosário de Fá­­ti­ma”, a serem levados à cena, entre Maio e Outubro desse mesmo ano.

Depois, foi só arranjar três crianças (dois irmãos de pouco mais de 7 anitos, Jacinta e Francisco, e uma sua prima, Lú­cia, um pouco mais velhita que eles) e realizar a dramatização ao ar livre, precisamente numa propriedade da fa­mília dessas três crianças. Programada para acontecer todos os dias 13, de Maio a Outubro desse mesmo ano (num dos meses teve de ser feita – pelo me­nos, assim garante esse mesmo clero! – sem mais ninguém a ver, noutro dia e noutro local, devido à inesperada in­tro­mis­são do administrador de Ourém, de modo algum, prevista pelo autor do guião que, logo no primeiro episódio, pôs a personagem senhora do céu a ga­rantir que, àquela primeira “apari­ção”, mais outras cinco se lhe seguiri­am, sempre no mesmo dia, à mesma ho­ra e no mesmo local!), a Encenação clerical, depressa, passou a ser segui­da por multidões sem um pingo de cons­ciência crítica, e sempre a crescer em número, de um mês para o outro, ávi­das, como todas as multidões sem um pingo de consciência crítica, de mi­la­gres e de ininterruptas overdoses de ópio religioso com que tentam abafar /calar todas as suas frustrações de sé­culos.

Pois bem. Tal como então, também agora, precisamente, em Maio de 2010, o alto e baixo clero do país, com os bis­pos residenciais à frente, e em obediência ao alto clero do Vaticano e da sua Cúria Romana (todos os bispos devem à Cúria Romana o lugar de Po­der e de Privilégio que usufruem, à fren­te das dioceses), acaba de fazer algo de semelhante. Com uma substantiva diferença. Não pretendeu possibilitar uma nova "aparição" da senhora do rosário de Fátima, mas, sim, a aparição do papa Bento XVI em Portugal.

E as mesmas multidões, sem um pingo de consciência crítica, ávidas de milagres e de ininterruptas overdoses de ópio religioso, com que tentam abafar /calar todas as suas frustrações de séculos, lá voltaram, como em 1917, a não se fazer rogadas e correram, dia 11, em Lisboa, dias 12 e 13, em Fátima e dia 14, na Avenida dos Aliados, no Porto, a ver-aplaudir-ovacionar o Papa, sem dúvida, o mais poderoso e o mais temido dos chefes de Estado do Mun­do, ou não fosse ele o rosto número um (ou mesmo o único, dado que é um mo­narca absoluto tão poderoso, tão po­deroso, que até manda em Deus!) da maior Empresa Transnacional do Mundo, a Igreja Católica Romana, S. A., a única que tem sucursais abertas, a funcionar /acumular riqueza sobre ri­queza, dinheiro sobre dinheiro, e a for­matar a consciência das populações que se lhe submetem e lhe entregam as filhas, os filhos, poucos dias depois dela, deles, nascerem, em to­das as al­deias, vilas e cidades dos países oci­dentais e em muitos outros países do resto do Mundo, por isso, uma Igreja-Empresa, gritantemente, nos antípodas da Igreja, prosseguidora de Jesus, o camponês-carpinteiro de Nazaré.

 

Um sucesso?

 

A encenação, em Maio de 2010, foi um sucesso, pelo menos, no unânime dizer dos grandes e menos grandes ór­gãos de comunicação /intoxicação so­cial, todos propriedade do Grande Po­der Financeiro Global e Eclesiástico. E também no dizer politicamente cor­recto de todos os cronistas /colunistas, inclusive, os que, ingenuamente, ainda tínhamos por mais ilustrados e progres­sistas.

O país quase parou, nestes quatro dias, e bailou nas ruas, de bandeiri­nhas nas mãos, tal como em 13 de Ou­tubro de 1917, o guião das “aparições” escreve que o Sol deixou por momen­tos a sua órbita e veio rodopiar e bailar sobre as cabeças dos muitos milhares de seres humanos enlameados e ater­rorizados pelas suas próprias alucina­ções, provocadas pelo sofrimento, pela fome, pela doença, pela miséria (i)me­recida, pela humilhação, pela degra­da­ção, pelo analfabetismo que então era (ainda hoje é, embora de outra ma­neira mais refinada!) o seu quotidiano muito católico romano de servos da gle­ba dos párocos e dos bispos, Poder hie­rár­quico ou sagrado, o mais absur­do.

“Gostava de vos cantar / ó mulheres do meu Povo / mas só vos posso chorar / por não nascerdes de novo. Dos tem­plos e santuários / sois utentes garan­tidos / geridos por mercenários / de sa­cerdotes vestidos. Mas oh que cegueira a vossa / por gerações, gerações / ado­rar deusas e deuses / que rendem mui­tos milhões”. Assim é. E, nesta aparição do papa Bento XVI em Portugal (quatro dias, para um país com tanto de pe­queno em território como em dignidade, é obra! Mas era o único país mais cul­turalmente subdesenvolvido da União Europeia, onde esta aparição papal ti­nha sucesso garantido!), já não só ha­verei /haveremos de chorar as mulhe­res do meu Povo. Os homens, desta vez, não lhes ficaram nada atrás. Nem mes­mo os homens (e as mulheres, ditas), ditos de Cultura!!!

 

Ninguém perguntou

 

Ninguém, entretanto, durante estes quatro dias e nos dias subsequentes, parou para se perguntar: Mas o que de Perverso /Hediondo Institucionalizado, toda esta gigantesca Encenação de muitos milhões de euros, organizada pela Cúria Romana, e executada ao milímetro pela Conferência Episcopal e pelos párocos quase em uníssono, quis esconder e, sem querer, em vez de esconder, acabou por pôr ainda mais a nu?!

Essa é a questão de fundo que nin­guém, antes, durante e depois da visita papal, formulou /levantou. E tinha de ser formulada /levantada. Porque nunca a Cúria Romana, com tudo de grande Máfia que tem e é, dá ponto sem nó.

Em tudo isto, o papa Bento XVI foi apenas o actor, o figurante, que se pres­tou às mil maravilhas, a desem­pe­nhar o papel que lhe foi imposto pelo guião da Cúria Romana, o Poder abso­luto mais mentiroso e mais cruel da His­tória, até pelos séculos e séculos que já leva de perverso exercício. São in­contáveis, todas as suas vítimas. E são-no, em tal grau de crueldade, que nem elas próprias chegam a dar-se conta de o serem. Pelo contrário, ainda se têm na conta de filhas, filhos fiéis (do Poder) de Roma.

Igualmente, ninguém (se) pergun­tou quem é que escreveu as homilias e outras intervenções oficiais que o papa Bento XVI teve de assumir como suas, quando é manifesto – basta uma distraída análise ao estilo e ao conteú­do teológico das homilias e das outras intervenções oficiais – que nenhuma delas é do seu próprio punho. Tudo lhe foi apresentado, para ele, à seme­lhan­ça do filósofo Sócrates grego, que, por suas próprias mãos, bebeu a cicuta com que caiu morto redondo no chão, tomar nas suas mãos e ler-dizer, como actor ou figurante, de acordo com o guião da Cúria Romana para esta “visi­ta pastoral” de chefe de Estado do Vaticano a Portugal.

Ou assim, ou Bento XVI teria conhe­cido o mesmo trágico fim do seu penúl­ti­mo antecessor, João Paulo I, de seu nome, que, quando se atreveu a pôr de lado os discursos que a Cúria Ro­ma­na escrevia para ele ler-dizer, e pas­sou a falar com o coração e a mente sa­piente, foi envenenado, poucos dias, sem que o cadáver tivesse sequer di­reito a autópsia, realizada por uma en­tidade estranha á Cúria Romana. Coisa, de resto, impossível alguma vez acon­te­cer, dado o facto de a Cúria Romana ser monárquica absoluta em toda a Terra. De modo que, fora dela, só há súbditos atentos, obedientes e reveren­tes. Laicos que se digam. Ateus ou a­gnós­ticos que se digam! Chefes de Es­tado que se digam. Todos seus súbditos atentos, obedientes e reverentes.

Do próprio papa Bento XVI, as únicas palavras, com alguma substân­cia, que, nesta visita, podem ser apon­tadas como dele, são aquelas que ele, já no avião a caminho de Portugal, par­tilhou, ainda nos ares, com os jornalis­tas, sem nenhum discurso previamente escrito e entregue em mão pelo asses­sor nomeado pela Cúria Romana para essa função de eunuco de luxo.

Por sinal, foram as únicas palavras que poderiam vir a fazer algum percur­so na sociedade, não fossem de imedi­a­to esquecidas e apagadas pela Cúria Romana, não sem antes, o seu repre­sen­tante e porta-voz ter sido reverente­mente admoestado /repreendido pelos todo-poderosos cardeais que a dirigem com mão de Padrinhos das Máfias, os mesmos que o escolheram para ser o seu rosto, ora duro e severo, ora sorri­dente e próximo, conforme disser o gui­ão de cada visita que a Cúria Romana previamente escrever.

Nesta visita de quatro dias a Portu­gal, o guião ordenava que o figurante ou actor deveria mostrar-se próximo, sorridente, quase familiar. Coisa que o cardeal Ratzinger, ex-Presidente da Congregação para a Doutrina da Fé, de modo algum seria capaz de fazer es­pont­aneamente.

O que ele não teve então de treinar para poder levar a carta da Cúria Ro­ma­na a Garcia! E o que não tiveram de trabalhar com ele os chamados “asses­sores de imagem” que trabalham em todos os palácios do Poder! Mas, ou assim, ou o seu lugar de “sucessor de Pedro” /César Augusto do Império Ro­ma­no, ser-lhe-ia arrebatado, da noite para o dia.

E Bento XVI, depois de tanto ter treinado, lá conseguiu um sofrível, um suficiente menos, nas suas poses estu­dadas. Mas deu para passar no teste. E, por isso, ele continua naquele pe­lou­ro da sua máxima Descriação Huma­na, como o mais infeliz dos seres huma­nos.

O título de “Sua Santidade”, com que se faz tratar pelos outros chefes de es­ta­do do mundo, é o que nos revela à sa­ciedade. O Humano, nele, morreu, no mesmo dia em que ele aceitou ser Poder eclesiástico. E morreu, sucessi­vamente, cada vez que ele aceitou tornar-se ainda mais Poder. O Papado é, por isso, o cume da sua Descriação Humana. Da sua Desumanização.

Só por ser assim, é que as multi­dões sem um pingo de consciência críti­ca e até os intelectuais não-orgânicos corre(ra)m a saudá-lo, a vê-lo de lon­ge, a bater-lhe palmas, a gritar na sua direcção, “Viva o Papa!” Foram e são sempre assim os Humilhados. Não lhes basta serem Humilhados. Ainda têm de sair ao encontro do seu Opressor, do seu Verdugo, a saudá-lo e a aplaudi-lo, sempre que ele vai de visita a uma sucursal da sua Empresa Transnacional, S. A.

 

Os conteúdos

 

Os conteúdos das homilias, lidas-ditas, monocordicamente, pelo papa, sem nunca chegar a despegar os olhos das folhas que outros escreveram para ele ler-dizer aos seus súbditos, são o que há de mais teologicamente infantil, atroz. Pior ainda, quando, às palavras lidas-ditas, o papa Bento XVI ainda teve de juntar – assim ordenava o guião da visita que ele tinha de executar – certos gestos, certos actos, certas posturas.

Em Fátima, foi o cúmulo do teolo­gicamente Perverso. Ver o ex-teólogo Ra­t­zinger, hoje papa de Roma, transfor­mado em idólatra, em Sacerdote do Deus-Ídolo, é de partir o coração. Mas foi o que nos foi dado ver. Obrigaram-no a semelhante abjec­ção e ele não se fez rogado. E foi aplaudido pelas multidões humilhadas

Tivesse surpreendido as multidões humilhadas; tivesse recusado dar corpo a semelhante Idolatria; tivesse denun­ciado perante as multidões humilhadas semelhante Idolatria, e elas, em lugar de o aplaudirem, frenética e fanatica­ment­e, teriam escarrado na sua cara de Homem, de Ser Humano Desarma­do. Mas a Boa Notícia de Deus Criador, nosso Abbá-Mãe, teria sido anunciada /visualizada. Ainda que o Mensageiro fosse, porventura, linchado pelas multi­dões fanáticas /fanatizadas.

Bento XVI esteve à altura do que dele pretendia a Cúria Romana. E do que as multidões humilhadas esperam do Papa de Roma, sucessor de César Augusto, o divino César. As ovações e os elogios foram mais do que muitos. E os lucros financeiros e de outros gé­ne­ros foram também mais que muitos.

Depois desta gigantesca Encenação eclesiástica, conseguida com a total cumplicidade do Poder Político e do Po­der Financeiro do país, mais a cumpli­cidade dos órgãos de comunicação /in­to­xicação social, a Cúria Romana po­de continuar a dormir descansada.

Não há escândalo de pedofilia cleri­cal que a afunde. Não há silêncio insti­tu­cional cúmplice com a pedofilia cleri­cal, inclusive o silêncio do ex-cardeal Ratzinger, presidente da Congregação para a Doutrina da Fé, que lhe cause qualquer rombo. Tudo é perdoado a Cé­sar de Roma. Tudo é digno de louvor e de glória. Tudo fica bem ao Vence­dor. Até os crimes mais abomináveis são virtudes heróicas. E os seus auto­res, canonizados. E postos à adoração das suas vítimas.

O que seria da Cúria Romana e dos seus cardeais, até dos seus bispos re­si­denciais, se, alguma vez, nas multi­dões despertasse um pingo de consciên­cia crítica e elas começassem a ver todo o Perverso /Hediondo Instituciona­liza­do que ela é?! E, por arrastamento, o que seria, também, dos Governos e dos Parlamentos das nações? E dos Gran­des Financeiros nacionais, euro­peus e Mundiais? Por isso, eles se en­co­brem tanto uns aos outros e se pro­tegem tanto uns aos outros.

Seria muito interessante – fica aqui a sugestão aos jornalistas profissionais com jeito para a investigação jorna­lís­tica – saber quais foram os eclesiásticos graúdos em concreto que escreve­ram as homilias e os pequenos discur­sos lidos-ditos pelo Papa em Portugal. O Núncio apostólico em Lisboa? O car­deal patriarca de Lisboa, José Poli­carpo? O Bispo de Leiria-Fátima? O Bispo Prémio Pessoa 2010, Manuel Cle­mente?

A Homilia da missa do 13 de Maio da nossa vergonha, lida-dita pelo Papa Bento XVI em Fátima é um vómito teoló­gico. Aquelas aldrabices todas, sob a forma de piedade e de devoção, postas na boca da desgraçada Jacintinha, ago­ra beatificada /idolatrada,  por um clé­rigo graúdo de Ourém, bastantes anos após a morte dela, e reproduzidas textualmente como delas, na homilia, pela boca ao vivo de Bento XVI, são o que há de teologicamente mais abjecto.

Só mesmo um fanático de toda aque­la Idolatria fatimista que nos envergo­nha e humilha a todas, todos, pode ter pensado e escrito semelhante homilia. Terá sido o cardeal José Saraiva Mar­tins, nomeado por João Paulo II, para presidir à Congregação para a Causa dos Santos, com o objectivo expresso de tornar possível a beatificação dos dois irmãos que o clero de Ourém me­teu no teatrinho que levou à cena em seis curtíssimos episódios e que, pouco tempo depois de toda aquela farsa ter terminado, vieram a sucumbir à Pneu­mó­nica, sem que a senhora de Fátima tivesse feito o milagre de os curar, nem sequer um milagre como o que eles dois, todos estes anos depois, tiveram de fazer a favor de uma tal Guilher­mina, para, assim, poderem ser beatifi­ca­dos e estarem, agora, a dar muito dinheiro a ganhar ao santuário de Fá­tima e à Cúria Romana?! Ou terá sido o Bispo de Leiria-Fátima, antigo pupilo do ex-teólogo Ratzinger e, como o seu mestre, hoje totalmente convertido à Idolatria da mítica deusa senhora de Fátima, de cujo santuário é, como se sabe, o gestor-mor?! Ou, em seu lugar e com sua supervisão pessoal, terá sido o actual Reitor do Santuário de Fátima S. A.?!

E que dizer daquela absurda fórmu­la de consagração dos Sacerdotes à mítica Deusa-Virgem-e-Mãe, que o pa­pa Bento XVI se prestou a ler-dizer, prostrado diante da respectiva ima­gem? Não é o cúmulo da Idolatria? Não diz a Teologia Jesuânica, que é apenas na Idolatria, que há Sacerdotes? Não é, de resto, o que nos revela o Ser-Vi­ver Histórico de Jesus, entre meados do ano 28 e Abril do ano 30, na Gali­leia, primeiro, e finalmente, na Judeia, concretamente, em Jerusalém? E não foram precisamente os Sacerdotes do Templo de Jerusalém que fizeram cruci­ficar Jesus na Cruz do Império de Ro­ma? E Roma, sede do Império que fa­bricava cruzes para crucificar nelas os que lhe resistissem, não é a mesma cidade onde hoje continua sedeada a Cúria Romana e o seu todo-poderoso papa, nesta data, Bento XVI, o ex-teólogo, também ela fabricadora de cru­zes que, depois, vende no seu omnipre­sente Mercado Religioso?!

 

Outros pormenores

 

E que dizer da chegada do papa ao aeroporto, em Lisboa, e da sessão oficial de boas-vindas, realizada ali mesmo? Poderia haver mais Hipocrisia Institucional que aquela que nos foi dado ver em directo nos três canais generalistas do país? Atentámos na Perversão de todo aquele cerimonial? No Cavaco Silva, presidente beato ca­tó­­lico romano, acompanhado da sua mu­lher Cavaco Silva (até o nome, ela per­deu; e, se o nome, também a identi­da­­de e a dignidade, dado que é opção dela ter perdido o nome!), a adian­tar-se no terreno, para saudar o seu ho­mó­logo chefe de Estado do Vatica­no, de resto, oficialmente, convidado por ele a visitar Portugal? Repararam no cardeal de Lisboa, mais que humilha­do (protocolo obriga!),em terceiro lu­gar, atrás de Cavaco e da sua mulher? Querem imagem eclesiástica mais con­frangedora do que esta? Dois chefes (eles assim se consideram, apesar do alerta de Jesus, para que quem quiser ser o maior faça-se o mais pequeno de todos!!!) da Igreja católica romana, o de Roma e da Igreja universal e o da capital portuguesa, ambos sozi­nhos, ambos sem mulher, que assim obriga a Lei do Celibato Eclesiástico que eles próprios não se atrevem a destruir, na companhia de um chefe de estado beato católico romano, com sua mulher, ligeiramente atrás dele (protocolo obriga!), que andou sempre por ali, ao lado dele, durante os quatro dias, como um manequim, como um mo­delo num desfile de moda, sem voz, um aborto de mulher?! Primeira-dama será. Mas o que é feito da Mulher?! E da parte do Vaticano, veio alguma mulher na comitiva? Nem uma freira- cozinheira? Mas os da Cúria do Vatica­no não são todos padrinhos da mesma Máfia eclesiástica?

 

E que dizer das multidões submis­sas, sempre relegadas para trás das centenas de clérigos, todos fardados a rigor, com fardas iguais e bacteriologicamente limpas? Todas queriam to­car o papa, mas quem lhe pode chegar, sempre protegido pelo blindado papa­móvel? Viram algo de Humano no pa­pa Bento XVI? Aquela batina branca até aos pés, de vermelho calçados, o que es­conde? Aqueles braços que mecani­ca­mente se abrem e fecham, sem nun­ca abraçarem ninguém de carne e os­so, sem um pingo de afecto, sem um momento de espontaneidade, o que revelam? Aqueles mecânicos gestos de abençoar, de dentro do blindado pa­pa­móvel, o que estão a revelar /gritar ao Mun­do? Alguma vez, Jesus, o cam­ponês-carpinteiro de Nazaré, o filho de Maria, teve posturas destas? Não fugia sistematicamente às multidões, quando elas, fanatizadas, queriam aclamá-lo “rei”, “cristo”, “messias”, um posto que ele sempre recusou, para se manter na História, a crescer na dimensão do Humano?

 

E que dizer daquele encontro dos dirigentes /patrões das IPPS’s da Igreja católica, com o papa, realizado na nova basílica de Fátima, a tal que custou 80 milhões de euros, pagos a pronto? Não teve tudo de escarro na cara dos po­bres, eternos assistidos das IPSS's, nunca promovidos por elas a sujeitos? De que adiantam os discursos a re­cla­mar dignidade para os pobres, se quem os profere vive na mais absurda das ostentações, como sucede com o pa­pa? Não são outros tantos escarros mais, na cara dos pobres? Pode-se falar dos pobres e da dignidade dos pobres, ali mesmo no coração do covil de la­drões que é a nova basílica de Fátima, disfar­çada de obra de arte? Tais falas não são outros tantos escarros mais, na cara dos pobres? Pode haver digni­dade nos pobres, se as IPSS's os man­têm assistidos por toda a vida, sem nunca despertar neles o Sujeito da sua própria libertação /dignificação?

 

E que dizer do católico beato presidente da República Portuguesa que, durante aqueles quatro dias, nunca largou o pé do papa Bento XVI nem as missas a que ele presidiu, igua­zinhas às que os párocos celebram por essas freguesias do país fora? E, sobre­tudo, que dizer do facto de, poucas horas depois de se ter despedido do papa, em mais uma cerimónia protoco­lar, tecida de Hipocrisia e de Mentira, assinou a Lei do Casamento entre pes­soas do mesmo sexo, uma lei que o seu amigo papa nem pode sequer ouvir falar? E tudo isto, depois de ainda se tentar justificar numa obscena comuni­ca­ção oficial ao País?

 

E que dizer da apertada segurança policial e militar, por terra, mar e ar, que rodeou o papa, nos quatro dias que ele permaneceu no nosso país? Um ser humano, simplesmente, como devem ser todos os seres humanos, bispos in­cluídos, mais ainda, se se re­cla­mam do no­me de Jesus, o Crucificado na Cruz do Império por decisão dos Sacerdotes do Templo, alguma vez, aceitaria ser assim recebido? O que leva a Cúria Ro­ma­na a ter tanto medo das pessoas e dos povos, cujos países o seu chefe-mor visita? O que faz ela - está a fazer - às pessoas e aos povos, para ter tanto medo delas e deles? Porque tem de ser, tudo previamente anunciado, prepara­do, programado e depois executado ao milímetro? De que horrendos crimes tem ela de se defender?! O que lhe pesa na consciência?!

 

Destaque-1, dentro do Destaque-2

OS LUCROS DE FÁTIMA

O Pe. Luciano Guerra, ao tempo ainda reitor absoluto do santuário de Fátima, deu, na década de 90 - há cerca de 20 anos - uma entrevista à RFi-Rádio França Internacional, captada na República Centro-Africana. O jornalista francês apertou com ele sobre o escândalo dos lucros de Fátima. E quis saber, com total imparcialidade, quais eram os reais lucros financeiros e o que se estava a fazer com eles, para lá da manutenção da Empresa Fátima, S. A.

O Pe. Luciano Guerra esquivou-se o mais que pôde, mas, perante a insistência, mais que legítima do jornalista, lá acabou por confessar que os lucros financeiros de Fátima não eram apenas para o santuário, nem apenas para a Igreja em Portugal. Pelo menos, 25 por cento dos lucros /ano, tinham obrigatoriamente de ser entregues à Cúria Romana.

A confissão nunca chegou a ser divulgada em Portugal. Mas que ela foi feita à RFi, foi. Só que, entretanto, os tais 25 por cento dos lucros que, há 20 anos, já tinham de ser entregues ao Vaticano, não correspondem nem por sombras à percentagem que hoje o santuário de Fátima tem de entregar.

Obviamente, só o bispo de Leiria-Fátima (e também o actual reitor do santuário?) sabe a percentagem exacta que, em 2010, tem de ser entregue ao Vaticano. Provavelmente, nem os restantes bispos de Portugal saberão. É segredo bem guardado. E, como o de qualquer Máfia, a sua violação custará a vida ao que trair o juramento de sangue.

Jornal Fraternizar desafia o Bispo de Leiria a mostrar as contas. Não as que são divulgadas à comunicação social, mas as reais. Nem que lhe custe a vida!

 

Destaque-2, dentro do Destaque-2

OS JORNALISTAS DE FÁTIMA

Foi um jornalista do extinto Século que, em Outubro de 1917 noticiou, em manchete, a toda a largura da primeira página, que o Sol bailou em Fátima. O próprio sabia que estava a propalar uma crassa Mentira. Mas os seus escrúpulos de jornalista eram nenhuns. E, se fosse preciso aparecer no Século, como enviado especial do diário a este ou àquele evento no estrangeiro, ele aparecia. Sem, entretanto, ter chegado a ausentar-se do nosso país. Antigo seminarista, prestava-se a isso e muito mais, na defesa dos interesses dos clérigos. Tal como muitos outros antigos seminaristas (felizmente, houve honrosas excepções) se prestaram à função de agentes da Pide, em cujas fileiras, gozaram da fama e do proveito de serem os mais sádicos torturadores dos presos políticos.

A Mentira fez sorrir de cumplicidade, no dia seguinte, o repórter fotográfico que acompanhou o jornalista no dia 13 de Outubro a Fátima. Nem os seus olhos, nem o olho da sua máquina fotográfica viram nenhum "Milagre do Sol". Apenas uma multidão encharcada e enlameada naqueles terrenos dos familiares das três crianças manipuladas pelo clero de Ourém. O clero, porém, agarrou-se àquela Mentira como os cães esfomeados a um osso. E invocam essa manchete do Século, como a irrefutável prova das "aparições"!!!

Todos estes anos depois do Crime, os jornalistas das tvs, rádios e jornais, enviados a reportar as grandes "peregrinações", em especial as que metem papa, mais parecem os continuadores do seu perverso camarada de profissão. Falam daquela Vergonha com enlevo e vêem na Humilhação das populações "grande manifestação de fé". Uns ignorantes. Iguais ao Marco Paulo que bem se governa!


ESPAÇO ABERTO

Editorial

Presidenciais? Só com protesto!

 

1. O nosso País chegou a uma situação insustentável. A afirmação é do primeiro responsável do nosso País que, pelos vistos, acaba de chegar a uma situação insustentável. O Presidente Cavaco só não diz que é ele o primeiro responsável por o nosso País ter chegado a uma situação insustentável. Reconhece que o País chegou a uma situação insustentável, mas esconde que é ele o primeiro responsável por isso. O Poder, todo o Poder, é, de sua natureza, mentiroso. Por acção, ou por omissão. O Poder chega, até, ao cúmulo de dizer ou de deixar subentendido, sempre que faz comunicações solenes ao País, através dos seus Presidentes de República ou dos seus Primeiros-Ministros, que as vítimas da sua Perversa Economia ensinada nas Universidades - são todas dele! - e praticada pelos respectivos Governos, são as principais culpadas por um País, no caso, o nosso, ter chegado a uma situação insustentável. E, na verdade, as vítimas são, pelo menos, co-responsáveis. Mas, só, porque são tão-tão-tão vítimas da Economia do Poder, intrinsecamente Perversa, e tão-tão-tão vítimas da Ideologia /Idolatria que a justifica /impõe; uma Economia que se alimenta de gente, para, assim, acumular /Concentrar toda a Riqueza, em cada vez menor número de mãos, que as suas vítimas já nem conseguem ver que são Verdugos /Carrascos /Algozes, todos aqueles que estão aí, cheios de Privilégios /Mordomias, a dar corpo à perversa trindade dos Poderes - o Poder Sacerdotal-Religioso, o Poder Político, Oposição incluída, e o Poder Económico-Financeiro, hoje Global. E, porque já não conseguem ver - os três Poderes, como um só, trabalham dia e noite e de forma cada vez mais científica e organizada, para as cegar e as manter cegas por toda a vida - elas chegam ao cúmulo da Degradação e da Humilhação, que é irem votar, sempre que eles, os seus Verdugos /Carrascos /Algozes, as intimam a ir votar. E elas não só vão votar, como ainda, votam neles. Inevitavelmente. Porque são eles, nunca elas, os únicos que vão a votos. São eles que, através dos meios de comunicação social, todos deles, as pressionam a ir votar. São eles que, por todos os meios - rádios, tvs, jornais, cartazes, mensagens tlm, correio electrónico, blogs, acções porta-a-porta, almoços-jantares de borla, com comícios à mistura, distribuição de esferográficas, sacos de plástico, electro-domésticos, promessas eleitorais - fazem propaganda, a mais despudorada e a mais indecorosa. Só porque querem apresentar-se, perante as vítimas, legitimados pelo voto delas, para, assim, prosseguirem como os seus Verdugos /Carrascos /Algozes. Mas legitimados! O Cinismo não pode ser maior, nem mais perverso. Mas as vítimas, de tão-tão-tão vítimas que são, estão totalmente incapazes de o ver. E onde estão Verdugos /Carrascos /Algozes, as vítimas são levadas a ver, e vêem, Amos /Padrinhos /Benfeitores. É a Perversão das Perversões. Porque Amos /Padrinhos /Benfeitores, só se diz das Máfias, as secretas, e as públicas. Mas Máfias, por igual. E as públicas, porque legais, institucionais, são ainda mais Perversas, mais Cruéis, mais Mentirosas, mais Assassinas. Produzem muito mais vítimas. Ora, Máfias legais, institucionais, são os três Poderes que, desde o início da Humanidade minimamente organizada, estão aí só para Roubar, Matar e Destruir os Povos e o Planeta Terra, hoje, em grave risco de Implosão!

 

2. Os Povos, suas vítimas, não vêem, porque os não deixam ver. A Ideologia /Idolatria, feita Ensino Público ou Privado, Catequeses paroquiais, episcopais e papais, Publicidade, Informação Direccionada, Ritos Religiosos, Futebol o dos Milhões, Mercado(s), Livros, Novelas-tv, Romances (já pensaram em todo o Perverso que está por aí a produzir, por exemplo, o último romance, Caim, de José Saramago, que transforma o Assassino Institucional e o Corrupto Institucional em Herói Institucional?!) sempre está e estará aí, a impedir que os Povos - até os próprios intelectuais dos Povos - vejam o Real. Apenas vêem a Encenação que hoje muda de cor e de aspecto, a velocidade vertiginosa. Nunca as vítimas chegam a ver o Hediondo que a Encenação esconde /encobre. Se vêem, morrem, estarrecidas. Ou, então, surpreendentemente, Nascem de Novo, Mudam de Ser-Viver-Actuar. Tornam-se Povos politicamente Incorrectos, Subversivos, Conspirativos, Desobedientes, Dissidentes, Rebeldes, Opcionalmente Pobres, Reduzidos ao Essencial, a viver na Trincheira. Conhecerão o Ódio dos Poderes, a Repressão dos Poderes, a Vingança dos Poderes. Mas, até isso, lhes servirá de Alimento. Beberão fel e vinagre. Comerão Desprezos e Ostracismos, mas nunca mais voltam a ser Vítimas, Escravos dos três Poderes que gostam de vestir de Amo /Padrinho /Benfeitor, quando, na realidade, são Máfias cheias de Mentira, de Assassínio, de Desprezo pelos Povos e pelo Planeta Terra. Até ao dia em que os três Poderes, por falta de Súbditos, sejam Lixo a arder na Geena de Fogo, o único sítio, onde os três Poderes haverão de ser lançados pelos Povos.

 

3 Embora esteja a escrever em 2010, Século XXI, Terceiro Milénio depois de Jesus - o Ser Humano que viu para lá de todo o tipo de Encenação e, por isso, passou a trabalhar, dia e noite, sábados e domingos, para abrir maieuticamente os olhos Cegos da mente aos Povos, Libertar os Povos Oprimidos, mandar em Liberdade os Povos Prisioneiros, e Proclamar o Início de um Novo Tempo, o Tempo dos Povos como únicos Protagonistas da História, nunca mais o Tempo dos três Poderes - eu sei que muito poucas pessoas entenderão este Evangelho, esta Boa Notícia. E muito menos pessoas, a acolherão. Nenhumas ou quase, a farão seu ser-viver-actuar histórico. Nem por isso, deixo de a praticar e anunciar aqui. A Jesus, o camponês-carpinteiro de Nazaré, depressa o mataram na Cruz do Império. Os três Poderes, como um só, puseram-se de acordo e logo actuaram. Só que a Morte Crucificada com que o executaram, foi, ao mesmo tempo, e sem que eles sequer suspeitassem, a sua Explosão Maior, o Momento Maior de Luz que pôs inteiramente a nu, as Máfias que os três Poderes são, por mais que vistam de Amos /Padrinhos /Benfeitores. Por mais que vistam de Sacerdotes, Cardeais, Presidentes da República, Primeiros-Ministros, Deputados, Juízes, Generais, Presidentes do Fundo Monetário Internacional, do Banco Europeu, do Banco Mundial, ou, mesmo, do Banco Alimentar Contra a Fome! Na verdade, são o que já então mostraram ser, com o que fizeram a Jesus, o Ser Humano Desarmado Maiêutico por antonomásia: Mentirosos, Ladrões, Assassinos.

 

4 Não esperem, pois, que, nas próximas Presidenciais, ou noutras eleições que se lhes seguirem, eu vote em algum deles, em algum representante deles. Também não me abstenho. Faço questão de intervir. Mas para lhes dizer o que eles são e ao que vêm: que são Mentirosos, Ladrões, Assassinos. E vêm só para Roubar, Matar e Destruir os Povos e o Planeta. Mesmo quando, hipocritamente, lhes dão uma Sopa quente, uma Esmola, um Subsídio, um Emprego. Não são fiáveis. Por mais que jurem, não são fiáveis. Nenhum deles! Quando um ser humano cai na tentação do Poder, Poeta que tenha sido, antes, Presbítero que tenha sido, antes, Bispo que tenha sido, antes, deixa de ser Ser Humano. Torna-se Poder, Agente histórico do Poder. Por isso, institucionalmente Mentiroso, Ladrão e Assassino. Votarei, sim, mas com Protesto, escrito no Boletim de Voto deles. Por mim, ninguém será Poder!

Vosso irmão e companheiro,

Mário, Presbítero da Igreja do Porto


 

Prof. Manuel Sérgio, Reitor do Instituto Piaget

O Celibato sacerdotal obrigatório:

- Um verdadeiro disparate

 

Alheio a toda a ideia nova, hostil ao que hoje se sabe o que é o sexo, crasso e mazorro: eis aí o lamentável espectáculo do marasmo em que jaz o Vaticano! “Marasmo?” Gritarão, en­tu­mecidos de escândalo e de cólera, al­guns dos meus leitores. “Marasmo, sim!” Responderei eu “Porque é ao marasmo que conduzem a ortodoxia dogmática e a sobrevivência da Inqui­sição possível no nosso tempo” – so­bre­vivência da Inquisição, que rejeita a livre, que o mesmo é dizer: respon­sá­vel, interpretação (“não há factos, há só interpretações”, disse-o Nietzs­che); que dá à mulher um tratamento retrógrado, pois que lhe proíbe a orde­nação sacerdotal; que acentua o valor da castidade, num tempo em que a li­berdade sexual é estudada, com atenção e respeito; que continua, com teimosia e capricho, a referir-se ao di­vórcio e ao aborto; e, por fim, que es­con­de a vida sexual de Jesus, com to­da a certeza um Homem que viveu, em plenitude, a condição humana. De lastimar seria que Jesus viesse ao mun­do e fizesse do sexo um platonis­mo puro. Se provou o sofrimento mais ignominioso, por que não haveria de provar, com todas as implicações éti­co-práticas, o que de mais apetecível a vida tem? É possível um magistério fiável a quem fala do que não viveu ou vive? Por que será que Jesus de Na­zaré é sempre figurado, apresenta­do, pela Igreja Católica, nostálgico e triste, parecendo sofrer as dores de es­condidos cilícios ou murmurar salmos penitenciais? Por que não o vemos res­plan­decente de alegria, flamejante de sonho, num riso desoprimido e feliz? António Alçada Baptista, no seu livro Pe­re­grinação Interior – vol. I, escreveu: “Fui criado numa família onde Deus não era um fenómeno teológico, mas psico­pá­tico”.

Eu poderia dizer o mesmo, já que os meus queridos Pais, transmontanos analfabetos, acreditavam piamente em tudo o que saía da boca de suas exce­lên­cias e eminências reverendíssimas. Por isso, frequentei o seminário (que a­ban­donei, findo o terceiro ano lectivo, para desgosto enorme de minha mãe); por isso, o pasmo assustado, que me to­mava, por tudo o que ao sexo disses­se respeito; por isso, o ter descoberto, desde jovem, o ódio ao corpo que a I­gre­ja Católica ensinava, bem expresso na pergunta da minha catequista: “Quem são os grandes inimigos da al­ma?” E eu, numa convicção imoderada, lembrando o que aprendera com ela: “O mundo, o diabo e a carne”. E a car­ne, aqui, era sinónimo de sexo. O cato­licismo balofo e declamatório de José María Escrivá, no seu livro Caminho, resume o que o Vaticano pensava a este propósito: “Acertou quem disse que a alma e o corpo são dois inimigos que não se podem separar e dois ami­gos que se não podem ver”. Transcrevo mais três pensamentos reveladores de um angelismo agressivo: “Diz ao teu cor­po: prefiro ter um escravo a sê-lo teu”. E ainda: “Trata o teu corpo com ca­ridade, mas não com mais caridade do que a que se tem com um inimigo traidor”. E por fim: “Se sabes que o teu corpo é teu inimigo e inimigo da glória de Deus, por sê-lo da tua santificação, por que o tratas com tanta brandura?”. José María Escrivá foi canonizado por João Paulo II, que o mesmo é dizer: to­do este chorrilho de asneiras ainda parece ser moda, nos salões do Vati­ca­no. Quando se diz (e eu acredito) que Bento XVI é de uma erudição inco­mum, por que não limpa a sua mensagem de Pontífice de palavras esvazia­das de dúvida e de inquirição? Por que é de um medievalismo ridículo?

Mas é no encarniçamento com que a cada passo a Igreja Católica preten­de fulminar o corpo e o sexo que é pos­sível descobrir um (um, entre vários, reconheço) dos factores que concorrem aos inúmeros casos de pedofilia que enodoam o clero católico. De facto, se somos seres sexuados, o desprezo do sexo anuncia uma próxima patologia, mais tarde ou mais cedo. O coito (quan­do nele eu respeito e me respeito, qu­an­do nele despontam aqueles valores sem os quais impossível se torna viver humanamente) é de uma necessidade inapagável, para a saúde e a felicidade de cada um de nós. Exagero? Pergun­te-se aos sexólogos de mais inque­bran­tá­vel probidade e eles dirão o mes­mo. Há excepções? É evidente que há. Por isso, são excepções! Os crimes de pedofilia que, por esse mundo a­lém, se vão descobrindo, no seio da I­gre­ja, significam que, nela, se preten­de desconhecer o desejo sexual que livremente se reconhece e educa, por­que se sabe que é tão natural e neces­sário, como qualquer outro desejo que vise o bem-estar e a felicidade! Vale a pena ler o livro Diálogos de Gilles De­leu­ze e Claire Parnet (Relógio d’Água, 2004) onde se salienta a relação inilu­dí­vel entre o prazer e o desejo. E aqui é que reside o busílis da questão: o pra­zer sexual! É que as ditaduras detes­tam o prazer! De facto, não há ditadu­ras, sem dogmas e o desejo é liberda­de, é procura, é caos criador! Não há di­taduras que não tentem fazer de cada cidadão um amorfo, um eunuco, um cas­trado. Só que o instinto irrompe, mais tarde ou mais cedo. E, assim, o ins­tinto sexual, entregue a si mesmo, não valorizado pelos imperativos cate­gó­ricos da razão, pode transformar-se, em lamentável tara ou crime. Ora, o que manifestam, acima do mais, os padres pedófilos (que são muitos)? Uma sexualidade deseducada, alienada, doente! Há pessoas com taras genéticas. A pe­dofilia não desponta apenas do âmbito eclesiástico. Mas os padres pedófilos (refiro-me a estes, unicamente) são nor­malmente fruto de uma ideologia retró­grada, assumida e vivida. O Vaticano de­ve­ria erguer, publicamente, um mea culpa, porque, através de um celibato obrigatório (e da mania de ver no sexo um pecado abominável), concorre ao surgimento de pessoas que têm do sexo uma inexperiência (ou um horror) tal, que tudo neles é sexualmente des-orien­tado, des-estruturado, des-organizado. Eu sei que o sexo é também des-razão. Mas não é só, porque na complexidade humana tudo está em tudo! Recordo a Maria Zambrano, de A metáfora do Coração e outros escritos (Assírio e Alvim, 2000, p. 50): “Quem tem unidade tem tudo”. Poderíamos cotar, neste passo, o Antero de Quental, das Causas da De­ca­dência dos Povos Peninsulares: “Pelo caminho da ignorância, da opressão (...) chega-se naturalmente, chega-se fatalmente à depravação dos costumes”.

Termino com um trecho de Herberto Helder (Photomaton & Vox, Assírio & Alvim, p. 89): “Vou contar uma história. Havia uma rapariga que era maior de um lado que do outro. Cortaram-lhe um bocado do lado maior: foi de mais. Ficou maior do lado que era dantes mais pe­que­no. Cortaram. Ficou de novo maior do lado que era primitivamente maior. Tornaram a cortar. Foram cortando e cortando. O objectivo era este: criar um ser normal. Não conseguiam. A rapariga acabou por desaparecer, de tão cortada nos dois lados. Só algumas pessoas com­preenderam”. A ideologia vigente no Va­ticano corta tanto nos seus padres... que já os matou em vida! E ainda poucos compreenderam!

E não me referi eu, nes­te artigo, à in­formação sonegada, pelo Vaticano e alguns bispos, às autori­dades judiciais, acerca dos crimes de pe­dofilia de alguns sacerdotes. É que, na realidade, a pedofilia é um crime pú­blico e o seu encobrimento obedece a uma especí­fica moldura penal. Não sei se o Papa, sim ou não, se deveria demi­tir. Mas lá que ele fica muito mal na fo­to­grafia – não há dúvidas a este respeito.

Tam­bém me parecem lasti­má­veis as palavras do cardeal José Saraiva Martins, pedindo para não fi­carmos escandalizados “se alguns bis­pos sabiam e mantiveram o segredo (...). Ninguém gosta de lavar a roupa suja, em público”. Eu não sabia, fran­ca­men­te, que o conceito de moral no Vaticano se situava, de modo tão nítido, no rés-do-chão do pensamento. Como afinal o celibato sacerdotal obrigatório que, porque definitivo, imobilizado e in­to­lerante – é um verdadeiro dispara­te! Não se trata a natureza humana de forma autoritária e formalista! Em­bo­ra reconheça que, quando a base da mo­ral é o dogma, a religião é mais uma for­ma de manipulação...

 


 

Frei Betto, Teólogo (1)

Grito da Terra, Clamor dos Povos

 

Os gregos antigos já haviam per­ce­bido: Gaia, a Terra, é um organismo vivo. E dela somos frutos, gerados em 13 mil e 700 milhões de anos de evolução. Porém, nos últimos 200 anos, não soubemos cuidar dela e a transfor­mamos em mercadoria, da qual se procura obter o máximo de lucro.

Hoje, a Terra perdeu 30% de sua capacidade de autorregeneração. Somente através de intervenção huma­na, ela poderá ser recuperada. Nada indica, contudo, que os governantes das nações mais ricas estejam consci­entes disso. Tanto que sabotaram a Con­ferência Ecológica de Copenha­gue, em dezembro de 2009.

A Terra, que deve possuir alguma forma de inteligência, decidiu expres­sar seu grito de dor através do vulcão da Islândia, exalando a fumaça tóxica que impediu o tráfego aéreo na Euro­pa Ocidental, causando prejuízo de US$ 1,7 bilhão.

Em reação ao fracasso de Cope­nha­gue, Evo Morales, presidente da Bolívia, convocou, para os dias 19 a 23 de abril passado, a Conferência Mun­dial dos Povos sobre a Mudança Climática e os Direitos da Mãe Terra. Es­pe­ra­vam-se duas mil pessoas. Che­ga­ram 30 mil, provenientes de 129 paí­ses! O sistema hoteleiro da cidade en­trou em colapso, muitos tiveram de se abrigar em quartéis.

A Bolívia é um caso singular no ce­nário mundial. Com 9 milhões de habi­tantes, é o único país plurinacional, plu­ri­cultural e pluriespiritual governado por indígenas. Aymaras e quéchuas têm com a natureza uma relação de alteri­dade e complementaridade. Olham-na como Pachamama, a Mãe Terra, e o Pai Cosmos.

Líderes indígenas e de movimentos sociais, especialistas em meio ambiente e dirigentes políticos, ao expressar o clamor dos povos, concluíram que a vida no Planeta não tem salvação, se perseverar essa mentalidade produti­vista-consumista que degrada a nature­za. Inútil falar em mudança do clima, se não houver mudança de sistema. O capitalismo é ontologicamente incompa­tível com o equilíbrio ecológico.

Todas as conferências no evento en­fatizaram a importância do aprender com os povos indígenas, originários, o sumak kawsay, expressão quéchua que significa “vida em plenitude”. É preciso criar “outros mundos possíveis” onde se possa viver, não motivado pelo mito do progresso infindável, e sim com ple­na felicidade, em comunhão consigo, com os semelhantes, com a natureza e com Deus.

Hoje, todas as formas de vida no Pla­neta estão ameaçadas, inclusive a humana (2/3 da população mundial so­bre­vivem abaixo da linha da pobreza) e a própria Terra. Evitar a antecipação do Apocalipse exige questionar os mitos da modernidade - como mercado, de­senvolvimento, Estado uninacional - to­dos baseados na razão instrumental.

A conferência de Cochabamba deci­diu pela criação de um Tribunal Interna­cio­nal de Justiça Climática, capaz de pe­nalizar governos e empresas vilões, responsáveis pela catástrofe ambiental. Cresce em todo o mundo o número de mi­grantes por razões climáticas. É preci­so, pois, conhecer e combater as cau­sas estruturais do aquecimento global.

Urge desmercantilizar a vida, a á­gua, as florestas, e respeitar os direitos da Mãe Terra, libertando-a da insaci­ável cobiça do deus Mercado e das razões de Estado (como é o caso da hi­dre­léctrica de Belo Monte, no Xingu).

Os povos originários sempre foram encarados por nós, cara-pálidas, como inimigos do progresso. Ora, é a nossa concepção de desenvolvimento que se opõe a eles, e ignora a sabedoria de quem faz do necessário o suficiente e jamais impede a reprodução das espé­cies vivas. Temos muito a aprender com aqueles que possuem outros paradi­gmas, outras formas de conhecimento, respeitam a diversidade de cosmovi­sões, sabem integrar o humano e a na­tureza, e praticam a ética da solidarie­dade.

Cochabamba é, agora, a Capital Eco­lógica Mundial. Sugeri ao presidente Evo Morales reeditar a conferência, a exemplo do Fórum Social Mundial, porém mantendo-a sempre na Bolívia, onde se desenrola um processo social e político genuíno, singular, em condi­ções de sinalizar alternativas à actual crise da civilização hegemónica. O próximo evento ficou marcado para 2011.

Pena que o governo brasileiro não tenha dado a devida importância ao evento, nem enviado qualquer repre­sen­tan­te. A excepção foi o deputado federal Chico Alencar (PSOL-RJ), que representou a Câmara dos Deputados.

Copyright 2010 – FREI BETTO - É proibida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, electró­nico ou impresso, sem autorização. Con­tacto – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)

 

Frei Betto,Teólogo (2)

Olho que me olha

 

Imagine uma prisão redonda como o estádio do Maracanã. Há vários an­dares de celas. Nenhuma possui porta, de modo que um único carcereiro, situado na guarita no centro da constru­ção circular, controla sozinho o movi­mento de centenas de prisioneiros.

Este o modelo panótico de Ben­tham, descrito por Michel Foucault, em Vigiar e Punir. Muitas penitenciárias o adoptaram. Tive oportunidade de vi­sitar uma delas, na Ilha da Juventude, em Cuba, construída antes de Revolu­ção e, hoje, desativada.

Vivemos agora numa sociedade pa­nótica. Em qualquer lugar que nos en­contramos, um olho nos vê. Somos vis­tos; quase nunca vemos quem nos vê. Não me refiro apenas às câmeras dis­cre­tas ou ocultas em ruas e prédios, ele­vadores e lojas. O mais poderoso olho é a TV, exactamente esse apare­lho que julgamos decidir quando e o que veremos.

Ligamos a TV motivados por seu olho invisível; ele suscita em nós essa atitude. Antes de a emissora colocar no ar uma peça publicitária ou um programa, vários testes são realizados, de modo a assegurar ao anunciante ou pa­tro­cinador o êxito de audiência. Conhe­ce-se o olhar alheio através de exausti­vas pesquisas de opinião.

Isso influi inclusive na (des)qualida­de da arte. Agora, o artista não cria a par­tir de sua subjetividade e imagina­ção. Antes, procura satisfazer o olhar do público. Ele se olha pelo olho do con­sumidor de sua obra. Sua fonte de inspiração não reside na ousadia de romper e ultrapassar a linguagem estéti­ca que o precede, de expressar os anjos e demónios que lhe povoam a al­ma, e sim na vontade de agradar o público, criar um mercado de con­su­mo para a sua obra, ainda que à custa de banalizar o próprio talento. O olho pro­missor do mercado confi­gu­ra seu olhar no ato criativo.

Todo esse processo foi expressi­va­­mente tratado em obras como 1984, de George Orwell (1949), e Fahrenheit 451, de Ray Bradbury (1953), filmado em 1966 por François Truffaut. O fenómeno actual mais expressivo é o Big Brother, que promove arrebanhamento dos te­les­pectadores, faz todos se sentirem ir­mãos, igualizados pela imbecilidade voy­eurista de observar o ritual canibali­zador que ocorre no interior da casa.

Induzidos por esse sentimento ego­gregário, perdemos a singularidade. O olho do Grande Irmão nos olha perem­pto­riamente e nos exige um comportamento de rebanho humano.

Outrora havia uma economia de bens materiais institucionalmente sepa­rada de uma economia de bens espiri­tuais. Desses últimos cuidavam padres e pastores, intelectuais e professores, artistas e escritores.

Agora, a indústria de entretenimento se encarrega da produção de bens es­pi­rituais, integrando-nos na família tele­visual. O avatar nos chega pela janela electrónica. Os novos bens espirituais já não imprimem sentido altruísta às nossas vidas, e sim motivações egóticas de acesso ao mercado de produtos su­pér­fluos, fama, beleza e riqueza. Somos impelidos a consumir, não a reflectir. Sem­pre mais acríticos, nos tornamos ven­tríloquos manipulados pela ideolo­gia midiática que repudia a solidarie­dade e exalta a competitivi­dade.

Em A doce vida, filme de Fellini, a última cena mostra o fim da noite boémia de gente da alta burguesia. Cami­nham todos, tropegamente, por um bosque em direção ao mar. Ao chegar à praia, a ébria alegria se cho­ca com o imenso olho inerte de um monstro ma­rinho (uma imensa água-viva) que os pescadores arrastam ru­mo à areia.

O olho olha aquela gente e gera an­gústia e medo, como se a despisse de sua falsa alegria e a interpelasse no fundo da alma.

É este olho crítico que tanto teme­mos. E quando ele emerge, os oráculos do sistema neoliberal tratam de tentar cegá-lo e afundá-lo. Ele ameaça porque funciona como espelho no qual o nosso olhar reverbera e olha a medio­cridade na qual estamos atolados, movi­dos como rebanho pelo Grande Imã – o entretenimento televisivo centrado do estímulo ao consumismo.

 

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L. Boff, Teólogo (1)

O Universo num ano cósmico

 

Todos estamos angustiados com as crises pelas quais passa a Mãe Terra e a vida humana. E temos boas razões para tanto, pois estamos nos confron­tando com um futuro que pode ser de vida ou de morte. Para vermos melhor a situação, temos que ganhar um pouco de distância. Vamos comprimir os mais de 13 mil milhões de anos de existência do universo num único ano cósmico. Va­mos ver como, ao longo dos meses, foram surgindo todos os seres até os últimos segundos do último minuto do último dia do ano. Vejamos como fica o cenário que um cosmólogo amigo me ajudou a calcular.

A primeiro de janeiro, ocorreu a Grande Explosão (o big bang).

A primei­ro de março, surgiram as grandes es­trelas vermelhas que depois explodiram e, de seus elementos, lança­dos em to­das as direcções, formou-se o actual universo.

A 8 de maio, surgiu a Via Láctea, uma entre cem mil milhões.

A 9 setembro, nasceu o Sol, o centro de nosso sistema.

A 1 de outubro, nasceu a Terra, o terceiro planeta do Sol.

A 29 de outubro, irrompeu a vida no seio de um oceano primevo.

A 21 de dezembro, surgiram os peixes.

A 28 de dezembro às 8.00 horas, vieram os mamíferos.

A 28 de dezembro às 18,00 horas, voaram os pássaros.

A 31 de dezembro às 17.00 horas, nasceram nossos antepassados pre-humanos, os antropóides.

A 31 de dezembro às 22.00 horas entra em cena o ser humano primitivo, o australo-piteco.

A 31 de dezembro às 23 horas, 58 minutos e 10 segundos, surgiu o ser hu­mano de hoje, chamado de sapiens-sapiens, portador de consciência reflexa.

A 31 de dezembro às 23.00 horas, 59 minutos e 6 segundos, nasceu Jesus [Crucificado em Abril do ano 30, com 34-35 anos de idade].

A 31 de dezembro às 23.00 horas 59 minutos e 59,02 segundos, Pedro Alvares Cabral chegou ao Brasil.

A 31 de dezembro às 23.00 horas e 59 minutos e 59,03 segundos, a Eu­ro­pa começou a ser uma sociedade in­dustrial e a expandir seu poder, explorando o mundo e criando o actual fosso entre ricos e pobres.

A 31 de dezembro às 23 horas, 59 minutos e 59,54 segundos, fez-se a Independência do Brasil.

A 31 de dezembro às 23 horas, 59 minutos e 59,56 segundos (a par­tir de 1950) o ritmo da exploração e devastação ecológica acelerou-se dramaticamente.

A 31 de dezembro, às 23 horas, 59 minutos e 59,58 segundos, Lula foi eleito Presidente, um operário no poder. Pouco depois, constatou-se o perigoso aquecimento global que po­de ameaçar o futuro da civilização.

A 31 de dezembro às 23 horas, 59 minutos e 59,59 segundos, viemos nós ao mundo.

 

O sentido desta leitura é desban­car o antropocentrismo, quer dizer, aquela visão que empresta valor in­trín­se­co somente ao ser humano e tu­do o mais é colocado a seu serviço. A história do universo mostra que não é bem assim. O ser humano é um dos últimos seres a surgir e insere-se no mo­vimento geral do cosmos. Mas pos­sui uma singularidade: só ele sabe cons­cien­temente desta história e seu lugar no tempo. E sente-se responsável pelo curso bom ou desastroso da Terra.

O tempo humano é mais curto que um leve suspiro de criança. Mesmo as­sim, surge em nós um sentimento de gra­tidão para com o universo que organi­zou todas as coisas, de tal forma que nós pudéssemos agora estar aqui para pensar e admirar estas maravilhas, chei­os de respeito e de reverência.

E não estamos sozinhos. O universo deu-nos tantos companheiros e compa­nheiras que são as estrelas, os animais, as plantas, os pássaros e os seres hu­ma­nos, todos formados pelos mesmos elementos cósmicos. Somos um grande Todo.

Esse Todo terrestre não pode acabar miseravelmente pela nossa irresponsa­bilidade. Vamos superar a crise e conti­nuar a viver e a brilhar, pois nosso ber­ço está nas estrelas.

 

L. Boff, Teólogo (2)

Duas cosmologias em conflito

 

O prémio Nobel em economia, Jo­seph Stiglitz, disse recentemente: ”O le­gado da crise ecómico-financeira será um grande debate de ideias sobre o futuro da Terra”. Concordo plenamente com ele. Vejo que o grande debate será em torno das duas cosmologias pre­sen­tes e em conflito no cenário da história.

Por cosmologia, entendemos uma visão do mundo - cosmovisão - que sub­jaz às ideias, às práticas, aos hábi­tos e aos sonhos de uma sociedade. Cada cultura possui sua respectiva cosmologia. Por ela se procura explicar a origem, a evolução e o propósito do uni­verso e definir o lugar do ser huma­no dentro dele.

A nossa actual, é a cosmologia da conquista, da dominação e da explora­ção do mundo, em vista do progresso e do crescimento ilimitado. Caracteriza-se por ser mecanicista, determinística, atomística e reducionista. Por força des­ta cosmovisão, criaram-se inegáveis benefícios para a vida humana, mas tam­bém contradições perversas como o facto de que 20% da população mun­dial controlar e consumir 80% de todos os recursos naturais, gerando um fosso entre ricos e pobres, como jamais houve na história. Metade das grandes flores­tas foram destruídas, 65% das terras agricultáveis, perdidas, cerca de 5 mil es­pécies de seres vivos, anualmente de­sa­parecidas e mais mil agentes quí­mi­cos sintéticos, a maioria tóxicos, lan­ça­dos no solo, no ar e nas águas. Cons­truiram-se armas de destruição em mas­sa, capazes de eliminar toda vida humana. O efeito final é o desequilíbrio do sistema-Terra que se expressa pelo aquecimento global. Com os gases já acumulados, até 2035 fatalmente se chegará a 2 graus Celsius, e se nada for feito, segundo certas previsões, se­rão, no final do século, 4 ou 5 graus, o que tornará a vida, assim como a co­nhe­cemos hoje, praticamente impossí­vel.

A predominância dos interesses económicos, especialmente especulati­vos, capazes de reduzirem paises à mais brutal miséria e o consumismo trivializaram nossa percepção do risco, sob o qual vivemos e conspiram contra qualquer mudança de rumo.

 

Em contraposição, está compare­cen­do, cada vez mais forte, uma cos­mo­logia alternativa e potencialmente salvadora. Ela já tem mais de um sé­culo de elaboração e ganhou sua me­lhor expressão na Carta da Terra. De­riva-se das ciências do universo, da Terra e da vida. Situa a nossa realida­de dentro da cosmogénese, aquele imenso processo de evolução que se iniciou, a partir do big bang. O universo está continuamente se expandindo, se auto-organizando e se autocriando. Seu estado natural é a evolução e não a es­­ta­bilidade, a transformação e a ada­ptabilidade e não a imutabilidade e a permanência. Nele, tudo é relação em redes e nada existe fora desta relação. Por isso todos os seres são interdepen­dentes e colaboram entre si para co-evoluirem e garantirem o equilíbrio de todos os factores. Por detrás de todos os seres, actua a Energia de fundo que deu origem e anima o universo e faz sur­gir emergências novas. A mais es­pe­ctacular delas é a Terra viva e nós hu­manos, como a porção consciente e inteligente dela e com a missão de cuidar dela.

 

Vivemos tempos de urgência. O conjunto das crises actuais está cri­ando uma espiral de necessidades de mudanças que, não sendo implementa­das, nos conduzirão fatalmente ao caos colectivo e que, assumidas, nos pode­rão elevar a um patamar mais alto de ci­vilização.

É neste momento que a no­va cos­mo­logia se revela inspiradora. Ao invés de dominar a natureza, coloca-nos no seio dela em profunda sintonia e siner­gia. Ao invés de uma globalização nive­la­dora das diferenças, sugere-nos o bio­regionalismo que valoriza as dife­renças.

Este modelo procura construir soci­e­da­des autosustentáveis dentro das potencialidades e dos limites das biore­giões, baseadas na ecologia, na cultura local e na participação das populações, respeitando a natureza e buscando o “bem viver” que é a harmonia entre to­dos e com a mãe Terra.

 

O que caracteriza esta nova cosmo­logia é o cuidado, no lugar da domina­ção, o reconhecimento do valor intrín­se­co de cada ser e não sua mera utilização humana, o respeito por toda a vida e os direitos e a dignidade da na­tu­reza, e não sua exploração.

A força desta cosmologia reside no facto de estar mais de acordo com as reais necessidades humanas e com a lógica do próprio universo. Se optar­mos por ela, criar-se-á a oportunidade de uma civilização planetária, na qual o cuidado, a cooperação, o amor, o res­peito, a alegria e espiritualidade ganharão centralidade. Será a grande vi­ra­gem salvadora que urgentemen­te precisamos.


 

OUTRAS CARTAS

Meus amigos e irmãos Padres

 

E-mail. J. Ângelo: Meus Amigos e Ir­mãos Padres. Escreve um leigo-laico que, hoje, se sente um beato à solta. Sem igreja e sem comuni­dade, uma vez que, nem sempre esta o compreendeu e, por esse motivo, pô-lo a andar. Foi, ape­sar de tudo, uma aprendizagem e uma experiência fora do redil da obediência e da falsa fidelidade. Digo, muito aprendi. E a minha fé em Jesus, hoje, é muito mais viva e mais sã, porque me não reconheço no papa, nos bispos, nem nos sacerdotes. Para viver o Evangelho, não preciso desses apêndices. Podem ser o que forem, eu continuo a acreditar que Jesus é o meu Único e Verdadeiro Paradigma. E eu estou à solta como Ele esteve e está.

Não preciso de andar atrás de andores da Virgem Peregrina, a calcorrear as ruas do Funchal e as freguesias da Madeira, só porque aparece um bispo, cónegos e padres que arrastam todo um povo para a contemplação de uma estátua e esquece-se de ir ao âmago de toda a vivência cristâ: O Evangelho do Senhor Jesus. Só Ele é Verdadeiro. Só Ele é  o que, vós Amigos Sacerdotes, deveríeis  servir. E não à estátua peregrina, que, em minha opinião, nada nos diz, nem nos transforma. Só os lencinhos brancos, tercinhos, benzeduras, uns "adeus" lancinantes que ostentam, de certa maneira, mais do que adesão ao Senhor Jesus, uma efervescência mariana de grande sofrimento e obscurantismo. O que foi Nossa Senhora? Mãe de Jesus. Prefiro Maria Madalena. Esta esteve, desde a primeira hora, ao lado do seu Amado. São os Evangelhos que no-los dizem. Não sou eu, porque nada sei. Não sou teólogo.

Apesar de tudo, Maria, Mãe de Jesus, sim. Amo-a como fosse minha mãe biológica. Mas esta que anda por aí, nem vê-la. É a antítese do que quis Jesus. E, vós, Sacerdotes, deveríeis andar com Ele. Anunciadores de um DEUS Verdadeiro, Cósmico e Universalista. O DEUS do Amor, respeitador de tudo aquilo que é Humano, Natural.

O Mundo de hoje aceita as Religiões, como artífices da PAZ e de estarmos saudavelmente na Nossa Casa Comum: A Terra. Da convivência do Homem e da Mulher com a Natureza, com o Meio Ambiente. Por mais alegórico que seja, mas linda é a passagem bíblica do Livro do Génesis. Porque, vós Sacerdotes, não explicais isso nas vossas Paróquias, de modo a amarmos mais a Terra, os Humanos e a Natureza, do que o próprio DEUS? Porque é isto que Ele quer. Mulheres e Homens Felizes, Alegres e promissores de uma nova Humanidade. Foi para isto que Jesus anunciou o Projecto do seu nosso PAI.

 

E-mail. M. Tiago: Querido Padre Mário! Espero que ainda esteja lembrado de mim. Pois lembro-me de si todos os dias, quando leio e estudo os seus livros, ou quando preparamos nossas celebrações e compromissos. Estamos mais firmes do que nunca, apesar de algumas derrotas (que maieuticamente chamaríamos de vitórias): perdemos nossa pequena sede, caluniaram nossas lutas, falsificaram nosso pequeno jornal... tudo isso fizeram... pessoas concretas com interesses concretos. Mas nossa fe continua. Mês de abril, fizemos algo muito bonito. E que novamente queria partilhar. Digitámos alguns textos seus e fizemos cópias. E estamos distribuindo em várias paróquias. O resultado: umas vinte pessoas já foram conhecer nossa comunidade. Queriam saber mais dos seus textos. E lhes apresentamos nossa pequena biblioteca. E já soubemos de duas paróquias que querem imitar nossa ideia de estudar seus textos. E já indiquei, logo, um primeiro livro para estudo: Nem Adão e Eva, nem pecado original.Um senhor adorou ler o livro e já pediu que indicássemos seu site. O que prontamente fizemos... Outro ponto importante: Nossas pequenas comunidades, aquelas mesmas que se reúnem para discutir seus problemas, decidiram que cada uma delas teria um nome de algum profeta, vivo ou morto, que gostaria de imitar em sua prática. Assim, surgiram as comunidades Dom Óscar Romero, Dom Pedro Casaldáliga, etc... E qual não foi a nossa surpresa, quando uma comunidade dos catadores de papel decidiu que gostaria de ser chamada pelo nome daquele padre corajoso que escreve os textos que estamos estudando. E, poeticamente, deram a si mesmo esse nome: "Padre Mário de Oliveira, profeta do outro lado do mar”. Saiba então, Padre Mário, que dás nome a uma comunidade de irmãos catadores de papel que, na sua pobreza e inspirados pelo “O outro Evangelho Segundo Jesus”, decidiu partilhar seus poucos recursos com outros irmãos catadores. E me emocionei, quando um dos catadores falou : “Agora temos uma responsabilidade: honrar o nome deste nosso irmão com nossas acções!” Não é de chorar de alegria? Fique na Paz de Jesus. Que nós aqui também estamos nela! Um beijo fraterno.

 

N.D.

Mas, querido M. Tiago, o que lhe posso dizer? O emocionado, eucarístico e maiêutico silêncio, perante toda esta, de todo inesperada, Boa Notícia que aqui compartilha, não é a mais fecunda e a mais apropriada Palavra? Não é assim o Silêncio infinitamente Maiêutico de Deus Criador, nosso Abbá-Mãe? Pois, então, fiquemos todos – o M. Tiago /as Comunidades que, através do M. Tiago, já escutam o Evangelho-Jesus Século XXI que, como presbítero da Igreja do Porto, me cumpre anunciar, oportuna e inoportunamente, com destaque para a Comunidade dos Catadores de papel, e eu próprio – em emocionado, eucarístico e maiêutico silêncio! Sempre abraçado, na prossecução da mesma Missão de Jesus. Seu, Mário

 

E-Mail. Testemunhas de Jeová:

Padre Mário, está na altura de se converter o quanto antes, pois Jesus Cristo está prestes a chegar e vai Limpar a terra para instaurar o seu Reinado.Jesus Cristo vai matar os ímpios até aqueles que se dizem que são da nossa congregação, pois Jesus sabe quem é bom e quem é mau!Finalmente vamos poder ver Jesus Cristo ao vivo tocar-lhe,falar com Ele,só é pena que Jesus tenha que destruir os maus mas tem que ser, para termos uma sociedade Limpa. Padre Mário, nós Testemunhas de Jeová lemos só um último capitulo seu de um livro que você lançou “QUANDO A FÉ MOVE MONTANHAS” e nesse último capitulo dizia que Jesus não voltaria nunca, mas nós temos a certeza absoluta que já estudou mais e que se enganou, e que agora acredita na sua chegada não estamos correctas? Converta-se, pedimos-lhe porque queremos que você também venha partilhar e ver com os seu olhos Jesus em carne e osso, e falar ao vivo também.

 

N.D.

Pois que lhes faça bom proveito, Testemunhas de Jeová. Por mim, dispenso semelhante companhia assassina. Só se eu fosse sádico, é que poderia sentir-me bem junto de um Jesus-Cristo assim, como pelos jeitos é o vosso. Mais uma vez lhes digo: que lhes faça bom proveito. Mas cuidado: se gostam assim tanto de um Jesus-Cristo, tão assassino, é porque assassinos, também sereis, Vós, testemunhas de Jeová. Mas que demência vai por esse Vosso universo! Vosso, Mário

 

E-mail. Joaquim (1): Há uns tempos que recebo estes vídeos que não admiro, sou franco, mas o que mais choca é o Sr. falar de Jesus com essa boina na cabeça. Por educação e como cristão, sempre me descubro, quando falo de Jesus Cristo e o que eu faço é o que sempre vejo fazer a todo o homem que respeita Deus.

 

N.D.

Olá, Joaquim. Não sei quem lhe está a enviar esses vídeos. Eu não sou. E fico deveras surpreendido. O que vê na minha cabeça, não é “boina”. É um boné. Surpreende-me que esta minha postura o choque assim tanto, ao ponto de me escrever a censurar o meu vestir. Já alguma vez escreveu ao Bispo ou ao ao papa a censurá-los por eles, em plena liturgia, nas catedrais e outros templos, usarem aquelas mitras com pérolas preciosas e aqueles solideuns vermelhos na cabeça? E aqueles báculos de luxo na mão?! A mim, o que me choca é que o Joaquim me fale desse pormenor do meu singelo vestir e não diga uma única palavra sobre o conteúdo do que eu, assim singelamente vestido, estou a CONVERSAR com as pessoas, via youtube, sobre Jesus Século XXI. Seu, Mário

 

Joaquim (2): Já sabia + ou - o que o Sr. iria responder, menos a dife­rença de boina ou boné!... Quanto ao resto, nem podia esperar outra coisa, sempre a mesma aversão/ódio a tudo que seja hierarquia; até sou levado a pensar que os seus grandes conflitos, nos anos 70, com a Igreja e o exército, onde me sinto honrado ter servido, foi tudo uma questão de hierarquia, ninguém podia nem pode ter uma patente superior à sua. Seja franco, é esse ou não o grande problema que o atormenta? Pois é a vida. Mas é como diz o povo na sua sabedoria “manda quem pode e obedece que deve”. Eu pessoalmente tanto me sinto honrado quando mando, como quando obedeço, só tento ser fiel onde estiver e procurar entender o que Deus quer de mim com muita humildade. Boa noite

 

N.D.

Digo-lhe, Joaquim, nunca o julguei capaz de congeminar semelhante coisa a meu respeito!... Ora, como, no sábio dizer de Jesus, só o que sai do coração /da mente de cada ser humano é que o pode tornar puro ou impuro, como andará então o seu coração /a sua mente, para ser capaz de congeminar semelhante coisa a meu respeito, ao mesmo tempo que, já a seu respeito, escreve: “Eu pessoalmente tanto me sinto honrado, quando mando, como quando obedeço, só tento ser fiel onde estiver e procurar entender o que Deus quer de mim com muita humildade.” ?!

Com afecto e preocupação, Mário

 

E-mail. Pe. A.V.

Deus te dê juízo.

 

N.D.

Olá, meu irmão Presbítero. Bem sabes que Ele já mo deu! Desde que me concebeu no ventre de minha mãe. E como eu canto e danço esta vida-com-juízo que Ele me deu! Teu, Mário


 

DOCUMENTO

Da Revista PÚBLICA, edição de domingo, 9 de Maio, do PÚBLICO, com a devida vénia

O maior pecado dos Papas é a ânsia do Poder. Não o sexo!

 

"Entre o Reino de Deus e o Poder Terreno". É o título de um livro apresentado, poucos dias antes da chegada do Papa a Portugal, em Lisboa, pelo próprio Autor, o sacerdote historiador, Gaboa Gallego, de Espanha. Na impossibilidade de ter estado presente, Jornal Fraternizar divulga, com a devida vénia, a memorável reportagem que a jornalista do PÚBLICO, Margarida Santos Lopes, assina na Revista PÚBLICA, de domingo 9 de Maio, passado. As referências a casos mais que escabrosos, em todas as dimensões do ser-viver dos Papas, entre os finais do Século IX e o Século XV, são de fazer arrepiar /vomitar as pessoas mais insensíveis. Bastantes desses casos são aqui sumariamente relatados. O Autor não é um perigoso "inimigo da Igreja", apostado em denegrir a Instituição. Longe disso. Se o Jornal Fraternizar chegou a hesitar em divulgar nas suas páginas esta Reportagem é, precisamente, pelo tom fortemente Moralista Imoral, objectivamente, Obsceno e Hediondo, em que são especialistas os auto-designados Sacerdotes católicos. Também este sacerdote historiador. Foram ordenados Presbíteros, mas, depois, sem audácia para se assumirem como tal na Sociedade, na peugada de Jesus - é Missão de alto risco! - transmutam-se (quase) todos em Sacerdotes, cheios de tiques religiosos, a viver do Templo e do Altar e para o Templo e o Altar, numa actividade religiosa, mentirosamente dita "Pastoral". O seu zelo mede-se pelo Dinheiro que arrecadam. São tão mercenários, que até "o Corpo e o Sangue de Cristo" vendem, nas Missas da sua Idolatria! Atenção! É leitura para pessoas adultas com sérias reservas. Tirem as vossas conclusões.

 

Os casos de pedofilia no clero não são o único escândalo sexual que abalou a Igreja Católica, nos seus 20 séculos. Na Roma imperial, houve Papas polígamos, adúlteros e incestuosos. Uma diferença entre o passado e o presente, reconhece o sacerdote e historiador Gaboa Gal­le­go, é que então a imoralidade não era ocultada.

 

José María Laboa Gallego, biógrafo dos 268 Papas dos últimos 20 séculos, não dá resposta à sua própria pergunta: a Igreja Católica teria menos pecadores, se o pescador Simão, que Jesus chamou Pe­dro e encarregou de dirigir a primeira comunidade de cristãos, tivesse ficado em Jerusalém e não fosse, acompanhado da sua mulher, evangelizar Roma?

Simão/Pedro era um homem casado, que vivia em Cafarnaum e pescava no la­go de Tiberíades, na Galileia. “Não era um intelectual, não era sacerdote nem so­nhava ser sacerdote”, diz-nos o padre e académico Laboa Gallego, a propósito da primeira figura da sua História dos Pa­pas, intitulada Entre o Reino de Deus e o Poder Terreno (ed. Es­fera dos Livros), que veio apresentar em Lisboa.

“Vamos imaginar que Pedro permane­cia em Jerusalém e que os Papas viviam em Jerusalém. Seria a Igreja diferente? A realidade é que, para o bem e para o mal, em Roma estava o poder. Estava uma maneira própria de governar de impera­dores e famílias políticas. Essa maneira de governar era muito pecaminosa.”

”Quem são os que ficaram em Jerusa­lém? Os pobres, os cristãos palestinianos, os perseguidos, os que estão constante­men­te sob pressão de outras religiões”, diz Gallego, que nasceu em San Sebastián, no Norte de Espanha, mas durante 12 anos viveu e ensinou na Universidade de Ro­ma e, há quatro décadas, estuda a ci­dade e os seus Papas. “É como se a coroa de espinhos, o sofrimento de Cristo, tives­se ficado em Jerusalém, enquanto a tiara, glória e poder da Igreja ficaram em Roma.”

”Não saberemos se a história seria diferente em Jerusalém”, admite. “Cer­to é que a Igreja dos três primeiros sé­culos, a das perseguições, é uma igreja muito pobre, muito mais simples, mais ca­ritativa. Porque tem um maior sentido de comunidade. Nos primeiros três sé­cu­los, os cristãos são perseguidos [Pe­dro é martirizado em Roma] mas de­pois, quando eles próprios perseguem os pagãos, já estão a copiar o Império Romano. As dioceses já eram provín­cias romanas, antes de pertencerem aos bispos. Jesus tem uma frase muito poderosa: “Não deveis agir como o res­to do mundo.” Isto é, com poder, com ambição. Mas esta é uma tentação de todos os [humanos, sem excepção dos] cristãos. Não apenas dos Papas. Em Jerusalém, era mais difícil essa tenta­ção. Em Roma, era muito mais fácil, porque os Papas eram, de certo modo, os herdeiros dos imperadores. Isso ajuda a explicar que haja vários Papas indignos.”

 

João XII, o libertino

Recuemos então à primeira parte do século X, a uma época caracterizada por Juan María Laboa Gallego como de “revoltas permanentes, intrigas e violência crónica”, com repercussões directas na “dignidade da Igreja”. É neste tempo, em que Teofilacto, admi­nis­trador e controlador das finanças do pontificado, cônsul e comandante de milícia, domina a vida política de Roma, através da sua mulher, Teodora, e das filhas Marózia e Teodora II, que apa­rece “um dos piores Papas”: Octaviano ou João XII (955-964).

”O papado foi o joguete e o instru­mento das paixões de três mulheres in­trigantes e descaradas que profana­ram ainda mais o significado religioso do pontificado, não tanto pela sua obs­ce­nidade, ou porque o transformassem num bordel, mas porque o converteram em algo insignificante”, reprova Galle­go. A cortesã Marózia foi amante do Papa Sérgio III (904-911), “uma perso­na­gem anódina, mesmo cruel e sangui­nária, ao ponto de assassinar os seus dois predecessores”. Foi também Maró­zia, ostentando o “título inédito de se­na­dora e patrícia”, que mandou prender e matar (asfixiado com uma almofada) o Papa João X (914-928), por descon­fiar que ele queria libertar-se da tutela da poderosa família Túsculo.

Outra “criatura” de Marózia terá si­do Estêvão VII (928-931), aparente­men­te, também assassinado. Gallego nota que a passagem deste pelo trono “teve tão escassa relevância que al­guns historiadores da sua época nem sequer o citam, passando directamente de João X para João XI. Este, cujo pon­tificado durou de 931 a 935, era filho de Marózia e de Sérgio III. Sérgio III foi Papa aos 20 anos, por exigência da mãe, cujo terceiro casamento (com Hugo, rei de Itália) ele próprio cele­brou.

Hugo ousou criticar publicamente Alberico, filho do primeiro matrimónio de Marózia; e o enteado, beneficiando de apoio popular, mandou prender a mãe e o meio-irmão João XI. Governou depois como “senador dos romanos”, elegendo quatro Papas (Leão VII, Estêvão VIII, Marinho II e Agapito II), que se “dedicaram exclusivamente às suas atribuições espirituais”.

A decadência voltou à cidade, qu­ando o moribundo Alberico obrigou o clero e a nobreza a jurarem que o seu filho Octaviano, de 17 anos, seria o Sumo Pontífice. Assim, em 955, “sem estu­dos eclesiásticos nem predisposição pessoal”, Octaviano tornou-se João XII (955-964) ou, como o define Laboa Gallego, “um pobre homem, preguiço­so, ímpio, de vida escandalosa, simo­níaco” (= aquele que compra incum­bên­cias, instituições ou bens espiritu­ais). Em 960, para se livrar da amea­ça que representava Berengário, sobe­rano da Itália Setentrional, o novo Papa coroou imperador Otão I da Alemanha, mas esta decisão retirou-lhe autoridade, tendo sido forçado a fugir de Roma pa­ra a Córsega.

Furioso por João XII se ter aliado ao filho de Berengário, seu inimigo, Otão I convocou um concílio romano onde condenou o Papa por “traição, apostasia e vida imoral”, substituindo-o por Leão VIII. Este não foi aceite pelos romanos, que abominavam os ger­mânicos. Quando o imperador dei­xou a cidade, João XII regressou e im­pôs o terror, mas acabou “assassinado enquanto se encontrava na cama com uma mulher casada, provavelmente pela mão do marido enganado”.

Apesar de João XII merecer o seu desdém como Papa, Laboa Gallego con­sidera que as nomeações de Otão I, II e III foram de “transcendência histórica”. Ao romperem com a “submissão total do papado a famílias absolutamen­te nefastas”, conferiram à Igreja uma “ideia de universalidade”, então inexis­tente, com decisões que não se limita­vam a Roma, mas a Portugal e a Espa­nha, à Inglaterra e à Alemanha. “É tris­tíssimo o período dominado por Maró­zia e Teodora II, uma família que não tem qualquer ideia de Igreja”, lamenta o espanhol Gallego. “Os que governa­vam Roma só queriam que os Papas fos­sem seus servos.”

 

Bento IX, o escandaloso

No catálogo dos Papas “sem atrac­ção nem força interior, oportunistas, manipuladores do seu cargo, simonía­cos, alheios a qualquer vontade de reforma”, Laboa Gallego inclui também Bento IX, eleito em Outubro de 1032, su­postamente, graças a pressões do seu pai, Alberico III, conde de Túsculo. A Enciclopédia Católica, caracterizan­do-o como “desgraça na cadeira de Pe­dro” (praticaria sexo com animais na residência papal em Latrão, e “coman­da­ria assaltos a peregrinos, ricos e idó­latras”, nos cemitérios romanos), refere que teria entre 18 e 20 anos. Outras fon­tes sugerem 11 ou 12 anos de idade. Gallego apenas atesta que, durante os primeiros 12 anos do seu mandato, Ben­to IX levou “uma vida dissoluta e es­candalosa”.

Acusado pelo bispo Benno de Pia­cenza de “múltiplos e vis adultérios e assassínios”, e pelo Papa Vítor III de “vi­o­lações, assassínios e outros actos indizíveis”, que o tornaram uma figura “abominável e execrável”, Bento IX foi obrigado a abandonar Roma, depois de a cidade se cansar da sua “imorali­dade” e das “tropelias da família tus­culana”, confirma Laboa Gallego.

Em 1045, um outro pontífice, Sil­vestre II, ocupou o lugar deixado vago por Bento IX, mas este, que não se re­signara à perda, regressou 49 dias depois, para o expulsar. No entanto, não ficou muito tempo no trono. Em menos de dois meses, em Julho de 1046, este sobrinho dos Papas Bento VIII e João XIX abdicou a favor do padrinho, João Graciano, que adoptou o nome de Gre­gório VI.

Laboa Gallego desconhece as causas que levaram Bento IX a abdicar (alguns mencionam que queria casar-se com uma irmã), mas não nega que o padrinho lhe ofereceu “uma enorme soma em dinheiro”. Os dois foram cha­ma­dos a comparecer perante um síno­do reformador, em Sutri, perto de Ro­ma, “a fim de esclarecer se tinham ace­dido aos seus cargos por simonia [por pagamento em dinheiro da escolha pa­ra a função]”. Silvestre, que voltara a ser bispo de Sabina, faltou à chamada e não foi castigado, porque se mantive­ra distante de tudo. Bento IX também não compareceu, mas foi deposto formal­mente. Gregório, o único presente, foi forçado pelo rei Henrique III e pelos bispos a reconhecer-se culpado e a renunciar.

Para retirar o controlo do papado às famílias romanas, o rei elegeu Cle­mente II (1046-1047), o primeiro ale­mão na cadeira de Pedro. Em 1048, porém, oito meses após a sua morte, Bento IX regressou à cidade e ao seu antigo posto, que ocupou por breves instantes, até voltar a ser expulso, por ordem imperial. Morreu em 1056, nas suas terras tusculanas, mas nunca reco­nhe­ceu o sucessor, Dâmaso II.

No seu livro, Laboa Gallego expli­ca: “Apesar da ínfima qualidade huma­na e moral de muitos destes Papas, o que contava para o cristianismo era a instituição como tal, não a personalida­de deste ou daquele Papa, que para os contemporâneos tinha um escasso interesse. Manteve-se o princípio que distinguia entre o cargo e a pessoa que o exercia. Somente se tivermos em con­si­deração a mentalidade medieval, se­gun­do a qual os critérios de valoração subjectiva tinham muito menos impor­tância que no nosso tempo, é que po­de­mos compreender que a imoralidade de muitos destes Papas apresentasse menos consequências negativas para a instituição do papado do que poderí­amos imaginar nos nossos dias.”

”Esta distinção era feita pelas pes­soas mais simples”, sublinha o historia­dor à Pública. “Todos sabiam se um pa­dre ou um Papa era pecador, mas nunca punham em dúvida os sacra­men­tos da Igreja. Agora, enfrentamos uma situação muito mais complexa. Hoje, crentes e não crentes exigem mais coerência: se queres que os outros sejam bons, deves tu começar por ser bom.”

 

Inocêncio VIII, o ganancioso

Bento IX pertence à Roma que La­boa Gallego designa por “pecadora, humilhada e violada”, mas Inocêncio VIII (1484-1492), incluído no capítulo da “Roma criadora, magnífica, rejei­tada, penitente”, não foi de modo algum um Papa virtuoso. A eleição deste ho­mem que se chamava João Baptista Cibo “foi comprada a ouro”, segundo al­gumas fontes; “graças a favores sexu­ais”, segundo outras fontes.

”Casou o seu filho Francheschetto com uma filha de Lourenço de Medici [O Magnífico, de Florença], no Vaticano, numa cerimónia que escandalizou muitos, já que era a primeira vez que um Papa apresentava ostensivamente os seus filhos e filhas.”

Mais tarde, o Papa elevou a car­de­al outro filho de Lourenço, João Me­dici, que tinha apenas 14 anos de ida­de, satisfazendo os objectivos políticos de uma família poderosa.

Ávido por dinheiro, Inocêncio “ven­deu descaradamente os cargos da Cú­ria”, que se tornou “um grande mercado de vaidades, ambições e despropósitos”, critica Laboa Gallego. “Os que ti­nham comprado os postos procuravam amortizá-los quanto antes e, natural­mente, o bem da Igreja não constava nos seus projectos.”

A necessidade de dinheiro levou-o a organizar uma cruzada contra os turcos, mas como os príncipes cristãos recusaram financiá-la, Inocêncio VIII acabou por firmar “o primeiro acordo diplomático com os infiéis”. Neste caso, com o sultão Bayaceto II, em 1489, que aceitou pagar um tributo anual de 40 mil ducados, para que o seu irmão e rival fosse acolhido pelo Papa, em Roma.

 

Alexandre VI,

o incestuoso?

Depois de Inocêncio VIII, chegou à Cúria Rodrigo de Borja y Borja, que adoptou o nome de Alexandre VI (1492-1503) e ganhou fama “não pelos seus valores religiosos, mas pela forma de vida sensual, pelo modo desinibido de utilizar o poder, pela personalidade frequentemente escandalosa dos seus filhos e pelas lendas e calúnias elabo­radas durante o seu pontificado”, ob­serva Laboa Gallego. O historiador ate­nua ser difícil distinguir “as acusações falsas contra um dos Papas mais calu­niados da história, obra dos seus inu­meráveis inimigos, tanto do mundo po­lítico como do eclesiástico, do cúmulo de actuações imorais, prepotentes e desmedidas” de Alexandre e da sua família.

Das várias lendas que envolvem Ale­xandre VI, estão as de que “comprou o papado” e foi “amante das próprias fi­lhas, com as quais teve vários filhos”; que teria participado na “orgia mais depravada de todos os tempos na resi­dência papal”; e a de que envenenou muitos cardeais ricos da Europa, de­pois de deliberar que, após a morte des­tes, a Igreja herdaria as suas for­tunas.

O sucessor de Inocêncio VIII era “amante do luxo e do fausto” e a sua vida era abertamente licenciosa”. Ale­xandre VI teve pelo menos nove filhos, entre os quais se destacaram os da sua amante Vannozza Catanei: João (o pre­dilecto, foi assassinado e atirado ao rio Tibre), César (talvez o mais bene­ficiado, com inúmeros privilégios e territórios da Igreja), Lucrécia e Jofre. Como Papa, teve outra amante oficial, Júlia Farnese, e uma outra desconheci­da de quem teve mais dois filhos.

Gallego é implacável na avaliação de Alexandre VI/Borja: “Conseguiu o papado, graças às divisões fratricidas existentes entre os cardeais e, sobretudo, às atractivas e generosíssimas pro­messas feitas a quem votasse nele. Necessitou com frequência de dinheiro e utilizou todos os meios para o conse­guir, quer vendendo o cardinalato, quer esfolando os judeus abastados, quer ameaçando ou abençoando.”

Em 1497, quando o filho João foi morto, Alexandre anunciou aos prínci­pes da cristandade que ia mudar a Igre­ja e o Vaticano. Uma bula, elaborada por uma “comissão de reforma”, proibia os cardeais de possuírem mais do que um bispado e benefícios superiores a 6000 ducados. Também ficariam inter­ditos de participar em “diversões mun­danas - como o teatro, os torneios e os jogos de carnaval”. Teriam de resi­dir na Cúria e “ser austeros nos gastos”, incluindo os da própria sepultura. Os que não cumprissem seriam seve­ramente punidos.

A bula não chegou, porém, a ser aplicada, e Alexandre voltou à sua vida de “sensualidade, hedonismo e frivoli­da­de”. Gallego conclui: “Não foi edificante, na verdade, este Papa, embora ainda hoje seja difícil distinguir entre os dados objectivos e a feroz lenda ne­gra que o perseguiu, a ele e aos seus filhos, mas não há dúvida de que ficou na história, não só pelos seus deslizes morais, mas também porque representa como poucos, os vícios, a falta de valo­res e as características do Renasci­mento.”

”Antigamente, as pessoas aceita­vam que a Igreja fosse, ao mesmo tem­po, santa e pecadora”, justifica o histo­riador dos Papas. “O cristão era olhado sempre como um pecador. Nós, pelo contrário, adoptámos uma postura boa na teoria, mas impraticável: víamos os sacerdotes todos como santos. Acháva­mos que a Igreja era santa. Mas isso não é verdade. Os sacerdotes têm mais responsabilidades, mas nós somos ho­mens. Somos todos pecadores! Uma coisa é certa: depois do que passámos [dos escândalos de pedofilia no clero], vamos passar a ser muito mais humildes.”

”Há 40-50 anos, a sociedade guar­da­va todos os seus segredos”, lembra Gallego. “Uma família, por exemplo, ti­nha um filho com síndroma de Down e ocultava-o. Porque achava, talvez, que era uma vergonha. Até podia cuidar dele, gostar dele, mas escondia-o em casa.

Hoje, somos muito mais livres e mais exigentes no que diz respeito à honradez exterior. Há 40 anos, quando um padre engravidava uma mulher, ela ficava para trás e ele mudava de paró­quia. Porquê? Para não escandali­zar. Isso correspondia a uma época.”

 

Graham Greene...

”Temos de procurar a santidade, mas tenhamos consciência de que so­mos pecadores”, frisa Gallego. “Esta é a grande lição dos tempos actuais. Temos de aceitar, não digo com tranqui­lidade, mas sim com humildade, as de­bilidades dos cristãos, dos clérigos e da Igreja. São Paulo dizia: “Quero o bem e muitas vezes faço o mal.”

Ora, o que eu aprendi nestes 40 anos que dedico à história da Igreja e dos cristãos é que, na vida de cada um e na da Igreja, o pecado e a graça de Deus estão muito misturados. No século XX, muitos escritores abordaram esta questão.”

”O inglês Graham Greene, em O Po­der e a Glória, conta como um padre no México, bêbedo e mulherengo, se vê ameaçado de morte em plena revolução”, exemplifica Gallego. “Os revolu­cionários exigem que ele abandone, publicamente, o sacerdócio, se quiser salvar a vida. Ele, que era pecador, res­ponde: “Não posso desiludir a minha gente. Não posso fugir às minhas res­pon­sabilidades na Igreja.” Mataram-no. Na vida da Igreja mistura-se muito o pecado e a graça.

Hoje, descobrimos os padres pe­dó­filos, mas não falamos dos milhares de monjas, sacerdotes e cristãos laicos que estão ao lado dos marginais, dos mais pobres, dos anciãos, das crianças abandonadas. O governo de Madrid, que é socialista e anticlerical, já reco­nheceu que as paróquias que se situam nas áreas mais carenciadas são as que conseguem manter a paz social.”

”Sim, esta é uma Igreja de pecado - isso já ficou demonstrado. Muitos cris­tãos, e não apenas sacerdotes, que têm a obrigação de ser honrados são peca­dores”, diz Gallego.

 

O que tem de fazer Bento XVI? “Por um lado, tomar consciência de que não se pode tolerar nem ocultar o pecado na Igreja. Temos também de ensinar aos cristãos que todos somos débeis. Que só Cristo não peca, porque é Deus. [Esta afirmação, carregada de Moralis­mo imoral, é mesmo de um sacerdote católico romano, como é o Autor do livro. Nem, depois de tantos anos dedicados a estudar a História da Igreja, ele abriu os olhos da sua mente. Só esta Ceguei­ra Teológica explica esta sua afirma­ção e esta sua chocante confusão entre Jesus, o filho de Maria, e o mítico Cristo, que não é realidade histórica, nem tem nada de Jesus. N.D.]

Em vez de nos escandalizarmos com os pecados dos outros, devemos per­guntar o que devemos fazer por um mundo melhor. Não temos a obrigação de ser santos, mas temos de imprimir um sentido de optimismo. No Antigo Tes­ta­mento, Deus diz a Moisés [?!?!, N.D.]: “Vou destruir essa cidade porque está cheia de pecado.” Moisés implora: “Senhor, e se há 40, 30, 20 justos?” Deus anui: “Bem, então irei salvá-los”.”

”O facto de os padres e os Papas pecarem não quer dizer que não te­nham medo do Inferno”, ironiza. “O pro­blema é que o pecado é mais forte do que eles. Muitos terão sentido terror, mas eram muito fracos. A Igreja tem de se limpar destes pecados da pedofilia. Não podemos, todavia, esperar que to­dos sejamos puros. Temos de procurar que estes pecados não se repitam. Te­mos de ser mais transparentes na Igre­ja, mas temos de aceitar que somos fracos.”

 

... e Franco Zefirelli

”Só há um pecado fundamental: a ânsia de dominar e de poder”, vinca Gal­lego. Jesus disse: “Eu vim para servir e não para ser servido.” Ele ensinou que, na Igreja, quem governa deve ser­vir. O grande pecado não é o sexo, que é uma consequência. O grande pecado é a ânsia de poder, de dominar. Este é mais forte. Em muitos pecados, inclu­in­do o da pedofilia, pior do que o sexo é o desejo de dominar - dominar uma criança, dominar uma mulher.”

Se querem perceber porque o “maior pecado” da Igreja Católica não é o sexo, mas a ânsia de poder, vejam o filme Irmão Sol, Irmã Lua, do italiano Franco Zefirelli, recomenda Gallego, que, na História dos Papas, reconstrói a cena, em que Inocêncio III recebe Francisco de Assis.

”Numa majestosa sala de audiên­cias, Inocêncio está rodeado pela sua brilhante corte de cardeais e curiais, todos envergando trajes luxuosos. Do pináculo da sua glória, o Papa vê con­fu­samente um grupo apinhado de frades: não os distingue. Não capta o seu sentido. Levanta-se do trono e de­cide descer. À medida que se apro­xima, vão-lhe deslizando a capa ma­gna e vão caindo as vestes sobrepos­tas, a mitra, as jóias, os anéis e as cru­zes. Ao mesmo tempo descobre, cada vez mais nitidamente, os rostos de Francisco e dos seus irmãos andra­josos. Quando chega ao nível destes, cobre-o apenas a alva branca - mas vê, ouve, interpreta (...) e produz-se uma sintonia real entre ambos.”

De regresso ao trono, “numa lenta marcha-atrás, Inocêncio vai subindo de costas os escalões, caem sobre ele as gemas e os luxos, até o cobrirem, e vai perdendo em igual medida a capa­cidade de ver a realidade, até que de novo só percebe vagamente Francis­co”. Esta cena mostra que “uma Igreja rica e poderosa pode mover-se pouco, adaptar-se menos, mal pode evangeli­zar”.

 


 

IGREJA/SOCIEDADE

ALZIRA

Mas que Páscoa, a tua!

 

Nunca mais o Lar da Misericórdia de Alhos Vedros, plantado ali mesmo ao lado da igreja paroquial, gerida, à data, pelo pároco Pe. Carlos, conseguirá esquecer a tua Páscoa Definitiva, querida Alzira. Os últimos meses, pouco mais de um ano, em que ele te acolheu, sem nunca te chegar a conhecer por dentro (há um ser-viver histórico clandestino, que nem os familiares e os amigos mais próximos chegam a conhecer, a menos que o seu ser-viver histórico seja também clandestino, o que não é nada fácil, já que tem de ser um ser-viver histórico pobre por opção e por toda a vida, sempre à intempérie e na trincheira) ficam para sempre marcados por esta tua Páscoa Definitiva. Na Hora de se lhe dar visibilidade, a supresa de quem manda no Lar e do pároco que vive lado a lado com ele, como um sacerdote mais do Deus-Ídolo, o único que gosta de templos, de altares e de sacerdotes, não pôde ser maior. O Escândalo, também. E tudo fizeram para que Eugénia, a tua Companheira de intempérie e de trincheira, testemunha do teu querer derradeiro, deixasse para lá e não convocasse o Pe. Mário. O Lar, com o seu pároco Pe. Carlos, encarregar-se-ia de tudo. Mas Eugénia, com o seu ser-viver histórico clandestino, como o teu, não foi na lenga-lenga deles. E a tua Páscoa Definitiva aconteceu como tu sempre quiseste que fosse, ainda que só o tivesses revelado a ela.

Quando fui sabedor pela Eugénia que me querias, como presbítero-parteira, na tua Páscoa Definitiva, deixei tudo e corri, contigo já definitivamente vivente e para sempre mão-na-mão comigo, a dar visibilidade histórica à tua vontade. O teu ser-viver histórico, até aí, clandestino, passou então a ser Luz /Grito de Sentinela na cidade, infelizmente, ainda edificada /mergulhada na Treva, sem dúvida, muito Ilustrada, mas, por isso, ainda mais densa Treva. Uma Luz /um Grito com tudo de fecunda Explosão. Eugénia, lá está, muralha de aço, a assegurar que tudo será realizado como tu queres que seja. E é.

O teu cadáver está depositado na capela mortuária, que é comum a todos os cadáveres, a caminho do Campo /Cemitério onde serão depois depositados /semeados. Lá está, em destaque e a presidir a tudo, a perversa Cruz do Império, com o seu mítico Cristo eternamente pregado nela. Reajo de imediato e sugiro a Eugénia que ela seja retirada. Só que a perversa Cruz faz parte de um conjunto de outros adereços de mau gosto e não era fácil pô-lo de lá fora. Sugiro então que, pelo menos, seja virada para a parede. Eugénia nem hesita e vira a perversa Cruz para a parede. O gesto parece blasfêmia. Faz estremecer as pessoas presentes. Explico, na hora, que blasfémia é continuarmos a fabricar Cruzes em série como aquela, com o mítico Cristo do Império pregado nela, quando tudo havemos de fazer para destruirmos todas as Cruzes e o próprio Império que as fabrica. A Besta não pode continuar aí a ditar-nos as suas leis. Como um perverso Deus. A Besta é a Besta! E a Cruz com o mítico Cristo pregado nela é o maior símbolo da Besta que havemos de destruir, ao mesmo tempo que destruímos o Império que a concebeu e pariu. Os seres humanos, finalmente, livres da Besta, poderão, então, crescer de dentro para fora, em Sabedoria, em Graça e em Sororidade Universal.

A Boa Notícia, anunciada na Hora, cai em terra boa. De contrário, as pessoas presentes ter-me-iam linchado. E é com a Cruz da Besta com o seu mítico Cristo virada para a parede, que celebramos a tua Páscoa, querida Alzira. As palavras de todas as pessoas são palavras politicamente subversivas e conspirativas. Porque densamente Humanas.

O Canto e a dança acontecem com toda a naturalidade. A tua Páscoa Definitiva é então Festa. Faz-nos Nascer de Novo. Faz-nos mudar de Ser-Viver Histórico. Faz-nos mudar de Deus. Saímos da Besta, que é o Deus-Ídolo e o Império que o pariu (antes de mais, o Império Sacerdotal!) e tornamo-nos de Deus Criador, nosso Abbá-Mãe e de todos os povos do Planeta, mais íntimo a nós que nós próprias, nós próprios. Tornamo-nos indomáveis. Como meninas, meninos. Fecundamente rebeldes. Dissidentes. Por isso, ser-viver histórico clandestino. A Besta pensa que sabe de nós, mas jamais sabe de nós. Nunca somos o que ela pensa que somos. O que ela vê nunca é o Essencial que somos. E o Essencial que somos, na História, é que está a destruir a Besta e todos os seus agentes históricos. Pensam-se deuses. Fazem-se tratar por deuses. São Perversos. Verdugos /Carrascos /Algozes. Fabricadores de vítimas humanas em série. O seu luxo é o lixo da esmagadora maioria dos povos. A sua Riqueza Acumulada /Concentrada é a Pobreza Acumulada /Concentrada dos povos empobrecidos à força.

Já no Campo /Cemitério, e imediatamente antes de entregarmos /semearmos nele o teu cadáver, gritamos em muitas vozes livres e sábias, que Tu, querida Alzira, és quem nos convocou a todas, todos. À terra, entregamos, então, o teu cadáver. A ti, sabemos que nos esperas, mais activa do que nunca, nos próximos Combates. Sobretudo, os clandestinos. São estes Combates que estão a minar por dentro a Besta. A Besta, em cada um dos seus três Executivos principais - o Sacerdotal-Religioso, o Político Armado, e o Financeiro Global - odeia-nos de morte, mas nada poderá contra o nosso ser-viver histórico opcionalmente pobre, clandestino, à intempérie e na trincheira! Por mais que tente seduzir-nos. Resistimos-lhe, tal como tu, querida Alzira. Por toda a vida. Até ao sangue, se necessário for.


 

18.º Encontro de Espiritualidade Jesuânica

E ninguém quis comer deste Pão!

 

E ninguém quis Comer deste Pão! Do Pão-Palavra que foi Partilhado no 18.º Encontro de Espirituali­da­de Jesuânica, realizado no primeiro domingo de Junho, na sede do Jornal Fraternizar. As ausên­cias foram bastantes. Por isto e por aquilo. Tudo razões, com que se tenta esconder a fundamental Razão por que se não vai. O Pão da Espiritua­li­dade Jesuânica é muito duro para ser Comido. Já os Doze, na última ceia, não Comeram dele, pelo menos, no testemunhar do Evangelho de Mar­cos. Vai daí, é melhor já nem ir ao Encontro onde semelhante Pão é Partido /Repartido. E ficar-se pela atraente espiri­tualidade do Mercado, a chamada espiritualidade cristã! Do mítico Jesus-Cristo. Daqueles poucos que ainda fomos a este Encontro, ninguém quis Comer deste Pão. Foi notório. Por isso, Jornal Fraternizar Partilha aqui este Pão que ninguém quis Comer. Será que alguém o vai Comer? É Repartido em 2 Textos.

 

O primeiro Texto (ver a seguir, p. 22-23) abriu o Encontro. Uma abertura, de todo inesperada. O segundo Texto (ver p. 23-24) é a intervenção de fundo, previamente preparada, e partilhada, já ao início da tarde, na reabertura da Con­versa-Debate. Se o primeiro Texto foi uma abertura de todo inesperada, o que dizer do segundo Texto, com a intervenção de fundo previamente pre­parada? Os dois Textos contêm o Pão-Palavra nunca antes Partido /Repartido nos anteriores Encontros. Mas parece que ninguém, ou quase ninguém deu por isso. E quem deu, teve séria dificul­da­de em testemunhá-lo perante a mai­o­ria, em franca Oposição, demasiado segura de si, das suas posições que tem já por muito avançadas, progressis­tas e muito para lá da "Cegueira" das multidões que ainda alinham nessas coisas de missas e de procissões de ve­las. Já não vamos por aí, e é bom que já se não vá. Mas é manifestamente insuficiente. Sobretudo, se, com isso, nos temos como mais sabidos do que as multidões e as olhamos do alto do nosso suposto Saber-mais-que-elas. Ou do nosso bem-estar, mais ou me­nos desafogado que certo Solteirismo dá a quem envereda por aí, à mistura com um certo viver feito de rotinas, ne­nhum Projecto de Mudança, muito menos, de Combate Desarmado. Sem nunca chegarmos a ver a trave que te­mos nos nossos olhos progressistas e auto-satisfeitos, e que nos impede de ver o Invisível e de escutar o Essencial.

O Pão /Palavra é "espírito e vida", mas as pessoas ficam-se saloiamente pelas palavras ditas. E, pior que isso, pelo mensageiro através de quem o Pão /Palavra está a ser Partido /Repartido. Conhecemo-lo há muito ano e pensa­mos que já vimos-ouvimos tudo.

Por mais que o mensageiro se dê, se Parta /Reparta, tome a sério o seu mi­nistério presbiteral, esteja intensa­men­te a viver já para lá do seu Livro Póstumo, nem assim consegue ser aco­lhi­do /escutado como a primeira vez.

Ora, nestas coisas do Pão /Palavra espírito e vida, cada vez é sempre a pri­meira vez. É sempre o Inesperado. É sempre Novo Começo que nos convida a Nascer de Novo. Não mais da mãe e do pai. Não mais do Mesmo. Não mais da Inércia /Rotina. Não mais do Saber. Apenas do Sopro que rebenta no mais ín­timo de nós, quando, finalmente, nos des­pojamos de todos esses Saberes, de todas essas Inércias /Rotinas e nos abrimos ao Invisível e Acolhemos-Es­cutamos o Essencial que não frequenta esses viveres, tão pouco se adquire no Mercado, nem nas suas Escolas-Igrejas.

O final do Encontro foi Desconcer­tan­te. Ninguém, no decurso dele, quis Comer do Pão /Palavra espírito e vida. Fi­ca­mo-nos pelo pão /palavra do Mer­ca­do, das nossas Rotinas /Inércias, pelo Saber que acumulamos com estudos e leituras, tudo mais do Mesmo.

O mensageiro ficou ainda mais só. Por isso, mais confirmado na autentici­dade do Evangelho que PASSOU atra­vés dele. Depois disto, percebemos me­lhor porque Jesus, quando revela às mul­ti­dões que é o Pão /Palavra com es­pírito e vida, elas debandaram e, de­pois, exigirão a sua Morte Crucificada.

 


 

Palavra de Abertura ao 18.º Encontro

Porque mataram Jesus na Cruz e a nós não?!

 

Na mesma Paz de Jesus, dou-vos a minha Paz. Aceitamo-la? Ou ficamos em guerra surda ou mesmo aberta con­­­tra ela e o mensageiro, através do qual ela PASSA até nós? Ou sorrimo-nos displicentemente dela e do mensa­geiro? A minha Paz, com que vos saú­do, na mesma Paz de Jesus, é a Paz Desarmada. Sá a aceitará quem já for, todos os dias, um ser-viver-agir huma­no maiêutico desarmado. Somos já, as­sim, se­res-viveres-agires humanos mai­­êu­ti­cos desarmados? Queremos, ao menos, ser seres-viveres-agires hu­manos maiêuticos desarmados? Não é verdade que temos medo – e que medo! – do ser-viver-agir humano mai­êu­tico desarmado por antonomásia, que é Jesus, o camponês-carpinteiro de Nazaré, o filho de Maria, o mesmo é dizer, o Ninguém, se comparado com os sumos-sacerdotes da época e do país, ou com um doutor da Lei, ou um membro do Sinédrio /Parlamento Judaico, ou mesmo com um escriba, ou com o líder de um partido político – o líder do grupo dos Doze, por exemplo – que, já então, lutava pela tomada do Poder? Estamos dispostos a ser tam­bém um Ninguém, hoje e aqui? Um Desprezado? Um Ostracizado? Ou, pelo contrário, achamos até muito bem que os sumos-sacerdotes tenham cruci­fi­ca­do Jesus na Cruz do Império, em Abril do ano 30? Aquele seu ser-viver-agir humano maiêutico desarmado, en­tre meados do ano 28 e Abril do ano 30, feito, todo ele, de Práticas Maiêuti­cas a favor das vítimas, e de Duelos teo­lógicos Desarmados contra a trindade dos Poderes, não foi um ser-vi­ver-agir humano maiêutico desarmado totalmente incomestível? Intragável? Quem pode comer semelhante Pão, semelhante Palavra, semelhante Evan­ge­lho, semelhante Corpo-e-Sangue, em suma, semelhante Paz Desarmada? E não só comer. Também mastigar, di­gerir, fazê-lo nosso, neste Século XXI? Lá, no fundo de nós mesmos, não a­cha­mos bem tudo aquilo que institu­cionalmente fizeram com Jesus, os sumos-sacerdotes, os teólogos /biblis­tas, os doutores da Lei, o Sinédrio /Par­la­mento, numa palavra, os dirigentes máximos do Judaísmo institucional? Não achamos bem o que também fize­ram com Jesus, os do grupo dos Doze, apesar de terem sido escolhidos um a um por ele, ou precisamente por isso, os quais, depois que se viram escolhi­dos como os doze novos pilares do novo Israel /Humanidade universal, logo se auto-entenderam como Poder e passa­ram a lutar em bloco contra Jesus, con­cretamente, contra o seu ser-viver-agir humano maiêutico desarmado, todo an­ti-Poder, ao ponto de terem sido eles a conceberem a estratégia que Judas, depois, foi encarregado por todos de realizar, de o entregar aos sumos-sa­cer­dotes, sempre na expectativa de que Deus, o do Sistema judaico puro e duro, interviesse e o livrasse das mãos dos ro­ma­nos e impusesse o Império Judai­co sobre todos os povos? Não fazemos nós, o mesmo, hoje, perante um ser-vi­ver-agir humano maiêutico desarma­do, se o virmos por aí a ser odiado por todos os que têm privilégios e interesses a defender e a salvaguardar, ou aspira­ções a ter privilégios? E, já depois de Je­sus Crucificado e Morto, e do seu ca­dá­ver ter sido lançado à vala comum como o maldito dos malditos, o despre­zível total e absoluto (quem de nós está disposto a ser, assim, hoje? Quem de nós quer ter na sua família, na sua fre­guesia ou na sua cidade, um ser huma­no assim?), não foram eles, os Onze, a correr restaurar o grupo do Doze, ao mesmo tempo que inventavam um mítico Jesus-Cristo, completamente esvaziado do ser-viver-agir humano maiêutico de­sarmado de Jesus, um mítico Jesus-Cristo bem à medida das suas ambições de Poder sobre todos os povos? E não é deste mítico Jesus-Cristo, inventado pelos Onze /Doze e anunciado depois aos quatro ventos, que nós, Século XXI, gostamos /seguimos? Não é, de resto, assim, o nosso ser-viver-agir humano, hoje, desde o nascer ao morrer, em tudo igual ao desse mítico Je­sus-Cristo? Não é um ser-viver-agir humano acomoda­do, resignado, vazio de práticas maiêu­ticas e de duelos teológicos desarma­dos? E não é com um ser-viver-agir hu­mano assim, que nos sentimos bem? Se não mudamos radicalmente de ser-viver-agir humano, não é sinal de que es­tamos bem com o nosso ser-viver-agir humano, em 2010? Não somos to­dos incondicionais do Mercado, como os mais? Quem de nós se atreve a dei­xar de ser um incondicional do Merca­do? Até no trabalho, não trabalhamos toda a vida para o Mercado? Não é o Mercado que nos contrata? Não é junto dele que procuramos trabalho para nós e para os nossos filhos? Não é junto de­le que procuramos subsídios e outros apoios materiais? Em consequência, não são superficiais /banais /medíocres as nossas vidas e os nossos projectos? Mas será que ainda temos projectos? E que projectos? Vão além do nosso próprio umbigo, da soleira da nossa por­­ta e dos nos­sos filhos? Sim, eu sei, já não vamos às missas ritualizadas nos templos (por sinal, alguns de nós ainda vamos, pelo menos, no casa­mento ou no funeral de pessoas nossas amigas, e até deixamos que, um dia, o nosso cadáver tenha missa de corpo presente, do sétimo dia e do mês!). Mas, fora isso, manifestamente muito pouco, o que fazemos de especial, que todos os outros não façam? Em que é que o nosso ser-viver-agir humano de cada dia, se distingue do dos demais? Não é um ser-viver-agir humano bem aco­modado ao Mercado? Não milita­mos, pelo menos, passivamente, nas fi­leiras do Mercado? O nosso trabalho por conta de outrem não está a contri­buir para engordar ainda mais o Merca­do? Saibamos que se não trabalhamos todos os dias para derrubar o Mercado, estamos todos os dias a trabalhar para o fazer engordar ainda mais! O Merca­do diz. Quem não é contra mim, já é por mim! Ora, quantas, quantos de nós somos já seres-viveres-agires humanos maiêuticos desarmados contra o Merca­do? Não somos todos, pelo contrário, vistos como boas pessoas, neste nosso Mundo que é o Mercado? Não somos todos muito estimados pelos nossos vi­zi­nhos? Não somos todos politicamente correctos? Os vizinhos e nossos conhe­cidos não nos têm na conta de seus ami­gos? Não nos convidam para as suas festas, para as comunhões e ca­sa­mentos dos filhos, precisamente, por­que a nossa presença é politicamente correcta? Quem, do Institucional do Mercado, nos odeia? Mas será que te­mos quem, do Institucional do Mercado, nos odeie? Temos quem, do Institucio­nal, nos odeie, precisamente por causa do nosso ser-viver-agir humano maiêu­tico desarmado, todo nos antípodas do deles? Já podemos dizer que somos das, dos Jesus e que estamos a prosse­guir, hoje e aqui, de forma actualizada, o mesmo ser-viver-agir humano maiêu­ti­co desarmado de Jesus, entre mea­dos do ano 28 e Abril do ano 30? Já estamos a ser, institucionalmente, trata­dos como o trataram a ele? O que faze­mos do tempo de que dispomos, depois das indispensáveis horas de sono? So­mos apenas nós e a nossa casa? Nós e a nossa cozinha? Nós e as nossas ta­refas domésticas? Nós e os nossos netos? Nós e a nossa mulher, o nosso marido, os nossos filhos? Nós e os nos­sos negócios? Nós e o nosso partido político? Nós e a nossa vida privada? Nós e nossa empresa? Nós e a nossa paróquia S.A.? Numa palavra, nós e as nossas comodidades, rotinas, mediocri­da­des? A quem vamos deixar os muitos ou poucos bens que possuímos? Mas temos bens para deixar em herança? E não somos do Mercado? Paz desar­ma­da, a nossa? Como assim, se o nos­so ser-viver-agir humano é assim tão sem sal, tão sem luz, tão sem sentinela, tão sem práticas maiêuticas, tão carida­dezinha, tão sem duelos ideológicos /teológicos desarmados? A nossa, não é, antes, Paz armada e bem armada? Eu sei: Não usamos armas de fogo, nem armas brancas. Mas podemos di­zer com verdade que somos já, cada dia, seres-viveres-agires humanos mai­êu­ticos desarmados? Somos outros, Je­sus, Século XXI? Então, porque não nos sucede nada de semelhante ao que lhe sucedeu a ele, entre meados do ano 28 e Abril do ano 30? Porque é que até a mãe dele e os irmãos o conside­ram louco varrido e, quando concluíram que não podiam mais ter mão nele, deitaram-no ao total desprezo, e a nós, pelo contrário, os nossos familiares mais próximos não nos dispensam, estão sempre a requisitar os nossos prés­timos? Porque podemos continuar a viver sossegados nas nossas casas e Jesus nem tinha onde reclinar a ca­be­ça? Porque teve Jesus de viver qua­se sempre na clandestinidade e nós não? E, se formos papa de Roma, so­mos até aclamados pelas multidões nas ruas e nas avenidas das cidades que ele visite? Porque até os mais próximos de Jesus, na Missão, o traíram, preci­sa­mente, por altura da Páscoa do Ju­daísmo, quando havia muito mais gen­te em Jerusalém, e a nós não nos tra­em, até nos promovem homenagens que nós aceitamos e agradecemos? Por­que o mataram na Cruz, como o mais desprezível dos seres humanos, e a nós não? O que há de comum entre o ser-viver-agir humano maiêutico de­sar­mado de Jesus e o nosso? Não es­ta­remos a ser seres-viveres-agires hu­ma­nos nos antípodas do de Jesus? Co­memos, porventura, do mesmo Pão que ele historicamente comeu, ao ponto de se tornar, ele próprio, o Pão Vivo para a vida do Mundo? Não achamos duras estas palavras, duro este Pão que Je­sus, ele próprio, é? Não achamos muito bem o que os sumos-sacerdotes do seu tempo e país lhe fizeram? Não fazemos hoje exactamente o mesmo a quem, por­ventura, se parecer com ele? Ao Pão Vivo que Jesus é e se dá a Comer, não preferimos o Pão que o Mercado nos vende e quer que sejamos, por toda a vida? Afinal, somos-vivemos-agimos para derrubar o Mercado, ou para o fa­zer engordar ainda mais? Vamos con­ti­nuar a ser-viver-agir como até aqui? Ou vamos hoje Nascer de Novo? Mudar de Ser? Mudar de Deus? Do Deus-Mercado para Deus Criador, Abbá-Mãe de Jesus e de todos os po­vos por igual, que nos quer ver crescer em Liberdade, em Maioridade, em Au­to­no­mia? Quando nos decidimos a ser Eucaristias vivas, Eucaristias Praticadas, dentro do Mercado, mas sem nunca sermos dele, sempre contra ele, porque politicamente maiêuticos a favor de to­das as suas inúmeras vítimas? Eis a questão de fundo que nos traz aqui a este 18.º Encontro de Espiritualidade Jesuânica. Pronunciemo-nos. Mostre­mo-nos tais quais somos e como quere­mos ser de ora em diante.

 

Palavra de fundo no 18.º Encontro

Não há Eucaristia sem Expropriação!

 

1. Não há Eucaristia a sério sem Ex­propriação dos bens, sem Expropria­ção do Planeta Terra e dos bens que o Planeta Terra dá espontaneamente a todos os povos por igual, segundo as necessidades de cada qual; e, mais ainda, sem Expropriação dos bens con­se­guidos, em resultado do nosso trabalho no Planeta e com o Planeta, reali­za­do segundo a capacidade de cada qual. Este trabalho na e com a Terra é a Cultura. No caso, agri+cultura. Mas temos de dizer mais: Não há Eucaristia sem auto-Expropriação das pessoas, de cada pessoa, dos povos, de cada povo, para que todas as pessoas, todos os po­vos sejamos dádivas vivas, umas com as outras, uns com os outros. Quem dis­ser o contrário e fizer o contrário é men­ti­ro­so. E não um mentiroso vulgar, qualquer. É mentiroso daquele tipo de Mentira institucional que oprime e man­tém na Opressão por toda a vida os po­vos, a começar pelos próprios que di­zem-praticam essa Mentira Institucio­nal. Além de mentiroso, é também as­sas­sino. Não daquele tipo de assassino que mata o corpo, mas não mata a identidade ou a alma das pessoas e dos povos, do Planeta Terra, mas da­que­le tipo de Assassino Institucional que mata a identidade, a alma das pes­soas e dos povos, do Planeta Terra. Sem Expropriação, esta, radical e glo­bal, somos todos mentirosos e assassi­nos. E do tipo de Mentira e de Assassí­nio institucionais que oprimem por toda a vida e matam a identidade, a alma das pessoas e dos povos, do Planeta Terra. Podemos, individualmente, pare­cer boas pessoas, porventura, muito generosas, benfeitoras, madres-tere­sas-de-calcutá. Efectivamente, somos mentirosos e assassinos. Porque sem Expropriação, à escala planetária, pes­soas e povos incluídos, o que é de uso de to­dos os seres humanos, de todos os povos, segundo a necessidade de ca­da qual, passa a ser, continua a ser, Propriedade Privada de uns quantos. Sem Expropriação, o Planeta Terra e to­dos os bens que ele espontanea­men­te dá e produz com o nosso trabalho, a nossa agri+cultura, segundo a capa­ci­dade de cada qual, passa a ser, con­tinua a ser, Riqueza Acumulada e Con­cen­trada nas mãos de alguns, por si­nal, cada vez mais um menor número de mãos. Sem Expropriação, nasce e desenvolve-se, como o Monstro dos monstros, o Sistema Global mentiroso e assassino que oprime e mata, por sis­tema, a identidade, a alma dos seres humanos e dos povos que habitamos o Planeta Terra. E o Planeta Terra tor­na-se uma terra estranha, estrangeira, cujo chão que pisamos é apenas de al­guns, por sinal, muito poucos. Aliás, oprimir e matar, por sistema, é a única coisa que o Sistema Global sabe fazer. Para isso foi concebido e nasceu: para Roubar, Matar e Destruir /Descriar os seres humanos e os povos, o próprio Planeta Terra.

 

2. Uma vez nascido, este Sistema torna-se total, absoluto, único. Numa palavra, mais teológica, torna-se Deus! Um Deus-Ídolo. Único. E, porque Deus-Único e, até, Deus-Institucional Global, é logo tido por verdadeiro, por parte dos seres humanos e dos povos. Na ver­da­de, um Deus mentiroso e assassi­no que se compraz em produzir súbdi­tos assassinados em massa, oprimidos assassinados em massa, vítimas assas­si­nadas em massa. Ninguém escapa ao seu domínio assassínio. A começar pelos que ele escolhe, em cada gera­ção, para serem os seus braços, os seus agentes históricos, os quais, no seu con­junto, fazem a trindade dos Pode­res. Só que a estes oprimidos assassi­na­dos de luxo, o Sistema trata-os como privilegiados. São a imensa minoria dos Privilegiados, sem dúvida, os mais opri­midos assassinados dos seres humanos que, devido aos Privilégios, jamais se re­conhecem ou são reconhecidos como tais pelas suas inúmeras vítimas. Pen­sam-se e fazem-se chamar Senhores, dons Fulanos de tais, Administradores, Gestores, Juízes, Sacerdotes, Generais, Excelências, Eminências, Reverências, Doutores. Jamais se reconhecerão co­mo os mais oprimidos assassinados que, só por o serem, são inevitavelmen­te opressores e assassinos institucio­nais de todos os demais. Disse e repi­to: Jamais se re­conhecerão. A menos que, inopinadamente, lhes apareça pe­la frente um Ser Humano Pleno e Inte­gral Maiêutico Desarmado, com quem eles e o próprio Sistema que os pariu tenham inevitavelmente de se confron­tar. Então, vêem, como num relâmpago na noite, todo o Hediondo, todo o Per­verso e gerador de hediondo e de per­ver­so, todo o Inumano e gerador de Inu­mano, todo o Descriado e Descriador que são! Institucionalmente! Perdem de imediato a cabeça e decidem logo ali matar a Luz que aquele ser-viver-agir humano maiêutico desarmado concre­to, tão nos antípodas deles, por isso, tão Odiado por eles. Depois, é só esco­lher o melhor género de morte que tor­ne para sempre maldito e impronun­ciá­­vel o nome dele, totalmente nos antípodas dos nomes deles, e esperar pe­la melhor ocasião para o consumar. De maneira que a História possa pros­se­guir o seu curso como até aí, como se um tal ser-viver-agir humano maiêu­tico desarmado, e toda a Luz que ele é, nunca tivessem efectivamente exis­tido. E ai de quem, aqui ou ali, venha a revelar-se um ser-viver-agir humano maiêutico desarmado semelhante a es­te e na sua peugada. Terá, irremedia­vel­men­te, o mesmo destino! Nem o seu nome ficará registado nos Registos ofi­ciais do Sistema. E, se, de todo em todo tiver de ficar, terá de ser, primeiro, to­tal­mente esvaziado do ser-viver-agir humano maiêutico desarmado histórico que ele foi /é, de modo a tornar-se ape­nas um Mito, não só Inofensivo ao Siste­ma, mas muito Útil ao Sistema.

 

3. Chegados ao Século XXI, che­ga­mos também ao apogeu do Sistema Global antípoda da Eucaristia. O qual, ao contrário da Eucaristia que é o Acto Político de Expropriar o Planeta Terra e os bens que ele dá espontaneamente e mediante o trabalho dos seres huma­nos e dos povos, segundo a capacida­de de cada qual, e auto-Expropriar os próprios seres humanos e os povos, é o Acto de Poder Político Armado Insti­tucional de se Apropriar do Planeta Ter­ra e de todos os bens que ele es­pon­taneamente dá e mediante o traba­lho dos seres humanos e dos povos. E de Apropriar-se dos próprios seres hu­manos e dos povos que lhe não re­sistirem activamente, todos os dias. Por isso, hoje, tudo é do Mercado. Pior. Tudo é Mercado. E o Mercado é Tudo. O Mercado Global é o antípoda da Eu­caristia Global. Tudo o que, hoje, é Ins­titucional é Mercado e do Mercado. E trabalha exclusivamente para o Merca­do. Por mais que tente disfarçar-se, sob nomes pomposos e vestes sum­ptuo­sas: Igrejas /Religiões e seus Sa­cer­dotes e Pastores; Governos das na­ções e seus Ministros /Deputados /Par­tidos Políticos sem excepção; Empresas e seus Patrões ou Administradores, as mais pequenas e as transnacionais. Obvi­amente, estas muito mais do que aquelas. Tudo é Mercado e trabalha para o Mercado. A estes três Poderes – Religioso, Político e Económico-Fi­nan­ceiro – juntam-se todos os outros Ins­titucionais intermédios e menores: Leis; Tribunais, Procuradores da Repú­bli­ca, Juízes, e demais Pessoal Auxi­liar; Universidades /Escolas com os Pro­fessores e restante Pessoal Auxiliar; Dioceses, com os respectivos Bispos re­si­denciais, Pa­róquias com os respecti­vos Párocos, Cate­quistas, Acólitos, Ri­tos; Exércitos nacio­nais e transnacio­nais, NATO e ONU, e cada Militar no acti­vo, do mais gradua­do ao Soldado; Bancos e todo o Pessoal que os faz fun­cio­nar com regularidade, sem nunca meter um Pauzinho na En­gre­na­gem; Até os Hospitais, com o seu Pessoal e as IPSSs, com o seu Pessoal; Numa palavra, todo o Institucional que o Siste­ma concebeu, pariu, reconhece como dele, juntamente com todo o exército de gente que o faz funcionar com a máxima regularidade e a máxima eficá­cia, está aí só para Roubar, Matar e Des­truir /Descriar. Mesmo que pareça que está a ajudar os seres humanos e os po­vos a viver; ajuda-os, mas só até ao ponto de todos poderem prosseguir as tarefas que o Sistema lhes impõe e exi­ge que realizem cada dia. Não mais do que isso. Tudo o que se fizer no Merca­do é para o Mercado. Tudo tem a sua mar­ca. O seu selo. E só o que ele re­conhece, só o que leva a sua marca, o seu selo, pode circular no Planeta Terra.

 

4. O Mercado /Sistema Global tem um evangelho. É este o seu kerigma: Fora do Mercado não há salvação! É este evangelho e apenas este evangelho que os grandes e os pequenos Meios de comunicação Social propagandeiam /difundem de mil e uma maneiras. Dia e noite. Sem descanso. E junto com os meios de comunicação social, também as Escolas /Universidades, as Igrejas /Re­ligiões. Todos trabalham dia e noite, domingos incluídos, para que jamais um ser humano nascido de Mulher, se dê conta da Mentira e do Assassínio Institu­cionalizados, que é o Sistema /Mercado Global. O resultado está aí bem à vista de toda a gente. A Cegueira /Superfi­ci­ali­dade /Mediocridade dos seres huma­nos e dos povos é, hoje, praticamente cem por cento! A começar nos Intelectu­ais e a acabar nas Populações-carne-para-canhão-e-para-o-Futebol-dos-Milhões que enchem como Formigueiros Humanos, as grandes cidades da Alie­na­ção e da Inumanidade.

 

5. Perguntaremos: E não há Saí­da?! Há! Mas quem consegue vê-la? Quem consegue dar por ela, se, hoje, tudo é Mercado, até o Acto de Pensar /Projectar /Criar dos seres humanos e dos povos? Há Saída, sim. Só que total­mente Invisível ao Mercado Global que é hoje o nosso Mundo, e a todos os seus agentes históricos, qual deles o mais Cego, todos Guias Cegos e de Ce­gos, a caminho do Abismo. Todos sem ex­cepção. Há Saída, sim, mas sempre fora do Mercado. Há Saída, sim, porque, felizmente, o Mercado /Sistema Global, não é a Matriz Original do Universo, ain­da em expansão desde há 13 mil e 700 milhões de anos. Tão pouco, o Mercado é a Matriz Original do Planeta Terra que Aconteceu, há muitos milhões de anos, no decurso da Evolução. Muito menos, o Mercado é a Matriz Original dos seres humanos e dos povos, de cada ser hu­ma­no e de cada povo, em que o Planeta Terra acaba de se tornar, no último segundo de cem anos, se reduzirmos, artificialmente, os 13 mil e 700 mi­lhões de anos a apenas cem. Sim, em nós, seres humanos e povos, o Plane­ta Terra sente-pensa-reflecte-emocio­na-se-ama-cria-é-Consciência de si e do Universo no seu todo. Só por isso, somos chamados a Cuidar da Terra, do Universo - não dos deuses e das deu­sas - e de nós próprios-em-comu­nhão-uns-com-os-outros-em-total-gratuidade.

 

6. Ser-fazer Eucaristia é Auto-Ex­propriarmo-nos, como seres humanos e como povos, hoje, ainda totalmente apanhados /apropriados pelo Sistema /Mercado Global, o Dinheiro. Por isso, te­mos que escolher: Ou o Mercado /o Dinheiro, ou Nós, os seres humanos e os Povos e o Planeta. Uma vez Auto-Expropriados, conseguimos finalmente dar pela pre­sença em nós, mais íntima a nós que nós próprios, da Matriz Ori­ginal que, desde o princípio da Huma­nidade, somos, por pura Graça, mas que nunca chegamos a dar por ela, por­que os Sacerdotes que, no início, inventaram o Deus-Ídolo, do qual se dizem seus intermediários e represen­tan­tes na Terra, tornaram de todo im­possível que déssemos por ela. Hoje, com o Mercado Global /o Dinheiro, ainda mais impossível é darmos por ela. Mas, também, nunca como hoje, é imperioso regressarmos à nossa Ma­triz Original. E desenvolvermo-nos, a partir dela, sempre de dentro para fora. Nunca mais a partir do Mercado /do Dinheiro. O Mercado /o Dinheiro e os seus agentes históricos – Poder Religioso, Poder Político Armado e Po­der Financeiro – trabalham dia e noite, para que esta Operação, este Nascer de Novo dos seres humanos e dos Povos, nunca Aconteça na História. E estão convencidos de que nunca tal Acontecerá. É bom, para os seres hu­ma­nos e os Povos que eles vivam nes­sa Mentira. Mas já não é bom que os seres humanos e os povos a façamos nossa. Aos seres humanos e aos po­vos cabe SAIRMOS fora do Mercado, quer dizer, fazermo-nos Pobres por opção e por toda a vida; vivermos em Deserto e à Intempérie; na Trincheira. No Mercado (não há outro sítio, já que tudo é Mercado), mas sem nunca ser­mos do Mercado. No Mercado, mas sem­pre contra ele. No Mercado, mas como Pauzinhos na Engrenagem. Até o derrubarmos. Numa palavra, até ser­mos, cada ser humano, cada Povo, EUCARISTIA VIVA. Eucaristia Praticada. Em palavras Século XXI, sermos Política Maiêutica Praticada. Nunca Poder. Nun­ca agente institucional do Sistema /Mer­cado. Nunca Ritos Praticados. Nunca Mis­sas Ritualizadas. Nunca papa-hós­tias. Nunca utentes dos templos e santu­á­rios, geridos por mercenários, de Sa­cer­dotes vestidos! Nunca Poder Político, muito menos Armado. Nunca Poder Fi­nanceiro. Quem de nós se dispõe a avan­çar, já, sem ficar à espera que ou­tros avancem também? Quem de nós aceita Nascer de Novo, hoje mesmo, nes­te Encontro de Espiritualidade Je­suânica? Só com o Novo Ser, o da Ma­triz Original que cada uma, cada um de nós é, único e irrepetível, é também possível um Novo Viver-Agir Humano Maiêutico Desarmado. Primeiro, na clan­des­tinidade, até amadurecermos de dentro para fora. Depois, quando já bem adultos na mesma Fé de Jesus, em Missão Pública, feita de Práticas Mai­êuticas e de Duelos Teológicos De­sar­mados, a desmascarar o Deus-Ídolo /o Dinheiro, que é hoje o Sistema /Mer­ca­do Global, sempre com o objectivo expresso de o Derrubarmos. Até que al­gum dos seus muitos agentes privile­gia­dos institucionais perca a cabeça e decida matar-nos. Só que, nessa altura, apenas conseguirá Matar-nos o corpo. Jamais conseguirá matar-nos a Identi­dade, a Alma, o Ser-Viver-Agir Humano Maiêutico Desarmado! Só Eucaristia assim, só Pão-e-Vinho assim, é que é para a vida do Mundo. As missas rituali­za­das, mentirosamente, chamadas “eu­ca­ris­tias”, que hoje se fazem por aí aos milhões e a propósito de tudo e de na­da – o próprio papa de Roma é a úni­ca coisa que sabe fazer, quando anda de viagem por outros Estados! – são apenas para a Morte da Identidade, da Alma. Primeiro, de quem as faz; e, de­pois, dos que ainda as frequentam. E para a Morte da Identidade, da Alma, do próprio Planeta Terra. Porque são missas, “eucaristias”, que nunca Expro­priam o Planeta Terra, hoje, Pro­prie­da­­de exclusiva do Mercado /Di­nheiro. Muito menos estimulam a Auto-Expro­priação dos seres humanos e dos po­vos que, com essas Missas ritua­lizadas ou sem elas, são cada vez mais egoís­tas /individualistas, como o Sistema Global, nos antípodas do Ser-Viver-Agir Humano Maiêutico De­sar­ma­do que é Jesus, o filho de Maria, o Ninguém! E que há-de ser o ser-viver-agir humano maiêutico desarma­do de todo aquele que faz sua, a mesma Fé de Jesus.



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