Textos do
Jornal Fraternizar

Edição nº 175 de Outubro/Dezembro 2009

DESTAQUE 1

Nem Segunda Vinda, nem Juízo Final

 

Nem Segunda-Vinda, nem Juízo Final! Deixemo-nos de Infantilidades. E, uma vez libertados do Medo do Império, do seu Ídolo mentiroso /assassino e das suas Igrejas-Religiões, trabalhemos incansavelmente como e com Jesus para ajudar maieuticamente a libertar as pessoas do Medo. De maneira que, todos juntos e unidos, como um só coração e uma só alma, na Prática Política, derrubemos o Império e desacreditemos para sempre o seu Ídolo!

 

Nem Segunda-Vinda, nem Juízo Fi­nal. Por mais que todas as Igrejas cris­tãs, Testemunhas de Jeová, religiões eso­téricas e até o Islão se pelem e ensinem o contrário, não h(aver)á nem Segunda-Vinda de Jesus, nem Juízo Final. É verdade que a Bíblia, particu­lar­mente, o Novo Tes­tamento, em espe­cial no livro do Apo­calipse ou Re­velação, garante, em variadíssimas pas­sagens, que Jesus voltará em po­der e em glória sobre as nuvens do céu, rodeado de um e­xér­cito de anjos. E que se sentará para julgar todas as nações da terra. Aos da sua direita, dá-lhes a boa notícia de que está, fi­nal­mente, na altura de eles irem ocu­par o Reino que está preparado para eles, desde o princípio do Mundo (de­mo­rou, mas chegou!), porque eles fo­ram uns tipos bacanos para com ele. Aos da sua esquerda, dá-lhes a má no­tícia de que está na altura de irem para o fogo eterno, pre­pa­rado desde o princípio do Mundo para o diabo e os seus anjos, porque eles, ao contrá­rio dos da sua direita, foram uns safa­dos para com ele.

To­das, todos sabemos isto. A nos­sa própria Igreja católica põe os que ainda insistem em ir à Missa aos do­min­gos – é preciso ter-se muito mau gosto! - a papaguear o Credo, logo a se­guir à homilia do pároco,qua­se sem­pre sem nenhuma teologia, a de Je­sus, a única que poderia interes­sar às pessoas deste nosso século XXI e que as ajudaria a transformarem mai­euti­camente este nosso Mundo em pro­gres­sivamente humano. E nesse Credo, lá está também este artigo de fé, refe­rente a Jesus: “Subiu ao céu, está sen­tado à direita do Pai, de onde há-de vir a julgar os vivos e os mor­tos”.

Mas, leiam /oiçam bem: É tudo Men­tira. Uma Mentira que, como toda a Mentira grave (e esta é sumamente grave), tem servido para aterrorizar as populações e os Povos, o que é de todo politicamente útil ao Império de turno e a todos os outros Poderes seus vassalos. Entre os quais se incluem, também, as próprias Religiões e as Igre­jas cristãs, o mais eficiente braço direito do Império. É tempo de dizer­mos: Basta, a tanta Mentira! Porque, afinal, só a Verdade Praticada nos fará mulheres /homens livres, autónomos, po­liticamente protagonistas, universal­mente sororais /fraternos e fecunda­men­te solidários. Abramos, pois, os olhos do nosso Coração e da nossa Mente. Sabedoria é preciso. Demência não é preciso. É chegada a Hora da Maioridade Humana!

 

Escandalizamo-nos com estas pa­la­vras? Ou alegramo-nos? Se nos es­candalizamos, vejam então até que pon­to, temos andado, há sucessivas gerações, a nascer, a viver e a morrer na Mentira e no Medo. Já nem sequer Je­sus, o filho de Maria, o carpinteiro de Nazaré, crucificado pelo Império, por se ter recusado a aceitar /praticar a sua Idolatria, chega a ser para nós boa notícia /Evangelho. E, ao contrário de Jesus, temos preferido Deus, o Ído­lo do Império, que, durante todos estes séculos que nos precederam, sempre foi a principal Fonte do Terror e do Me­do em que vegetam as populações.  

Se, pelo contrário, nos alegramos, en­tão é sinal de que estamos bem mais próximos da Verdade que nos faz livres e, por isso, mais humanos, sororais /fra­ternos e solidários uns com os ou­tros, não só ao nível local, como tam­­bém nacional e global. A menos que se­jamos ainda tão canalhas, que en­ten­demos /vivemos a Liberdade, co­mo liberdade de roubar, matar e des­truir tudo e todos, por sinal, um com­por­ta­mento sócio-político muito abaixo do dos animais da selva.

Neste último caso, seríamos, sem dúvida, os mais infelizes e os mais su­b­­desenvolvidos dos seres vivos, por­que ainda nem ao nível animal have­ríamos chegado. E só poderíamos di­zer que somos seres humanos, por­que o Bilhete de Identidade o atesta. Men­tirosamente! Uma vez que o nosso ser-viver, concretamente, a nossa prática sócio-política e económica de todos os dias, é visceralmente egoísta, sem nada sequer de gregário, como já é timbre, até, de certos animais.

Ainda assim, saibamos que a cul­pa maior não está tanto nestes seres-ainda-por-desenvolver-e-crescer-em-humano. Está, sobretudo, nas Igrejas e nas religiões que, devido às suas ca­te­queses terroristas de um Deus im­perial, todo-poderoso, juiz e castiga­dor, contribuíram - e de que maneira! - para manter, criminosamente, no In­fan­til, geração após geração, popula­ções inteiras aterrorizadas, castradas, subservientes, sem um pingo de auto­nomia, a necessitarem de severas leis e de polícia, inclusive, até de um Deus-Polícia, Juiz absoluto, ao qual ninguém, nem os ateus, conseguiriam escapar!

Só que uma tal doutrina perfaz um crime massivo de lesa-Humanidade, de lesa-Povos, que torna as instituições re­ligiosas que o cometem, semelhantes ao sal que perde a força de salgar e, por isso, instituições que, hoje, já nem para a estrumeira servem, apenas para serem lançadas fora e pisadas pelos Humanos.

 

Não basta uma determinada afir­ma­ção estar na Bíblia, ou no Alcorão, ou no Inconsciente colectivo das popu­la­ções, para ser automaticamente verdade. Fosse assim, e seríamos os mais infelizes dos seres vivos, porque forma­tados de uma vez por todas, sem qual­quer possibilidade de desenvolvimento e de crescimento. Felizmente, nada do que é vivo é assim, muito menos nós, os humanos. Acontecemos, um dia, no de­curso da Evolução e cabe-nos, des­de então, a missão política de crescer­mos em Sabedoria e em Graça, mais do que em Saber e em Ter. Só a Sabe­doria e a Graça nos fazem Ser em di­mensão progressivamente Humana. 

Não é isto mesmo que o Evange­lho de Lucas, paradigmaticamente, diz acerca de Jesus, em concreto, que ele crescia em Sabedoria e em Graça (cf. 2, 52)? E a verdade é que cresceu tanto em Sabedoria e em Graça, que se tornou o Dom, a Dádiva viva, o Pão Vivo Partido e Repartido, e o Vinho Derramado para a vida do Mundo

Sim, a Bíblia diz textualmente que há Segunda-Vinda de Jesus (aliás, de Cristo). O Alcorão igualmente, num ma­ni­festo plágio do que diz a Bíblia. O In­cons­ciente colectivo das populações, também, porque, infelizmente, ainda não investimos o bastante, para que ele passe a ser um Inconsciente ilustra­do /iluminado /evangelizado, de modo a crescer e a fazer-nos crescer em Sa­be­doria e em Graça. E ele tem perma­necido no Medo, na Treva, no Obscu­ran­tismo, no Terror. Sobretudo por cul­pa /responsabilidade das Religiões, todas perversas, e das Igrejas cristãs que, com o tempo, foram, demencial­mente, a correr converter-se em outras tantas religiões e, nessa medida, tor­na­ram-se tão perversas quanto elas.

 

Só nos restará, então, queimar­mos a Bíblia e o Alcorão? Não. Não é preciso sermos tão iconoclastas. As fogueiras da Inquisição não têm de re­gressar. Deixemos a Bíblia e o Alcorão em paz. Cresçamos, isso sim, em Sabe­doria e em Graça, como Jesus cres­ceu, de modo a sermos capazes de interpretar correctamente, para o nosso Século XXI, tanto uma como ou­tro. Com o Alcorão, as coisas são mais difíceis. Porque ele próprio, no seu texto, proíbe e com terríveis ameaças – mas que ditadura literária mais cruel! – que alguém o faça. Já com a Bíblia, é mais possível, porque ela própria é muito fruto de sucessivas interpreta­ções, feitas a partir das novas circuns­tâncias em que o Povo Hebreu /Judeu suces­si­vamente, viveu.

Jesus, de resto, Judeu de nasci­men­to, é o intérprete maior e o mais abalizado da Bíblia. E faz questão de nos dizer que prossigamos a Revolu­ção Teológica que ele desencadeou /viveu. Para isso, comunica-nos gratui­ta­mente o seu próprio Espírito, para que nos guie até à Verdade Total /Liberdade Total (cf. João 16, 13).

É esta sábia interpretação jesuâ­ni­ca da Bíblia que tem faltado, em ca­da nova geração, às Igrejas cristãs. Todas elas são demasiado preguiço­sas. Instaladas nas suas Rotinas e Ne­gócios. Os seus membros, mulheres e ho­mens, haveriam de ser o sal da Ter­ra, a luz do Mundo, o fermento na Mas­sa, a sentinela na Cidade, mas gastam o melhor do seu tempo a repetir até à náusea os mesmos ritos, as mesmas fórmulas, os mesmos cerimoniais-sem-sentido, já de todo intragáveis neste nosso Tempo. Nem sequer as Univer­sidades católicas e as outras Univer­si­dades confessionais têm sido menos preguiçosas. Limitam-se a reproduzir ve­lhas interpretações acumuladas ao longo dos séculos.

Em muitas áreas, ainda nem che­garam a sair da interpretação bíblica que, em seu tempo (século V), Santo Agostinho fez! E dessa interpretação faz parte, por exemplo, a patológica dou­trina do chamado Pecado Original, que teria sido cometido pelos “nossos primeiros pais, Adão e Eva” (quando estes nem sequer existiram!), no início da Humani­da­de. Uma doutrina insultu­osa, tanto para o nome de DeusVivo, o de Jesus, como para nós, seres humanos. Mas não é que, ainda hoje, é essa patológica doutrina que está alojada no Inconsciente das popula­ções e, por consequência, também na génese de todos os Medos e de todos os Terrores com que se têm tecido as catequeses das Igrejas, por essas paróquias além, sem que as mães e os pais das crianças que as frequen­tam, tomem uma posição e, pelo me­nos, retirem as suas filhas, os seus fi­lhos de semelhante escola de Medo e de Terror?!

 

Em verdade, em verdade lhes digo: Não há Segunda-Vinda de Jesus. Não há Juízo Final. Com estas metáfo­ras /parábolas literário-teológicas e com esses escritos apocalípticos, o Novo Testamento da Bíblia judaico-cristã quer dizer-nos exactamente o con­trário do que nele se lê. É o que se chama escrever /divulgar uma boa notícia, mas de modo a fintar o Inimi­go. E que Inimigo histórico é esse que, com este modo de escrever, se preten­de fintar /ludibriar? É a Mentira Organi­zada em Sistema de Poder, o Império todo-poderoso, que sempre se disfarça de Verdade, de Ordem Mundial. Ao tempo de Jesus, eram o todo-poderoso Império de Roma e o todo-poderoso Templo de Jerusalém, que se aliaram um ao outro como um só contra a Ver­da­de Praticada que é o próprio Jesus, e o crucificaram, como o Maldito dos malditos e, desse modo, o colocaram para sempre fora do seu domínio, a fim de poderem continuar apenas eles a reinar, como se eles e a sua Ideolo­gia /Idolatria fossem a Verdade.

Todo este Crime inominável, co­me­tido em conjunto pelo Templo e pe­lo Império, ocorreu, teve de ocorrer, por­que Jesus viu o que antes dele e depois dele ninguém mais viu. Viu que era um Ídolo o Deus que justificava a existência do Império, mai-lo seu Tem­plo, mai-lo seu Sistema Económico-financeiro. Mais do que um Ídolo, o Im­pério era, é, O ÍDOLO. Por isso, in­trinsecamente perverso, a Perversão Organizada. Intrinsecamente Mentiro­so e Assassino. Jesus viu e espalhou a Boa Notícia aos quatro ventos e ain­da mandou que a espalhássemos por todas as nações da Terra. O Ídolo do Império e do Templo não lhe perdoou. E matou-o na Cruz do Império, para, com esse tipo de Morte Crucificada, o irradiar para sempre da História. Irradiou até a sua Memória Subversiva e Perigosa da consciência dos Povos, já que ninguém hoje quer um Maldito e um Crucificado na família. Em seu lu­gar, o Império colocou um mítico Cris­to, eternamente pregado na Cruz e fez dele o seu único Deus, à medida das suas ambições de domínio do Mundo.

O crime parecia perfeito. E era, se apenas existisse o Império e o seu Ído­lo. Mas aconteceu o imprevisível, inclu­sive, para a omnipresente polícia do Império. Como a deixar definitivamente claro que nem o Império, em todo o seu Poder e Terror, consegue alguma vez ter mão no Vento /Espírito. Matou Je­sus, em três tempos, até em menos du­ma semana. Mas jamais conseguiu nem conseguirá ter mão no Sopro de Jesus, que ele próprio nos deu a todas, todos nós, ao Expirar na Cruz. E é esse Sopro /Espírito, o de Jesus, que continua aí a animar por dentro a His­tória, a sabotar constantemente a Or­dem Mundial do Império, porque Ele é, de sua natureza, politicamente Sub­versivo, Conspirativo, Demolidor de todos os Impérios de turno e do seu Ídolo.

Esta Boa Notícia, ou Evangelho ti­nha de ser dada /passada a todas as nações, a todos os Povos da Terra. As, os de então, de hoje e de amanhã. Para que as fecundas Insurreições De­sar­madas das Vítimas prossigam, im­pa­rá­veis, na História. Mas como fazer circular tão Boa Notícia ou Evangelho de Jesus, se o Império todo-poderoso controlava tudo e todos? Só havia um processo: recorrer a textos codificados que, se viessem a cair nas mãos de um qualquer polícia secreto do Impé­rio, ele não entenderia patavina, ou en­tenderia exactamente o contrário do que os Escritos veiculavam /testemunhavam. Escrever /dizer, concreta­men­te, que Jesus, o Subversivo e o Maldi­to, tinha subido definitivamente ao céu e um dia que ninguém sabe quando, só o Pai /Deus, voltaria, deixava o Im­pério bastante mais sossegado. E, com o passar dos dias e dos anos, até ador­mecido, descuidado, acomodado. Afi­nal, aquelas, aqueles poucos que ain­da teimavam em ser fiéis a Jesus, não passavam de pessoas politica­mente inofensivas, até dignas de lástima.

 

Só que a verdade objectiva que se transmitia nos Escritos tecidos da­que­la maneira, era totalmente outra. Garantia /testemunhava que Jesus, o Crucificado pelo Império e pelo Templo está definitivamente vivo e activo, e vivo-e-activo-connosco, mais íntimo a nós dos que nós próprios. E, tal como o Vento, precede-nos sempre na Insu­b­mis­são, na Insurreição, na Maiori­dade Humana, no Levantamento De­sarmado, até ao Derrube definitivo do Império, de cada Império de turno que venha a ser instituído pela Demência-Demência de certos seres humanos que não chegam a crescer em Sabedoria e em Graça e, como compensa­ção, fazem tudo para crescerem cada vez mais em Poder e em Ter Acumula­do e Concentrado.

O enfrentamento entre o Sopro de Jesus, definitivamente vivo e omnipre­sente na História, e o Império, mai-lo seu Ídolo, é sempre martirial /duélico. São por isso muito poucas as pessoas que se atrevem a ir por essa via, a de Jesus. Mas não há nenhuma dúvida: Graças a pessoas assim, outros Jesus, o futuro é garantidamente dos Seres Humanos. Não é da Besta do Império, nem do Império de ontem, nem do de hoje, nem do de amanhã. Alegremo-nos, então, todas as Vítimas Humanas do Império e do seu Ídolo. Organize­mo-nos, então, todas as Vítimas Huma­nas do Império e do seu Ídolo. En­frente­mos, então, todas as Vítimas Hu­manas do Império, esse mesmo Impé­rio e o seu Ídolo. Em lugar de o ado­rar­mos e ao seu Ídolo. É Hora!

Todas as horas são, agora, a Hora dos Povos. Porque o Sopro /Espírito de Jesus continua aí clandestinamente a trabalhar dia e noite, sábados e domingos incluídos, até que nós, seres hu­manos-com-Ele, tenhamos dado corpo, nos nossos corpos, à Humani­dade cheia de Sabedoria e de Graça, cheia de Verdade e de Liberdade. Sai­bam que para isso, é que Jesus, o Cru­cificado pelo Império, nunca mais nos deixou. Apenas passou à Clandestini­dade, à Invisibilidade. Tem sempre contra ele o Ídolo do Império, mas tem por ele, DeusVivo que o habita e nos habita. Não. Não foi sentar-se à direi­ta de Deus, como dizem em linguagem codificada os Textos bíblicos. Pelo con­trário, está fecundamente connosco todos os dias, até que nós, seres huma­nos, alcancemos /edifiquemos, com muito esforço, muita dedicação, muito engenho e também muita alegria, a Plenitude do Humano. Não. Ele não se foi para voltar. Bem pelo contrário, ficou para sempre connosco e em con­tí­nua acção na História! Por isso, Po­lítica Praticada pelos Povos, é preciso. Poder Político, mais ou menos vassalo do Império de turno e do seu Ídolo, o Dinheiro Acumulado e Concentrado, não é preciso. Arregacemos, então, as mangas e entreguemo-nos sem des­can­so a prosseguir a mesma Missão Política de Jesus. Concretamente, as suas mesmas Práticas Políticas e Eco­nó­micas Maiêuticas. Os seus mesmos Duelos Teológicos Desarmados. Sem jamais darmos tréguas ao Inimigo dos seres humanos e dos Povos, o Império e o seu Ídolo.

Nem Segunda-Vinda, nem Juízo Final! Deixemo-nos de Infantilidades. E, uma vez libertados do Medo do Im­pério, do seu Ídolo mentiroso /assas­sino e das suas Igrejas-Religiões, tra­ba­lhemos incansavelmente como e com Jesus para ajudarmos maieutica­mente a libertar as pessoas do Medo. De maneira que, todas, todos juntos e unidos, como um só coração e uma só alma na Prática Política, derrube­mos o Império e desacreditemos para sempre o seu Ídolo!


 

DESTAQUE 2

Os do G8 são mentirosos e assassinos como o pai deles

A saúde da Terra vai ter que esperar mais 40 anos!

 

Até ao ano 2050, promessa dos chefes do G8. O que significa que o ambiente, hoje, cada vez mais pelas ruas da amargura, terá ainda de esperar mais 40 anos pelo início da necessária inversão de marcha em direcção à calcinação global em curso neste século XXI. Palavra dos chefes de estado ou de governo dos oito países mais industrializados e mais ricos do Mundo. Leram bem. Não são quarenta dias, nem quarenta semanas, nem quarenta meses. São quarenta anos. E ainda nós, as portuguesas, os portugueses, nos queixamos das listas de espera para uma consulta no médico de família, uma consulta externa no hospital, uma intervenção cirúrgica num hospital público. Ponham aqui os olhos. A saúde do Planeta Terra, nossa casa comum, terá de esperar quarenta anos para ver os oito países mais industrializados, mais ricos e mais poluidores do Mundo diminuírem em 80 por cento as suas emissões de gases com efeito de estufa, para, desse modo, se limitar o aquecimento global a dois graus Celsius.

 

Quarenta anos de espera. Pela concretização de uma vaga e simples pro­messa, feita pelos actuais chefes desses oito países. Uma promessa que não tem nenhuma garantia de vir a ser cum­prida, nem pelos que no início de Julho 2009, a assinaram e anunciaram ao Mundo, nem, muito menos, pelos que lhes sucederem no trono que eles actualmente ocupam, e que não é deles, mas do Senhor Dinheiro Acumulado e Concentrado.

Ontem, já era tarde, para iniciarmos a mais que necessária inversão de mar­cha do Planeta Terra em direcção à cal­ci­nação global em curso. E os chefes do G8 ainda têm a lata de, a partir de Roma, que foi a sede do Império Roma­no e hoje é a sede da Transnacional da religião católica romana, onde estive­ram reunidos em Cimeira para as tvs de todo o Mundo mostrarem, anuncia­rem esta vaga promessa, para vir a ser concretizada apenas daqui a quarenta anos. Com uma agravante mais e que é esta: Como eles são todos compulsi­vamente mentirosos e assassinos, sem­pre que os interesses do Senhor Dinhei­ro Acumulado e Concentrado assim lho exi­girem, ninguém nos garante que semelhante promessa venha a ser efe­ctivamente concretizada.

 

Perante isto, o que fazem os Povos do Mundo? Como reagem? Simples­men­te, ouvem e calam. Encolhem os ombros. Deixam para lá. E fazem ainda pior: Continuam a votar neles. Continu­am a respeitá-los. A deixá-los andar à solta, de Cimeira em Cimeira. Ne­nhum protesto. Nenhum chicote nas mãos. Nenhum lançamento de ovos chocos ou de sacos de plástico cheios de dejectos sobre eles, quando todos juntos como um só, posam para a foto de família.

Sim – e quem não sabe? – há to­da aquela segurança a protegê-los e não permite que os Povos se apro­ximem deles. Mas os que estão ali, armados até aos dentes a protegê-los da ira e da cólera dos Povos, não são, eles também, parte integrante dos Po­vos? Contratados para protegerem men­tirosos e assassinos compulsivos, vestidos de Executivos dos oito países mais industrializados, mais ricos e mais poluidores do Mundo, porque não aproveitam esse facto e trocam as armas por protestos, por chicotes, por ovos chocos, por sacos de plástico chei­os de dejectos, e os lançam sobre eles, em lugar de os protegerem? Por­que não são aquilo que na verdade são, parte integrante dos Povos do Mun­do? Porque matam o que há neles de Povos do Mundo, e se assumem ex­clusivamente como “Forças de Segu­rança”? Porque traem os Povos dos quais são parte integrante? Porque são assim tão dementes-dementes? Têm a faca e o queijo nas mãos e por­que viram toda esta força contra si e contra os Povos do Mundo, dos quais são também parte integrante?

Sim – e quem não sabe? – lava­ram-lhes e formataram-lhes o cé­re­bro, para eles dei­xarem de ser o que são e passarem a ser o seu contrário. Mas porque consentiram eles que lhes fi­zessem tão intolerável operação? Por­que não resistiram? Porque não fugi­ram pela escola fora, pelo quartel fora, pela academia fora, pelo templo fora, pelas aulas de descriação do Humano fora e vieram a correr juntar-se aos seus Povos, contar-lhes tudo o que preten­diam fazer com eles? Porque con­sentem? Porque até agradecem que os tenham contratado, que tenham con­fiado neles, na lealdade deles?

Homens, sede Homens! Povos, sede Povos! Porque é que este apelo /grito que rebenta no mais fundo dos seres humanos e dos Povos do Mundo não é escutado por eles? Porque, ao contrário, eles se vendem por um prato de lentilhas? Porque traem os seus ir­mãos, mulheres e homens? Porque traem os Povos dos quais são parte integrante? Porque se traem a si pró­prios? Porque aceitam perder a alma, a identidade, serem reduzidos à condi­ção de funcionário, de mercenário, de robot, de Caim para si próprios e para os Povos do Mundo?

São um nunca mais acabar de per­guntas. Todas oportunas. Não! Não di­gam que elas são utopia. Não são. Não digam que isto é puro delírio. Não é. É a saúde do nosso Planeta Terra que está em jogo. É o presente dos nossos filhos que hoje estão a nascer e vão nascer amanhã que está em jogo; é o presente dos filhos dos nossos filhos, que está em jogo.

Andamos, estes dias, tão preocu­pa­dos com o vírus da gripe A, que pode vir a afectar a saúde e a vida de uns quantos milhares ou milhões de pessoas em todo o Mundo, e não nos aflige minimamente a saúde do nosso Planeta Terra, nosso útero e nossa casa co­mum? Porque filtramos com tanto zelo o cisco /vírus da gripe A e continuamos a engolir o camelo /aquecimento global do Planeta Terra? E ainda nos dizemos ilustrados /civilizados /desenvolvidos?

 

“Crescei, multiplicai-vos e cuidai da Terra”. É a grande palavra de Ordem que os seres humanos ouviram, quan­do, no decurso da Evolução, aconteceram, um dia, no Planeta Terra.

Em lugar de assumirem com ale­gria essa Prática Política Maiêutica do Cuidado da Terra, assustaram-se pe­rante tão galvanizadora Missão! E, nos seus medos, correram a erguer tem­plos e ermidas nos pontos mais altos em seu redor, e a meter-se lá dentro. Em lugar de se ocuparem da Terra, de cuidarem da Terra, passaram a ocupar-se e a cuidar das deusas e dos deuses. Especializaram-se em Religião Pratica­da, não em Política Praticada.

A Voz bem gritava /grita no mais fundo deles, seres humanos e Povos, “Crescei, multiplicai-vos e cuidai da Terra!” Mas os seres humanos e os Po­vos, assustados, era /é para as deusas e deuses da sua imaginação e dos seus medos que olhavam /olham. Era /é com elas e com eles que se ocupavam /ocu­pam. Era /é delas e deles que cuida­vam /cuidam.

Ainda hoje, milhares e milhares de anos depois desses começos, é muito assim que os Povos do Mundo se com­portam. Multiplicam as religiões, os tem­plos, as ermidas, os santuários, fre­quentam com assiduidade os cultos, os mais tradicionais e os mais recentes, pagam os dízimos, esforçam-se por estar de bem com as deusas e os deu­ses, e não querem saber nada de Polí­tica Praticada que, na prática, se resu­me a realizar aquela Palavra de Ordem inicial, “Crescei, multiplicai-vos e cuidai da Terra”. Cuidam das deusas e dos deuses, descuidam-se por completo da Terra.

E, como a Terra, hoje, é cada vez mais uma Terra-por-cuidar, por-acom­pa­nhar, por-atender, ela adoece de aban­­­dono, de descuido, de solidão. Quando a doença se torna mortal, ela morre e, ao morrer, faz morrer com ela os Povos que a habitam. A doença da Terra é a doença dos Povos. Entre a doença da Terra e o vírus da gripe A, não há comparação possível. A do­en­ça-morte da Terra é a nossa doença-morte também, como Povos que a habitamos. E, mais do que isso, que somos. Sim, porque não só habitamos a Terra. Somos Terra. Terra que, em nós, se tornou consciência, se tornou liber­dade, numa palavra, se tornou Po­lí­tica Praticada.

Temos de deixar as deusas e os deuses que são Mentira, por isso, Opres­são e Morte, e abrirmo-nos à Política Praticada, coisa que os chefes dos oito países mais industrializados, mais ricos e mais poluidores do Mundo não sabem o que é, porque a confun­dem com Poder Político, o único que lhes interessa, ainda que ele seja men­ti­roso e assassino. São, por isso, os mais dementes-dementes dos seres hu­manos. Eles e os que os guardam, os protegem, os defendem, quando de­veriam amarrá-los, ter mão neles, reabilitá-los, restaurar neles o Humano que se perdeu de todo.

Se nem com os inúmeros erros que, como Povos da Terra, já comete­mos até hoje, nós aprendemos, como poderemos sonhar com um Amanhã melhor?

Política Praticada, quero, não Po­der Político. Política Praticada quero, não Religião. É o que nos diz /grita a mis­teriosa Presença-Voz que nos habi­ta, mais íntima a nós do que nós pró­prios. É tempo de a escutarmos e de a realizarmos. É tempo de sairmos da cri­ancice, do Infantil(ismo), do Medo. E de passarmos à Política Praticada, com todos os Povos como sujeitos, como pro­tagonistas. Sem mais recursos a inter­mediários, seja os funcionários-merce­nários do Poder Político, seja os funcio­nários-mercenários do Poder Religioso, seja os funcionários-mercenários do Poder Financeiro.

A Terra está doente e chama-nos. Como um planetário Lázaro, o do Evan­gelho de João. Como Jesus, o Ser Hu­ma­no por antonomásia, que nunca cuidou das deusas nem dos deuses, apenas cuidou dos seres humanos e dos Povos, levantemo-nos cada dia e cuidemos da Terra. Ao cuidarmos da Terra, é também de nós que estamos a cuidar! Amemo-nos a nós mesmos e amemo-nos uns aos outros. É isso a Política Praticada que está a fazer ainda mais falta do que o Pão para a boca.


 

EDITORIAL

Quem nos livrará desta Demência organizada?

 

Acabámos de sair, agora mesmo, de uma campanha eleitoral e de umas elei­ções para o Parlamento, em Lisboa. Já estamos metidas, metidos numa ou­tra campanha eleitoral que vai desa­guar em novas eleições, agora para as Autarquias Locais. Poucas semanas antes, já havíamos tido a campanha eleitoral e as eleições para o Parlamen­to Europeu. É, por isso, o que se pode dizer, com toda a propriedade, um tal fartar, vilanagem! E porquê? Porque é, em tempos assim, de sucessivas cam­pa­nhas eleitorais e de sucessivas elei­ções, que podemos ver, até a olho nu, e em toda a sua crueldade, a Demên­cia-demência Humana. Em tempos as­sim, desaparece por completo a Sa­be­doria Humana. Fica, em seu lugar, a Demência-demência Humana. Desa­pa­rece a Luz /Lucidez. Fica em seu lugar a Treva /Obscurantismo. Desapa­rece a Consciência Crítica. Fica em seu lugar a Alienação. Desaparece a Digni­dade Humana. Fica em seu lugar a Hu­mi­lhação Humana. Desaparece o Hu­ma­no-irmão/irmã. Fica em seu lugar o Mer­cenário-sem-escrúpulos. Desa­pa­rece o Humano-Cordeiro. Fica em seu lugar o Humano-Lobo. Desaparece a Prática Política Maiêutica. Fica em seu lugar o Poder Político, em todo o seu esplendor de Hipocrisia e de Mentira, ladrão e assassino das populações e dos Povos. Numa palavra, desaparecem os Povos como os verdadeiros protago­nistas da His­tória. Ficam em seu lugar umas quantas Máfias de pequenos-gran­des poderosos partidos políticos que nos roubam a voz e a vez e, ainda por cima, se fazem depois passar por nossos ben­feitores.

Decididamente, o Poder Político nas­­­ceu (não esqueçamos que ele tem por Pai o Senhor Dinheiro, hoje, cienti­fi­­ca­­men­te organizado) e veio ao Mundo só para matar, roubar e destruir a Polí­tica. E sem Política Praticada, não há Povos Unidos e Organizados com voz e vez. Apenas súbditos. Vassalos. Afilha­dos dos padrinhos das pequenas-gran­des Máfias. Seres miseráveis de mão estendida e de chapéu-na-mão, a vida inteira e de geração em geração. Um Portugal de pequenitos. Uma Europa de pequenitos. Um Mundo Global de pequeni­tos.

Os Partidos Políticos, quando se formaram, deram a sensação de que a Sociedade havia encontrado um ca­minho de auto-afirmação. Os seus mem­­bros iriam, finalmente, ter voz e vez. A esperança, depressa, deu lugar à desesperança e à desmobilização. Os Partidos Políticos não foram capazes de ser-permanecer o que se propu­nham: associa­ções-parteira dos Povos que sempre recusariam crescer, eles próprios, porque tudo haveriam de fa­z­er para fazerem os Povos crescer. De associações-parteira, promotoras de autonomias e de Povos-sujeito e prota­go­nistas, depressa passaram a bandos de mercenários, ao princípio, ainda com alguns escrúpulos, depois, sem es­crú­pu­los nenhuns, envolvidos em lutas fra­tricidas pela conquista do Poder e dos Privilégios que o Poder sempre ga­rante a quem o serve, no Governo, ou na O­po­sição.

É dura esta linguagem? Sem dú­vida. E quem disse que a linguagem da Verdade que nos faz livres, se prati­cada todos os dias por nós, é suave? Há Verdade que nos liberte, e aos Po­vos, para a Liberdade e para a Maiori­dade, que não seja Perseguida e Cru­cificada? Ou somos ainda tão politica­mente ingénuos, que confundimos a Ver­­dade com o Crucificador, com o Fa­bricador de Vítimas humanas, com o Poder de roubar, de matar e de des­truir, desde que tudo seja feito em no­me do Estado, do Capital Financeiro, da Propriedade Privada Acumulada e Concentrada? Ou em nome do interes­se Eclesi­ástico, do Religioso, numa pa­lavra, do Divino? O Vencedor, alguma vez, é a Verdade? A Verdade não é a Voz, o Grito, o Silêncio das Vítimas que o Vencedor, para o ser, fez e continua a ter de fazer todos os dias, para pros­se­guir Vencedor todos os dias?

Tudo isto que hoje nos é dado ver, a olho nu, não é por demais Perverso, o Perverso cientificamente organizado? Quem ainda é tão cego que não vê, nem sequer uma montanha à frente dos olhos? Então a montanha cai-nos em cima, esmaga-nos e nós nem assim ve­mos? Nem assim abrimos os olhos? Cont­inuamos a pensar e a dizer que a Verdade está com o Vencedor e, por isso, agimos em consequência, concre­ta­mente, ficamos do lado do Vencedor, aclamamos o Vencedor, felicitamos o Ven­cedor, corremos a buscar os favores do Vencedor e passamos a trabalhar para o Vencedor, para que ele seja ca­da vez mais Vencedor? Ainda somos do número daqueles que pensam e di­zem: Ai dos Vencidos! Ai das Vítimas!?

"Eis que vamos subir agora a Jeru­salém e lá vai cumprir-se tudo o que foi escrito pelos profetas acerca do Homem: vai ser entregue aos gentios [= Romanos], vai ser escarnecido, mal­tratado e coberto de escarros; e, de­pois de o açoitarem, dar-lhe-ão a mor­te" (cf. Lucas 18, 31-33).

Este é sempre o destino da Verdade que se faz Prática Política Maiêutica, nunca por nunca, Poder Político Prati­ca­do, que é de sua natureza mentiroso e assassino. Lá, onde houver Poder Po­lítico em acção, há Vencedor, há Menti­ra, há Hipocrisia, há Opressão, há Ex­plo­ração, há Dominação, há Repres­são, há Excomuhão, há Ostracismo, há Assassínio. Numa palavra, há Vencidos, há Vítimas humanas e não-humanas. A própria Natureza geme e adoece. É assassinada em múltiplas das suas es­pécies.

No Labirinto do Poder, de todo o Po­der, não há lugar para o Homem, o Ser Humano. Nunca haverá. Metamos isto na cabeça. Sobretudo no coração. Na mente cordial. E, se o Homem, o Ser Humano aparece no Labirinto do Poder, é de imediato cercado, vigiado, controlado. Se persiste na dele e não se verga ao Poder, não dobra o joelho ao Poder, pelo contrário, ainda vai de­sar­­ma­do à sua "Jerusalém" - não há Poder Político que não tenha a sua "Jerusalém", os seus sumos sacerdotes, o seu Sinédrio, os seus Doutores, e até os seus Teólogos /Ideólogos - é preso, entregue aos do Império, escarrado, denegrido no seu nome, e, finalmente, assassinado na Cruz do Império.

Jesus, o Ser Humano por antono­másia, viu e fartou-se de nos prevenir. Diz a narrativa evangélica que os Doze que o seguiam e acompanhavam como discípulos, não entenderam patavina daquela linguagem. Apenas percebiam a linguagem do Poder Político, a lin­gua­gem do Messias Vencedor. A linguagem do Vencido, da Vítima, eles não a percebi­am. Por isso, na hora da Ver­da­de, todos fugiram e deixaram-no ab­so­lutamente só! Os aplausos, as mani­festações de regozijo, os parabéns, as ovações, os vivas, a champanhe, vão sempre para o Vencedor. Para o Venci­do, vão os es­carros, os insultos, os des­prezos, o aban­dono.

A História é ainda assim que está. É assim que se escreve. Para vergonha dos Vencedores que o são, porque são mentirosos, ladrões, corruptos, assassi­nos. Tal como o Poder Político, também eles nasceram e vieram ao Mundo só para matar, roubar e destruir. Parece, por momentos que podem durar gera­ções e gerações, que o Futuro é dos Ven­­­cedores. Puro engano. É apenas da Verdade Praticada que nos faz livres para a Liberdade e para a Maioridade. É dos Vencidos, porque desarmados. É das Vítimas, porque desarmadas. Agredidas, não agridem. Maltratadas, não maltratam. Desprezadas, não des­pre­zam. Assassinadas, não assassi­nam. Ressuscitam ao terceiro dia.

Significa isto que, finalmente, são Vencedores? De modo algum. Isso é a tremenda Mentira que o Poder Eclesiás­tico /Religioso pôs a circular, desde os tempos de S. Paulo, para se auto-justi­car e às suas Cruzadas e Ex­co­munhões. Significa, simplesmente, que é com os Vencidos, com as Vítimas do Poder, que Deus, o Vivente-que-faz-viver e que nun­ca ninguém viu /vê, sempre está. Com os Vencedores, está apenas o deus-Ídolo, o próprio pai da Mentira, o Assassínio-em-acção. Eis!

Fiquem com a minha Paz.

Mário, presbítero da Igreja do Porto


 

ESPAÇO ABERTO

“Existe Deus?”

Um livro de Joseph Ratzinger

Por MANUEL SÉRGIO, Reitor do Instituto Piaget

 

O intelectual Joseph Ratzinger, hoje Papa Bento XVI, facilmente se impôs (e se impõe) em todos os meios cultos. Ele é par dos grandes teólogos e de uma erudição exaustiva, sempre que dialoga com ilustres nomes do mundo da filosofia (recordo Habermas, entre outros). Por isso, ao descobrir, numa li­vraria, em Portimão, onde me encon­trava em férias, o livro Existe Deus? (Pe­dra Angular, Lisboa, 2009), que re­pro­duz um debate histórico, no ano 2000, entre o teólogo Joseph Ratzinger (então Prefeito para a Congregação da Doutrina da Fé) e o filósofo ateu, tam­bém de visão rápida e penetrante, Pao­lo Flores d’Arcais – logo o adquiri e entrei de o ler, com atenção e vagar. E, no imenso aluvião de obras que aquela livraria apresentava, deixei tudo o mais e fixei-me no livro do Cardeal Ratzinger e Flores d’Arcais.

Na Europa actual, à pergunta: “E­xis­te Deus?” são muitos a responder convictamente: “Não, existe o Homem que O cria!”.

Manuel Gonçalves Cerejeira, no seu A Igreja e o Pensamento Contempo­râneo, sintetiza admiravelmente o que, na hierarquia eclesiástica, ainda há quem pense: “A história moderna não se compreende, se a não considera­mos, em grande parte, como uma em­presa de apostasia pública, a começar na Renascença. A este respeito, pode definir-se como uma laicização progres­siva: e, em todo o esforço de laicização, há sempre, consciente ou inconsciente­mente, uma tentativa de destruição da ordem cristã” (1953, p. 468).

Em 1945, n’A Crise do Mundo Mo­derno, o Padre Leonel Franca, notável ensaísta mas de espírito inteiramente submisso ao poder do Vaticano, escrevia: “Após as esperanças ilusórias do século XIX, a decepção dos nossos dias (...). O diagrama do progresso não se concebia senão como uma curva as­censional de desenvolvimento indefini­do. Hoje, outro é o panorama (...). Co­meçou a história trágica dos desmoro­namentos e ainda não se amontoaram todas as ruínas” (pp. 3/4).

E porquê? Se acaso me é permitido resumir o pensamento de Gonçalves Cerejeira e de Leonel Franca, ambos em rigorosa consonância com o pensamento oficial da Igreja: - porque o Raci­onalismo (e portanto o Iluminismo) tri­unfou! Lutero, Descartes, os Iluministas, Kant, Hegel, Comte, os “mestres da sus­peita” – eis aí os grandes malfeitores da humanidade! O livre exame, a dú­vida metódica, o liberalismo de John Locke, o criticismo kantiano e o de Vol­taire, a dialéctica da escola hegelo-marxista, o positivismo comteano, o “dei­cídio” de Nietzsche, o pan-sexua­lismo de Freud quebraram as velhas tábuas de valores e proclamaram, com audácia temerária, o individualismo, o laicismo, o materialismo. Nem Leonel Franca, nem Gonçalves Cerejeira, já falecidos, podiam percorrer as pala­vras de Frei Betto, no último número do Fraternizar: “Não são as teorias de Marx (...) que justificam a esquerda e sim a existência de 4 mil milhões de seres humanos, sobrevivendo abaixo da linha de pobreza” – mas fazia-lhes bem, convenhamos!

Joseph Ratzinger, teólogo informa­do, parece não descambar em qual­quer fundamentalismo exaltado. Chega mesmo a dizer: “Sem dúvida, a Igreja e as suas instituições não podem e não devem substituir-se aos filósofos (...). O que a Igreja pode e deve também fa­zer (...) é isto: mostrar e tornar perceptível, na justa medida, a íntima evi­dência da fé” (p. 98). Todavia, linhas adiante, se não imita Cícero, trovejando no forum de Roma as suas objurgat­ó­rias, é inflexível ao condenar “uma va­riante da teologia da libertação, que transforma a redenção numa teoria po­lítica. Por detrás de tudo isto, esconde-se a ideia de que o cristianismo, tal como foi experimentado e vivido até hoje, não modificou o mundo e que por­tanto a fé, na sua forma tradicional, é insuficiente e deve-se converter, por fim, numa teoria política” (pp. 105/106). Que o cristianismo, na sua forma tra­dicional, foi insuficiente, em vista a uma plena transformação solidária da socie­dade – a História está aí a confirmá-lo. E, hoje, morrem à fome, diariamen­te, entre 60 e 70 mil pessoas. Assim o informa o El País, de 27 de Julho do ano em curso. E continua o mesmo jor­nal: “El panorama actual constituye una verguenza colectiva, que exige un cambio tan radical como apremiante”.      

E, quando se sugere “un cambio tan radical como apremiante”, parte-se do princípio que a Igreja deverá manter-se numa atmosfera de imperturbável tranquilidade, dado que ela continua no tempo o Caminho, a Verdade e a Vida?

Ratzinger responde, com sensatez: “A teologia não actua num universo vazio e, por isso, deve continuamente interrogar-se sobre qual o horizonte em que está situada, a que ponto se che­gou, o que devemos deixar cair, o que devemos inteiramente renovar. Perante uma visão do mundo, por muitos aspe­ctos radicalmente nova, elaborada no século XX, a teologia vê-se perante a tarefa de repropor a questão de como poderá a fé conservar a sua identidade e, ao mesmo tempo, também renovar-se” (p. 106).

Ratzinger chega a pretender conci­liar a razão e a revelação, a natureza e a graça, a intemporalidade dos do­gmas e o espírito crítico: “Num determinado momento da História, forma­ram-se dois mundos muito distintos: um cristianismo assaz fechado em si mes­mo, algo esquecido da sua herança, por assim dizer ilustrada (...) e um outro mundo que se opõe ao cristianismo e o tem por obscurantismo (...). Digo que se me afigura algo de muito positivo que as duas correntes que estavam se­paradas e que, até certo ponto, também no futuro permanecerão provavelmen­te separadas, apesar de tudo se encon­tram, se fecundam e uma começa a apren­der com a outra” (pp. 26/27).

Palavras, sem dúvida, sóbrias, sere­nas, moderadas, e manifestando espe­ran­ça de transformação e de reno­va­ção, no seio da própria Igreja Católica. Nenhum católico, com o mínimo de ins­trução, pode duvidar, hoje, de que o cristianismo se distingue (para melhor) da religião muçulmana, também por “contaminação” das ideias que Gonçal­ves Cerejeira e Leonel Franca abomi­na­­vam (e não me refiro eu à desastra­da autoridade de alguns Papas dos séculos XIX e XX, sempre de cabeças esquentadas, em defesa da “torre inex­pugnável” das fórmulas feitas e das ideias imutáveis).

Há um ponto que eu devo, em cons­ciência, realçar: Joseph Ratzinger não foge ao diálogo com alguns notáveis fi­lósofos e cientistas. Mas a esta outra per­gunta deverá acrescentar-se: e por que não mostra igual disponibilidade, atenção e respeito, em relação aos teó­lo­gos que reavaliam os dogmas, não reduzindo o concreto humano à abs­trac­ção essencialista e que, sem abdi­carem do Deus de Jesus Cristo, fazem suas as palavras de Sartre: “il y a une universalité de l’homme – mais elle n’est pas donnée, elle est perpétuel­lement construite” (L’existencialisme est un humanisme, 1965, p. 70)? Leo­nardo Boff, Hans Kung, Mário de Oli­veira e tantíssimos mais, em frontal opo­sição a tudo quanto ofenda a digni­dade da pessoa humana; em completa, inconfundível, total intolerância perante a intolerância; e que não aceitam o dua­lismo doutrina-prática social, não são necessários à teologia católica, nas suas dúvidas, na sua inquietação e até na sua revolta? Como é possível, sem crise, qualquer verdade que as mulhe­res e os homens pronunciem, mesmo que sob inspiração divina? Quase me ape­tece, neste momento, adiantar uma linguagem marxista: ao longo da His­tória, muda a base económica e, por consequência, mudam as relações de produção e portanto mudar-se-ão as superstruturas.

Não me surpreende, por isso, que Joseph Ratzinger, que então era Pre­fei­to para a Congregação da Doutrina da Fé, manifeste uma antipatia insopitável pelos Concílios (cfr. pp. 111/112). É que neles, muitas vezes, a Ver­dade não é só uma e convém ao poder eclesiástico, também neste campo, o fim da História.

A recusa de novas propostas é con­su­bstancial à verdade única, é própria de um sistema que aborrece as dife­ren­ças, que desaprova as margens. Aliás, como muito bem o sublinha Flo­res d’Arcais, nas religiões há perguntas que são antecipadamente desqualifica­das “precisamente porque a resposta é impossível” (p. 125). Às religiões bas­ta-lhes transformar o memorizável em memorável, desde que não se toque, nem ao de leve, no monolitismo ideoló­gico e temático – donde brotam contra­dições insanáveis, como o dogma do pecado original.

Como é possível conciliar a justiça divina com o facto de ser a humanidade inteira a sofrer o castigo de um delito que não praticou? O que tem a dizer à razão humana um disparate deste jaez? E lá voltamos nós ao credo quia absurdum! E poderei acrescentar aqui as palavras de Flores d’Arcais: “Por que é que a realidade mais importante deveria ser a mais oculta?” (p. 153).

A fé da Igreja de Jesus é uma fé que não é apenas culta, mas que, a toda a hora, se cultiva, designada­mente no exercício da solidariedade e do amor. Por isso, nela cabem todos os marginais e marginalizados. É do Evangelho: um dia um homem rico promoveu um lauto jantar e convidou os amigos. Todos se escusaram, por vários motivos. Diante da mesa, vazia de convivas, o anfitrião ordenou aos seus empregados: “Ide depressa pelas ruas da cidade e convidai para o jantar os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos”. Horas depois, o mordomo che­gou e desabafou: “Como determinaste, assim foi feito, mas ainda há lugares vagos”. Ao que o dono da casa respon­deu: “Ide pelos caminhos e valados e trazei os vagabundos, os miseráveis que vagueiam pelos campos. Quero que a minha casa se encha. A ceia rejeitada pelas pessoas importantes quero que seja em proveito dos pobres. E que eles sejam recebidos com per­fumes e música”. Tem vinte e um sécu­los esta parábola! Bendito seja o Senhor Jesus!...

Depois da leitura deste livro, voltei ao contacto de Joseph Ratzinger, agora como Bento XVI, na sua encíclica Caritas in Veritate. Aceito, de boa­men­te, com a minha modesta aptidão inter­pre­tativa e judicativa, quase tudo o que nela se exprime. “Sem verdade, sem con­fiança e amor pelo que é verda­deiro, não há consciência e responsa­bilidade social e a actividade social acaba à mercê de interesses privados” – como discordar desta frase? Ou desta: “Tenha-se presente que é causa de grandes desequilíbrios separar o agir económico, ao qual competiria apenas produzir riqueza, do agir polí­tico, cuja função seria buscar a justiça através da redistribuição” – onde a economia encontra os seus alicerces teóricos na política. “O desenvolvimento integral dos povos e a colaboração inter­nacional exigem que seja instituído um grau superior de ordenamento in­ternacional de tipo subsidiário para o governo da globalização”. Donde, o tornar-se urgente “uma reforma, quer da ONU, quer da arquitectura econó­mica e financeira internacional, para que seja possível uma real concreti­zação do conceito de família das na­ções”.

Sobra a estas ideias um generoso impulso libertador que não é demais apontar. A Caritas in Veritate parece até surgir vinculada a uma fundamental autocrítica, declarando que a “religião precisa sempre de ser purificada pela razão, para mostrar o seu autêntico rosto humano”. Bento XVI sublinha tam­bém “a excessiva fragmentação do saber e o isolamento das ciências hu­ma­nas, relativamente à metafísica”, dado que “as dificuldades no diálogo entre as ciências e a teologia danificam não só o avanço do saber, mas também o desenvolvimento dos povos porque, quando isso se verifica, fica obstaculi­zada a visão do bem completo do ho­mem, nas várias dimensões que o cara­cterizam”.

Esmiuçando esta encíclica (embora na escassez mutiladora de um resumo) não me é difícil concordar, “a priori”, com muito do que nela se aconselha. Mas, porque não vivemos numa época de monólogos, pergunto: há necessida­de dos dogmas eclesiásticos, para praticar a caridade? Não há no Novo Testamento matéria suficiente, para unir crentes e ateus, num trabalho soli­dário de transformação da socie­da­de?... Amai-vos uns aos outros! Amai a Deus sobre todas as coisas e ao pró­ximo como a vós mesmos! É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus!... E se recordarmos os pobres de espírito (isto é, os humildes, os que respeitam o saber dos outros, os que não são prosapiosos); os que são capazes de chorar, porque comun­gam a dor de todos os que sofrem; os que promovem a paz, com firmeza, sem cobardia e sem a desrazão dos colé­ricos; os que têm fome e sede de justi­ça, como João XXIII, como Gandhi, como Nelson Mandela; os misericordiosos, como Francisco de Assis; os limpos de coração; os que sofrem perseguição por causa da Justiça – a todos estes, Jesus chamou “bem-aventurados”. Há, n’Ele, de facto, uma metamoral onde todos os “homens de boa vontade” se revêem. Jesus não foi o Rabi que falava aos judeus; foi o Mestre que falou para toda a humanidade.

Eu vejo, em Jesus, a Verdade! Mas por que será que a minha livre obedi­ência ao Evangelho (que se adapta a todas as sociedades, sinal seguro da sua universalidade) se há-de confundir com a obediência aos ditames da hie­rar­quia eclesiástica, que a si mesmos se consideram a Verdade da Razão? A história é também a história da falta de Verdade e de Razão de muitas en­cí­clicas. Por que há-de o Vaticano conti­nuar a adiar problemas, a repetir eter­na­mente os mesmos argumentos, a a­postrafar os mesmos fantasmas? A Ver­dade é o Todo, já o disse o Hegel. E o Vaticano é uma das partes!


 

A falta que faz ao Papa um pouco de marxismo

Por L. Boff (1), Teólogo

 

A nova encíclica de Bento XVI Caritas in Veritate de 7 de julho último é uma tomada de posição da Igreja face à crise actual.

O complexo das crises, que atingem a humanidade e que comportam seve­ras ameaças sobre o sistema da vida e seu futuro, demandaria um texto profé­tico, carregado de urgência.

Mas não é isso que recebemos, se­não uma longa e detalhada reflexão sobre a maioria dos problemas actuais que vão da crise económica ao turismo, da biotecnologia à crise ambiental e projecções sobre um Governo mundial da Globalização.

O género não é profético, o que su­poria “uma análise concreta de uma situação concreta”. Esta possibilitaria investir contra os problemas em tela, na forma de denúncia-anúncio.

Mas não é da natureza deste Papa ser profeta. Ele é um doutor e um mes­tre. Elabora o discurso oficial do Magis­tério, cuja perspectiva não é de baixo, da vida real e conflitiva, mas de cima, da doutrina ortodoxa que esfuma as contradições e minimaliza os conflitos.

A tónica dominante não é a da aná­lise, mas da ética, do dever-ser.­­ Como não faz análise da realidade actual, extremamente complexa, o discurso magisterial permanece principista, equi­librista e define-se por sua inde­finição.

O subtexto do texto, ou o não-dito no dito, remete a uma inocência teó­rica que inconscientemente assume a ideologia funcional da sociedade dominante.

Já se nota na abordagem do tema central - o desenvolvimento - hoje tão cri­ticado por não tomar em conta os li­mites ecológicos da Terra. Disso a encíclica não fala nada.

A visão é de que o sistema mundial se apresenta funda­men­talmente corre­cto. O que existe são disfunções e não contradições.

Esse diagnóstico sugere a seguinte terapia, semelhante a do G-20: rectifi­cações e não mudanças, melhorias e não troca de paradigma, reformas e não libertações. É o imperativo do mes­tre: “correc­ção”, não a do profeta: ”con­ver­são”.­­

Ao lermos o texto, longo e pesado, terminamos a pensar: como faria bem ao actual Papa um pouco de marxismo! Este, a partir dos oprimidos, tem o mé­rito de desmascarar as oposições pre­sentes no sistema actual, pôr à luz os conflitos de poder e denunciar a vora­ci­dade incontida da sociedade de mer­cado, competitiva, consumista, nada cooperativa e injusta.

Ela representa um pecado social e estrutural que sacrifica milhões no altar da produção para o consumo ili­mi­ta­do. Isso caberia ao Papa profeticamente denunciar. Mas não o faz.­­

O texto do Magistério, olimpica­men­te fora e acima da situação confli­tiva actual, não é ideologicamente “neu­tro” como preten­de. É um discurso reprodutor do sistema imperante que faz sofrer a todos, especialmente os pobres.

Isso não é questão de Bento XVI querer ou não querer, mas da lógica estrutural de seu tipo de discurso ma­gis­terial. Por renunciar a uma análise critica séria, paga um preço alto em ineficácia teórica e prática. Não inova, repete.­­ E ai perde uma enorme opor­tu­­ni­dade de se dirigir à humanidade, num momento dramático da história, a partir do capi­tal simbólico de transfor­ma­ção e de es­pe­rança, contido na men­­sagem cristã.

Esse Papa não valoriza o novo céu e a nova Terra, que podem ser anteci­pa­dos pelas práticas humanas, apenas conhece essa vida decadente e, por si mesma insustentável (seu pessimis­mo cultural) e a vida eterna e o céu que ainda virão.

Afasta-se assim da grande mensa­gem bíblica que possui consequências políticas revolucionárias, ao afirmar que a utopia terminal do Reino da justiça, do amor e da liberdade só será real na medida em que tais bens já se construírem e anteciparem entre nós, nos limites do espaço e do tempo histó­rico.

­­Curiosamente, abstraindo de laivos fideístas recorrentes (“só através da caridade cristã é possível o desenvolvi­men­to integral”), quando o papa se “esquece” do tom magisterial, introduz, na parte final da en­cíclica, coisas sensatas como a reforma da ONU, a nova arqui­tetura económico-financeira internacio­nal, o conceito do Bem Comum do Glo­bo e a inclusão relacional da família hu­mana.­­

Parafraseando Nietzsche: “quanto de análise crítica o Magistério da Igreja é capaz de incorporar”?


 

Que futuro para os nossos netos?

Por L. Boff (2)

 

Ao ver os meus netos a pular e a  rebolar-se no jardim, surgem-me dois sentimentos. Um de inveja: já não posso fazer nada disso com as quatro próteses que tenho nos membros inferiores. E outro, de preocupação: que mundo irão enfrentar dentro de alguns anos?

Os prognósticos dos especialistas mais sérios são ameaçadores. Há uma data fatídica ou mágica sempre avent­ada por eles: o ano 2025. Quase todos afirmam: se nada fizermos ou não fizer­mos o suficiente já agora, a catástrofe ecologico-humanitária será inevitável.

Hoje, milhões estão condenados a serem desempregados estruturais. Quer dizer, não irão mais ingressar no mercado de trabalho. Serão simplesmente dispensáveis. Que significa ficar desempregado estrutural, senão uma lenta morte e uma desintegração pro­fun­da do sentido da vida? Acresce ainda que estão prognosticados até àquela data fatídica cerca de 150 a 200 mi­lhões de refugiados climáticos.

 

O relatório “State of the Future 2009”(O Globo de 14.07/09) feito por 2.700 cientistas diz, enfaticamente, que devido principalmente ao aquecimento global, por volta de 2025, cerca de três mil milhões de pessoas não terão aces­so à água potável. Que significa dizer isso? Simplesmente que esses três mil milhões, se não forem socorridos, pode­rão morrer por sede, desidratação e outras doenças. O relatório diz mais: metade da população mundial estará envolvida em convulsões sociais em razão da crise sócio-ecológica global.

Paul Krugman, prémio Nobel de economia de 2008, sempre ponderado e crítico quanto à insuficiência das me­didas para enfrentar a crise socio-ambien­tal, escreveu recentemente: “Se o consenso dos especialistas económicos é péssimo, o consenso dos especialis­tas das mudanças climáticas é terrível” (JB 14/07/09). E comenta: “Se agirmos da mesma forma como agimos, não o pior cenário, mas o mais provável, será a elevação de temperaturas que vão destruir a vida como a conhecemos.”

Se provavelmente assim for, a mi­nha preocupação pelos netos transfor­ma-se em angústia: que mundo herda­rão de nós? Que decisões serão obrigados a tomar que poderão significar para eles vida ou morte?

Comportamo-nos como se a Terra fosse só nossa e de nossa geração. Es­quecemos que ela pertence princi­pal­mente aos que ainda virão, nossos filhos e netos. Eles têm direito de poder entrar neste mundo, minimamente ha­bi­tável e com as condições necessá­rias para uma vida decente que não só lhes permita sobreviver mas flores­cer e irradiar.

Para termos futuro devemos partir de novas premissas: em vez da explo­ração, a sinergia homem-natureza, pois Terra e humanidade formam um único todo; no lugar da concorrência, a coo­pe­ração, base da construção da socie­dade com rosto humano.

 

Dão-me alguma esperança, os teó­ricos da complexidade, da incerteza e do caos (Prigogine, Heisenberg, Morin) que dizem que, em toda a realidade, funciona a seguinte dinâmica: a desor­dem leva à auto-organização e a uma nova ordem. E, assim, também à conti­nuidade da vida num nível mais alto.” Porque amamos as estrelas não temos medo da escuridão.


 

A difícil arte de ser Mulher

Por Frei Betto, Teólogo

 

Um dos filmes de maior sucesso no badalado festival francês foi “Ágora”, direcção de Alejandro Amenabar. A estrela é a inglesa Rachel Weiz, premiada com o Óscar 2006 de melhor actriz coadjuvante em “O jardineiro fiel”, dirigido por Fernando Meirelles.

Em “Ágora”, ela interpreta Hipácia, única mulher da Antiguidade a desta­car-se como cientista. Astrónoma, física, matemática e filósofa, Hipácia nasceu em 370, em Alexandria. Foi a última grande cientista de renome a trabalhar na lendária biblioteca daquela cidade egípcia.

Na Academia de Atenas ocupou, aos 30 anos, a cadeira de Plotino. Es­creveu tratados sobre Euclides e Pto­lomeu, desenvolveu um mapa de cor­pos celestes e teria inventado novos modelos de astrolábio, planisfério e hidrómetro.

Neoplatónica, Hipácia defendia a liberdade de religião e de pensamento. Acreditava que o Universo era regido por leis matemáticas. Tais ideias suscitaram a ira de fundamentalistas cris­tãos que, em plena decadência do Império Romano, lutavam por conquis­tar a hegemonia cultural.

Em 415, instigados por Cirilo, bispo de Alexandria, fanáticos arrastaram Hi­pácia a uma igreja, esfolaram-na com cacos de cerâmica e conchas e, após assassiná-la, atiraram o corpo a uma fogueira. Sua morte selou, por mil anos, a estagnação da matemática ocidental. Cirilo foi canonizado por Roma.

 

O filme de Amenabar é pertinente neste momento em que o fanatismo re­li­gioso se revigora mundo afora. Contu­do, toca também outro tema mais profun­do: a opressão contra a mulher.

Hoje, ela se manifesta por recursos tão sofisticados que chegam a conven­cer as próprias mulheres de que esse é o caminho certo da libertação femini­na.

Na sociedade capitalista, onde o lucro impera acima de todos os valores, o padrão machista de cultura associa erotismo e mercadoria. A isca é a imagem estereotipada da mulher. A sua auto­estima é deslocada para o sentir-se desejada; o seu corpo é violenta­men­te modelado segundo padrões consumistas de beleza; os seus atri­butos físicos tornam-se omnipre­sent­es.

Onde há oferta de produtos – TV, internet, outdoor, revista, jornal, folheto, cartaz afixado em veículos, e o mer­chan­dising embutido em telenovelas – o que se vê é uma profusão de seios, ná­degas, lábios, coxas etc.

É o açougue virtual. Hipácia é cas­trada em sua inteligência, em seus ta­lentos e valores subjectivos, e agora di­lacerada pelas conveniências do mercado. É sutilmente esfolada na ânsia de atingir a perfeição.

Segundo a ironia da Ciranda da bai­larina, de Edu Lobo e Chico Buar­que, “Procurando bem / todo mundo tem pereba / marca de bexiga ou vacina / e tem piriri, tem lombriga, tem ameba / só a bailarina é que não tem”. Se tiver, será execrada pelos padrões ma­chistas por ser gorda, velha, sem atri­butos físicos que a tornem desejável.

Se ela abre a boca, deve falar de emoções, nunca de valores; de fanta­sias, e não de realidade; da vida pri­vada e não da pública (política). E aceitar ser lisonjeiramente reduzida à irracionalidade analógica: “gata”, “vaca”, “avião”, “melancia” etc.

Para evitar ser execrada, agora Hi­pácia deve controlar o peso à custa de enormes sacrifícios (quem dera desti­nasse aos famintos o que deixa de ingerir...), mudar o vestuário o mais frequ­en­temente possível, submeter-se à cirurgia plástica por mera questão de vaidade (e pensar que este ramo da medicina foi criado para corrigir ano­ma­lias físicas e não para dedicar-se a caprichos estéticos).

Toda mulher sabe: melhor que ser atraente, é ser amada. Mas o amor é um valor anticapitalista. Supõe solida­riedade e não competitividade; partilha e não acúmulo; doação e não posses­são. E o machismo impregnado nessa cultura voltada ao consumismo teme a alteridade feminina. Melhor fomentar a mulher-objeto (de consumo).

Na guerra dos sexos, historicamente é o homem quem dita o lugar da mu­lher. Ele tem a posse dos bens (patri­mó­nio); a ela cabe o cuidado da casa (matrimónio). E, é claro, ela é incluída entre os bens... Vide o tradicional costume de, no casamento, incluir o sobrenome do marido ao nome da mulher.

No Brasil colonial, dizia-se que à mulher do senhor de escravos era permitido sair de casa apenas três vezes: para ser baptizada, casada e enterrada...

Ainda hoje, a Hipácia interessada em matemática e filosofia é, no mínimo, uma ameaça aos homens que não que­rem compartir, e sim dominar. Eles são repletos de vontades e parcos de inte­ligência, ainda que sabidos.

Se o atractivo é o que se vê, por que o espanto ao saber que a média ac­tual de durabilidade conjugal no Bra­sil é de sete anos? Como exigir que homens se interessem por mulheres que care­cem de atributos físicos ou quando estes são vencidos pela idade?

Pena que ainda não inventaram botox para a alma. E nem cirurgia plástica para a subjectividade.


 

VERMIOSA, Paróquia excomungada

Por Carlos Esperança (in Jornal do Fundão, 20Agosto2009)

 

A crónica que Jornal Fraternizar aqui reproduz com a devida véna, é um retrato, tecido de humor e de sarcasmo, a não perder. O cronista não poupa nas palavras. O bispo Felício, da Diocese da Guarda, não tem como escapar. A crítica mordaz diz bem do que é capaz o Poder clerical eclesiástico. Só por rotina e por razões sociológicas é que continuamos a chamar-lhe “Igreja”. Na verdade, é a sua negação. Fossem mais ilustradas e mais evangelizadas as populações, e aos bispos residenciais que assim se comportam, já nem sequer os peixes de santo António de Lisboa estariam dispostos a escutá-los. Um absurdo vivo, nos dias que correm. Uma humilhação humana que só excelências reverendíssimas, como os bispos residenciais, são capazes de praticar. E de consciência tranquila!

 

A Vermiosa é uma povoação na pe­ri­feria do concelho de Figueira de Cas­te­lo Rodrigo, freguesia a que se segue a de Malpartida, já no município de Al­meida. As pessoas sempre aí trataram a fé e a terra com esmero, afeitas a cui­dar da alma e do corpo, da devoção cristã e do amanho da terra, encontrando no vinho o mais rentável dos pro­dutos com que o húmus fez a aldeia farta antes da crise que arruinou a lavoura, fez abalar os jovens e trans­formou a povoação em reserva da ter­ceira idade.

Durante anos o pe. José Joa­quim Coelho que paroquiava a aldeia ga­nhou a simpatia local e das paró­qui­as de Mata de Lobos, Almofada e Es­carigo, onde também exercia o mú­nus, por­que a escassez de vocações adici­o­nou freguesias ao cuidado do pastor. Uma súbita decisão do bispo da Guar­da afastou o padre das paró­quias on­de era querido e despachou-o para Pe­namacor, sentença sem ape­lo nem a­gra­vo a que os sacerdotes se subme­tem na ordenação. O serviço de Deus pro­move a sujeição ao arbítrio do bis­po, mas o povo tem da vontade divina concepções próprias e da inviolabili­dade episcopal uma leve ideia.

Os paroquianos das quatro fregue­sias elegeram uma comissão que pediu audiência ao bispo e obteve uma recu­sa, primeiro, e uma recepção descortês, depois, onde o prelado lhe fez saber que não devia explicações. As pessoas desconsoladas com a saída do padre que ia à caça e à pesca com os fregue­ses, gestos que os simples preferem às homilias, afectos que tocam mais fundo do que o martírio de Deus, senti­ram revolta e raiva pela ofensa. Sofriam o exílio do padre José Joaquim e o bis­po Felício feriu-lhes os sentimentos, achando que a mitra, o báculo e o a­ne­lão o exoneravam de explicações.

No dia 18 de Setembro do ano da graça de 2005, para aquietar os âni­mos, o bispo foi dizer missa a Almofa­da e à Vermiosa, acolitado pelo arci­preste de Figueira de Castelo Rodrigo, António Espinha Monteiro, nado na Vermiosa, e pelo padre Vítor, acólito do arcipreste. Começou em Almofada onde o povo o recebeu em silêncio, como combinado nas quatro paróquias pelos órfãos do padre José Joaquim, uma manifestação de mágoa pela saí­da do sacerdote e pela descortesia com que recebeu a delegação. Os pa­dres que escoltavam o bispo quiseram evitar outra recepção igual e, para lhe fazerem a recepção, recrutaram bea­tos em Figueira a troco de indulgências ou de facilidades no Paraíso para os acompanharem à Vermiosa e contagia­rem a paróquia.

A esperteza pia acirrou os paro­quia­nos da maior e mais inconformada das aldeias. Em vez do silêncio combinado, o prelado entrou na igreja matriz seguido de impropérios, insultos e vaias, com linguagem que o cronista, por pudor, se abstém de reproduzir. Na igreja matriz começou a missa com os fiéis que entraram e, no adro, agitavam-se os outros com os que vieram de Al­mofada, sendo precisa a GNR para os acalmar enquanto desapareciam os apoi­antes vindos de Figueira de Cas­telo Rodrigo. Na igreja, o bispo era impedido de dizer a missa e, em vez dos canónicos améns, os paroquianos reincidiram em desabafos obscenos que o faziam elevar os olhos para o céu e implorar amiudadas vezes “pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem”, antes de desistir e de se refu­giar no carro que o pôs a salvo, após deixar o solidéu nas mãos de quem gos­taria de o escalpar e levando consigo os clérigos que o acolitavam e o sacrá­rio da igreja matriz.

De carro, já em boa velocidade, o padre Vítor, sentindo-se a salvo, fez para o povo que insultava o bispo as armas de S. Francisco, expressão que por essas bandas designa o gesto com que Rafael Bordalo Pinheiro imortalizou o Zé Povinho. A senhora que zelava o altar entrou em aflição e foi parar ao hos­pital da Guarda. O arcipreste viria a escrever um artigo em que censurava os conterrâneos e exaltava o bispo. Este, porque o “pai” não tivesse perdo­ado a injúria de que ele, bispo, foi vítima ou por admitir que o povo soube o que fez, excomungou a paróquia da Vermio­sa, privando-a de ministro do culto, sacramentos e qualquer acto religioso. A gente da Vermiosa tem traquejo em decepções pias. Há muitos anos uma paroquiana a quem o Dr. Montezuma de Carvalho, de Coimbra, tinha resti­tuído a saúde com a ajuda de orações a Santa Filomena, ofertou antes de se finar, sã, a imagem da santa com quem repartia a fé no Dr. Montezuma. Foi co­locada na capela do Divino Senhor San­to Cristo a ladear o Crucificado do lado oposto ao de Nossa Senhora da Silva, mas quando esta e o seu divino filho vão em procissão, todos os anos, Santa Filomena, após a humilhação da des­pro­mo­ção papal, permanece só. Não mais teve direito a andor, preces, esmo­las ou outras manifestações piedosas.

Mas uma coisa é perder uma santa, embora com prestígio no ramo dos mila­gres, e outra é a ausência da assistên­cia espiritual, a falha da água benta na cova que recebe o féretro, a privação da eucaristia aos devotos e a falta dos óleos a um moribundo ávido da extre­ma-unção.

Com o tempo dissiparam-se as ra­zões da excomunhão e a raiva do bispo. Este esqueceu os insultos e as palavras que os castos ouvidos não terão enten­dido bem, solidéus há muitos, e na Pás­coa de 2006 o bispo Felício deu por fin­da a expiação. Foi duro o tempo em que o diácono que supriu o padre era obrigado a viajar com o cálice [píxide] a caminho da Guarda para recolher na alfaia partículas consagradas e as levar de volta. Hoje, a fé e a saudade do pa­dre José Joaquim Coelho continuam vi­vas, ainda não passou um lustro, as pes­soas é que são menos e agora vem de Espanha o padre. Os dramas de uma região que vai morrendo e que não tem cronistas, não interessam às gaze­tas, não lhes dá guarida a agência Eccle­sia ou a Rádio Renascença.

Por isso fui ouvir a gente e avaliar a experiência amarga desprezada por réprobos, que hilaria os urbanos e en­xofrou o bispo da Guarda. São gritos de alma que não encontram eco, lá­grimas de revolta que não secam, má­goas que ficam até à cova.


 

OUTRAS CARTAS

Nunca fiz parte de nenhum partido político!

 

Matosinhos. J. M. Verlhanito: Caro Mário Oliveira

Em primeiro lugar, quero lhe agradecer o envio do seu livro Quando a fé move montanhas. Eu conheci o Mário Oliveira na época do PREC, quando ambos militávamos por causas justas e radicais para a época, como o direito à habitação, à educação e à propriedade para os mais pobres. Militávamos na esquerda não democrática, como agora se diz. Lembro-me que o padre Mário era o cristão progressista, num partido, onde todos éramos ateus e marxistas. Lembro-me também, da admiração que tinha por si, pela sua coerência e interpretação dos evangelhos e ainda fico admirado, após estes anos todos, continuar fiel aos seus princípios.

     Tudo isto tem a ver com a sua participação, num debate, no Porto Canal, onde mais uma vez defendeu brilhantemente a sua visão, muito pessoal, da Bíblia.

     Depois de ver esse debate, fiquei curioso, e pesquisei na Net, o que andaria o corajoso e indomável padre Mário Oliveira a fazer nesta vida, nesta vida Social-Democrática, Liberal, Capitalista e sem modelo alternativo. Para além de escritor e jornalista aposentado (será que alguma vez nos aposentamos da vida?) verifiquei que o Mário Oliveira continua tão activo, tão vivo, tão crente, como no passado. Admiro a sua coerência e crença, num mundo onde esses valores já não valem nada.

     Do seu livro Quando a Fé move Montanhas, retive algumas opiniões, que gostava consigo debater, dentro da maior pluralidade e sã convivência do debate filosófico, político e religioso. Quando o Mário Oliveira escreve «Nem os crentes, pelo facto de crerem em Deus podem provar que Deus existe, nem os ateus, pelo facto de não crerem em Deus, podem provar que Deus não existe. Quem sou eu para dizer que Deus existe ou não existe? Tudo o que um homem, uma mulher tem foi-lhe dado. Ou não? Ninguém vive por si mesmo. Todos começamos a ser e a existir por pura graça. Ou por acaso, dirá o ateu. Mas, bem vistas as coisas, até o acaso se apresenta carregado de graça e mistério. Somos essencialmente mistério».

     Este texto sugere uma crença no agnosticismo e não no cristianismo. Na realidade, Deus não se prova, acredita-se ou não. E acredita-se, não na razão, mas na fé! Mas o que é a fé? A fé é a crença em algo a partir da intuição. A fé não prova nada. A fé não segue o caminho demonstrativo da ciência, a fé segue o caminho da abstracção (aqui, como sinónimo de irracionalidade, mesmo sabendo que Descartes não era dono da verdade. Tenho consciência de que estou a ser duro, talvez até arrogante ou mal educado, mas é o que eu penso e, gostava de partilhar consigo este meu pensamento). A fé proclama-se pela imposição de uma crença baseada em pressupostos que assentam num discurso metafísico, sem qualquer rigor científico. Mesmo sabendo, que a ciência não responde a todas as questões, o homem hoje, tem ao seu dispor toda a informação necessária para responder às questões levantadas pelo Mário Oliveira. Senão vejamos; Tudo o que o homem tem foi-lhe dado pelo pai, pela mãe, pela sociedade em que vive. Nós começamos a ser e a existir, não pela Graça, mas pela construção do nosso Eu, ao longo da nossa vida. Essa existência é elaborada essencialmente por dois factores científicos; primeiro, o nosso cérebro cresce até aos vinte e quatro anos, o que nos distingue de todos os seres vivos presentes na biosfera; segundo, devido a esse anormal desenvolvimento estrutural, somos inteligentes e acima de tudo, conscientes. Não houve Graça divina nesta existência. Não há mistério nenhum a revelar: são só as leis da física e da psicologia a funcionar. Eu sei que vai dizer, que sou insensível. Eu sei que vai dizer, que todo o homem é um ser naturalmente religioso, como dizia Mircea Eliade. Mas, o que eu digo é que o homem até pode ser um ser naturalmente espiritual, pois caminha sempre no caminho da compaixão e do amor. Mas ser espiritual, não é ser religioso. Não necessitamos de relegar a nossa existência a ninguém. Nem a entidades, nem a conceitos, nós somos o que queremos ser. Sermos livres, de qualquer mordaça, foi uma das maiores vitórias da humanidade. Não há Graça na criação, há só as leis da física a funcionar. Não somos essencialmente mistério, somos sim, essencialmente pessoas inteligentes e conscientes.

     No mesmo artigo escreve «É por isso que para mim a questão da existência ou não existência de Deus pode acabar por se tomar uma falsa questão, que só serve para nos desviar da questão essencial. E, hoje, a questão essencial para qualquer ser humano que se preze, ateu ou crente em Deus, só pode ser esta: a existência massiva de vítimas humanas, de povos crucificados, que estão aí, não como uma fatalidade, mas como produtos de certas vontades, estruturadas em determinados sistemas económicos e políticos. A existência massiva de vítimas humanas é, hoje, a questão decisiva para qualquer ser humano que se preze, crente ou ateu. É com esta realidade que estamos confrontados, ateus e crentes em Deus.»

     Concordo em pleno consigo, amigo Mário. Chamo-lhe amigo, (espero que não me leve a mal) porque partilho consigo, o mesmo ideal de compaixão e amor que a humanidade deve abraçar. Mas temos que ser realistas! A existência massiva de vítimas humanas deve-se, na sua essência, a três factores; Deus, religião, obscurantismo. Todas as sociedades onde predomina uma forte pobreza são sociedades fundamentadas na religião e em Deus. Este poder opressor diz aos pobres que devem aceitar a sua pobreza, pois foi Deus que quis que eles fossem pobres. Eternamente pobres. Depois vem a religião que lhes diz: rezem para a salvação, no reino dos céus. Sejam humildes, sejam obedientes, sejam carneiros, que Deus lá no alto protege-vos. Se sois pobres, só estais a pagar, pelos pecados que cometestes. Rezem, rezem, rezem, que Deus protege-vos. Eis, a solução. Este obscurantismo, só existe, de forma oficial, em sociedades teístas.

A longa luta pela liberdade abalou algumas sociedades, que após algumas reflexões, optaram pelo Estado laico e pela separação oficial e definitiva do Estado e das Igrejas. Eu sei que o amigo Mário vai dizer que concorda comigo. Que o amigo Mário defende um Evangelho baseado na mensagem de amor e de compaixão de Jesus. Mas voltemos ao cerne da questão! O amigo Mário acredita em Deus. Acredita numa entidade sobrenatural, que em comunhão com o ser humano, realiza o milagre da nossa existência. Acredita que Jesus veio à terra para pregar o amor, a compaixão, a fraternidade. O amigo Mário acredita (pois sentiu) um dom, um sopro do divino Espírito Santo e esse contacto, esse momento, revelou-lhe a presença de Deus. Repare, que estamos sempre no campo da subjectividade, do Eu subjectivo, do Eu. O budismo, que não reconhece Deus, segue o mesmo caminho; a busca mental do Eu. Ou seja, a religião procura sempre o Eu. A comunhão do Eu com Deus. Essa comunhão passa-se sempre no lamaçal do Eu, na subjectividade do Eu, na procura de respostas vindo de Deus. A religião deveria ser um ramo da psicologia e não da filosofia. O pensamento, a especulação filosófica, situa-se na metafísica da mente. Não na realidade objectiva que nos cerca. Que nos dá comer, água, saúde, trabalho, lazer, no fundo, vida. Todos nós vivemos e morremos sem ver Deus. Dizem-nos; “tens que ter a intuição, a fé, a crença. Temos que acreditar em alguma coisa”, dizem outros. Ou seja, não é a razão que nos deve comandar. A razão que nós observamos, a razão que nos faz viver. É a crença, a subjectiva crença, que nos deve comandar e dizer a toda a hora “graças a Deus”.

O renascimento principiou há quinhentos anos. Desde Leonardo e Galileu, ou seja, desde que o homem ignorou Deus, o mundo avançou para o progresso da humanidade. O homem libertou-se da opressão de Deus e atingiu a liberdade. Quando descobriu essa liberdade, não mais a quis perder. O homem é um ser livre, porque libertou-se de Deus. A ideia de Deus oprimiu, amordaçou a liberdade. Para se ser livre, é a liberdade, a fraternidade, e a igualdade que deve comandar as nossas vidas. São estes conceitos que levaram à democracia, ao liberalismo, à igualdade, à fraternidade, à compaixão, ao amor. Foi a luta pela liberdade que transformou o homem moderno, o homem que pensa pela sua cabeça e não pela cabeça de Deus.

     O amigo Mário acredita profundamente na mensagem de Jesus, o Nazareno. A minha primeira dúvida é a seguinte; o Jesus que acredita existiu ou é uma invenção de S. Paulo? Mesmo compreendendo a dúbia busca arqueológica pela descoberta de qualquer prova da sua existência, que punha imediatamente, algumas religiões em colapso, pois a sua existência, destruiria todo o edifício religioso. O judaísmo tem tentado provar que Jesus nunca existiu. Que o ideal de Jesus é uma invenção de um renegado, chamado S. Paulo. Também sabemos, que o império romano aproveitou-se dos cristãos, para unificar todos povos sobre uma única religião e impôs, pela força, essa religião. Ou seja, o ideal cristão, só chegou aos nossos dias, não pela mensagem do palestiniano Jesus de Nazaré, mas pela vontade de um imperador romano, que seguiu o pedido de sua mãe.

     O ideal de Jesus é a igualdade entre todos os homens, entre todas as mulheres, entre todos os povos. É o amor, a compaixão, a fraternidade. Este ideal representa a fraternidade, a espiritualidade, a liberdade que há em todos nós. É uma ambição legítima! Desde os tempos mais remotos, que o homem luta por estes ideais. O homem, como qualquer animal (e nós somos, somente animais, só que inteligentes e conscientes) é um ser que procura sobreviver. A sua sobrevivência é somente um produto de evolução do universo, da matéria, da energia, da inteligência, da consciência. É essa consciência que nos liberta de Deus, que nos leva à procura de respostas, mas de respostas que venham da objectividade e da demonstração, que a ciência (e bem) nos ensina.

     Tudo o que está à nossa volta é produto do universo, da matéria, da energia, da biosfera, do homem. Regem-se por leis da física e da química. Organizam-se nas leis da complexidade: da biologia, da botânica, da zoologia, da linguagem, da psicologia, da engenharia, da arquitectura, ou seja, na dialéctica do Cosmos, da Terra, do Homem.

     A ética e a moral, também elas, produto da complexidade e da consciência do homem, iniciam-se pela necessidade das sociedades exercerem o poder e a autoridade. Para se imporem, recorrem à religião, excelente aliado desse poder. A religião passa a ser o baluarte dessa autoridade e o mentor dessa moral. A religião cumpre a sua função social: pregar a moral que melhor interessa ao poder dominante (veja-se na actualidade a Administração Bush).

     Mas voltemos ao repto lançado pelo amigo Mário. Acabar com a pobreza, com a violência, o sacrifício de vítimas inocentes. O que fazer então?

Mas, porque não vivemos numa época de monólogos, pergunto: há necessida­de dos dogmas eclesiásticos, para praticar a caridade? Não há no Novo Testamento matéria suficiente, para unir crentes e ateus, num trabalho soli­dário de transformação da socie­da­de? Para acabar com a pobreza, tem que se criar riqueza. E a seguir, distribuir essa riqueza. E é aqui que a porca torce o rabo. Como é que vamos distribuir essa riqueza? Dos vários modelos testados, todos falharam na sua essência, ou seja, todos falharam na distribuição igualitária de distribuir a riqueza gerada. Os modelos principais, o modelo socialista e o modelo capitalista, revelaram-se injustos e entraram em colapso. O socialismo gerou uma sociedade estagnada, sem competitividade e monolítica. O Estado, sozinho, não consegue gerir toda a riqueza. Aparece a corrupção, a violência, a ditadura. A distribuição da riqueza tem que ser democrática. O capitalismo gerou vários ciclos. Apurou-se e gerou duas correntes; a social-democrata e a neo-liberal (em Portugal, está tudo baralhado. Pois o PSD não é social-democrata, mas sim neo-liberal, e o PS, não é socialista, mas sim social-democrata). A social-democracia caracteriza-se por uma gestão onde o Estado tem um forte poder regulador, dinamizador da actividade económica e defensor de um proteccionismo nas áreas; sociais, saúde, educação. O Estado “regula” a riqueza, produzida por todos nós. Os neo-liberais caracterizam-se por uma política, em que o mercado regula tudo; a economia, a saúde, a educação. É esse mercado, que ao auto-regular-se, corrige todas as assimetrias, todas as injustiças e assim distribui “melhor” a riqueza. Estas duas formas de distribuição de riqueza divergem num princípio nuclear: impostos. A primeira, devido ao excessivo poder do Estado na economia, cria muitas pessoas dependentes do Estado, criando uma elevada taxa de impostos. A segunda (teoricamente), reduzindo a Estado a um mero instrumento de regulação, em pequeníssimas áreas, baixaria a taxa de impostos. Baixando a taxa de impostos há mais riqueza a distribuir. Estes dois modelos dominam a Europa. Mas estes dois modelos acabaram com a pobreza? Em parte sim, em parte não. Em parte sim, porque criaram mecanismos financeiros de protecção, como o rendimento mínimo, o subsídio de desemprego e outros. Em parte não, porque o problema da pobreza não é só económico. Para se acabar com a pobreza tem que se acabar com a religião. Tem que se acabar com a crença em Deus. Só acabando com a crença em Deus, no Deus que protege os pobres, no Deus que aflige os pobres, no Deus, que nas horas da amargura, da doença, do desespero vem salvar os pobres. O Deus, que lá no alto, protege os pobres. Eu sei que o amigo Mário, talvez concorde comigo. Mas não concorda com o seguinte. Jesus é filho de Deus. Jesus é o representante de Deus na terra. Jesus é também o Espírito Santo. Ou seja, Jesus representa Deus, sempre! Não podemos, como o amigo Mário, por vezes dá a entender, separar o falso Deus do verdadeiro Deus. O Deus que o amigo Mário defende é sempre um Deus bíblico. Pois é na Bíblia que o amigo Mário vai buscar o seu Evangelho. E é nisto que eu discordo. O Deus da Bíblia é sempre um mau Deus. É o Deus da Espada, do assassino do filho de Jacob, o Deus que manda matar os inimigos de Israel. Nunca o amigo Mário poderá desligar-se deste Deus Bíblico. Os partidos de direita em Portugal são crentes. Defendem nos seus programas o cristianismo. Porque será? Porque os seus fundamentos doutrinários defendem tudo o que acabamos de condenar. Para se acabar com a pobreza tem que se acabar com Deus. Só a liberdade e a consciência, incentivarão o homem ao conhecimento, à ambição (aqui no sentido de lutar), à cultura, à realização plena, da sua condição de ser, que luta pela igualdade de todos os homens.        

    O Deus esmaga a liberdade. O Deus proíbe o direito ao homem do usar o preservativo. O Deus proíbe a mulher de ter a liberdade de decidir se deve abortar ou não. O mesmo Deus é responsável pela explosão demográfica. O Brasil duplicou a sua população em trinta anos, porque a igreja proíbe a camisinha. Já sei que me vai dizer que esse não é o seu Deus, mas é esse Deus, o Deus bíblico, que toda a direita mundial, a direita fascizante, proclama estes valores e ataca todos os que defendem a liberdade, a tolerância, o respeito, a igualdade de todos irmãos.

    O humanismo, o verdadeiro humanismo não pode ser teísta. O homem é produto da energia fabricada nas estrelas. É produto da evolução cósmica, da evolução molecular, da evolução genética, da evolução psicológica. A partir de uma grande explosão e de uma variação térmica, as partículas e a energia organizaram-se. Criaram tudo o que existe à nossa volta. Albert Einstein ensinou-nos que a energia equivalente a uma dada massa é igual ao produto da massa pelo quadrado da luz. Ou seja, a massa transforma-se em energia a uma determinada velocidade, o mesmo acontecendo com a energia. A massa transforma-se em energia, a energia transforma-se em massa. No universo só existe duas entidades (por sinal, entidades físicas) massa e energia, não há lugar para Deus.

     As religiões (e todos os seus Deus associados) têm ódio à ciência, à razão, à inteligência, à liberdade, à vida, à sexualidade, ao prazer, no fundo, à liberdade conquistada pela humanidade desde a renascença. É este ódio, sempre associado a Deus, que é preciso combater. E este ódio está sempre presente, nas religiões.                                         

     O amigo Mário ataca o ateísmo militante. O ateísmo que confunde Deus com as religiões. Chama-lhe alienante. Diz, que ao lerem livros como o Tratado de Ateologia de Michel Onfray adormece-lhes a consciência, tornando-se cada vez mais intelectuais vazios, em estado de orfandade, sem causas. O mesmo, eu posso dizer do amigo Mário. Ao ler a Bíblia, o amigo Mário ficou órfão do Deus Bíblico, perdeu a causa de Jesus, porque Jesus será sempre uma personagem bíblica. Por mais voltas que se dê, por mais interpretações que se faça, Jesus estará sempre associado à Bíblia. Sei que poderá estar revoltado comigo por eu chamar-lhe amigo, mas eu considero-o meu amigo, porque somos irmãos nas mesmas causas. A irmandade é que deveria ser uma doutrina, uma comunhão entre todos os homens pela defesa da liberdade, igualdade, solidariedade.

     Termino esta carta que já vai longa e, espero que me perdoe a minha liberdade de opinião, transcrevendo um texto que li em 1978 e salvaguardando o contexto da época, mantêm-se actual:

     “Tal mobilização fará estremecer os Herodes e os César, os Sumos-sacerdotes e os Doutores autosuficientes de hoje, pois quando os pobres com os intelectuais abertos ao novo se movimentam auto-organizados, em estreita aliança fraternal, tendo por objectivo comum a libertação colectiva, não há tiranos que não entrem em pânico e impérios que não pressintam chegado o seu fim. (Viver sem deuses nem chefes, de Mário Oliveira, 1978). Ontem, como hoje, é necessário viver sem Deuses, nem chefes. Um abraço, sincero e amigo.

 

ND

Meu caro José

Chegou o seu correio postal.

Que lhe poderei dizer, se se me apresenta, neste seu texto, tão fechado à Realidade mais real que é invisível aos olhos, inclusive, aos olhos dos cientistas? Sabe, certamente, que os cientistas, quando aliam a Ciência com a Humildade /Verdade, são os primeiros a reconhecer que a Realidade é mais do que vêem os olhos e todos os laboratórios dos cientistas!

A sua linguagem remete-me para tempos idos, quando as Ideologias eram Idolatrias. Sabemos bem no que deram! Precisamente, porque confundiram o Real com o que os olhos e as Ideologias viam. Mas o Real é infinitamente mais!

Prefiro viver o Hoje aberto ao Amanhã. Ter os pés e a cabeça apoiados no Real que só se capta com os olhos do coração, com os olhos de uma menina, de um menino. É esse Real-Essencial, sempre invisível aos olhos, que me faz simplesmente Humano.

A Deus o que é de Deus. À Religião (para mim, são todas perversas!) o que é da Religião. E à Ciência o que é da Ciência. Quando a Ciência tentar dizer Deus, só se desacredita.

Vejo que esbarrou naquela frase do meu livro. Parece que nada mais leu no livro de 340 páginas que o ajudasse a entender a frase que leu e em que esbarrou. É sempre assim. Quando não queremos ver, nem sequer toda a dimensão visível do Real a gente vê. Como então enxergar a dimensão invisível do Real? E, no entanto, acaba o seu extenso texto, todo ele vazio de Afecto, vazio de Ternura, com a transcrição de uma afirmação minha, de 1978, do livro Viver sem Deuses nem Chefes que diz por outras palavras o que diz a frase do livro que leu agora e na qual esbarrou.

Saiba que do Deus, de que fala este seu texto, também eu sou ateu. Terá de se actualizar no discurso ateísta (ou anti-teísta?!), despojar-se da Ideologia /Idolatria, para poder ver o Real, nas suas dimensões visível e invisível. Com a Ideologia /Idolatria com que ainda agora olha o Real, nunca chegará a deslumbrar-se com ele. Nunca cantará. Nunca dançará. Será um homem sem sucessivos big-bangs, como, de resto, este seu extenso Texto no-lo mostra.

Obviamente, não vou por aí. Prefiro o Real sem muros nem ameias ideológicos. Prefiro deixar-me surpreender pelo Real todos os dias.

O meu caloroso abraço fraterno.

P.S.

Só para esclarecer que, ao contrário do que parece afirmar, ou afirma mesmo, no início do seu Texto, eu nunca fiz parte de nenhum partido político. Política Praticada, quero, Poder Político, não quero. Ao Poder Político, como ao Poder Religioso /Eclesiástico, combato-o com todas as forças. Um e outro são mentirosos e assassinos. Os dois braços do Senhor Dinheiro, o Deus-Ídolo mais cruel que na nossa demência-demência, criamos e que, a toda a hora, nos está a descriar como Humanos!

 

E-mail. Do Brasil (1)

Oieee, Meu amigo lindo. Como vc está? Ainda estou na luta contra o tal do câncer que apareceu e pra piorar um pouco, apareceu também uma infecção brava. Reza por mim, tá?

Mas olha, estou lendo um de seus livros...o que mais me atrai...”E DEUS DISSE...”

Escrevi para dizer que vc é muito lindo! (com todo respeito)

Que livro lindo! Como é bom ler vc! Fica com Deus! Um beijinho.
”Só padece de solidão aquele que se isola da luta de seu tempo.
Onde não ha utopia, não ha futuro!”
(Dom Pedro Casaldáliga)
Ghandi...”Nada mais político do que dizer que a religião não tem a ver com política.”

 

ND

Minha irmã, do Brasil

Generosamente reconfortantes, são estas suas palavras. Bem-haja por as pensar /sentir /dizer. Saem-lhe do coração.

Não me conhece; provavelmente, nunca me conhecerá cara a cara, e, no entanto, com que carinho e com que ternura aqui me trata!

Está a ler o meu livro E DEUS DISSE: DO QUE EU GOSTO É DE POLÍTICA, NÃO DE RELIGIÃO. E está a sentir-se feliz com ele e com a sua leitura.

Sente-me permanentemente consigo. E eu estou. Sabe porquê? Dou-me sempre inteiro, no que escrevo. Vou sempre inteiro, em cada livro.

Vejo que me encontra. E que o encontro comigo no livro faz-lhe bem. A mim também faz bem esta sua leitura do meu livro.

Prossiga a sua luta sem tréguas contra o cancro e contra essa brava infecção que agora inoportunamente lhe apareceu. Faça-o sempre como RESSUSCITADA, isto é, como uma Mulher que experimenta, no mais dentro de si e consigo, Deus Criador, nosso Abbá. Não está nunca sozinha nesse seu combate. O Pai /Abbá está consigo. Orar é experimentar esta misteriosa e gratuita Presença dEle em nós. Não a levamos. É Ela quem nos leva a nós. Esteja então inteira nesse Combate. E inteiramente confiante. Como uma menina que confia noutra menina.

No mesmo Espírito Criador, encontra-me também a mim. O belo desta vivência é que, neste tipo de Comunhão, sem dúvida a mais fecunda de todas, não há distâncias.

Mastigue bem as palavras de cada capítulo do livro. Mesmo as aparentemente mais duras e violentas. Saboreie toda a Ternura que elas levam dentro. Muitas delas são palavras-Espada. Mas Espada que abre caminhos a terem de ser percorridos por nós, até chegarmos a SER-no-SER-FONTE-DE-TODO-O-SER.

Um beijo, no Silêncio-que-escuta-o-Essencial, sempre invisível aos olhos e inaudível aos ouvidos, que não ao Coração. Mário

 

E-mail. Testemunhas de Jeová:

Padre Mário converta-se o quanto antes, pois o dia do senhor virá como um ladrão... e já está cada vez mais próximo!! Aconselho-o, o quanto antes, porque senão será aniquilado com todos os pecadores. (Também temos cá dentro pecadores, mas se não se arrependem, MORRERÃO). Isto é um Aviso de Irmão para Irmão. Até breve

 

ND

Ai sim, o dia do Senhor vem aí? E vem como um ladrão? Não me digam! E vem comigo ainda a aqui a viver nesta casinha alugada? Será que é já para a semana?

Deixem-me rir!!! Isto é mesmo Infantil. Histórias da carochinha para meter medo a ignorantes. Que lhes faça bom proveito. Ah! E vocês já têm as malas feitas para a viagem? Ou é o dia do Senhor que tem de viajar até à Terra? Será que ele sabe que Portugal existe?! Ah! Ah! Ah!

A propósito: Já me viram /ouviram a falar no youtube sobre as Testemunhas de Jeová? Procurem, oiçam e passem a informação ao Ancião e aos irmãos e irmãs…

Ainda assim, o meu afecto, Mário

 

E-mail. Tiago:

Boa tarde Padre Mário, gostei muito da conversa de ontem mas não fiquei totalmente esclarecido, pois eu ando a fazer um trabalho sobre temas religiosos para a Universidade Católica de Lisboa. Hoje falei com o P. Armindo Vaz, e ele disse que o seu livro sobre Adão e Eva foi tipo uma cópia do dele, e depois falamos acerca do Juízo Final. Estou baralhado, pois não sei em quem hei-de acreditar se no P. Armindo Vaz ou no P. Mário. Ele diz que haverá o Juízo Final para destruir os “maus da fita” e por outro lado o P. Mário diz-me que Deus salva, mas não me diz se haverá o dia do Juízo Final. O P. Mário concorda com o Juízo Final e só depois é que vem a salvação, ou vem o Juízo Final e os “maus” serão destruídos? Pois eu digo e escrevo desta maneira porque havendo um Juízo Final é para eliminar os “maus” e ficarem os bons, ou há Juízo Final e todos seremos salvos? Gostaria de um comentário seu para este meu trabalho. Boa tarde e um muito obrigado

 

ND

Olá, Tiago. E Você a dar-lhe! O que tinha a dizer-lhe a esse respeito já lhe disse pelo telefone. E sobre esse tipo de questões, ponto final. OK?

Já sobre o meu livro NEM ADÃO E EVA, NEM PECADO ORIGINAL, aproveito para esclarecer – e pode informar o Pe. Armindo Vaz – o seguinte: Como é que eu poderia ter copiado o livro dele, se, quando escrevi e publiquei o meu, nem sequer sabia que ele tinha um livro sobre o mesmo assunto? E, ainda hoje, passados estes anos sobre a publicação desse meu livro, continuo sem conhecer o livro dele. É uma tese que nunca me interessou ler /conhecer. Digo-lhe mais: Quando, depois de aparecer o meu livro, um padre meu amigo e amigo dele me disse que o Pe. Armindo Vaz tinha uma tese sobre a mesma temática, fiquei surpreendido e aproveitei para o convidar a apresentar o meu livro na sessão de apresentação em Lisboa. Ele começou por aceitar. Mas, depois que a Editora lhe fez chegar um exemplar do livro e ele o leu, entrou em contacto comigo, a poucos dias da sessão, para me informar que declinava o convite, porque não se revia no meu livro e, se o fosse apresentar, teria de ser desagradável comigo, porque teria de dizer mal do livro e de mim. Pedi-lhe que, mesmo assim, não deixasse de ir, que por mim até me agradava a discordância e o confronto de ideias, mas ele recusou liminarmente. E eu fiquei sem ter oportunidade de o conhecer pessoalmente. À pressa, valeu-me o meu amigo, Pastor Dimas de Almeida que, muito gostosamente foi apresentar o meu livro, em lugar do Pe. Armindo Vaz. Claro que, na sessão, eu contei todas estas peripécias às pessoas que estiveram presentes. Veja só como são as coisas. Para que conste.

Seu, Mário

 

Agosto 26, Márcia

Olá muito boa tarde, o meu nome é Marcia Silva e contacto-o para lhe falar acerca do meu namorado. Tenho vinte anos e o meu namorado vinte e cinco, mas o nosso namoro tem tido altos e baixos devido á sua personalidade vincada. Ele esporadicamente agride-me verbalmente e outras vezes fisicamente, mas devido ao Amor que lhe tenho não o quero perder. Ele também agride os pais fraternos quando se enerva, mas também os pais lhe querem somente o bem dele! Ele tem carro e anda com uma soqueira e um taco de baseball dentro do carro. Já assisti em plena estrada ele parar o carro, pôr a soqueira na mão e partir o maxilar ao outro condutor só porque ele lhe buzinou. Tenho Fé em Deus e já falei com vários padres acerca deste assunto, só que eles dizem-me sempre que Deus o há-de castigar. Agora que conheci o Padre Mário via youtube, gostaria de saber se concorda com tais padres. Eu vivo em Massamá e já corri todas as igrejas e a resposta é sempre a mesma “castigo”. O senhor Padre Mário também concorda com tais padres? Obrigada e boa tarde.

 

ND

Bom dia, Márcia

Vai-me desculpar, mas este seu correio para mim só pode ser para me fazer rir. Agradeço-lhe este momento hilariante que acaba de me proporcionar. Veja: A Márcia (tenho uma sobrinha por afinidade que também se chama Márcia, mas, felizmente, não se ocupa com questões deste tipo nem faz as pessoas muito ocupadas e doadas aos demais gastar tempo com estas coisas!) diz que tem 20 anos e que namora um homem de 25 anos. Até aqui, tudo bem. Mas depois acrescenta que, nesta idade que diz ter, já correu todas as igrejas e já falou com vários padres. É um fenómeno de jovem, neste início do nosso século XXI. Porque a generalidade dos jovens, hoje, não frequenta nenhuma igreja, muito menos, todas as igrejas, nem fala com vários padres. A generalidade dos jovens já percebeu, ao contrário da Márcia, que igrejas comedoras e anunciadoras de castigos de Deus sobre os seres humanos, já de si tão castigados por esta Ordem Mundial do Senhor Dinheiro, são como o sal que perdeu a força de salgar e, por isso, faz o que Jesus diz para fazermos a tais igrejas: deita-as fora das suas vidas, como se faz ao sal que perdeu a força de salgar, para que elas, como esse sal, sejam depois pisadas pelos seres humanos, pois já nem para a esterqueira servem. Diz-me ainda mais, neste seu mail, com tudo de hilariante. Diz que me encontrou no youtube (fico contente com este seu encontro comigo, pena que não tenha sido pessoalmente, para também eu a poder ver e ouvir ao vivo) e escreveme para saber se eu concordo com os padres com os quais diz que tem falado. Será que a Márcia ouviu mesmo um único vídeo meu no youtube? Como pode ter ouvido, se me faz uma pergunta destas tão nos antípodas do Evangelho ou Boa Notícia de Deus que eu anuncio a tempo e fora de tempo, também em cada vídeo que gravei e coloquei no youtube?! Quanto ao seu namorado e aos gostos que diz que ele tem, para que há-de a Márcia, com 20 anos de idade, viver preocupada se ele será ou não castigado por Deus? Acha que é para coisas dessas que Deus nos criou e nos ama, como filhas suas, filhos seus? De resto, para meter o seu extravagante namorado nos eixos, não basta a brigada de trânsito ou a Polícia Judiciária, ou os tribunais? Ah! Mas, se o seu namorado tem tão extravagantes gostos, e a Márcia também, porque, com 20 anos de idade, continua a namorar com ele e a gostar dele, assim como ele é, porque é que não o aconselha a inscrever-se na polícia de choque? E porque não vai a Márcia também com ele? Será que vai passar o resto da sua vida a correr todas as igrejas e a falar com todos os padres e pastores que são lá funcionários, a ganharem dinheiro que se fartam, dado por populações de olhos e ouvidos fechados, aterrorizadas, vítimas de catequeses sem pés nem cabeça e sem um pingo de decência e de dignidade humana?!

Dou-lhe um beijo. E, se vier para estas bandas da Lixa-Felgueiras, apareça para nos conhecermos cara a cara e nos rirmos a bom rir com este seu mail… Mário


 

DOCUMENTO

Jornal Fraternizar apresenta em primeira-mão a Latino-Americana 2010

SLVEMO-NOS COM O PLANETA!

 

Jornal Fraternizar já tem nas suas mãos a (Agenda) Latino-Americana Mundial 2010. É editada há já quase 20 anos consecutivos, em múltiplos países, Brasil incluído. Portugal, infelizmente, ainda não tem uma editora que a coloque à nossa disposição, nem sequer a partir da edição brasileira. Os custos seriam baixos, porque a publicação não tem fins lucrativos. Ficamos assim privados de toda a riqueza espiritual, cultural, teológica, eclesial e fecundamente humana que a Latino-Americana oferece cada ano aos Povos da Terra. “Salvemo-nos com o Planeta”, é a temática do ano 2010. Mais do que oportuna, é uma temática imperiosa. Urgente. Inadiável. A edição original em castelhano é de José Maria VIGIL e de Pedro Casaldáliga, os pais da Agenda e ainda hoje os seus principais responsáveis. São ambos claretianos. Vigil, padre e teólogo. Pedro, Bispo emérito de S. Félix do Araguaia, Brasil, um verdadeiro mártir vivo, já na casa dos 80 anos. É com o essencial das suas palavras que abrimos este "Documento". A ler com o coração.

 

A primeira grande palavra de aber­tura da Latino-americana 2010, à ma­nei­ra de introdução fraterna, continua a ser assinada pelo Bispo Pedro. A desta edição diz, logo a abrir:

“Há vinte anos, tratavam de ecolo­gia umas poucas pessoas, rotuladas de bucólicas, ou de derrotistas. Não era um tema sério nem para a política, nem para a educação, nem para a religião. Podia-se venerar Francisco de Assis co­mo santo das flores e dos pássaros, mas sem compromisso de maior.

Agora, e quem sabe se tarde de­mais, o mundo inteiro está a sensibili­zar-se, atordoado pelas notícias e pe­las imagens de cataclismos actuais e de previsões pessimistas que enchem os nossos telejornais. E já são muitos os congressos e os programas que ven­tilam como um tema vital a ecologia, des­nudando as causas e urgindo pro­postas concretas acerca do meio ambi­ente. Até as crianças sabem agora de ecologia…

O tema é novo e desesperadamente urgente. Acabamos de descobrir a Ter­ra, nosso Planeta, como nossa casa comum, a única que temos, e estamos a descobrir que somos uma unidade indissolúvel de relações e de futuro.”

O bispo Pedro prossegue, depois, acusador: “Frente aos gastos astronómi­cos nos espaços siderais; frente ao as­sas­sino negócio do armamentismo; frente ao consumismo e ao luxo duma privilegiada parcela da Humanidade, vamos agora sabendo que o desafio é cuidar deste Planeta.

A última grande crise, filha do capi­talismo neoliberal, embrutecido na usu­ra e no esbanjamento, que vem igno­ran­do cinicamente tanto o sofrimento dos pobres, como as limitações reais da Terra, está a ajudar-nos a abrir os olhos e esperamos que também o coração.

Leonardo Boff define O grito da Terra, como O grito dos pobres; e James Lo­velock avisa-nos acerca de A Vin­gança da Terra – a Teoria de Gaia e o futuro da Humanidade: «Durante milhares de anos, a Humanidade vem abusando da Terra sem ter em conta as consequências. Agora, que o aquecimento global e as alterações climáti­cas são evidentes para qualquer ob­ser­vador imparcial, a Terra começa a vingar-se».

Estamos a tratar a Terra como um assunto apenas económico e exigimos da Terra muitos deveres, mas ignora­mos os direitos da Terra.”

O bispo Pedro não se fica por aqui. “Certos especialistas – sublinha – e cer­tas instituições internacionais vêm-nos mentindo. A mão invisível do Mercado não resolvia o desastre mundial. Quanto mais livre era o comércio, mais real era a fome.

Segundo a FAO, em 2007, havia 860 milhões de famintos; em Janeiro de  2009, cento e nove milhões mais. A metade da população subsahariana, para citar um exemplo dessa África cru­ci­ficada, malvive na extrema pobreza.

A Ladainha de violência e de des­gra­ças provocadas é interminável. No Congo há 30 mil meninos soldados dis­pos­tos a matar e a morrer a troco de comida; 17% da floresta amazónica foi destruída em cinco anos, entre 2000 e 2005; o gasto em defesa da América Latina e do Caribe cresceu 91% entre 2003 e 2008; uma dezena de empresas multinacionais controla o mercado de se­mentes em todo o mundo. Os objecti­vos do Milénio evaporam-se na retórica, e os países mais ricos, nas suas reuni­ões elitistas, dizem covardemente que não podem fazer mais, para reverterem a situação.”

Lembra o bispo Pedro que “é tradi­ção da nossa Agenda enfrentar cada ano um tema maior, de actualidade quente. Não podíamos logicamente dei­xar de lado este tema vulcânico”. E adianta:

“O tema é amplo e complexo. So­mos nós, ou o Planeta quem está em crise mortal? Baralhamos três títulos para esta Latino-Americana 2010: «Sal­var o Planeta»; «Salvaremos o Pla­neta?»; «Salvemo-nos com o Planeta».

Optamos por este último, porque técnicos e profetas vêm-nos recordando que também nós somos Planeta; somos Gaia, estamos a despertar para uma vi­são mais holística, mais integral; esta­mos a descobrir, finalmente, que o Pla­neta é também o Planeta Água.

Um recente livro infantil intitula-se precisamente Ajudo o meu Planeta. A salvação do Planeta é a nossa salvação, e não faltam especialistas que afirmam que o Planeta vai-se salvar, seguindo o curso do Universo e que, entretanto, a vida humana e todas as vidas do Pla­ne­ta serão um sombrio passado.”

“A ecologia profunda, integral – alerta com oportunidade o Bispo Pedro – deve incluir todos os aspectos da nos­sa vida pessoal, familiar, social, política, cultural, religiosa… E todas as instituições políticas e sociais, ao nível local, nacional e internacional, têm de fazer da salvação do Planeta o seu programa fundamental.

É imprescindível uma globalização de sinal positivo, que trabalhe pela mun­dialização da ecologia. Recuse e supere a actual democracia de baixa intensidade, implante uma democracia de máxima intensidade, melhor, uma «biocracia cósmica»

Urge criar, estimular, potenciar em todas as religiões e em todos os huma­nis­mos uma espiritualidade «profunda e total», de sinal positivo, de atitude profética na libertação de todo o tipo de escravidão: vivendo e militando por uma nova valorização de toda a vida, da matéria, do corpo, do eros. O ecofeminismo sai ao encontro de um desa­fio fundamental. Gaia é fe­mi­nina.

Impõe-se uma nova relação com a natureza, naturalizando-nos como natureza que somos e humanizando a natureza na qual vivemos e da qual dependemos. Eu sou eu, diria o filósofo, e a natureza que me circunda.

O melhor que tem a Terra é a Hu­manidade, apesar de todas as loucuras que temos cometido e continuamos a cometer, verdadeiros genocídios e verdadeiros suicídios colectivos.”

Para o Bispo Pedro, “é possível ou­tra ecologia”, como é possível, “outra sociedade humana”. Por isso faz seus, estes dois pontos do Manifesto da Eco­logia Profunda:

1, “A mudança ideoló­gica consiste principalmente em va­lorizar a qualidade da vida, mais do que tratar incessantemente de conse­guir um nível de vida mais elevado.”

2, “Terá que se produzir uma toma­da de consciência profunda da dife­rença que há entre crescimento mate­rial e crescimento pessoal, indepen­dente da acumulação de bens mate­riais.”

Já quase a terminar, o Bispo Pedro tem ainda tempo para informar:

“Militantes e intelectuais compro­me­tidos com as grandes causas estão a preparar uma Declaração Universal do Bem Comum Planetário, que inclui quatro pactos: 1, “O Pacto ecológico na­tural, responsável de proteger a Ter­ra”; 2, “O Pacto ecológico social, res­ponsável de unir todas as esperanças e vontades”; 3, “O Pacto ecológico cul­tural, que deve estar baseado na pro­mo­ção do pluralismo, da tolerância e do encontro da Humanidade com os ecossistemas, os biomas, a vida do Pla­neta”; 4, “O Pacto ecológico ético-es­piritual, fundado na dimensão do cui­da­do, da compaixão, da corresponsabilidade de todos com tudo.”

A concluir, deixa ainda este recado: “Devemos escutar o que nos dizem si­multaneamente as novas ciências e as novas teologias. Queremos viver este kairós [= Momento Favorável] ecológico de militância e de mística com o Deus de todos os nomes e de todas as uto­pias. Com Jesus de Nazaré, muitos liber­tários, profetas e mártires na nossa A­mé­rica nos precedem e nos acompa­nham nesta marcha pelo deserto para a Terra sem Males.

É uma utopia absurda? Só utopi­camente nos salvaremos. A arrogância dos Poderes, o Lucro desenfreado, a pre­potência, as deserções querem fa­zer-nos desanimar; mas nós negamo-nos ao desânimo, à corrupção, à resi­gnação. Nenhuma estrutura de morte terá mais poder que a Vida.”


 

Maneiras práticas de ajudar o Planeta

Uma mão cheia de dicas, da Agenda, que urge conhecer, praticar e divulgar

 

Abundam, nos nossos dias, pelo menos, aqui no Ocidente, as denúncias e os alertas dos cruéis ataques desferidos por grandes e pequenas empresas contra a saúde do nosso Planeta. A Terra não aguenta mais. E dá reiterados sinais disso. Todas, todos sabemos, até porque sofremos na pele. Falta-nos Agir com sabedoria para ajudarmos a curar a doença da Terra, de modo que ela continue a ser o ventre da vida, a dos seres humanos e a de todos os demais seres, nossos parceiros de jornada. Felizmente, a Latino-americana 2010 vai ao ponto de nos oferecer uma mão cheia de dicas que urge conhecer, praticar e divulgar entre as populações. Eis.

 

Os três erres: Redução, Reutilização e Recicla­gem

1 Procure REDUZIR o consumo. Consuma só mesmo o necessário. E, ao consumir só o necessário, ainda o REU­TILIZE ao máximo. Finalmente, o que não puder reutilizar, deposite-o em recipientes próprios, do mesmo tipo de resíduos (lixos), para favorecer a sua RECICLAGEM.

2 Participe na recolha selectiva de resíduos, se ela já estiver organizada na sua área de residência. Se ainda não estiver, esforce-se para que seja implementada quanto antes.

3 Reduza o consumo de água em casa: um duche rápido é melhor do que um banho demorado: mantenha a água a correr, durante o banho, o menor tem­po possível; aproveite as sobras de água para um novo uso.

4 Diminua o uso do papel. A digi­tal­ização da informação torna, muitas vezes, o papel desnecessário. Evite usá-lo também em alguns hábitos em fa­mí­lia, por exemplo, diminua o consu­mo de guardanapos de papel.

5 Reduza ao máximo os recipientes (compre produtos com a embalagem mais pequena; utilize recipientes reuti­lizáveis). O vasilhame não é de todo prejudicial: evite, sim, o alumínio e uti­lize o vidro.

6 Use sacos de pano para as suas compras, ou reutilize as de plástico. Fa­ça campanha para se reduzir o actual consumo exagerado de sacos de plás­tico.

7 Não aceite a facilidade de com­prar talheres e pratos de plástico des­cartáveis.

8 Coloque todo o papel em recipi­entes para reciclagem. Cada tonelada de papel reciclado economiza cerca de 16 mil litros de petróleo.

9 Uma lata de alumínio precisa de 200 anos para se decompor. Se for reci­clada, estará novamente pronta a usar, em apenas 60 dias.

10 As garrafas de plático de água e de refrigerante precisam de mil anos para se decomporem. Não as compre, se não houver reciclagem.

 

Economia de energia

1 Prefira o uso da bicicleta para trajectos curtos, e o transporte público para os mais longos.

2 Compartilhe o uso do seu veí­cu­lo, nas suas deslocações diárias.

3 Utilize lâmpadas de baixo con­sumo.

4 Apague completamente os apa­relhos electrónicos durante a noite e outros períodos em que não estão a ser utilizados. Faça o mesmo com copiadoras, impressoras, televisores. Não os deixe em stand by [em espera].

 

Fomentar o naturalismo

1 Estimule o conhecimento dos lu­gares naturais mais próximos da sua residência, assim como dos animais e das plantas lá existentes.

2 Estimule o uso tradicional de plan­tas silvestres. Apoie a recuperação e a difusão do conhecimento sobre as suas propriedades.

3 Plante uma ou mais árvores e ce­leb­re o acto com pessoas amigas e familiares. Com o passar dos anos, a sua sombra e a sua presença recorda­rão essas pessoas amigas e familiares.

 

Vida sadia e consumo saudável

1 Não exagere no uso do adubo. O excesso acaba por nos prejudicar, porque danifica a qualidade da água e dos sistemas naturais aquáticos.

2 Evite pesticidas. A sua presença no nosso corpo ou nos ecossistemas sempre gera problemas. O controlo bio­lógico pode ser uma alternativa.

3 Dê prioridade à compra de ali­mentos locais e próprios da estação. Eco­nomiza-se no transporte e ajudam-se os produtores próximos.

4 Coma menos carne. O actual con­sumo em algumas regiões do Pla­ne­ta não é possível para toda a Huma­nidade. A carne não é necessária nem mais sadia.

5 Saiba que baixar um grau no apa­relho de ar-condicionado pode si­gnificar a economia de 10% de energia.

6 Não é mais limpo quem limpa mais, mas quem suja menos.

 

Participação /implicação

1 Mantenha-se informado sobre a gestão dos espaços naturais próximos da nossa casa e locais de trabalho.

2 Procure pessoas, comunidades, associações das redondezas, onde pos­sa comunicar às pessoas a sua opi­nião sobre a conservação dos espaços naturais.

3 Participe em órgãos e em foruns onde se decida ou simplesmente se for­mulem /aprovem políticas públicas que afectam a conservação da natureza.

4 Tome posição activa sobre as propostas políticas a respeito dos espa­ços naturais próximos.

5 Cultive na internet redes de con­fi­ança e reciprocidade; fortaleça o ca­pital social nas comunidades rurais que se fundamentem em sites de confiança, reciprocidade e cooperação.

6 Sem sacrifícios, não salvaremos o Planeta.

7 Interrogue-se sobre o que pode pessoalmente fazer pelo Planeta.

 

Ecologia mental

1 A Humanidade tem necessidade de encontrar uma nova forma de vida e de pensamento que não se oponha ao Planeta, mas que se una a ele com harmonia e mútuo proveito. Colabore. É uma questão de vida ou de morte.

2 Supere o antropocentrismo, isto é, deixe de pensar - e ajude os demais a pensar também - que o ser humano é o dono do mundo e que pode fazer o que quiser com os animais, as plan­tas, as árvores e os outros recursos naturais. Não pode.

3 Deixe de pensar que somos in­teiramente diferentes dos animais, por­que supostamente vimos de "cima", ou, pelo menos, "de fora, ou porque apenas nós temos alma ou inteligência... Pense que não viemos nem de cima, nem de fora, mas de baixo e de dentro. Somos a flor da Evolução, pó das estrelas, o resultado último de um processo ancestral milenário. E saiba que os chimpanzés, por exemplo, partilham connosco 98% do seu genoma.

4 Quando se fala de algo "sobre­natural" no mundo, isso não pode ser posto num plano exterior, metafísico, superior, como se estivesse no segun­do andar de um prédio ou numa casa comercial. Quando falamos que existe algo mais que a pura superfície que os nossos olhos vêem, tem de ser algo que esteja presente na própria reali­dade, na sua essência mais profunda. O melhor da realidade não pode estar fora ou acima, ou mais além, mas aqui mesmo, no mais dentro dela.

5 Se você é das muitas, dos muitos que fomos ensinados a viver de costas para a natureza, pensando que éra­mos algo à parte, diferente e superior, que podíamos contaminar-nos com esse mundo natural, se nele nos sen­tíssemos bem, abra na sua vida um tempo de reconciliação com a Terra, com a natureza e consigo mesmo. Procure livros, poucos mas bons, para, com a sua leitura, ajudar a mudar os seus pensamentos e "converta-se" mais à natureza.

6 O chamado sagrado encontra-se no nível mais profundo de cada ser hu­mano. Espiritualidade é estar em con­tacto com esse centro e sentirmo-nos energenizados por ele.

7 Se você é crente, descubra que a imagem tradicional que representou Deus fora do mundo, num suposto céu, como um ancião venerável, "Senhor omni­potente", legislador vigilante, é uma representação própria dos tempos antigos, quando ainda pensávamos o mundo da forma como o imaginaram Platão e Aristóteles, mas saiba também que, hoje, felizmente, as novas ciências permitem-nos sentir /pensar de manei­ra diferente a Divindade na própria Rea­lidade.

8 Surpreenda-se e alegre-se com a boa notícia da falsidade de muitos dualismos das doutrinas de outrora: matéria-energia, corpo-alma, terra-céu. Aprofunde as implicações que pode ter para a sua vida a descoberta de que tudo está holisticamente implicado.

9 Devemos passar de uma espiri­tualidade preocupada apenas pela jus­tiça inter-humana (económica, so­cial, de género) para uma outra, sensí­vel também à natureza e à Terra.

10 Informe-se sobre a situação de emergência em que se encontra o Pla­neta. Neste momento, tem apenas al­guns anos de prazo (porventura, me­nos de 20 anos), para pôr freio ao acúmulo de CO2 na atmosfera e assim evitar um aquecimento de mais de 2 graus, limite cuja ultrapassagem, se acontecesse, seria castatrófica e letal para a vida; e tome uma atitude conse­quente com esta consciência.

11 Procure uma espiritualidade cen­trada na natureza, que capte a es­piritualidade do Cosmos e o faça, a si, sentir-se também Cosmos em evolução; o faça sentir-se Terra que, em nós, pen­sa e ama; o faça sentir-se parte da Gaia (divindade grega = Terra) viva. Descubra como tudo isso não contradiz, muito pelo contrário, a Fé de Jesus. Antes a valoriza e fortalece.

12 Pense sempre planetariamente e aja localmente.

13 Livre-se do mito do cresci­men­to, só porque sim. Não se trata de "crescer", mas de "desenvolver-se", ao mesmo tempo que havemos de decres­cer em consumo desnecessário.



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