Textos do
Jornal Fraternizar

Edição nº 176 de Janeiro/Março 2010(continuação)
 

Frei Betto (2)

Teólogo

O Corruptómetro

 

A Transparência Internacional divul­gou, a 17 de novembro 2009, na Ale­ma­nha, o índice de corrupção no mun­do. Numa escala de 0 (sem corrupção) a 10 (haja lanterna de Diógenes para descobrir um honesto!), o Brasil mere­ceu 3,7 pontos. Avançou da 80.ª posi­ção para a 75.ª, entre 180 nações ana­lisadas. O nosso país equipara-se, ago­ra, à Colômbia, ao Peru e ao Suriname. O país onde há menos corrupção é a Nova Zelândia.

Por que há tanta corrupção no Bra­sil [em Portugal?]? Temos leis, sistema judiciário, polícias e Media atentos. Pre­valece, entretanto, a impunidade – a mãe dos corruptos. Você conhece o no­me de um notório corrupto brasileiro? Ele foi processado e está na cadeia?

Padre António Vieira, no sermão em homenagem à festa de santo António, em 1654, indagava: “O efeito do sal é impedir a corrupção, mas quando a ter­ra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofí­cio de sal, qual será, ou qual pode ser a causa desta corrupção?” A seu ver, havia duas causas principais: a con­tradição de quem deveria salgar, e a incredulidade do povo diante de tantos actos que não correspondiam às palavras.

O corrupto caracteriza-se por não se admitir como tal. Esperto, age movi­do pela ambição de dinheiro. Não é pro­priamente um ladrão. Antes, trata-se de um requintado chantagista, des­ses de conversa frouxa, sorriso amável, salamaleques gentis. Anzol sem isca, peixe não belisca.

O corrupto não se expõe; extorque. Con­sidera a comissão um direito; a por­centagem, pagamento por serviços; o desvio, forma de apropriar-se do que lhe pertence; o caixa dois, investimento elei­toral. Bobos, aqueles que fazem trá­fi­co de influências sem tirarem proveito.

Há muitos tipos de corruptos. O cor­rupto oficial vale-se da função pública para tirar proveitos para si, para a fa­mília e para os amigos. Troca a placa do carro, embarca a mulher com pas­sa­gem custeada pelo erário público, usa cartão de crédito debitável no orça­mento do Estado, faz gastos e obriga o contribuinte a pagar. Considera natu­ral o superfacturamento, a ausência de licitação, a concorrência com cartas mar­cadas.

A lógica do corrupto é corrupta: “Se não aproveito, outro leva vantagem em meu lugar”. O seu único temor é ser apa­nhado em flagrante delito. Não se envergonha de se olhar no espelho, ape­nas teme ver o nome estampado nos jornais. Confiante, jamais imagina a filha pequena a indagar-lhe: “Papá, é verdade que você é corrupto?”

O corrupto não tem nenhum escrú­pulo em dar ou receber caixas de uís­que no Natal, presentes caros de forne­ce­dores ou patrocinar férias de juízes. Afrouxam-no com agrados e, assim, ele relaxa a burocracia que retém as ver­bas públicas.

Há o corrupto privado. Jamais men­cio­na quantias, tão somente insinua, cauteloso. Assim, torna-se o rei da me­tá­fora. Nunca é directo. Fala em circunlóquios, seguro de que o interlocutor saberá ler nas entrelinhas.

O corrupto franciscano pratica o to­ma lá, dá cá. Seu lema é “quem não cho­ra, não mama”. Não ostenta rique­zas, não viaja ao exterior, faz-se de pobretão para melhor encobrir a mara­cu­taia. É o primeiro a indignar-se qu­an­do o assunto é a corrupção que gras­sa pelo país.

O corrupto exibicionista gasta o que não ganha, constrói mansões e caste­los, enche o latifúndio de bois, conven­cido de que puxa-saquismo é amizade e sorriso cúmplice, cegueira. Vangloria-se de sua astúcia ao enganar e mentir.

O corrupto nostálgico orgulha-se do pai ferroviário, da mãe professora, da origem humilde na roça, mas está inti­ma­mente convencido de que, tivessem as mesmas oportunidades de meter a mão na cumbuca, os seus antepassados não a deixariam passar.

O corrupto previdente, calculista, já está de olho na Copa do Mundo, no Bra­sil, em 2014, e nas Olimpíadas do Rio, em 2016. Ele sabe que os jogos Pan-americanos no Rio, em 2007, tive­ram orçamento de R$ 800 milhões e con­sumiram R$ 4 mil milhões.

O corrupto não sorri, agrada; não cumprimenta, estende a mão; não elo­gia, incensa; não possui valores, ape­nas saldo bancário. De tal modo se corrompe, que nem mais percebe que é um corrupto. Julga-se um negociador bem-sucedido.

Melífluo, o corrupto é cheio de de­dos, encosta-se nos honestos para se aproveitar da sua sombra, trata os su­bal­ternos com uma dureza que o faz parecer o mais íntegro dos seres hu­ma­nos. Aliás, o corrupto acredita pia­mente que todos o consideram de uma li­su­ra capaz de causar inveja a madre Teresa de Calcutá.

O corrupto julga-se dotado de uma inteligência que o livra do mundo dos in­génuos e torna-o mais arguto e esper­to do que o comum dos mortais.

Enquanto os corruptos brasileiros não vão para a cadeia, ao menos nós, eleitores, ano que vem, podemos impe­di-los de serem eleitos para funções públicas.

 

Copyright 2009 – FREI BETTO - É proi­bida a reprodução deste artigo em qual­quer meio de comunicação, electró­nico ou impresso, sem autorização. Con­­tacto – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)


 

OUTRAS CARTAS

O olhar da freira e o de Jesus

 

Algures, no país. Freira, devidamente identificada:

 

1. A minha saúde continua tão bem quanto possível e mantenho a autonomia compatível com as minhas circunstâncias [de idade avançada]. Leio bastante e tenho tido a oportunidade de conhecer autores de géneros muito variados. Não dispenso o Le Monde Diplomatique [edição em português] e, na SIC Notícias, o programa 60 minutos, aos sábados. São a minha grande fonte de informação para ter uma visão mais ampla da situação interna­cional. Neste verão, também não saí de cá [casa-convento], mas fiz três visitas que me deram uma grande alegria. A primeira foi a Fátima, para conhecer a igreja nova. Tinha alguns preconceitos em relação a ela, mas tive de me render à sua espantosa beleza. Desprende-se do conjunto uma tal impressão de harmonia que parece quase inacreditável ter a obra sido realizada por uma equipa tão diversificada de artistas. A cruz do exterior deu-me uma sensação de leveza que contrasta com o peso real que eu conhecia. O interior é muito amplo, mas acolhedor. O altar de pedra nua está de acordo com a sobriedade do edifício. No crucifixo, Cristo parece desprender-se da cruz para abraçar a humanidade. Espantoso de humanidade. Tal como a imagem de Maria, muito jovem, muito igual a todos nós. O painel da parede é uma maravilhosa tradução plástica das últimas páginas do Apocalipse, jogando com os símbolos da luz e da água. Só apetece olhar. Na cripta, muito belos os desenhos do Siza, profundos na sua extrema concisão e que dá gosto contemplar enquanto se ouve a música da água que jorra sem cessar. Na Capela do Santíssimo é tão grande a densidade do silêncio, que é preciso um enorme esforço para conseguir vir embora. A segunda visita foi a Viana do Castelo, para conhecer a Biblioteca Municipal, da autoria do Siza Vieira […]. A terceira visita foi à igreja de Santa Maria, no Marco de Canaveses, também obra do Siza. […]. A minha amizade grande a todos vós.

 

R.D. 1

Querida Irmã

Recebi a sua Carta aos amigos.

Alegro-me, por continuar bem.

Já saberá que não me revi absolutamente nada no que escreve sobre a “igreja nova” de Fátima.

Os seus olhos não foram como os de Jesus, quando, no termo da sua Missão, entrou no Templo de Jerusalém. O fausto, então, era ainda maior. Mas ele viu que tudo aquilo não passava de Idolatria, destinada a “comer” as populações. Inclusive, as viúvas pobres. Estava tudo tão demoniacamente montado, que até uma pobre viúva que entrou, quando Jesus também entrou, não quis saber da presença dele ali para nada e foi directa à boca do tesouro do Templo e deitou nele o último cêntimo de que dispunha. O acto escandalizou tanto Jesus, que ele não resistiu: chamou os Doze para que também eles abrissem os olhos e vissem aquele crime. E não se ficou por aí. Pegou em cordas, fez um chicote e expulsou do Templo os vendilhões, nomeadamente, os que vendiam as rolas /pombas que os pobres tinham de comprar para oferecerem em sacrifício ao Ídolo do Templo, no altar dos sacrifícios. De toda aquela imponência idolátrica, não haveria de ficar pedra sobre pedra, disse Jesus. E assim aconteceu, no ano setenta. Até hoje!

Bem sei que a Irmã limita-se a reproduzir nesta sua Carta aos amigos o que nos diz a hierarquia, da mais alta, à menos alta. Só que todas, todos temos obrigação de saber discernir o trigo do joio, a verdade da idolatria /mentira. Só o Ídolo é que precisa de templos e quanto mais imponentes, melhor. Como esse de Fátima. Oitenta milhões de euros. Pagos a pronto! Veja só o descaramento, a sem-vergonha destes eclesiásticos mercenários! Deus-Abbá, o de Jesus e nosso, habita no mais íntimo de nós, é mais íntimo a nós do que nos próprias, nós próprios. Não ouve o que, há quase dois mil anos, nos grita Estêvão, o primeiro mártir da mesma Fé de Jesus, apedrejado até à morte, por dizer do Templo exactamente o contrário do que a Irmã aqui acaba de escrever nesta sua Carta aos amigos?!

Se a Irmã lesse o meu NOVO LIVRO DO APOCALIPSE OU DA REVELAÇÃO, edição AREIAS VIVAS, acabado de editar, certamente, nunca teria escrito esta Carta. Dava-nos Evangelho a comer, em lugar de nos ter dado Idolatria /Mentira a comer. Por mim, não comi, é claro. Repudio tudo. Energicamente! Apenas acolhi com todo o meu afecto a Irmã. Não toda esta Idolatria /Mentira que me enviou. Dou-lhe a minha paz. Num beijo. Mário

 

2. Obrigada pela sua franqueza. Tentei apenas exprimir a minha reacção perante a beleza e não pretendo ser porta-voz de ninguém.

O meu abraço sempre amigo.

 

R.D. 2

Mas é precisamente essa sua reacção, querida Irmã, que me surpreende. Beleza a rodos, tinha o Templo de Jerusalém (lembra-se da rainha de Sabá?!) e veja a diferença entre a sua reacção e a de Jesus. É aqui que bate o ponto. Tamanha dissintonia teológica com Jesus, o que significa? Desculpe tê-la incomodado. Mas como Jesus diz que é preciso nascermos de novo, qualquer que seja a nossa idade…

Um beijinho sororal. Mário


 

DOCUMENTO

 

16.º Encontro de Espiritualidade Jesuânica,

Palavra de Abertura e de enquadramento

Com o vírus Saramago ao ataque e em fundo

 

"Porque dentro do Capitalismo não há salvação, como trabalhar para vivermos, sem, ao mesmo tempo, alimentarmos o Grande Capital?"

Foi com esta fulcral questão, porventura, a mais pertinente do Século XXI e, até, do Terceiro Milénio, que teve lugar, dia 25 de Outubro 2009, quando o vírus Saramago estava fortemente ao ataque, o 16.º Encontro de Espiritualidade Jesuânica, na casa-sede do Jornal Fraternizar, que também o promove e convoca. O Encontro é aberto a quem, ateu ou crente, queira participar. Mas apenas algumas dezenas de mulheres e de homens, das muitas, dos muitos que sabem da iniciativa, fazem por lhe dar corpo. Decididamente, a Espiritualidade Jesuânica não está, nunca esteve, nem nunca estará na moda. As populações preferem outras espiritualidades mais anestesiantes, que as adormeçam e funcionem como catarse do estresse de que o seu quotidiano é feito. Abundam por aí os gurus, as técnicas de relaxar, os livros de receitas que ajudam a adormecer a consciência das pessoas e as pessoas. Ao mesmo tempo que dão muito dinheiro a ganhar a quem vem do fim do Mundo ministrar cursos e mais cursos de espiritualidade sem Sopro, sem Espírito. Um logro de todo o tamanho, mas de que as pessoas não abdicam facilmente. Todas são Mentira, engana-meninos-papa-lhes-o-pão, quer dizer, o dinheiro. Espiritualidade que "puxe" pelo Humano que há em nós, só mesmo a de Jesus, o Crucificado na Cruz do Império, esse mesmo que não se cansa de promover todo o tipo de espiritualidades sem Espírito Maiêutico.

 

Saúdo-vos com a minha Paz que todos os dias bebo na nossa Paz que é Jesus, o carpinteiro, o filho de Maria; e no seu Espírito radicalmente libertador, maiêutico, por isso, sempre ao jei­to da parteira, não ao jeito de Madre Teresa de Calcutá; esse mesmo Espírito que faz dos pobres e dos povos prota­go­nistas-sujeitos na História, não faz assistidos, objectos de assistência. Não ali­men­ta caridadezinhas de nenhuma es­pécie, porque inevitavelmente gera­do­­ras /alimentadoras do que há de mais Infantil em nós, seres humanos.

Nestes dias de meados de Outubro de 2009, em que o vírus Saramago nos invade por todos os lados (não é o seu con­fessado ateísmo que é perigoso: perigoso, até assassino, é o Deus-Ídolo que ele afirma com tanta veemência, quanto mais, fanática e infantilmente, o nega).

Ninguém o diz, mas Saramago, a­pe­sar de Nobel da Literatura 1998, ain­da não saiu do Infantil, vive aterrori­za­do com a ideia de Deus, o das religi­ões, do qual lhe falaram na infância /ado­lescência e com o qual, durante to­da a vida e para onde quer que vá, mes­mo na sua Ilha de Lanzarote, sem­pre tem esbarrado.

Nega-o, para ver se consegue ver-se livre dele. Mas do Deus-Ídolo das re­ligiões, do Religioso, ninguém se vê livre, ninguém o expulsa de si, só pelo facto de se confessar ateu ou agnóstico, muto menos, se, como parece ser o ca­so de Saramago, se passa a fazer do ateísmo uma cruzada, uma causa mili­tante, um anti-teísmo, pretensamente científico.

Do Deus das religiões e, conse­quente­mente, do Poder Religioso, que está na base do Ocidente e do Cris­tianismo (não de Jesus e do seu Movi­mento Político Maiêutico), Cristianismo com que Saramago se diz /confessa em­papado /atado /"cegado" /aterrorizado, só saímos, se nos abrirmos à mesma Fé de Jesus, o Crucificado na Cruz do Império, os do Poder Político, por exi­gên­cias do Templo, os Poder Religioso, os dois Poderes, Religioso e Político, que são, como já aqui temos dito, respe­cti­vamente o braço direito e o braço esquerdo do Ídolo dos Ídolos, o Dinhei­ro Acumulado e Concentrado, hoje, o Grande Sistema Financeiro Global, aí cientificamente organizado (deixou de ser artesanal e local /regional /nacional, para ser Global e cientificamente orga­nizado), por sinal mais activo do que nun­ca, mais determinado do que nunca a roubar, matar e destruir o Humano dos seres humanos e o próprio Planeta Terra, senão mesmo, o próprio Univer­so!

Ora, Saramago diz-se ateu dos Deus das religiões, do Poder Religioso, para ver se se livra dos terrores que traz com ele, desde a infância, como de resto, toda a gente, ou, pelo menos, a esmagadora maioria das populações e dos povos do mundo, uns, ainda reli­gi­osos, outros, já ateus ou agnósticos.

 

Entre o ateu Saramago e um bispo católico residencial, o de Roma, por e­xem­plo, ou uma qualquer outra pessoa religiosa, não há substantiva diferença. Ambos afirmam o mesmo Deus das Reli­giões, do Poder Religioso. Os fiéis do Po­der Religioso, afirmam-no com a prá­tica dos ritos religiosos e dos cultos nos templos; o ateu Saramago e os ateus /agnósticos em geral, afirmam-no com a negação pública desse mesmo Deus, o das religiões, que é, como se sabe, uma outra maneira de o afirmar, ainda que pela negativa. E o mais que fazem é deixarem de frequentar os ritos /cultos religiosos nos templos /paróquias /san­tu­ários e, no limite, rirem-se de tudo isso, achincalharem tudo isso.

Se formos a ver mais profunda­men­te, ambos, ateus e religiosos, afir­mam Deus, o das religiões, do Poder religioso, mas, entretanto, uns e outros continuam aí (e Saramago mais do que ninguém!) a reconhecer, /adorar o Deus /Ídolo dos ídolos, que é o Dinheiro Acu­mulado e Concentrado, e inteiramente rendidos /subjugados ao seu Grande Sistema Financeiro Global, sem chega­rem sequer a ver que ele é mentiroso, gerador de mentira, gerador de pobres e de pobreza em massa, assassino /ge­nocida /ecocida, numa palavra, cru­cificador!

Saramago, ateu, é o grande idóla­tra do nosso tempo, o mais conhecido dentro da Ordem Mundial do Grande Sistema Financeiro Global, até laurea­do por ele com o Nobel da Literatura 1998. E não é por acaso que ele foi ga­lar­doado. O Grande Sistema financei­ro Global sabe o que faz!

Garanto-lhes que jamais concede­rá o Nobel da Literatura e da Paz (este ano, foi para Obama, o presidente da Administração mais assassina do Mundo!) à Bíblia, à biblioteca de 73 livros que mais tem marcado, para bem e para mal, os povos da ter­ra. Sobretudo, jamais concederá esses dois prémios, o da Literatura e o da Paz, a Jesus, o Cru­cificado. E, no entanto, Jesus, que não escreveu nenhum livro, nem fun­dou nenhuma empresa multinacional de fabrico de pão, de peixe, de vestu­ário, de agricultura (nem sequer dava esmolas ou fazia caridadezinha à ma­neira de Madre Teresa de Calcutá), é o Livro Vivo, é a nossa Paz, Desarmada e Crucificada, mas, por isso mesmo, a nossa Paz!

Por ele ser, oportuna e inoportuna­men­te, o Livro Vivo, o Apocalipse vivo, ou a Revelação viva, é que o mataram: Quem? Ora, quem havia de ser? Os do Deus das religiões (do Poder Religioso) e os do Poder Político /Império. Para, em seu lugar, ou ao mesmo tempo, po­de­rem continuar aí a servir /adorar /obe­decer ao cruel, assassino, destrui­dor /descriador do Humano, o Ídolo dos ídolos, o Senhor Dinheiro Acumulado e Concentrado!

 

Em verdade, em verdade vos digo: Só nos vemos livres do Deus das reli­giões, do Poder Religioso, se nos abrir­mos a Jesus e fizermos nossa a sua mesma Fé não religiosa, a única que nos faz progressivamente Humanos, solidários, fraternos, maiêuticos uns para os outros e uns com os outros!

O problema é que, para nos abrir­mos a Jesus e à sua mesma Fé, temos de começar por convertermo-nos, isto é, mudarmos de Deus! Deixarmos o Deus-Ídolo dos ídolos, que é o Dinheiro Acumulado e Concentrado e darmos gua­rida (“Eis que estou à porta e bato…, Apocalipse 3) ao Deus-Abbá, o Criador do Humano em estado de li­ber­dade e de maioridade.

Só que o pri­meiro passo para chegarmos aqui é muito, muito difícil de dar. É a porta por onde temos de entrar é estreita. Consiste em fazermo-nos pobres por opção e por toda a vida, o contrário do que fez /faz Saramago ou o Bispo de Roma, o papa, ou Oba­ma, o presidente do Império norte-americano, ou os poucos do núcleo duro  do Grande Siste­ma Financeiro Globa que hoje ninguém conhece.

 

Quem está disposto? O Homem dos Evangelhos Sinópticos, que já cum­pria todos os mandamentos desde pe­que­no, todos os cultos religiosos, ou to­dos os ateísmos menos um (só não era ateu do Deus-Dinheiro!), não se mos­trou disposto. E afastou-se, triste, de junto de Jesus. Dizem os Evangelhos Sinópticos, que ele se afastou triste, por­que era possuidor de muitos bens. Ou possuidor de desejos de ser possui­dor de muitos bens!

Não outra saída. Quem não se faz pobre por opção e por toda a vida, vive fatalmente caído na Idolatria. Seja reli­gio­so, ou ateu, tanto faz!

E com estas palavras, vamos ao de­bate /conversa, com o tema proposto para este 16.º Encontro de Espirituali­da­de Jesuânica, sem dúvida, a Espiri­tualidade que nem religiosos nem ateus gostam de ouvir falar, muito menos, de fazer sua, praticar.


 

Como trabalhar para vivermos

sem alimentarmos o Grande Capital?

 

Foram bastantes as intervenções na conversa-debate na manhã e na tarde do 16.º Encontro de Espiritualidade Jesuânica. Nota-se que há trabalho de casa, mais numas pessoas do que noutras. A tomada de consciência da originalidade teoló­gica de Jesus é que custa a discer­nir. Ainda nos atra­palha, e muito, a teologia idolátri­ca das Religiões e do Poder Religioso e Eclesiástico. Preci­samos, como discípulas, discípu­los de Jesus, o Crucificado pelo Ídolo das Religiões e do Império, de superar essa teologia idolátrica das Religiões. É por aí que vai, procura ir, a intervenção no debate, do Director do Jornal Frater­nizar. Reproduzi­mo-la aqui. Para que todas, todos possamos regressar a ela.

 

1. O simples enunciado do tema deste 16.º Encontro de Espiritualidade Jesu­ânica, “Porque dentro do Capitalis­mo não há salvação, como trabalhar para vivermos, sem, ao mesmo tempo, alimentarmos o Grande Capital?”, tem de ser gritado sobre os telhados, ensi­nado nas escolas /universidades, nas Igrejas, nas famílias, nos Media, nas associações. Mas gritado /ensinado, antes de mais, com práticas políticas e económicas e sociais quotidianas, as quais nos levam depois a pensar e a fa­lar em consequência.

 

2. Enquanto forem o Grande Siste­ma Financeiro Global e os seus dois braços, direito e esquerdo, a orientar /guiar /governar os Povos e o Mundo, sempre haverá Capitalismo, e Capitalis­mo cada vez mais feroz, cruel, assassi­no. Em consequência, haverá cada vez menos salvação, isto é, cada vez menos Humano nos seres humanos e nos Po­vos do Mundo. Em lugar de crescermos em Humano, crescemos em Inumano. Em lugar de nos criarmos até sermos Liberdade e Maioridade, descriamo-nos até nos tornarmos minhocas, me­nos que minhocas, robots, piores que robots, porque os robots só fazem aqui­lo para que estão programados e nós, descriados do Humano, continuamos a surpreender na nossa capacidade de roubar, matar e destruir. Levaremos até ao limite do absurdo o Caim do mito bí­bli­co do Génesis que Saramago, ce­go que se farta, infantil que se farta, ateu idólatra que se farta, não viu, não vê que é, hoje, o Grande Sistema Fi­nan­ceiro Global em acção cientifica­mente organizada. É tão infantil e tão ingénuo, tão cego quanto isso. Um San­cho Pança e um D. Quixote, os dois num só, que filtra mosquitos e engole ca­melos!

 

3 Porque dentro do Capitalismo não há Humano, ou há cada vez menos Humano, como havemos de trabalhar para vivermos, sem, ao mesmo tempo, engordarmos /reforçarmos o Capital(is­mo), o ídolo dos ídolos?! Eis a questão fulcral do Século XXI e do Terceiro Mi­lé­nio. Pelas leituras bíblicas sugeridas (Ezequiel 47, 1-12; Lucas 5, 1-11; João 21, 1-14), para nos ajudarem maieutica­mente a responder a esta fulcral ques­tão, facil­mente se percebe que não se trata de inventarmos novos trabalhos, novas acti­vidades. Os pescadores do relato de Lucas e de João continuaram a ser pescadores. As águas que saíam do Templo e tornavam salubres /saluta­res /fecundas as águas estagnadas e apodrecidas, ou mesmo mortas, conti­nua­ram a ser águas. Então o que mu­dou? E mudou substantivamente? An­tes, tudo era feito sem a presença /influência de Jesus, isto é, sem o Sopro de Jesus, sem o Espírito de Jesus, sem a Luz que Jesus é, numa palavra, sem a mesma Fé de Jesus, a única que nos abre ao Abbá /Deus, o Pai de Jesus e nosso, que nos faz progressivamente Humanos, até à Liberdade e à Maiori­dade. As leituras bíblicas sugeridas mos­tram que as mesmas actividades, quando passam a ser realizadas, já com a presença /influência /Sopro /Palavra /Ordem /mesma Fé de Jesus, o resultado é totalmente diferente. Não alimentam mais o Capital que mata /envenena /inu­maniza os seres humanos. Apenas produzem vida e vida de qualidade e em abundância para todos. Nas três lei­turas bíblicas sugeridas, apenas na de Ezequiel, que fazia referência ao Templo, de onde saíam as águas salu­bres /fecundas, o Templo desaparece, com a presença de Jesus, do Sopro de Jesus Lá, onde Jesus, o Sopro de Jesus estiver, não há mais Templo! Mantêm-se as águas, mas estas, agora, reben­tam /brotam não do Templo, mas de Je­sus, do seu Sopro. Pelo que, depois de Jesus, permanecer no Templo, servir o Templo é pura alienação, fonte de doença, de corrupção, de farisaísmo, de idolatria religiosa, de humilhação hu­mana.

 

4. Mas então o que é que Jesus não tem e que todos os demais seres humanos temos, uns mais, outros me­nos? Jesus não tem a Idolatria! Jesus nunca é idólatra. Desde a concepção à morte na Cruz do Império, Jesus nun­ca é idólatra. Nunca é religioso. Cheio de Espírito Santo, sim, mas não religio­so. Nunca é ateu /agnóstico, que é uma outra maneira, negativa, de se ser reli­gi­oso. Jesus, porque cheio do Espírito Santo, é simplesmente o Ser Humano, plena, integral e ininterruptamente, aber­to a Deus-Abbá, Criador de filhas /filhos à sua imagem e semelhança, inin­terruptamente aberto ao seu Sopro /Espírito, que o habita em permanência. O Ídolo dos ídolos não tem lugar em Je­sus. Jesus vive cheio do Espírito de Deus-Abbá. Ininterruptamente. Por isso, Jesus é a Fragilidade Humana em pes­soa, desarmado e, finalmente, crucifi­ca­do. E, porque Crucificado, também Res­suscitado. É o Humano em plenitu­de, sem misturas, sem falsificações! É o único Ser Humano integral. Por isso, o único que tem razão. Que está certo. Aquele em quem Deus /Abbá Criador se reconhece plenamente, mas a quem o Ídolo dos ídolos odeia plenamente e, por isso, mata, até o fazer desapare­cer da História e ao seu nome, à sua memória. Felizmente, para nós, Po­vos do Mundo, tudo foi, é, em vão, porque Jesus, no seu Sopro maiêutico, anda sempre aí cada vez mais conspirativo, como o Vento, sem que os dois braços, direito e esquerdo, do Ídolo dos ídolos (o Senhor Dinheiro), consigam saber de onde ele vem e para onde vai, o mes­mo é dizer, sem que eles consigam ter mão nele. Por isso, Jesus é a Grande Boa Notícia de Deus-Abbá, que o Ídolo dos ídolos e os seus dois braços só po­dem odiar, perseguir e matar. Eles sa­bem bem que, ou eles, ou ele. Sa­bem bem que eles e ele, ao mesmo tem­po e no mesmo espaço, não dá. E, se der, é porque eles fabricaram um Jesus à medida deles, que faça esque­cer para sempre o que eles mataram na Cruz do Império, como o Maldito dos malditos.

 

5. Mas aí está: Jesus é assim, o in­te­gralmente Humano, porque, ao con­trário de nós, uns mais, outros menos, resistiu a todo o tipo de Tentação que bate à porta de todos os seres humanos que vimos a este Mundo, já formatado pelo Grande Capital(ismo), como se fosse coisa natural. Quando é o que há de mais anti-natural! As três Tenta­ções do Deserto significam todas as Tentações, que o tentaram, sem suces­so, durante todo o tempo do seu viver na História. Em todas elas, lá está o Ídolo dos ídolos a fazer-se passar por Deus. Mas é o Tentador /o Diabo (em linguagem mítica) /o Inimigo /o Oposi­tor /o Descriador do Humano. É um Deus-Ídolo que não aceita rivais. Esse Deus-Ídolo, sim, que é cruel, não-fiá­vel, cruel, sádico, um filho da puta. Promete tudo e dá tudo a quem incon­di­cionalmente o ado­rar, a quem o re­co­nhecer como o único Deus, o Ídolo dos ídolos. Quem lhe diz que sim, e tem capacidades para tal, passa a inte­grar um dos seus dois braços criados para o servirem dia e noite e, assim, garantirem o seu domínio /senhorio to­tal sobre as populações e os Povos. Uns, os das Religiões, integram o seu braço direito, que é o Poder Religioso. Os ateus /agnósticos, uma outra for­ma de religião secular, integram o seu braço esquerdo, que é o Poder Político, seja nos governos, seja nas Oposições Partidárias. E aí estão os dois, sempre prontos, dia e noite, a servir /adorar /obedecer /fazer a vontade do Deus-Ídolo dos ídolos, o Senhor Dinheiro. E a produzirem vítimas humanas aos milhões e em série, com as quais o Deus-Ídolo dos ídolos se alimenta, como monstruoso e insaciável vampiro!

 

6. Quem, dos seres humanos, resis­timos por toda a vida ao Tentador, o Ído­lo dos ídolos, o Senhor Dinheiro? Es­tamos mesmo a ver: Só mesmo quem se faz pobre por opção e por toda a vida. É o que nos diz, aliás, a primeira condição apresentada pelo Evangelho de Mateus e pelo Evangelho de Lucas, para alguém, entre os seres humanos, poder tornar-se efectivo discípulo de Jesus: "Bem-aventurados as, os que se fazem pobres por opção contra a Po­breza imposta e fabricada pelo Deus-Ídolo dos ídolos". Por outras palavras, quem, por opção e por toda a vida, re­cu­sa integrar o braço direito do Grande Poder Financeiro Global (o Poder Religioso), e /ou o braço esquerdo des­se mesmo Grande Poder Financeiro Global (o Poder Político). Em vez disso, opta por fazer-se pobre por toda a vida e mantém-se por toda a vida próximo dos pobres, das vítimas, dos roubados, dos assassinados, dos destruídos, dos ostracizados por algum dos dois braços do Grande Poder Financeiro Global, ou até pelos dois ao mesmo tempo. Por outras palavras, quem se faz ser huma­no, mulher ou homem, ao jeito do Sa­ma­ritano da parábola lucana, que o mesmo é dizer, ao jeito de Jesus, o Sa­maritano da Humanidade por antono­másia. Então, tudo aquilo que faz, tudo aquilo que diz, tudo aquilo que proje­cta, porque vai animado do Sopro ou­tro, que é o mesmo Sopro de Jesus, não o sopro do Capital(ismo), o Ídolo dos ídolos, ou o Grande Poder Financei­ro Global, traz inevitavelmente abun­dân­cia de peixe para todos (é o que quer dizer no relato teológico da pesca evangélica, a alusão à outra barca), cura /limpa /purifica /fecunda as águas estagnadas /apodrecidas /mortas, nu­ma palavra, tudo no seu ser-viver de mulher, homem se orienta para a vida de toda a gente, tudo se destina a todos, segundo a necessidade de cada qual, tudo se destina a ser-viver e a fazer ser-viver a todos, e em abundân­cia, até sobrar. Porque tudo é feito /dito /projectado em sintonia com o So­pro de Jesus, não em sintonia com o sopro do Senhor Dinheiro ou Grande Poder Financeiro Global, nem em sinto­nia com o sopro de algum dos seus dois braços, o Poder Religioso e o Po­der Político.

 

7. Ou Deus, ou o Dinheiro! Ou Deus-Abbá, Pai/Mãe gerador de filhas, filhos em estado de Liberdade e de Maioridade, ou o Ídolo dos ídolos, pai gerador de Mentira /Idolatria, assassino e gerador de assassinos, de mercená­rios, de Caim! Ou Jesus, o Crucificado pelo Ídolo dos ídolos, na Cruz do Impé­rio, ou César, o do Grande Poder Fi­nan­ceiro Global, Crucificador. Hoje, o Império Financeiro, cada vez menos con­finado a um território! Ou o Ser Hu­mano, simplesmente, ou o Poder, sim­ples­mente! Ou Política Praticada pelos Povos, ou Poder Político praticado por bandos de mercenários contra os Po­vos! Ou a mesma Fé maiêutica de Jesus, ou as Religiões /os Ateísmos. Não es­que­ça­mos, entretanto, que a porta de entrada para a via que leva à vida em abundância para todos, é o próprio Je­sus, o Ser Humano integralmente Hu­ma­no, o que resistiu a toda Tentação e por toda a vida. “Eu sou a porta!” (cf. João 10, 9). Porém, só entra por ela quem se decide a ser e a manter-se pobre por toda a vida, e numa rela­ção orgânica com os pobres, ao jeito da parteira, não ao jeito da Madre Te­resa de Calcutá; pobres que o Gran­de Poder Financeiro Global, assesso­rado pelos seus dois braços, o Poder Reli­gioso e o Poder Político, produz em sé­rie e em massa, numa operação que é o Crime dos crimes. Sem perdão! Es­co­lher é preciso. Escolhamos. Bem.


 

IGREJA / SOCIEDADE

 

Grande Reportagem, assinada por SUSANA CEBALLOS,

que nos chegou da Argentina e que tem tudo a ver connosco em Portugal

De Padres a pais

 

Os padres, hoje, são uma espécie em vias de extinção. O que nem é mau assim. Pelo contrário, é bom. O Espírito de Jesus sabe o que faz. Ele não quer mais, aliás, nunca quis, este modelo de padre celibatário à força. Cada ano, morrem muitos mais do que se ordenam. E, dos que se ordenam, há, depois, aqueles que abandonam. Alguns, ao fim de um ano, dois anos. Basta encontrarem uma jovem por quem, mais ou menos ingénua e infantilmente, se apaixonam. Todas, todos conhecemos casos destes. Não são as novas gerações que são menos generosas. É este modelo de padre /presbítero que está esgotado. Estão agora a querer regressar ao Concílio de Trento (Século XVI) e fazer dos presbíteros "sacerdotes". Uma aberração teológica, à luz da Teologia de Jesus, a única que não é Idolatria. Por isso, ou a Igreja toda se atreve a redescobrir Jesus e prossegue fiel ao seu Espírito, ou desaparecerá, quando morrer o último pároco. Ministério presbiteral, sim. Mas protagonizado por mulheres e por homens, casados ou celibatários, segundo a opção de cada qual. Eis.

 

Segundo o Anuário Pontifício, há, na Argentina, 5648 sacerdotes [presbí­te­ros]. Calcula-se que, ao longo dos úl­ti­mos 20 anos, 1100 deixaram o minis­tério ordenado.

Porquê, depois de um mínimo seis anos de formação específica, eles abandonam o ministério? Será que o abandonam só quando se apaixonam? Ou existem razões que nada têm a ver com o celibato? Como é passar de  "Padre" a "Pai" biológico?

Uma piada interna, entre os católi­cos, garante que ninguém conhece “qu­an­to sabem os jesuítas, quan­tos são os franciscanos e quanto di­nheiro tem o Vaticano.” Podería­mos acrescentar que também ninguém sabe quantos padres deixaram o minis­tério.

Segundo a Igreja, a pessoa que foi ordenada sacerdote, nunca deixa de o ser, mas pode perder, por várias razões, o estado clerical. Se tu que és padre, te quiseres casar dentro das re­gras da igreja, precisas de uma dispen­sa especial do papa!

Aparentemente, desde o ano de 2009, o processo administrativo pode ser gerido por um outro Órgão do Vati­ca­no: a Congregação para o Clero, diz o teólogo Ezequiel Silva. O processo leva anos. Se for concedido, o ex-clé­rigo pode-se casar numa cerimónia na igreja, mas “tudo feito de forma discre­ta, sem qualquer pompa.” O ex-clérigo não pode pregar ou ler as leituras bíbli­cas na Missa, a menos que seja expres­samente autorizado pelo bispo diocesa­no. Também não pode trabalhar em se­minários, ou exercer funções de direc­ção no campo da pastoral, ou gerir bens paroquiais.

Quando os padres abandonam, vão-se sem casa, sem dinheiro, sem tra­balho, sem indemnização e sem qual­quer pensão, nem mesmo temporá­ria. A inserção deles no mundo do tra­balho é difícil, apenas com os estudos teológicos e a experiência pastoral.

"Um amigo disse-me que não a­ban­donou, porque tudo o que ele sabia era para ser padre." Ir trabalhar em quê?, pergunta-se Ruben Dri, um dos que deixou o sacerdócio, já em 1976.

Ao contrário da crença popular, nem todos se vão embora, por se terem apaixonado por uma mulher. Muitos deles, antes disso, desencantaram-se com a própria Igreja.

Em 1983, Nelson Valenti, de 21 anos, tinha um namoro desde o colégio e alguns valores muito claros sobre a ver­dade e a liberdade. Mas despediu-se da sua namorada, deixou os seus estudos de arquitectura na UBA, e en­trou no seminário de Moron.

"Não era o misticismo, mas um pro­fundo desejo de transformar a realida­de e um forte sentimento de que todos precisávamos de Deus".

Aos 26 anos, já era sacerdote. Três anos mais tar­de, já não era! "Ex-padres e divorciados têm algo em comum - afir­ma: A "ex" de um divorciado fica-te com a casa e a ti, padre que abando­nas, a Igreja fica-te com os teus sonhos e os teus ideais".

Valenti lembra que, por entre a hi­per-­inflação, enquanto os seus compa­nhei­ros lutavam para encher as cozi­nhas de sopa, o bispo convidou-o a passe­ar pela Europa. "Não era para fins pastorais. E eu recusei, porque me pareceu escandaloso. O Bispo nunca entendeu o que significava esse concei­to para certos membros do clero".

"Eu adoro cantar e, na altura, cos­tu­mava fazê-lo com uma freira em fes­tas religiosas populares. Fui proibido, porque «não ficava bem». Mas passear pela Europa, enquanto as pessoas pas­sa­vam fome já não ficava mal. Olhar para uma mulher era escandaloso; i­gno­rar um pobre, não!"

Cansado de tantas hipocrisias, vol­tou para casa dos pais. “Os primeiros dias foram difíceis. O mundo parece-te pequeno... sem comunidade, sem actividades. Para muitos, antes, tu és só o Pe. Nelson. Ao saires, já não exis­tes mais, és apenas um traidor. A vida fez-me encontrar com algumas pessoas que, antes, se confessavam comigo. Se­rá que, agora, me evitam com medo que eu vá contar os pecados delas?" -pergunta-se, a rir.

Lembra que precisou de algum tem­po para se acalmar e reorganizar. Nos classificados dos jornais, encon­trou um trabalho de vendedor de publicidade. Com 30 anos, experimentou a sua iniciação sexual com “liberdade e tranquilidade”, e entrou numa fase de descoberta, “muito emocionado”. Rece­beu um diploma de locutor e licenciou-se em Ciências Sociais. Apaixonou-se por uma mulher divorciada e casou com ela.

Após 14 anos de casamento, sepa­rou-se. Tem um filho, Agostinho, o cen­tro de suas preocupações e alegrias. “Como padre nunca senti que precisava de um filho, era o pai de todos. Mas descobri que um filho próprio é o cume da paternidade. Apaixona-me falar com o meu filho sobre a justiça, solidarie­dade e despertar nele, sempre mais, uma liberdade genuína, sem preconcei­tos, que lhe permita levantar voo e fazer a sua própria história". Não ficaria triste se no futuro ele quiser tornar-se padre: “Se o fizer bem, pode ser extremamente feliz”, diz.

Embora desencantado com a insti­tui­ção, não perdeu os seus ideais nem abandonou a sua fé. O filho frequ­enta uma escola católica, e ele, seu pai, ain­da vai à igreja rezar; na sua biblioteca convive com a Bíblia, com a Acumula­ção de Capital, de Rosa Luxemburgo. Esclarece que é a favor do celibato op­cional, porque “é uma consequência do compromisso sacerdotal".

Afirma que está “orgulhoso de ter sido padre. A Igreja que Jesus fundou não é para uma minoria perfeita, eleita ou seleccionada. A Igreja é para aque­les que procuram e se enganam, por isso ela é formada por muito mais pes­soas do que alguns católicos pensam". Ele pensa que "amanhã será melhor." Para isso tornou-se, primeiro, sacerdo­te e, depois, pela mesma razão, aban­do­nou o ministério.

 

SOLIDÃO SOBRE RUÍNAS

Quando o padre William Schefer quebrou a perna, não sabia que parte de sua vida também se quebrava. For­çado a fazer repouso e com escassas visitas da comunidade sacerdotal, ele descobriu que estava sozinho.

“Você começa a meter água. Du­rante o seminário, tem o apoio dos co­le­gas e formadores, mas quando você sai, você vai encontrar um «arranja-te como puderes»", diz. Recém-ordenado, nos anos 92, foi designado para uma paróquia no Parque San Martín de Mer­lo. "Aqui você vê as primeiras diferenças. Aqueles que estão nas igrejas do centro da cidade não passam difi­cul­dades económicas, mas os da peri­feria, sim. Não existe uma estrutura so­li­dária de apoio que compense as defi­ci­ências". Pediu permissão para estu­dar Psicologia Social e foi-lhe negado. Pouco a pouco, começou a amadure­cer a decisão de deixar o sacerdócio e assim o fez.

"Não saí de um dia para outro", lembra. "Marquei uma reunião para dizer adeus ao povo".

Um amigo emprestou-lhe uma casa em Marcos Paz, para onde se mu­dou. "Eu estava a trabalhar como ca­pe­lão na prisão de jovens da região. O Serviço Prisional apreciou o meu tra­balho e formação e ofereceu-me conti­nuar em outra função. Aceitei imediata­mente" - diz.

Quando contou que já não era pa­dre, um colega disse-lhe: "agora, você deixa de ser Gardel, para se tornar um simples cantor." Reconhece que encon­trar um emprego é crucial: "Eu sei que colegas trabalham numa cabine de pedágio ou de aves marinhas. O traba­lho é um integrador social, e se você não faz algo que você gosta você aca­ba deprimido".

Enquanto reorganizava a sua vida, descobriu que estava apaixonado por Natália, uma catequista que havia tra­ba­lhado na sua paróquia. Convencidos do seu amor, casaram-se no civil e só en­tão foram viver juntos. "Ninguém - con­ta Natália - que nos conhecia ficou chocado. Eu, sim, sentia-me um pouco culpada, mas ele nunca mostrou qual­quer preocupação com sua decisão. A relação foi fluindo, eu nunca me senti em competição com Deus", acrescenta.

Guilherme também confirma: "Co­mo não tive uma formação repressiva, a intimidade aconteceu naturalmente, mesmo em uma idade, quando os outros já estão de volta."

Lujan e Guilhermina, suas filhas, 7 e 3 anos, brincam no quintal. "Como sacerdote, no Dia do Pai, davam-me os parabéns, e eu sentia-me estranho por ser pai sem ter gerado, mas - confessa  - eu gostava que mo desejassem. Hoje alegro-me com as vozes das filhas. Com Natália, descobri o amor incondicional e com as minhas filhas, uma dimensão nova e cheia de amor."

A família Schefer não perdeu a fé. As meninas são baptizadas, rezam jun­tos e a imagem de Nossa Senhora de Luján dá as boas-vindas [?!] aos que entram em sua casa. O casal faz parte do "Movimento Verdade e Liberdade", um centro que presta apoio aos padres casados e subscreve as palavras de Je­rónimo Podestá, o bispo que deixou tudo por amor a uma mulher: "Nós não estamos a deixar a Igreja, estamo-nos a aproximar da comunidade".

 

COM ELA E NÃO POR CUASA DELA

Juan Gutierrez nasceu em 1953  nu­ma luxuosa casa de Recoleta. Quando jovem, participou de grupos conservadores, estudou filosofia na UCA. Convencido de que os sacerdotes eram “uma casta superior”, em 1976, en­trou no seminário em Buenos Aires. Lá, conheceu os documentos da Igreja, que pregava uma inequívoca opção pelos pobres e deixou de ser um crítico do movimento de padres da favela pa­ra se tornar um deles.

O seu primeiro destino foi a igreja de San Cayetano em Liniers. Traba­lhou dez anos em diversos bairros da Capital. "Naquele tempo, eu não pode­ria ter tido uma família, porque eram tantas as urgências das pessoas, que não sobrava tempo para mim. Era celi­batário à força", recorda com um sorri­so e continua: "Um cardeal disse-me que o meu trabalho era fácil, porque as pessoas vinham só para a capela. E, para ele, isso era evangelizar, não importava a injustiça social".

Juan come­çou a sentir-se profun­da­mente órfão. Os Padres das perife­rias eram tolerados, mas não eram a­com­pa­nhados. Diante de ameaças de traficantes e polícias, a hierarquia, lon­ge de o apoiar, acusava-o de ”verme­lho” e criticava-o por “fazer política”. Farto de lutar sozinho, comunicou ao car­deal, Jorge Bergoglio, que tinha aca­­bado de decidir sair de padre. Ber­go­glio expressou grande admiração por seu trabalho, manteve o salário recebido por seu trabalho no bairro, mas não lhe ofereceu emprego, nem tentou convencê-lo a ficar. Numa missa, Guti­errez contou ao povo as razões de sua decisão: foi aplaudido de pé.

Os seus pais voltaram a recebê-lo em casa. "É que o celibato não resis­te à razão", comentou seu pai. Um ami­go conseguiu um emprego de ven­da de vinho. Naquela época já estava com uma companheira. "Eu fui com ela, mas não por causa dela", explica ele, mas o relacionamento não continuou. Em 97, conheceu Rosmie, sua esposa. Com ela foi pai de Maria Guadalupe e de Juan Cruz e, além disso, criou Lu­cas e Marcos, dois meninos adoptados por sua mãe. Seus filhos estudam nu­ma escola católica, mas “muito aberta” e mesmo sem lhes ter inculcado ritos, assegura que têm uma relação natural com a Igreja.

Continua a trabalhar no social, no Mi­nistério do Desenvolvimento, "é a mi­nha vocação perene", justifica. Conta: "Quando as crianças nasceram, senti um novo nascimento na minha vida, uma razão fundamental para a vida, uma outra fase do plano divino, mas que já estava escrito no livro da vida. Eu encontrei o amor incondicional e a limitação de não saber como dar-lhes o melhor, ou o receio de não ser um bom pai. E o desejo de que nada de mal lhes acon­teça  e de que sejam boas pessoas".

Alega que não se arrepende da vida passada. Reza, mantém sua fé e uma atitude pessimista em relação à Igreja. "A hipocrisia e a culpabilidade vão sobreviver por muitos anos", prevê. E não deixa de rir, quando reconhece "sem me menosprezar, viver era mais atraente, quando eu era padre."

 

UM AMOR

Hernán Ingelmo criou-se em Neu­quén, onde as visitas do Sr. Jaime de Nevares, "uma espécie de tio-avô", a sua casa eram frequentes. O seu modo de ser, a sua influência na educação e a família foram fundamentais para cor­tar com a sua namorada, abandonar a Bioquímica e entrar no seminário. "Im­pulsionava-me um grande desejo de busca, de heroísmo, de apostar forte­mente na vida", diz. Ordenado aos 25 anos, foi-lhe dada a responsabilidade por um sector periférico.

Foi na década de 90, o desempre­go estava a fazer estragos, e os padres não hesitavam em reclamar juntamente com o povo dos bairros. Em Janeiro de 2003, viajou para a Espanha para fazer uma tese e conheceu Alexandra, uma cordobesa que vinha de um Mes­trado em Chiapas. A paixão foi imedia­ta. Voltou à sua terra e apresentou a situação. "Felizmente, tive um bispo ami­go, tive amigos de fé e uma comuni­da­de acolhedora. Comecei um proces­so de discernimento acompanhado por um psicólogo, com o apoio do bispo.

"E­scolhi morar com Alexandra", recorda e sublinha: "Eu sou um sacer­dote para sempre, mas, sendo casado, não posso exercer nesta Igreja. Diga­mos que `me cancelaram a matrícula.

Hernan trabalhou no escritório de advocacia de seu pai e, em seguida, a nível municipal, no Desenvolvimento Social "para continuar a servir o povo". Sua casa foi construída em terreno da­do por um amigo, e com planta feita e oferecida por uma vizinha. "Aqueles que te amam do jeito que tu és e não pelo que tu tens ou podes dar, esses são os amigos de verdade. Óbvio que os que tinham expectativas de que fos­ses um padre casto, ou um bispo ilus­tre ficaram decepcionados."No entan­to", admite, "é um choque emocional forte deixar de ser uma referência para a comunidade."

Hernan e Alexandra são pais de Tiago, que em breve terá um irmão e, em­bora a mãe não seja católica mili­tan­te, o seu filho é baptizado. Hernan acredita que "se ele é opcional, não imposto, o ce­li­bato é uma instituição muito boa, caso contrário ele transfor­ma-te num ser hostil e misógino. Como meu pai dizia e eu às vezes ouvia ele dizer, os consagrados «não são pesso­as completas, porque eles não se ca­sam e não têm filhos». Eu não comparti­lho dessa ideia do meu pai. Ser pai não me “completa”. Mas dá-me uma ex­pe­riência diferente, nova e sensa­cio­nal. É mais uma oportunidade para aprender, para desenvolver outras ca­pa­cidades emocionais, de chamar a Deus: Papá".

A bem-aventurança evangélica diz: "Bem-aventurados os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus". Os católicos acreditam que a Igreja é mãe [?!]. Mas se assim for, en­tão deve-se perguntar: porque é que tantos filhos dela preferem deixá-la?

 

CHUTANDO A MESA

Quando, em 1990, Wenceslao Mal­donado decidiu deixar o sacerdó­cio, a notícia caiu que nem uma bomba entre seus colegas da congregação salesiana. "Wences", como era chamado, tinha uma carreira eclesiástica brilhan­te. Em 1982, com apenas 42 anos, foi nomeado provincial de Buenos Aires, Santa Cruz e Tierra del Fuego, com 200 religiosos sob seu comando. Foi tam­bém eleito presidente da CAR (Confe­rên­cia dos Religiosos Argentina) e en­frentou o cardeal Raúl Primatesta por causa de uns subsídios concedidos pelo governo militar para a formação dos se­mi­naristas. De acordo com Maldonado, "is­so parecia ser o pagamento pelo si­lên­cio dos bispos".

No meio duma actividade constan­te, Wenceslao começou a notar um gran­de isolamento emocional: "Eu reza­va, comia, cumpria uma agenda pesada, mas não tinha colegas com quem con­ver­sar. Precisava de escrever, de culti­var a minha paixão pela literatura, mas não havia tempo.

Quando a sua função de Provincial terminou, em 1987, perguntou a ele mes­mo: "quem sou?" E a resposta foi "Já não sou padre". Escrevi uma carta com as razões pelas quais estava de saída do ministério: não aceitava o po­der absoluto da Igreja; não cria em Je­sus como o Messias de David; sentia-me só; e, finalmente, os meus ideais ar­tís­ticos foram negligenciados e nega­dos por um dispositivo que nos transfor­mava em vítimas de uma estrutura alheia.

Um superior ofereceu-lhe a possi­bi­li­dade de entrar numa clínica de "res­tauração vocacional" profissional, mas a minha decisão era definitiva. Não foi fácil. "Andei por baixo. Saí sem um tos­tão, sem casa e sem trabalho. Os primei­ros dias só comi alguns biscoitos com mel", recorda.

Com 49 anos e um título de Licen­cia­do em Letras, não conseguia traba­lho. Nas escolas católicas não aceita­vam, para  estatais, não tinha pontua­ção suficiente. Conseguiu umas horas de aulas de Latim, até que um ex-aluno lhe ofereceu um emprego como peda­gogo clínico na Sicília e ele lá foi.

Mas no quebra-cabeças da sua vida, ainda estava a faltar uma peça. Na Itália, conheceu uma mulher, mas o relacionamento não prosperou e perguntou-se porquê. Pouco a pouco, dei­xou de lado a educação recebida, os preconceitos religiosos e morais  e defi­niu-se: “Eu sou homossexual”.

Hoje não está com um parceiro. "Sou um solitário inveterado", diz. Vive austeramente, publica livros de poesia, "que todos aplaudem, mas que poucos compram". Garante que não se arre­pen­de de nada que fez, mas às vezes perde o contacto com pessoas que o sa­cerdócio sempre proporcionava atra­vés dos rituais. Diz que ser coerente não é fácil, mas que é a única maneira de não se tornar neurótico ou amargo. Maldonado diz que é coerente com as suas escolhas e também com as suas correcções. Não é pouco.

 

UM HOMEM SÁBIO

Se muitos ex-padres sabem algu­ma coisa, é que em tempos passados, era muito... pior. Há algumas décadas, se um sacerdote deixava o ministério, era um escândalo que se devia escon­der, inclusive, se eram só seminaristas. Ruben Dri completou 80 anos de idade e há 33 que não celebra missa. "No meu tempo ninguém te informava, qu­an­do um colega abandonava, desco­bría­­mos pelos boatos. Muito menos se nos permitia manter a amizade. A fa­mília, só a podíamos visitar, a cada dois anos", lembra .

Com apenas 12 anos, Dri decidiu que queria ser padre. "Minha mãe era muito religiosa. Além disso, eu queria estudar e na cidade onde eu vivia - Co­lónia Biscocho, em Entre Rios - era impossível", diz. Durante os seus estu­dos, descobriu que gostava do ensino e de política. O primeiro era bem visto, a segunda, proibida".

Já como padre, instalou-se em Re­sis­tência, onde fundou o Colégio Supe­rior Universitário que, com o tempo, se tornou um centro cultural e político, e ele era um dos líderes do Movimento de Sacerdotes para o Terceiro Mundo.

Em 1971, foi sequestrado e encar­cerado. Mas os tempos que vinham aí seriam ainda mais tenebrosos. Ficou dois anos clandestino, e, depois, embora se recusasse a sair, teve que se exi­lar em 1976. No México, conseguiu um emprego de docente numa escola cató­lica.

"Quando eu lhes disse que era ex-padre e marxista, responderam-lhe: «é bom para nós que haja uma outra linha de pensamento». Eu sempre tive o brio de não viver do sacerdócio e de ter um emprego. Por isso estudei Filosofia e Ciências da Educação".

"O ensino era vital", conta. E obser­va: "muitos padres não abandonam, por­que não sabem fazer outra coisa e precisam de uma estrutura de apoio. Às vezes, é mais fácil encontrar uma companheira do que trabalho".

No exílio, começou a fazer terapia e apaixonou-se por uma mulher com quem viveu 11 anos e da qual se sepa­rou. Não tiveram filhos e há vários anos vive com um parceiro. O sacerdócio, ele o deixou, quando "percebi que meu pro­jecto cristão entrava em conflito com a hierarquia da Igreja. O Evangelho exige estar com o povo e os pobres, e a hierarquia da Igreja está no lugar oposto".

Conta que nunca pediu dispensa, porque ele decide a sua vida, não pre­cisa de recorrer a Roma e diz que não tem saudades da vida pastoral, mas sim dos anos 60 e 70, "quando havia proje­ctos e acreditava-se que o país poderia mudar". Hoje, sua agenda está cheia de cursos universitários e seminários. Dri expressa-se com a clareza dos gran­des mestres e a serenidade dos gran­des homens. Não é um frio catedrático. Vive e desperta vida à sua volta.


 

Hans Kung

Anglicanos, de regresso?

 

Um verdadeiro drama: após ter con­trariado os judeus, os muçulmanos, os protestantes e os católicos reformis­tas, o papa Bento ataca agora os anglica­nos. Com 77 milhões de membros, esta forte comunidade cristã é a ter­ceira mais importante depois da Igreja católica romana e da Igreja ortodoxa. O que é que aconteceu?

Após ter reintegrado os discípulos da Fraternidade de São Pio X, o papa gostaria de preencher as fileiras disper­sas da Igreja católica romana com o recrutamento de anglicanos favoráveis a Roma. Estes últimos deveriam poder passar para o lado da Igreja católica romana mais facilmente. Os padres e bispos anglicanos manteriam todavia o seu estatuto, mesmo se fossem casados. Ultra-tradicionalistas de todos países, uni-vos – sob a cúpula de São Pedro! O pescador de homens vai dei­tar as suas redes até à extrema-direita. Mas aí as águas são turvas.

Trata-se de uma dramática mudan­ça de rumo: acabou a época do ecume­nismo baseado num diálogo de igual para igual e numa procura de verdadeira compreensão! Eis que chegou o tempo de desencaminhamento dos padres. Nada mais anti-ecuménico! Va­mos mesmo ao ponto de os dispensar, pelo caminho, da lei medieval relativa ao celibato dos padres, de forma a per­mitir que voltem para o seio da Igreja sob a primazia do papa.

Evidentemente, o actual arcebispo de Cantuária, Rowan Williams, não es­ta­va preparado para esta astúcia da diplomacia do Vaticano. Na dança com o Vaticano, não mediu, visivelmente, as consequências desta pescaria papal em águas anglicanas. De outro modo, teria ele subscrito o lenitivo comunicado do ar­cebispo católico de Westminster? A­que­les que se encontram apanhados nessa armadilha romana não conse­guem perceber que serão apenas pa­dres de segunda categoria no seio da Igreja católica e que os católicos nem sequer terão o direito de assistir aos seus ofícios?

Ironicamente, esse comunicado re­fe­re-se, descaradamente, aos docu­men­tos de natureza verdadeiramente ecu­mé­nica da Anglican Roman Catholic International Commission (Arcic), pa­cientemente elaborados durante as di­fíceis negociações entre o secretariado romano para a unidade dos cristãos e a conferência anglicana de Lambeth ; eles abordavam os problemas da eu­ca­ristia (1971), do sacerdócio e da or­de­nação dos padres (1973), sem es­que­cer a questão da autoridade da Igreja (1976-1981). Ora todos os pe­ritos sabem que esses três documentos assinados por ambas as partes não se baseiam numa vontade de desencami­nhamento mas, pelo contrário, de recon­ciliação.

 

Esses documentos demonstram uma verdadeira vontade de reconcilia­ção e são a base de um reconheci­men­to dos sacramentos anglicanos aos quais o papa Leão XIII, baseando-se em argumentos pouco convincentes, ti­nha negado qualquer valor, em 1896. Ora, da validade dos sacramentos anglicanos depende a validade das cele­brações anglicanas da eucaristia. Seria o primeiro passo para uma hospitali­dade eucarística mútua, uma forma de inter-comunhão e de aproximação pro­gressiva entre católicos e anglicanos. Mas, na altura, a Congregação para a Doutrina da Fé em Roma fez tudo o que pôde para que esses documentos fossem rapidamente postos de parte pelo Vaticano. Chamamos a isso “pôr na prateleira”.

“Aí há demasiada teologia à moda de Küng”, podia ler-se numa nota con­fi­dencial da agência de imprensa cató­li­ca do Vaticano. Eu tinha, de facto, de­dicado a edição inglesa do meu livro “A Igreja”, ao arcebispo de Cantuária da altura, Michael Ramsey; estávamos a 11 de Outubro de 1967, no quinto a­ni­­versário do Concílio Vaticano II. Eu tinha escrito: “Na humilde esperança de que se encontre nas páginas deste livro uma base teológica propícia a um acordo entre as Igrejas de Roma e da Cantuária.”

Encontramos, também aí, uma so­lu­ção à questão lancinante da primazia do papa, que separa, há séculos, não apenas essas duas Igrejas mas também Roma e as Igrejas do Oriente, Roma e as Igrejas reformadas. Uma “retoma da comunidade pastoral entre a Igreja católica e a Igreja anglicana seria pos­sí­vel” se, “por um lado, fosse dada à Igreja de Inglaterra a garantia de po­der conservar de forma plena e inteira a sua constituição eclesiástica autóno­ma sob a primazia de Cantuária” e se “por outro lado, a Igreja de Inglaterra, Church of England, reconhecesse a pri­mazia pastoral do papado como instân­cia suprema de mediação e de concilia­ção entre as Igrejas”. Esperava assim, escrevi eu na altura, que “do império ro­mano pudéssemos passar a uma Co­m­monwealth católica!”

Mas, esse império, Bento XVI tem a firme intenção de o restaurar! Ele não faz concessão alguma ao anglica­nismo; pelo contrário, quer manter e garantir de forma perene o centralismo romano proveniente da Idade Média – mesmo se isso tornar impossível uma unificação das Igrejas cristãs sobre as questões fundamentais. A primazia do papa – considerada por Paulo VI como a “grande pedra” no caminho da uni­da­de das Igrejas – não assume mani­fes­ta­mente a função de “pedra angular da unidade”.

O antigo convite para “juntar-se a Roma” retoma alento, principalmente pela passagem de padres para o outro campo e em maior número possível. Fala-se de meio milhão de anglicanos e de vinte a trinta bispos. E em relação aos outros 76 milhões? Tal estratégia demonstrou os seus limites nos séculos pre­cedentes e vai, na melhor das hipó­teses, levar à criação de uma mini Igre­ja anglicana “unida” a Roma sob a for­ma de dioceses pessoais (e não territo­riais). Mas quais serão as consequên­cias dessa estratégia hoje?

 

1. Continuar o enfraquecimento da Igreja anglicana: no Vaticano, os anti-ecuménicos deleitam-se com a chega­da desses conservadores, enquanto a Igreja anglicana celebra a partida des­ses desmancha-prazeres a soldo dos católicos. Mas, para a Igreja anglicana, esta divisão é mais um elemento corro­sivo. Ela já sofre as consequências, nos Estados Unidos, da nomeação, inutil­men­te imposta, de um padre aberta­men­te homossexual, que põe em peri­go a integridade da diocese e a unida­de de toda a comunidade. A isto acres­ce a atitude ambígua dessa Igreja em relação aos casais homossexuais: nu­me­rosos anglicanos estariam prontos a aceitar um casamento civil com os di­reitos aferentes (de herança, por e­xem­plo) e mesmo um sacramento even­tu­al­mente religioso, mas não um “casa­mento” (reservado há milénios à união entre um homem e uma mulher) com direito de adopção cujas consequên­cias seriam imprevisíveis para as crian­ças. [Não deixa de ser surpreendente que até o teólogo de renome que é Hans Kung advogue um tratamento discriminatório, no âmbito da Igreja de Jesus, em relação aos homossexuais /lésbicas! Simplesmente intolerável!]

 

2. Inquietude generalizada dos fi­eis anglicanos: a partida de padres an­gli­canos e a nova ordenação segundo o rito romano levantam, para muitos anglicanos (incluindo o clero) a questão de saber se os padres anglicanos fo­ram de facto ordenados de forma váli­da. Não seria necessário que os fiéis passassem também para o campo da Igreja católica com os seus padres? O que seria feito então dos edifícios da Igreja, do salários dos padres, etc?

 

3. Desaprovação do clero católico e do povo: o descontentamento suscita­do pela recusa constante de reforma também atingiu os católicos mais fiéis. Desde o concílio, numerosas conferên­ci­as episcopais, muitos padres e uma multidão de fiéis pediram que fosse dado um fim à proibição do casamento dos padres, que data da Idade Média e que já fez desertar quase metade das paróquias. Mas Ratzinger continuou a opor uma recusa tão obstinada como pouco sensata. E agora, os padres cató­licos deveriam tolerar a seu lado a pre­sença de conversos casados? Queren­do casar, seria necessário primeiro tornar-se anglicano, a seguir casar para voltar em seguida às suas convicções?

 

4. Como na altura da cisão entre o Oriente e o Ocidente (século XI); co­mo na altura da Reforma (século XVI); e como na altura do primeiro concílio do Vaticano (século XIX), o desejo de po­der de Roma divide a cristandade e prejudica a própria Igreja. Um verda­deiro drama.


 

Bispo Manuel Clemente

Prémio Pessoa

 

O Poder que não dá ponto sem nó e, por isso, tão pouco dá prémio Pes­soa sem nó, resolveu dar o de 2009 ao Bispo Manuel Clemente, o do Porto. Este é o ano 2010, o dos cem anos da implantação da República, esse “de­mónio” que derru­bou os 800 anos de mo­narquia, durante os quais o cle­ro foi sempre a figura de proa (cle­ro, no­bre­za e povo, lembram-se?!) na­cio­na­lizou grande parte do património da Igre­­ja católica e aprovou a Lei da se­pa­ra­ção entre a Igreja e o Estado. Era, pois, de todo conveniente garantir que o bispo-historia­dor do Porto irá ter ten­to na língua e não se excederá nas su­as críticas à República. Por outro lado, está aí a apro­va­ção do casamento dos homossexuais. A hierarquia católi­ca está contra, mas é preciso que isso não signifique “corte” com o Poder Polí­ti­co socratino. Nada melhor então do que o Prémio Pessoa, instituído pelo EXPRESSO, do sr. Pinto Balsemão, pa­ra o bispo-historiador que hoje é do Porto, mas amanhã poderá muito bem ser o  patriarca de Lisboa, quando o actual titular tiver de resignar aos 75 anos, já à porta. Vejam como até o beato Cavaco Silva se ex­cedeu infantil­mente nos seus elogios ao novo galar­do­ado com o prémio Pes­soa, só porque lhe convém mostrar que está com os bispos e, como eles, está contra o ca­sa­mento dos homossexuais, para que os católicos que ainda vão pelo que a hierarquia diz, votem nele para um se­gundo mandato em Belém! Tudo isto é feito com mestria, a da Per­versão, a da Hipocrisia. E não é que a própria Conferência episcopal, o braço direito do Se­nhor Dinheiro, ficou toda conten­te, ao saber que um dos seus foi o es­co­lhido para o prémio Pessoa 2009? Toda contente, mas também to­da in­vejosa, porque o que ela mais gos­ta­ria é que o prémio tivesse sido atribuído a ela. Sempre chegariam uns milhares de euros (o prémio é de 60.000) a cada um deles. Mas o bispo Clemente não é um homem culto? É, sim senhor. Só que daquele tipo de homem culto que nun­ca chega a ver-denun­ciar o Se­nhor Di­nheiro como o Grande Ídolo que se faz passar por Deus verdadeiro. Ora, homens, mulheres, assim, são cultos, letrados, doutores, mas não são sábios, como Jesus, o filho de Maria!


 

Fernanda Câncio

(com vénia a DN)

Bispos 1, Estado Laico 0

 

Esta Crónica de Fernanda Câncio foi publicada na edição de 11 de Dezembro 2009, no DN. Deveria fazer corar de vergonha os Bispos católicos portugueses. E os clérigos católicos, seus subalternos que se prestam a ser capelães de hospitais públicos contratados e pagos pelo Estado. Onde já vai aquele "Dai de graça o que de graça recebestes" de Jesus que envia as, os seus, "sem bolsa nem alforge"?! Jornal Fraternizar transcreve com vénia. Para ver se nos convertemos a Jesus.

 

Em Setembro de 2007, rebentou a guerra das capelanias. Nunca se viu tal ira na prelatura católica. Qual aborto, qual casamento de pessoas do mesmo sexo: nada foi capaz de levantar os bis­pos como um pré-diploma do Ministério da Saúde, então liderado por Correia de Campos, que, segundo eles, “retirava aos doentes o direito à assistência reli­giosa”, era “um ataque aos mais pobres dos pobres” e seria até, asseveravam, “in­constitucional”. Porquê? Porque, ga­ran­tiam, passava a ser obrigatório so­li­­citar a assistência religiosa por escrito e apenas na admissão no hospital, e esta era restringida às horas das visitas. Com base nesta versão, choveram as críticas: o governo jacobino queria aca­bar com a religião, roubar aos doentes o seu único consolo, negar a extrema-unção aos moribundos.

Quando o diploma apareceu nos jornais, porém, as alegações dos bis­pos provaram ser falsas: os assisten­tes religiosos podiam ter acesso aos doentes a qualquer hora, desde que autorizados para o efeito (tanto pelo doente como pela unidade de saúde) e a solicitação de assistência religiosa podia ser efectuada a qualquer altura do internamento. As razões de queixa da hierarquia católica eram outras: ao colocar a assistência religiosa de acor­do com a lei da liberdade religiosa de 2001, que prevê, de acordo com a Constituição (de 1976!), a igualdade re­­ligiosa, o diploma retirava aos ministros católicos o monopólio desse servi­ço. Os capelães existentes - todos cató­licos - permaneceriam nos hospitais, co­mo funcionários públicos que são (por via da Concordata salazarista de 1940, extinta pela de 2004), até à re­for­ma, mas não haveria mais contrata­ções; os assistentes religiosos de todas as confissões teriam igual acesso aos pacientes e seriam pagos de acordo com a mesma tabela e critérios em regi­me de prestação de serviço.

Mas o burburinho surtiu efeito: o pré-diploma foi, como disse na altura Carlos Azevedo, bispo auxiliar de Lis­boa, “metido na gaveta”. Dois anos passaram. E eis que em Setembro último, em plena campanha para as legislati­vas, era publicado um novo regulamen­to, desta vez sem arrufos nem alarde. À primeira vista, parece ter mudado pouco. A extinção do cargo de capelão mantém-se; o direito a assistência reli­giosa de qualquer confissão está esta­tuído, assim como o direito a recusá-la; as unidades de saúde devem ter lo­cal específico para essa assistência (sem símbolos religiosos específicos de qualquer confissão) e local de culto mis­to. Só que, se os pacientes podem requerer a assistência de qualquer con­fis­são, nem todos os assistentes têm direito a remuneração - só os que se en­contrem vinculados à unidade “por contrato”. E que contrato é este? É “um regime de contrato de trabalho em fun­ções públicas” ou “contrato de presta­ção de serviços”. E o critério? Um assis­tente por 400 camas - e “respeitando a representatividade de cada confissão religiosa”. Tradução: as unidades de saú­de vão continuar a contratar assis­ten­tes católicos em exclusivo e em permanência e os pacientes de outras con­fissões poderão continuar a fazer o mes­mo que antes: a pedir que lhes cha­mem a sua gente, que virá de graça e é se quiser. Igualdade religiosa, faz de conta. Quanto à moral da história, é mu­i­to boa. Mentira, chantagem e cobiça não só não são pecado como dão lucro. E o governo laico socialista tem dias.


 

Banco Alimentar Contra a Fome

Quem sai a ganhar com a recolha

de alimentos à porta dos supermercados?

 

A Primeira Grande Guerra Finan­cei­ra Mundial, hábil e mentirosamente, crismada pelo Grande Capital cada vez mais Acumu­lado e Concentrado de "Crise Financeira", já está no papo, sem que tenha havido necessidade, por parte daquele, de disparar um único tiro, ou de lançar uma única bomba so­bre quaisquer ci­da­des do Planeta. Por­que as popula­ções empobrecidas e de­sempregadas à força, mas anestesia­das com overdo­ses de Publi­ci­dade mentirosa, de nove­las, de trans­missão de jogos de Futebol dos Mi­lhões, de missas de domingo e de pe­regrinações a santuários maria­nos (um eufemismo para esconder a idolatria que todos es­ses cultos, em honra de míticas deusas, são), à mistura com overdoses de vari­a­das acções de Caridadezinha, com desta­que para as iniciativas em grande do já instituciona­lizado Banco Alimen­tar Contra a Fome, acabaram por acei­tar, quase da noite para o dia, que lhes destruíssem todos os direitos laborais e muitos outros que elas e os trabalha­dores por conta de ou­trém haviam con­quistado com muito san­gue, suor e lá­gri­mas, ao longo de su­cessivas gera­ções.

Em sítio nenhum do Mundo, houve, até hoje, Insurreições Populares Desar­madas, sem dúvida, as mais fecundas e também as mais eficazes de todas as Insurreições, já que recusam recor­rer às mesmas armas do Inimigo, o Gran­de Poder Financeiro Global, que é de sua natureza mentiroso e assassino. Nin­guém, das populações empo­bre­cidas e massivamente desemprega­das à força, parece ter-se dado conta do que estava /está verdadeiramente em jogo. E todas aceitaram, com resi­gna­ção, o ge­no­cídio que o Grande Ca­pital tem estado a levar a cabo e já concluiu com êxito, sem nenhuma opo­sição popular e laboral digna desse nome. A verdade é que, ao entrarmos no último ano da primeira década do Terceiro Milénio, as populações do Pla­neta estão hoje ainda mais fragilizadas e mais empobrecidas do que antes, não por falência do Capitalismo, mas pelo esmagador sucesso que o Capita­lis­mo acaba de ter sobre os trabalha­dores e as populações em geral. Por­que foi o Capitalismo que desencadeou a Primeira Guerra Mundial Financeira e, depois, para amortizar os estragos que causou às populações, foi a correr criar e institucionalizar o Banco Alimen­tar Contra a Fome, hoje, com já inúme­ras sucursais ou dependências em ou­tras tantas cidades do nosso país, na Europa e do resto do Mundo. Trabalho por conta doutrem haverá cada vez menos, bancos alimentares contra a fome, haverá cada vez mais. Parece que é da sua função valerem às popu­la­ções empobrecidas e desemprega­das, mas não é verdade. Todos eles são filhos do Capitalismo e destinam-se a Acumular ainda mais o Capital e a Concentrá-lo em cada vez menos mãos. Para disfarçar o seu Crime, pro­mo­ve periódicas recolhas de alimentos nos seus próprios Supermercados, graças ao trabalho gratuito de exércitos de voluntários. Mas as toneladas de ali­mentos recolhidos por estes ingénu­os voluntários são compradas aos Su­permercados do Capital por milhões de pessoas igualmente ingénuas que, ao comprarem para o seu lar, compram tam­bém para o Banco Alimentar Contra a Fome, que o próprio Capital criou e depois faz distribuir por quem "pro­var" que necessita deles. É o que se chama ganhar em dois carrinhos.


Dois padres e dois ateus

na PROVA ORAL, da Antena 3

 

Foi na segunda semana de De­zem­bro 2009 que o saudavelmente ir­re­verente programa Prova Oral, da An­tena 3, pôs no ar dois padres da Igre­ja do Porto e dois ateus confessos, de Lis­boa, um deles responsável pelo Por­­tal Ateu, na internet. Um dos pa­dres é pároco de três paróquias do Marco de Canaveses (isto é que é um monopólio que rende dinheiro que se farta, sem que se produza nada de Hu­mano, quase só ritos mais ou me­nos alienantes, feitos a correr, a des­pachar, venha a nós o vosso dinheiro). O outro é jornalista, precisamente, o director do Jornal Fraternizar. O Padre Pedro, embora do Porto, fez questão de participar, a partir dos estúdios em Lisboa, certamente, para não ter de per­manecer nos estúdios do Porto na companhia do Pe. Mário, não fosse este contagiá-lo com o Sopro libertador e fecundamente dissidente que o anima e alimenta dentro da Igreja do Porto e que deveria animar e alimentar todos os presbíteros e bispos da Igreja cató­lica, que se reclama do nome de Jesus, mas, depois, se apresenta animada e alimentada por outro sopro que tem tudo de domesticador e de desmobili­za­ção cultural e política.

A temática em debate era Deus. Negado pelos ateus. Confessado pelos crentes, no caso, dois padres /presbíte­ros da Igreja do Porto. O padre Mário disse, logo a abrir, que nem gosta deste tipo de debates sobre Deus, sim ou não, porque só servem para nos distrair da Realidade mais real que é o Mundo do Pobre e da Pobreza em massa. Dis­se também que quando falamos de Deus, sempre temos de perguntar de que Deus é que falamos, porque quase sempre o Deus de que falamos é um Ído­lo que inventamos à medida dos nossos egoísmos e interesses. Já o Padre Pedro com o que mais se preo­cupou foi deixar claro que não tinha nada a ver com o pe. Mário, nem com as posições que ele defende. Nem se deu conta de que, com esta sua postu­ra, manifestamente farisaica e discrimi­na­­tória, fez jus ao nome que lhe puse­ram. Porque, como o Pedro, do gru­po dos Doze que Jesus escolheu para an­dar com ele, na hora da verdade, disse que nem sequer conhecia Jesus. De­mar­cou-se tanto de Jesus, que o ne­gou três vezes. Mas que mau gosto, ó Pe. Pedro, pároco de três paróquias!


O “escândalo”

Padre Rui

 

Que tipo de Igreja é esta que orde­na presbítero um jovem formado por ela, e ele, pouco tempo depois de tomar pos­se das paróquias que lhe foram confia­das, no concelho de Celorico de Basto, decide, aos 26 anos de idade, aban­donar o ministério paroquial e "fu­gir" para Espanha, com uma jovem pa­ro­­quia­na de 18 anos? É ainda fiável uma Igreja assim? É uma comunidade de pessoas em estado de liberdade e de maiori­da­de? E como é que, depois deste ca­so, tão mediatizado, tem estado a reagi­r a hie­rar­quia? Enterra a cabeça na areia? Assobia para o ar? Reco­men­da aos fi­éis que redobrem os pedi­dos a Deus (que Deus?!) que envie à Igre­ja "nume­ro­sas e santas vocações sa­cerdotais"? Limita-se a esperar que o caso seja es­­quecido e, até lá, faz de conta que não a­con­teceu nada? Será a hierarquia ecle­si­ástica tão in­fan­til, que não percebe que este caso, asso­ciado aos chocantes e criminosos casos de pedofilia e ou­tros, semeia o des­cré­dito total entre as suas hostes e fora delas? Será que não percebe que não é mais suportável a manuten­ção da perversa lei do celi­bato eclesi­ás­tico? Na verdade, que mal há que um pres­bítero de 26 anos se enamore por uma jovem paroquiana e ambos queiram ca­sar? Não fosse a inu­mana lei do celi­bato, que proíbe os pa­dres de casar - não lhes proíbe a prática sexual, ainda que, se eles a tiverem, ela considere es­sa prática pecado mortal (outro ab­surdo, absolutamente intolerá­vel em seres humanos em estado de Liberdade e de Maioridade!) - e o Pe. Rui tinha ti­­do necessidade de prota­go­nizar este "es­cândalo" e passar este "vexame"? Não agiria como outros ho­mens da sua idade que de­sejem cons­ti­tuir família e ter filhos? Viria daí algum mal ao Mun­do? Não viria, até, bem ao Mundo? Não é o Amor, em ma­tri­mónio ou em celiba­to opcional, vivido no jeito do Cân­tico dos Cân­ticos, que sal­va /humaniza o Mun­do? Serão os bispos católicos, a come­çar pelo de Roma, tão lentos de espírito e tão fora deste nosso sécu­lo XXI, que ainda não percebem que a lei do celi­bato eclesiástico é que é pe­cado, e que quem a mantém em vigor é perverso, mesmo que seja bispo de Roma ou de Braga? Para onde nos querem levar estes "guias cegos"?


O Rebelde, no Porto

 

Depois da apresentação em Lisboa, do livro póstumo O Rebelde, de Manuel de Lima seguiu-se, semanas mais tarde, a sua apresentação no Porto. No Clube dos Fenianos. Pe. Mário voltou a ser convidado para apresentar o livro e o autor. Registamos aqui as suas palavras na apresentação do Porto.

 

Dou-vos a minha Paz. Nela, vai tam­bém a Paz de Manuel de Lima. É ele quem, agora definitivamente vivo, nos reúne, este final de tarde, aqui, no Clube dos Fenianos, no Porto. Bem perto do Seminário que ele, durante 12 anos consecutivos, dos 13 aos 25, frequentou e que, ao tempo, era a grande estru­tu­ra eclesiástica de descriação do Hu­mano, porque exímia e eficiente escola de formação de funcionários eclesiásti­cos, todos homens celibatários à força, sem Causas, sem Projecto de vida, sem Afectos, meras máquinas de produção, a tempo inteiro, de ritos em série nos templos e altares e de catequeses mo­ra­listas, as mais imorais; todos sacer­dotes da Idolatria que faz súbditos, vas­salos adoradores de um Deus com tu­do de Ídolo, mesmo quando estimula os seus fiéis a fazerem caridadezinha que deixa sempre mais ricos os seus pro­motores. E aqui bem perto da Sé Ca­tedral do Porto, o Local, ainda hoje, da Cátedra do Bispo feudal e da sua corte de cónegos e de outros clérigos eu­nucos, entre os quais não falta se­quer um mestre-de-cerimónias, tira-mitra, põe-mitra, entrega-báculo, rece­be-báculo; e em cujo frio lajedo, Manu­el de Lima esteve deitado, de bruços, por longos minutos, no dia da sua orde­na­ção presbiteral e onde, depois, de joelhos, diante do Bispo-Senhor-Dom-Fulano-de-Tal, o Poder eclesiástico em todo o seu esplendor, vestido a rigor, de modo a não deixar transparecer na­da de Humano, sentado na Cátedra, mãos nas mãos do Bispo, ouviu da sua boca a fatal pergunta do Poder monár­quico absoluto aos seus súbditos re­cém-ordenados, “Prometes-me a mim e aos meus sucessores, obediência e reverência?” E Manuel de Lima, ames­tra­do /formatado para repetir o que diz o Ritual, respondeu mecanicamente, “Prometo!” O beijo que recebeu de segui­da do Bispo ordenante na face não foi de afecto, não foi de ternura; foi o bei­jo do Poder, no caso, Poder eclesiás­tico monárquico absoluto, que faz súb­di­tos, vassalos absolutos. E súbdito ab­soluto deveria ser Manuel de Lima, por toda a vida. Felizmente, não foi. Feliz­mente, sim! Para ele próprio, para o Bis­po-Poder (não terá certamente en­ten­dido assim toda a rebeldia de Manu­el), para a Igreja e para o Mundo. Por­que, desde Jesus, Crucificado pelo Po­der, lá está a Liberdade a gritar-nos: “Mais vale obedecer à Liberdade, que ao Poder”. Ou, em palavras do século pri­meiro, do próprio Livro dos Actos dos Apóstolos: “Mais vale obedecer a Deus [= Liberdade], do que aos Ho­mens [do Poder]”. E Manuel de Lima, rebelde desde a primeira hora – esteve à beira de recusar a ordenação, só que o Sistema Eclesiástico não pode sobre­viver sem funcionários atentos, reve­ren­tes e eunucos, para assim se perpe­tuar, correu a repescá-lo à última hora, mesmo na véspera da ordenação (logo verão como isso foi, ao lerem o livro) – foi à Liberdade, não ao Poder Eclesi­ás­tico que prometeu obedecer. Resul­ta­do: Todos os outros que escolhem sa­cri­ficar a Liberdade por toda a vida e obedecer ao Poder como súbditos, vassalos – é a esmagadora maioria – nun­ca mais o entenderam e persegui­ram-no sempre. Ferozmente. A começar pelos familiares, à excepção da Mãe, que não sabia nada de Poder, como é timbre de todas as mães, só percebia de Afectos libertadores, promotores de Autonomia.

O livro O REBELDE é um libelo que nos acusa e nos liberta, nos tira o sono e nos dá asas, nos tira as máscaras e nos deixa mais próximos do que somos, do que havemos de ser, integralmente Hu­manos. E nada mais. Manuel de Lima chama-lhe O REBELDE. Poderia cha­mar-lhe ACUSO!, ou, pela positiva, ESTE EVANGELHO QUE VOS DEIXO.

Nestes tempos de global Banalidade e de global Venalidade – andam am­bas aí à solta, do topo de todo o Insti­tu­cional à base, de modo que só há banais e venais, nem um Homem /Mu­lher, um Humano integral que se apro­veite! – O REBELDE pode bem ter de esperar ainda muitos anos para ser lido, mastigado, entendido, praticado. No Mercado total que é hoje a sociedade – tudo é Mercado e fora do Mercado não há nada, não há salvação, diz-nos mentirosamente a toda a hora a Publici­da­de e até a Universidade – nem Ma­nu­el de Lima, nem este seu livro, Pão Partido e Vinho Derramado que nos dá, têm lugar.

Sei que o vão levar convosco, por­que é um comportamento politicamente correcto fazê-lo. Mas também sei que não aguentarão lê-lo todo, muito menos, comê-lo, ser REBELDES quanto Manuel de Lima. Ele próprio o reco­nhe­ce, logo a abrir o livro, na carta que me escreveu (ele que, antes, nunca me havia encontrado, nem conversado comigo ao vivo!): “Cordiais saudações. Eu, apóstata, me confesso… Não conhe­ço nenhum «confessor» a quem dizer o que me vai na alma. Escolhi-te, por­que és um dissidente do «Sistema Ro­ma­no-Católico». Só um dissidente tem ouvidos para me ler.” E reforça, depois, esta sua convicção, no final do livro, capítulo XXIII, quando, a terminar o ca­pí­tulo, invectiva os grandes detentores do Poder Eclesiástico, porventura, o mais perverso dos Poderes, porque se veste de sagrado e de divino, quer di­zer, de Idolatria:

“Senhores Papas, Cardeais, Bispos, Teólogos e moralistas! Não chegará aos vossos empedernidos ouvidos o cla­mor daqueles que experimentaram, na carne e no espírito, a vossa «mão-de-ferro»? Onde está a vossa «carida­de»? Que resposta à velada hipocrisia que promoveis nas vossas igrejas? Não haverá um «espelho mágico» onde pos­sais VER a vossa própria hipocrisia, «matando», por um lado, e «abençoan­do», por outro?! Despi as vossas roupa­gens imperiais e apresentai-vos com a mesma simplicidade (verdade!) de Je­sus! Mesmo que tal implique o aban­dono da maior parte do «rebanho» que pretensamente conduzis /subju­gais!!! Os que permanecerem serão «verdadeiros» e chamarão aqueles a quem apelidais de «ovelhas tresmalha­das»!”

Desculpem-me a Ternura presbi­teral com que vos falo, ainda mais ago­ra, a concluir. Saibam que é a Ternura que torna implacáveis aquelas /aque­les em quem ela habita como em sua casa. Eis: Em verdade, em verdade vos digo: Somos todos demasiado medío­cres, demasiado banais, demasiado ingénuos por opção, demasiado acomo­da­dos, demasiado sal que perdeu pro­po­sitadamente a força de salgar, dema­siado medrosos, demasiado mesquinhos, demasiado pueris, demasiado pre­gui­çosos, demasiado rotineiros, de­masiado canalhas, demasiado agarra­dos a Privilégios, nem que seja o Privi­légio de ter um barraco, ou um simples lugar cativo debaixo duma ponte onde vamos dormir, para podermos suportar este Homem, Manuel de Lima, e este livro, O REBELDE. Teríamos de nascer de novo, de fora do Sistema. Teríamos, depois, de viver no Sistema, mas sem ja­mais sermos dele. Teríamos de ser OS REBELDES. Mas atenção! O desafio maior nem é sermos outros Manuel de Lima, coisa que estamos longe de que­rer­mos ser. O desafio maior é sermos hoje, século XXI, outros Jesus, a quem o Templo, o Eclesiástico da época, e o Império de turno mataram, na Cruz des­te último. Manuel de Lima tem muito, quase tudo, de Jesus, O Homem! Por ele, havemos de chegar a Jesus. E ser­mos outros Jesus, agora à século XXI. A alegria é completa. A Paz é completa. A Liberdade é completa. Mas é também completo o ostracismo. E são completas a rejeição, a excomunhão, a perda do bom-nome e até do nome.

Mas... o quê? Ainda estão aí a ouvir-me?! Não se foram embora, a dizerem para dentro, baixinho, Duras são estas pa­la­vras, quem pode ouvi-las?! Ainda es­tão aí?! Então, há fundadas razões para termos Esperança!


LIVROS DO TRIMESTRE

 

Verbo Divino / Xabier Pikaza-Abdelmumin Aya

Dicionário das três

RELIGIÕES

Judaísmo-Cristianismo-Islamismo

 

São 1.243 páginas. É uma obra monumental. De consulta obrigatória. X. Pikaza escreveu integralmente as partes referentes ao Judaísmo e ao cristianis­mo. A. Aya, muçulmano desde 1985, é o autor principal da parte dedicada ao Islamismo. J. Velasco e Y. Monturio, islamóloga e organizadora do I Congresso de Mulheres Muçulmanas, colaboraram com Aya na parte dedicada ao Islamismo.

 

Para beneficiarmos ainda mais da obra, será conveniente abstraírmos do facto de os autores sempre falarem das "três religiões monoteístas" e de Moisés, Jesus e Maomé, por esta ordem crono­ló­gica, de "fundadores" das três religi­ões. Porque, em boa verdade, Deus não gosta de religião nenhuma, muito me­nos pode estar na origem do apareci­mento de alguma, por mais que  estas três se digam reveladas por Ele.

Mas é assim, infelizmente, que a Hu­manidade, desde o princípio, enten­deu Deus, Aquele que quer ser adorado, e que até criou os seres humanos para o adorarem. Moisés e Maomé até podem ter pensado Deus assim. Mas Jesus não. A Revolução Teológica de Jesus começa por ele nos revelar que Deus, nosso Abbá, não vai nada nessa coisa da Re­li­gião. Porque Ele não é um ídolo que os humanos têm de cultuar, mas o Cria­dor de filhas, filhos em estado de Li­ber­dade e de Mai­o­ridade, capazes de gerirem o Mun­do e a História co­mo se Ele não exis­tisse.

Infelizmente, es­ta Revolução Teo­ló­gi­ca de Jesus a­in­da não fez o seu per­curso na Humanidade. Mas tem de fazer, sob pena da Humanidade não chegar nunca a sair do Infantil e, por isso, da Irresponsabilidade, da Creti­nice, ao ponto de dizer, Se Deus não existe, então, tudo nos é permitido!, uma afirmação que só o Infantil é ca­paz de conceber e de dizer.

Na Introdução da obra, os dois Au­to­res principais salientam as dezas­seis características que fazem deste "um Dicionário especial": É das reli­giões abraâmicas, monoteístas, profé­t­icas, criacionistas, personalistas, his­tóricas, do Livro, centrado em três pro­fe­tas muito concretos, na fé religiosa, é teológico, das comunidades crentes (povo de Israel, Igrejas, Umma), ecu­mé­nico, universitário, hispano, racio­na­­lizado e que procura responder à experiência orante das três religiões.

Para as, os de Jesus, custa muito vê-lo posto ao mesmo nível de Moisés e de Maomé, quando ele, com a sua Morte Crucificada, se tornou o funda­mento e a fonte da Humanidade-ina­bitada-pelo-Espírito-de-Deus, nosso Abbá. Ecumenismo?! A que preço?

 

Sal Terrae / Carlo Maria Martini

Livres para crer

Uma fé consciente para os jovens

 

O Autor é sobejamente conhecido. É cardeal. Foi papável. Mas Ratzin­ger trocou-lhe as vol­tas e fez-se eleger ele próprio. Que também para isso existe a Cúria romana: para contra­riar o Espí­rito Santo. Dirige-se aos jovens de hoje. A tentar que a Fé ainda os ha­bi­te. Deveria diri­gir-se-lhes de longe dos ambientes eclesiásticos /paroquiais, onde só há Idolatria, a da Fé reli­giosa, essa mesma que matou Jesus, por não suportar a sua Fé e o seu viver maiêuticos.

 

São apenas 174 páginas de lei­tu­ra. Agradável, nomeadamente, para os jovens de ambos os sexos que frequen­tam ainda as catequeses paroquiais da nossa vergonha, ou que já as frequen­ta­ram e abandonaram tudo, no dia em que o bispo diocesano foi ao templo paroquial ungir-lhes a testa com azeite de oliveira e dar-lhes uma pequena bofetada ritual na face. Chama-se a esta paródia ritual, com tudo de Infantil, o Sacramento do Crisma que, no dizer do bispo celebrante, deixa quem o re­cebe cheio de Espírito Santo. Mas é o que depois se vê. Muitos desses jovens, no domingo seguinte, já não põem os pés na missa. Vão-se de vez. Talvez o Es­pírito Santo a isso os leve. Não o que o rito do Bispo lhes comunicou, mas o que misteriosamente habita cada ser humano que vimos a este Mundo, sem que rito algum, ba­ptismo que se cha­me, o comunique. Habita-nos desde o primeiro instante da nossa concep­ção no útero mater­no.

O Autor não é desta boa notícia que parte. Parte do Religioso tradicio­nal católico, ainda que um pouco mais reciclado. Mas o Re­ligioso católico é Idolatria, na conti­nu­a­ção da Idolatria do Paganismo reli­gioso com que o Mo­vimento das, dos de Jesus teve de se haver e, por se atrever a desmasca­rá-la, acabou perseguido pelo Império, até se ter tornado, ele próprio, Idolatria /Paganis­mo religioso, o único culto per­mi­ti­do no Império.

 

O livro tem três partes, depois de abrir com uma breve carta aos jovens, escrita pelo Autor. A primeira parte: "Nós serviremos ao Senhor". A segunda parte: "Sentinelas da manhã". A terceira parte: "Jovens corresponsáveis na Mis­são".

Nesta última parte, há cinco capí­tu­los: 1. Os cinco segredos do crente; 2. A esperança está em nós e no meio de nós; 3. Participar na caridade de Deus; 4. Permanecer em Jesus para ser hoje Igreja viva; 5. Chamados a sair da mediocridade e do medo.

Reconheça-se que, para cardeal católico, já na casa dos 80 anos, a lin­guagem tem algo de saudavelmente atrevido. Mas a mensagem que a atra­vessa deve ainda muito ao Eclesiástico e ao Religioso. Não tem o Sopro da Re­vo­lução Teológica de Jesus. Por isso, não derruba o Império do Vati­cano, nem as suas inúmeras Cúrias dio­cesanas e paroquiais; não perturba os do Poder Político, nem os do Poder Financeiro, hoje, global e assassino.

 

Verbo Divino / J. Rius-Camps e Jenny R.

A mensagem dos Actos dos

Apóstolos no CÓDICE BEZA

Uma comparação com a tradição alexandrina

De Jerusalém à Igreja de Antioquia (1-12)

 

Tem 776 páginas e é apenas o primeiro volume de uma obra monumental, cientificamen­te profunda e de grande impacto nas nossas ro­ti­nas ecle­siásticas e até nas rotinas das nossas universidades católicas, cujas faculdades de Teologia li­mi­tam-se a debitar to­dos os anos mais do mesmo. Uma obra imperdível,  embora só acessível a pessoas já bastante iniciadas no segundo volume do Evangelho de Lucas.

 

Rius-Camps é doutor em Teologia e em Teologia Oriental. No campo bíbli­co, especializou-se na obra de Lucas, sobretudo, nos Actos dos Apóstolos. Jen­ny Read-Heimerdinger é doutora sobre a linguagem dos Actos do Códi­ce Beza, na Universidade de Bangor.

A leitura-estudo desta obra monu­men­tal, em dois volumes de peso, pri­mo­rosamente encadernados, vem aba­lar quase tudo o que as Igrejas cristãs, a começar pela Católica romana, têm andado a ensinar. E, certamente, conti­nuarão a ensinar, mas para seu com­ple­to descrédito. São Igrejas, cujas cúpulas - a hierarquia e os párocos, seus imprescindíveis alter-ego, atentos, obe­dientes e reverentes - não estão nada dispostas a perder algum dos seus inú­meros e obscenos pri­vilégios. Estes fazem delas anti-Jesus-em-acção, mas elas acham que até em Deus man­dam, quanto mais em Jesus. Preferem prosseguir o traba­lho do Grande Inqui­si­dor, a prosseguir as Práticas Maiêu­ti­cas e os Duelos Te­o­ló­gicos desarma­dos de Jesus. Não vá acabarem, elas também, crucifica­das pelo Império a­ctu­al, o Grande Poder Financeiro Global.

"Segundo o Códice Beza - escre­vem os Autores na Introdução - a men­sa­gem dos Actos, sustentada de forma coerente e sistemática, é principalmente de índole teológica, não histórica (...). A diferença entre os dois textos (o ale­xandrino e o texto de Beza) pode com­pa­rar-se à que existe entre uma fotogra­fia a preto e branco e outra a cor, ou entre uma pintura e um modelo de­se­nhado em três dimensões, ou entre uma série de fotografias sucessivas e um filme."

Estamos mesmo a ver que o texto de Beza não foi o que fez percurso na Igreja, pouco ou nada propício ele é a uma interpretação dos começos da Igreja, como a que nos foi imposta, em que o grupo dos Doze dará lugar à Hie­rarquia eclesiástica que, mais tarde, o Império romano impôs como querida por Deus (só pode ser o Ídolo do Impé­rio). Nascer de novo é preciso. E nada melhor do que mergulhar já neste 1.º volume e ficar ansiosamente à espera do segundo.

 

Sal Terrae / Javier Garrido

Evangelização e espiritualidade

O modelo da personalização

 

O livro (517 páginas) tem todo o ar de um tratado, destinado sobretudo a pessoas com nível univer­si­tá­rio. A temática da Evangelização é manifesta­mente actu­al. Mais que oportu­na. Já o modelo da personalização utilizado é discutível. Porque tem muito de teórico e mistu­ra o Acto de Evangelizar com teorias da personalização, coisa que não se vê em Jesus, o Evangelizador de Deus por antonomá­sia. Para quem gostar de semelhante via, pois que se meta pelo livro.

 

Ao longo do livro, deparamos com intuições cheias de interesse, mas, mesmo essas ficam como que oculta­das numa floresta de doutrinação. Ora, a urgência deste início de Terceiro Mi­lénio é Evangelizar os pobres e os po­vos. Ao jeito de Jesus, devidamente actualizado para o nosso Hoje. Esta actualização é sobretudo obra do mes­mo Espírito que habitou em perma­nên­cia Jesus. Daí a Espiritualidade asso­cia­da ao acto de Evangelizar. Mas Es­piritualidade Jesuânica. Não outra qualquer. A Jesuânica consiste em dei­xar o Espírito de Jesus ser Espírito em nós, como Jesus deixou.

Acontece que o Espírito de Jesus é essencialmente Acção, Práticas mai­êuticas, con­fron­tos duélicos desarmados com os teólogos do Ído­lo que se fazem passar por teólogos de Deus. Só que o Deus de Jesus é Cri­ador de filhas, filhos em estado de Liberdade e de Mai­oridade. "Quan­do mantêm os po­bres e os po­vos no Infantil, são teólo­gos mentirosos que urge desmas­ca­rar, não seguir. Mesmo que tenham cátedra cativa nas Universi­dades católicas ou protes­tantes.

Mostra-me as tuas Práticas, dir-te-ei qual o Espírito que te anima. Se as Práticas não forem maiêuticas, como as de Jesus, nem duélicas desarma­das como as de Jesus, não têm o seu Es­pírito como inspiração. Apenas o espírito da Mentira que é a Idolatria.

Não se pode Evangelizar os pobres e os povos, enquanto não resgatarmos Jesus do Religioso que o transformou num ídolo. Sem isso, tudo o que dissermos será mais do mesmo.

 

Editorial Trotta / José M. Castillo

A Humanização de Deus

Ensaio de Cristologia

 

São 380 páginas. Arrojadas. Poucas teólogas, poucos teólogos da Igreja cató­lica e das Igrejas pro­tes­tantes se atreveriam a escrever um livro assim. E, no entan­to, ao man­ter-se dentro do universo da "Cristolo­gia", em vez de saltar para o do Movimento (de) Jesus, o livro, in­du­bitavelmente arroja­do, acaba por "meter" Jesus dentro de um mítico Religioso Eclesiás­tico que ele nunca quis, muito menos, que este se apoderasse dele e da sua Memória subversiva e conspirativa. Ainda assim, é obriga­tório ler-debater este livro.

 

Vejam só um dos muitos exemplos desta "redução" de Jesus ao universo do Religioso, inclusive, do Religioso Ecle­siástico. Vem logo na Introdução:

"Sabemos pelos evangelhos que a história de Jesus foi marcada pelo en­fren­ta­mento com a religião. Um enfren­ta­mento que chegou até ao extremo da exclusão total, até à morte. Isto é, tanto os dirigentes da religião, como o próprio Jesus viram que eles e ele eram incom­pa­tí­veis. Este facto, no seu conjunto, está sobejamente testemunhado nos relatos evangélicos. Pois bem, a questão que en­tão se levanta é saber se aquele en­fren­tamento foi um incidente conjuntural, que pode ocorrer ou não ocorrer, ou se, pelo contrário, no conflito de Jesus com a religião, nos é revelado algo mui­to mais profundo e até radical. Quero dizer, Jesus não se entendeu com os sumos-sacerdo­tes, anciãos, dou­to­res da Lei e fa­riseus, ou o pro­ble­ma é que o projecto de Jesus e o pro­jecto da religião são incom­patíveis? Se fosse efectivamente as­sim, haveria que de­duzir daí que Je­sus pretendeu iniciar um movi­men­to não-religio­so? Lendo os evangelhos com a obje­ctividade que nos é possível, salta à vista que Jesus foi um homem profun­da­mente religioso."

Aqui está. O Autor, arguto como só os jesuítas são capazes, tenta manter Jesus dentro do universo do Religioso, como se Deus, nosso Abbá, gostasse desse universo. Não gosta. E essa é uma das mais surpreendentes vertentes da Revolu­ção Teológica de Jesus, que, pelos vis­tos, nem mesmo Castillo consegue aco­lher, tão revolucionária e chocante ela é. E então ele acha que Jesus o que trouxe foi uma outra compreensão da Religião. Quando, na verdade, Jesus aca­bou com todo o tipo de Religião, de Religioso, enquanto criação nossa, dos seres humanos, já desde os pri­mór­dios da Humanidade. Jesus viu que, por trás de toda a Religião, de to­do o Sagrado, está sempre um Ídolo, obra da nossa mente e, depois, tam­bém das nossas mãos, quando nos me­temos a construir templos e altares, ri­tos e rezas, sacrifícios e missas, sacer­dotes e hierarquias, numa palavra, em­presas religiosas e de turismo religio­so, que garantem muito lucro. É tudo Perverso, Mentiroso, Assassino. Numa palavra, é tudo Idolatria. E é esta Boa Notícia de Jesus que continua hoje sem que Igreja alguma a acolha-viva. Es­pi­ritualidade, sim. Religião, nunca!


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Novo Livro do Apocalipse ou da Revelação

segundo o Jornalista maior, Baptista-Bastos

 

Numa crónica primorosamente escrita, intitulada, "O padre e o poeta, por igual homens" (cf. Jornal de Negócios, de 13 Novembro 2009), o Jornalista maior Baptista-Bastos escreve sobre o Novo Livro do Apocalipse ou da Revelação. Eis, com vénia, as partes que se lhe referem:

 

“(...) Estes episódios emergi­ram-me na memória, conectados com um livro, Novo Livro do A­po­ca­lipse ou da Revelação de um outro exilado do interior, o Pa­dre Mário de Oliveira. É um do­cu­mento notável, atra­vés do qual o autor prossegue a velha luta de clarificação da humanida­de de Jesus contra o filisteismo da sua pretendida divindade. Má­rio de Oliveira, que, durante a guerra colonial, foi preso pela PIDE, e punido pela hierarquia, pelo singelo facto de se opor à carnificina em África, dispara pa­ra todos os lados, com a argu­men­ta­ção, teoria e o assombro­so poder de reflexão que o tor­naram numa voz tão lúcida qu­an­to extremamente incómoda para os poderes constituídos.

O volume extenso e vário, do­cumenta largos períodos de Por­tugal contemporâneo, com um poder analítico invulgar. A Igreja e os seus jerarcas (são no­táveis as interpelações que faz, por exemplo, a D. Manuel Cle­mente, actual bispo do Porto); os políticos e as suas mentiras, a sociedade e as suas resigna­ções; os que escrevem e aquilo que ocultam – eis alguns dos te­mas fulcrais deste livro.

Tal como Daniel Filipe, grande poeta, Mário de Oliveira não se sentiria bem na sua pele, acaso resolvesse calar-se. “A cobardia de quem cala não é o consenti­mento de quem admite; é a de­mis­são de quem declarou a sua pró­pria falência como ser huma­no”, escreveu, certo dia, para um de nós, o admirável autor de “A Invenção do Amor” e “Pá­tria, Lugar de Exílio”. Daniel, co­mo Mário, servia-se das pala­vras para protestar, para se equ­a­cionar como homem e como ci­dadão. O Poeta, como o sa­cer­dote [presbítero], não pode eximir-se das questões da cida­de. Ambos, como os seus traba­lhos, os seus talentos e as suas reflexões, antagonizavam-se com Platão, o qual desmerecia aque­les que participavam na “polis”.

 

Enquanto Mário procura a e­xem­plaridade de Jesus, Daniel Filipe, mais agnóstico do que ateu, procurava respostas para as suas infinitas interrogações. E também como Mário, Daniel fre­quentava a Bíblia (o Evange­lho de João era o texto impres­cindível dos dois) com o cuidado de quem gosta da grande poe­sia. Mas ambos interrogavam e continuam a interrogar. Não há morte, por mais absurda que se­ja, que pare ou interrompa as incertezas e as perguntas do espírito humano. Vamos aos li­vros antigos, na esperança de encontrar, senão soluções, pelo menos lenitivos para as nossas comuns perplexidades. Creio que com este novo livro de Mário de Oliveira continua essa longa ques­tão que o homem continua a formular através dos séculos e nos séculos adiante.

 

Todos os livros são devedores de outros livros, porque a cultura é um ininterrupto diálogo que se pede emprestado. Se este Novo Livro do Apocalipse ou da Revelação constitui um manual de reflexões sobre o tempo e a épo­ca, não deixa de representar um indicador filosófico e histórico indispensável. Folheá-lo com len­ti­dão, lê-lo com curiosidade acti­va, compulsá-lo para aferir dos nos­sos próprios pensamentos, eis uma tarefa estimulante.

Trabalhei com o Padre Mário de Oliveira no jornal de Braga, “Cor­reio do Minho”, cuja reda­c­ção era dirigida por Artur Queiroz, homem de pena temível e cora­ção aberto. (…)

O volume de Mário de Oliveira reafirma, de certo modo, o pri­ma­do do humano sobre os idóla­tras, e a grandeza do homem em todas as circunstâncias”

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Domingo, 28 de Fevereiro 2010

17.º Encontro de Espiritualidade

 

O 17.º Encontro de Es­piritu­a­li­dade Jesuânica, com o Ateís­mo e a Idolatria generali­za­dos em fundo, realiza-se dia 28 de Feverei­ro 2010, último domingo do mês. Como os anteriores, o en­contro decorre entre as 10h e as 17h, na sede do Jornal Fraterni­zar, em S. Pedro da Cova, con­celho de Gondomar. O Encontro é a­ber­to a todas as pessoas, in­dis­tin­ta­mente, cren­­tes, não-cren­tes, agnósti­cas, numa palavra, todos os se­res hu­­­ma­n­os que buscamos o Pão da Es­pirituali­dade que nos faça cres­­cer em Li­ber­dade e chegar à Maiorida­de Humana.

Temática em debate neste En­contro: Ou fazemos crescer cada ser humano e temos fu­turo, ou continuamos demencial­mente a fazer crescer o Capital e nem o Planeta Terra se safa!

Para "trabalho de casa" (as pes­soas que vamos é que "fa­zemos" o Encontro com as nos­sas in­tervenções!), sugere-se, desta vez, uma única leitura: To­do o capítulo 6 do Evangelho de João. Escutemo-lo, como mu­lhe­res, homens deste nosso Sé­culo XXI. E atentemos bem na via proposta por Jesus, até hoje, ainda não escutada /acolhida /digerida /praticada.

Ah! E também não deixemos de nos fazermos acompanhar do farnel para o Almoço-Eucaris­tia, que Partilharemos na Mesa Co­mum. Bem como de algum can­to, de algum Poema, de algu­ma Boa Notícia, para partilhar­mos da parte da tarde.


Nota final, desta edição on-line:

Se ainda não adquiriu o

NOVO LIVRO DO APOCALIPSE OU DA REVELAÇÃO,

não deixe de o fazer quanto antes. Mais vale passar

um dia a pão e água, a privar-se desta Grande Narrativa

Teológica sobre a nossa Sociedade destes 2 últimos anos.

O livro, dado o seu número de páginas, custa 19 euros.

Como Autor, poderei suportar os custos de correio.

O pagamento pode ser feito para este NIB no BES:

0007 0000 0077 5184 2312 3.

Todo o dinheiro apurado destina-se a concluir

a construção do BARRACÃO DE CULTURA,

da Associação AS FORMIGAS DE MACIEIRA,

da qual sou o presidente da A.G.

Conto consigo. Seja comigo um militante

desta Causa Maior.

Mário, director do Jornal Fraternizar

 

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