Textos do
Jornal Fraternizar

Edição nº 176 de Janeiro/Março 2010

PALAVRA DO DIRECTOR A ABRIR

Com esta edição n.º 176, entramos no ano 23 de publicação consecutiva do Jornal Fraternizar. O facto é motivo de intensa e fecunda Eucaristia. Não a dos altares, mas a da vida feita Pão Partido e Repartido e Vinho Derramado pela vida do Mundo. Queremos prosseguir. Com Vocês que, trimestralmente, nos acolhem, partilham de algum do vosso dinheiro, nos estimulam com as vossas críticas e com os vossos aplausos. Sobretudo, com as vossas práticas maiêuticas. Entre uma edição e outra, façamos acontecer Fraternizar ao vivo. Digam e o Director irá encontrar-se convosco nas vossas terras. Bastam 2 ou 3 e haverá Fraternizar vivo. Fico no abraço. E à espera.


 

DESTAQUE

O Livro mais odiado e mais silenciado de Portugal

ENTREVISTA AO AUTOR

 

Um muro de silêncio e de Ódio abateu-se sobre o meu Novo Livro do Apocalipse ou da Revelação apresentado, dia 17 de Outubro 2009, no Barracão de Cultura, em Macieira da Lixa, pelo escritor angolano, LUANDINO VIEIRA. Desde logo, nenhum órgão de comunicação social, apesar de todos terem sido expressamente convidados pela Editora AREIAS VIVAS e por mim próprio, se fez represen­tar na sessão. E todos, à porfia, como a revelarem bem que estão totalmente domados /domesticados pelo amo /senhor /patrão Dinheiro, têm prolongado no tempo esse seu silêncio. O mesmo fizeram os órgãos de comunicação social da Igreja. O Livro é tão incómodo e tão desmascara­dor da Idolatria que se continua a fazer à sombra dos templos do Poder Religioso e dos palácios do Poder Político, que todos preferem ignorá-lo, fazer de conta que ele não está aí, a abrir os olhos da mente e do coração a muitas, muitos. Até as (poucas) livrarias que o aceitam, escondem-no nas prateleiras, para que ninguém que entre o descubra e se deixe seduzir-apaixonar por ele e o leve para casa. Só mesmo quem já sabe dele e o deseja adquirir é que o encontra. Mas depois de muito perguntar por ele!!! Para cúmulo, a única entrevista, conduzida pelo jornalista ANTÓNIO VERÍSSIMO, que um sema­nário de Lisboa aceitou publicar, acabou por não ver a luz, porque o referido semanário auto-sus­pen­deu-se precisamente na semana anterior à publi­cação (vê-la, na íntegra, aqui, já a seguir). Por isso, se ainda não tiverem o livro e quiserem que ele seja a luz dos vossos olhos da mente e do coração, o melhor é dirigirem-se directamente a mim, seu autor, ou à Editora. Com razão, afirmou LUANDINO VIEIRA, na sessão de apresentação: "Ninguém pode ler um versículo que seja deste livro, sem logo se sentir réu". Por isso ele é tão odiado e silenciado.

 

Consideras o Novo Li­vro do Apocalipse ou da Re­velação desde já edita­do, co­mo “livro póstumo”, uma jogada de marketing ou a antevisão da tua morte?

R. Nem jogada de marketing, nem antevisão da morte, ainda que a re­ferência à minha Morte esteja lá de forma explícita, concretamente, no Pró­logo-ao-Amanhã-que-vem, com que o livro de 140 capítulos e de 670 pági­nas conclui /começa. Marketing é coisa que não está, nunca esteve, nunca es­tará nas minhas práticas. Sou feroz­men­te anti-capitalista e anti-Mercado Global e contra todos os seus usos e costumes intrinsecamente perversos. O ministério presbiteral de Evangelizar os Pobres e os Povos, em que estou ecle­sialmente investido, tem a ver com o anúncio da Boa Notícia de Deus e do seu Reino, pa­ra­digmaticamente vi­sua­lizada nas Práticas Maiêuticas de Jesus e nos Duelos Teológicos Desar­mados que ele desenvolveu contra a Idolatria institucionalizada, e que lhe valeram a Morte violenta na Cruz do Império de turno. É por aí que procuro ir. Sempre. O jornalista profissional que sou ajuda-me bastante a fazer passar a Mensagem e a torná-la mais acessí­vel ao comum das pessoas. É um mi­nis­tério de alto risco, em que se pode perder a vida e quase sempre o bom-nome. Como tal, não tem nada a ver com operações de marketing. E, quan­to à Morte, vejo-a com a mesma natu­ralidade e com o mesmo espanto /as­som­bro com que vejo a minha própria concepção no útero de minha mãe e o meu parto, nove meses depois. Qu­an­do ela acontecer, só posso PASSAR por ela com serenidade, de modo a tornar-me definitivamente vivo na mes­ma Fonte da Vida que um dia me fez misteriosamente acontecer, irrepetível e único, no decurso da Evolução.

 

Que papel é que este li­vro pode ter para mudar a forma como a maioria vê a igreja e o seu papel no mundo?

R. Como dizem as duas palavras do título principal, “Apocalipse ou Re­ve­lação”, o livro pretende ajudar mai­eu­ti­camente as pessoas a perceberem a Sociedade e os múltiplos tipos de Ins­titucional que a condicionam e con­di­cionam os nossos quotidianos. Em cada capítulo, em cada versículo, o Texto-com-Espírito tira sempre o véu ideológico e até o véu teológico-idolá­trico com que todo o Institucional, tam­bém o Religioso-Eclesiástico se cobre, para, assim, melhor se fazer passar por bom, quando, por sua natureza, é mentiroso e assassino, como tal, vive só para roubar, matar e destruir. E quando não rouba, nem mata, nem des­­­trói, oprime que se farta as pessoas e os povos, para que elas e eles sejam por toda a vida pessoas e povos infan­tilizados /anestesiados /alienados, cli­entes mais ou menos fanáticos de es­tádios de futebol, o dos Milhões, de cultos em igrejas, basílicas e santuários de nomeada, como os de Fátima S.A., S. Bento da Porta Aberta e Lourdes, em França. Uma lástima. Mas não só faz isto. O meu novo livro também nos abre a Jesus, o da História, e nos mos­tra o caminho que ele é, não só para a Igreja, mas para a Humanidade, já que Jesus não fundou nenhuma Igreja, muito menos, uma Religião e com o que está dia e noite empenhado é com a edificação do que ele, em seu tempo histórico, chamou Reino /Reinado de Deus, que mais não é do que uma Or­dem Mundial outra, com as pessoas e os Povos em estado de liberdade e de maioridade e como protagonistas, todos em redor da mesma Mesa, na mais radical igualdade e na mais ra­di­cal diversidade. Neste particular, o livro é uma surpreendente e fecunda Revolução Teológica que urge conhe­cer /divulgar e… praticar todos os dias, em toda parte!

 

Fátima, nunca mais tem sido, até agora, um campe­ão de vendas. Pelo assun­to que refere, poderá afir­mar-se que o chamado “ter­ceiro segredo de fátima” é essa obra que escreves­te?

R. Não, não é, até porque não há, nunca houve, nunca haverá qual­quer “segredo de Fátima”. Isso é tudo delírio de mentes perturbadas e ater­rorizadas. O meu livro Fátima nunca mais é um livro essencialmente teoló­gico, na linha da Teologia de Jesus que quase ninguém conhece nem quer conhecer, a começar pela própria hie­rarquia da Igreja e os seus muitos pá­rocos mais ou menos mercenários e eunucos, isto é, celibatários, por força da lei /disciplina eclesiástica, não por opção pessoal livre e alegre. Em seu lugar, a hierarquia católica e a genera­lidade das católicas, dos católicos preferem a chamada fé religiosa, cheia de devoções, de ritos, de sacrifícios, de banalidades /venalidades, as mais vergonhosas, horríveis e humilhantes. É, por isso, uma obra profundamente séria que põe a nu toda a Mentira e todo o Crime que Fátima é. Aparições de nossa senhora a três crianças da pa­róquia de Fátima, de Maio a Outu­bro de 1917, são coisas que nunca hou­­ve. O que houve foi uma tosca mon­­tagem concebida e realizada pelo clero da região, habilmente orquestra­da pelo Cónego Formigão que agora, em recompensa, até querem beatificar, e que, na altura, se fez passar por Vis­conde de Montelo. Essa montagem cle­rical foi historicamente facilitada /contextualizada pelas aterrorizadoras pregações da chamada Santa Missão, realizada nas aldeias da região, inspi­ra­das, todas elas, no livro católico mais terrorista de então, que dá pelo nome de Missão Abreviada, da autoria de um tal Padre Manoel do Couto, ca­pelão de freiras em Chaves. Há tam­bém, mas bastante mais tarde, preci­samente, a partir de 1935 em diante, uma outra Fátima, que é a que se veio a impor ao Mundo mais ou menos ater­ro­rizado, a Fátima das chamadas Memórias da Irmã Lúcia, sequestrada, por toda a vida, pelo mesmo clero, pou­co tempo depois da morte dos seus dois primos Francisco e Jacinta Marto, vítimas da pneumónica que assolou a região, e aos quais, pelo que se vê, nem mesmo a senhora de Fátima va­leu!!! E como havia ela de lhes valer, se a senhora de Fátima não existe? Se ela não passa de uma imagem de caco ou de madeira, fabricada por um conhecido santeiro de Braga, uma ima­gem cega, surda e muda que, para sair de um sítio para outro, tem de ser levada em ombros por ingénuos devo­tos? As duas crianças irmãs, arregi­men­tadas, juntamente com a prima Lú­cia, pelo clero para a montagem das “aparições”, acabaram por morrer no mais completo abandono, por parte desse mesmo clero, o qual, entretanto, todos estes anos depois, já conseguiu que ambas fossem beatificadas pelo Estado do Vaticano e não desiste, até que elas venham a ser também canoni­za­das. O clero sabe muito bem que o facto de as duas crianças serem decla­radas oficialmente beatas pelo Estado do Vaticano, dá-lhes muito mais di­nhei­ro a ganhar. E muito mais dinheiro lhes dará a ganhar, se elas passarem à categoria de santos canonizados. Mas não é só o clero que sabe disto. Também o Estado do Vaticano sabe e, por isso, não deixa de vir regular­mente a Fátima pelo dinheiro de que ne­cessita para manter todo aquele seu fausto. Igualmente, as grandes cadei­as do Turismo religioso nacional e in­ter­nacional sabem disso e não que­rem, de modo algum, perder este ren­doso negócio da china português. Ou será que não temos olhos para ver?!

 

Depois de tantos títulos editados, achas que valeu a pena a luta, ou o balan­ço nem é assim tão positi­vo?

R. Obviamente, que valeu a pena. A Sociedade portuguesa, hoje, não é mais a mesma que era antes de os meus livros e o Jornal Frater­ni­zar, já com 22 anos de existência, andarem por aí à solta. Tenho cons­ciência de que esta profunda mudança não se deve apenas aos meus livros. Era o que faltava. Mas não tenho dúvidas de que também se deve, e muito, aos meus livros e ao Frater­nizar, o único jornal em Portugal que pratica o que se pode chamar com propriedade teojornalismo. Aliás, os efeitos positivos dos meus livros hão-de ser ainda muito mais visíveis, daqui a uns 20 /30 anos. Quem cá estiver há-de ver e contar.

 

Há quem ache que o fa­cto de te considerares ain­da padre é um abuso da tua parte, tendo em con­ta as posições desalinha­das que tens face á igreja católica. O que tens a dizer sobre isso?

R. Quem diz semelhante dispa­rate a meu respeito, mostra bem que não sabe o que diz. As minhas posi­ções podem ser, e são, muito desali­nha­das face às da hierarquia da Igreja católica. Mas as posições da hierarquia da Igreja católica são ainda muito mais desalinhadas das de Jesus e do Evan­gelho de Jesus. E ninguém vem dizer, muito menos exigir, que a hierarquia da Igreja católica deveria deixar de se considerar hierarquia da Igreja. E, se alguém o diz, por exemplo, eu pró­prio, neste meu novo livro, a hierar­quia da Igreja católica não faz caso e prossegue na dela, para escândalo dos fiéis, condenados por ela a terem de ser Igreja sem voz nem vez (basta ver, por exemplo, uma missa de do­min­go. Quem, a não ser o clérigo pre­si­dente, tem voz e vez, do princípio ao fim?! E isto há séculos e séculos!)! O que constitui um absurdo. De resto, não são as minhas posições desali­nhadas das cúpulas da Igreja católica, em consequência de serem, procura­rem ser, alinhadas pelo Evangelho de Jesus, que são causa, hoje, de ateísmo cada vez mais generalizado. Causa de ateísmo cada vez mais generalizado, são precisamente as posições desali­nha­das do Evangelho de Jesus, por parte da hierarquia da Igreja católica. Sou padre /presbítero da Igreja do Porto, para Evangelizar os pobres e os Povos e ninguém me pode acusar de o não fazer, oportuna e inoportuna­mente, desde Agosto de 1962, quando fui ordenado presbítero. Por causa de o fazer e de forma bem rasgada e sem paninhos quentes, é que, ao fim de pou­cos meses, deixei de ser coadjutor da Paróquia das Antas; fui compulsiva­mente afastado de professor de Re­ligião e Moral em dois Liceus do Porto; fui expulso, ao fim de quatro meses de actividade, de capelão militar na Guiné-Bissau, ao tempo da Guerra Co­lo­nial; fui compulsivamente afastado, ao fim de 14 meses, da paróquia de Pa­redes de Viadores (Marco de Cana­veses) pelo Bispo Administrador Apos­tó­lico da Diocese, Florentino de Andra­de e Silva; fui duas vezes preso polí­tico em Caxias e outras tantas julgado no Tribunal Plenário do Porto; e, final­mente, desde 21 de Março de 1973, fui compulsivamente afastado da Pa­róquia de Macieira da Lixa, por deci­são puramente arbitrária do Bispo An­tónio Ferreira Gomes. Desde então, fiquei na canonicamente anómala con­dição de presbítero da Igreja do Porto, sem qualquer ofício pastoral oficial. Fosse eu um padre virado para o de­vo­cionismo, para a beatice, para a ca­ri­dadezinha, para o milagrismo, para o moralismo mais obtuso e imoral, para as missas sem Eucaristia e sem Pro­fecia, e que, ainda por cima, rendem muito dinheiro a quem a elas preside, e seria um hoje um mero funcionário eclesiás­tico mais, como tantos outros. Mas não sou. Felizmente. E sabem por­quê? Por­que não foi para isso que eu fui chama­do desde o ventre de mi­nha mãe. Bem pelo contrário. Na peu­gada de Jesus, também eu nasci e vim ao mundo – digo-o como um menino que se experi­menta profundamente amado por Deus-Abbá, nossa Mãe /Pai universal – para dar testemunho da verdade. Por isso me ostracizam tanto, me odeiam tanto. Nada, aliás, que já não tenham feito, paradigma­ti­camente, a Jesus, o carpin­teiro, o filho de Maria (cf. Marcos 6, 3).

 

José Saramago, no seu estilo habitual, refere-se á bíblia como “um manual de maus costumes” que “está cheio de horrores, traições, incestos, carnifi­ci­nas.” Como é que um ho­mem com as tuas posições comenta tais afirmações?

R. E quem de nós, que alguma vez a tenha lido, não sabe que a Bí­blia, em muitas das suas páginas, é efectivamen­te um Manual de maus cos­tu­mes? Quem não sabe que muitas das suas páginas estão cheias de horrores, de traições, de incestos, de adultérios, de assassi­natos, de carnificinas, de pequenos-gran­des genocídios? Basta lermos toda a história do rei David, os crimes que ele cometeu para che­gar a ser o rei das doze tribos unifica­das. E Salomão, seu filho e sucessor, no trono, não é fi­lho de um adultério, logo seguido de um hediondo assassi­nato, o de Urias, marido de Betsabé, que o rei engravi­dou, enquanto o marido dela arriscava a vida, na frente de batalha, ao serviço dos interesses do rei?! Mas o que tem isto de novidade? Afinal, não é essa, ainda hoje, em grande parte, a realida­de quotidiana dos povos do Mundo? De que são feitos, por e­xem­plo, os telejor­nais em todo o Mun­do? Não são quase só más notícias? Crimes, pedofilias, rou­bos, violações, corrupções, guerras, as mais absurdas, como a do Iraque, a da Faixa de Gaza e a do Afe­ganistão? Po­rém, a mesma Bíblia, em muitas outras das suas páginas é, si­multaneamente, um monumento de he­roicidades, de grandeza humana, de audácia, de epo­peias em prol da liber­tação para a liberdade dos povos es­cra­vizados e humilhados. Por isso digo que o nosso José Saramago perdeu uma excelente ocasião para estar ca­lado, ao falar da Bíblia, da forma que falou, tão tenden­ciosa e aberrante­men­te, redutora. Então a Bíblia não são também os gran­­des e imortais Pro­fetas Elias, Isaí­as, Jeremias, Ezequiel, o Livro dos Sal­mos, o Inexcedível Poe­ma de amor erótico não-matrimoniado, chamado Cântico dos Cânticos? So­bre­tudo, a Bíblia judaico-católica não é também e, antes de mais, Jesus, o camponês-carpinteiro, o filho de Maria, que en­fren­tou o Templo de Jerusalém e os seus 18 mil sacerdotes, todos co­mer­ciantes de um Deus-Vampiro, e que faziam daquele espaço um “covil de ladrões”? E que enfrentou, desarmado, o Império Romano e a sua Idolatria, até perder a vida neste Duelo Teoló­gico? À beira destes gigantes de Hu­ma­nidade que se levantaram, desar­ma­dos, contra o Poder Político /Impé­rio, contra o Poder Religioso, contra o Poder Financeiro, e que foram voz e vez dos empobrecidos e oprimidos, defensores até ao derramamento do próprio sangue, dos direitos das víti­mas, o que faz, o que tem feito, José Sa­ramago? Vive burguesmente insta­la­do na sua ilha de Lanzarote, de onde sai de vez em quando para ser aplau­dido e idolatrado por outros semelhan­tes a ele. E as vítimas humanas, hoje, milhares de milhões, que se lixem! En­tre­tanto, e como ele, também eu, pres­bítero da Igreja do Porto, digo que to­das as religiões, católica incluída, são per­ver­sas. Mas eu digo-o, porque co­nheço e todos os dias procuro frequ­en­tar /trilhar a via Jesus, o Crucificado pelos che­fes religiosos do seu país na Cruz do Império de turno. O problema é que, para se poder começar a frequentar /tri­lhar esta via radicalmente libertadora, maiêutica, de Jesus, a pri­meira exigên­cia que nos é feita é que decidamos, por opção livre e alegre, ser pobres, por toda a vida, contra a Pobreza estru­tural e organizada em sistema. E isso, o nosso José Saramago não fez, não faz e, provavelmente, não fará, nos anos que lhe restam de vida na História. Só mesmo a Morte, quan­do chegar, vai fa­zer o que ele não se mostra capaz de fazer. É tão pouco, ou nada, livre, como homem, que não é capaz de uma opção deste calibre hu­mano. Entende, na in­­sen­satez por que se rege todos os di­as e que ele toma erradamente por sa­bedoria, que é muito mais cómodo dizer-se ateu, do que, como ser humano que é, fazer sua a mesma Fé de Jesus, porque, as­sim, pode continuar a viver todos os dias instalado nos privilégios, longe dos empobrecidos da Terra e de todas as inúmeras vítimas do Dinheiro Acu­mu­lado e Concentrado. Só que um ateu assim como ele mais não é do que um idólatra, um adorador atento e reve­ren­te do Ídolo Dinheiro Acumulado e Concentrado, que enche de privilégios os seus adoradores mais prestigiados, ao mesmo tempo que bebe o sangue dos Povos empobrecidos. José Sarama­go, que até escreveu o Ensaio sobre a cegueira, é, neste aspecto, o maior ce­­go. Porque, como os fariseus e dou­to­res da Lei, do tempo e país de Jesus, tam­bém ele diz, com as atitudes que toma e com os slogans que repete aos quatro ventos, “Eu vejo”, quando, afinal, o que ele vê é o Ídolo Dinheiro Acumu­la­do e Concentrado que lhe deu o No­bel da Literatura 1998 e, assim, o do­mes­ticou por completo. E isso é a per­versão das per­versões. Uma perversão que ele não vê, porque não é sequer capaz de ver. Tinha de ser pobre, por opção livre e alegre, e viver organica­mente com os pobres, com os pés no mesmo chão dos pobres, para poder começar a ver. A continuar assim, mor­rerá na sua ce­gueira. O que eu lamen­to e não posso deixar de chorar, incon­solável.

 

És muito crítico em rela­ção aos políticos deste país. Por outro lado, esses po­líticos não te levam muito a sério. O que te le­vou a isso?

R. Os políticos não me levam a sé­rio? Tanto pior para eles e para o país, para os povos e para o Planeta. Mas alguma vez o Poder Político e os seus mercenários ouvem os clamores das suas inúmeras vítimas e os que estão solidários com elas, quando estes, intempestivamente, se levantam como profetas delas, bocas delas, con­tra os que impunemente as fabri­cam? Não votam ao ostracismo todos os pro­fetas que saem em defesa das vítimas? Não os matam, quando é preciso, como mataram Jesus, o bispo Óscar Romero, o teólogo Ellacuría, de El Salvador? Procedem assim, porque são mercenários e não sabem o que são entra­nhas de humanidade. São todos, à direita e à esquerda, no Executivo ou na Oposição, como os espinheiros que só produzem espinhos e abrolhos, quando os povos do Planeta o que reclamam é o pão da Verdade, o pão da Justiça, o pão da Liberdade, o pão da Paz. Sobrecarregam os povos com impostos, enquanto eles vivem refaste­lados nos privilégios. Seres humanos, esses mercenários do Poder Político?! Haja modos! Monstros, é o que todos eles são, para mais ao incondicional serviço do Dinheiro Acumulado e Con­centrado. Outra, muito outra é a Política Praticada pelos Povos. Mas a essa o Poder Político mata-a, para que o Planeta continue a ser coutada do Gran­de Capital e os Povos, desgra­çada carne para canhão. Ou para es­terco!

 

Achas que, mais tarde ou mais cedo, a hierarquia da igreja pode fazer-te jus­tiça e, digamos, dar um pou­quinho de razão ao ide­al que vens publici­tando?

R. Não! Não espero semelhante coisa. Nem a desejo. Seria muito mau sinal. Seria sinal de que eu já estaria a ser menos dissidente na Igreja. Já estaria a ser menos das, dos de Jesus e do Movimento desencadeado por Je­sus e prosseguido pelo seu mesmo Es­pírito Conspirativo. Da hierarquia – Poder sagrado – só posso e devo es­pe­rar Ostracismo, Ódio Teológico. Quando a hierarquia católica desistir de o ser, por ter mudado de Fé e de Deus; quando ela desistir do Ídolo Re­ligião, por ter feito sua a mesma Fé de Jesus, o Crucificado na Cruz do Im­pério; quando ela, finalmente, reconhe­cer Deus, o de Jesus, esse impensável Deus que gosta de Política Praticada pelos Povos, não de Religião; que está com as vítimas dos Opressores, nunca com os algozes ou verdugos que as pro­duzem; que está com os Crucifi­cados e não com os crucificadores, então en­contrar-nos-emos, os bispos e eu pres­bítero com eles, na mesma Trincheira, e viveremos como irmãos em Deserto e à intempérie, definitiva­mente longe dos palácios episcopais, das catedrais, das residências paro­qui­ais, dos tem­plos, dos altares, ape­nas em redor de Mesas Partilhadas e Compartilhadas, nas quais o nosso pró­prio corpo se dá a comer, o nosso próprio sangue se dá a beber. Por outras palavras, somos /seremos todos, bispos e presbíteros, “parteiras” dos Po­vos, em lugar de seus “senhores”, se­nhores dons fulanos de tal! Mas qu­ando chegará esse dia? Vimo-lo já pa­radigmaticamente em Jesus, o Cruci­ficado na Cruz do Império de então. Mas alguma vez veremos esse Dia 1 da Humanidade sapiente-sapiente? Mas então os homens da hierarquia ca­tólica, erradamente cha­ma­dos bis­pos, não fazem questão de continua­rem a ser homens que vivem nos antí­podas de Jesus? Pensemos por brevs mo­mentos. Em boa verdade, o que há de comum entre esses homens da hierar­quia católica e Jesus, o cam­ponês-carpinteiro de Nazaré? O que há de co­mum entre os sumos-sacer­dotes e Jesus? Numa palavra, o que há de comum entre os Crucificadores e os Crucificados? O abismo que os separa não é absolutamente intrans­po­ní­vel?! Eis.


 

Manuel Sérgio

Reitor do Instituto Piaget

Um Livro para o Século XXI

 

1.O autor do Novo Livro do Apoca­li­pse ou da Revelação (2009) é conhe­ci­do em Portugal inteiro, como jornalis­ta, como teólogo e, sobre o mais, como homem livre, diante de todas as intole­rân­cias, designadamente aquelas que são modo de vida. Há, de facto, no au­tor deste livro, o Padre Mário de Olivei­ra, uma forma superior de resistir, de não pactuar com qualquer tipo de tira­nia, de modo muito especial aquelas tiranias que se revestem de poder me­ta­fí­si­co... como a de Salazar, por exemplo! Todavia, no meu modesto en­tender, não encarna apenas, em Má­rio de Oliveira, uma forma, sem ro­deios, de resistência. Há também nele, no nosso País, o alvorecer de uma teo­logia-emancipação, ou seja, de uma teo­logia com o talento certeiro de mul­ti­plicar o humano em si e à sua volta e portanto anticapitalista, antiracista, antieurocêntrica, antidualista sob qual­quer forma e maneira. Como presbí­tero da Igreja do Porto, é um exemplo de vida em que teoria e prática, acção e contemplação, existência privada e existência pública se unem e conjugam, dialecticamente. Personalidade que evo­lui, no tempo e com o tempo, para ele a verdadeira essência do ser huma­no não é um “datum”, nem um “factum”, mas algo por fazer, algo por concretizar, algo por estruturar. Pela razão simples de que a liberdade, em todos e em cada um dos seres humanos, está por fazer, está por concretizar, está por estruturar. Para o Padre Mário de Oliveira, a verda­deira história do mundo não é senão a do progresso da consciência da liber­da­de, donde nasceram a Reforma, a Aufklarung, a Revolução Francesa e os Direitos do Homem. Já se pensou o que seria, hoje, a Igreja de Roma, sem as gran­des rupturas da Modernidade? Se­ria igual ao fundamentalismo doutras re­ligiões, como a Inquisição e a encíclica Quanta Cura (acompanhada de um anexo intitulado Syllabus), que conde­nou a ciência moderna, o liberalismo, o socialismo, a liberdade de imprensa e a soberania do povo, o comprovam.

O Padre Mário de Oliveira, homem culto que é e portanto onde espírito de finura e espírito de geometria ressaltam, surge, na Igreja em Portugal, como um acontecimento cultural onde o mundo e a sociedade entram, pela primeira vez (em Portugal, repete-se) como projectos racionais da compreensão da teologia. Por isso, no Novo Livro do Apocalipse ou da Revelação, pode ler-se a interro­gação: “Desconhecem estes homens eclesiásticos que a glória de Deus con­sis­te em sermos capazes de vivermos na História tão responsavelmente como se Ele não existisse?”. E esta proposta que dirige aos bispos europeus: “Meus irmãos, Bispos de Portugal e da Europa, mudai de Fé e de Deus enquanto é tem­po. Ou então desisti da condução da Igre­ja que vos foi confiada. Porque, a con­tinuardes assim, sois como aqueles cegos de que fala Jesus, que guiam outros  cegos e acabareis a levar o País e a Europa para o abismo” (p. 17). É que (realcemos o realismo clarificador e crítico do autor), “a pobreza em mas­sa, estrutural, é o pecado maior do mundo. É a maior vergonha da Huma­nidade (...). E, para cúmulo da hipocri­sia e da insensatez, ainda nos assanha­mos todos, quando os pobres, os povos empobrecidos do mundo – hoje, a es­ma­gadora maioria da Humanidade – se insurgem com violência (...) contra esta Ordem Económico-financeira que os produz em ritmo cada vez mais ace­le­rado (...). Esta é a cruel realidade do nosso mundo, integrado pela perversa Ordem Mundial do Dinheiro, do Império e do Templo (...). O Pecado que mata e desumaniza é simplesmente este modo não jesuânico de ser e de viver. Ora, com o Perverso, constitutivamente mentiroso e assassino, não há coope­ra­ção possível (...). Perdemos o Norte. Dirige-nos outro Vento, outro Sopro, outro Espírito, que não o de Jesus” (p. 29).

 

2. Até ao século XVII, manteve-se como verdade inconcussa que, embora a paulatina emancipação da razão, a ordem, a paz social e o poder fundamen­tavam-se na unidade religiosa. Sa­be-se o número interminável de guer­ras que a divisão da Igreja Católica proporcionou. E de tal maneira que o deísmo inglês tentou não confundir o Cristianismo com as suas formas con­fessionais e identificá-lo com a religião natural, assegurando-lhe a validade uni­versal que as religiões não possu­em. Avançaram assim, sem retorno, a secularização e a livre crítica, que não esperavam nunca pelo nihil obstat da infalibilidade pontifícia. Daí que os cri­térios que estão por detrás das beati­ficações e das canonizações católico-romanas não sejam aceites por muita cons­ciência vigilante: é que são beatifi­cados e canonizados homens e mulhe­res tão beatos, tão frouxos, tão subser­vi­entes, tão lacaios dos clérigos de tur­no, tão bajuladores do poder eclesiás­tico e clerical (sirvo-me das palavras do autor deste livro), que a figura impo­luta de Jesus, onde a oração e a acção não se excluíam, mas se completavam, neles de certo não se revê. A santidade não está unicamente na oração e no êxtase, mas principalmente no combate implacável contra a Injustiça, contra a Miséria, contra a Exclusão, contra a Mentira, contra o Crime. É caso para questionar-se: por que demora tanto a canonização de D. Óscar Romero que foi assassinado, durante a celebração da missa? De certo, porque ele exalta­va, em ambiente adverso, os valores que também levaram Jesus de Nazaré ao martírio e à morte. E a interrogação justifica-se: será que, no Vaticano, há cardeais incapazes de acompanhar Je­sus no “Ai de vós, ricos”? Recordo as pa­lavras de Nietzsche: “A loucura é rara em indivíduos – mas em grupos, parti­dos, igrejas, nações, ela é a regra”. Por isso, clama o Padre Mário de Oli­veira: “Ai de nós, Igrejas, se não abri­mos os olhos. Se não saímos da ceguei­ra em que nos movimentamos desde há séculos. Se não fazemos o êxodo da Treva para a Luz. Se não mudamos corajosamente de Deus. Se não nos deixamos acolher pelo Deus Vivo, o de Jesus” (pp. 79/80).

A personalidade íntegra, afirmativa e coerente do Padre Mário não escon­de: “Combate político, inteligente e cri­a­dor é preciso. Poder não é preciso. Espiritualidade jesuânica é preciso. Religião não é preciso. Ser pobre por opção e por toda a vida é preciso (...). Dar corpo a uma Ordem Económica mun­­dial assenta na PARTILHA da ri­queza produzida, segundo as necessi­da­des reais de cada pessoa e de cada povo, é preciso. Deixar o Império do Dinheiro à solta, como nestes últimos anos está cada vez mais a suceder em todo o mundo, não é preciso”. Sabe-se, hoje, de forma exaustiva, como o Império do Dinheiro reduz a compre­en­são do mundo à compreensão oci­den­tal do mundo; como, “ao contrário do que pensam os ateus de hoje, o nos­so tempo não é apenas de genera­li­za­do ateísmo” (p. 616), mas da idola­tria do Deus-Dinheiro; como “da banda do Poder, de todo o Poder, também do Religioso e Eclesiástico, nunca pode vir a Luz de que andamos tão necessita­dos” (p. 630); como, vistas bem as coi­sas e que a Justiça vem confirmando, aqui e além, os detentores do Poder são exemplos acabados de total ausên­cia daqueles valores sem os quais impossível se torna viver humanamente e os seus lacaios são videirinhos, hipó­critas, carreiristas, corruptos. E, mani­festando modelar fidelidade a princí­pios e a si mesmo, o Padre Mário escre­ve: “(...) Na origem do Capitalismo e do Grande Capital, está a Teologia Ca­tó­lica Romana, a mesma que justifica o Estado do Vaticano e o poder monár­quico absoluto do seu papa e chefe de estado”(632). E que abençoa os de­tentores do Grande Capital e com eles convive harmoniosamente, não lhes lembrando que, por sua culpa, vivemos num  planeta de milhões e milhões de marginais e marginalizados. Mas, co­mo pode o Papa condenar, sem rebu­ços e sem disfarces, o Poder, o Dinhei­ro, o Luxo, se ele mesmo vive no Luxo, respira Poder e ostenta dinheiro?

       

3. É evidente que o Padre Mário não é a Verdade. Conheço com algum detalhe a América Latina (onde já vivi e que frequento, a miúde, por convite de várias universidades) para nem sempre aceitar uma incontida simpatia por caudilhos que se querem perpetu­ar, per omnia saecula saeculorum, no Poder e que não permitem o menor ade­jo da crítica às suas ordens tonitru­an­tes. Eu mesmo estou no Índex de um deles porque discordei, num congresso internacional, da sua política desporti­va que só servirá (tenho a certeza) para adormecer o povo à recusa da so­ciedade injusta estabelecida. Não, não apoio (rejeito frontalmente!) o Grande Capital que dominava aquele País; discordo tão-só das taras do Po­der em que são pródigos os caudilhos. Mas... adiante! Repito: é evidente que o Padre Mário de Oliveira não é a Ver­dade. Mas trata-se de um  homem que estuda, investiga, luta, sofre, vive, ama, com uma intensidade e pureza, em prol dos seus ideais, que (não sei se exa­gero) faço dele a figura tutelar, em Por­tugal, de uma nova teologia. O que é, para o meu modesto entender, a teo­logia? Se as proposições teológicas têm carácter cognitivo, é a ciência da realidade divina e da realidade que Deus criou. Ora, para mim, as proposi­ções teológicas têm fundamento, na teoria e na prática, de uma figura his­tó­rica: Jesus de Nazaré! Logo, para mim, podem criar-se enunciados ci­en­tíficos (e não ideológicos ou míticos) sobre a vida de Jesus e sobre a sua men­sagem. Deus não é acessível a uma observação directa. A vida de Je­sus, ao invés, é um acontecimento his­tó­rico e se é verdade que uma ciência não é história tão-só, neste caso, a His­tória diz-nos que Jesus não é uma ideia arbitrária ou subjectiva. E que a sua mensagem é verdadeiramente inova­dora, libertadora, emancipadora! O Pa­dre Mário de Oliveira escuta, a todo o instante, as palavras de Jesus: “Deixa que os mortos enterrem os mortos. Tu segue-me!”. E é o que ele faz, com de­sas­sombro e probidade mental: segue Jesus!

Diz o meu amigo e escritor brasi­leiro, Rubem Alves, no seu livro ostra feliz não faz pérola, que “a honestidade dos estúpidos é mil vezes mais perigosa que a mentira dos inteligentes. É da honestidade dos estúpidos que surgem os fanáticos” (p. 159). O autor do Novo Livro do Apocalipse ou da Revelação parece um homem habitado por fortís­simas paixões, mas onde não estão pre­sen­tes apenas as razões do coração. Mário de Oliveira quer ajudar ao nasci­mento de mulheres e de homens livres, à imitação de Jesus. É que Ele “nunca quis prosélitos, nem nunca fez prosé­litos. Quis mulheres e homens livres. Autónomos. Inclusive, dele próprio (...). Ir pela via de Jesus era passar a viver em Deserto, no meio dos demais. Era assumir o mesmo estatuto dos margina­li­zados, dos leprosos. Era ligar-se a eles e ser um deles (...). Quase sempre quem aderia a Jesus e à sua via acaba­va expulso da Sinagoga, do Templo, da família, como os leprosos, e conhe­cia na pele o desprezo dos vizinhos. Tornava-se um maldito” (p. 447). Mário de Oliveira é um teólogo polivalente e audaz. Vivendo nos anos-charneira do outono do salazarismo, da segunda me­tade do século XX e princípios do século XXI, ainda antes de Felicidade Alves, o prior de Belém, já o capelão militar Mário de Oliveira afirmava, pe­rante os seus superiores hierárquicos, na Igreja e no Exército, que a guerra colonial era um crime, “contra os Povos colonizados de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, que reclamavam, com toda a justiça, o direito à autonomia e independência” (p. 643). Só o simplis­mo, a irresponsabilidade ou a maligni­da­de com que a história política se faz, neste País, podem esquecer a figura do Padre Mário de Oliveira, como lu­tador anti-fascista, cortando violenta­men­te com o colaboracionismo ou o absentismo da Igreja do Cardeal Cere­jeira. Por isso, foi julgado e preso, com os aplausos de muitos católicos e das aristocracias terratenentes arcaicas do Norte do País.

 

4. Escreve o autor do Novo Livro do Apocalipse ou da Revelação: “É na Graça e pela Graça que somos huma­nos. No Poder, perdemo-nos como huma­nos. Talvez não saibam, mas a Gra­ça é o outro nome da Política. Como o Demónio é o outro nome do Poder. É por isso que eu digo que só a Política salvará-humanizará. Temos, por isso e urgentemente, de abandonar o paradi­gma do Poder e abrirmo-nos quanto antes ao da Política e da Graça” (p. 509). Só que, “sem a fuga do labirinto do Poder, não haverá Humanidade”, mas “apenas coisas, seres muito agi­tados, robots, competidores, inimigos, assassinos” (p. 511). O Padre Mário aproxima-se assim de Jesus que acon­selhava: “Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a vós mes­mos” – afirmação iniludível da paterni­dade divina e da fraternidade humana. Nessa mesma altura, o que eram a mu­lher, a criança, o velho, o escravo? O romano vencedor e conquistador era duro, egoísta e brutal; a crueldade res­sumbra da sua mentalidade e da sua vida. As Leis das Doze Tábuas, em Roma, diziam formalmente: “Se o filho nascer defeituoso, que o pai o mate, sem demora, nem formalidades, se nas­cer débil que o exponha”. Que direi­tos reconhecia ao escravo a jurispru­dência romana? Nenhum! Porque em Roma o escravo não passa de instru­menti genus vocale, um instrumento com voz humana! Por sobre tudo isto, ergueu-se a voz de Jesus, proclamando a fraternidade universal. E aos discípu­los adianta que não os trata por servos, trata-os por amigos, “porque tudo o que ouvi a meu Pai vo-lo dei a conhecer”. E, senhor da Verdade, Ele não se en­tre­gou, sobre o mais, a uma vida con­templativa, não aconselhou a ninguém a virgindade e o celibato, mas deitou-se ao caminho, anunciando pela pala­vra e pelo exemplo a Boa Nova. Curou os enfermos, ressuscitou os mortos, deu-se todo a todos... até ao sacrifício da própria vida. Conheceu a vida, não se refugiou no convento, mas distin­guiu-se por uma intensa actividade social e uma incansável mobilidade pastoral.

O Padre Mário, procurando imitar Jesus, diz-nos como vive: “Sempre tra­balhei muito. E trabalho. Sempre estu­dei muito. E estudo. Sempre me entreguei muito aos outros. E entrego. Sem­pre fui homem de Causas. E sou. Sem­pre vivi totalmente casado com a liber­dade. E vivo. Sempre fui irmão univer­sal. E sou. Sempre fui pobre por opção. E sou. Cada vez mais (...). Os poucos bens de que dispus ao longo dos anos e disponho hoje no dia a dia são ali­mento, não são prisão. Tomo-os ao longo de cada dia como o Pão e o Vi­nho da Eucaristia viva que sou todos os dias para os demais”. Há, de facto, em Jesus uma nova concepção do ser humano, filho de Deus e Irmão de todas as mulheres e de todos os homens. Par­tindo destas premissas, o Padre Má­rio não esconde um pensamento dialé­ctico onde o infinitamente grande e o in­fi­nitamente pequeno, porque são infi­nitamente contrários, caminham para uma síntese superior, que torna estes dois termos inteligíveis e se afirma co­mo uma racionalidade superior, onde as razões da razão e as razões do cora­ção encontram sentido. Jesus fez este mesmo itinerário – um itinerário real que nasce do concreto e ao concreto se dirige, porque se trata de salvar (e amar) pessoas. Em Jesus, nada é abs­tracto, formal. Nem é um simples jogo de palavras, uma dança interminável de conceitos. Em Jesus, tudo é vida que em mais vida se transforma. Em Jesus, como em Mário de Oliveira! Por isso, não tenho qualquer receio em acres­centar que o autor deste livro é um au­têntico “mestre da suspeita”..., ao des­cobrir, por detrás da exploração e da marginalização, o grande pecado do nosso tempo; ao despir, na praça públi­ca, os falsos prestígios do Poder Ecle­siástico, tão pletórico de honrarias como longe, distante da pobreza em que Je­sus quis viver; ao ousar olhar, bem de frente, os grandes senhores deste pe­que­no mundo, que só são grandes por­que os contemplamos de joelhos; ao afirmar que o Amor é o outro nome de Deus e de Jesus. Que mais será preciso dizer para aconselhar a leitura deste livro? É que se trata de um autor admi­rável, na arte de discernir com acerto e de concluir persuadindo. Repito: um teólogo de tamanha actualidade que não tem par em Portugal (e não só).

 

5. Depois de tantos anos de luta contra todas as ditaduras, incluindo as ecle­siásticas, Mário de Oliveira conti­nua na rota iniciada. Porquê? Uma inces­sante e militante vocação para de­sas­sossegar ideias feitas, uma recusa insubornável à acomodação que facilita cargos e prebendas, a imitação de Je­sus que foi sempre o último reduto da revolta, da rebeldia, da incomodidade – dizem-nos quem é o Padre Mário de Oliveira. Afinal, o que pretendo dizer é que este é um livro para todos, cren­tes e não-crentes, um livro indispensá­vel aos “homens de boa vontade” do nosso tempo.

Um livro prenhe de here­sia? Para o meu modesto entender, de heterodo­xia! A heterodoxia necessária a um mundo que se quer em movi­mento. Mas não é a heterodoxia que merece a análise, o estudo, a atenção? É que a palavra da ortodoxia é normal­mente ídolo, ícone, fetiche. Enfim, façamos des­te livro uma aventura. E como é bom sabermos que, nele, não há cen­su­ras, nem dogmas...


 

Revelações do Autor, na sessão de apresentação do Livro

E o Poder, ressabiado, matou-me!

 

1. Todo eu estremeço de emoção, de festa, de alegria, de esperança, de eu­caristia, de gratidão à Vida, por estar aqui, visivelmente, convosco, a apre­sen­tar este meu “livro póstumo”, para mais, neste espaço-ventre de Liberdade geradora de mulheres /homens cultos, autónomos, artistas, poetas, numa pala­vra, fecundamente Humanos, que é o Barracão de Cultura As Formigas de Macieira.

 

2. Se o livro é póstumo, é porque eu, o seu autor, já morri /ressuscitei, ou já fui morto e ressuscitei. Já Explodi. A Morte é a nossa Explosão definitiva. Tal como a Concepção no útero materno e o Parto que se lhe segue nove meses depois, foram /são a nossa 1.ª Explo­são! E, no entanto, estou aqui convos­co. Podeis ver-me. Tocar-me. Abraçar-me. Beijar-me. Amar-me. Ou Odiar-me com aquele Ódio Teológico que é o que mais mata, o que mais exclui, o que mais excomunga, o que mais ostraciza.

 

3. Uma pergunta me assalta, insis­tente, nesta Hora: O que me irão fazer, agora, depois de eu me ter atrevido a publicar este livro? Sim, o que me irão fazer? Pior do que Matar o corpo, é o Des­prezo, o Ostracismo a que votamos alguém, só porque ele, ela nos des­con­certa, nos põe a nu, nos põe a descoberto, tira o véu ou revela (que é o que quer dizer a palavra apocalipse ou revelação do título do livro) as Má­fias organizadas que somos disfarçadas de Poder Religioso, de Poder Político, de Poder Financeiro. E, pior ainda (ou me­lhor?!), deixa inequivocamente claro que é um Ídolo o Deus que negamos ou que publicamente adoramos /cultua­mos /negociamos em santuários, em basílicas, seja a de S. Pedro em Roma, seja a da Santíssima Trindade em Fá­tima S.A., em igrejas paroquiais, em catedrais, e também em Bancos, em Multinacionais /Transnacionais, e em Estádios de Futebol, o dos Milhões.

 

4. Ora, Desprezo, Ostracismo é o que eu mais conheço na Igreja da qual sou presbítero; e também na Socieda­de, da qual sou membro, política e teologicamente, activo. Mas – espanto dos espantos! – foi exactamente no meio de todo este Desprezo, Ostracismo a que me vejo votado, desde há muitos, muitos anos, que cresci e continuo a cres­cer na Fé, não, evidentemente, a chamada fé religiosa, mas a mesma Fé de Jesus, a Fragilidade Humana Desar­mada e Crucificada.

 

5. Só que, com isso, tornei-me de­ma­siado incómodo, alguém a abater. Antes de mais, pelas cúpulas da Igreja eclesiástica que me não suportam. E me olham como alguém a desprezar. A ostracizar. A denegrir. A desacreditar. A tratar como louco. A fazer desapare­cer da História. Até o meu nome as cúpulas da Igreja eclesiástica retiraram da lista oficial de presbíteros da Igreja do Porto, sem que antes tenha havido sequer um qualquer processo canónico contra mim. Essa mesma Igreja que, em 5 de Agosto de 1962, me ordenou pres­bítero para sempre. (Pelos vistos, os presbíteros ordenados, agora, prefe­rem chamar-se sacerdotes. Sacerdote, não sou. Presbítero, sou, por pura Gra­ça. Por pura vocação).

 

6. Não sabem porque tudo isto me aconteceu, pois não? Não sabem por­que sou hoje presbítero oficialmente não-existente, pois não? Mas eu sei. E vou dizer-vos /revelar-vos. Antes, ad­virto que, tirar o nome a alguém é igual a tirar-lhe a alma, a identidade. Por outras palavras: É igual a Matar. Não fisicamente, que seria demasiado es­can­daloso. Matar simbolicamente, o que é até considerado um acto digno do Poder em exercício, autolegitimado. Um gesto /uma decisão que conta com a rasgada aprovação e o entusiástico aplauso da plebe, dos súbditos /vas­salos que sempre saúdam os vence­dores, seus chefes, e desprezam todas as suas inúmeras Vítimas. Esquecem que quem mata – simbolicamente que seja – é sempre assassino!

 

7. Tudo começou, quando eu era pároco aqui, em Macieira da Lixa, uma aldeia, desde então, Lugar Teológico do Deus que gosta de Política e de Cultura Maiêutica (daí este Barracão de Cultura, ainda por acabar), não de Reli­gião, fonte de Medo e de Idolatria. De­corriam os primeiros anos da década de setenta, imediatamente antes do 25 de Abril. Entre a minha 1.ª prisão políti­ca em Caxias (fins de Julho 1970) e a mi­nha 2.ª prisão política, de novo em Caxias (21Março1973). Depois da 1.ª prisão que culminou, cerca de sete me­ses depois, na minha absolvição pelo Tribunal Plenário do Porto, o Bispo An­tónio Ferreira Gomes organizou uma ceia festiva no Paço Episcopal. Não fui tido nem achado nessa decisão. Saí do Tribunal de S. João Novo e fui levado pe­lo Advogado, Dr. José da Sila, para o Paço episcopal, onde me esperava essa surpresa. A ceia foi super-festiva. O Bispo estava visivelmente empolga­do. E depois da Ceia, brindou, como fora de si. Disse (lembro-me como se fosse hoje!): "20 séculos depois, o Evangelho voltou ao Pretório e, desta vez, saiu absolvido!"

 

8. Fiquei espantado. Afinal, na mi­nha pobre e fragilizada pessoa de pres­bí­tero da Igreja do Porto, e de pároco da até então desconhecida aldeia de Macieira da Lixa, o Evangelho de Deus, o de Jesus, havia ido de novo ao Pretó­rio. Parece que quase não havia dife­ren­ça entre o Evangelho e eu! Mas o Bispo não se ficou por aqui. Acrescen­tou, em recado dirigido ao Advogado, José da Silva: Há que preparar uma publicação deste feito, uma espécie de Evangelho escrito, para que a História o registe, como registou o protagoniza­do por Jesus, no século I, na Palestina. E sugeriu mesmo o título a dar a essa publicação: EVANGELHO NO PRETÓRIO. O advogado fez o livro (2 volumes), mas foi mais comedido e prudente que o Bispo. Chamou-lhe, simplesmente: SUBVERSÃO OU EVANGELHO?

 

9. A ceia festiva, realizada na sala principal do Paço Episcopal, não era de todo inocente. Era o Poder Eclesiás­tico em todo o seu esplendor. Vim a per­cebê-lo mais tarde, com o desenro­lar dos acontecimentos. Era a ceia da Tentação. Da Traição. Era o tapete ver­melho que se me estendia. Depois daquela prisão política e daquela absolvi­ção no Tribunal Plenário do Porto, eu deveria deixar a paróquia, frequentar um curso superior numa universidade estrangeira, financiado pela Diocese. Tirar um doutoramento que me cata­pultasse para as cúpulas eclesiásticas. Deveria esquecer definitivamente o Po­vo, os pé descalço, os Ninguém, fazer carreira eclesiástica. Havia-me tornado “luz no alto de um monte”, prestígio pa­ra a Igreja que, graças a mim, adquirira mais credibilidade perante a Sociedade. Deveria manter-me, pelo resto da mi­nha vida, lá no alto, nunca mais voltar à base da pirâmide social. Era a car­reira eclesiástica com que tantos cole­gas meus sonhavam, já no Seminário. Era o Poder Eclesiástico que eu, a partir de então, deveria seguir /servir e, fi­nal­mente, ser.

 

10. Só que eu, o filho mais novo de Ti Maria do Grilo, jornaleira, e de Ti David, operário duma fábrica de ser­ração de madeira, concebido por obra e graça do Espírito Santo, como, de resto, todas as mulheres, todos os ho­mens somos (quantos é que depois per­manecemos, pela vida fora, fiéis a este mesmo Espírito, como Jesus, o filho de Maria, permaneceu?!), deitei tudo a perder, no brinde que quase fui empurrado a fazer, a encerrar a ceia festiva. Nomeadamente, quando, como um menino, me levantei da mesa e dis­se: "Ah! Como eu gostava que esta ceia, a ter de acontecer, em lugar de estar a acontecer aqui, longe do Povo pobre de Macieira da Lixa, estivesse a acon­tecer lá, com o Povo e o Bispo junto. Era para lá que eu sonhava ir, a correr, logo que me pusessem em liberdade. Estou aqui, contente, mas o meu cora­ção é lá que está, junto do Povo, de quem sou, como pároco, o seu compa­nheiro de todas as horas."

 

11. Um grande silêncio fez-se na sala principal do Paço Episcopal. E eu percebi, logo, que, entre mim e o Poder E­clesiástico, se cavou, nessa Hora, um abismo intransponível. Para sempre. O Bispo ainda tentou, posteriormente, que eu reconsiderasse e aceitasse a pro­pos­ta de carreira eclesiástica que me havia feito. Mas eu disse rotundamente NÃO! E, ainda tive a audácia de o convi­dar a ele a deixar de vez o Paço Epis­co­pal, o Poder Episcopal e a ser Bispo da Igreja do Porto, simplesmente, sem nenhum Poder. Ele declinou o meu con­vite. E lá ficou Bispo residencial, Poder Episcopal, até à idade canónica de resignar.

 

12. Por isso, quando, em 21 de Mar­ço 1973, voltei a ser preso pela Pide – só o vim a saber, 11 meses depois, quando saí da prisão por ordem do mesmo Tribunal Plenário do Porto – perdi, nesse mesmo dia, a paróquia. E, até hoje, nunca mais tive qualquer ofício pastoral oficial. Sou presbítero da Igreja do Porto, sem Poder eclesiás­tico, o que é de todo salutar e fecundo, longe dos templos e dos altares da Idolatria, despojado de todos os privilégios eclesiásticos que convictamente recuso (Já recusava, quando era páro­co. Até as Missas, eu celebrava de gra­ça!). Por isso, presbítero totalmente de graça, que sempre dá /dou de graça, o que de graça recebi. Infelizmente, sou uma excepção na Igreja. Deveria ser a regra. Todos os presbíteros e to­dos os bispos, deveríamos ser assim. Presbíteros e bispos sem nenhum Po­der eclesiástico, sem nenhuns Privilé­gios eclesiásticos.

 

13. Fiquei, desde então, um presbí­tero à intempérie. E na trincheira. Fragi­li­zado. Desarmado. Como um menino. Só que o Poder Eclesiástico, como não conseguiu fazer-me dele e fazer-me um dos seus principais rostos – "Tudo te darei, se tu, prostrado me adorares!" – matou-me. Ressabiado, ressentido por eu não me ter feito à sua imagem e semelhança, matou-me. Simbolica­men­te, é certo. Mas matou-me. Sou, des­de então e cada vez mais um res­sus­citado, ainda a viver na História. Um presbítero com tudo de Utopia. Quer dizer, sem topos (em grego), sem lugar! Irmão universal. Presbítero da Igreja do Porto, não para a Igreja, mas para o Mundo, para os pobres e os povos, a partir da Igreja do Porto. Vivo, por isso, cada vez mais a ver o Invisível. E cada vez mais a escutar o Essencial.

 

14. Este “livro póstumo”, nos seus 140 capítulos e nas suas 670 páginas, é sinal disto mesmo. É o livro da minha maturidade teológica, da minha maturi­dade na Fé, a mesma de Jesus, que não tem nada a ver com a Fé religiosa/eclesiástica. Pelo contrário, está, até, nos seus antípodas. Será que suporta­rão /suportareis este livro que vos dou, que vos deixo?!

 

15. Pressinto que muitas, muitos, da Igreja católica e das outras Igrejas, e até de fora delas, inclusive ateus e agnósticos, me vão odiar ainda mais e com mais intensidade, a partir de hoje. A menos que – e como eu desejo que tal aconteça! – aceitemos todas, todos convertermo-nos, mudarmos de Deus. Do Deus-Ídolo da Religião, para DeusVivo, o de Jesus, o Crucificado na Cruz do Império, por decisão e  exigên­cia dos sacerdotes, precisamente, os homens maiores da Religião!

16. Tenho consciência de que o livro é grande. Pesado. Denso. Mas acredi­tem. Foram precisos, todos estes capí­tu­los, todas estas páginas, para revelar, tirar o véu à nossa Sociedade, à Trin­dade dos Poderes que a governa /domina, às Religiões /Igrejas que pre­tensamente a guiam, moral e espiritual­mente, e aos respectivos Povos. Leiam, para começar, o capítulo 1: “A Igreja celebra Francisco de Assis, mas prefe­re seguir o exemplo do pai”; e, depois, saltem ao capítulo 140, o último, imedia­tamente antes do Prólogo-ao-Amanhã-que-Vem: “Precisamos urgentemente de regressar a Jesus, o da História!” Tenho a certeza de que, se o fizerem, não con­­seguirão passar sem ler os restan­tes 138. E com redobrada emoção, à medida que progredirem na leitura.

 

17. Crentes, agnósticos e ateus só me perdoarão, se aceitarem nascer de novo, do Espírito de Jesus, esse mesmo que sempre sopra da banda das Víti­mas da História, nunca da banda da Trindade dos Poderes que domina /su­b­juga os povos do Mundo e os reduz a minhocas, a lesmas, a vassalos, a estéreis, a pesos-mortos, a Lázaros-sepultados-há-quatro-dias.

 

18. Nem que tenham de se privar de uma ou duas refeições num mês, não deixem de levar este livro convos­co. Precisam deste Alimento, ainda mais do que daquele. Dêem a conhecer este Livro /Alimento. E façam-no chegar a pes­soas, populações e povos de todas as nações da Terra. É urgente desmas­­ca­rarmos a Idolatria. Derrubarmos o Ídolo que nos descria cada dia que passa. É urgente tornarmo-nos mulhe­res, homens, povos do mesmo jeito de Jesus. Outros, Jesus. Só que agora, à século XXI. Conto convosco nesta Mis­são. Contai também comigo. Para sem­pre. Mesmo depois, e sobretudo depois, de definitivamente ressuscitado!


 

Novo Livro do Apocalipse ou da Revelação

segundo ANTÓNIO PEDRO RIBEIRO, Poeta

 

São três Textos-Poema. Em forma de prosa.

Chegaram-me por mail. Numa primeira reacção à leitura do Livro.

Ao seu Autor, só dias de­­pois o vi num recital de Poesia e o abracei pela 1.ª vez!

 

Caro padre Mário,
o seu livro e o seu Jesus inspiraram-me este texto.
Um grande abraço.

 

NEM SEQUER

PRECISO DE DEUS
Escrevo. São seis da madrugada. Não consigo dormir. Escrevo o que vem do coração. Sou Jesus. Sou Morrison. Sou Nietzsche. Amo a Humanidade. A Humanidade despojada de Poder e de Dinheiro. O meu único poder é o poder da palavra. Ultimamente tenho feito os outros rir. Se calhar, tenho de virar o disco. Cantar o caos e o amor. Este será um grande dia. Se não adormecer entretanto percorrerei as ruas de Braga manhã cedo. Percorrerei as ruas de Braga em busca de glória. Percorrerei as ruas de Braga e amarei o humano dos homens e das mulheres. O humano que resta nos corações dos homens e das mulheres. E levarei comigo o padre Mário. O livro do padre Mário, Novo Livro do Apocalipse ou da Revelação, faz-me renascer como o Plexus, de Henry Miller. Já não sou o mesmo. Tenho mesmo uma missão na Terra. Escreverei livros e levarei a mensagem seja onde for. “Queimai o Dinheiro” já é um sinal, “Da Merda até Deus” será outro. Mas tenho de publicar as minhas prosas. Neste tom profético que já tem sido publicado na Voz da Póvoa. Acredito no Homem, sou forçado a acreditar no Homem como Che Guevara acreditava. Não tenho nada a perder. Este é o caminho que tenho de seguir. Não há aqui dogmas, não há meias-palavras, não há cedências ao capitalismo ou ao Grande Irmão. Eu, António Pedro Ribeiro, 41 anos, renasço esta madrugada. Abençoado pela luz do padre Mário Oliveira. Abençoado pelo palco e pelos aplausos. Fascinado pela demanda do Graal, que é a mulher, que é Madalena. Eu, António Pedro Ribeiro, 41 anos, declaro-me revolucionário, filho das flores e do Maio de 68. Amante da Paz e da Liberdade. Poeta do caos e do amor. Profeta da rebeldia.
Estou em Braga e este é um dia triunfal, um dos mais felizes da minha vida. Tenho apenas uns trocos mas sou feliz. Abençoado por Zaratustra e pelos pássaros da manhã. Sou a criança sábia. Estou a regressar á infância. Não tenho de fazer pactos com a social-democracia nem com os Sócrates deste mundo. Não tenho de me ajoelhar diante do grande capital ou dos senhores do dinheiro. Sou um homem livre. Escrevo o que quero. Assumo o que quero. Sou o que quero. Nem sequer preciso de Deus, caro padre Mário. Basta-me o Jesus que expulsou os vendilhões do templo. Expulsar os vendilhões do templo, é isso que temos de fazer agora. Expulsar os senhores do dinheiro, do poder e da vida. Expulsá-los da vida. Eis a nossa missão na Terra. Demandar o Graal, o sagrado feminino, o amor das mulheres. Não devemos nada a ninguém. Entraremos na casa das pessoas como Jesus e Sócrates [o filósofo grego]. Sem dinheiro. Somos deuses. Comportamo-nos como reis no mundo do dinheiro, da intriga, da mercearia. Não podemos ser iguais aos outros. Nascemos de graça, na graça do divino. Nascemos e vivemos na dádiva, no coração, no espírito. Somos absolutamente livres. Amamos a eternidade do instante. Por isso, às vezes somos doidos, completamente fora. Não temos limites. Não somos formatados pela tradição ou pelo medo. Dançamos na corda-bamba de Nietzsche. Provocamos como Debord, como os surrealistas, como os dadaístas. Gozamos com o quotidiano imbecil dos outros porque queremos provocá-los, trazer-lhes a luz. E é a luz que vemos neste momento. A luz que queremos trazer aos outros, aos que ainda não estão completamente mortos para a vida. É a vida que queremos, não a vidinha das trocas, do mercado e do tédio. Sentimo-nos iluminados mas não somos mais do que os outros. Apenas diferentes. E exigimos sermos respeitados como tal. Somos do mundo. Deste mundo e não do outro. Profundamente deste mundo. “Humanos, Demasiado Humanos”. Desde a infãncia que pensamos mais do que os outros, que questionamos mais do que os outros, que observamos a realidade mais do que os outros. Nascemos com um dom. Já atravessamos muitos desertos, muitas idades de dor mas agora estamos curados. Estamos de volta à Idade do Ouro dos anos 80 e 90. Mas mais sábios, mais purificados, mais livres. Estamos prontos para enfrentar a cidade. Chegamos à idade de passar a mensagem. Este é o poema. O poema em prosa que há muito queríamos escrever. O poema bendito e maldito. O início do novo livro. O livro que pretende mudar a face da Terra. O livro que se dirige ao mundo. O livro que escrevo com o meu próprio sangue.

 

JESUS E O SUPER-HOMEM

Poderia acreditar num Jesus como o do padre Mário. Um Jesus que rejeita a Religião e a Igreja, que rejeita as hierarquias da Igreja. Poderia acreditar num Jesus que, como Nietzsche, rejeita o Deus do sacrifício, da submissão, da não-vida. Poderia acreditar num Jesus que, como Vaneigem, se opõe ao Deus-dinheiro e ao Poder. Num Jesus que rejeita o Deus do Templo, a confissão e as missas. Poderia acreditar nesse Jesus rebelde, insubmisso, que acredita na Humanidade e na transformação da sociedade. Um Jesus ao lado dos injustiçados, dos pobres, dos que nada têm, que rejeita a opulência das Igrejas. Um Jesus revolucionário que está pela Paz, desarmado, contra as guerras. Poderia acreditar num Jesus que promove a bondade e o humano. Poderia acreditar nesse Jesus. Mas hesito. Sou céptico. Tenho dúvidas. No entanto, essa ideia de um Jesus anti-capitalista que combate a idolatria do Dinheiro e do Poder não deixa de me atrair. Essa ideia de um Jesus a expulsar os vendilhões do templo. Essa ideia de que todos podemos ser Jesus. É claro que Nietzsche dizia que Jesus foi o único dos cristãos. É claro que Nietzsche diz que o homem pode superar-se: passar sucessivamente de camelo, a leão e a criança. Que pode tornar-se um deus, o super-homem. Mas não estaremos a falar da mesma coisa?

 

O NOVO HOMEM

O capitalismo é maléfico na sua essência. O capitalismo, alicerçado na trindade Poder/Dinheiro/Religião, como diz o padre Mário de Oliveira, é um sistema que nos converte em máquinas de compra e venda, em mercadorias, que destrói o que há de mais profundamente humano em nós. O capitalismo rouba-nos a vida. Torna-nos macacos a trepar para cima de outros macacos em busca da banana, do tacho, do dinheiro, do lucro, como diz Nietzsche. É tempo de dizer que não viemos ao mundo para isto. Não viemos ao mundo para o tédio ou para a fome. O homem não é, não pode ser troca ou mercado. O homem veio ao mundo gratuitamente, veio em busca da liberdade, do amor, da Verdade. Como é possível que nos tenhamos deixado descer tão baixo? Somos homens ou somos ratos? O que é que o império da finança, dos bancos, das bolsas e do poder nos dá? Tédio, fome e morte. É tempo de reagir. Destruamos o capitalismo pedra a pedra. Acabemos com todas as formas de idolatria e alienação. Só assim nascerá o novo homem, profundamente humano, imensamente livre.


 

EDITORIAL

 

Cairia o Carmo e a Trindade, se o papa Bento XVI, na sua anunciada viagem a Portugal, em Maio deste ano de 2010, a convite do presidente da República de Portugal (nunca é demais sublinhar este pormenor, que faz toda a diferença e revela bem quanto o Reli­gioso Católico e todo o outro Religioso não-católico andam sempre de mãos da­das com o Poder Político, o dos Esta­dos nacionais e dos Partidos Políticos não-maiêuticos, e com o Poder Econó­mi­co-Financeiro) aproveitasse a deslo­ca­ção a Fátima para anunciar urbi et orbi que tudo aquilo que ali se faz, des­­de 13 de Maio de 1917 (apenas se­te anos depois da implantação da Re­pública Portuguesa que, este ano, está a comemorar os seus cem anos, por sinal, todos eles muito pouco repu­bli­canos e muito pouco laicos, porque ain­da muito beatos e muito eclesiásti­cos, a começar pelo actual presidente Ca­va­co, que não se afasta nunca da sotai­na, do bá­culo e da mitra dos bispos por­tugue­ses e do pró­prio papa de Ro­ma!) é pura e dura Ido­latria, a da mítica deusa senhora de fátima e do Deus-Ídolo Dinheiro.

Cairia o Carmo e a Trindade. E, se o papa, ao anúncio deste Evangelho ou Boa Notícia de Deus, o de Jesus, ainda acrescentas­se outro, concretamente, que, em con­se­quência desta postura Teológica Jesuânica, a Igreja católica, a que ele preside, deixaria, desse dia em diante, de alimentar, com a sua presença, toda aquela Mentira /Idolatria e todo aquele Crime Or­ga­ni­zado cometido contra a Dignidade Hu­ma­na e contra os Pobres e os Povos, certamente, já nem chegaria a deslo­car-se, no dia seguinte, à cidade do Por­­to, onde o programa da visita do chefe de Estado do Vaticano a Portugal determina que ele reze uma missa na Avenida dos Aliados (mais uma, a jun­tar a milhares de ou­tras celebradas nesse mesmo dia nou­tros cantos do país e do mundo cató­lico, como a revelar que Deus, o da Rel­igião católica, deve ter muito maus gostos artísticos e cul­turais e também deve ser muito se­vero para com os seus fiéis súbditos, elas e eles, ao ponto de só se a­man­­sar e aplacar com todas estas re­zas de mis­sas bem pagas a quem a elas tem de presidir, assim como com todas as de­mais rezas de terços e de jaculatórias sem conta, um dia após outro).

Cairia o Carmo e a Trindade e, está visto, cairia também Fátima e a imagem da sua mítica senhora ou deusa (então não sabem que o título Nossa Senhora é sinónimo de Nossa Deusa, tal como Nosso Senhor é sinónimo de Nosso Deus?!) absurda­mente branca, cega, surda e muda, o­bra das mãos de um santeiro de Braga, artesão de muito mau gosto, tal e qual como a mítica deu­sa que lhe coube a tarefa de fazer e­mer­gir da madeira com que trabalhava.

E, com o Carmo e a Trindade, cairia, muito prova­vel­mente, a própria hierar­quia eclesi­ás­tica, todos os bispos resi­denciais e os respectivos párocos, cada um destes, hoje, com duas, três, qua­tro, cinco ou mais paróquias, todos ocu­pados com o Reli­gioso e o Sagrado e os obscenos Lucros que daí advêm, e totalmente distraí­dos do Quotidiano das populações e dos povos do Planeta, às, aos quais, para cúmulo, ainda ven­dem overdoses de ópio, o da Religião católia /Idolatria.

Cairia o Carmo e a Trindade. Mas eu, presbítero da Igreja do Porto, há muitos anos, despojado de tudo o que é Poder e privilégios eclesiásticos, a viver todos os dias à Intempérie e em Deserto, jornalista de profissão e de Missão e, por isso, hoje, já reformado pela Caixa de Previdência dos Jornalistas, mas mais activo do que nunca na Missão de Evangelizar os Pobres e os Povos, cantaria e dançaria de alegria um canto e uma dança eucarísticos sem fim. E comigo, cantaria e dançaria tam­bém a Terra, esta nossa Casa Comum, um pouco menos oprimida pela Idolatria que, desde o início da Humanidade, se abateu sobre ela. E cantariam as, os do Movimento Jesus, certamente, hoje, muito poucos no seu todo, já que a esmagadora maioria das populações e dos Povos continua a preferir a via da Religião, que é a via da Mentira /Idolatria.

Num primeiro momento, as popula­ções e os povos do Planeta reagiriam, até, com grande escândalo e indigna­ção, à semelhança do paraplégico a quem de repente tirassem a cadeira de rodas onde ele se desloca, ou à semelhança do doente canceroso, em fase terminal, mas ainda bem consci­ente, a quem, de repente, tirassem a morfina que lhe alivia as horríveis dores.

Nem as populações, nem os povos, mer­gulhadas, mergulhados num Quoti­diano estúpido e intolerável, que o Gran­de Poder Financeiro Global lhes impõe como amargo e amargurado pão-de-cada-dia, totalmente insuportá­vel, sem as sucessivas overdoses de ópio que toda a Religião /Idolatria é, entenderiam como Boa Notícia ou Evan­gelho de Deus, o de Jesus, esse anún­cio que o papa Bento XVI viesse fazer em Fátima. O seu Quotidiano de dores e de carências de tudo, até de afectos e de quem as, os escute, é tal, que as populações e os Povos não suportam (e eu, presbítero da Igreja do Porto, a viver este arriscado ministério, sem quais­quer paliativos, que o diga) que al­guém, de repente, lhes tire a sua do­se diária de ópio ou de Religioso. Nis­so, são tal e qual como qualquer toxico­depenente. Este, da droga. As popula­ções, os povos, da Religião /Idolatria. O ópio Religião /Idolatria não resolve os problemas, nem tão pouco contribui para os superar, mas ajuda a suportar o Quotidiano amargo e amargurado em que elas, eles subvivem.

Só num segundo momento, as po­pu­lações e os povos acabariam por rea­gir bem e acolher o Evangelho ou Boa Notícia de Deus, o de Jesus, que o papa Bento XVI viesse anunciar em Fáti­ma. E, então, juntar-se-iam a mim e a todas, todos as, os de Jesus e do Movi­mento Jesus que o seu Espírito Subver­sivo e Conspirativo está continuamente a promover e alimentar, na História, até que todos os seres humanos sejamos plena e definitivamente criados, o que só acontecerá, quando todos formos filhas, filhos de Deus-Abbá, constituídos em estado de Liberdade e de Maiori­dade, nos antípodas do que hoje ver­gonhosa­mente ainda somos, seres hu­ma­nos em estado de Medo /Opressão /Religião e de Menoridade /Infantilismo /Subserviência.

Certamente, que não é para nos a­nun­ciar esta Boa Notícia ou este Evan­gelho de Deus, o de Jesus, que o papa Bento XVI vem a Portugal.  Antes fosse. Mas não será. Aliás, se ele se atrevesse a tanto, dificilmente, conseguiria sair vivo do país. E, se saísse, não seria para regressar ao Estado do Vaticano, onde é o respectivo chefe, totalmente nos antípodas de Jesus, o Crucificado pelos chefes de Estado de então (o rei Herodes e César de Roma) e pelos che­fes da Religião /Idolatria de então (os sumos sacerdotes do Templo de Je­rusalém e seus teólogos) e pelos de­tentores da riqueza de então (o Sinédrio, constituído pelos setenta proprie­tá­rios mais ricos da Judeia). Só pode­ria sair vivo, mas para ser levado à força para um hospital psiquiátrico de Roma, ou dos Estados Unidos da América, já que todos os profissionais de Psiquia­tria do Mundo capitalista assinariam de imediato o diagnóstico de que o papa Bento XVI, ao proclamar semelhante notícia em Fárima, só poderia estar lou­co varrido e daquele tipo de loucura que, além de irreversível, é também al­tamente perigosa para os demais seres humanos, pelo que teria de ficar pelo resto da vida internado, com colete de for­ças e sedado, dia e noite.

De resto, foi já assim que trataram Jesus, quando ele, o carpinteiro /cam­ponês de Nazaré da Galileia, o filho de Maria, foi em Missão a Jerusalém e ao Templo (era então a Fátima lá do sítio) para ensinar e proclamou, alto e bom som, sem que a voz lhe tremesse, que Deus Criador, seu e nosso Abbá, não tinha nada a ver com aquela cidade prenhe de Idolatria, mentirosa e assas­sina dos profetas que denunciavam os crimes que ela patrocinava (o último havia sido João Baptista, degolado por Herodes na prisão, poucos meses an­tes!), nem com aquele Templo, "covil de ladrões" que, até o último cêntimo da viúva pobre, era capaz de sugar /devorar. O Deus que ali se invocava, dia e noite, era um Ídolo, como tal, men­tiroso e assassino, servido por sa­cer­dotes mercenários conluiados com os do Poder Económico-Financeiro e com os do Poder Político, inclusive com o Império de Roma. E a prova é que se­ria na Cruz deste último que Jesus, ele próprio, acabaria crucificado. Ai, pois, do papa Bento XVI, se vai por outra via, que não esta a de Jesus! Nesse caso, melhor fora que nunca ti­vesse nascido!

Vosso irmão,

Mário, presbítero da Igreja do Porto


 

ESPAÇO ABERTO

 

Assis e Padre Henri na favela Vila Velha, Brasil

“DÁ PÃO! DÁ PÃO!”

 

"Dá pão! Dá pão!" Já lá vão dois me­ses [testemunho escrito por mea­dos de Novembro 2009], após o nosso regresso à Euro­pa, e esta voz frágil das crianças da favela VILA VELHA continua a acordar-nos, suplicante, mes­mo quando caminhamos em pleno dia: “Dá pão!... dá pão!..." Acorda-nos, a todo o instante, a voz suplicante das crianças, mas não só a delas. O olhar das pessoas idosas, pessoas de pele e osso (ver foto ao lado), sem pronun­ciarem uma única palavra, caladas, fe­rem tanto o nosso olhar quanto aquela fere os nossos ouvidos. Ambos, a voz suplicante das crianças e o olhar das pessoas idosas de pele e osso, ferem profundamente o nosso egoísmo. Acu­sam-nos de comermos e de lançarmos no caixote do lixo o pedaço de pão que, por direito, lhes pertence.

No dia 28 de Junho 2009, acompa­nhei o padre Henri Le Boursicaud, na sua viagem ao Brasil, concretamente até à favela de Pirambu, em Fortaleza, favela que tem hoje cerca de 300.000 habitantes.

Em França, o responsável pelo Mo­vi­mento de Emaús Liberdade, Ja­cques Loch, não desejava que Henri se metesse em tal aventura, pois sa­bia bem em que estado de saúde ele havia chegado pouco tempo antes do Congo. Apesar de muito fraco, porém, o desejo de Henri em voltar ao Brasil era grande. Esta a razão pela qual me prontifiquei a acompanhá-lo.

Logo na primeira semana, Henri adoeceu. E dores de cabeça vieram tam­bém sobre mim, pois me conside­ra­va o responsável último por esta via­gem: - “Que fazer? Será que tenho de o enterrar já cá? Se acontecer tal des­graça - pensei - que melhor local que aquele, aqui bem perto da casa que nos abriga, do espaço da Terapia Co­mu­nitária “Quatro Varas”, aos pés da estátua do índio que segura precisa­men­te as 4 varas da história do velho pai que, no leito da morte, chama seus quatro filhos, suplicando-lhes que per­manecessem sempre unidos.

Aquelas 4 varas, juntas, nem o filho mais velho as conseguia quebrar, en­qu­an­to o mais novo as partia facilmente, quando separadas, uma a uma.

Esta história foi contada em 1993 pelo padre Henri aos habitantes da fa­vela, quando, sentados na areia num lo­cal próximo ao, hoje, ocupado pela escolinha PADRE HENRIQUE - em fran­cês, Henri - procuravam um nome para toda aquela zona anteriormente ocupa­da pela antiga fábrica de curtumes que, após a falência, havia deixado mui­ta gente trabalhadora desemprega­da, sem que lhes fosse paga qualquer indemnização.

Apenas as águas do mar ficaram a beneficiar, já que todos os resíduos nela produzidos eram lá lançados a céu aberto. O mar e o ar. Pois, segundo me diziam, na época de laboração, tam­bém o ar era irrespirável.

Depois das várias propostas apre­sen­tadas pelos habitantes da favela PIRAMBU, a do Henri foi a eleita. Embora ele se considerasse um estrangeiro no meio de todo aquele povo, os habitan­tes não o consideravam como tal, já que ele, mais do que ninguém, havia lutado contra a polícia de Fortaleza.

Quando esta vinha derrubar as bar­racas, ele era o primeiro a opor-se, e também a animar aquela pobre gente: “Vamos levantá-las novamente”, repetia-lhes ele.

- “Que melhor local, pois, para o en­terrar, se tiver de ser?” Seja o que Deus quiser, tranquilizava-me eu, sem contudo me manifestar publicamente. O pior era que nem o padre Henri nem eu consegíamos dormir, pois a sua tos­se era tal, que ele próprio dizia nunca ter estado assim.

Passados os primeiros oito dias, ele co­meça a restabelecer-se, graças aos batidos de fruta preparados pelo nosso amigo José Airton, o advogado da fave­la de Pirambu, hoje também advogado das favelas de VILA VELHA III e IV, que se encontram ainda em estado de mai­or miséria.

Em Vila Velha I e II, já se encontram as ruas mais ou menos asfaltadas e as barracas são menos desumanas e em muito menor número, embora a mai­o­ria das casas seja bastante pobre.

Ora, logo que se sentiu com um pouco de forças, o padre Henri, depois duma breve visita que fizemos uma ma­nhã a Vila Velha, sem avisar ninguém, parte a pé para favela III, a mais de­gra­­dada de todas elas, seguindo a mar­gem direita do rio Ceará.

Depois de algumas buscas, uma senhora tele­fo­na para o José, a dizer que o “padre velhinho andava lá perdi­do”, ao mesmo tempo que outras lhe procuravam barrar o caminho dizendo-lhe que “era muito perigoso ali andar sozinho”, razão que o não convenceu e até levou um pouco a mal por o não deixarem em paz.

Henri já não descansou até mudar de residência. A nossa era bastante po­bre, mas não tanto como ele desejava. Pretendia viver na barraca mais pobre de Vila Velha, tal como os seus habi­tantes mais necessitados.

Manifestado o seu desejo, procurá­mos não contrariá-lo. Tentámos, contu­do, sem lhe dizer, torná-lo minimamen­te confortável, dado o seu estado de saú­de e a sua idade. Pusemos sobre a terra ainda enlameada uns farrapos, para que não viesse a ter uma recaída.

Foi levado pelo José e por dois com­panheiros de Emaús. Eu já o não acompanhei, pois fiquei de cama com diarreia, provocada por algo que havia comido no dia anterior.

Como, durante cinco dias, não me levantei da cama, ele sentia-se agora como que responsável por me ter deixa­do naquele estado, como se fora ele o culpado. O José lá o tranquilizou da for­ma como ele bem sabia fazer.

Todos os dias, ou pelo menos na­que­les em que o visitei, e foram mui­tos, fomos a encontrá-lo a vaguear pe­la fa­vela, visitando os doentes - eram tantos!... - distribuindo por todos eles os bens que lhe eram levados pelos com­pa­nhei­ros de Emaús.

“Aqui ninguém come mais do que uma vez por dia...”, dizia-nos. E interro­gava-nos: “Onde está Jesus, o carpin­teiro de Nazaré? Nos palácios dos bispos? No Vaticano? Não. Ele vive aqui no meio dos pobres...”

Quando estava na sua barraca, ou nas vizinhanças da mesma, as crianças eram a sua companhia preferida. Pe­ga­vam-lhe na mão e conduziam-no com todo o carinho, como se fosse o seu avo­zinho. “Deixai vir a mim as cri­anci­nhas...”, era a frase do Evangelho que de imediato nos vinha à mente.

Claro que a atitude do padre Henri nos comovia a todos quantos o visitá­vamos, mas a maior comoção surgia quando entrávamos naquelas barra­cas miseráveis.

“Os porcos vivem todos eles em me­­lhores condições que esta pobre gen­te”, repetia-nos Henri com frequ­ên­cia. E sem­pre que, após havermos deixado os ali­mentos e os poucos re­ais que possu­ía­mos connosco, não con­se­guíamos calar o pedido insisten­te daquelas po­bres crianças: “Dá pão!... Dá pão!...” reti­rávamo-nos impo­ten­tes e amargurados por nada mais podermos fazer por elas.

MEIO EURO (5O CÊNTIMOS) seria suficiente para, diariamente, matar a fome de cada uma daquelas pessoas de Vila Velha. Tão simples como isto: 1 Real e 20 cêntimos. O equivalente a 50 CÊNTIMOS de euro.


”Pois é - dirá alguém - porque não faz esse trabalho o estado brasileiro? O Brasil não é dos países mais ricos do mundo?...”

Sim, é, mas onde a riqueza abun­da, abundam também os avaros, os grandes latifundiários e os corruptos e, com todos estes, a miséria humana tor­na-se rainha.

Em Vila Velha, a miséria é total: económica, social e humana. Num pe­queno espaço habitacional, a promis­cui­dade é inevitável. Daí que seja fácil dar de caras com jovens de 12 /13 anos grávidas. E até chegámos a deparar com uma de 11 anos.

”Dá pão!... Dá pão!...” As lágrimas não conseguem aguentar-se diante dum espectáculo desta natureza. Vi muita gente chorar, da que nos acompanhou nas nossas visitas a Vila Ve­lha.

Eu apenas me pergunto: “Que fi­ze­mos nós e os nossos filhos de extra­or­dinário, para que tenhamos nascido no lugar da fartura? E que mal pratica­ram aquelas pobres gentes do interior do país, que tiveram de fugir à seca de três anos consecutivos, e que fizer­am aquelas pobres crianças, para que merecessem um tal castigo?

Há no Evangelho uma passagem que sempre me intrigou e para a qual eu não descobrira a resposta: “Que pe­cado cometeu – o homem que nas­ceu cego – ele, ou os seus pais?” per­guntavam os discípulos a Jesus. “Nem ele, nem os seus pais. Tudo isto acon­te­ceu para que o Pai fosse louvado em suas obras”, respondeu-lhes Je­sus, mais ou menos com estas pala­vras.

Talvez Deus deseje ser louvado agora através das nossas obras, da nossa generosidade para com esses nossos irmãos que passam fome e ha­bitam casas (?), barracas de cartão e de plástico, onde chove como na rua e a cuja entrada chegam as águas do mar, sempre que a maré sobe, já que se encontram nas margens do rio Ce­a­rá, muito perto da sua foz.

50 CÊNTIMOS diários - menos do que o valor de 1 café ou de 2 cigarros - são o suficiente para salvar uma da­quelas crianças, ou um pobre idoso.

PS-1. Aos leitores destas linhas in­for­mo que o padre Henri se encontra actualmente entre nós, em Portugal. Habita na casa das Crianças “TENDA DO ENCONTRO” em SERMONDE, V. N. DE GAIA.

O seu estado de saúde não é o me­lhor, mas ainda está plenamente lúcido, apesar dos seus já 89 anos de idade e de tudo o que sofreu na favela Vila Ve­lha. A sua intenção, quando partiu de França, no passado dia 28 de Outubro 2009, era regressar àquele local, mas ele próprio reconhece que já não se sen­te com forças suficientes para tal. Daí a razão do seu sofrimento ser ainda maior. O seu corpo encontra-se cá, mas o seu pensamento está permanente­mente com aquela pobre gente e so­bre­­tu­do com aquelas crianças. O seu dese­jo era acabar seus dias entre elas, como o expressou por escrito.

Para quem deseje contactá-lo pes­soal­mente, ou por carta, deixo a seguir a sua direcção:

Padre Henri Le Boursicaud
Rua de Sermonde 779
4415-115 SERMONDE (aos Carvalhos-Gaia)


PS-2. “Dá pão!...Dá pão!...”

Ai daquelas pobres crianças que, se não tiverem pão, hoje, amanhã, já mais crescidas, receberão facilmente do se­mea­dor da cizânia, do Evangelho, a dro­ga que abunda em todas as fave­las, como também nos locais mais chi­ques das grandes cidades...


 

J. A. Pereira Neto

JC

 

De ti cedo se apoderaram

Os donos do poder e das leis

Que a tua figura moldaram

Á imagem de príncipes e reis

E a tua palavra trocaram

Pelas ordens dos coronéis

 

Hipócrita astuto e felino

À sanha dos perseguidores

Preferiu o príncipe Constantino

A compra dos teus seguidores

E ao cântico do teu hino

Sucederam outros louvores

 

(Pelos requebros dos impérios

Outra música ecoou

Com o sabor dos impropérios

Que o Gólgota escutou)

 

Na ilusão de estarem libertos

Da tua palavra esquecidos

Foram os acessos abertos

E outros caminhos percorridos

Nem arriscados nem incertos

Cidadãos do império assumidos

 

E a tua palavra divina

Bem-aventurados sereis

Se um dia for vossa sina

Ter de morrer às mãos dos reis

Deixou de constar da doutrina

A que juraram ser fiéis

(E o grande festim começou

- Festim cristão, é bom frisar –

Nome que o príncipe usurpou   

Para o seu poder reforçar)

 

Agora tudo ia ser diferente

O rei e o deus seu aliado

Afirmando conjuntamente

O seu poder divinizado:

Os doutores doutrinando a gente

E brandindo a espada o soldado

 

Papas e anti-papas sem fé

Bispos e demais dignitários

Sugando o tutano à ralé

Sem querer saber dos seus fadários

Perante a história em contrafé

Perversos traidores e falsários

 

Mas o teu espírito soprava

Mais forte do que a traição

E o teu mistério encandeava

Os homens de recta intenção

Que do teu espírito possuídos

E na tua fé confirmados

Foram pelo poder perseguidos

Mortos ou vilipendiados

.....................................................

Os teus intérpretes oficiais

São hoje arautos de valores

Mas aceitam como normais

As diferentes faces dos horrores

 

6-22 Outubro 2008


 

FrancisCosta (1)

Desencontros

 

O amor tem destas coisas,

Na verdade, deixamo-nos corromper por um orgulho corrosivo,

E sofremos sozinhos como cães abandonados,

Preferimos viver, muitas vezes como um milhafre ferido,

E dificilmente nos vergamos, e não nos assumimos de apaixonados.

Passamos pelo nosso amor e, fingidos, desviamos o olhar,

Mas os nossos olhos discordam da mente,

E não há vento que leve o amor que se sente.

As insónias, a angústia e a agitação na cama,

As cartas que escrevemos, muitas vezes de madrugada,

A dor, o vazio, os suspiros de quem ama,

A frustração, o desespero e a luta pela pessoa amada.

Inventamos carinhos, desenhamos ternura,

Meu deus, tantos beijos simulados,

E dentro de nós nasce essa loucura

Que nos incendeia e nos deixa excitados.

Quantas vezes, nós sonhamos acordados

Ensaiámos e dizemos que amanhã é que vai ser,

Mas depois, estáticos e manietados,

Receosos, tímidos, não conseguimos dizer.

Os anos dissipam-se, esfumam-se e vão,

E cada um pró seu lado, parece um veredicto,

Diferentes comportamentos, que lesam o coração,

Vassalos que somos, é o orgulho maldito.

E subestimados, acabamos num altar,

É um refúgio, porém, um grande defeito,

Juramos fidelidade a quem connosco vai casar,

Mas a outra pessoa, aquele nosso amor, está cá dentro do peito.

Esse amor que nos queima, e nos deixa em delírio,

O mesmo amor que nos põe desolados,

Esse cancro que nos conduz a um martírio,

O amor faz de nós, leopardos domados.

Orgulhosos que somos, deitamos o amor a perder,

Essência fraca, esta que define o ser humano,

Porque muitas vezes, bastava dizer,

Meu amor! Eu preciso de ti, é a ti que eu amo…


FrancisCosta (2)

Páscoa?!

 

As entradas das casas lavadas, e os vidros das janelas cintilantes,

Os gradeamentos pintados, os cortinados alinhados,

As campanhas de limpeza, são desgastantes,

E os povos andam enganados…

Desperdiçam a água nos passeios,

Assassinam as flores para adornos,

Arrancam as ervinhas e asseiam os canteiros,

Que parvalhões que nós somos!

Milhares de Cristos andam fora,

Opas vermelhas e muita euforia,

Saem logo pela aurora,

Em ambiente de romaria…

É um festival pouco higiénico, o beijar dos crucifixos,

É o staff dos embriagados,

São os milhões de euros gastos em fogo de artifício,

Que saciariam milhares de esfomeados.

É a festa dos príncipes dos sacerdotes,

Dos escribas, dos pagãos, dos fariseus e da cruz,

Os mesmos que em tempos mais remotos,

Escarneceram e assassinaram Jesus…

Eis a Páscoa dos gentios, dos idólatras, dos idiotas,

A Páscoa do vinho, dos trajes, das guloseimas e do cabrito assado,

Dos paradoxais envelopes com as notas,

Que os asnos recolhem com astúcia e com agrado.

Assim vendem a imagem do Nazareno,

Com Cristos de lata, de bronze ou de madeira,

Invocam frases lindas, mas expelem veneno

E nem conhecem as palavras que Jesus proferiu na ceia.

Porque a Páscoa é sinónimo de libertação,

É a queda de um Império que matou Jesus Cristo,

A Páscoa celebra uma ressurreição,

E todos devemos reflectir sobre isto.

No dia de Páscoa, eu fujo pró monte,

Isolo-me e caminho ao cimo da montanha,

Gosto da reflexão e, olhando o horizonte,

Sinto-me livre e nenhuma religião me apanha.


 

Frei Betto (1)

Teólogo

Ética e Política

 

A “ética” neoliberal reduz-se às vir­tudes privadas dos indivíduos. Ignora a visão de institucionalidade ética. As­sim, reforça a atitude paralisante do moralismo, que reduz a ética a uma ilu­sória perfeição individual. Ora, se a so­ciedade é estruturada, a ética é im­prescindível para configurarmos o mundo histórico. Portanto, a ética exige uma teoria política normativa das ins­tituições que regem a sociedade.

Como acentua Marilena Chauí, não basta falar em ética na política. A crítica às instituições geradoras de injustiças e negadoras de direitos exige uma ética da política. Criar espaços de criação de novos direitos. As instituições devem garantir a toda a sociedade a justiça dis­tributiva - a partilha dos bens a que todos têm direito - e a justiça participa­tiva, a presença de todos no poder – de­mocracia – que decide os rumos da sociedade.

O grande desafio ético hoje é como criar instituições capazes de assegurar di­reitos universais. Isso supõe uma rup­tu­ra com a actual visão pós-moderna, neoliberal, de fragmentação do mundo e exacerbação egolátrica, individualis­ta. Ainda que o ser humano tenha de­feito de fabricação, o que o Génesis cha­ma de “pecado original”, há que se criar uma institucionalidade político-social capaz de assegurar direitos e im­pedir ameaças à liberdade e à na­tureza. Isso implica suscitar uma nova cultura inibidora dessas ameaças, as­sim como ocorre em relação ao incesto, outrora praticado no Egipto, sem faltar os exemplos bíblicos.

De onde tirar os valores éticos uni­versalmente aceites? Como levar as pes­­soas a perguntarem-se por critérios e valores? Hans Küng sugere que uma base ética mínima deve ser buscada nas grandes tradições religiosas. Seria o modo de passarmos das éticas regio­nais a uma ética planetária. Mas como aplicá-la ao terreno político? Mudar pri­mei­ro a sociedade ou as pessoas? O ovo ou a galinha?

Inútil dar um passo atrás e fixar-se na utopia do controle do Estado como pre-condição para transformar a socie­dade. É preciso, antes, transformar a sociedade através de conquistas dos mo­vimentos sociais, e de gestos e sím­bolos que acentuem as raízes antipopu­lares do modelo neoliberal. Combinar as contradições de práticas quotidianas (empobrecimento progressivo da clas­se média, desemprego, disseminação das drogas, degradação do meio ambi­ente, preconceitos e discriminações) com grandes estratégias políticas.

É concessão à lógica burguesa ad­mi­tir que o Estado seja o único lugar onde reside o poder. Este alarga-se pela sociedade civil, os movimentos populares, as ONGs, a esfera da arte e da cultura, que incutem novos modos de pensar, de sentir e de agir, e modi­ficam valores e representações ideoló­gicas, inclusive religiosas.

”Não queremos conquistar o mundo, mas torná-lo novo”, proclamam os za­pa­tis­tas. Hoje, a luta não é de uma clas­se contra a outra, mas de toda a sociedade contra um modelo perverso que faz da acumulação da riqueza a ú­ni­ca razão de viver. A luta é da huma­nização contra a desumanização, da solidariedade contra a alienação, da vida contra a morte.

A crise da esquerda não resulta ape­nas da queda do Muro de Berlim. É também teórica e prática. Teórica, de quem enfrenta o desafio de um socialismo sem stalinismo, dogmatismo, sacra­lização de líderes e de estruturas polí­ticas. E prática, de quem sabe que não há saída sem retomar o trabalho de ba­se, reinventar a estrutura sindical, reactivar o movimento estudantil, incluir em sua pauta as questões indígenas, étnicas, sexuais, feministas e ecológicas.

Neste mundo desesperançado, a­pe­nas a imaginação e a criatividade da esquerda são capazes de livrar a ju­ventude da inércia, a classe média do desalento, os excluídos do sofrido conformismo. Isso requer uma ideolo­gia que resgate a ética humanista do so­cialismo e abandone toda interpreta­ção escolástica da realidade. Sobretudo toda atitude que, em nome do combate à burguesia, faz a esquerda agir mime­ticamente como burguesa, ao incensar vaidades, apegar-se a funções de po­der, sonegar informações sobre recur­sos financeiros, reforçar a antropofagia de grupos e tendências que se satisfa­zem em morder-se uns aos outros.

O pólo de referência das esquerdas, em torno do qual elas precisam de se unir, é somente um: os direitos dos pobres.

 

Copyright 2009 – FREI BETTO - É proi­bida a reprodução deste artigo em qual­quer meio de comunicação, electró­ni­co ou impresso, sem autorização. Con­ta­cto – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)



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