Textos do
Jornal Fraternizar

Edição nº 174 de Julho/Setembro 2009

DESTAQUE1

E se frequentar a catequese paroquial é pecado grave?

 

E se as mães, os pais que inscrevem as filhas, os filhos menores nas catequeses da paróquia fa­zem pecado, e pecado grave? A questão, posta nestes precisos termos, pode chocar muitas pes­soas e desencadear alguns ódios contra quem a formula e a coloca em debate público. Mas que é uma questão oportuna, é. Como seria oportuno debater se baptizar as filhas, os filhos menores de idade, a pedido das mães, dos pais, não é igualmente pecado, e pecado grave. Porque o baptismo, se tomado a sério (e se não for tomado a sério, então ainda mais pecado será decidir ir por ele à paróquia e ao pároco que nela está de serviço por imposição do respectivo bispo diocesano), é uma opção tão radical de vida – significa trocar o Império e o deus do Império por Jesus Crucificado e pelo Deus de Jesus Crucificado e o seu Reino /Reinado, e, ainda, passar a fazer parte da Igreja católica romana - que não pode, não deve, ser tomada por outros, nem que esses outros sejam a respectiva mãe, o respectivo pai. Aliás, não cabe às mães, aos pais, a responsabili­dade moral última, de velarem pela integridade das suas filhas, dos seus filhos, pela sua integridade física e espiritual, pela sua integridade cultural e humana? Alijar esta nobre e empolgante responsa­bi­li­da­de noutrem, e, no caso, noutrem que nem sequer é pai e até está proibido de constituir família, se, entretanto, quiser continuar a ser funcionário eclesiástico com todos os proventos que daí advêm, não é demitir-se e, consequente­mente, pecar contra as próprias filhas, os próprios filhos? Está aberto o debate. Entrem nele, se quiserem. Para isso existimos, como publicação teológica jesuânica e eclesial, não eclesiástica, obviamente.

 

Um rápido olhar minimamente atento e crítico sobre as catequeses semanais, ministradas pelas paróqui­as e pelas, pelos respectivos catequis­tas, revela, a olho nu, que tudo, duma maneira geral, não passa de um tre­mendo desastre moral /teológico /cul­tural, de consequências verdadeira­mente dramáticas, para não dizer, inu­manas. Na maior parte dos casos, as catequeses semanais ministradas pe­las paróquias católicas servem para formar futuros agnósticos e ateus. O sacramento do Crisma (?), coroamento da catequese paroquial, tida como diocesanamente exemplar, é, na ge­ne­ralidade dos casos, o dia da despe­dida solene da Igreja. O facto, estatis­ticamente comprovado – e contra factos não há argumentos – deveria levar os bispos e os párocos a pensa­rem no que está errado nessa activi­dade pastoral em que cada diocese tanto investe, em meios materiais, em tempo e em pessoas. Mas não. Eles nem tempo têm para isso. E tão pouco isso lhes importa por aí além, contanto que os afastados, depois, à hora de casar, voltem a bater-lhes à porta e, depois, à hora de baptizar os respe­ctivos filhos, voltem a bater-lhes outra vez à porta e, depois, à hora de casar os filhos, sobretudo as filhas, voltem a ir à igreja paroquial com eles no dia da boda-casamento canónico, montra de vaidades, sem o mais leve toque do Espírito de Jesus, quase sempre, para daí a anos, ou apenas meses, já estarem ambos separados /divorciados pelo Civil. E é muito bem feito, porque para isso serviram as catequeses impostas, anos e anos a fio, às crianças e aos adolescentes.

O desastre começa logo pelos con­teú­dos que são ensinados, da pri­meira à última sessão de catequese paroquial. Alguma vez as mães, os pais se deram ao trabalho de controlarem os conteúdos catequéticos, muitas ve­zes, verdadeiras monstruosidades dou­trinais, que as suas filhas, os seus filhos, crianças de tenra idade, estão a receber na paróquia? Sabem que são conteúdos infantilizadores, metidos de fora para dentro, por isso, pura Ide­ologia eclesiástica, com tudo de Ido­latria, com o único intuito de manter o número de clientes nas missas de domingo e nas devoções sem sentido e sem dignidade, tudo coisas nos antípodas do que fez e faz Jesus, lá onde nos abrimos ao seu Sopro ou Es­pírito libertador? Já se deram conta das patranhas, das mentiras, das meias verdades, das deformações, das con­tra­dições que os catecismos da Igreja católica transmitem às vossas filhas, aos vossos filhos, para cúmulo, numa idade em que elas, eles não se podem intelectualmente defender? Os catecis­mos podem falar-lhes de Jesus, e fa­lam, mas de que Jesus é que lhes fa­lam? Não é apenas de um Jesus eclesiástico que justiça a existência das paróquias, dos párocos, das dioce­ses, dos bispos e dos seus Privilégios, das missas pagas por bom dinheiro, das festas religiosas cheias de Idola­tria, da senhora de Fátima e, sobre­tudo, do incontestado Poder ecle­siás­tico dos bispos e dos párocos sobre as populações? Sabem que esses con­teúdos, incutidos em tão tenra idade, deixam marcas negativas para toda a vida? E se sabem, não fazem nada contra isso? Não decidem retirar de ime­diato as vossas filhas, os vossos filhos de tais sessões de catequese, falsa e mentirosa catequese? E que dizer daquelas festas eclesiásticas, ao longo dos anos de catequese, que ago­ra está na moda promover? Não acham tudo pífio, tudo beato, tudo in­fantilizador, tudo moralista, tudo pro­mo­ção de vaidades, de competição, de rivalidades, para ver quem é que vai melhor vestido e quem é que faz o almoço mais dispendioso?

Depois dos conteúdos, cheios de lendas e de mitos bíblicos que são en­sinados como se fossem factos históri­cos e ciência, passem em revista, as, os catequistas das vossas filhas e dos vossos filhos. Que idade têm? Que ma­tu­ridade biológica e teológica têm? Que preparação pedagógica e psicoló­gica têm? Mesmo aquelas, aqueles que frequentaram algum curso de for­ma­ção catequética na diocese ou nu­ma vigararia, oferecem séria garantia de serem pessoas confiáveis, capazes de pensar pela própria cabeça, pes­soas dotadas de consciência crítica, de discernir o que é a verdade que nos faz livres do que é o interesse ecle­siástico que nos faz escravos, bea­tos, introvertidos, revoltados, vio­lentos, agressivos, frustrados? Como é que, por exemplo, uma adolescente de 15 ou 16 anos pode dar catequese a cri­anças pequenas, as mais difíceis de acompanhar, as que mais cuidados exi­gem, porque não têm quaisquer defesas mentais /culturais /teológicas /bíblicas? Se, nas pré-primárias, as cri­anças são confiadas ao cuidado de edu­cadoras licenciadas, como é que nas catequeses paroquiais, as mesmas crianças podem ser confiadas a ado­lescentes ou jovens a sair da puber­dade, mais ou menos lacaios do páro­co, sem espinha dorsal, sem desen­volvi­mento integral, imaturos, dissipa­dos, superficiais, medíocres, meninos de coro que depois o são assim por toda a vida, sem audácia para se me­te­rem naquelas mesmas Causas His­tóricas pelas quais Jesus deu /entre­gou a sua própria vida, como Pão Partido e Vinho Derramado?

Se, depois dos conteúdos ensi­na­dos e do tipo de catequistas que os ministram, passamos à espiritualidade que anima os párocos e as, os catequistas, então o desastre aprofunda-se ainda mais. Porque, na maior parte dos casos, é zero. Não é nenhuma. Des­conhecem, até, o que é orar, o que é espiritualidade, o que é ser Homem /Mulher ao jeito de Jesus, o de Nazaré, o que é praticar a mesma Fé de Jesus. Tudo se resume a umas quantas fór­mulas decoradas, a que depois cha­mam oração, a umas quantas devoções sem nenhum compromisso político, a uns quantos ritos que repetem até à de­mência, a uma presença regular, se­manal, na missa ritualizada da paró­quia. Nunca chegam a descobrir e a experimentar /protagonizar o Movi­men­to de Jesus e a Missão maiêutica, radicalmente libertadora, de Jesus. Nunca se constituirão, pela vida fora, naqueles dois ou três que reúnem em nome e em memória de Jesus, não no templo da paróquia, local mais depri­mente, mas sim na casa uns dos ou­tros, em redor da Mesa e de Comidas Compartilhadas, atravessadas pelo So­pro ou Espírito Libertador de Jesus, alimento de Resistentes, de Dissiden­tes, de Indomáveis, de Militantes, de Protagonistas da História. Ora, sem Es­pi­ritualidade jesuânica, não pode haver catequistas maiêuticos, só funcionários da empresa-paróquia, sucursal da em­presa-diocese, sucursal da Multina­cio­nal Religiosa sedeada no Estado do Vaticano.

É dura esta linguagem? Saibam que mais dura é a realidade deforma­dora de seres humanos que está aí impunemente diante dos nossos olhos. E que dizer, se as mães, os pais, em lugar de se lhe oporem e defenderem as suas fi­lhas, os seus filhos, ainda vão lá inscrevê-los, como se aquilo fosse o melhor que lhes podem dar? Na verdade, deformam-nos para toda a vida. Vejam o que diz o Evangelho de Lucas sobre Jesus. O relato não é histórico, mas é, teológica e pastoral­men­te, exemplar, paradigmático. Aos 12 anos, os pais levam o menino ao Templo. Só que Jesus, em lugar de se sentar passivamente a ouvir os en­si­namentos envenenados dos douto­res da lei (= os párocos e as cateque­ses paroquiais), debateu com eles e colocou-os no lugar de discípulos. Mes­tre, carregado de Futuro, porque a fonte de Liberdade e de Maioridade, era, é, ele, Jesus. Só que nem os pais de Jesus foram capazes de perceber isto. Porque, se percebessem, nunca o teriam levado ao Templo. Tinham obri­gação de ver que o Templo era o grande covil de ladrões, a casa da Idolatria, da Mentira, da Opressão.

Mães e pais com Espiritualidade, a de Jesus, precisam-se. Mães e pais que, como Jesus, tenham crescido em sabedoria e em graça, à medida que cresceram em estatura e em anos. E isso, nas paróquias nunca se conse­gue. Apenas entre aqueles dois ou três que, desde cedo, começam a reunir-se em nome e em memória de Jesus, para se tornarem, como ele, mulheres e homens que crescem em sabedoria e em graça, à medida que crescem em estatura e em anos. As paróquias e os párocos funcionários eclesiásticos, mais mercenários que pastores, des­co­nhecem por completo esta Espiritualidade jesuânica. E até a combatem, lá onde perceberem que ela anda a que­rer desenvolver-se. Mas as mães e os pais que o queiram ser a sério, é por aqui que devem ir, nunca pelas paróquias e pelos párocos. Ir pelas pa­róquias e pelos párocos, pelas suas ca­tequeses e pelos seus catequistas, elas e eles, é pecado, e pecado grave. Porque quem as frequenta, cresce teo­lógica e espiritualmente torto e, como diz o Sábio, tarde, mal, nunca se endi­reita!

Mudar é preciso. Mude­mos! Sejam mães, pais assim, e o resto vem por a­crés­cimo. As vossas filhas, os vossos filhos crescerão neste Movimento das, dos Jesus, e isso marcá-los-á positiva­mente para a vida toda. E, quando a­dul­tas, adultos, elas próprias, eles pró­prios de­cidirão se querem ou não cate­que­se de adultos e se querem ou não ser baptizados e integrar a Igreja.


DESTAQUE2

 

E a menina-Jesus, Alexandra, regressou à sua mãe e à Rússia

 

O caso deu que falar. O País mostrou à saciedade toda a demência-demência por que ainda se rege. Em seu entender, a menina Alexandra deveria continuar a crescer longe dos braços, dos abraços e do jeito de amar da sua mãe Natália, dos beijos e das falas da sua irmã mais velha, nesta altura, já a sair da adolescência, e dos afectos amadurecidos e sábios da avó e do avô; e também longe do país que traz nos seus genes e no seu sangue. Em troca dos braços e dos abraços mais que mimados dos pais da família de acolhimento em Portugal. O Tribunal decidiu contra a corrente. Não foi pela demência-demência. Foi pela menina Alexandra que, assim, passa a ser menina-Jesus que salvará maieuticamente a sua mãe e até o seu País, a Rússia, que bem necessitados estão de Afectos e de Vidas-Pão Partido e Repartido e Vinho Derramado. Cresce, pois, Alexandra, em Sabedoria e em Graça e faz-nos crescer contigo em Sabedoria e em Graça. É o que mais nos tem faltado e que ficou bem à vista neste  momento de verdade que tu protagonizaste, com emoção, dor e alegria.

 

E eis que a menina Alexandra regressou aos braços da mãe que a deu à luz. E, juntamente com ela, regressou à Rússia, o país onde estão as suas raí­zes biológicas e culturais. Deixou a família de acolhimento, em Barcelos, Portugal, com quem viveu, quase cinco anos, desde os 17 meses de idade. O Tri­bunal decidiu. Está decidido.

O caso deixa revoltados os pais da família de acolhimento. É humanamente compreensível, mas eles sabiam bem, desde a primeira hora em que a acolhe­ram na sua casa, que são essas as re­gras por que se pautam as famílias de acolhimento. O acolhimento é temporá­rio. Não é para se transformar em ado­pção. Porque a mãe e o pai biológicos da criança acolhida existem, pelo me­nos, um deles, e podem, a todo o mo­men­to, reabilitar-se, ao ponto de assu­mirem de novo as suas responsabilida­des e a sua empolgante missão de mãe e de pai.

No caso em questão, Natália, a mãe de Alexandra, bateu-se no tribunal português, pelo regresso da filha aos seus braços, ao seu colo, ao seu afecto, aos seus cuidados. E pelo regresso ao seu país de origem, onde Alexandra tinha, tem avó materna e uma irmã de 15 anos à sua espera. E todo o seu Povo russo. Bem como a cultura russa que Alexandra traz, inevitavelmente, como uma mais-valia, nos seus genes de menina.

Ao que mostraram na altura (pri­meiros dias da segunda quinzena de Maio 2009) os telejornais e escreveram os matutinos impressos, Alexandra, já de seis anitos e alguns meses mais, resistiu, por muitos e longos minutos, dentro do carro dos pais da família de acolhimento. Chorou. Gritou. Argumen­tou ao jeito de todas as crianças contra a criteriosa e sábia decisão do Tribunal.

Os responsáveis pela execução da sentença deram-lhe tempo e esperaram que a menina se acalmasse. Até que ela, finalmente, aceitou sair do carro. Afinal, outros braços a esperavam. Não estava a sair de uma família, para entrar numa instituição, dessas muitas que por aí há que recebem crianças aban­do­nadas ou sujeitas a maus tratos con­ti­nuados e depois tratam-nas como outros tantos números, com comida e roupa lavada, mas nenhuns afectos liber­tadores.

Finalmente, Alexandra terá perce­bido que saía dos braços de uma fa­mília de acolhimento para os braços da sua própria mãe, aquela que a deu à luz. Natália, hoje, mais madura, mais mulher e mais mãe, assume, a partir de agora, uma gigantesca responsa­bili­dade que partilha com a sua pró­pria mãe, avó da sua filhinha. Um gigantesco de­safio. Estou em crer que Alexandra, na sua fragilidade de me­nina de seis anitos, vai ser o esteio maior da sua mãe Natália. Salvará a mãe e salva-se a ela própria. Salva a família que a deu à luz e salva o país onde estão as suas raízes. É a menina Jesus, a menina-que-salva.

Nos pais de Barcelos que a acolhe­ram durante quase cinco anos e acaba­ram por assumir-se, inapropriada­mente, como pais adoptivos de coração, a me­nina Alexandra deixou uma grande Ausência-Presença. Será bom que eles, em lugar de crescerem em revolta e in­di­gnação, cresçam em Ternura e em Relação de afecto. Só que, a partir de agora, à distância. Porque apenas os afectos praticados nos tornam humanos. Apenas as relações de Ternura nos tornam gi­gantes em Humanidade. A Revolta mata o Humano em nós. A ausência física de Alexandra há-de abrir ainda mais o coração e a mente dos pais da família de acolhimento. Acompanharam Ale­xandra, durante qua­se cinco anos, e foram acompa­nhados por Alexandra.

Mas Alexandra não era, não é, deles. Não é propriedade deles. Ale­xandra é um "Eu sou" único e irrepe­tível. É por isso que ninguém é de ninguém. Nem sequer dos pais bioló­gicos. Os pais biológicos jamais são donos dos filhos. O acto de nascer é também o acto de dar. A expressão “dar à luz” diz tudo. É uma expressão cheia de Teologia, a de Jesus.

Os filhos, as filhas acontecem na vida dos pais biológicos, sempre como Mistério, como Dádiva, como Dom, como Graça. Educar tem de ser soltar, libertar cada dia mais, fazer sair cá para fora o "Eu sou", único e irrepe­tí­vel, que cada filha, cada filho é. Infe­lizmente, esquecemos quase sempre, para não dizer, sempre, o Mistério que é cada filha, cada filho que é dado à luz. É dado à luz para ser Luz do Mundo e no Mundo.

O Poder, filho da Mentira e do As­sassínio, procura apropriar-se de cada filha, cada filho que vem a este Mun­do. E mentaliza as mães, os pais, para que, em lugar de serem como acompa­nhantes-parteiras das filhas, dos filhos, sejam seus donos, seus domesticado­res. Educar, para o Poder, é igual a do­mesticar, formatar, castrar. Tanto assim, que o Poder tem montado no planeta um Sistema de apropriação de cada fi­lha, cada filha que é dado à luz. A Pu­blicidade, a Ideologia, a Idolatria, a Es­cola, a Religião, as próprias Igrejas Ecle­siásticas, os Meios de Comunicação Social, os Tribunais, as Forças Arma­das, são outros tantos instrumentos, com que o Poder procura dia e noite moldar as filhas, os filhos que nascem, para que elas, eles nunca cheguem a desenvolver-se segundo a própria pa­tente que, desde o Momento da Conce­pção, as, os distingue dos demais. De modo que acabem por ser o que o Po­der quer que elas, eles sejam.

A Violência institucional é tremen­da. Com ela, o Poder visa, e consegue quase sempre, moldar cada filha, cada filho que é dado à luz, para que seja seu súbdito, seu funcionário, seu animal doméstico.

Alexandra deixou os pais da família de acolhimento. Regressou à mãe Na­tá­lia, em cujo útero viveu os primeiros nove meses, que foram os meses da sua gestação. Logo que a gestação ter­minou, ela própria “explo­diu” lá dentro e saiu do útero. A mãe não teve como resistir-lhe. Abriu-se toda e deu-a à luz. Hoje, Alexandra já leva seis anitos, qua­se sete, de vida própria.

A decisão do Tribunal acabou de proporcionar a Alexandra uma nova “ex­plosão”. Agora foram os pais da fa­mí­lia de acolhimento que não tiveram como resistir a mais este dar à luz. Com lágrimas e dores, como todos os partos.

Para Alexandra, tudo teria sido muito menos traumático, se os pais da família de acolhimento não tivessem feito todo aquele espectáculo mediáti­co, para telejornais mostrarem. Nin­guém lhes terá dito, pelo contrário, que se contivessem, naquela Hora. Que dessem Alexandra à luz. Que a deixas­sem ir, por entre abraços e festa, por entre sorrisos e afectos, por entre votos de saudável desenvolvimento pessoal, para o seio da família que a deu à luz pela vez primeira.

Desprendimento, por parte das edu­cadoras, dos educadores é preciso. Amor libertador, maiêutico, é preciso. Amor possessivo não é preciso. Ternura é preciso. Revolta não é preciso.

Vai, pois, Alexandra, em paz, em festa, para os braços da tua mãe Natá­lia. Tu serás a salvação dela. E a salva­ção do teu país, a Rússia. Vai. És Dádiva, és Dom, foste-nos dada para te dares. Não és propriedade de ninguém. Nem de ti própria. És Dádiva. És Dom. És Pão Partido e Repartido. És Vinho Derramado.

Cresce cada dia - faz por crescer - em anos, em estatura, em sabedoria e em graça. Bendita sejas por teres acontecido, por teres nascido, por teres passado (Páscoa) por Portugal. Espera-te, agora, o país da tua mãe Natália. Espera-te a tua irmã de 15 anos. Espe­ra-te a avó materna.

Voa, Alexandra. Sê cidadã russa, cidadã portuguesa, cidadã universal. E, quando as saudades apertarem, en­via mensagens tuas, beijos teus, sorrisos teus, abraços teus pelo Vento. E recebe de volta, do mesmo Vento, os nossos, os dos pais da família que te acolheu, dos vizinhos deles. E também os meus.

Não cheguei sequer a ver-te, uma única vez, mas amo-te e tenho a certeza de que serás, na Rússia, em Portugal, no Mundo, sinal de contradição, como Jesus ainda hoje é.

Por isso, sempre que o Poder qui­ser domesticar-te, escapa-lhe por entre os dedos. Porque para a Liberdade é que tu e eu e todas, todos nós, um dia acontecemos na História. De olhos pos­tos no Amanhã, vive cada hoje a crescer em sabedoria e em graça. É o que eu mais te desejo. E o que eu mais espero de ti, Alexandra, meu amor.


DESTAQUE 2

Afinal, a senhora de Fátima poderia ser a senhora da Folhada!

 

Sabiam que a chamada nossa senhora de Fátima podia hoje dar pelo título de nossa senhora da Folhada? Para tanto, teria bastado que o respectivo pároco, no ano de 1757 e anos seguintes, tivesse tido a habilidade que teve o cónego Formigão e os seus cúmplices clérigos de Ourém, em 1917 e nos anos imediatamente a seguir. Mas não teve. Em consequência, a fantasiosa aparição da virgem, no dia 13 de Maio de 1757, a três crianças da freguesia, todas com menos de 12 anos de idade e pastoras de rebanhos de ovelhas (vejam só todas estas coincidências com a fantasiosa aparição de 13 de Maio de 1917, em Fátima, quer no que respeita ao número de crianças videntes, idade e ocupação, quer no que respeita ao dia, mês e último algarismo do ano!), deu em pouco mais do que nada. Naquele mesmo lugar da primeira fantasiosa aparição de 13 de Maio, ergue-se hoje, na referida freguesia da Folhada, Concelho do Marco de Canaveses, uma minúscula capela, cuja construção remonta a essa altura, e que dá pelo título de senhora da aparecida. A paróquia católica continua a fazer dela e do local em volta a sua festa-romaria principal, cada ano, não em Maio, mas no primeiro domingo de Setembro. O mais surpreen­dente é que o orago ou padroeiro da paróquia é S. João Baptista, mas não é dele a festa principal. A mítica deusa ou senhora da aparecida roubou-lhe esse estatuto, como a sublinhar que, no inconsciente colectivo dos povos, mantém-se ainda gravado que, no princípio, foi o matriarcado, não o patriarcado que, depois, lhe sucedeu e parece ter vindo para ficar, apesar de a Humanidade ser hoje manifestamente constituída por muito mais mulheres do que por homens.

 

Na minha qualidade de director do Jornal Fraternizar, tive acesso a um documento, inserido num volume re­cen­te­mente editado, redigido pelo páro­co da Fo­lha­da, à data da fantasiosa a­pa­rição e, com ele na mão, fui até à fre­guesia ver com os próprios olhos o que resta de tudo aquilo. No dizer de algumas pes­soas lá residentes, a desi­gnação senhora da aparecida poderá ter sido posterior, porque, no início, ter-se-á chamado senhora da Lapa. Diz textualmente o docu­men­to:

 

Nos limites desta freguesia [para facilitar a leitura, a transcrição do do­cu­mento faz-se em português actua­liza­do], mas quase nos confins dela que a dividem da freguesia de Santo André de Várzea, com a qual esta confina, pelas partes do Poente e do Sul, nas fral­das dos grossos e ásperos matos da serra de Abobereira [hoje, Abobo­reira], à parte do Sul, num cabeço do di­to monte [mais uma outra coincidên­cia com Fátima, onde também se fala em “loca do Cabeço”], no dia 13 de Maio do ano próximo passado de mil setecentos e cinquenta e sete [o páro­co está a escrever em 1758], quase uma hora antes do ocaso do sol, an­dando três criaturas de idade menor de menos de 12 anos, apascentando umas ovelhas no tal sítio chamado o Outeiro do Preiro, sem que nada vis­sem, ouviram uma voz que as chamava cada qual pelo seu próprio nome, que eram duas Marias e uma Teresa. E voltando o rosto viram sobre umas áspe­ras pedras uma mulher prostrada ou ao modo de encostada a outras mais altas fragas, de mediana estatura, mas de tão brilhante e resplandecente rosto [mais outra coincidência com a de Fáti­ma], que logo admiradas lhes pareceu não ser mulher patrícia [= terrena]. Mas chegando a ela, ainda que algum tanto admiradas de ver tal mulher e em tal sítio, as animou esta com afagos a que chegassem a ela para mais perto esta­rem, [a] estas ensenuou [sic] a falta de saudar. E pegando-lhe da mão a uma de virtude mais moral, e a outra tiran­do-lhe um rosário que trazia ao pesco­ço [já então a obsessão pelo rosário e /ou terço, como em Fátima], o lançou ao céu, enquanto com elas praticou [= rezou]. E a terceira que era mais adulta [correspondente a Lúcia, na fantasiosa aparição de Fátima] repreendendo-a do vício de falar do demónio. Logo a to­das, encomendou fossem a[o] seu lugar e dissessem a todos [que] jejuas­sem a pão e água as primeiras Sextas-Feiras e Sábados, quando dali seguis­sem, e que o mesmo dissessem a todas as pessoas que vissem e com elas fa­lassem. E depois uma por mais [in]dis­cre­ta, perguntando à tal mulher quem era [foi o que se diz ter feito Lúcia em Fátima], lhe respondera esta que, feito o que lhe recomendava e continuando nove dias contínuos ao redor daqueles penedos uma romaria em louvor de Nos­sa Senhora [= Deusa Madre ou Mãe], saberão então quem ela era, o que cumpriram assim as três meninas prontamente. E relatando [elas] esta notícia, foi tal o concurso do povo de per­to e de longe, que todos uniforme­mente o aclamavam por milagre [mais outra coincidência com a fantasiosa aparição de Fátima]. O que vendo eu e observando, dei de tudo parte ao Mui­to Reverendíssimo Doutor Provisor deste bispado e pedindo-lhe mandasse averiguar este caso judicialmente, or­de­nou o dito senhor, observasse eu rultancia [sic] deste caso e se não des­prezasse, à vista do que fazendo eu as maiores averiguações que pude por mim e por outrem, não achei até ao presente coisa em contrário. Antes a­chei por pessoas muito fidedignas ha­verem visto e observado há muitos anos a esta parte, uma luz muitas noites em o tal sítio, até o dia véspera da Ascen­são [sic] de Nossa Senhora de Agosto, de noite se viu uma luz tão resplande­cente quase a horas de meia noite, que afirmam se podia ler uma carta à sua claridade, isto sendo distância mais de meia légua [tal e quaal como em Fáti­ma]. E ao depois deste caso se não ob­ser­vou mais tal luz. Além do que e das mais observâncias [sic] que tenho feito, tem, ocorrido, a um ano a esta par­te, alguns milagres e o maior que tenho observado é o infinito povo que continuamente concorre àquele sítio [também como em Fátima], para sa­tisfação do qual mandei pôr nele uma estampa de Nossa Senhora da Lapa e uma cruz de pau para o culto da adoração e devoção daquele povo.”

 

Até aqui a transcrição do docu­mento, conforme consta no volume edi­ta­do este ano de 2009, em Braga, sob o título As Freguesias do Distrito do Porto nas Memórias Paroquiais de 1758. Memórias, História de Patrimó­nio, da responsabilidade de Capela, José Viriato; Matos, Henrique; e Bor­ralheiro, Rogério.

São tantas e tamanhas as seme­lhanças com a fantasiosa e mentirosa aparição de Fátima em 1917 (não sei se sabem, mas do ponto de vista estritamente teológico, falar em aparições é, só por si, falar de uma impossibilida­de absoluta, pelo que todas elas são fan­tasia e, no pior dos casos, orquestra­­da men­tira, que, como tais, nunca são para tomar a sério por ninguém, mui­to menos por parte da Igreja cató­lica, sob pena de grave ofensa a Deus e de grave injúria aos seres humanos, tanto os que intervêm, como protago­nis­tas, nessa fantasia ou mentira, co­­mo os milhares /milhões de crédulos que doentiamente se deixam ir na on­da), que eu fiz ques­tão de meter a car­rinha e fui à freguesia de Folhada.

Da primeira vez, um sábado à tar­de, estive junto da igreja paroquial, con­­versei com várias pessoas que por ali se encontravam à espera do início da missa vespertina. Cheguei a cumpri­mentar o pároco, meu contemporâneo do Seminário que, cheio de pressa, mal parou, quando lhe disse quem era, e ele  logo me disparou, por entre sorri­sos e alguma indisfarçável apreensão /perturbação, “O que fazes aqui?”, e, ala que se faz tarde, logo para dentro do templo, a fazer lembrar o sacerdote e o levita da parábola lucana.

Todas as pessoas que, entretanto, acederam a conversar comigo me re­me­ti­am para a capelinha que ainda hoje existe lá no local referido pelo pároco do tempo, e cuja construção remonta a esses anos. Não fui lá nesse dia. Dei­xei para mais tarde, na expecta­tiva de, entretanto, vir a obter mais algumas infor­ma­ções da parte da Junta de fre­guesia, cuja presidente acabou por in­tegrar-se, com visível agrado, na con­versa que decorria no adro da igreja. O cartão de visita que lhe deixei com todos os meus contactos, mais as possí­veis (inevi­tá­veis?) conver­sas posterio­res entre o pároco e ela (ela é uma das suas catequis­tas na paróquia), te­rão levado a que, mais de uma semana depois, dela me não chegasse nem um telefonema, nem um e-mail.

Voltei então à freguesia e, desta vez, com o propósito feito de subir ao monte onde se situa a capela. Os aces­sos são complicados, sempre a subir, depois que se sai da estrada principal e, uma grande parte, cerca de metade da subida, precisamente a mais próxi­ma da capela, é um mero estradão de terra batida, todo ele sulcado por fun­dos e enviesados regos causados pe­las águas das chuvas.

Lá no cimo, sem quaisquer casas à vista, lá está a minúscula capela sobre os rochedos. Nenhuma janela. Apenas duas portas de grossa madeira. A prin­cipal, na frente, sem fechaduras, por isso, de abrir só pela parte de dentro. E uma outra lateral, bem mais estreita, por onde entrará o portador da chave. Não pude entrar. Nem ver na­da do seu interior. Nenhuma legen­da nas pare­des de granito. Nem se­quer uma data à vista. Também nenhu­ma imagem nos três nichos exteriores da frente, desti­na­dos a elas. Fiz algu­mas fotografias e desci o monte, com a carrinha aos solavancos.

Dirigi-me à sede da Junta de Fre­gue­sia, nas proximidades da igreja pa­ro­quial. A funcionária de serviço, ainda jovem, que já uma vez me tinha atendido num telefonema que fiz para saber do motivo de tanto silêncio por parte da presidente, foi duma simpatia inex­ce­dível comigo. Inclusivamente, acom­panhou-me à residência paroquial, qu­an­do lhe mostrei vontade de lá ir, para tentar conversar com o pároco sobre o assunto. Infelizmente, ele não estava em casa. Falou-me /nos a empregada, cabeça quase estrangulada na janela, lá em cima, sem nunca chegar a descer à porta da casa, mesmo depois de eu, junto da Sónia que ela conhece bem, lhe ter dito quem era e ao que ia. Limi­tou-se a dizer, lá do alto, que o pároco estava para uma consulta médica.

Regressei a casa. E pelo caminho vinha a pensar no que vira /ouvira nes­tas duas deslocações e no que lera do pároco sobre a fan­ta­siosa aparição: Como é que três crianças, todas meni­nas e pastori­tas de ovelhas, de idades inferiores a 12 anos, podiam estar, lon­ge de casa, no dia 13 de Maio de 1757, sozinhas, naquele inós­pi­to monte (se ain­da hoje ele é inóspito, o que seria então?), uma hora antes de o sol se pôr, sem nunca manifes­tarem qualquer medo, bem pelo con­trário, até aceita­rem conversar descontraidamente com uma desconhecida que inopinadamente lhes ”apareceu” e chamou por elas pe­los seus próprios nomes? E como - es­panto dos espantos! - elas logo acolhe­ram o lhes foi dito e executaram tudo o que a fantasiosa aparição lhes orde­nou, inclusive, andar em romaria, nove  dias seguidos (porquê nove e não oito ou dez?!), em redor daqueles ro­che­dos, só, para no final, poderem saber quem ela era (as míticas deusas têm cá uns caprichos e uns gostos!...)

Digam lá se tudo isto não é fanta­sioso até ao delírio! E, se tudo isto não tem apenas a ver com míticos e ances­trais relatos justificadores de ancestrais cultos politeístas, em honra de míticas deusas ou nossas senhoras e de míti­cos deuses ou nossos senhores, contra os quais já os profetas bíblicos, 6/7 sé­culos antes de Jesus ter nasci­do, de­nun­ciaram como cultos inumanos?!

Uma coisa, porém, não é fantasia em tudo isto. Reza actualmente o res­pectivo por­tal na net da freguesia, que Folhada “já foi abadia do ordinário”; e que, em 1706, rendeu ao abade (a­pe­nas!?) 150.000 reis. Porém, já no ano da fantasiosa aparição, rendeu muitíssimo mais ainda, exactamente 400.000 reis! Quer dizer: O povo de en­tão pode ter passado a jejuar a pão e água, dois dias por mês , às primeiras sex­tas-fei­ras e aos primeiros-sábados, mas o aba­de de Folhada, não. Pelo contrário, até viu os seus rendimentos quase triplicados. Graças, certamente, aos muitos romei­ros de perto e de longe que passaram a peregrinar /penar ru­mo os rochedos onde hoje está erecta a capela da se­nhora da aparecida.

Queremos mais dados para tirar­mos conclusões que nos dignifiquem? Os romeiros, ainda hoje, neste início do século XXI, continuam a ser mais do que muitos, sobretudo de longe, na única ocasião por ano, em que a capela abre ao culto público idolátrico, no pri­meiro fim-de-semana de Setem­bro. Fo­ra disso, permanece fechada a sete cha­ves, uma masmorra so­bre os rochedos, inacessível, como as míticas divindades da nossa vergonha e da nossa alienação /demência humana.

A imagem da mítica senhora ou deusa que não come nem bebe, não anda nem sente, não fala nem ouve, não ri nem chora, é apenas uma coisa inerte, feita pela mão de homens sem sentido crítico, tão pouco protesta por ser assim tratada. Nem faz chover raios e coriscos, muito menos bênçãos, sobre o pároco e os paroquianos de Folhada que a têm sadicamente sequestrada, não vá ela voltar a aparecer /falar a cri­­ancinhas como se diz que fez em 13 de Maio de 1757, em Folhada-Marco de Canaveses e, 260 anos depois, no mesmo dia e mês do ano 1917, em Fá­tima-Ourém! Será que nem assim nós, os seres humanos, abrimos os olhos da mente e da consciência?!


 

EDITORIAL

 

Poder Político? Não! Política!

 

Dizem-nos, uma e outra vez, até à exaustão, que sem Partidos Políticos não há Democracia. Os maiores defen­so­res desta tese são todos os principais dirigentes dos próprios partidos políti­cos. O que, à partida, já dá para suspei­tar que a­que­la reiterada afirmação traz água no bico. É uma afirmação manifes­ta­­men­te interesseira. Corporativa. Aos di­rigentes dos partidos políticos, da direi­ta à esquerda, e aos candida­tos a di­ri­gentes dos partidos políticos, con­vém que as populações interiorizem esta rei­terada tese e a façam sua. Acriti­ca­­mente. E as populações, educadas /amestradas, desde o berço, a escola, as catequeses paroquiais e os grandes meios de comunicação social, para vi­ve­­rem habitualmente no registo da lei do menor esforço, nas rotinas e no au­to­­­má­tico (pensar criticamente consome muita energia e, por isso, é próprio de poucos, não é próprio das massas) fa­zem, facilmente, sua, aquela tese e con­tinuam aí disponíveis para encher está­di­os de futebol, o dos milhões, ver em directo na tv, ou em deferido todos os jogos de futebol, o dos milhões, interva­la­­dos pelos famigerados "morangos-com-açúcar" e outras novelas que tais, to­das cientificamente inventadas e en­ce­nadas para produzirem atrasados men­tais em série e garantirem que as novas gerações crescerão em idade, cor­pos esbeltos, e em superficiais e va­ri­a­­dos saberes, mas nunca em consci­ên­­cia crítica, muito menos ainda em Sa­be­do­ria e em Graça. (É sabido que hou­ve uma vez na História da Humani­da­de um Homem que cresceu em cons­ci­ência crítica, em Sabedoria e em Gra­ça, e, de­pressa, tiveram de desfazer-se dele, na Cruz do Império e do Tem­plo coliga­dos entre si, porque ele não só não co­o­perava com eles, como ain­da por cima os desmascarava e denun­ci­a­va como filhos do Diabo, isto é, do Ídolo, concretamente, do Deus-Ídolo-Dinhei­ro, de sua natureza, compulsiva­men­te mentiroso, pai /gerador de Men­ti­­ra e as­sassino das pessoas e dos Povos da Terra, e até da própria Terra. E como ambos sabem disso, estão mais do que prevenidos e fazem as coisas de tal ma­neira, até científica, para que nunca mais haja, na História, mulheres, ho­mens assim como esse, apenas se­res-humanos-nos-seus-antípodas).

Pode parecer politicamente incorre­cto, absurdo, até, mas venho aqui de­nun­ciar a Mentira daquela tese reitera­da pelos dirigentes dos partidos polí­ticos, à direita e à esquerda. Ela pode ser verdadeira, e é, mas apenas para que possa funcionar este tipo de demo­cracia que tentam impingir-nos como o menos mau de todos os regimes de Po­der Político. Mas é uma rotunda Men­tira, em relação à fundação de uma Or­dem Mundial outra, que tenha as pesso­as e os Povos da Terra como sujeitos, como protagonistas. Uma Ordem Mundi­al que dê oportunidade e estimule a cri­­ação de sociedades feitas de pesso­as e de Povos que dêem tudo de si, se­gundo as suas reais capacidades e recebam /usufruam de tudo segundo as suas reais necessidades. Sem nun­ca acumularem /concentrarem nada.

É para esta meta que todos nós, pessoas e Povos da Terra, havemos de apontar. Tudo o que fazemos, dizemos, criamos, que não vá nesta direcção, nem tenha como objectivo último esta me­ta, é intrinsecamente perverso, cha­me-se democracia ou outro nome qual­quer. É perverso e, como tal, tem de ser desmascarado /denunciado /desa­cre­ditado /abolido /substituí­do.

A esta luz - sei que escandalizo, mas nem por isso deixo de o escrever /afirmar para que meditemos nisso - o que dizem todos os dirigentes dos partidos políticos, à direita e à esquerda, é politicamente mentira. Os partidos políticos podem ser necessários, e são, para a existência da De­mo­cracia, mas são todos pedra de tropeço e, por isso, sérios obstáculos ao nascimento e ao desenvolvimento de uma Ordem Mundi­al outra, sem Poder Político, apenas com Política Praticada pelas pessoas e pelos Povos da Terra.

Sonhar /projectar /conceber e dar corpo a uma Ordem Mundial outra, sem Poder Político, apenas com Política Praticada pelas pessoas e pelos Povos da Terra, pode soar aos nossos ouvidos como Utopia, mas apenas dentro deste caldo de cultura nascida e alimentada pelo Poder Político que, onde se afir­mar, mata inevitavelmente a Política Praticada pelas pessoas e pelos Povos da Terra. Ele nunca o diz, mas a ver­dade nua e crua é que o Poder Político é absolutamente incompatível com a Po­lítica Praticada pelas pessoas e pelos Povos da Terra. Onde ele estiver, ela não está. Ou está, mas crucificada na Cruz que ele sempre fabrica e levanta para quem se atreve a ir por essa outra via ou caminho, o da Política Praticada pelas pessoas e pelos Povos, em lugar de alinhar com a tese que ele pôs a cir­cular e que repete até à exaustão, que sem Poder Político forte e coeso é o Caos. E até pode ser o Caos. Mas um bendito Caos que, como o do prin­cípio bíblico, é o ventre, onde o Sopro ou Espírito da Vida fecunda a Or­dem Mundial outra, a da Política Prati­cada pelas pessoas e pelos Povos da Terra.

O Caos não me assusta. Nem assus­ta a esmagadora maioria das pessoas e todos os Povos da Terra que não têm privilégios a perder. O Caos assusta a­pe­nas o Poder Político e os seus fun­ci­o­nários /mercenários que, juntamen­te, com os funcionários /mercenários do Poder Religioso /Eclesiástico, garantem ao seu comum Deus-Ídolo-Dinheiro esta perversa Ordem Mundial de que ele necessita para medrar, até se tornar Dinheiro Acumulado /Concentrado em muito poucas mãos, porventura, numa única mão. É para isso que o Deus-Ídolo-Dinheiro gerou o Poder Político e o Poder Religioso-Eclesiástico e con­tra­ta os funcionários /mercenários de que necessita. A todos os mais, a esma­ga­­dora maioria das pessoas e a totali­da­de dos Povos, trata-os como exce­dentes, como carne para canhão, como mão-de-obra barata nas suas empre­sas transnacionais, sem quaisquer di­reitos e condições de dignidade. E, qu­ando, no acelerado processo de desen­vol­vimento tecnológico em que hoje se encontra ocupado, ele conseguir fabri­car robots em forma humana ou outra, tão ou mais eficientes que as pessoas e os Povos da Terra, decretará a extin­ção pura e simples destes e daquelas.

Têm dúvidas? Mas não isto que esta Primeira Guerra Mundial Financeira em curso, mentirosamente, crismada de "Crise financeira" pelos mercenários-mor do Poder Político Mun­dial, está aí hoje a pôr sobe­jamente a nu? De nada adianta, enterrar­mos a cabeça na arei­a. Entre estes fun­cionários /mercenários do Poder Polí­tico Mundial estão também todos os dirigentes dos parti­dos políticos. Porque todos são criação do Deus-Ídolo-Dinheiro, que também é o que lhes paga e financia os seus res­pectivos partidos, pelo menos, a par­tir do momento em que eles conse­guem entrar na área do Poder Político, nem que seja com uma única cadeira. Se conseguem, o seu deputado assume-se, desassombradamente, como a voz dos sem voz. E, se o faz por convicção, tanto pior, porque então é ingénuo. Sai­bam que, na área do Poder Polí­ti­co, como na área do Poder Religioso-Ecle­si­ástico, ninguém jamais poderá ser a voz dos sem voz. Porque, se o for ho­je, amanhã, já estará cercado e, se in­siste, é excomungado e, se necessá­rio, abati­do. O Poder Político e Religio­so-Eclesi­ástico é, como o seu pai, o Deus-Ídolo-Di­nheiro, mentiroso e as­sas­sino. Não tem entranhas. É carras­co. Verdugo. Al­goz. Numa mão a Cruz. Na outra, a Es­pa­da.

A saída libertadora, Êxodo - porque há saída libertadora, Êxodo! - passa pe­lo completo desaparecimento dos par­­ti­dos políticos, reconhecidos pelo Poder Político Mundial, e pelo apareci­men­to, em seu lugar, de organismos as­­­sociativos, saudável e fecundamente conspirativos e desar­ma­dos, que traba­lhem, orgânica e maieuticamente, com as pessoas e os Povos da Terra, co­mo o sal, a luz, o fermento, a sentine­la, numa palavra, como a parteira, na sua rela­ção afectiva com a mulher em tempo de gestação, com incidência mai­or na altura das dores de parto.

São estes organismos associativos, interligados com as pessoas e os Po­vos da Terra, que ajudarão a fazer a­con­tecer a fecundação de uma Ordem Mundial outra, de Política Praticada pe­las pessoas e pelos Povos da Terra e a­companharão maieuticamente o seu desenvolvimento na História. Quando já for fruto maduro - até lá, haverá mui­to sangue inocente derramado, que o Po­der Político e o outro não perdoam a quem os não reconhece e se recusa a ser funcionário /mercenário deles e, ainda por cima, trabalha, gratuita e dis­cretamente, para os derru­bar de vez.

Quando nos decidimos ir por esta via ou­tra, a do Não-Poder Político e do Não-Poder Religioso-Eclesiástico? A via já está iniciada por Jesus. Trata-se por isso de a prosseguirmos. Com alegria.

 

Vosso, no afecto e na paz,

Mário, presbítero da Igreja do Porto


 

ESPAÇO ABERTO

 

Que Planeta deixaremos às gerações futuras?

Por Bispo Cappio, Brasil

 

Antes de viajar para a Alemanha para receber o Título de Cidadão do Mundo-2, no passado dia 5 de Maio 2009, na PUC Minas, em Belo Hori­zon­te, MG, na abertura do III Simpósio Internacio­nal de Teologia e Ciências da Religião, o Bispo Cappio que já fez duas greves de fome contra a Transposição de águas do Rio São Francisco e pela defesa do Rio São Francisco e do seu Povo, proferiu emocionada e fecunda conferência. Divulgamo-la aqui na íntegra, para que nos alimentemos, teológica e espiritual­men­te com ela. Eis.

 

Que mundo deixaremos para nossos filhos, netos? Que planeta estamos pre­parando para as futuras gerações?

É uma questão elementar de justiça. O sagrado direito que cada um de nós possui de poder viver num ambiente sadio, digno de seres humanos, propí­cio à vida com qualidade para cidadãos e cidadãs deste planeta, corresponde ao igual dever que nos compete de pro­piciar estes mesmos direitos às futuras gerações. Herdamos um mundo, um planeta que nos foi legado por aqueles que vieram antes de nós, que prepa­raram a casa onde hoje moramos, on­de vivemos, onde realizamos nossa existência.

Cabe-nos fazer o mesmo para a­que­les e aquelas que virão depois de nós, que herdarão o planeta que tiver­mos preparado para eles. Isso é uma questão de justiça.

Amanhã, quando o sol nascer de novo com seu calor e vida; as flores nos acolherem com suas variadas co­res e perfumes; ouvirmos o canto dos pássaros e a brisa fresca beijando nosso peito; nossos lábios sorverem as águas puras da fonte enquanto con­tem­pla­mos as verdes altas montanhas e o azul profundo dos oceanos; podere­mos ouvir dos que virão depois de nós: "Obrigado pelo mundo que vo­cês pre­pararam para nós. Obrigado pelo planeta, qual jardim, que vocês nos lega­ram. Obrigado pelas sementes de vida que vocês plantaram para que pudés­se­mos colher seus abundantes frutos. Obrigado, muito obrigado.”

Ou, pelo contrário, depois de ama­nhã, quando não mais houver amanhe­cer, mas apenas uma claridade enfu­ma­ça­da, coberta por nuvens ácidas; quan­do nossa visão enfraquecida e nossos corpos se esvairem em feridas purulentas provocadas pela radiação tóxica causada pelo enfraquecimento da camada de ozônio; quando, em vez de água, tivermos que beber um suco pas­toso de coliformes fecais temperado com ingredientes químicos das mais nocivas origens; quando a paisagem se tornar um imenso deserto sem vida, sem a canção dos pássaros, sem a me­lo­dia de vozes humanas, porque nin­guém mais terá ânimo para cantar e sim para gritar desesperadamente pe­las dores lancinantes de ossos e mús­culos em decomposição; e as mães, por amor, tiverem que abortar os filhos para que não sejam mais sofredores conde­na­dos a esse vale de lágrimas; ouvire­mos nossos filhos e netos, com dedo em riste, apontando para nós, olhos es­bu­galhados, roendo palavras descone­xas de ódio e rancor, gritarem: “Mal­ditos, demónios, filhos das trevas e do mal, olhem para esse inferno para o qual fomos condenados. Vocês são os responsáveis pelas desgraças que nos envolvem, fazendo-nos desgraçados com elas.”

Que mundo, que planeta legaremos aos nossos filhos e netos? Isso é uma questão de justiça. Poderemos ser jus­tos, cumprindo nosso sagrado dever de zelar e cuidar dessa riqueza infinita que nos foi confiada, ou podemos ser pro­fundamente injustos, assumindo a postura irresponsável e inconsequente dos que apenas exploram e usufruem do tesouro de incomensurável valor que é a natureza, mãe da vida.

“Deus perdoa sempre, os seres humanos, de vez em quando, a natu­reza não perdoa nunca”. Se nós a agre­dirmos, mais cedo ou mais tarde ela dará sua resposta. A vida que hoje vi­vemos, herdamos de nossos ancestrais. Nós estamos construindo o Planeta em que os que virão depois de nós nele viverão. A vida não se improvisa. Em cinco minutos colocamos no chão uma árvore centenária. Serão necessários mais cem anos para que tenhamos ou­tra semelhante. Isso, se tivermos o cui­dado de plantar outra e cuidar, cuidar e cuidar.

É questão de consciência, de per­ten­ça. É questão de possuirmos ou não um sagrado senso de justiça. De ter a sensibilidade de saber compreender o direito que possuímos de viver num mundo habitável com dignidade, e o de­ver de co-responsabilidade de pre­ser­vá-lo para que outros também usu­fruam do mesmo bem. De saber que este planeta é nosso lar. Fazemos parte dele. Foi-nos entregue para nele viver, usufruir de seus bens e riquezas. Cuidar para que os bens nele presentes pos­sam perpetuar-se e para que as gera­ções futuras, como nós, também possam tê-lo cheio de vida.

Como diz nosso querido mestre Leo­nar­do Boff: “cuidar é outro nome para o amor e a melhor forma de amar.” “Quem ama, cuida”. E justo que cuide­mos do que é de todos. É justo que, no trato das coisas de todos, tenhamos o mesmo zelo como tratamos as nos­sas em particular.

O mesmo cuidado que a natureza tem para conosco, no sentido de prover, garantir e zelar pela nossa vida, assim também nós recebemos do Pai do Céu a missão de cuidar, prover e garantir a perpetuação dos bens e maravilhas criadas que fazem parte do nosso pla­ne­ta, o Jardim do Éden. Ou, pela nossa incúria, transformá-lo no inferno de Dan­te, impossível de nele viver. Isso seria uma grande injustiça de nossa parte.

No último dia da criação, depois que tudo estava pronto, e o Senhor viu que “tudo era bom”, criou o homem e a mulher e outorgou-lhes a missão de cuidado para com a obra criada. Fez-nos guardiões da natureza. Este é o sentido bíblico do “dominai a face da terra”. O termo “dominai” vem de latim “do­minus” que significa “senhor”. Daí a palavra do­mingo, que significa “dia consagrado ao Senhor”. O dia do des­can­so. Como o pai cuida dos filhos, como a mãe é capaz de dar a própria vida pela vida dos filhos, assim também fomos constituídos senhores no sentido da paternidade de quem cuida, na ma­ter­nidade de quem vela. Mas esta pas­sagem belíssima do Génesis foi enten­dida por nós dentro da óptica masculi­na do ser dono, do explorar, na violên­cia do destruir, na ganância do lucrar, na vaidade do usufruir sem limites. De­tur­pamos o pensamento original do Cri­ador e impusemos a nossa visão domi­nadora, destruidora, violenta e desres­pei­tadora. Enquanto o Senhor tudo rea­lizou, dentro de um plano perfeito e har­mónico, respeitoso e amoroso, e nis­so manifestou a Justiça Divina, nós manifestamos a injustiça humana no entendimento e prática deturpada do pensamento do Senhor.

Chamamos para nós os atributos do Criador. Não somos os donos da cria­ção. Somos apenas os seus zeladores e cuidadores. O livro do Eclesiástico en­sina: “Da terra Deus criou o ser hu­ma­no e o formou à sua imagem. E à terra o faz voltar novamente, embora o tenha revestido de responsabilidade, semelhan­te à sua. Concedeu-lhe dias contados e tempo determinado, dando-lhe autoridade sobre tudo o que há so­bre a terra. Em todo ser vivo incutiu o medo do ser humano, fazendo-o se­nhor das feras e dos pássaros. Conce­deu aos humanos discernimento, lín­gua, olhos, ouvidos e um coração para pensar; encheu-os de inteligência e instrução. Deu-lhes ainda o conheci­mento do espírito, encheu o seu cora­ção de bom senso e mostrou-lhes o bem e o mal. Infundiu o seu temor em seus corações, mostrando-lhes as grande­zas de suas obras. Concedeu-lhes que se gloriassem de suas maravilhas, lou­vassem o seu santo Nome e procla­massem as grandezas de suas obras. Concedeu-lhes ainda a instrução e en­tregou-lhes por herança a Lei da vida. Firmou com eles uma aliança eterna e mostrou-lhes sua justiça e seus julga­mentos. Seus olhos viram as grande­zas de sua glória e seus ouvidos ouvi­ram a glória de sua voz. Ele lhes disse: Guardai-vos de tudo o que é injusto! E a cada um deu mandamentos em rela­ção a seu próximo”.

O autor do quarto evangelho ensi­na-nos, no capítulo dez, que o Senhor é o Bom Pastor. A justiça do Bom Pastor manifesta-se no seu imenso amor e cui­dado. O Bom Pastor é aquele que ama suas ovelhas, cuida de seu rebanho. Leva-o para as pastagens verdejantes e para os regatos de águas cristalinas. O Bom Pastor defende o rebanho dos inimigos, do lobo cruel e voraz. Está sempre atento para que nada de mal aconteça a nenhuma de suas ovelhas. Esse é o Bom Pastor. É capaz até, se preciso for, de dar a vida por suas ove­lhas. Sacrificar-se por elas. Ser cruci­ficado para “que tenham vida e a te­nham em abundância”.

Essa é a herança espiritual da­que­les e daquelas que assumem a missão de pastorear, de caminhar junto, mas na linha da frente do rebanho. Os seguidores do Bom Pastor recebem a mes­ma tarefa, a mesma ordenança, a mesma missão. A de serem justos como o Bom Pastor. Isso nos faz discípulos e missionários do Deus da Vida e da Justiça. Semeadores do bem e da paz. Testemunhas da justiça maior. Chama­dos a viver numa ordem justa e frater­na. Fazer com que o leite e o mel conti­nuem escorrendo pelos favos da exis­tên­cia humana. Garantindo que todos, todas sem excepção, tenham o direito de uma vida saudável, ética, digna de ser vivida. Enfim, uma vida baseada na justiça. Essa é a vocação do pastor. Para isso ele foi chamado. E é isso que dá sentido e razão de ser para sua exis­tência. A plenitude da realização do pastor é, à imagem do Bom Pastor, poder doar a própria vida pela vida de cada ovelha, de todo o rebanho. Para o pastor iluminado pelo Bom Pastor, o gastar-se é tornar-se mais rico, o doar-se é plenificação, o morrer é viver com abundância.

Mer­cenários existem muitos e mui­tas. Homens e mulheres injustas que se travestem de pastores, mas cujas intenções são maléficas. São lobos perigosos e vorazes que se aproveitam da simplicidade e carência do rebanho pa­ra fazerem acontecer suas intenções sór­didas. Devagar, o rebanho vai dis­cer­nindo e sabendo diferenciar o bom pastor do mercenário. O justo do injus­to. “Pelos frutos se conhece a árvore”. O tempo se encarrega de mostrar a verdade dos factos e das reais inten­ções. “Não há nada oculto que não venha a ser revelado, não há nada es­condido que mais cedo ou mais tarde não apareça”. As questões sociais nos permitem conhecer e distinguir o pastor do mercenário. Aqueles que realmente são justos, e estão ao serviço do reba­nho, e aqueles que são injustos e se apro­veitam do rebanho para satisfazer seus próprios interesses.

É no entendimento e na consciên­cia de nossa missão de pastores que se funda a capacidade de doarmos a vida. E isso se faz com a máxima ale­gria e generosidade. É no entendimen­to e na consciência do verdadeiro sen­tido da justiça que nos tornamos cons­trutores do Reino de Deus.

O Rio São Francisco é o pai e a mãe de todo um povo. É o que garante a água que milhões de seres humanos bebem, comem do seu peixe e se alimentam dos frutos das terras banhadas por suas águas. O Rio São Francisco é o gerador de vida para uma imensi­dade de outras vidas. O “Velho Chico” não pode morrer. Da vida do “Velho Chico” depende a vida de milhões de outros seres.

Existem no Brasil rios ainda bem maiores que o São Francisco. Mas o que faz a diferença é o facto de per­correr o semi-árido brasileiro. Região de muita carência de chuvas. Águas temos com certa abundância, mas con­centradas em alguns rios e na imen­sa rede de açudes existentes. Necessita­mos urgentemente distribuir esta água concentrada para as populações difu­sas de todo o semi-árido. E isso é uma questão de justiça ambiental, pois a democratização da água é uma tarefa essencial para a manutenção da vida, pois ninguém pode ficar sem ela.

Se o Projecto de Transposição de Águas do Rio São Francisco tivesse como objectivo e meta a distribuição da água para as populações difusas, praticar a justiça ambiental e evangélica de “dar de beber a quem tem sede”, nós seríamos os primeiros a ser de a­cor­do com o projecto. Apoiá-lo-íamos incondicionalmente. Mas a prioridade do Projecto de Transposição é a segu­rança hídrica em função dos grandes projectos agro-­industriais. O uso econó­mico da água, antes de cumprir sua função essencial que é o dessedenta­mento humano e animal, faz o projecto tornar-se anti-ético e, portanto, injusto, pois inverte as prioridades no uso da água.

O Rio São Francisco imita o santo de seu nome. São Francisco nasceu de família abastada. Quando conheceu o sofrimento dos pobres de seu tempo, deixou toda a riqueza da família e foi para o meio dos pobres e dos pobres mais pobres que eram os leprosos. De­dicou toda a sua vida a eles. Encarnou o verdadeiro sentido e espírito da justi­ça humana. O Rio São Francisco nasce na Serra da Canastra, no sudoeste do estado de Minas Gerais, uma das regi­ões mais ricas do Brasil. Poderia tomar a direcção do leste ou do sul, regiões igualmente ricas. Mas não, faz uma curva e dirige-se para o nordeste. Co­lo­ca toda a sua potencialidade a servi­ço dos pobres do sertão brasileiro. É o rio que imita o santo de seu nome. O rio testemunha a justiça do seu santo padroeiro. Por isso dizemos, o Rio São Francisco é o pai e mãe de um povo. Aquele que supre suas necessidades essenciais, vitais.

Rio vivo = povo vivo.

Rio doente = povo doente.

Rio morto = morte de um povo.

 

Ser pastor nas barrancas do São Francisco é garantir vida e vida abun­dante aos barranqueiros. Vida abun­dan­te aos barranqueiros significa vida abundante ao “Velho Chico”. Diante das inúmeras agressões causadas ao nosso rio, agressões essas, geradoras de doença e morte, o pastor não pode manter-se calado. E sua missão, é seu dever praticar a justiça, ser testemunha da justiça maior, erguer a voz, colocar suas forças no sentido de garantir vida ao rio, pois a vida do rio é a vida do povo. É por isso que, diante de todas as ameaças de morte causadas ao rio e ao povo, o pastor se levanta, grita bem alto, qual João Baptista no deserto, arrisca a própria vida, pois “onde a ra­zão se extingue, a loucura é o caminho”. Para salvar o Velho Chico, salvar a bio­di­versidade, salvar os povos ribeiri­nhos, salvar os seres humanos, salvar o planeta, salvar a vida, vale a pena doar a própria vida. Vale a pena mor­rer para que tenham vida e vida em abundância. E assim se cumpre toda a justiça.

email: dcappio@yahoo.com.br


 

O nome da rosa

Por Prof. Manuel Sérgio

Reitor do Instituto Piaget

 

Li, como toda a gente, O nome da rosa, de Umberto Eco. A história passa-se na Idade Média e o autor conta-nos como um monge de nome Guilherme de Baskerville, acompanhado do jovem Adso (que só depois de velho narra o que viu) quer descobrir uma morte es­tranha, numa abadia do norte da Itália. – morte que é a primeira de uma série de sete, que Baskerville interrompe ao desmascarar o culpado. No centro da abadia, levanta-se uma enorme biblio­te­ca, considerada a mais importante e completa de toda a cristandade.

Duran­te a investigação, Guilherme de Basker­ville encontra-se em concor­rência com a Inquisição e com o seu in­contornável representante, Bernard Gui, o qual defende que os hereges são os homicidas que Guilherme procu­ra, designadamente os seguidores de Dolcino, o criador de uma seita hostil ao papado. Consegue, através de hor­ren­das torturas, arrancar confissões, favoráveis à sua tese, a vários monges. Mas não convence Baskerville.

Este, a conclusão a que chega, é bem diversa: conclui que as mortes não são obra de hereges e que os monges morrem, ao tentarem ler um livro miste­rioso, ciosamente guardado na biblio­teca.

A cena final do livro põe frente a fren­te Baskerville e o assassino, um cego que era um dos monges mais velhos da abadia. Desmascarado, o assassino faculta ao investigador o livro que já havia provocado sete mor­tes. Tratava-se do segundo volume da Poética de Aristóteles (384-322 a. C.), uma obra desconhecida até então e na qual o Estagirita faz uma profunda reflexão, chegando mesmo a abordar a questão do riso. Acusado por Baskerville, Jorge, o assassino, tem um com­por­ta­mento estranho e, em vez de es­con­der o livro, aconselha ao investiga­dor a sua leitura.

Baskerville começa a leitura do livro, mas muniu-se de um par de luvas, pois que descobriu que as páginas do livro se encontravam envenenadas, com um líquido que nelas deitara o monge cri­minoso. E não escondeu a questão se­guinte: por que pretendia ele matar os monges que lessem a Poética de Aris­tó­teles? Porque o livro falava do riso e o riso é o contrário da fé.

Pergunta-lhe Guilherme: Mas quais são os efeitos perniciosos do riso?... Responde Jorge: “O riso é a fraqueza, a corrupção, o amolecimento da nossa carne. É a diversão para o camponês, a licença para o alcoólico e até a Igreja instituiu o Carnaval, espaço de muitos crimes e vícios. Portanto, o riso não passa de uma coisa vil (...)”.

Mas Baskerville queria saber mais: Se há tantos livros que falam do riso, da alegria, por que só este lhe inspi­ra­va tamanho terror? Declara o crimi­noso: “Porque era do Filósofo (Aristó­teles). Cada um dos livros desse ho­mem destruiu uma parte da ciência que a cristandade tinha acumulado, ao longo de séculos. Os primeiros Padres transmitiram-nos o que era preciso saber sobre o poder do Verbo e bastou que Boécio comentasse o Filósofo, para que o mistério do Verbo divino pudesse ser questionado e parodiado. O livro do Génesis diz-nos o que é preciso sa­ber sobre a composição do cosmos e bastou a Física do Filósofo para que tudo o que nos foi ensinado fosse re­pen­sado. Cada palavra do Filósofo, em que (pasma bem!) há bispos e papas que acreditam, é um perigo para a cris­tandade”.

Jorge faz do livro de Aristóteles o pretexto das suas angústias, diante dos problemas da Igreja. Baskerville, ao invés, não teme o riso, nem a crítica, pois que chega mesmo a pensar num cristianismo sem as taras em que o Va­ti­cano é pródigo.

Como se vê, o riso, o anedotário, a mordacidade intencional dos dissiden­tes, dos críticos, dos resistentes, dos heréticos, que se opõem a qualquer cartilha ortodoxa, é considerado um perigo, pelos dogmáticos, pelos conser­vadores, pelas instituições envelheci­das. Há muitos séculos, como hoje.

A lição emancipadora de Jesus de Nazaré tem mais a ver com os “mestres da suspeita” (Marx, Nietzsche e Freud), figuras do século XIX (embora seja em 1939 o passamento de Freud) do que com grande parte da doutrina enrugada e aposentada de Bento XVI.

O desrespeito pelo corpo e pelo se­xo (e daí o desrespeito pela mulher e pelos homossexuais); o medo hórrido pela democracia, numa instituição que se proclama vertical, classista e hierár­quica, por vontade de Deus; o disparate de alguns dogmas, como o da Virgem Maria e da Imaculada Conceição, onde a Mãe de Jesus aparece como um mito empobrecedor de um amor que tão ma­ravilhosamente se corporiza, que as palavras nunca se gastam na contem­pla­ção de um filho; o significativo desa­jus­ta­mento entre a infalibilidade do Papa e até a hostilidade e a estranheza de alguns dos seus discursos (como a proibição do uso do preservativo, pelos contaminados pela sida) e os pressu­postos, as finalidades, os objectivos da maturidade cognitiva dos jovens e do espírito crítico de qualquer pessoa – tudo isto que nos chega com a impres­são dolorosa de um pensamento imobi­li­za­do no passado e conservando-se irredutível na sua solidão, tudo isto dá para soltar uma gargalhada sadia.

É que muito do que dizem ressoa uma instituição que se concebe como um ponto fixo, inalterável no Universo, sem a estrutura dialéctica da contradição, isto é, sem verdadeira vida - num tempo onde Jesus de Nazaré continua vivo, porque O encontramos em tudo o que é real, em sereno desafio às meta­físicas inamovíveis dos grandes senho­res deste pequeno mundo!

Nem sei porquê apetece-me, neste momento, chamar “santo” a Teilhard de Chardin! Vivia, no fundo dos olhos deste homem, um menino que corria e saltava e brincava  e ria, um menino em movi­mento, nu e inocente, espelho da vida que Deus nos deu...

 

A propósito, não deixo de registar os três livros que o Prof. Manuel Reis teve a bondade de me enviar: Natal Jesuânico, Caminho Novo com Espinosa e Reis e Carta Aberta a Barack Obama. Manuel Reis é um filósofo com notável capacidade crítica e destreza de argumentação, incansável na luta em prol de “Humanos dotados de cons­ci­ên­cia reflexiva e crítica, os quais (co­mo deveria ser sabido) não podem ser reduzidos a objectos, ou seja, não po­dem ser, pura e simplesmente, avaliados e medidos por forças ou instituições mais fortes e poderosas” (Caminho No­vo com Espinosa e Reis, p. 34).

É, por isso, necessário lê-lo, atenta­mente. Também ele é um “herético”, uma labareda de imaginação, em busca do mundo por vir. E, como os discípulos de Emaús, na companhia de Jesus de Na­zaré. Não podia ir melhor acompa­nhado.


 

O mercado da Fé

Por Frei Betto (1)

Teólogo

 

Como os supermercados, as Igrejas disputam clientela. A diferença é que eles oferecem produtos mais baratos e, elas prometem alívio ao sofrimento, paz espiritual, prosperidade e salvação. Por enquanto, não há confronto nessa competição. Há, sim, preconceitos explí­citos em relação a outras tradições reli­giosas, em especial às de raízes afri­ca­nas, como o candomblé e a macum­ba, e ao espiritismo. Se não cuidarmos agora, essa demonização de expres­sões religiosas distintas da nossa pode resultar, no futuro, em atitudes funda­mentalistas, como a “síndrome de cru­za­da”, a convicção de que, em nome de Deus, o outro precisa ser desmorali­za­do e destruído.

Quem mais se sente incomodada com a nova geografia da fé é a Igreja Católica. Quem foi rainha nunca perde a majestade... Nos últimos anos, o número de católicos no Brasil decresceu 20% (IBGE, 2003). Hoje, somos 73.8% da população. E nada indica que have­re­mos de recuperar terreno em futuro próximo.

Paquiderme numa avenida de trân­sito acelerado, a Igreja Católica não con­­se­gue modernizar-se. Sua estrutura piramidal faz com que tudo gire em torno das figuras de bispos e padres. O resto, são coadjuvantes. Aos leigos não é dada formação, excepto a do cate­cismo infantil. Compare-se o catecismo católico à escola dominical das Igrejas pro­testantes históricas e ver-se-á a di­­ferença de qualidade. Crianças e jo­vens católicos têm, em geral, quase ne­nhuma formação bíblica e teológica. Por isso, não raro, encontramos adultos que mantêm uma concepção infantil da fé. Seus vínculos com Deus estreitam-se mais pela culpa que pela relação amorosa.

Considere-se a estrutura predomi­nan­te na Igreja Católica: a paróquia. Encontrar um padre disponível às três da tarde é quase um milagre. No en­tanto, há igrejas evangélicas onde pastores e obreiros fazem plantão toda a madrugada. Não insinuo assoberbar ainda mais os padres. A questão é ou­tra: por que a Igreja Católica tem tão poucos pastores?

Todos sabemos a razão: ao contrá­rio das demais Igrejas, ela exige de se­us pastores virtudes heróicas, como o celibato. E exclui as mulheres do acesso ao ministério ordenado. Tal cle­ricalismo trava a irradiação evangeliza­do­ra. O argumento de que assim deve continuar, porque o Evangelho o exige, não se sustenta à luz do próprio texto bíblico. O principal apóstolo de Jesus, Pe­dro, era casado (Marcos 1, 29-31); e a primeira apóstola era uma mulher, a samaritana (João 4, 28-29).

Enquan­to não se puser um ponto final à desconstrução do Concílio Vati­cano II, realizado para renovar a Igreja Católica, os leigos continuarão como fiéis de segunda classe. Muitos não têm vocação ao celibato, mas sim ao pres­biterado, como acontece nas Igrejas anglicana e luterana. Ainda que Roma insista em fortalecer o clericalismo e o celibato (malgrado os escândalos fre­quentes), quem conhece uma paróquia efervescente? Elas existem, mas, infe­lizmente, são raras. Em geral, os tem­plos católicos ficam fechados de se­gunda à sexta (por que não aproveitar o espaço para cursos ou actividades comunitárias?); as missas são desinte­res­santes; os sermões, vazios de conte­ú­do. Onde os cursos bíblicos, os gru­pos de jovens, a formação de leigos adul­tos, o exercício de meditação, os trabalhos voluntários?

Em que paróquia de bairro de clas­se média, os pobres se sentem em ca­sa? Não é o caso das Igrejas evan­gé­li­cas, basta entrar numa delas, mesmo em bairros nobres, para constatar quanta gente simples ali se encontra.
Aliás, as Igrejas evangélicas sabem li­dar com os meios de comunicação, inclusive a TV aberta. Pode-se discutir o conteúdo de sua programação e os métodos de atrair fiéis. Mas sabem falar uma linguagem que o povo enten­de e, por isso, alcançam tanta audiên­cia. A Igreja Católica tenta correr atrás com as suas showmissas, os padres aeróbicos ou cantores, os movimentos espiritualistas importados do contexto europeu. É a espectacularização do sagrado; fala-se aos sentimentos, à emo­ção, e não à razão. É a semente em terreno pedregoso (Mateus 13, 20-21).

Não quero correr o risco de ser duro com a minha própria Igreja. Não é ver­dade que ela não tenha encontrado no­vos caminhos. Encontrou-os, como as Comunidades Eclesiais de Base. In­fe­lizmente não são suficientemente va­lo­rizadas, por ameaçarem o clericalis­mo.

Aliás, as CEBs realizarão seu 12º encontro intereclesial de 21 a 25 de Julho de 2009, em Porto Velho (RO). O tema: “Ecologia e Missão”; o lema: “Do ventre da Terra, o grito que vem da Amazónia”. São esperados mais de 3 mil representantes de CEBs de todo o Brasil. Bom seria ver o papa Bento XVI participar desse evento profunda­men­te pentecostal.


 

EUROPA, Direita volver!

Por Frei Betto (2)

 

Eleitores de 27 países que configu­ram, hoje, a União Europeia elegeram, a 7 de Junho 2009, os deputados do Par­lamento europeu, sediado em Estras­burgo.

O nível de abstenção foi alto: 57,06% dos eleitores preferiram não com­parecer às urnas. Comprova-se a progressiva despolitização dessa socie­dade em que as pessoas estão mais in­teressadas em adquirir um carro novo do que conquistar direitos sociais. Na Europa, o consumismo venceu o comunismo...

Das 763 cadeiras do Parlamento eu­ropeu, 263 passam a ser ocupadas pe­los partidos conservadores. Sem contar os eurodeputados britânicos, tchecos e polacos que formam, à parte, a banca­da dos eurocépticos, e sempre votam com a direita.

Os socialistas (leia-se: social-demo­cratas) detinham 217 cadeiras. Ficam, agora, com apenas 161. Os ambienta­listas ampliaram sua bancada de 43 para 52 cadeiras, liderada pelo ex-líder estudantil francês (Maio de 1968), Daniel Cohn-Bendit.

Na bancada francesa de euroeco­logistas figura José Bové, líder campo­nês que, anos atrás, participou de actividades do MST no Brasil.

Os conservadores obtiveram ex­pres­siva vitória nos seguintes países: Reino Unido, Irlanda, Holanda, Áustria, Portugal, França, Eslovénia, Itália, Hungria, Luxemburgo, Chipre, Bulgária, Re­pública Tcheca, Polónia, Lituânia, Fin­lândia, Alemanha e Espanha (onde o Par­tido Popular, de direita, obteve 42,2% dos votos, e o PSOE, socialista, 38,5%).

Os socialistas venceram na Dina­marca, Suécia, Malta, Grécia, Roménia e Eslováquia. A meio caminho, ficaram Bélgica, Letónia e Estónia.

Esse resultado confirma o adiamen­to da pretensão da Turquia de integrar a União Europeia. No bojo dessa direi­tização da política europeia está o anti­terrorismo, com fortes conotações anti-islâmicas. A Europa “cristã” promove, à semelhança dos Reis Católicos da Es­panha no século XV, novo expurgo de quem não reza por seu credo.

Vencido o ateísmo (leia: comunis­mo), chegou a hora de rechaçar o isla­mismo em nome de uma “civilização cristã” que ostenta, como um dos seus líderes, um primeiro-ministro italiano septuagenário que paquera meninas de 16 e promove, em sua casa de prai­a, embalos em trajes adâmicos...

O grande cabo eleitoral da direita foi a crise financeira. Nos anos 30, em consequência da bancarrota da Bolsa de Nova York (1929), o capitalismo pas­sou pela crise de adolescência que levou a Europa ao nazi-fascismo e, como efeito, à guerra que fez 50 mi­lhões de vítimas fatais.

Na actual crise senil, o pêndulo da história europeia repete o mesmo mo­vi­mento. A diferença reside nos alvos. Desta vez não são os judeus, e sim os imi­grantes, sobretudo árabes e africa­nos.

O crescente desemprego ainda não toma postos de trabalho de europeus, mas de estrangeiros que ali buscam so­breviver. Governos, como o espanhol, oferecem ao imigrante interessa­do em retornar ao seu país de origem passagem aérea, gastos de viagem e ainda uma ajuda equivalente a R$ 1.300.

O resultado dessas eleições confir­ma a falência da esquerda europeia. Ela desabou com o Muro de Berlim, tentou resistir ao naufrágio, agarran­do-se em frágeis bóias como Mitter­rand, Zapatero e D’Alema e, agora, obtém ridículos índices de aprovação. E ninguém ignora que foi ela que sal­vou a Europa do nazi-fascismo. As tropas aliadas tiveram êxito porque, de um lado, a União Soviética fez Hitler recuar e, de outro, a Resistência clan­destina minou o moral dos ocupantes.

 

Por que a esquerda faliu na Euro­pa? Entre várias hipóteses, a dificul­da­de de entender que a classe operá­ria já não é a mesma da primeira meta­de do século XX. E há uma nova agen­da que a esquerda, de início, encarou com preconceito: ecologia, sustentabili­dade, relações de géneros, eco-eco­no­mia solidária, etc.

A religião, tão impregnada na cons­ci­ência popular, também sofria discrimi­nação. Refém de conceitos teóricos a­ca­démicos, a esquerda europeia nem reconheceu nem manteve vínculos com os novos sujeitos históricos: imigrantes, desempregados, “minorias” excluídas e amplos sectores da classe média de­samparados pelo fim do Estado de bem-estar social e o advento do neo-liberalismo.

Não são as teorias de Marx (aliás, “O Capital” é, hoje, um dos livros mais vendidos na Europa) que justificam a esquerda, e sim a existência de 4 mil mi­lhões de seres humanos sobreviven­do abaixo da linha da pobreza. Para esses, o capitalismo já nasceu fracas­sado. Só lhes resta buscar o outro mundo possível. Mas... com que roupa? Com que força política capaz de transformar o desalento e a indignação em mobiliza­ção e projecto de futuro?


 

A linguagem, as coisas e os seus nomes

Por Eduardo Galeano

Escritor

 

Na era vitoriana era proibido fazer menção às calças na presença de uma senhora. Hoje em dia, não fica bem di­zer certas coisas perante a opinião pública.

O capitalismo exibe o nome artístico de economia de mercado.

O imperialismo chama-se globalização.

As vítimas do imperialismo chamam-se países em via de desenvol­vimento, que é como chamar de meninos aos anões.

O oportunismo chama-se pragmatismo.

A traição chama-se realismo.

Os pobres chamam-se carentes, ou carenciados, ou pessoas de escassos recursos.

A expulsão dos meninos pobres do sistema educativo é conhecida pelo nome de deserção escolar.

O direito do patrão despedir sem indemnização, nem explicação chama-se flexibilização laboral.

A linguagem oficial reconhece os direitos das mulheres entre os direitos das minorias, como se a metade masculina da humanidade fosse a maioria.

Em lugar de ditadura militar, diz-se processo.

As torturas são chamadas de constrangimentos ilegais ou também pressões físicas e psicológicas Quando os ladrões são de boa família, não são ladrões, são cleoptomaníacos.

O saque dos fundos públicos pelos políticos corruptos atende ao nome de enriquecimento ilícito.

Chamam-se acidentes os crimes cometidos pelos motoristas de automóveis.

Em vez de cego, diz-se deficiente visual.

Um negro é um homem de cor.

Onde se diz longa e penosa enfermidade, deve-se ler cancro ou sida.

Mal súbito significa enfarto.

Nunca se diz morte, mas desaparecimento físico.

Tão pouco são mortos os seres humanos aniquilados nas operações militares: os mortos em batalha são baixas e os civis, que nada têm a ver com o peixe e sempre pagam o pato, danos colaterais.

Em 1995, quando das explosões nucleares da França no Pacífico Sul, o embaixador francês na Nova Zelândia declarou: “Não gosto da palavra bomba. Não são bombas. São artefactos que explodem".

Chama-se Conviver, alguns dos bandos assassinos da Colômbia, que agem sob protecção militar.

Dignidade era o nome de um dos campos de concentração da ditadura chilena e Liberdade o maior presídio da ditadura uruguaia.

Chama-se Paz e Justiça o grupo militar que, em 1997, matou pelas costas quarenta e cinco camponeses, quase todos mulheres e crianças, que rezavam numa igreja do povoado de Acteal, em Chiapas, no México.

(Do livro De pernas pro ar, editora L&P


 

OUTRAS CARTAS

 

Rompo definitivamente com o Jornal Fraternizar

 

Braga. Agostinho Domingues (1): Padre Mário. Apesar das minhas profundas discordâncias das suas opiniões veiculadas nos sucessivos números de “Fraternizar” – discordâncias que várias vezes expressei - , fui mantendo a assinatura por solidariedade para consigo. Agora é em nome do mesmo princípio da solidariedade que rompo definitivamente, pelo que solicito deixe de me enviar o jornal, que está pago para o presente ano, mas de cujos restantes números prescindo. Obcecado como é nas suas posições, este meu gesto em nada o fará mudar de ideias, nem eu tenho essa pretensão. Quero desde já advertir que não viso publicitação desta missiva, mas apenas lealdade na atitude para consigo. O texto que me fez transbordar o copo vem na última página. Trata-se de um ataque no mínimo desumano a pessoas como Frei Milícias e António Guterres. Ao primeiro, só o conheço por acompanhamento da sua figura pública; ao segundo, acompanhei de perto como militante socialista, sem que me tenha tornado seu amigo pessoal. Tem ou não consciência de que um membro de uma Ordem ou Congregação religiosa entrega o seu vencimento à estrutura religiosa em que está inserido? De que vivem as comunidades religiosas senão dos donativos dos benfeitores e, em parte, dos proventos dos seus membros mais destacados? Que um jacobino ou ignorante se pronuncie em tais termos sobre uma reforma de uma prestigiada figura pública, que por acaso é um padre franciscano, tolera-se; mas tal é inadmissível num homem de alta cultura e saber com é o seu caso. Devedor da minha formação de base a uma Ordem religiosa (a Companhia de Jesus, durante seis anos), a quem devo como muitos portugueses da minha geração ter tido acesso a uma boa formação intelectual, sei medir o contributo social dessas instituições. Mas sua desumanidade, ou melhor, a “boca”, característica demagógica de um vulgar cidadão, atinge, pelo meio, outras pessoas sem sequer poupar a memória de falecidos. A solidarie­dade que invoco para o meu rompimento com “Fraternizar” afirma-se relativamente a António Guterres. Esclareço que o conheço de perto, não tendo o privilégio de o contar entre os meus amigos. Indigna-me que o apelide de “beato”. Estará mesmo convencido o Padre Mário de que é mais sincero e generoso nas suas convicções e atitudes? Creia-me bem: muitos de nós cristãos do PS, cada um no seu grau de empe­nhamento, merecemos pelo menos o benefício da dúvida na nossa dedicação ao bem colectivo. No caso do Guterres, enfrentei-o lealmente em determinados momentos, mas sempre admirei nele a força das convicções e o elevado talento. A missão difícil que actualmente desempenha permite-lhe fazer render o que de melhor há na sua formação humana e cristã. É como a pessoa que hoje sou, a caminho dos 70 anos, que rompo com uma publicação que agride as minhas convicções. Agradeço tudo quanto pude aprender em muitos dos textos publicados e em boa infor­mação bibliográfica do “Frater­nizar”. Afirmo a minha dívida de gratidão para com todos quantos, dentro da Igreja Católica e no Parido Socialista, contribuíram em boa parte para a minha formação. Lamento que o Padre Mário, em vez de progredir em tolerância à medida do envelheci­mento, tenha atitudes de verdadeiro azedume. Não duvido que encontra eco na sua comunidade de base, e ainda bem para si. Mas as minhas comunidades são outras. Admiro profunda e sinceramente o seu talento de escritor (escreve primorosamente). Sem de forma alguma desvalorizar o papel das minorias em que se integra, julgo que seria muito mais útil socialmente se fosse menos radical.  O Deus em que ambos acreditamos – o revelado por Jesus de Nazaré – a ambos compreende, ama e desculpa na sua imensa Sabedoria e Bondade. Votos de boa Páscoa, com Jesus ressuscitado. Saudações cristãs

 

ND

Meu querido Amigo

Agostinho Domingues

O meu abraço. De certa maneira, não me surpreendeu esta sua decisão de romper com o FRATER­NIZAR. Há sucessivos anos que se mostrava incomodado com ele, sobretudo com os textos escutados /escritos por mim. Chegou a Hora da Ruptura. Tomo a devida nota. Não sem sofrimento. Porque, afinal, tenho de concluir que até a Tolerância tem limites. Tolerante, sim, mas nem tanto, não é? Creio que nem o Pe. Vítor Milícias irá tão longe, como o meu querido Amigo Agostinho Domingues acaba de ir. Estou para ver. Até agora, ele ainda não disse nada. Pode não ser por Tolerância franciscana, eu sei. Mas por Desprezo. Oxalá não seja por Desprezo. Porque então o caso será muitíssimo mais grave do que todos os factos concretos referidos pela minha crónica teológica.

Também sei que estamos no século XXI, não no remoto século XII. Mas será que o evangelicamente radical Francisco de Assis, mesmo no século XXI, se revia nestas práticas públicas e institucionais do Pe. Vítor Milícias, seu discípulo /filho? E não cabe ao discípulo fiel ir ainda mais além do Mestre, em radicalidade?!

Azedume, em mim? Mas porque havemos de ser todos psicanalistas de janela? Foi por Azedume que Francisco de Assis disse o que disse dos Cardeais da Cúria Romana? Foi por azedume que Jesus disse o que disse e fez, de chicote em punho, contra o Templo de Jerusalém e contra os sumos-sacerdotes e teólogos oficiais do Templo? Foi por azedume que lhes disse que o pai deles era o Diabo, e que eles, como o seu pai, eram tão mentirosos e assassinos quanto ele?

Azedume, porquê? Se eu quisesse fazer carreira eclesiástica, não o teria feito? O Bispo António Ferreira Gomes não chegou a oferecer-me de bandeja essa saída para cima? Recusar ir por aí, por fidelidade à minha consciência presbiteral-eclesial, é azedume? Como é que, entretanto, ainda pode escrever a meu respeito tudo o que escreve neste seu e-mail, se eu tudo o que faço e digo é por azedume?!

Ai meu querido Amigo, Agostinho Domingues! Mas como eu o percebo, quando precisa de acusar o meu ser-viver radical de azedume!

Assim não tem necessidade de se pôr em questão, não é? Só que essa é a via mais fácil, que não faz plenamente humanos os que entram por ela. Felizmente, para todas, todos nós, Jesus não foi por essa via. E Francisco de Assis também não! Renovo o meu abraço. E o meu Bem-haja por me ter acompanhado durante todos estes anos.

Seu, Mário

P.S.

Creia, meu querido Amigo, que fico com muita pena de não me autorizar a publicar esta sua decisão, bem como toda a carta que a anuncia e justifica, na próxima edição do Jornal Fraternizar

 

Braga. Agostinho Domingues (2) Caro Padre Mário. Obrigado por ter respondido e com prontidão à minha mensagem. Não vou prolongar a discussão pela razão simples de que cada um ficará na sua. Quero apenas esclarecer – contrariamente à sua interpretação – que não deixei de autorizar a publicação da minha carta, apenas tendo dito que não escrevia para ser publicado, o que é coisa bem diferente. De resto, sempre admirei da sua parte a frontalidade com que publicava as réplicas às suas posições. Pode, pois, publicar, se assim o entender. Só mais uma nota: não quis atribuir assim tanto relevo ao “azedume”. Não me custa mesmo penitenciar-me pela explicação que encontrei para o texto infeliz sobre figuras públicas.

Um abraço.

 

Email. Evaldo Roque Tartas

Padre Mário. Ao ler seu artigo sobre as aparições de Folhada e Fátima me vieram à memórias alguns comentários que havia ouvido há 3 ou 4 anos. Quando do lançamento do filme “O Código Da Vinci” baseado na obra literáriado escritor estadunidense Dan Brown ouvia os comentários de um padre, numa emissora de rádio católica aqui de Goiânia, capital do estado de Goiás no Brasil, sobre os riscos para a fé em que incorram as pessoas que se dispunham a assistir aquela película.

Na ocasião mandei um e-mail para aquele padre, perguntando se ele não estava acompanhando uma série de programas que estavam sendo exibidos pelo canal de TV National Geografic, sobre os dois primeiros séculos do Cristianismo. Aleguei que tanto o filme quanto o livro eram obras de ficção que até poderiam ter algum fundamento. Entretanto a série de programas que eu estava vendo me pareciam ter mais fundamentos históricos que efectivamente poderiam levar algumas pessoas a ficarem em dúvida sobre certas verdades e dogmas da Igreja Católica. O que mais me chamou a atenção naquela série de programas foi sobre uma religião em torno de uma deusa de origem egípcia que no segundo século da era cristã estava ganhando muitos adeptos no Império Romano. A imagem/estátua da deusa era toda vestida de branco. O povo formava procissões que conduziam sua estátua pelas ruas das cidades com cantos e orações. Os devotos faziam várias manifestações de adoração e veneração pela deusa. Entre os atributos da deusa tinham destaque a sua virgindade (razão de suas vestes serem brancas como a neve) e o facto de nunca ter pecado. Era venerada com inúmeros títulos honoríficos - apenas lembro que era chamada de Rainha do céu, estrela da manhã e torre de marfim, mas havia outros. No e-mail que encaminhei para aquele padre perguntava da estranha coincidência entre a forma de veneração e títulos que a Igreja Católica atribui à Nossa Senhora com o que eu acabava de ver na TV. Lembrei que São Paulo louvou a religiosidade dos gregos que rezavam até para um deus desconhecido e nesta devoção o apóstolo pegou um gancho para anunciar o evangelho sem sucesso, pois sua pregação foi bem até o momento de falar da ressurreição, quando os filósofos gregos começaram a se retirar. Argumentei que do mesmo modo a Igreja deve ter substituído a deusa egípcia por Maria pra ganhar a “conversão” daqueles pagãos. Na resposta, ele dizia desconhecer a série de programas de TV sobre as origens do Cristianismo, mas aceitou que muitas devoções e formas de oração da Igreja católica tiveram como origem a cristianização de devoções, orações e deuses (substituídos pelos santos) do paganismo. Depois disso, estudei mais sobre o tema e inclusive sobre algumas festas pagãs cristianizadas: solstícios de inverno (natal) e verão (Festa de São João Baptista) que me vem à memória agora. O Domingo (dia do Senhor) tem origem no dies solis [dia do sol], aliás é interessante notar que nas línguas anglo-germânicas prevaleceu o paganismo na nomenclatura dos dias da semana ao contrário das línguas latinas onde em algumas houve uma mesclagem das duas culturas. Estou fazendo estas considerações, porque tenho o mesmo ponto de visto que o Senhor, quanto à “veracidade” das assim chamadas “aparições”. Muitas destas aparições podem até “converter” algumas pouquíssimas pessoas. Porém, por detrás destes factos miraculosos está montada toda uma estrutura económica que impede até a divulgação da verdade, tal qual ela é. Medjigorie - a devoção e romaria da moda no momento - é um escândalo e um grande sacrilégio que a Igreja deveria ter a coragem de vir a público e denunciar. Denunciar como? Se o Vaticano tem o rabo preso com governos e grandes corporações trans­nacionais? Como dizer a verdade, se todos os dias empresas de turismo, aviação, agências de viagens, hotéis, guias de turismo, directores espirituais de romarias, igrejas e muitos outros lucram biliões de dólares e euros às custas da boa fé (que eu chamo de ignorância) do povo santo de Deus? Para finalizar desejo que o Senhor continue com seu bom trabalho divulgando a verdade.

 

ND

Bem-haja, Evaldo, pelas suas sábias palavras. Já conhece o meu livro FÁTIMA NUNCA MAIS, editado pela Campo das Letras, Porto?

Já foi editado há vários anos e vai na 11.ª edição. O meu abraço, Mário

 

E-mail. M. Alice: Querido amigo padre Mário. Na semana passada acabei de ler Nem Adão e Eva, Nem Pecado Original. Como esperava, foi uma leitura extremamente libertadora para mim, acostumada que estava às velhas normas da nossa igreja. Recomecei a leitura porque trata-se de um texto profundo e inusitado. O difícil mesmo é torná-lo parte viva da vida, sem se deixar cair de novo nas velhas estruturas esmagadoras de toda a nossa espontaneidade como seres humanos. Mais difícil ainda é tentar propagá-lo! Sim, às vezes me indago “Onde foi parar a minha espontaneidade infantil, a minha inocência?” Claro que não posso culpar somente a igreja católica pela perda delas, mas grande parte de tudo que vivi e aprendi foi, seguramente, contaminado pelos ensinamentos do velho catecismo, rigoroso, sem humani­dade, místico ao extremo, com total falta de humor e prazer pelo viver.

Nem sei como eu vim a encontrá-lo, padre Mário, só sei que eu pedia a Deus que me mostrasse um caminho que me iluminasse e, pelo menos respondesse a algumas de minhas inúmeras questões... E eis que me encontro com o padre Mário, da terra de meus pais, do meio deles e da mesma estirpe.... É ai que eu acho que existe mesmo a mão de Deus a nos guiar. Só que às vezes Ele nos falta, nem responde, esconde-se de novo... e a luta continua. Somos mesmo fadados a conviver com o mistério e os limites, não é mesmo? Já estou em mãos com uma bibliografia bem interessante, sugerida nos seus escritos, que incluem Carlos Mesters e Michel Clevenot. Se, por acaso, quiser sugerir alguma nova leitura, peço-lhe que o faça, pois muito preciso de seus ensinamentos e orienta­ções. Quando o senhor irá publicar um novo livro?

Muito afecto desde aqui do Brasil.

 

ND

Querida Maria Alice. O livro que acabou de ler e que, pelo vistos, se propõe ler-mastigar de novo é um daqueles meus livros que exige muito trabalho /esforço intelectual por parte de quem o lê. Sob pena de que a sua leitura não chegue a provocar na consciência de quem o lê o tsunami teológico que visa provocar /desencadear. Todo o Ocidente (e o resto do Mundo com ele) está edificado sobre a Mentira PECADO ORIGINAL e sobre a Mentira ADÃO E EVA. Desde que este mito das origens “virou” pseudo-informa­ção científica e pseudo-relato histórico, tudo o que edificamos sobre essa Mentira é falso e cruel. Veja só. Fomos criados criadores em feminino e em masculino, e fizeram de nós eternos CULPADOS E CONDENADOS de Deus. O próprio Deus, de Criador de co-criadores à sua imagem e semelhança, passou a Ídolo CASTIGADOR. O acto de CRIAR em Deus é simultaneamente acto de SALVAR. E temo-lO apresentado sempre como o Deus-que-castiga, o algoz, o flagelador. Com isso, justificamos os impérios do passado e os Estados das nações do presente, o do Vaticano incluído. Assim como justificamos todos os seus nefandos crimes de lesa-Humanidade, de lesa-Cultura, de lesa-Dignidade, de lesa-Natureza. Deus tornou-se o Ídolo dos ídolos. E nós, seres humanos, as suas vítimas. O livro derruba esta Mentira Teológica. Desencadeia um tsunami teológico na consciência de quem o lê e mastiga. Descobrimos então que fomos criados em estado de Graça, não de Pecado, para sermos Dádiva, Dom, Pão Partido e Repartido, Vinho Derramado, Vidas Entregues como o Pão que se dá a comer, como o Vinho que se dá a beber. Para a vida e alegria do Mundo. Os Sacramentos, a começar pelo Baptismo, não são, como sempre nos mentiram, para nos dar a Graça perdida pelo pecado dos nossos primeiros pais. São para nos REVELAR – é o que significa a palavra sacramento em grego – que todas, todos nós fomos concebidos em Graça e somos habitados pela Graça, desde o primeiro instante da nossa concepção. De modo que, de posse desta Boa Notícia – cabe à Igreja, nas diversas Igrejas em que ela subsiste, anunciar esta boa notícia de Deus a cada geração que chega a este nosso Mundo - vivamos todos os dias em conformidade com a Graça que nos habita. Como sucedeu com Jesus, o Pão Partido e Repartido para a vida do Mundo. Em lugar de PENITENTES, havemos de aprender a ser EUCARISTIAS VIVAS para a vida do Mundo, Dádivas uns para os outros, numa entrega sem reservas uns aos outros. Em lugar de CONDENADOS, havemos de viver como SALVOS, desde o primeiro instante da nossa concepção, porque CRIAR é igual a SALVAR. Salvos-que-salvam-e-que-são-salvos. Ininterruptamente. O Além é o Aquém. O Céu é a Terra. Desaparece a RELIGIÃO, nasce e desenvolve-se a POLÍTICA. Porque nos enganaram e tudo foi edificado sobre a Mentira, é que Jesus adverte: É PRECISO NASCER DE NOVO. Sair da Mentira. Abrirmo-nos à Verdade. E a Verdade Praticada far-nos-á livres para a Liberdade. Far-nos-á livres para sermos DÁDIVAS VIVAS uns para os outros. Já aconteceu dentro de si este tsunami teológico? O livro é o que pretende. É o que fará em quem o comer, não apenas ler. Vá por aqui, nessa sua segunda abordagem ao livro. Nascerá do Sopro, do Espírito, ficará criadora e, por isso, também salvadora, Mulher integralmente Humana. Com os demais e para os demais. Descobrirá, então, que quando Deus mais parece faltar na sua vida, é quando mais está PRESENTE. Porque é a sua aparente AUSÊNCIA que nos faz criadoras /criadores. Aquele que é mais íntimo a nós do que nós próprios, nunca se vê e sempre parece ausente. Nunca, porém, como nesses momentos de aridez, Deus é PRESENTE, ACTUANTE. Esteja atenta. E descobrirá que é mesmo assim como eu lhe digo. Deixo-a com estes pensamentos. Um beijo, Mário

 

E-mail. Testemunhas de Jeová (1-3):

1 Antes do mais, boa tarde, nós lemos o seu Diário Aberto [18 Maio 2009] e diz que nós temos doutrinas aterradoras. Como pode afirmar isso? Você diz que aterrorizamos esse homem, mas nós simplesmente dizemos as verdades! Onde está o terror nas nossas doutrinas?

 

ND

Irmãs /Irmãos: Lá diz o Sábio: o pior cego é o que não quer ver; o pior surdo é o que não quer ouvir.

Bom seria que Vocês fossem capazes de transformar as críticas em outras tantas autocríticas. Infelizmente, isso está-lhes vedado, não é?! Não há, por isso, infelicida­de maior. O meu abraço de afecto e de paz, Padre Mário

 

2. Padre Mário, diga-nos onde estamos errados, pois se você diz que sabe tudo, diga-nos. Uma coisa, lhe garantimos, o mundo já está um caos, aproxima-se o fim, Jesus avisou-nos e agora Ele está para vir julgar todos. Por isso converta-se o quanto antes, pois o fim do mundo está próximo!! Boa tarde.

 

ND

Onde estão errados, Irmãs /Irmãos?

Mas ainda querem disparate maior do que este que acabam de escrever neste mail: O fim do mundo está próximo? Como assim, se o Universo ainda está em expansão, desde o Big-bang, há uns 13.700 milhões de anos?

Jesus avisou-nos e está para vir julgar todos? Mas que coisa mais patética! Como pode Jesus estar para vir, se ele nunca nos deixou?! Não têm vergonha de tanto disparate?

Converta-me eu o quanto antes? A quê e a quem? A testemunha de Jeová?! Acham que ia deixar de ser presbítero da Igreja do Porto, com a missão de dar a Boa Notícia de Deus aos Pobres e aos Povos, para me tornar arauto do Terror(ismo) Jeová?

Acham que o que Vocês ensinam dois a dois, de casa em casa, nas casas que tiverem a infelicidade de os receberem, tem ponta por onde se lhe pegue?

O que diria Jesus acerca de Vocês e da doutrina Jeová que ensinam, como papagaios que decoraram o que têm de impingir às pessoas que lhes caiam nas mãos, se ele, aos doutrinadores da Lei de Moisés e do Deus de Moisés, do seu tempo e país, disse que o pai deles era o Diabo (figura mítica, então muito em voga na linguagem cultural mediterrânica), mentiroso, pai de mentira e assassino, e que eles, como esse pai deles, eram também mentirosos e assassinos? E não é que eles, pouco tempo depois, o mataram na Cruz do Império Romano, como a confirmar à saciedade que eram exactamente isso que Jesus dizia que eles eram?

Mudem de Deus, minhas irmãs /meus irmãos. Deixem o ídolo Jeová, deus do Terror, e deixem-se encontrar e amar por Deus-Amor, o de Jesus, mais íntimo a nós do que nós próprios.

Dou-lhes o meu abraço fraternal. Padre Mário

 

3. Padre Mário, acha um disparate o que dizemos? E esse seu disparate de dizer que Jesus não vem julgar a Humanidade não conta? É lógico que Jesus nos deixou, ou acha que Ele é um fantasma? Ele virá sobre as nuvens do céu, ou não sabe disso? Todos que cometeram atrocidades irão provar a ira de Deus e de Jesus! Nenhum pecador será salvo, pois não merece compaixão da parte de Deus. Agora perante estas minhas palavras terá alguma resposta? Boa tarde.

 

ND

Mas ainda não viram, Irmãs /Irmãos, que quanto mais escrevem, mais se enterram? Não tenho toda a razão em dizer que Vocês são o Terror-em-acção, sob a designação de Jeová?

Jesus virá sobre as nuvens do céu? Mas não é isso que fazem os aviões e os vaivéns? Em que tempo e em que mundo é que vivem? Não sabem que a expressão evangélica “vir sobre as nuvens do céu” é apocalíptica e significa exactamente o contrário do que parece afirmar? Em concreto, significa que Jesus Crucificado-Ressuscitado continua ininterruptamente connosco e jamais nos deixou ou deixará?!

Todos os que cometeram atrocidades irão provar a ira de Deus e de Jesus? Mas isso não é o que sempre ensinaram os sacerdotes dos cultos politeístas do Paganismo, contra os quais e contra a sua Teologia Sacrificialista, Jesus lucidamente se levantou, em Duelo Teológico Desarmado?

Nenhum pecador será salvo? Não? Mas então nem as Testemunhas de Jeová? Ou será que todas as Testemunhas de Jeová, pelo facto de o serem, já não são pecadoras, estão todas vacinadas contra o pecado? Não diz Jesus, o de Nazaré, “Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores”? Não sabem que, em DeusVivo, o acto de CRIAR é simultaneamente o acto de SALVAR? Desconhecem que Jesus MUDOU radicalmente a concepção de Deus, alimentada pelas Religiões do passado, pelas Religiões do presente, pelas Igrejas convertidas em outras tantas religiões e pelas Testemunhas de Jeová, o Deus Terror que matou o próprio Jesus na Cruz do Império?

Desculpem, Irmãs /Irmãos, mas meditem estas palavras que aceitei compartilhar com Vocês. Não escrevam mais, que tudo quanto já nos disseram hoje só confirma o que tenho escrito sobre Vocês. Pelo menos, respeitem a Inteligência Humana. E respeitem-se a Vocês mesmos. Parem com tanto disparate bíblico-teológico. Peço-lhes com todo o afecto e enorme preocupação. Ai de quem lhes cair nas mãos e nas sessões de doutrina tão terrorista como esta que estes poucos e-mails vieram pôr a nu! O meu abraço e a minha paz. Padre Mário

 

E-mail. Rui: Caro Padre Mário: Escrevo-lhe com duas finalidades:
1ª - Dizer-lhe que continuo a ser leitor assíduo das suas crónicas, cuja leitura já não dispenso. Confesso que, por vezes, não consigo uma total sintonia com as suas opiniões, particularmente num aspecto ou outro de natureza política, mas isso talvez se deva ao facto de eu ainda ter muito que “crescer”, apesar de já ser sexagenário. Queria-lhe dizer isto, apenas para ser mais uma voz a assegurar-lhe que o seu verbo não se perde no ciberespaço.
2ª - Revelar que sou fã incondicional da obra de outro grande homem do pensamento e das letras, infelizmente já falecido: Miguel Torga. Ora, ao reler alguns dos seus livros reencontrei-me com um dos seus desabafos que achei particularmente interessante, não só pelo conteúdo, mas também pela data - 1953. Ele, que era agnóstico (ou ateu?) também se achava a “viver à intempérie” e reflecte sobre os custos que tal lhe trazia. Como o Padre Mário também é homem de “andar à tormenta”, pensei que talvez lhe interessasse saber o que pensava este poeta/escritor sobre essa condição, daí que tome a liberdade de lhe enviar a sua reflexão. As duas outras, que também junto, pareceram-me, entre muitas, igualmente dignas de destaque. Considere-as uma espécie de bónus (risos). Eis:

1. "Coimbra, 8 de Junho de 1953 - Às vezes fico-me a pensar no grau de intolerância que é preciso para, num país como o nosso, existir uma incompreensão tão cega pelo drama de todos aqueles que vivem à margem da Igreja. Nados e criados num ambiente familiar católico, aplainados na doutrina, convivas mais tarde à mesa duma literatura fradesca e devota, limitados às emoções de uma arte exclusiva­mente religiosa, rodeados de amigos praticantes, e a pegar e despegar do trabalho ao som de sinos que tocam o Avé, só mesmo porque alguma coisa de muito profundo, de muito rebelde, de muito invencível se recusa dentro da natureza de tais anatematizados, explica que se arredem dum caminho onde tudo lhes seria fácil, e tomem por outro onde tudo lhes é difícil. Agora, para os seus pecados há somente o confessionário da própria consciên­cia, que nem depois do arrependi­mento perdoa, e nenhuma fé lhes promete a eternidade da alma e a ressurreição do corpo. Seres irremediavelmente mortais, é nesta vida apenas que terão de desatar o nó dos mistérios, e nela também serão obrigados ao heroísmo de amar o absoluto no relativo. Ora uma situação humana assim tensa e responsável, corajosa e desampara­da, em vez de provocar o discreto respeito que seria de esperar, gera entre nós, somente, a impaciência apostólica e o ódio farisaico. O que me leva à suspeita de haver nos corações uma saudade latente dos bons tempos em que assistíamos aos purificadores autos-de-fé a comer doces e a beber copinhos de licor..."

2. "Aregos, 25 de Dezembro de 1953 - Coisa estranha: o dia é de Natal, mas a sugestão de natividade vem-me da paisagem que me rodeia. Ela é que parece ter parido e, numa languidez absorta, embalar agora nos braços o fruto sagrado que lhe saiu do ventre. Serras descontraídas e abandonadas, que ninguém diria de granito, reflectidas num rio que quanto mais corre mais permanece, são a própria imagem da materna plenitude; e o sol que as doira, tenro como um pâmpano - o sorriso infantil do eterno redentor. Todo um milagre da natureza, feito com ingredientes simples e tangíveis, de luz, terra, pedras e água. Infeliz­mente, o homem não acredita nos prodígios que vê. E gasta a vida a festejar absurdos lógicos, construí­dos nas Judeias da imaginação."

3. "Foz Côa, 11 de Novembro de 1962 - Revelo apenas o instantâneo:

- António, renuncias a Satanaz?

- Maria, renuncias a Satanaz?

Os dois endemoninhados recém-nascidos, a babarem-se no colo das madrinhas, fitavam vitriamente o feiticeiro de sobrepeliz, estola e tricórnio. A irresponsabilidade adulta é que se comprometia por eles:

- Renuncio...

- Renuncio...

Encostado a uma coluna do templo, fatidicamente inclinada, o diabo, que por acaso, encarnara em mim naquele momento, sorria confiado. Contra semelhantes abjurações podia ele. Dessem tempo ao tempo, e deixassem o paladar dos neófitos desabrochar para o gosto do pecado..."

Um Abraço.

 

ND

Companheiro Rui. Continuam estimulantes, as suas palavras. Num clima de tanta adversidade eclesiástica, e de tanto ostracismo /ódio clerical que sinto à minha volta, como se, na Igreja de Jesus, não pudesse, muito menos, devesse haver lugar para a Dissidência e para todas as línguas, inclusive, as eclesiasticamente incorrectas e as mais rudes, porque se erguem das margens e nas margens, é bom e reconfortante saber que há alguém que nos entende e se alimenta de bocadinhos do Pão-da-Palavra que escuto /acolho e, por isso, partilho sem fronteiras. Pensarão eles, os clérigos e eclesiásticos, que fora dos templos e longe dos altares, não há salvação, não há Humano em plenitude, quando, afinal, com a Morte Crucificada de Jesus na Cruz do Império, exigida pelo Templo e seus dirigentes, o véu que, até então, simbolicamente excluía, como impuro,o Grande Mundo que crescia e se movia fora do Templo, foi rasgado de alto abaixo. De modo que, pelo menos, desde então, é dentro do Templo-Sem-Mundo-e-Sem-História, que não há Humano, apenas Ritos, Mitos, Viveres-Faz-de-Conta. Bem-haja também pelas Palavras antigas e sempre novas do nosso Miguel Torga que aqui me recorda. São palavras sopradas pela Profecia laica, porque pensadas e ditas com as entranhas e com a Lucidez. Muito oportunas, sim senhor. Fique com o meu afecto inteiro. E a minha alegria. Mário

 

E-mail. Adriano: Muito boa tarde, venho por este meio falar consigo acerca do Mundo. Do meu ponto de vista o Mundo está num caos, pois há Guerras, fomes por todo o lado etc, mas há uma coisa que eu fico pasmado, as pessoas pedem a Deus que as ajude e essa ajuda nunca se viu! Queria perguntar-lhe a si que tanto admiro, será que algum dia veremos essa ajuda de Deus? Muito boa tarde e obrigado.

 

ND

Olá, Adriano. Manda a boa educação que, quando escrevemos a alguém que ainda nos não conhece, comecemos por nos apresentar. O Adriano não o fez. Limitou-se a lançar um olhar desesperado sobre este nosso Mundo actual e disparou logo uma pergunta, para eu lhe responder. Não me responde à minha legítima pergunta, Mas quem é este Adriano que, de repente, me escreve um mail destes? No entanto, quer que eu lhe responda a uma pergunta sua. Saiba, meu irmão, que desse tipo de perguntas “armadilhadas” e totalmente impessoais, estou eu cheio. Têm sido aos montes, nomeadamente, depois que publiquei o livro QUANDO A FÉ MOVE MONTANHAS. Pelos vistos, o livro tirou o tapete a muitas congregações que se reclamam de Deus, mas não passam de empresas lucrativas, tanto ou mais que muitos bancos, e opressoras /aterrorizadoras q. b.! Não me perdoam que eu lhes tenha estragado o negócio… Saiba, meu irmão, que essa sua questão e outras questões bem mais oportunas que essa, estão lá respondidas por mim. Vá pelo livro. A Editorial é MAGNÓLIA. E, se não quiser ir pelo livro, abra o meu CORREIO RECEBIDO NÃO CONFIDENCIAL, em

www.padremariodemacieira.com.sapo.pt

É de graça e ficará esclarecido, sem necessidade de se tornar um perguntador compulsivo. Seu, Mário.

 

E-mail. Em Manuel: Amigo Mário.

Sou o Em Manuel, de Lisboa e a viver 1km acima da Vila do Gerês.

Ouvi-te já duas vezes na rádio e pelo que ouvi não estás longe do Reino de Deus. Eu também já tenho intervindo noutras estações para proclamar a Palavra de Deus e o seu Reino, falando contra a Idolatria da igreja e contra o Caminho de Perdição deste povo e deste mundo. Como Amigo gostaria de alertar-te para o ponto em que dizes que Jesus ficou zangado contra Pedro por ele lhe ter chamado Cristo. Aconselho-te a ler de novo essa parte e vais ver que estás em erro e isso não convém, se é que queres estar dentro da razão. A razão da Ira foi esta: Jesus, o Cristo, disse que teria no futuro de sofrer muito e aí Pedro disse-lhe que isso não te aconteça. Ao dizer isto, Pedro estava contra ele, porque na Verdade tudo o que estava escrito acerca dele teria de acontecer, senão não seria verdadeiro o seu Caminho. Cristo quer dizer o Messias enviado. Deixo-te: sagradamontanha.blogspot.com, ainda não está completo. Abraço e dá resposta, porque o Dia da Vitória está perto.

 

N.D.

Tenha paciência, meu irmão,

mas não vou por aí. Escusa de gastar o seu tempo a aterrorizar-me com essa de que o Dia da Vitória está perto. Denuncio, é verdade, a Idolatria da Igreja, no que ela tem de idolátrico. Faço-o, porque a amo. Denuncie também a Idolatria da sua Congregação. Porque um Deus-Terror só pode ser um ídolo, e que ídolo!

Para concluir, convido-o a ler o Evangelho de Marcos, antes de ler o Evangelho de Mateus. Porque Marcos foi escrito antes de Mateus, embora na Bíblia apareça depois do de Mateus. Como tal, está bem mais próximo do Jesus Histórico. Descobrirá, então, que não estou tão errado assim, ao afirmar o que afirmo.

Eu sei que é difícil desformatar mentes humanas demasiado formatadas por teologias idolátricas, mas nem por isso desisto.

Missão maiêutica /libertadora, prosseguidora da de Jesus, é preciso. Aterrorizar de porta em porta não é preciso.

O meu abraço, Mário


 

DOCUMENTO

 

Fiodor Dostoiesvki continua cheio de razão.

Só cegos que o queiram ser é que não vêem

O Grande-Inquisidor no lugar de Jesus

 

Jornal Fraternizar toma a liberdade de divulgar aqui, com pública vénia, o essencial do ainda hoje espantoso texto-poema de Fiodor Dostoiesvki, mais conhecido como "A Lenda do Grande-Inquisidor", extraída do livro "Os Irmãos Karamazov". O texto é um monumento da literatura mundial, verdadeiro patrimó­nio da Humanidade. Deveria figurar em todas as antologias e ser decorado por todos os estudan­tes, elas e eles, das escolas do Mundo. Leiam-no e vejam o que fizemos de Jesus, o filho de Maria, o camponês/artesão de Nazaré, cruci­ficado na Cruz do Império, a exigência dos sumos-sacerdo­tes do Templo.

 

É preciso, sob o ponto de vista literário, que o meu poema tenha um preâmbulo. A acção passa-se no século XVI; bem sabes que era costume, nesta época, fazer intervir nos poemas os poderes celestes. Não falo de Dante. Em França, os clérigos e os monges da­vam representações em que punham em cena Nossa Senhora, os anjos, os santos, Cristo e Deus. Eram espectá­culos ingé­nuos. Na Nossa Senhora de Paris, de Vítor Hugo, o povo é convida­do, para uma representação edificante e gratuita: O Bom Juízo da Sagrada e Graciosa Virgem Maria. Neste mistério aparece a própria Virgem a pronun­ciar o seu «bom Juízo».

No nosso país, em Mos­covo, antes de Pedro, o Grande, da­vam-se, de tem­pos a tempos, repre­sentações deste gé­nero, inspiradas sobretudo no Velho Tes­ta­mento. Além disso, circulava uma grande quantidade de narrativas e de poemas em que figuravam, segundo as necessidades, os santos, os anjos, o exér­cito celeste. Existe, por exemplo, um pequeno poema, traduzido sem dú­vi­da do grego: A Virgem no Inferno, com quadros duma audácia dantesca: a Virgem visita o Inferno, guiada pelo arcanjo S. Miguel, e vê os condenados e os seus tormentos; entre outros, há uma categoria muito inte­ressante de pecadores: os do lago de fogo; mergu­lham no lago e nunca mais aparecem: são aqueles «de que até Deus se esque­ce» - expressão esta duma profundeza e duma energia notável. A Virgem, cho­rando, cai de joelhos diante do trono de Deus e pede o perdão de todos os pecadores que viu no Inferno, sem dis­tinção; o Seu diálogo com Deus é dum interesse extraordinário; suplica, insiste e, quando Deus Lhe mostra os pés e as mãos do Filho furados pelos pregos e Lhe pergunta: «Como poderia eu per­doar aos seus verdugos?» -, ordena a todos os santos, a todos os mártires, a todos os anjos que se ponham de joe­lhos como Ela e implorem a Deus que perdoe a todos os pecadores, sem dis­tinção. Obtém, por fim, que cessem os tormentos, todos os anos, desde Sexta-Feira Santa ao Pentecostes, e os con­de­nados, do fundo do Inferno, agra­decem a Deus e gritam: «Senhor, a Tua sentença é justa!» [Vejam só que concepção mais monstruosa de Deus. Mas é a que ainda hoje continua sub­jacente na cabeça de todos os devotos e devotas dos santuários mentirosa­men­te ditos "marianos", como o da deu­sa /senhora de Fátima da nossa vergo­nha. É a deusa boa contra o Deus mau. Puro Paganismo, pura Idolatria que os clérigos católicos continuam a alimentar nas populações ainda não-evangeliza­das por Jesus!]

Pois bem: o meu poemazito teria sido deste género, se o tivesse escrito nessa época. Deus aparece; não diz nada; só passa. Rodaram quinze séculos, depois que prometeu voltar ao Seu reino, depois que o Seu profeta es­creveu: «Cedo voltarei; quanto ao dia e à hora, nem o próprio Filho os conhece; só o sabe meu Pai que está nos Céus», segundo as próprias pala­vras que pronunciou na Terra. E a humanidade espera-O com a mesma fé que outrora, fé mais ardente ainda, porque já quinze séculos passaram depois que o Céu deixou de dar pe­nhores aos homens: «Crê no que te diz o coração; os Céus não dão pe­nhores».

É verdade que se produziam então numerosos mila­gres: os santos realiza­vam curas maravilhosas, a Rainha dos Céus visitava certos justos, a acreditar no que narram as biografias. Mas o Diabo não dorme; a humanidade come­ça a duvidar da autenticidade destes prodígios. As lágrimas da humanidade elevam-se para Ele como outrora, e aguardam-n’O e amam-n’O e têm espe­rança n’Ele como outrora... Já há tantos séculos que a humanidade roga com ardor: «Senhor, digna-Te aparecer-nos».

Já há tantos séculos que para Ele vão seus gritos, que Ele, na Sua mise­ricórdia infinita, quis descer junto dos fiéis. Eis que se quis mostrar, por um instante ao menos, ao povo sofredor e miserável, ao povo mergulhado nos pecados, mas que O ama ingenua­men­te. A acção passa-se em Espanha, em Sevilha, na época mais terrível da In­qui­si­ção, quando todos os dias, para glória de Deus, se acendiam as foguei­ras e «os medonhos hereges ardiam em soberbos autos-de-fé».

Oh! não foi assim que prometeu voltar, no fim dos tempos, em toda a Sua glória, subita­mente, «como um re­lâm­pago que brilha de Oriente a Ocidente». Não; quis visitar Seus filhos, preci­samente no lugar em que crepita­vam as fogueiras dos hereges. Na Sua infi­nita misericórdia, volta para entre os homens com a forma que tinha du­ran­te os três anos de vida pública. Des­ce pelas ruas ardentes da cidade meri­dional em que, justamente na véspera, em presença do rei, dos cortesãos, dos cava­leiros, dos cardeais e das mais gen­tis damas da corte, o grande inqui­sidor mandou queimar uma centena de hereges, ad majorem gloriam Dei [= para maior glória de Deus]. Apareceu sua­vemente, sem se fazer notar, e, coisa estranha, todos O reconhecem; a expli­cação do motivo seria um dos mais belos passos do meu poema; atraí­do por uma força irresistível, o po­vo com­prime-se à Sua passagem e se­gue-Lhe os passos. Silen­cioso, passa pelo meio da multidão com um sorriso de compaixão infinita. Tem o coração abrasado de amor, dos olhos despren­dem-se-lhe a Luz, a Ciência, a Força que irradiam, e nas almas despertam o amor. Estende-lhes os braços, aben­çoa-os, e uma virtude salutar emana do Seu contacto e até dos Seus vesti­dos. Um velho, cego de criança, grita dentre o povo: «Senhor, cura-me e ver-Te-ei»; cai-lhe uma escama dos olhos e o cego vê. O povo derrama lágrimas de alegria e beija o chão que Ele pisa. As crianças deitam-Lhe flores no ca­mi­nho; todos cantam, todos gritam: Hos­sana! É Ele, deve ser Ele, não pode ser senão Ele! Pára no adro da Cate­dral de Sevilha, no momento em que trazem um caixãozinho branco, com uma menina de sete anos, filha única de um homem importante. A morta está coberta de flores.

- Vai ressuscitar a tua filha - gritam da multidão para a mãe cheia de lágri­mas.

O padre que viera ao encontro do caixão olha com ar perplexo e franze o sobrolho. De repente, ouve-se um grito e a mãe lança-se-Lhe aos pés: «Se és Tu, ressuscita-me a filha! - e es­tende-Lhe os braços. O préstito pára, pousam o caixão nas lajes. Ele contem­pla-o com piedade e a Sua boca profe­re suavemente, uma vez mais: Talitha kum [= menina, levanta-te!], e a rapariga levantou-se. Soergue-se a morta, sen­ta-se e olha em torno, sorridente, com um ar de espanto; segura nas mãos o ramo de rosas brancas que lhe tinham posto no caixão. Na gente que assiste, há perturbação, gritos e choros.

Neste instante, passa pela praça o cardeal Grande-Inquisidor. É um velho alto, quase nonagenário, com uma face seca e olhos cavados, onde, porém, ainda bri­lha uma centelha. Não tem o vestuário pomposo com que no dia an­te­rior se pavoneava diante do povo, enquanto se quei­mavam os inimigos da Igreja romana; voltou ao grosseiro bu­rel. Os taciturnos ajudantes e a guarda do Santo Ofício seguem-no a respeitosa distância.

Pára diante da multidão e observa-a de longe. Viu tudo, o caixão pousado pe­rante Ele, a ressurreição da criança - e a face tornou-se-lhe sombria. Franze as espessas sobrancelhas e os olhos brilham-lhe com um sinistro clarão. Aponta-O com o dedo e ordena aos guar­das que O prendam. Tão grande é o seu poder e tão habituado está o povo a submeter-se, a obedecer-lhe, tremendo, que a multidão se afasta di­ante dos esbirros; estes, no meio de um silêncio de morte, seguram-n’O e levam-n’O. Como um só homem, o povo incli­na-se até o chão diante do velho In­qui­sidor que o abençoa sem dizer pa­lavra e prossegue o seu caminho.

Conduzem o Preso ao velho e som­brio edifício da Inquisição, metem-n’O em estreita cela abobadada. Termina o dia e chega a noite, uma noite de Se­­vilha, quente e sufocante. O ar está todo perfumado de loureiros e limoei­ros. De súbito, nas trevas, abre-se a porta de ferro do calabouço e o Gran­de-Inquisidor aparece, com um archote na mão. Está só e a porta fecha-se por trás dele. Pára no limiar, considera lon­ga­mente a Face Sagrada [do Preso]. Por fim, aproxima-se, pousa o archote na mesa e diz-Lhe:

- És Tu, és Tu? - E, como não re­ce­be resposta, acrescenta rapidamente: - Não digas nada, cala-Te. De resto, que poderias Tu dizer? Já o sei de mais. Não tens o direito de juntar uma palavra ao que disseste outrora. Por­que vieste incomodar-nos? Sabes bem que nos incomo­das. Mas sabes o que te acontecerá amanhã? Ignoro quem és e nem quero sabê-lo: és Tu ou so­mente a Sua aparência? Mas amanhã hei-de condenar-Te e serás queimado como o pior dos heréticos e o mesmo povo que hoje Te beijava os pés  preci­pi­tar-se-á amanhã, a um sinal meu, para deitar lenha na fogueira. Sabes tudo isso? Talvez - diz ainda o velho, pensativo, com os olhos sempre fixos no Preso.

- E o Preso não diz nada? Con­ten­­ta-se em olhar?

- Decerto. Não tem outra coisa a fazer senão calar-se. O próprio velho lhe faz observar que não tem o direito de juntar nem mais uma palavra ao que disse antigamente. Na minha humilde opinião, é esta talvez a característica fundamental do catolicismo romano: «Tu­do foi transmi­tido por Ti ao papa, tudo depende agora do papa; não ve­nhas incomodar-nos, antes do tempo, pelo menos.» Tal é a doutrina deles; em qualquer caso, é a dos Jesuítas [pelo menos, da época do Autor]; en­contrei-a nos seus teólogos. «Tens Tu o direito de nos revelar um só dos se­gre­dos do mundo donde vens?» - pergunta o velho, que logo responde em lugar do Outro: «Não, não tens o direito de o fazer, porque esta revelação jun­tar-se-ia à de outrora, e isso seria reti­rar aos homens a liberdade que tanto defendias na Terra. Todas as Tuas no­vas revelações infringiriam a liberdade da fé, porque pareceriam miraculosas; ora, Tu punhas acima de tudo, há quin­ze séculos, esta liberdade da fé». Não disseste Tu muitas vezes: «Quero tor­nar-vos livres»? Pois bem: Lá os viste, aos homens «livres» - acrescenta o ve­lho, com um ar sarcástico. Sim, custou-nos caro - prossegue, olhando-O, com severidade, mas, enfim, sempre com­ple­támos em Teu nome esta obra.

Foram necessários quinze séculos de rude trabalho para instaurar a li­berdade; mas está pronto, e bem pron­to. Não crês? Olhas-me com brandura, sem mesmo me dares a honra de Te indignares? Mas é bom saberes que nunca os homens se julgaram tão livres como hoje, e, contudo, depuseram a nossos pés, humildemente, a sua liber­dade. É esta a nossa obra, na verdade; é a liberdade que Tu sonhavas? Nós su­primimos a liberdade, com o objectivo de tornar os homens felizes. «Por­que é agora, pela primeira vez na História, que se po­de pensar na felicidade dos homens. Eles são, por natureza, uns revoltados; podem os revoltados ser felizes? Tu estavas pre­venido, não Te fal­taram conselhos, mas não Te importaste, puseste de parte o único meio de obter a felicidade para os homens; e foi uma sorte que, ao par­tires, nos tivesses transmitido a obra, nos tivesses prometido, nos tivesses solenemente concedido o direito de ligar e desligar; não poderias agora pen­sar em nos retirares esse direito. Por­que vieste incomodar-nos? O Espí­rito terrível e profundo, o Espírito da des­truição e do nada falou-Te no de­ser­to e contam as Escrituras que Te «tentou». É verdade? E podiam ter-Te dito alguma coisa de mais penetrante que as três perguntas, ou, para falar como as Escrituras, as «tentações» que repeliste? Se jamais houve na Terra um milagre autên­tico e retumbante, foi no dia dessas três tentações. Basta o facto de se terem formulado as três perguntas para que haja o milagre. Suponhamos que desapareciam das Escri­turas, que era preciso reconstitui-las, imaginá-las de novo para as pôr lá outra vez, e que, para esse fim, se reuniam todos os sábios da Terra, ho­mens de Estado, prelados, homens de ciência, filósofos, poetas, e se lhes di­zia: «Imaginai, redigi três perguntas que não somente corres­pondam à im­por­tância do acontecimento, mas ex­primam ainda, em três frases, toda a história da humanidade futura; achas que este areópago da sabedoria hu­mana poderia ima­ginar alguma coisa de tão forte e de tão profundo como as três perguntas que te propôs então o poderoso Espírito da destruição e do nada? Elas provam, sozinhas, que se tratava do Espírito eterno e absoluto, não dum espírito humano transitório, porque resumem e predizem ao mesmo tempo toda a história posterior da hu­ma­nidade; são as três formas em que se cristalizam todas as contradições insolúveis da natureza humana.

Nesse momento, ninguém deu con­ta de nada, porque o futuro estava encoberto, mas hoje, como passaram quinze séculos, vemos que tudo fora previsto nas três per­guntas e se reali­zou a tal ponto que é impossível juntar ou cortar uma só palavra.

Decide Tu próprio quem tinha ra­zão, Tu ou aquele que Te interrogava [tentava]. Lembra-Te da primeira, pelo menos do sentido: querer ir pelo mun­do com as mãos vazias, a pregar aos homens uma liberdade que a sua estu­pidez e a sua ignomínia natural os im­pedem de compreender, uma liber­dade que lhes faz medo, porque nada há nem nunca houve tão intolerável para o homem e para a sociedade! Vês estas pedras neste árido deserto? Transfor­ma-as em pães e a humanidade seguirá os Teus passos, como um rebanho dó­cil e reconhecido, mas sempre com me­do que a Tua mão se retire e que o pão se lhe acabe.

Mas não quiseste privar o homem da liberdade e recusaste, achando que ele era incompatível com a obe­diência comprada como os pães. Replicaste que o homem não vive só de pão; mas, sabes que em nome do pão terrestre o Espírito da Terra se levantará contra Ti, lutará e há-de vencer-Te; e que to­dos o hão-de seguir gritando: «Quem se pode comparar com a besta que nos dá o fogo do Céu?» Hão-de passar os séculos e a humanidade pro­cla­mará, pela boca dos seus homens de ciência e dos seus sábios, que não há crimes e que, por conseguinte, não há pecados: só há famintos. "Alimenta-os e só depois podes exigir que sejam virtuosos!" Eis o que se há-de ins­crever no estandarte da revolta que abaterá o Teu templo. Elevarão em vez dele um novo edifício, uma segunda torre de Babel que, sem dúvida, como a pri­meira, ficará por terminar; mas pode­rias ter poupado aos homens esta nova tentativa e mil anos de sofrimento.

Hão-de vir procu­rar-nos, depois de se terem esforçado, durante mil anos, por cons­truir a sua torre. Hão-de procu­rar-nos debaixo do chão como outrora, nas catacumbas em que estaremos escondidos (porque nos perseguirão de novo) e hão-de clamar: "Dai-nos de co­mer, porque aqueles que nos tinham prometido o fogo do Céu nada nos de­ram." Então havemos de acabar a torre, porque para tal só é preciso comida, e nós os alimentaremos, em Teu nome, claro, e lho faremos crer. Sem nós, es­ta­rão sempre com fome. Nenhuma ci­ên­cia lhes dará o pão enquanto esti­verem livres; e hão-de depor aos nos­sos pés essa liberdade, e dirão: "Fazei de nós escra­vos, mas alimentai-nos."

Compreenderão, enfim, que a li­ber­dade é inconciliável com o pão da Terra à discrição, porque nunca hão-de saber reparti-lo entre si! Também se hão-de convencer da sua impotên­cia para se tornarem livres, porque são fracos e depravados, revoltados e nu­los. Prometias-lhes o pão do Céu; e, vamos lá uma vez mais, acaso ele po­de-se comparar com o da Terra aos olhos da fraca raça humana, eterna­mente ingrata e depravada? Milha­res e dezenas de milhares de almas Te hão-de seguir por causa deste pão, mas que há-de ser dos milhões e dos biliões que não tiverem coragem de preferir o pão do Céu ao pão da Terra? Não serias Tu amigo senão dos grandes e dos fortes, para quem os outros, a mul­tidão inumerável, que é fraca, mas que Te ama, serviria apenas de matéria ex­plo­rável?

Mas nós somos também amigos dos seres fracos. Embora depravados e revoltados, hão-de tornar-se final­men­te dóceis. Hão-de admirar-nos e hão-de julgar-nos deuses por termos consentido, pondo-nos à frente deles, assegurar-lhes a liberdade que temiam e dominá-los; tal será, por fim, o seu medo de serem livres. Mas dir­-lhes-emos que somos Teus discípulos, que reinamos em Teu nome. Enganá-los-emos de novo, porque nessa altura não deixaremos que Te aproximes de nós. E é esta impos­tura que constituirá o nos­so sofrimento, porque seremos obri­ga­dos a mentir.

É este o sentido da primeira pergunta que Te fizeram no deserto e foi isto o que Tu repeliste em nome da liberdade que punhas acima de tudo. Continha, no entanto, o segredo do mun­do. Se tivesses consentido no mila­gre dos pães, terias acalmado a eterna inquietação da humanidade, indivíduos e colectividade: - «Diante de quem se in­clinar?» Porque não há para o ho­mem que ficou livre cuidado mais constante e mais doloroso do que o de procurar um ser diante do qual se incline. Mas não quer inclinar-se senão diante de uma força incontestada, que todos os seres humanos respeitam por um consenti­mento universal.

Estas pobres criaturas atormen­tam-se na busca de um culto que reuna não somente alguns fiéis, mas no qual comunguem todos juntos, unidos pela mesma fé. Esta necessidade do homem comum na adoração é o principal tor­men­to de cada indivíduo e da humani­dade inteira, desde o começo dos séculos. É para realizar este sonho que tem havido os extermínios à espada.

Os povos forjaram deuses e desa­fiaram-se uns aos outros: "Abandonai os vossos deuses, adorai os nossos; senão, ai de vós e dos vossos deuses!" E será assim até o fim do mundo, mes­mo quando já os deuses tiverem desa­parecido; prostrar-se-ão diante dos ídolos.

Não ignoravas, não podias ignorar este segredo fundamental da natureza humana e, contudo, repe­liste a única bandeira infalível que Te ofereciam e que teria curvado, sem contestação, todos os homens diante de Ti, a bandei­ra do pão terrestre; repeliste-a em no­me do pão celeste e da liberdade! Vê o que fizeste depois, e sempre em nome da liberdade! Não há, torno a dizer-Te, anseio mais doloroso para o ho­mem que o de encontrar o mais cedo possível um ser a quem entregue este dom da liber­dade que o desgraçado traz ao nascer.

Mas, para dispor da li­ber­dade dos homens, é necessário dar-lhes a paz da consciência. O pão garantia-Te o êxito; o homem inclina-se diante de quem lho dá, porque é coisa incontes­tada; mas logo que outro se assenho­reie da consciência humana, deixará o Teu pão para seguir quem cativou a sua consciência. Nisto tinhas Tu razão, porque o segredo da existência huma­na consiste, não somente em viver, mas também em encontrar um motivo de viver. Sem uma ideia nítida do fim da existência, o homem prefere aban­do­ná-la e, embora estivesse rodeado de montões de pão, antes seria capaz de suicidar-se do que de ficar na Terra. Mas, que acon­teceu? Em lugar de Te apoderares da liberdade humana, foste alargá-la ainda mais!

Esqueceste que o homem prefere a paz, e até a morte, à liberdade de dis­cernir o Bem e o Mal? Nada há de mais sedutor para o homem do que o livre arbítrio, mas nada há também de mais doloroso. E, em vez de princípios sólidos que tivessem tranquilizado para sempre a consciência humana, escolhes­te noções vagas, estranhas, eni­gmá­ti­cas, tudo o que ultrapassa a força dos homens; agiste, por­tanto, como se os não amasses, Tu, que tinhas vindo para dar a vida por eles! Aumentaste a liberdade humana em lugar de a con­fis­cares e impuseste assim, para sem­pre, ao ser moral as agonias dessa li­ber­dade. Querias ser livre­mente amado, voluntariamente seguido pelos homens que tivesses encantado.

Em vez da dura lei antiga, o homem devia, daí por diante, discernir, de co­ração livre, o Bem e o Mal, não tendo para o guiar senão a Tua imagem; mas não previas que por fim repeliria e con­tes­taria mesmo a Tua imagem e a Tua verdade, porque estava esmagado pelo fardo terrível da liberdade de escolher? Hão-de gritar que a verdade não estava em Ti; de outro modo, não os terias deixado em tão angustiosa incer­teza, com tantos cuidados e tantos pro­blemas insolúveis. Preparaste assim a ruína do Teu reino; não deves, portanto, acusar ninguém dessa ruína. Era isto, contudo, o que Te propunham?

Há três forças, as únicas que po­dem subjugar para sempre a consciên­cia destes fracos revoltados: são o mi­lagre, o mistério, a autoridade! A todas três afastaste, dando assim um exem­plo. O Espírito terrível transportara-Te, então, ao pináculo do templo e dissera-Te: "Queres Tu saber se és Filho de Deus? Atira-Te abaixo, porque está es­crito que os anjos O hão-de sustentar e segurar, e não Se ferirá; ficarás então a saber se és o Filho de Deus e prova­rás assim a Tua Fé em Teu Pai."

Mas Tu repeliste a proposta e não Te precipitaste. Mostraste nessa altura uma altivez sublime, divina, mas os ho­mens, raça fraca e revoltada, não são deuses! Sabias que, se desses um pas­so, se fizesses um gesto para Te preci­pi­tares, terias tentado o Senhor e per­dido a Fé que n’Ele tinhas. Com grande alegria do tentador, ter-Te-ias despe­da­çado na Terra que vinhas salvar. Mas haverá muitos como Tu? Podes admitir por um ins­tante que os homens teriam a força de resistir a seme­lhante tenta­ção? É próprio da natureza humana repelir o milagre e, nos momentos gra­ves da vida, perante as ques­tões capi­tais e dolorosas, entregar-se à livre de­cisão do espírito?

Oh! Tu sabias que a Tua firmeza se­ria relatada nas Escrituras, atraves­saria as idades, atingiria as regiões mais longínquas, e esperavas que, se­guindo o Teu exemplo, o homem se con­tentasse com Deus, sem recorrer ao milagre. Mas ignoravas que o ho­mem repele Deus, ao mesmo tempo que o milagre, porque é sobretudo o milagre o que ele busca. E, como não era capaz de passar sem ele, forja novos milagres, os seus próprios mila­gres, e inclina-se diante dos prodígios dum mago, dos sortilégios de uma feiti­ceira, mesmo que seja um revoltado, um herético, um ímpio confesso.

Não desceste da cruz quando zomba­vam de Ti e Te gritavam por tro­ça: "Desce da cruz e acreditaremos em Ti." Não o fizeste, porque não querias escravizar de novo o homem com um milagre; desejavas uma fé que fosse livre e não inspirada pelo maravilhoso. Era-Te necessário um livre amor, não os fervores dum escravo aterrado. Ain­da aí fazias uma ideia elevada dos ho­mens, porque são escravos, embora tenham sido criados rebeldes. Vê e ajuíza, após quinze séculos: quem ele­vaste até junto de Ti?

Posso jurar-to: o homem é mais fraco e mais vil do que Tu julgavas. Acaso pode ele realizar o mesmo que Tu? A grande estima que tinhas pelos homens prejudicou a piedade. Exigis­te-lhes demasiado, Tu que, no entanto, os amavas mais do que a Ti próprio! Estimando-os menos, ter-lhes-ias imposto fardo mais leve, mais de acordo com o Teu amor. São cobardes e fra­cos. Que importa que se insurjam ago­ra contra a nossa autoridade e se orgu­lhem da sua revolta? É o orgulho dos rapazitos de escola que se amoti­na­ram e expulsaram o mestre. A ale­gria dos garotos acabará, e custar-lhes-á caro. Derrubarão os templos e inundarão a Terra de sangue; mas per­ceberão por fim, essas estúpidas crianças, que não são mais do que fracos revoltados incapazes de manter a sua revolta durante muito tempo. Derramarão lágrimas absurdas e com­preenderão que o Criador, fazendo-os rebeldes, quis troçar deles, com cer­te­za.

Hão-de chamá-Lo com desespero e esta blasfémia torná-los-á ainda mais infelizes, porque a natureza humana não suporta a blasfémia e acaba sempre por se vingar. A inquietação, as perturbações, a infelicidade, eis aqui o que possuem os homens, depois de tudo que sofreste pela sua liberdade!

O Teu eminente profeta diz, na sua visão simbólica, que viu todos os que participavam da primeira ressurreição, e que havia doze mil para cada tribo. Para serem tão numerosos deviam ser mais do que homens, deviam ser quase deuses. Suportavam a Tua cruz e a vida no deserto, alimentados a gafanhotos e a raízes; decerto podes estar orgulho­so destes filhos da liberdade, do livre amor, do sublime sacrifício em Teu no­me. Mas lembra-Te de que não eram se­não alguns milhares e quase deuses; e o resto? É culpa deles, dos outros, dos fracos homens, o não terem podido suportar o que suportam os fortes? Aca­so tem culpa a alma fraca de não poder conter dores tão terríveis? Só vieste para os eleitos?

Nesse caso, é um mistério, incom­pre­ensível para nós, e teríamos o direito de o pregar aos homens, de ensinar que não importam nem a livre decisão dos corações nem o amor, mas sim o mis­tério, a que se devem submeter cega­mente, mesmo contra a aprovação da sua consciência. Foi o que nós fizemos. Corrigimos a Tua obra fundando-a so­bre o milagre, o mistério, a autoridade. E os homens alegraram-se, porque eram de novo levados como um reba­nho e ficavam livres da dúvida funesta que tais tormentos lhes causava.

Não é verdade que tínhamos razão para proceder assim? Não era amar a humanidade, compreender a sua fra­que­za, alivian­do-lhe o fardo com amor, tolerar mesmo o pecado à sua fraca natureza, contanto que fosse com per­missão nossa? Para que vieste, portan­to, entravar a nossa obra? Para que Te conservas em silêncio e me fixas com o Teu olhar terno e penetrante?

É pre­fe­rível que Te zangues, por­que não quero o Teu amor: eu mesmo não Te amo. Porque o hei-de dissimu­lar? Sei a quem falo, conheço o que te­nho a dizer-Te, vejo-o nos Teus olhos. Terei eu de Te esconder o nosso segre­do? Mas talvez o queiras ouvir da minha boca; aqui o tens. Não estamos contigo, mas com ele, e já há muito tempo. Há exactamente oito séculos [a acção aqui relatada está a passar-se no século XVI] que rece­be­mos dele esta última dádiva que Tu afastaste com indig­nação quan­do ele te mostrava todos os reinos da Terra; aceitámos Roma e a espada de César e declarámo-nos os únicos reis da Terra, se bem que não tenhamos tido tempo até agora de ultimar a nossa obra. Mas, de quem é a culpa? O tra­balho ainda está no princípio, está longe do termo e a Terra terá ainda mui­to que sofrer, mas nós atingiremos o nosso objectivo, seremos césares; pensaremos então na felicidade univer­sal.

No entanto, poderias ter empunha­do a espada de César. Por que motivo afastaste esta última dádiva? Se se­guis­ses o terceiro conselho do podero­so Espírito [Tentador], realizarias tudo o que os homens procuram na Terra: um senhor diante de quem se inclinem, um guarda da consciência e o meio de finalmente se unirem em concórdia num formigueiro comum, porque a necessi­dade da união universal é o terceiro e último tormento da raça humana. A hu­ma­nidade, no seu conjunto, mostrou sempre tendência para se organizar sobre uma base universal.

Tem havido grandes povos de his­tória gloriosa, mas, à medida que se têm elevado, têm sofrido mais, porque sentem mais fortemente do que os ou­tros a necessidade da união universal. Os grandes conquista­dores, que per­cor­reram a Terra como furacões, encar­navam também, sem disso terem consciência, esta aspiração dos povos para a unidade.

Acei­tando a púrpura de César, te­rias fundado o império uni­versal e da­do a paz ao mundo. Com efeito, quem pode dominar os homens senão aque­les que lhes dominam a consciência e dispõem do pão? Tomamos a espada de César e, ao fazê-lo, abandonamos-Te para o seguirmos. Oh! hão-de pas­sar ainda séculos de licença intelectual, de vã ciência e de antropofagia, porque é por isso que hão-de acabar, depois de terem edificado sem nós a sua torre de Babel.

Então a besta virá ter connosco, de rastos, lamberá os nossos pés, regá-los-á com lágrimas de sangue; e subir-lhe-emos para cima e levantaremos no ar uma taça em que estará gravada a palavra "Mistério!" Só então a paz e a felicidade reinarão entre os homens.

Tens orgulho dos Teus eleitos, mas são apenas um escol, ao passo que nós daremos o repouso a todos. De resto, entre esses fortes destinados a serem os eleitos, quantos se cansa­ram de esperar, quantos levaram e con­tinuarão a levar para outros pontos as forças do seu espírito e o ardor do seu coração, quantos acabarão por se in­sur­gir contra Ti em no­me da liberdade. Mas foste Tu quem a deu. Tornaremos os homens felizes, cessarão as revoltas e chacinas que são inseparáveis da Tua liberdade.

Oh! havemos de persuadi-los de que não serão verdadeiramente livres senão abdicando da sua liberdade em nosso favor. Pois bem! Diremos a verda­de ou mentiremos? Eles próprios se conven­ce­rão de que fala­mos a verdade, por­que se hão-de lembrar da escrava­tura e da perturbação em que os tinha lan­ça­do a Tua liberdade. A indepen­dên­cia, o pensamento livre, a ciência, hão-de per­dê-los num tal labirinto, hão-de pô-los em presença de tais pro­dígios, de tais enigmas, que uns, rebel­des, furio­sos, se destruirão a si pró­prios, outros, rebeldes, mas fracos, mul­tidão de co­bar­­des e de miseráveis, se hão-de ar­rastar aos nossos pés em clamores: «Sim, tínheis razão, só vós possuís o seu segredo e a vós regres­samos; sal­vai-nos de nós mesmos!» ~

Sem dúvida, ao receberem de nós os pães, verão bem que são os seus que nós, antes, lhes toma­mos, os seus pães, ganhos pelo seu próprio trabalho, para os distribuirmos, sem nenhum milagre; verão bem que não mudamos as pedras em pão, mas o facto de recebê-lo das nossas mãos dar-lhes-à mais prazer do que o próprio pão. Hão-de lembrar-se de que outrora es­se pão, fruto do seu trabalho, se lhes mu­dava em pedra nas mãos, ao passo que, depois, quando voltaram a nós, as pedras se transformaram em pão. Compreenderão o valor da submissão definitiva. E, enquanto o não com­preen­derem, os homens serão infelizes.

Diz-me: quem contribuiu mais para esta incompreensão? Quem dividiu o rebanho e o dispersou pelas estradas des­­conhecidas? Mas o rebanho se reu­ni­rá de novo, voltará à obediência e, en­tão, será para sempre. Vamos dar-lhes uma felicidade humilde e branda, uma felicidade adaptada às criaturas fracas que eles são. Havemos de per­sua­di-los de que não se orgulhem, por­que foste Tu, ao elevá-los, quem lho en­sinou; havemos de provar-lhes que são débeis, que são umas lamentáveis crianças, mas que a felicidade infantil é a mais deliciosa. Tornar-se-ão tími­dos, não nos perderão de vista e aper­tar-se-ão a nós, cheios de medo, como a ninhada que se abriga sob a asa da mãe. Hão-de sentir uma receosa sur­presa e mostrar-se-ão orgulhosos da ener­gia e da inteligência que nos terão permitido domar a inumerável multidão dos rebeldes. A nossa cólera fá-los-à tre­mer, encher-se-ão de timidez, e os olhos se lhes turbarão de lágrimas co­mo nas crianças e nas mulheres; mas, a um sinal nosso, passarão com a mes­ma facilidade para o riso e para a ale­gria, para o radioso júbilo das crian­ças.

Havemos, certamente, de os obri­gar ao trabalho, mas, nas horas de re­pou­so, organizar-lhes-emos a vida co­mo um jogo infantil, com cantos, coros e danças inocentes. Oh! permitir-lhes-emos até que pequem, porque são fra­cos, e por isso nos hão-de amar como crianças. Dir-lhes-emos que todo o pecado será redimido, se o cometerem com permissão nossa; é por amor que os deixaremos pecar e sobre nós recai­rá o castigo.

Hão-de querer-nos como a benfei­to­res que se apresentam diante de Deus com os pecados deles. Não te­rão para nós nenhuns segredos. Se­gun­do o grau de obediência, permitir-lhes-emos ou proi­biremos que vivam com as mulheres ou as amantes, que tenham filhos ou não os tenham; e hão-de escutar-nos com alegria. Hão-de sub­meter-nos os segredos mais dolo­ro­sos da sua consciência; resolver-lhes-emos todos os casos e hão-de acei­tar a nossa decisão com alegria, porque lhes poupará o grave cuidado de escolherem por si próprios, livre­men­te. E todos serão felizes, milhões de criaturas, excepto uns cem mil, os dirigentes, excepto nós, os depo­sitários do segredo. Os felizes hão-de contar-se por biliões e haverá cem mil márti­res sob a carga do conhecimento maldi­to do Bem e do Mal. Morrerão pacifica­men­te, sua­vemente se extinguirão em Teu nome, e no Além nada encontrarão senão a morte. Mas guardaremos o se­gredo: embalá-los-emos, para sua feli­ci­dade, com uma recom­pensa eterna no Céu. Porque, se houvesse outra vi­da, não seria decerto para seres como eles.

Profetiza-se que Tu voltarás para vencer de novo, rodeado dos eleitos, po­de­rosos e altivos; e nós diremos que só se salvaram a si próprios, ao passo que nós salvámos o mundo. Pretende-se que a pecadora, montada na besta e tendo na mão a taça do martírio, será desonrada; que os fracos se revoltarão de novo, lhe rasgarão a púrpura e des­nu­da­rão seu corpo «impuro». Então eu me levantarei e mostrarei os biliões de felizes que conheceram o pecado. E nós, os que tivermos tomado sobre nós as faltas deles, para sua felici­dade, erguer-nos-emos diante de Ti, dizendo: «Não Te receio; também estive no de­ser­to, também vivi de gafa­nhotos e de raízes; também abençoei a liberdade com que favoreceste os homens, tam­bém me preparava para figurar entre os Teus eleitos, os poderosos e os for­tes, com um ardente desejo de «com­ple­tar o número». Mas dominei-me e não quis servir uma causa insensata. Voltei, para me juntar aos que corrigi­ram a Tua obra. Abandonei os altivos, regressei aos humildes, para os tornar felizes. Sucederá o que Te disse e edifi­car-se-á o nosso império.

Repito-Te: amanhã, a um sinal que eu fizer, verás o dócil rebanho trazer brasas para a fogueira, a que hás-de subir por teres vindo entravar a nossa obra. Se alguém mereceu mais que todos a fogueira, esse alguém és Tu. Amanhã, queimar-Te-ei. Dixi.»

 

Ivã parou. Tinha-se exaltado com o discurso; quando acabou, apareceu-lhe um sorriso nos lábios. Aliocha tinha-o escutado em silêncio, com extrema emo­ção. Por várias vezes tinha querido interromper o irmão, mas tinha-se con­tido. Disse então:

- Mas... é absurdo! - exclamou, co­rando. - O teu poema acaba por ser um elogio a Je­sus, não é uma censura, como que­rias. Quem vai acreditar o que disseste sobre a liberdade? Será assim que te­mos de a entender? É essa con­cepção da Igreja ortodoxa? Roma e os inqui­sidores são os piores elementos do ca­to­licismo? É simplesmente o exército romano, o instrumento da futura domi­nação universal, tendo à frente um imperador, o pon­tífice romano... Eis o ideal que eles têm; não há aí nenhum mistério, apenas a sede de reinar, a vulgar cobiça dos vis bens terrestres. O ateísmo, eis o segredo. O teu Inqui­sidor não acredita em Deus! E, já agora, como acaba o teu poema? - prosse­guiu, baixando os olhos. - Não há mais nada?

- Há. O fim que eu tinha pensa­do era este: «O Inqui­sidor cala-se, espera um momento a resposta do Pre­so. O silêncio do Preso oprime-o. O Preso escutou-o sempre, fixando nele o olhar penetrante e calmo, visivelmente deci­dido a não lhe responder. O velho gos­taria que Ele lhe dissesse alguma coisa, mesmo que fossem palavras amargas e terrí­veis. Mas o Preso ficou sempre em silêncio. E, de repente, aproxima-se, sempre em silêncio, do nonagenário Grande-Inquisidor e beija-lhe os lábios exangues. Mais nenhuma resposta. O velho tem um sobressalto, mexe os lábios; vai até à porta, abre-a e diz-lhe, apontando a porta aberta: «Vai e nunca mais voltes... nunca mais.» E deixa-o ir, nas trevas da cidade. O Preso vai.

- E o velho?

- O beijo queimou-lhe o cora­ção, mas persiste na sua Consciência.



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