Textos do
Jornal Fraternizar

Edição nº 172 de Janeiro/Março 2009

DESTAQUE 1

ESCÂNDALO!

Todo o Ocidente está aí edificado sobre

o mítico Cristo-Vencedor e o seu deus-Ídolo-Todo-Poderoso

1. Só quando Paulo, finalmente, chega a Roma como prisioneiro, é que cai definitivamente do cavalo, os seus olhos da mente e da consciência a­brem-se de par em par e ele "vê" Je­sus, a quem perseguiu todo aquele tempo de missão feita ao contrário. E porque "viu", como Tomé, o do Evange­lho de João, também acreditou, isto é, deu finalmente a sua adesão a Jesus, o do Evangelho de Marcos. Tornou-se, não judeo-cristão, mas um membro mais, das, dos Movimento ou Via Jesus, o do E­van­gelho de Marcos.

2. Todo o Ocidente está aí edificado sobre o mítico Cristo, o do Poder ven­ce­dor, esmagador dos inimigos (todos os que o não reconheçam e porventura denunciem os seus crimes) e sobre o seu Deus-todo-poderoso, que é o pior dos ídolos; não está edificado sobre Jesus, o Ser Humano por antonomásia, o Pão Partido e Repartido que se dá a comer, o Vinho Derramado que se dá a beber para a vida do Mundo, medi­an­te Práticas Políticas e económicas maiêuticas.

Estas são duas oportunas, ainda que contundentes afirmações da reflexão teológica com que o Mário, presbítero da Igreja do Porto, interveio no 13.º Encontro de Espiritualidade Jesuânica, com a Idolatria em fundo, realizado no dia 26 de Outubro 2008, na casa-sede do Jornal Fraternizar. Leiam a reflexão toda. Se escândalo tiver de haver, que seja por sempre nos terem escondido estas e outras coisas essenciais para a nossa vivência de Jesus, também século XXI adiante.

O último Fraternizar (edição n.º 171, de Outubro/Dezembro 2008) já levantou uma ponta do véu, no Destaque1, intitulado “O Livro dos Actos como você nunca o leu!”. Leram o texto? E como reagiram? Chocaram-se? Escandalizaram-se? Com o texto, ou com a realidade que ele desvela, põe a nu, depois de séculos e séculos de Mentira?

Vamos ver se hoje conseguimos, juntos como um só, penetrar mais no âmago do assunto, mais no âmago da Verdade, porque, como sabemos des­de Jesus e com Jesus, só a Verdade nos faz livres, por isso, plenamente humanos, não Poder, ao serviço da “Besta”, se somos das diversas mino­rias que o exercem; ou “Minhocas”, se somos das maiorias que o suportamos, financiamos, nos submetemos a ele, vo­tamos nele e ainda por cima o aplau­dimos, quando ele invade as nos­sas vidas, o nosso chão e nos rouba as filhas, os filhos, depois de nos ter também roubado o fruto do nosso trabalho, quando não até a alma ou a identidade.

Depois que conheceu Jesus, o do Evangelho de Marcos, sem dúvida, o mais antigo dos quatro Evangelhos canónicos e, porventura, também o primeiro testemunho escrito (anos 42-44), a dar-nos notícia, boa notícia de Jesus e do Movimento-Jesus (todas as vozes oficiais teimam em afirmar que o primeiro documento escrito do NT será a 1.ª carta de Paulo aos Tessalo­ni­censes, datada do ano 50, mas, certamente, fazem-no por razões cor­po­rativa, portanto, interesseiras, que não haveremos de acatar!), Lucas, ou melhor, as Comunidades que escreve­ram o Evangelho com este nome, me­teram ombros a uma empresa que ain­da hoje não fomos capazes de enten­der, muito menos, fomos capazes de acolher e, menos ainda, viver-praticar-prosseguir. Meteram-se a redigir um novo Evangelho, mais completo e e­xaus­tivo, em dois volumes. São as únicas comunidades de Jesus que o fazem. O Evangelho de Marcos, porém, é a sua fonte inspiradora, o paradigma do qual se não afastam nunca.

No primeiro volume, apresentam-nos Jesus, o de Nazaré, e ao seu Programa ou Projecto Político, não Re­ligioso, do Reino / Reinado de Deus. Um resumo desse Programa ou Proje­cto Político pode ler-se em Lucas 4, 16-30.

Diz a narrativa em causa que tudo se terá passado na Sinagoga de Na­za­ré, a aldeia onde Jesus nasceu e cresceu, na sua qualidade de “o carpin­teiro” e de “o filho de Maria” (é assim que testemunha o Evangelho-fonte, Marcos), e onde permaneceu até, já homem feito, se ter tornado discípulo de João, o Baptista, mas apenas até ao dia em que se experimentou total­mente “apanhado” pelo Espírito de Deus e pela Missão que Ele está em­penhado em levar por diante na His­tória. Nessa altura, deixou João e foi por toda a Galileia a dar corpo à Missão em que o Espírito de Deus-Abbá o havia investido. Fê-lo com todos os riscos que isso acarretava. É, é claro, logo no final da sua primei­ra intervenção pública na Sinagoga de Nazaré, acabou expulso por toda a gente que a frequentava e teve de cuidar-se, para não ser ali mesmo lin­chado, tão surpreendente o Projecto Político de Deus-Abbá era! O relato dessa sua intervenção na Sinagoga de Nazaré não pode ser mais explícito.

O segundo volume, mais conheci­do por Livro dos Actos dos Apóstolos, apresenta-nos Jesus, juntamente com o seu Projecto Político que é o Projecto Político de Deus-Abbá, a chegar às pessoas e aos povos do Mundo, fora da Palestina, até alcançar a Roma, a capital do Império romano que, então, era toda a Ecumene. É acolhido por alguns, recusado por muitos e ameni­za­do / adaptado / distorcido / traído por muitos mais.

No primeiro volume - é um escân­dalo que sempre nos têm escondido! – concluiu-se que nenhum dos “Doze”,  todos de origem israelita, apesar de chamados e escolhidos, um a um, pelo próprio Jesus, o chegou a entender! Todos, a começar em Simão Pedro e a acabar em Judas Iscariotes, se lhe opuseram e ao seu Projecto Politico e tudo fizeram para obrigar Jesus a mudar de ideias e de postura, para aderir ao projecto deles de restaura­ção do reino de Israel. Na sua febre messiânica e nacionalista-imperialista, ainda chegaram a descobrir / dizer que Jesus era, é, o Messias (= Cristo), o Enviado de Deus, o das Vitórias e o destruidor dos inimigos, não o Deus-Abbá de Jesus. A verdade é que a Jesus, nunca o aceitaram, nem ao seu Projecto, muito menos ao Deus dele, seu e nosso Abbá, e de todos os po­vos.

Continuaram todos fiéis e fanati­camente agarrados a Moisés, à Lei de Moisés, ao Deus de Moisés, à Teologia oficial do Judaísmo, ao Sistema teocrá­tico messiânico da casa real de David / Salomão, cujos chefes esperavam (ainda esperam?!) a vinda do Messias-Poder de Deus das Vitórias, invencível sobre todos os inimigos de Israel, que, finalmente, realizaria o Grande Dia da Vingança sobre todos os seus oposito­res ou inimigos, que o eram também dos próprios Judeus, enquanto o seu “Povo eleito”!

Os "Doze" sempre quiseram que Jesus fosse o Messias ou o Cristo des­se Deus-todo-poderoso, vitorioso, não o Homem em plenitude, o Filho-do-Homem, o Ser Humano por antonomá­sia, o homem-para-os-demais-e-com-os-demais,família-com-todas-as-famílias-e-para-todas-as-famílias, povo-com-todos-os-povos-da-terra-e-para-todos-os-povos-da-terra, como sempre havemos de ser todos nós, os seres humanos que nos prezamos de o ser, e recusamos ser outra coisa, Poder, por exemplo, ou Dinheiro, ou me­ros Funcionários às ordens do Poder Económico-financeiro, do Poder Político ou do Poder Religioso.

Como não conseguiram nunca fa­zer a cabeça de Jesus, todos os "Doze" o traíram, negaram e abandonaram. E, depois da sua Morte vergonhosa na Cruz, quando voltaram a congregar-se - é já o segundo volume do Evan­gelho de Lucas que o revela - fizeram-no pelas piores razões: para se servi­rem do seu nome, da sua memória e, à sombra dele, dela, se assumirem co­mo herdeiros dele, na linha dinástica do rei David, porque assim entende­ram o facto histórico de Jesus, ele pró­prio, antes de ter sido assassinado, os ter constituído a eles como os “Do­ze” (o número 12 remetia para as 12 tribos de Israel e para os 12 patriar­cas e, por isso, esta eleição de Jesus estava carregada de intenção e de força polí­tica simbólicas; só por si, si­gnificava / dizia que Jesus desistia de­fi­nitivamente do Israel histórico e criava / fundava um novo Israel que incluiria, desde a origem, todos os povos até aos confins do Universo, em radical igual­dade entre si, sem que algum de­les, alguma vez, tivesse sido ou viesse a ser mais do que os outros povos, como até então (e ainda hoje?!) cada povo, também o Povo Judeu da altura, pensava que era, em relação aos demais povos!

Com base neste facto, os “Doze” tinham-se na conta, inclusive, após a Morte Crucificada de Jesus, de serem uma espécie de “pais fundadores” do novo Israel nacionalista, sempre na linha davídica, a do Poder vitorioso e do Privilégio, tal e qual como o antigo Israel. E, para conseguirem ter algum sucesso, tiveram de andar da perna, porque, entretanto, os familiares de san­gue de Jesus, depois que se co­meçou a difundir entrre o povo que o Crucificado havia ressuscitado, isto é, era, no errado entender deles, o ven­cedor, e vencedor até da Morte, “o último inimigo” a ser vencido, no dizer do judeu Saulo / Paulo, em carta aos Co­ríntios, e que o seu Deus sempre era o Deus-Vingador dos inimigos, tam­bém se puseram logo à frente, como os seus herdeiros dinásticos, na linha do sangue. (Quando cheira a Poder e a Privilégio, não faltam candidatos, ain­da hoje é assim e, por isso, este nosso Mundo continua como se sabe e se vê!).

Se Reino de Deus haveria, e para breve, então seriam eles, os familiares de sangue de Jesus, a ter os melhores e os mais influentes lugares de Poder. Nem o facto  histórico e incontornável da Morte ignominiosa de Jesus na Cruz, como o maldito dos malditos, lhes abriu os olhos, nem a eles, nem ao grupo dos “Doze”, então, “Onze”, depois que Judas abandonou de vez a via-Jesus, pois, como se pôde ver nos acontecimentos do Calvário, nem o Deus dele, o Abbá, serviria para na­da, uma vez que não interviera para o “safar” da mão dos seus inimigos. Se­melhante Deus, como o Abbá de Jesus, não lhe interessava para nada (não seremos todos, hoje, ainda como Judas?! Não cremos / queremos Deus, mas apenas no das vitórias, não no frágil Abbá de Jesus que, ao contrário do que sempre nos disseram, não faz nunca “milagres”, pelo menos sem nós a trabalhar na primeira linha da frente, apenas age-misteriosamente-em-nós-e-connosco, sempre que nós lhe da­mos oportunidade?!).

Todos eles - diz o segundo volume do Evangelho de Lucas - regressaram a Jerusalém, e Jerusalém entendida em sentido sagrado, não em sentido geo­gráfico / profano; e regressaram ao Templo, esse mesmo que Jesus ha­via simbolicamente destruído, assim como ao seu Tesouro que sacrilega­mente bebia o sangue dos pobres, co­mo fez, para escândalo de Jesus, à­quela viúva pobre, a quem ele viu ar­rancar até o único e último cêntimo de que ela dispunha para viver!

Todos eles regressaram às rezas rituais do Templo, que Jesus-em-Mis­são nunca fizera, às tradições dos an­tigos e até ao Deus dos sumos-sacer­dotes, em nome do qual e para sua gló­ria, Jesus havia sido crucificado por eles, em coligação com o Império ro­mano. De tudo isto nos dá testemunho o segundo volume do Evangelho de Lucas, logo no primeiro capítulo (está lá tudo, mas nós, até hoje, temos sido impedidos de ver, graças às cateque­ses da Cristandade e das outras Igrejas cristãs filhas dela e tão perversas qu­an­to ela, senão mesmo ainda mais).

Na sala de cima (sabiam que até esta era uma dependência do Templo de Jerusalém?), estão, de um lado, Pe­dro, o líder ou chefe dos “Doze”, en­tão “Onze”, devido ao auto-afastamento definitivo de Judas, e, do outro lado, Tiago, o irmão de sangue de Jesus e os outros irmãos com as respectivas mulheres, mais as irmãs de Jesus, jun­tamente com Maria, a mãe de Jesus (referida no texto pelo nome próprio, o que indica um facto histórico e não só teológico!).

Os dois grupos ou partidos estão ali, em tensão, a defender os seus in­te­resses dinásticos de Poder, não es­tão com a mínima vontade de serem outros Jesus e de prosseguirem o seu Projecto Político Universal e a sua via que eles nunca aceitaram, até ao mo­mento da sua morte na cruz (o relato da Paixão de Jesus, no primeiro volu­me, não deixa margens para dúvidas).

O que os seduzia, a um e outro grupo ou partido, não era Jesus, a quem crucificaram, mas o Cristo ou Mes­­sias de Deus Vencedor dos inimi­gos, o Deus do Templo, o Cristo / Mes­sias das vitórias, o esmagador dos seus inimigos e dos inimigos de Israel e o restaurador pela força do reino de Is­rael, à semelhança do que, em seu tempo, havia feito a casa real de David / Salomão.

Tudo, como se o facto histórico de Jesus ter sido Crucificado, em nome de Deus, o do Templo, e do Império, o romano, não tivesse sido verdade, ou, no máximo, tivesse sido uma pe­que­na distracção de Deus, ou um lapso, ou uma estratégia errada e infeliz de Deus que, depois, arrependido, havia corrido a emendar a mão, ao ressus­citá-lo dos mortos! E foi assim, nestes precisos termos teocráticos, que ambos os bandos, o Grupo dos “Doze” e os fa­mi­liares de sangue de Jesus, interpre­taram a notícia que já corria entre o povo acerca do Ressuscitado Jesus!

Viram nela, não que Deus, nosso Abbá e de todos os povos da terra, dava razão a Jesus; que era com Jesus a quem crucificaram que Ele estava, e não com os sumos-sacerdotes, seus verdu­gos e algozes, nem com o Templo-covil-de-ladrões que eles exploravam e geri­am como um Banco nacional, nem com as rezas, nem com as Tradições dos antigos, nem com a Religião, nem com os sacrifícios de animais que tinham lugar no Templo, a toda a hora do dia e da noite, nem com o Império romano ou outro qualquer, qual deles o mais perito em produzir vítimas humanas, crucificados, queimados vivos, assas­si­nados, peritos todos em genocídios e eco­cídios.

Daí a pressa de Pedro (o seu nome é Simão, mas aqui no início do 2.º volu­me do Evangelho de Lucas aparece sem­pre como Pedro, para, desse modo deixar bem claro que é o chefe do Gru­po / Partido, o buscador de Privilégios e de Poder que actua, não o ser huma­no, simplesmente, como sempre deveria ele ser e seria, se, nessa altura, já ti­vesse acolhido Jesus e prosseguido a sua via e o seu Projecto) em restaurar o grupo simbólico dos “Doze”, o novo Israel, para, desse modo, fazer frente a Tiago, o chefe dos familiares de san­gue de Jesus, onde se incluía a sua mãe, Maria, então ainda sem se ter tor­nado das, dos de Jesus, a quem cruci­ficaram e fizeram o maldito dos maldi­tos, como depois, mais tarde, terá acon­te­cido, se bem que não haja notícia do facto no Novo Testamento, embora ele chegue a ser sugerido pelo Evan­gelho de João, no relato teológico do Calvário, junto à Cruz, onde se fala ex­pressa­mente da presença da “mãe de Jesus”, mas não se diz nunca “Ma­ria”, e, como sa­bem todos os exegetas que se pre­zam, as duas expressões, embora pare­çam, de facto não são sinónimas!

O conflito entre o bando chefiado por Tiago e o bando chefiado por Pe­dro acabou num acordo, num consen­so, co­mo ainda hoje sucede muitas vezes en­tre candidatos ao Poder e aos poleiros que o Poder garante a quem estupida­mente o serve.

Tiago ficou chefe da Igreja de Je­ru­salém (uma espécie de sumo-sa­cerdote ou de papa, no nosso dizer de hoje), a reunir sempre no Templo, esse mesmo Templo que o seu irmão Jesus simbolicamente destruíra, do qual se afastara para sempre e que, não só por isso, mas também por isso, o condenou à morte e o crucificou (ve­jam bem toda esta contradição!). E Pedro, juntamente com João, agora, convertido no seu braço direito (já no primeiro volume, ele e seu irmão Tia­go, denominados “Filhos do Trovão” por Jesus, tamanhas eram as suas am­bições, pretendiam ocupar os dois prin­ci­pais lugares do Reino, um à direita e outro à esquerda de Jesus-rei-pre­sidente!!!), sempre em tensão com Tiago, o irmão de sangue de Jesus, lá acabou confirmado como chefe do restaurado Grupo dos “Doze” (Matias preencheu a vaga criada pelo auto-afastamento definitivo de Judas), uma restauração feita totalmente à revelia do querer de Jesus, que nunca mais fez nada para o restaurar, como os fa­ctos teológicos que imediatamente se sucederam, após a sua Morte Cru­cificada, depressa se encarregaram de revelar e o próprio Espírito Santo, pela boca dos profetas jesuânicos que o Mo­vimento das, dos Jesus fez des­poletar, também vieram cabalmente a confirmar).

Cada qual no seu galho, lá se su­portaram um ao outro, sempre na ex­pectativa de que o Cristo ou o Messias davídico viesse de novo, agora tri­un­fante sobre as nuvens do céu e, com ele, viesse o Reino de Deus, aconte­cimento que ambos os bandos pensa­vam para daí a dias ou semanas. En­tão, ser-lhes-iam atribuídos pelo Mes­sias vitorioso e vingador dos inimigos dos Judeus, os melhores lugares e os melhores postos.

Só que o Messias ou o Cristo vito­rioso, na linha da casa real de David / Salomão, que ambos os bandos espe­ravam, não veio nem por aqueles dias, semanas, meses, anos e nunca virá. Porque não existe. Não passa de um Mito que, na força idolátrica que o Po­der do Grande Dinheiro, do Império e do Templo, os três como um só, simbo­licamente lhe atribuem e conferem, até tem servido, para destronar da Memó­ria dos Pobres e dos Povos, Jesus, o de Nazaré, a quem essa sua perversa Trindade, exemplarmente crucificou como o maldito dos malditos, para que ele nunca mais o incomode, nunca mais se intrometa nos seus assuntos, como se atreveu a intrometer daquela vez em Jerusalém e por isso ela de imediato o matou da forma infamante que se sabe.

Segundo este volume dois do E­van­gelho de Lucas, erradamente cha­mado Livro dos Actos dos Apóstolos, Tiago, o irmão de sangue de Jesus, nunca mais terá tido emenda. Nunca terá chegado a dar a sua plena ade­são a Jesus, a quem crucificaram, nem ao Movimento das, dos de Jesus que prosseguiam as suas mesmas Práticas maiêuticas. Ficou sempre fanaticamen­te agarrado ao Cristo ou Messias, o do Poder davídico-imperial. Nunca pas­sou do mítico Cristo, para o Ser Hu­mano em plenitude, Jesus, o seu irmão de sangue. Nunca reconheceu Jesus, o de Nazaré, nem o Deus de Jesus, o Abbá de todos os povos sem distinção. E, como ele, a esmagadora maioria da Humanidade através dos séculos que, ainda hoje, continua ainda a não o re­conhecer, apenas ao mítico Cristo das vitórias, o dos poderosos.

Mas a verdade é que só Jesus, o de Nazaré, do qual dá testemunho o Evangelho de Marcos e, com ele, os outros três Evangelhos canónicos, Ma­teus, Lucas e João, é o Homem histó­rico por antonomásia, o Ser Humano que o Templo e o Império não suporta­ram e por isso, juntamente, com os do Grande Dinheiro, então representado pelo Sinédrio, mataram sem apelo nem agravo. E é este Jesus, apenas ele, o inspirador-anunciador-praticante até ao limite e até para lá do limite do Projecto Político de Deus-Abbá, que consiste em fazer de todos os Povos do mundo, o seu Povo, em quem Ele misteriosamen­te habita em permanên­cia, um povo de muitos povos, sem tem­plos nem altares, sem sacerdotes e sem cultos ritualiza­dos, apenas com Mesas Partilhadas e Práticas Maiêuti­cas que façam de cada ser humano e de cada povo, sujeito, pro­tagonista, se­nhor dos próprios des­tinos, constituí­dos em estado de maio­ridade e em comunhão permanente uns com os ou­tros, o único que anda carre­gado de Futuro, por isso, é o Nosso Al­fa e o nosso Ómega.

Como se vê, já por aquela altura, logo nos começos, após a Morte Cruci­ficada de Jesus, o mítico Cristo depres­sa teria conseguido “comer” definitiva­mente Jesus e hoje nem sequer saberí­a­mos da sua existência histórica, muito menos, do seu Projecto Político univer­sa­lista, e menos ainda do seu Deus-Abbá que o é de todos os povos. Semelhante desgraça só não se consumou, graças aos dois ou três, elas e eles, mais elas do que eles, que depois de tudo consumado, continuaram a encon­trar-se clandestinamente e longe de to­das estas guerras do grupo dos “Doze” e dos familiares de Jesus, pela con­quista do Poder davídico.

Fizeram-no, não, obviamente nal­guma dependência do Templo de Jeru­salém que havia assassinado Jesus, nem sequer na Jerusalém sagrada, en­ten­di­da como espaço sagrado, mas na casa de uma das Mulheres que, desde a primeira hora, tinham andado com ele e até tinham livremente passado a partilhar com ele e com o seu Movi­mento de Missão os seus próprios bens materiais (Lucas 8, revela que Maria Madalena é a principal animadora des­te Grupo, nos antípodas de Pedro e do grupo dos “Doze” que ele lidera­va, sem­pre contra Jesus).

Havia sido na Galileia onde toda a Subversão / Conspiração Jesus, o de Na­zaré, começou, até concluir na constatação teológica do seu “túmulo va­zio”, porta aberta para elas, e nós com elas, chegarmos ainda hoje a dar pela misteriosa Presença do Ressusci­ta­do Humanado Jesus, o Ser Humano em ple­nitude, em quem Deus Criador e Ressuscitador, seu e nosso Abbá,  sempre habita e se revela, esse mesmo em quem esses dois ou três, elas e eles, en­tre os quais João Marcos, o do Evan­gelho que leva o seu nome, haviam visto não o Messias, o Cristo vencedor e vingador sobre todos os inimigos, mas o Homem cheio de graça e de verdade, a quem Deus-Abbá deu razão, o Homem cheio do Espírito San­to, o Homem So­pro, Vento, Movimento, Subversão, Cons­piração, que Poder algum, político, religioso-eclesiástico, económico-finan­ceiro jamais poderá prender, por mais que o não suporte. E só ele é, até agora, o Ser Humano De­finitivo, em plenitude.

A casa em questão era a de Maria, mãe, não de Jesus, mas a de João Mar­­cos, o do Evangelho do mesmo nome, sem o qual não saberíamos de Jesus, o de Nazaré, “o carpinteiro”, “o filho de Maria”, apenas saberíamos de Cris­to, o mítico Cristo vitorioso, esse mesmo que está na origem do Cristia­nismo. Ali, naquela pequenina Comuni­dade-Movimento de Jesus, não se dis­cu­tia Poder, nem se discutiam lugares, privilégios, tronos, hierarquias, apenas se pratica­vam Serviços Maiêuticos, bem na linha, não do Messias-rei David, mas na do Servo Sofredor de Javé.

Quer isto dizer que todas, todos eram militantes políticos, não Poder po­lítico ou religioso, todas, todos eram prosseguidores das mesmas Práticas Maiêuticas de Jesus, anunciadores e realizadores do seu mesmo Projecto Político do Reinado de Deus até aos confins do mundo, o qual incluía todos os povos sem discriminação de ne­nhum deles.

Pois bem, é à porta desta pequeni­na Comunidade-Movimento de Jesus, a quem crucificaram, a viver congre­gada longe do templo e sem sacerdo­tes, que um dia, muito mais tarde, ines­pe­radamente, Simão Pedro foi bater, precisamente, depois que finalmente se converteu a Jesus e ao seu Projecto Político do Reinado de Deus e se libertou para sempre do Messias ou Cristo do Poder vitorioso dos inimigos, na linha do rei David, e reconheceu que Jesus, a quem crucificaram, é quem tinha razão e, por isso, decidiu ser com ele outro Jesus e integrar o Movimento das, dos de Jesus.

A boa Notícia ou Evangelho - uma Revolução em toda a linha e com a for­ça de um tsunami - vem relatada no segundo volume do Evangelho de Lucas (Actos 12. Vale a pena ler na Bí­blia. Mas não esqueçam que o relato é sobretudo teológico. A “prisão” de que aí se fala é a ideologia do Cristo / Mes­sias davídico, um Mito que, sob múl­tiplas formas históricas, tem levado à prática de todas as barbaridades que se conhecem, por parte do Poder, reli­gio­so-eclesiástico incluído, ao longo da História. O contraste com a Igreja de Jerusalém presidida por Tiago e es­ta pequenina Comunidade-Movimen­to das, dos de Jesus, é total. Esta co­mu­nidade-Movimento de Jesus situa-se nos antípodas da outra que hoje está aí bem representada no Vaticano e na sua Cúria romana. Com lágrimas o escrevo).

Pedro, uma vez convertido a Je­sus, a quem crucificaram, desaparece praticamente das páginas deste se­gun­do volume. Sai de cena. Só a ocu­pou, enquanto resistia à Acção do Es­pírito Santo, o de Jesus e à sua via de não-Poder, de não-Idolatria, a via da total Entrega da própria vida pela vida do mundo, feito Pão Partido e Re­partido, Vinho Derramado. Sai Pedro de cena e entra em cena Saulo, tam­bém chamado Paulo.

O segundo volume do Evangelho de Lucas conta no capítulo 13, logo a abrir: “Havia em Antioquia [longe de Jerusalém e do Templo!], segundo o uso da comunidade local, profetas e dou­tores, a saber: Barnabé, Simeão, o Negro, e Lúcio, o de Cirene, assim como Manaen que tinha sido educado com o tetrarca Herodes, e Saulo.”

Infelizmente, sempre nos levaram a ler os textos do Novo Testamento como pie­dosas anedotas, estórias de encantar, relatos maravilhosos de en­cher o olho e o ouvido. E eles são textos alta­mente teológicos e maiêuticos que pre­ten­dem despertar em nós que os ouvi­mos ler, a mesma Fé de Jesus que, lá onde existir bem activa, depressa dispensa e expulsa a Fé religiosa, feita de Medo e de intermediários comerci­an­tes, para fazer de nós outros Je­sus, em cada tempo e lugar.

Neste aspecto, as nossas tradu­ções e edições da Bíblia, com as suas anota­ções a negrito e notas de pé de página, são verdadeiros atentados à inteligên­cia humana e até causa de ateísmo, ta­manha é a infantilidade que os atravessa. Um autêntico vómito que, por sua vez, só pode fazer gente vomitada, caso as pessoas, as aceitem e reproduzam, tal e qual, acriti­camente. O que sucede, fatalmente, à maior parte das pessoas das Igrejas e, muito em especial, às Testemunhas de Jeová. Um vómito.

Ora bem, desta comunidade de cin­co membros (os números na Bíblia in­di­cam qualidade, não quantidades!), três eram provenientes do Paganismo, por isso, não-Judeus, e eram todos pro­fe­tas, isto é, especialistas em ler os chamados Sinais dos Tempos; e os dois res­tantes são de origem judaica, ambos doutores, especialistas em Moisés e nos Profetas bíblicos, portanto, peritos em Judaísmo, na linha davídica vitoriosa e da Lei de Moisés, portadores de um projecto nacionalista-imperialista de Povo eleito que, com o Messias triun­fa­dor, haveria de esmagar os inimigos de Deus e os seus próprios, para im­por o seu domínio e o do seu Deus a to­dos os povos.

A maioria, como se vê, era de ori­gem pagã e os seus membros eram pro­fetas. Foi o que valeu. Diz o relato - ele é fundamental para entender o resto deste segundo volume até ao final, ca­pí­tulo 28 - que o Espírito Santo invadiu a celebração semi-judaica que estavam a realizar e deu cabo dela e até daque­le grupo ou comunidade. A intervenção terá sido, obviamente, pela voz e pela vez de algum dos três pro­fetas, ou pelos três, ao mesmo tempo, que na­quela ocasião, “partiram a lou­ça” e se levantaram contra a pretensão e o do­mínio dos doutores e contra a sua ten­ta­tiva de dominarem ideologi­camente a Profecia, como ainda hoje sucede nas Igrejas paroquiais e nas catedrais, onde até é proibido alguém ter voz e vez, a não ser o presidente clérigo e celibatário à força, intérprete e defensor do ponto de vista do Poder de Roma, da Cúria romana e do seu papa!

Mandou o Espírito Santo - vejam só! - que separassem Barnabé e Saulo, por esta ordem (o profeta à frente do doutor) para a Missão aos Pagãos, a que os tinha destinado, em lugar de con­tinuarem todos ali no bem-bom do culto judaizante. Não os envia aos Ju­deus, então demasiado fechados a Je­sus, Judeu como eles, mas Dissi­den­te e Blasfemo, Samaritano e Pos­sesso do Demónio no dizer-testemu­nhar oficial dos seus opositores, teólo­gos credenciados, conforme se pode ver nos E­vangelhos, e todos totalmente contrá­rios ao seu Projecto Libertador e universalista, devido ao Judaísmo en­si­nado nas Sinagogas e no Templo, como hoje, entre nós, devido ao Catolicismo Romano ensinado nas Paró­quias e nas Dioceses territoriais, no interior das quais o Espírito não chega nunca a ter voz nem vez, e, no seu to­do, até de Deus fizeram e fazem um ídolo, justificador e canonizador das suas pre­po­tências e arbitrariedades.

E lá vão Barnabé e Saulo em Mis­são, sem saberem bem por onde iniciar. Aos dois, virá juntar-se quase logo, João Marcos, o único que sabe garanti­damente de Jesus a quem crucificaram e do seu Projecto libertador do Reinado de Deus, e não confunde Jesus com o mítico Cristo vitorioso, da casa real de David / Salomão, o Cristo vencedor e destruidor dos inimigos de Deus.

Quem lê o segundo volume do E­van­gelho de Lucas com olhos de ler-entender, logo se dá conta de que Saulo, doutor da Lei, toma, desde a primeira hora da ida em Missão, de imediato a dianteira sobre Barnabé, profeta, contra a manifesta vontade do Espírito Santo. O doutor, de origem ju­dai­ca, fariseu de escola, sobrepõe-se de imediato ao profeta, de origem pagã. Como podiam ir em Missão aos Pagãos, se a Lei silencia a Profecia, o Judaísmo silencia os Povos não-Judeus, o mítico Messias davídico mata Jesus, o da Boa Notícia de Deus? Manifestamente, o seguidor do mítico Cristo davídico, triunfador dos inimigos, fica sobre o se­guidor e o prosseguidor de Jesus, a quem crucificaram. E a prova é que, onde quer que o grupo de enviados pelo Espírito Santo chegue, dirige-se in­variavelmente, não aos Pagãos, co­mo lhe tinha sido ordenado, mas à Si­nagoga dos Judeus. E quem toma habi­tualmente a palavra na Sinagoga é Paulo, doutor da lei, não o profeta Bar­nabé, menos ainda João Marcos, o do Evangelho de Jesus.

Em consequência, a Missão anun­cia o Cristo / Messias triunfador, o es­pe­rado pelos Judeus, e silencia Jesus, a quem crucificaram. Anuncia o Messias triunfador dos inimigos (a morte será o último inimigo a ser vencido, diz!) que vem vencer e esmagar os inimigos (pa­ra isso Deus o ressuscitou dos mortos e ele está aí breve a voltar - assim se pensava e ensinava - sobre as nuvens do céu para consumar a sua obra!), não anuncia Jesus que arrasou o Judaísmo, como Sistema teocrático, a concepção de Messias ou Cristo do Po­der davídico; não anuncia Jesus, o Político libertador de Deus e do Reinado de Deus, empenhado, desde o início da Humanidade em fazer de todos os povos o Povo de Deus, feito de muitos povos, a viverem em redor de Mesas Partilhadas com o melhor de cada qual.

Barnabé dá-se conta do golpe de mestre de Paulo, da traição de Paulo a Jesus e ao Evangelho de Deus-Abbá que Jesus é, mas contemporiza, por um tempo, sempre na esperança de ver Paulo mudar radicalmente. Marcos, po­rém, não está pelos ajustes e afasta-se pouco tempo depois e definitiva­men­te. Melhor, é obrigado a afastar-se, por­que Paulo assim o exige.

Mais tarde, noutra das viagens em Missão, também Barnabé fica de fora, por decisão do mesmo Paulo. É trocado por outros, à revelia do Espírito Santo. Paulo fica, assim, rei e senhor, a pregar um Cristo que não tem nada ou quase nada de Jesus, o do Evangelho de Mar­cos e que está na origem do Cris­tia­nismo que hoje impera no Ocidente e um pouco por todo o mundo. Um Cris­tianismo, fundado sobre um Cristo mí­tico, vencedor dos inimigos, um Cristo todo-poderoso, cujo Deus exigiu o sa­crifício do próprio filho para, desse mo­do, redimir / salvar a Humanidade. Uma monstruosidade teológica, à luz da Teo­logia de Jesus. Por isso, o anti-Evangelho de Jesus, o de Marcos, cuja Mor­te Crucificada ocorreu, não por determinação de Deus-Abbá, obvia­men­te, mas apenas por Jesus se ter dado conta e logo se ter oposto ao pro­jecto de Poder político que já vinha da casa real de David / Salomão; ter anun­ciado e feito presente no seu viver o Rei­nado de Deus que inclui todos os povos em radical igualdade, sem que nenhum deles seja povo eleito; ter-se oposto a todo o tipo de sacrifício, a todo o tipo de culto religioso e, sobretudo, por ter revelado, por parábolas e pelas suas Práticas Políticas e Económicas Maiêuticas a favor das populações opri­midas e excluídas do país, que o Deus do Templo de Jerusalém e dos sumos-sacerdotes era um ídolo, um explora­dor dos pobres, um vampiro, mentiroso e assassino.

Paulo é incansável na sua missão, de cidade em cidade. Mas o que o faz correr, não é a Missão que o Espírito Santo pretendia e pretende. É pratica­mente o seu oposto, a sua negação. Resiste uma e outra vez e sempre ao Espírito Santo e faz tudo ao contrário do que Ele pretende.

O segundo volume do Evangelho de Lucas di-lo claramente. E só quando, finalmente, Paulo chega a Roma, como prisioneiro, onde, apesar de tudo, goza de uma certa liberdade, é que ele cai definitivamente do cavalo, os seus olhos da mente e da consciência a­brem-se de par em par e ele “vê” Je­sus, a quem perseguiu todo aquele tempo de missão feita ao contrário. E porque “viu”, como Tomé, o do Evange­lho de João, também acreditou, isto é, deu finalmente a sua adesão a Jesus, o do Evangelho de Marcos. Tornou-se, não cristão, mas um membro mais, das, dos Movimento ou Via Jesus, o do E­van­gelho de Marcos.

Quando esta sua conversão suce­de, o segundo volume do Evangelho de Lucas também acaba. Já não tem nada mais a dizer, porque já tinha mos­trado à saciedade como não havemos de fazer, se quisermos vir a ser das, dos da Via ou Movimento Jesus, a quem crucificaram como o maldito dos mal­ditos.

Ora, é deste Cristo mítico de Paulo e, antes dele, de Pedro até à sua ra­dical e definitiva conversão a Jesus, o do Evangelho de Marcos e, ainda antes de Pedro, do grupo dos “Doze”, que as Igrejas todas continuam aí hoje a falar com destaque para a nossa Igreja católica que, para cúmulo, con­tinua a ser mais Cristandade do que Igreja-Movimento das, dos de Jesus. Não nos falam nem anunciam - nisso, as chamadas Missões católicas e pro­testantes são um desastre, com dimen­sões de genocídio, inclusive, cultural - Jesus, o do Evangelho de Marcos e o dos restantes Evangelhos, todos ins­pirados no de Marcos e no mesmo Espírito que inspirou Marcos.

Por isso, vinte séculos passados sobre a Morte Crucificada de Jesus, escândalo para todos os seguidores do mítico Cristo do Judaísmo de Paulo, antes da sua definitiva conversão, fun­damento de todos os imperialismos e de todo o tipo de Poder, e loucura para os filósofos e todos os ateus ilustrados do nosso tempo que sempre confundem Jesus com o Cristo das Igrejas eclesi­ásticas e das Religiões, quando não apenas com o da Cúria Romana e da sua corte imperial, temos hoje aí o Cris­tianismo, mas (quase) não temos Jesus, nem Movimento das, dos de Jesus, mais Vento e Sopro do que grandes estrutu­ras eclesiásticas. Há aí os cristãos, elas e eles, mas quase não há as, os de Jesus.

Todo o Ocidente está aí edificado sobre o mítico Cristo, o do Poder ven­ce­dor, esmagador dos inimigos - todos os que o não reconheçam e porventura denunciem os seus crimes - e sobre o seu Deus-todo-poderoso, que é o pior dos ídolos; não está edificado sobre Jesus, o Ser Humano por antonomásia, o Pão Partido e Repartido que se dá a comer, o Vinho Derramado que se dá a beber para a vida do Mundo, medi­an­te Práticas Políticas e económicas maiêuticas.

Com o Poder que o Cristo mítico fundamenta e abençoa, está também o ídolo do Grande Capital ou o Grande Dinheiro. E está, sempre, infalivelmen­te, o Religioso, hoje até servido pelas Igrejas que, envergonhadamente, ain­da se reclamam, por vezes, de Jesus, e quase sempre apenas de Cristo!

Há lugar no nosso Mundo para todos estes ídolos. Só não há lugar pa­ra os seres humanos, mulheres e ho­mens, livres, criadores, cultos, sábios, poe­tas, profetas, todos em estado de maioridade, bem ao jeito de Jesus. A Idolatria é, pois, completa e total. É ela que domina / esmaga / tolhe / mata os Povos. Esta é a sua hora. A hora do Poder da Treva.

Missão precisa-se. A das, dos de Jesus. Não a do mítico Cristo de Paulo antes de se ter convertido definitiva­men­te a Jesus.

Vem, Senhor (= o Ser Humano na sua plenitude) Jesus! Vade retro, Cristo, Vencedor, o mítico fundamento de todo o Poder, sempre mentiroso e assassino.

Felizmente, até Paulo acabou por desistir do mítico Cristo davídico / ven­cedor e tornou-se das, dos de Jesus, como antes dele, já havia feito Pedro.

Mas as Igrejas que falam tanto de Paulo e de Padro e, este ano paulino, sobretudo de Paulo, ainda não foram capazes de dar este decisivo Passo ou PÁSCOA para Jesus que eles, finalmente, deram.

Ainda vão mais pelo mítico Cristo de Paulo, antes da sua definitiva con­ver­são a Jesus, do que por Jesus, o do Evangelho de Marcos. Para mal delas. Para mal das populações de que elas se pensam guias. Para mal dos Po­vos. E, muito particularmente, para mal dos Pobres!


DESTAQUE 2

É tão mentiroso, que quer convencer-nos de que não existe!...

O anúncio pode nem chegar a circular nos autocarros de Londres. Pode ser que, à última hora, algum dos zelosos crentes em Deus (que Deus?, pergunta sempre quem partilha da mesma Fé de Jesus) consiga embargar o anúncio. E com isso ficamos todas, todos a perder. Porque é importante que as pessoas e os povos descubram quanto o Deus-Ídolo do Religioso, que dá cobertura ao Deus-Ídolo Dinheiro e ao Deus-Ídolo Poder é perverso, mentiroso. Porque a existência de tão Perversa Trindade é hoje tão obscenamente visível e activa no Mundo, que ela tem necessidade de vir fazer constar urbi et orbi que provavelmente não existe. Olho vivo!

“Provavelmente, não há Deus, por isso, deixa de preocupar-te e goza a vida”. Este é o teor de um anúncio que, neste mês de Janeiro 2009, os auto­car­ros de Londres “gritarão” aos lon­dri­nos, elas e eles, e ao Mundo.

Não sei se os ateus portugueses se atreverão a outro tanto. Tão pouco sei se os administradores dos autocar­ros da Carris, em Lisboa, estarão pelos ajustes. Mas, como se trata de ganhar dinheiro - a publicidade faz-se pagar caro e este anúncio, pelo que tem de provocador, deve sair ainda mais caro que os que anunciam produtos de bele­za ou comida para cães e gatos - é bem possível que, se houver quem pa­gue, o mesmo anúncio ou outro ainda com mais sal e pimenta de provocação, poderá vir a circular também nas ruas de Lisboa.

Pensam que eu, como presbítero da Igreja do Porto, estou preocupado com esta manifestação de agressivo ateísmo? De modo algum. Por mim, digo até mais:

Pena é que não tenha sido já no an­terior mês de Dezembro, mentirosa­mente dito de Natal, que o anúncio começou a dar-se a ler aos londrinos nos autocarros que circulam nas ruas da capital do Reino Unido. E pena é que esta provocadora proclamação de ateísmo não apareça escrita, da noite para o dia, nas paredes de todas as igre­jas e capelas de Lisboa, do nosso país e da Europa, também e sobretudo, na nova basílica de Fátima, a dos 80 mi­lhões de euros pagos a pronto, e na velha basílica de S. Pedro, a do Papa de Roma.

Já agora, também - e porque não?! - nas paredes de todos os Bancos por­tugueses, da Europa e do resto do Mun­do. E nas paredes dos palácios de governo. E nas paredes dos quartéis-generais que pensam as guerras e dão as directrizes de como elas devem ser feitas, ao mesmo tempo, que fornecem os carros de combate e os soldados armados até aos dentes, carne para canhão e para minas e armadilhas. E ainda nas paredes das grandes super­fí­cies a abarrotar de produtos para ven­da, esses mesmos que faltam em mi­lhões e milhões de bocas e de barracos onde os corpos dessas bocas sobrevi­vem por muitos poucos anos, já que a maior parte morre antes de tempo. De fome. De fome, ouviram?!

E, já agora, coloquem esta procla­mação escrita também nas paredes das sedes das transnacionais que nos be­bem o sangue e comem os ossos e ain­da ganham fortunas com os funerais dos cadáveres dos que, em vida, con­se­guem escapar ao seu insaciável, demente e descontrolado apetite.

Os donos de todas estas institui­ções, aparentemente, tão díspares entre si, têm todos um denominador co­mum: todos são ateus, mas apenas de Deus-Abbá, o de Jesus, que nunca nin­guém viu nem verá, porque, entretanto, todos são adoradores do Deus-Ídolo que se vê e que subsiste aí sob a forma de trindade, o Grande Dinheiro, como pai, o Grande Poder Político e Eco­nó­mi­co-financeiro, como filho, e o Grande (Poder) Religioso como espírito santo, ao qual compete, a este último, a deci­siva missão histórica de (en)cobrir com a sua sombra e com a sua escabrosa Hipocrisia religiosa os outros dois e to­dos os seus crimes, os mais hediondos.

Ora, o anúncio que, a partir de des­te mês de Janeiro 2009, vai circular, em grandes cartazes afixados nos au­to­carros, pelas ruas da cidade de Lon­dres é exclusivamente deste Deus-Ídolo que fala. Só que o anúncio é uma gran­de mentira, como de resto, toda a publi­ci­dade que se faz pagar bem paga é sempre mentira.

E porque o digo eu com tanta cer­teza? Ora, porque o Deus a que o a­nún­cio se refere existe mesmo! E por­que ele existe e é hoje tão visível a sua existência, é que o anúncio vai di­zer que ele provavelmente não existe. Mas ele existe. Está aí bem à vista de todos. Obscenamente! Aliás, é até ele que (escrevi "que", não "quem") paga o anúncio a dizer que provavelmente não existe.

Pensam então que ele é um Deus-Ídolo suicida? Se pensam, só podem ser ingénuos. Ele paga bem pago para fazer circular este anúncio, a dizer que provavelmente não existe, primeiro, por­que é mentiroso e pai gerador de mentira. Segundo, porque convém-lhe que as novas gerações que estão hoje a chegar à idade de tomar as rédeas do Mundo, dominado e governado por ele, cresçam na convicção de que ele não existe. Assim, ele tem-nas ainda mais na mão, no papo.

Serão capazes de vender até a pró­pria mãe, o próprio pai, ou de matar até a própria mãe, o próprio pai, de des­gosto, de vergonha, ou de vaidade e de orgulho, só para conseguirem - vejam lá! - um lugar ao sol à frente de algum dos muitos executivos de que ele necessita para se expandir e se multiplicar em progressão geométrica, de modo a controlar todos os povos e cada indivíduo, dia e noite, ininterrupta­mente.

O nosso Cristiano Ronaldo, por e­xem­plo, é, neste momento, um dos ros­tos destas novas gerações que é pre­ciso convencer que este Deus prova­velmente não existe. Cristiano Ronaldo podia continuar a fazer bem o que sabe fazer, jogar futebol como poucos ou ne­nhuns serão tão capazes, por sinal, uma actividade que não está a contri­buir para tornar mais humano o nosso mundo, apenas contribui e muito para mantê-lo alienado, ainda mais do que o que ele já está, mas podia continuar a fazê-lo apenas pelo prazer pessoal de o fazer. Não, como ele actualmente o faz, escravo da fama, do Dinheiro, do Poder, dos Milhões, da Vaidade. Po­dia fazê-lo como jovem, como homem, como atleta. Mas sem jamais se deixar “apanhar” pela máquina trituradora da Idolatria, a da perversa trindade que do­mina e intoxica as mentes e as cons­ci­ên­cias das pessoas e dos povos. Sem jamais fazer o jogo dessa perversa trindade. Sem jamais se deixar comprar por ela. Sem jamais se deixar prostituir por ela e com ela. Sem jamais se lhe vender. Sem jamais se prestar a ser o seu anjo perverso ou mensageiro que, com o seu nome, o seu exemplo e as suas declarações, até com os anúncios em que entra como protagonista, aju­da, como nenhum mais, neste momento da História, a fazer passar, para as no­vas gerações, a dele e as que vêm atrás da dele, a Mentira de que a Idolatria da trindade mais perversa é que é a salvação dos povos, quando é a sua mais completa ruína.

Cristiano Ronaldo seria super-hu­ma­no, super-herói - e eu seria o pri­meiro a abraçá-lo e a congratular-me com ele e com a sua família - se, ao invés do que está a fazer, recusasse tudo isso, desprezasse tudo isso, dis­ses­se, lúcida e corajosamente, ao Mun­do que tudo isso é esterco e que só serve para ajudar a esconder os crimes de lesa-Humanidade, de lesa-Povos, de lesa-Pobres, de lesa-Natureza que essa Idolatria trinitária está aí, dia e noite, a cometer. Impunemente. Sem que ninguém lhe vá à mão, meta na ca­deia os seus gestores, executivos, clérigos e pastores, numa palavra, a decapite duma vez por todas.

Infelizmente, não é por aí que o jovem Cristiano Ronaldo vai. Pelo con­trário, vemo-lo estes dias a fazer tudo para se vender por um preço que até hoje nenhum dos que o precederam na habilidade de jogar a bola de fute­bol, conseguiu vender-se. Porque só assim, ele será o maior, como qualquer prostituta de luxo, enquanto tem um corpo viçoso. E ser o maior é o sonho que ele acalenta, desde que nasceu na Madeira. Nem que seja o maior na prostituição futebolística dos Milhões, na Idolatria da trindade mais perversa que hoje domina o mundo e mantém subjugados / castrados / domesticados to­dos os povos da terra.

É este Deus-Ídolo que se vê a olho nu e, hoje, está aí mais exposto do que nunca, nos seus podres, na sua mentira, nas suas corrupções, nos seus cri­mes, nos seus assassínios, nos seus roubos, nos seus desfalques, nas suas provocadas falências, e mais devorador do que nunca, mas que, por isso mes­mo, também está manifestamente inte­ressado em fazer constar que provavel­mente não existe.

Assim, tem ainda mais abertos os caminhos para nos beber o sangue e comer os ossos. A todos, os que recu­samos vender-nos a ele, colocar ao seu serviço as nossas vidas, as nossas ca­pa­cidades, os nossos saberes. Todos os que recusamos ser Cristianos Ro­nal­dos nas múltiplas áreas - para lá da dos divertimentos, onde entra o Fu­tebol dos Milhões - de que é feita a vida dos povos e das sociedades.

Deste ateísmo idolátrico, que é um incondicional adorador e servidor da perversa trindade constituída pelo Gran­de Dinheiro, como o pai, do Grande Poder Político e Económico-financeiro, como o filho, e do Grande (Poder) Reli­gioso como o espírito santo, tenho eu de estar em guarda. E estou. Em guarda e em duelo teológico e desarmado co­mo um menino. Nunca, obviamente, co­mo Cruzada. Apenas como Missão, como presbítero da Igreja do Porto, ordenado para Evangelizar os Pobres e os Povos.

Quando virem notícias do anúncio que os autocarros de Londres vão “gri­tar” à cidade e ao mundo, já sabem a que tipo de Deus é que ele se refere e que faz tanta questão de fazer cons­tar que “provavelmente não existe”. E não acreditem em mais essa Mentira dele, paga por ele próprio. Porque ele existe mesmo, ele é a trindade mais per­versa do nosso Mundo, e está aí em força, hoje, sob a forma de Idola­tria.

Quanto ao Deus-Abbá, o de Jesus, saibam que nunca ninguém O viu nem verá. Por isso, nem que queiram, nunca podem negá-lO. O mais que podem fa­zer é virem a ser surpreendidos por Ele, como um ladrão, que, do mais den­tro de vocês onde misteriosamente vive, vos salta ao caminho da vida, abre os olhos da vossa Mente e da vossa Cons­ciência e os ouvidos do vosso Coração, faz-vos ver toda a Idolatria da perversa trindade que hoje domina o Mundo e mantém os Povos domesticados / cas­trados, e cujos clamores por Pão, por Liberdade e por Beleza, escutareis, fi­nal­mente. E, então, nunca mais tereis sossego.

Andem, pois, atentos e vigilantes. Quando ouvirem rebentar dentro de vo­cês as perguntas: Onde está o teu irmão, a tua irmã? O que fizeste do teu irmão, da tua irmã?, saibam que é Ele a meter-se provocadoramente convos­co. Se então mudarem de Deus, passa­rem do Ídolo da perversa trindade, para Deus-Abbá, o de Jesus, este mesmo que faz perguntas como aquelas, também deixarão de continuar a servir a perver­sa trindade e passarão, nos sítios onde estiverem, a fazer uma só carne com as suas inúmeras vítimas.

Serão Paz, mas sempre em Revolu­ção desarmada, em Conspiração de­sar­ma­da, em Duelo desarmado. É por aí que ando, procuro andar, todos os dias e desde há muitos anos, sem me importar para nada do preço que tenho de pagar por me recusar a servir a perversa trindade.

Sejam, então, fontes que engros­sam este Rio de Resistência Activa e de Práticas Políticas Maiêuticas, todos os dias. E deixem o pobre-rico do Cristi­ano Ronaldo com a sua idolatria e com o vazio da sua demência idolátrica, até que um dia ele acorde de semelhante pesadelo e parta todos os grilhões de ouro que hoje fazem dele um anjo mentiroso, totalmente apanhado pela perversa trindade que domina o mundo e o tem incondicionalmente ao seu serviço.

A sua Vaidade é a nossa vergonha, como Humanidade, nomeadamente da mais empobrecida e oprimida que, de tão alienada em que criminosamente é mantida pela perversa Trindade, ain­da é capaz de o aplaudir e - vejam lá! - até invejar!


 

EDITORIAL

“O que vem aí?”

“O que vem aí?” - perguntou o últi­mo programa televisivo Prós e Contras 2008, de Fátima Campos Ferreira. O denominador comum a todos estes pro­gra­mas é a Treva ilustrada que por eles perpassa do princípio ao fim. Quando necessitamos tanto de Luz, mais ainda do que de pão para a boca, o programa serve-nos, semanalmente, Treva ilustra­da, overdoses de Treva ilustrada.

Essa Treva Ilustrada nasce nas Uni­ver­sidades, com destaque para a Cató­lica, a campeã neste ramo, entre as demais, pelo menos, no que concerne aos paí­ses do Ocidente, e cujo principal ob­je­ctivo é prolongar, século XXI adian­te, a perversa Teologia / Ideologia da Cris­­tandade e da Idade Média, que as­sim continua dis­seminada nos nossos genes, como enve­na­dos virus, a impe­dir-nos de sermos nós próprias, nós pró­prios, em estado de maioridade.

A Treva Ilustrada chega a este e a outros programas do género, via hie­rar­quia da Igreja católica, ou seus colaboradores eclesiásticos, sempre que as temáticas em de­bate entram pelas áreas da chamada Moral /Ética. São convidados bispos, bi­blistas, professo­res da Ca­tólica, teólogos do Poder Re­ligioso e E­clesiástico Romano.

O último programa de 2008 não deixou os seus créditos por mãos alhei­as e con­tou com a presença maior do Car­de­al Patriarca de Lisboa, a quem a conhecida jornalista de serviço come­çou logo por dar a palavra, na a­ber­tura do debate. Ora, o cardeal pa­triar­ca de Lisboa - não confundir nunca com o homem e o cidadão José Poli­car­po - é, fatalmente, para o comum das pes­soas, o rosto do Poder Eclesiástico em Portugal (e não é que, desta vez, até ele próprio se assumiu como tal?!). Po­rém, da banda do Poder, também do Re­ligioso e Eclesiás­tico, nunca pode vir a Luz de que tanto necessitamos como seres humanos e povos. O mais que vem é a Treva Ilus­trada que nos en­candeia, cega, aliena, anestesia, pa­ra­lisa, domestica, desmo­bi­li­za.

E a verdade é que a resposta à ques­­tão “O que vem aí?” não chegou a aba­lar o país, não fez o país sair para a rua, não despertou esperança bas­tante em bastantes pessoas, para que aque­la noite e as que se lhe seguiram fos­sem de parto colectivo e de mobili­za­­ção política, numa palavra, de In­surrei­ção Cívica Desarmada. Pelo con­trário, depois do debate, o país conti­nua a suportar o insuportável José Só­crates-Ma­galhães como primeiro-mi­nistro e to­dos os seus ministros asses­so­res-ma­ga­lhães a dizer-lhe yes, a­mén, sim, oui, mande-sempre-que-nós-cá-esta­mos-para-executar-as-suas-dementes-decisões-e-satisfazer-todos-os-seus-caprichos, contanto que não nos tire o tacho que nos deu.

É óbvio que a RTP e todos os outros canais de tv que estão aí a emitir dia e noite, ininterruptamente, são  propriedade do Grande Capital que sem­pre tem no Poder Político o seu braço es­quer­do e no Poder Religioso-eclesiástico, o seu braço direito. Por isso, ain­da que pergunte, num longo debate televisivo “O que vem aí?”, é apenas nele próprio que está a pensar. E quan­to mais parece preocupado em encon­trar u­ma saída para o problema desta hora de aflição generalizada criada por ele, é, obviamente, uma saída para ele, Grande Capital, e os seus fiéis ser­vidores, os do Poder Político e os do Po­der Religioso-eclesiástico, cada vez em menor número, como hoje tanto lhe convém. Porque, nesta hora do Poder da Treva, o Grande Capital mais não pre­tende do que reforçar-se, concen­trar-se cada vez mais em cada vez me­nos mãos, sem sabermos nunca quais e onde estão. E se, para conseguir este objectivo maior, for ne­cessário introdu­zir no discurso oficial umas dicas de “Ética”, de “Moral”, o Gran­­de Capital não hesi­ta. Passa até a ser o primeiro a falar de Ética e de Moral.

Neste último programa de 2008, já o fez e - vejam só o seu descaramento - fê-lo precisamente pela boca institu­ci­onalmente mais credenciada e tam­bém mais hipócrita, a do Cardeal Patri­ar­ca de Lisboa (volto a dizer, não con­fundir o cardeal patriarca com o ho­mem e cidadão José Policarpo). E sua Eminência (os cardeais, tratam-se por Eminência, não por Excelência, porque eles acham que são a Eminência da Ex­celência!...) não se fez rogado e res­pon­deu afirmativamente ao convite de Fátima Campos Ferreira, “com muito gos­to” (sic). Ele sabe muito bem que, assim, pôde aparecer como o rosto da instituição religiosa-eclesiástica que sempre se faz passar aos olhos da So­ciedade Civil, como a sua “reserva mo­ral”, quando, efectiva­mente, mais não é do que a instituição de Poder reli­gioso, a mais hipócrita de to­das!

Viram /ouviram, como o senhor Car­deal Patriarca de Lisboa se apre­sen­tou naquelas pose e voz de instituição-Igreja-Católica-Romana que, em seu pró­prio dizer, “sempre defende os “va­lores” da Ética e da Moral? Se as popu­la­ções que o ouviram, se tiverem dei­xado ir na onda, tudo, de repente, ficou bran­quea­do. Quando, afinal, o Poder eclesiástico romano é intrinsecamen­te per­verso (é tão per­ver­so, que até a Igreja, a de Jesus, ele persegue e ma­ta, como fez em seu tempo o Tem­plo  de Jerusalém a Jesus, na pessoa dos sumos-sacerdo­tes, teólogos oficiais, bi­blistas, escribas e fariseus hipócritas).

O cardeal patriarca apresentou-se a falar de Ética e de Moral, sem que nin­guém o contraditasse e lhe dis­sesse que dessa ética eclesiástica sem Ética e dessa moral moralista e imoral Eclesi­ástica sem Moral está a Humanidade cheia. Ou elas não sejam as que estão aí, como de facto estão, na ori­gem do Pecado Organizado e Sem Perdão que é o Capitalismo, o Neolibe­ra­lismo, o Mercado total e global. E sabem por­quê? Porque na ori­gem do Capitalismo e do Grande Capi­tal está a Teologia ca­tólica romana, essa mesma que justi­f­i­ca o Estado do Vaticano e o Poder mo­nárquico absolu­to do seu papa-che­fe de estado. Trata-se duma teologia idolátrica que se refere a um Deus-Ído­lo que premeia o ven­cedor e castiga o vencido; premeia o cru­cificador e cas­tiga como maldito o cru­cificado; pre­mei­­a o rei vencedor, David ou Afonso Hen­riques, por exemplo, que esmaga­ram os seus opositores para chegarem ao Poder, e esquece sistematicamente as suas vítimas; premeia Pinochet que der­rubou o socialista Salvador Allende, eleito pela maioria do Povo chileno e matou-o, e está sempre, sempre, mas mesmo sem­pre ao lado dos verdugos, dos algozes, e dos grandes do Grande Dinheiro, cujas lautas mesas frequenta, e leva os seus próprios hierarcas religi­osos-ecle­si­ás­ti­cos a viverem permanen­te­mente rodeados de privilégios, nem que, para tanto, seja necessário arran­car o último cêntimo à viúva pobre que frequenta os seus cultos e os seus ritos, realiza­dos com pompa e circunstância, nos Templos e Catedrais, Basílicas e San­tuá­­­rios, e que, coitada dela, uma vez lá dentro, já não consegue mais sair sem deixar lá o seu último cêntimo na caixa do Tesouro, para o fazer crescer e engordar cada vez mais. E ele, até hoje, já engordou tanto, que se tornou  planetário! (Alguém faz ideia de toda a riqueza católica roma­na no Mundo?!)

“O que vem aí?” Pelo andar da car­ruagem, com o Grande Capital a traba­lhar dia e noite, e com as suas inúmeras vítimas completamen­te desmobilizadas e até já com pena de­le, só pode vir aí a sua mais retum­ban­te vitória, nesta 1.ª Grande Guerra Mundial Financeira em que ele, estes dias, anda envolvido. Te­re­mos, então, a bre­ve trecho, o Grande Capital ainda mais con­centrado em mui­to poucas mãos. Num Planeta povoado de sobre­vi­ven­tes robotizados, humanói­des. Até que - e essa é a minha Espe­ran­ça teo­ló­gica crucificada - quando tudo mais pare­cer definitivamente per­dido, se levante um Tsunami-Sopro-Mo­vimento que nada nem ninguém contro­la, mediado, só o próprio sabe como e por quem. É o terceiro dia; mas o primei­ro do resto das nossas vi­das e da vida da Humanidade e do Planeta. Saibam que esse Sopro-Vento-Tsunami-Movi­men­to já anda por aí (olhem para a Gré­cia, por exemplo) e só espera que mais corpos humanos se lhe abram e deixem que ele os habite e trabalhe neles, com eles e através deles.

Por mim, há muito que já deixei. E con­tinuarei a deixar, até passar a ser todo eu, no Momen­to da minha Explo­são final, definitivamente Sopro-Vento-Movimento, ora brisa, ora tsuna­mi, mas sempre desarmado. Porque só o Ven­to-Sopro-Movimento-Tsunami Desarma­do é que anda carregado de Presen­te e de Futuro. Como anda já carregado de Passado!

Venham, pois, daí viver também na Trinchei­ra. Atrevam-se a viver todos os dias em Deserto, aí onde já vivem. E será para vocês o Terceiro Dia, o Pri­mei­ro do resto das vossas vidas.

Abraço-vos. Mário, Presbítero da Igreja do Porto


 

ESPAÇO ABERTO

Prof. Manuel Sérgio,

Reitor do Instituto Piaget

A mentira do neoliberalismo

Dos dinossauros, só os ossos ficaram. Os maiores e mais fortes animais que a terra já conheceu desapareceram. A força e o tamanho não lhes serviram para nada. Ao contrário, as lagartixas, suas parentes pobres, escaparam ilesas e assistiram, incrédulas, aos funerais dos primos que mandavam na Terra.

Às lagartixas, por refeição, basta­vam umas poucas moscas e umas formi­gas. Por isso, por aí rastejam e, num abrir e fechar de olhos, desaparecem. Mas estão vivas, frescas e contentes.

Os dinossauros, bocas enormes, es­tô­magos descomunais, corpos gigan­tes­cos comiam demais e ocupavam muito espaço – foram vítimas de uma crise de combustíveis!

Há grandes semelhanças entre os dinossauros e os capitalistas. É que, tam­bém estes, comem demais e é bem possível que estejam prestes a desapa­re­cer, por diabetes, obesidade e doen­ças das coronárias. E porque a injustiça social é uma bolha de sabão que vai rebentar, mais tarde ou mais cedo.

A teoria do capitalismo de cresci­mento linear ininterrupto sofre de uma contradição, pois que o crescimento constante quer realizar-se num planeta de recursos limitados. Relação harmo­niosa com a natureza é coisa que o capitalismo desconhece. Mas também os povos do Sul vão revoltar-se inevita­velmente, sabendo que uns morrem de fome e outros de comer demais. E não só: porque também os pobres já sabem que, no capitalismo, tudo o que é huma­no se reduz à quantidade, ao lucro!

Embora muitos capitalistas assistam à missa, eles criaram um novo evange­lho: “Buscai, em primeiro lugar, o reino do lucro e tudo o mais vos será dado por acréscimo”. Karl Marx tinha razão: “A desvalorização do mundo humano aumenta, na razão directa do aumento do valor do mundo das coisas”. Para que a quantidade cresça, a qualidade tem de diminuir.

O que fazer, num mundo que a to­dos nos ameaça, porque nem o rico poderá fugir à revolta da natureza e dos mais pobres? Há que fazer um mundo outro. O neoliberalismo deve ser erradicado da face da Terra. É o próprio Jesus a dizê-lo: “Ninguém põe remendo de pano novo em roupa velha, nem vinho novo em odres ve­lhos”. É necessário um recomeço, ou se­ja, reconstruir a sociedade em ali­cer­ces novos.

Segundo Thomas Kuhn, muitas ve­zes o conhecimento científico chega a situações de impasse e, então, é imperioso e urgente uma revolução. Kuhn entendeu que a sua tese alcançava outros domínios, para além da ciência. E por isso escreveu: “Do mesmo modo que as revoluções científicas aconte­cem quando se consciencializou que o paradigma existente deixou de fun­cionar de maneira adequada, as revo­lu­ções políticas tornam-se necessárias quando cresce um sentimento de que as instituições deixaram de resolver convenientemente os problemas.

Só que os instalados, os carreiris­tas, os exploradores pensam que estão bem e não vêem que há necessidade de fazer o novo e consideram até a cri­a­tividade um acto proibido. Eles des­conhecem aquela frase célebre de Ernst Bloch que diz: “o que é não po­de ser verdade”.

Mas os ricos, os poderosos não têm alternativa: eles querem que tudo con­tinue como está! A História não regista um único caso no qual o poderoso ab­di­que dos seus interesses. O presente realiza o que lhes convém e portanto a transcendência não lhes interessa.

Na tradição religiosa, os demónios não são aceites; são expulsos. Os ído­los não são convertidos; são destruídos. A esperança de um futuro diferente de­pende da possibilidade de se destruí­rem ídolos e de se expulsarem os de­mó­nios. A terapia é declaradamente ética e política.

A mentira do neoliberalismo está aí, à vista de toda a gente! A Bíblia dá-nos, a propósito, a lição que o teólogo Leonardo Boff resume, no último nú­mero do Fraternizar: “A economia não se pode independentizar da socieda­de, pois a consequência será a destrui­ção da própria ideia de sociedade e de bem comum. O ideal a ser buscado é uma economia do suficiente, para toda a comunidade de vida”.

Se bem entendo o que a Bíblia nos ensina, é preciso morrer para o fausto, para o luxo, para o supérfluo, para que possamos renascer para a fraternida­de, para a igualdade, para a solidarie­dade. Crescimento não pode ser sinó­nimo de exploração, de cegueira pelo ter que se acumula em detrimento dos pobres, dos miseráveis, dos excluídos.

Crescer é, para mim, encontrar a urgência do amor e da justiça, que de­corre da mensagem que nos explicita por que Jesus nos amou e por que deu, por nós, a própria vida – mensa­gem que, digamo-lo, sem receio, é tam­bém de conteúdo verdadeiramente social e político.

Eu sei que Jesus é “a forma supre­ma e insuperável do compromisso de Deus com o mundo e pelo mundo”, que não se deixa absorver por qualquer ideologia política, por mais magnânima que ela se apresente. Mas também sei quem são (e têm sido) os defensores de um neoliberalismo que é um perfeito (e pernicioso) logro.

No entanto, o grande desafio à soli­dariedade, no mundo de hoje, não po­de limitar-se à condenação do capita­lis­mo neoliberal – tem também a ver com todos e cada um de nós! De facto, em que espécie de pessoa, em que es­pécie de gente nos queremos todos trans­formar?

A desigualdade na distri­buição do rendimento pressupõe corrupção no co­ração da política, “rambificação” do entretenimento popular, desinteresse pelo bem-estar do nosso próximo.

Há quem, vítima embora da socie­da­de injusta, também defenda o  lucro sem freios e o consumismo. Assim se caminha para a falência civilizacional, para um universo sem valores, para um mundo transformado num centro comer­cial. Onde os culpados são muitos e... nós!

Um ponto ainda a salientar: a morte do fundamentalismo do mercado dita­to­rial não deve fazer esquecer-nos que também já morreu o fundamentalismo de um Estado ditatorial. Este é um tema a que espero voltar, dado que é preciso criar o novo, sem disfarces, e não o velho mascarado de novo.

Há muitos “treinadores de banca­da” que, perante a crise do capitalismo neoliberal, querem voltar ao capitalismo de Estado. Até eu, um pobre conhece­dor destes assuntos da Economia, ve­nho lutando, no limite das minhas pou­cas forças e há um bom par de anos já, contra o neoliberalismo. Só que, porque já tenho 75 anos, sei bem quais são as taras e os vícios do capitalismo de Estado. E onde nunca há progresso, inevitavelmente...


 

Pe. Mário Tavares

(Madeira)

Carta Aberta ao Bispo do Funchal, António Carrilho

Ex.mo Senhor D. António Carrilho

Como as questões públicas devem ser tratadas publicamente, trago o caso público “Padre Martins – Ribeira Seca” e algumas reflexões sobre o mesmo.

Em Portugal, viveu-se a vestimenta político-religiosa “Estado Novo” duran­te 46 anos. As duas forças, poder po­lítico e poder religioso, mantiveram de pé a cara nacional “Estado Novo”, cada uma segurando-a do seu lado. Houve de facto o caso D. António Ferreira Go­mes, Bispo do Porto. Sabemos como foi doloroso o seu percurso. Embora ter­minando bem, deixou ambas as par­tes viciadas, doentes. Ao mesmo tempo e felizmente houve outros casos. Te­mos que admirar e honrar os corajo­sos heróis, que mantiveram a coluna vertebral não dobrada, embora força­dos a viver em pequenas vielas, à parte da circulação social.

A panela de pressão “Estado Novo” explodiu a 25 de Abril de 1974 e deu-se o derrame da liberdade para os direitos da cidadania, na busca de no­vos rumos para a Nação Portuguesa. O Movimento das Forças Armadas ele­geu um Governo Provisório, com a mis­são de fazer aprovar uma Nova Consti­tuição que serviria de base para a No­va Governação Democrática.

Porém, assim como as virtudes se le­vantam, também os vícios se colocam de pé e de frente, armados com vírus potentes, adaptados ao meio.

D. Francisco Santana, bispo eleito do Funchal, veio logo tomar posse da res­ponsabilidade diocesana a 12/05/74 e trouxe a receita: ”Eu venho exer­cer a «diaconia da autoridade, isto é, um serviço de unidade»”*. Por isso abri­gou e organizou à sua volta as for­ças da retoma, não a retoma religiosa, que nunca esteve em causa, mas a re­toma política, ao abrigo do religioso. “…sou o bispo de todos. Posso criticar os erros, posso defender teimosamen­te a verdade, posso até ser duro”*. Co­lo­cou o Jornal da Madeira, órgão dio­cesano, ao serviço da nova causa, no­meando para seu director aquele que ganharia a chefia de toda esta cami­nha­da monopolizadora da política re­gional. Depois orientou a pastoral reli­giosa, na ideia de congregar todos os madeirenses e portossantenses, esco­lhendo, como ponto alto para a mani­fes­ta­ção pública, a festa do Corpo de Deus, celebrada no Estádio dos Barrei­ros, e o cortejo processional até a Sé. Foi um reacender das grandes cele­bra­ções da Igreja, com o mesmo cariz político e religioso, celebradas durante tantos séculos nos tempos passados. Ao mesmo tempo desapoiou todos os movimentos de Acção Católica, desa­cre­ditando os seus sacerdotes assisten­tes.

Este trabalho não foi difícil. O povo, vivendo num meio social fechado em que o político e o religioso circulavam de mãos dadas, encheu-se de motiva­ção participativa nos comícios do PPD, feitos nos adros das igrejas. E, congre­ga­do para defender Deus e a Pátria, embora disso nada percebesse, trans­formou-se numa garantia de votos com maioria absoluta.

O povo madeirense foi tão ingé­nuo, que até consentiu, como acólitos nos actos religiosos e como dirigentes em actividades paroquiais, aqueles que se tornaram os líderes e militantes do novo controlo social e acção polí­ti­ca, mesmo que antes tivessem sido raros frequentadores da igreja.

Resumindo: D. Francisco Santana foi o promotor, o professor e o padri­nho do PPD/Madeira e colocou nas mãos do afilhado o povo cristão da Re­gi­ão Autónoma da Madeira.

Nem todo o clero teve o mesmo com­por­tamento. Houve sacerdotes que le­ram mais profundamente a importância do 25 de Abril. Um deles, com certeza o mais activo na análise dos aconteci­mentos e no ensaio de oportunidades para novos rumos, foi o Pe. Martins na Ribeira Seca e em todo o Machico. Uma das suas primeiras bandeiras, co­mo apóstolo libertador na linha de Moi­sés, Cristo, Joana d’Arc, Luther King, foi libertar o povo de Machico do siste­ma agrícola da Colonia, que obrigava a todos os colonos a trabalhar a terra por metade da produção, embora fos­sem donos de todas as benfeitorias do terreno.

D. Francisco Santana, sentindo que não conseguia domá-lo e trazê-lo para a sua causa, foi ao arsenal da guerra, ainda não desmantelado de todo na I­gre­ja, e puxou da “suspensão a divi­nis”, num gesto de anulação de toda a sua actividade sacerdotal e numa ati­tude de atirá-lo para a desclassificação social de desordeiro político perigoso, merecedor da exclusão da comunida­de.

Foi um gesto de repressão e de guerra, muito aproveitado pela Diocese e pela actividade política dominante, unidos em cartel. “A nossa época não permite hesitações ou atitudes ambí­gu­as; a Igreja não pode ser conduzida por crianças imaturas”*

A luta foi difícil, numa travessia lon­ga de perigos, difamações e armadi­lhas, mas o povo de Machico sempre esteve pelo lado do Pe. Martins, pela defesa da sua mensagem, de modo efi­ciente, protegendo-o, defendendo-o e elegendo-o.

A igreja da Ribeira Seca sempre fun­cionou como o centro de estudo, da reflexão, da oração, das celebrações, das festas e cantares, em todo este caminhar de coragem na vivência da mensagem e publicidade da mesma, tudo vivido e celebrado numa Eucaristia igual a todas e sob o patrocínio da Mãe de Jesus, a Senhora do Amparo. O cris­tianismo lá sempre esteve de pé, com Je­sus e Maria como colunas da seguran­ça e do rumo.

De quem é o pecado?

No mundo civil do poder, curam-se as chagas sociais e, em tempo, promo­vem-se os corajosos. No mundo da Igreja os corajosos, os abridores de portas só são recuperados depois de mortos. Ao contrário, os “beatos”, esses têm velas desde muito cedo. Isto não é testemunho de Mensagem. Não faz parte das propostas de Jesus.

Ribeira Seca já tem publicados os CDs “Machico Terra de Abril”, “Viva a Vi­da” e o pequeno livro “Entre Dezembro e Janeiro de Cada Ano”, retratando “o de­siderato de Cristo: nascer em toda a parte, em todas as casas, em todos os corações" (Pg.37). Lembro duas quadras do livro: ”No império dos engenhos/ Meu Menino-moedor/ mói as mágoas traz doçura/ ao povo trabalhador” (pg.28); “A «Ceranda» e a «Padeirinha»/ can­tan­do fazem-lhe escolta/ ao «Sério» deitou-lhe a bênção/ ao «Ladrão» deu «Meia-volta»” (pg. 32).

Estas publicações são textos, que funcionam como bandeiras de testemu­nho, retratando a mensagem vivida e cantada nos tempos dolorosos e ensom­bra­dos pela “suspensão a divinis”

D. Teodoro, ao princípio, ainda der­ra­mou alguma esperança. Mas, depois que entrou em parceria com o Governo, foi o que foi. Temos em memória o gráfi­co dos acontecimentos.

 Senhor Bispo, caminhamos para o Ad­vento. E é de toda a conveniência que o presépio da Ribeira Seca esteja pastoralmente reconhecido pela Diocese nes­te Natal, porque sempre foi de Cristo e sempre fez parte da Igreja Madeirense.

É urgente deitar para o lixo tudo qu­anto foi símbolo de guerra. Fazer Natal é derramar paz, amor, solidariedade.

 Funchal, 23 de Novembro de 2008, dia de Cristo Rei, o Rei da Coragem, da Liberdade, da Justiça, do Amor e do Testemunho.

O padre da Diocese

Mário Tavares Figueira

 Nota: O asterisco (*) regista frases da Saudação Pastoral aos Madeirenses, proferida na Sé a 12/05/74 por D. Fran­cis­co Santana, dia da tomada de posse. Diário de Notícias, 13/05/ 74, pg. 3.


 

André,

Padre Casado (Brasil)

Sempre me diziam o que eu devia fazer

Esta reflexão em forma de carta vem do Brasil. É de André, Padre casado com Débora. Foi enviada ao coordenador do site Padres-Casados. No Brasil, são muitos e muito activos / reivindicativos. Não se contentam como os de cá, da Associação Fraternitas, com uns retiros e uns cantos gregorianos. Leiam e meditem. E coremos de vergonha!

Olá, Padre João Tavares!

Em primeiro lugar, minhas sauda­ções pela tua luta e trabalho. Adonai [Deus] será a recompensa de teu zelo e de tua dedicação.

Permita que me apre­sente: tenho 32 anos e recebi o Sacra­mento da Or­dem do Presbiterado na Igreja Roma­na, aos 25 anos (como di­zem aqui no sul: era um piazinho ain­da). Exerci o ministério presbiteral ape­nas três anos e depois pedi dispensa de meus ofícios e voltei a morar com meus pais e isso pelas seguintes ra­zões: uma de ordem psicológica e outra de ordem eclesial.

A razão de ordem psicológica é que percebi que nunca tinha exercido a mi­nha liberdade e autonomia. Entrei na Sociedade do Apostolado Católico (Padres e Irmãos Palotinos), com 14 a­nos, e sempre me diziam o que eu de­­­veria fazer (terminar os estudos se­cundários, fazer dois anos de novicia­do, estudar Filosofia, estudar Teologia, ser ordenado em tal dia, em tal lugar, pela imposição das mãos de tal bispo, ir para tal paróquia, realizar tal tarefa, ser transferido de tal paróquia, realizar tal tarefa, etc... e, quando me dei conta, sentia-me um menininho que tinha u­ma enorme função e sem a mínima es­tru­tu­ra para ser eu mesmo e muito me­­nos maturidade afectiva e na fé pa­ra ser o presbítero (o mais velho) da comunidade e, além, claro, do de­se­jo de ter uma companheira e ter filhos, quando percebia meus amigos de in­fância e companheiros de vida reli­giosa que haviam feito a belíssima o­pção pelo matrimónio de estarem com suas famí­lias constituídas.

A razão de ordem eclesial é o facto de que comecei a minha caminhada de Igre­ja numa pequena comunidade (CEB) e, quando deveria ser o pastor de uma comunidade, “transmitiram-me” uma Igreja do espectáculo, etérea e sem compromisso com o principal dogma da fé cristã: a encarnação.

Sentia-me mais um funcionário da Igreja que deveria realizar os seus pa­péis de acordo com as rubricas e de maneira esplendorosa, pois, numa so­cie­dade do espectáculo reina a máxima: “Apareça ou pereça”.

Entrei em conflito comigo mesmo, a partir de minhas funções clericais: en­trei na vida religiosa para ser profeta e estava sendo funcionário; ingressei na vida sacerdotal para servir e estava sendo servido; quis ser padre para ser sinal de unidade e de doação e era pa­go para isso.

Com toda essa confusão para um “pia­zinho de estola”, resolvi deixar o mi­nis­tério. Fui completamente aban­do­na­do pela congregação dos palotinos, impedido de ir ao seminário onde me havia formado (pois iria dar mau exem­plo aos meninos, no dizer do reitor da época), voltei a morar com meus pais e recomeçar a vida, a partir dos 28 anos.

Saí apenas com R$ 200,00 [reais] no bolso, sem curso superior reconhe­cido, mal falado, excluído, mas com o coração pleno de esperança de que a vida estava sendo assumida com todas as suas contradições e, por isso mesmo, era o espaço para que o Verbo se fizesse carne.

Passado um ano em que somente trabalhei e trabalhei e corri atrás para revalidar meu curso de Filosofia, conhe­ci minha actual companheira (Débora). A partir desse momento, recuperei o nor­te de minha existência e tenho a certeza de que o Verbo se faz carne onde vi­vemos realmente a beleza da integri­dade hu­mana, onde reconhecemos que a pri­mei­ra bênção de Adonai é a fecun­di­­dade e que Ele mesmo não nos quer ver sós e incompletos (Não é bom que o homem fique sozinho).

Quando deixei o ministério, resolvi fazer um hiato na comunidade eclesial, pois tinha grande dificuldade de perceber a beleza do cristianismo do “outro lado do rio”. Não encontrava - como creio que é a dificuldade de todos os que deixam o ministério - um espaço aonde pudesse “produzir trinta, ses­senta e até cem”.

A partir disso comecei a frequentar a Igreja Ortodoxa e, para mim, isso foi fundamental para rever minhas concepções eclesiásticas e para perceber que a Igreja de Cristo é muito maior do que a Igreja Romana.

Mas a minha “peregrinação” pela fa­mília ortodoxa foi de curto espaço, pois mudei-me de cidade e onde estou morando não há comunidade ortodoxa. Apenas “assistia” as celebrações, sem vínculo canónico com a comunidade ortodoxa.

A partir da reportagem do Fan­tás­tico [tv-Globo], e da postura do nos­so co­lega Osiel, eu me questiono, que­rido João: eu realmente seria capaz de vol­tar a exercer o ministério com esse mo­delo de presbitério que a Igreja Ro­ma­na possui? Não seria necessário re­pensar outros modelos de padres para que pudéssemos lutar por um “dever” que é nosso de tornar-se “pontífices”? E quando eu falo modelo de presbitério ou padres não me estou a referir à ques­tão da obrigação do celibato, mas da maneira como o ministério é exer­cido nas comunidades (centralizador, cle­rical, às vezes déspota, simples fun­ci­onários da cúria, sem liberdade para pensarmos, a partir do que o Espírito nos diz na Tradição da Igreja).

Talvez muitos de vocês discordem de mim, mas tenho plena certeza de que falo a partir da experiência de ministério que tive: um ministério numa Igreja “Neoliberal”.

Sempre brincava com meus amigos de Teologia que deveria ter sido minis­tro ordenado no recente Pós-Concí­lio... Confesso que tentei mudar quando es­tava no activo, pensar uma comunida­de cristã diferente, num modelo de pa­dre diferente, mas sozinho não pude ir longe.

Confesso, ainda, que assim que dei­xei o ministério, o nosso colega de Cu­ritiba, Joarez, me procurou, via e-mail e telefone, para participar dos encon­tros do MPC de Curitiba e não fui por duas razões: não era ainda casado e achava que não valia a pena lutar para que padres casados exercessem o mi­nistério nesse modelo de Igreja que, perdão pela palavra, me causava ranço.

Porém, o tempo muda e as convic­ções igualmente. Hoje percebo que o caminho para a mudança do modelo de presbitério se dá, também, pela a­ber­tura de homens casados ao Sacra­mento da Ordem nos demais graus, além do diaconato.

Que a luta de vocês possa ser o pe­queno grão de mostarda que um dia abrigará muitas aves em busca de seus destinos. Contem comigo para o que precisarem.


 

Frei Betto (1)

Teólogo

Somos todos pós-modernos?

A resposta é sim, se comungamos essa angústia, essa frustração frente aos sonhos idílicos da modernidade. Quem diria que a revolução russa ter­minaria em gulags, a chinesa em capita­lismo de Estado; e tantos partidos de esquerda assumiriam o poder como o violinista que pega o instrumento com a esquerda e toca com a direita?

Nenhum sistema filosófico resiste, hoje, à mercantilização da sociedade: a arte virou moda; a moda, improviso; o improviso, esperteza. As transgres­sões já não são excepções, e sim regra. O avanço da tecnologia, da informatização, da robótica, a gloogletização da cultura, a telecelularização das relações humanas, a banalização da violência, são factores que nos mergulham em ati­tudes e formas de pensar pessimistas e provocadoras, anárquicas e conserva­do­ras.

Na pós-modernidade, o sistemático cede lugar ao fragmentário, o homogé­neo ao plural, a teoria ao experimental. A razão delira, fantasia-se de cínica, baila ao ritmo dos jogos de linguagem. Nesse mar revolto, muitos se apegam às “irracionalidades” do passado, à re­li­giosidade sem teologia, à xenofo­bia, ao consumismo desenfreado, às emo­ções sem perspectivas.

Para os pós-modernos, a história findou, o lazer reduz-se ao hedonismo, a filosofia a um conjunto de perguntas sem respostas. O que importa é a novi­da­de. Já não se percebe a distinção en­tre urgente e importante, acidental e essencial, valores e oportunidades, eféme­ro e permanente.

A estética faz-se esteticismo; importa o adorno, a moldura, e não a profundi­da­de ou o conteúdo. O pós-moderno é re­fém da exteriorização e dos estereó­tipos. Para ele, o agora é mais impor­tante que o depois.

Para o pós-moderno, a razão vira racionalização, já não há pensamento crítico; ele prefere, neste mundo confli­tivo, ser espectador e não protagonista, observador e não participante, público e não actor.

O pós-moderno duvida de tudo. É cartesianamente ortodoxo. Por isso não crê em algo ou em alguém. Distancia-se da razão crítica, criticando-a. Como a serpente Uroboros, ele morde a pró­pria cauda. E refugia-se no individua­lismo narcísico. Basta-se a si mesmo, in­diferente à dimensão social da exis­tên­cia.

O pós-moderno tudo desconstrói. Os seus postulados são ambíguos, despro­vi­dos de raízes, invertebrados, sensitivos e apáticos. Ao jornalismo, prefere o shownalismo.

O discurso pós-moderno é labirínti­co, descarta paradigmas e grandes nar­ra­tivas, e em sua bagagem cultural co­loca no mesmo patamar Portinari e Fe­lipe Massa; Guimarães Rosa e Paulo Coelho; Chico Buarque e Zeca Pago­dinho.

O pós-modernismo não tem memó­ria, abomina o ritual, o litúrgico, o mis­tério. Como considera toda paixão inútil, nem ri nem chora. Não há amor, há empatias. Sua visão de mundo deriva de cada subjetividade.

A ética da pós-modernidade detesta princípios universais. É a ética de oca­sião, oportunidade, conveniência. Camaleónica, adapta-se a cada situação.

A pós-modernidade transforma a rea­lidade em ficção e remete-nos à caverna de Platão, onde nossas sombras têm mais importância que o nosso ser, e as nossas imagens que a existência real.


 

Frei Betto (2)

Eu, Mercado, peço desculpas

Estou gravemente enfermo. Gostaria de manifestar publicamente as minhas desculpas a todos que confiaram cegamente em mim. Acreditaram no meu suposto poder de multiplicar fortunas. Depositaram nas minhas mãos o fruto de anos de trabalho, de economias fami­lia­res, o capital dos seus empreendi­men­tos.

Peço desculpas a quem assiste às suas economias evaporarem pelas cha­minés virtuais das Bolsas de Valores, bem como àqueles que se encontram asfixiados pela inadimplência, os juros altos, a escassez de crédito, a proximidade da recessão.

Sei que nas últimas décadas extra­polei os meus próprios limites. Arvorei-me em rei Midas, criei em torno de mim uma legião de devotos, como se eu tivesse poderes divinos. Os meus apóstolos – os economistas neoliberais – saíram pelo mundo a apregoar que a saúde financeira dos países estaria tanto melhor quanto mais eles se ajoelhassem aos meus pés.

Fiz governos e opinião pública acre­ditarem que o meu êxito seria propor­cio­nal à minha liberdade. Desatei-me das amarras da produção e do Estado, das leis e da moralidade. Reduzi todos os valores ao casino global das Bol­sas, transformei o crédito em produto de consumo, convenci parcela signifi­cativa da humanidade de que eu se­ria capaz de operar o milagre de fa­zer brotar dinheiro do próprio dinhei­ro, sem o lastro de bens e serviços.

Abracei a fé de que, frente às tur­bulências, eu seria capaz de me auto-regular, como ocorria à natureza antes de ter seu equilíbrio afectado pela ac­ção predatória da chamada civiliza­ção. Tornei-me omnipotente, supus-me omnisciente, impus-me ao planeta como omnipresente. Globalizei-me.

Passei a jamais fechar os olhos. Se a Bolsa de Tóquio silenciava à noi­te, lá estava eu, eufórico, na de São Paulo; se a de Nova York encerrava em baixa, eu me recompensava com a alta de Londres. O meu pregão em Wall Street fez de sua abertura uma liturgia televisionada para todo o or­be terrestre. Transformei-me na cor­nu­cópia de cuja boca muitos acredi­ta­vam que haveria sempre de jorrar riqueza fácil, imediata, abundante.

Peço desculpas por ter enganado a tantos em tão pouco tempo; em espe­cial aos economistas que muito se esforçaram para tentar imunizar-me das in­fluências do Estado. Sei que, agora, suas teorias derretem como suas acções, e o estado de depressão em que vi­vem se compara ao dos bancos e das grandes empresas.

Peço desculpas por induzir multi­dões a acolher, como santificadas, as palavras de meu sumo pontífice Alan Greenspan, que ocupou a sé financei­ra durante dezanove anos. Admito ter ele incorrido no pecado mortal de man­ter os juros baixos, inferiores ao índice da inflação, por longo período.

Assim, estimulou milhões de norte­america­nos à busca de realizarem o so­nho da casa própria. Obtiveram cré­ditos, compraram imóveis e, devido ao aumento da demanda, elevei os preços e pressionei a inflação. Para contê-la, o governo subiu os juros... e a ina­dimplência se multiplicou como uma peste, minando a suposta solidez do sistema bancário.

Sofri um colapso. Os paradigmas que me sustentavam foram engolidos pela imprevisibilidade do buraco negro da falta de crédito. A fonte secou.

Com as sandálias da humildade nos pés, rogo ao Estado que me proteja de uma morte vergonhosa. Não posso suportar a ideia de que eu, e não uma revolução de esquerda, sou o único res­pon­sável pela progressiva estatiza­ção do sistema financeiro. Não posso imaginar-me tutelado pelos governos, como nos países socialistas.

Logo agora que os Bancos Cen­trais, uma instituição pública, ganha­vam autonomia em relação aos gover­nos que os criaram e tomavam assento na ceia de meus cardeais, o que vejo? Desmorona toda a cantilena de que fora de mim não há salvação.

Peço desculpas antecipadas pela quebradeira que se desencadeará nes­te mundo globalizado. Adeus ao crédito consignado! Os juros subirão na propor­ção da insegurança generalizada.

Fechadas as torneiras do crédito, o consumidor se armará de cautelas e as empresas padecerão a sede de ca­pital; obrigadas a reduzir a produção, fa­rão o mesmo com o número de traba­lha­dores. Países exportadores, como o Brasil, verão menos clientes do outro lado do balcão; portanto, trarão menos dinheiro para dentro de seu caixa e pre­ci­sarão repensar suas políticas eco­nómicas.

Peço desculpas aos contribuintes dos países ricos que vêem os seus im­postos servirem de bóia de salvamento de bancos e financeiras, fortuna que deveria ser aplicada em direitos soci­ais, preservação ambiental e cultura.

Eu, o mercado, peço desculpas por haver cometido tantos pecados e, ago­ra, transferir a vocês o ônus da penitência. Sei que sou cínico, perverso, ganancioso. Só me resta suplicar para que o Estado tenha piedade de mim.

Não ouso pedir perdão a Deus, cujo lugar almejei ocupar. Suponho que, a esta hora, Ele me olha lá de cima com aquele mesmo sorriso irónico com que presenciou a derrocada da torre de Babel.


 

L. Boff

Teólogo

Crise de Humanidade

A crise económico-financeira, pre­visível e inevitável, remete a uma crise mais profunda. Trata-se de uma crise de humanidade. Faltaram traços de hu­manidade mínimos no projecto neolibe­ral e na economia de mercado, sem os quais nenhuma instituição, a médio e longo prazo, se aguenta de pé: a con­fiança e a verdade.

A economia pressupõe a confiança de que os impulsos electrónicos que movem os papéis e os contratos te­nham lastro e não seja mera matéria virtual, portanto, fictícia. Pressupõe, outro sim, a verdade de que os proce­dimentos se façam segundo regras ob­ser­vadas por todos.

Ocorre que no neoliberalismo e nos mercados, especialmente a partir da era Thatcher e Reagan, predominou a financeirização dos capitais. O capital financeiro-especulativo é da ordem de 167 triliões de dólares, enquanto o capital real, empregado nos processos produtivos (por volta de 48 triliões de dólares anuais).

Aquele delirava na especulação das bolsas, dinheiro fazendo dinheiro, sem con­trolo, apenas regido pela voracidade do mercado. Por sua natureza, a es­peculação comporta sempre alto ris­co e vem submetida a desvios sistémi­cos: à ganância de mais e mais ganhar, por todos os meios possíveis.

Os gigantes de Wall Street eram tão poderosos que impediam qualquer con­trolo, seguindo apenas as suas pró­prias regulamentações.

Eles contavam com as informações antecipadas (Insider Information), ma­nipu­lavam-nas, divulgavam boatos nos mercados, induziam-nos a falsas apos­tas e tiravam daí grandes lucros. Basta ler o livro do mega-especulador Geor­ge Soros A crise do capitalismo, para constatá-lo, pois ai conta em detalhe, estas manobras, que destroem a con­fiança e a verdade. Ambas eram sacri­ficadas sistematicamente em função da ganância dos especuladores.

Tal sistema tinha que um dia ruir, por ser falso e perverso, o que de facto ocorreu.

A estratégia inicial norte-americana era injectar tanto dinheiro nos “ganha­dores” (winners) para que a lógica continu­as­se a funcionar sem pagar nada pelos seus erros. Seria prolongar a ago­nia.

Os europeus, recordando-se dos res­quícios do humanismo das Luzes que ainda sobraram, tiveram mais sa­be­doria. Denunciaram a falsidade, pu­se­ram a campo o Estado como instân­cia salvadora e reguladora e, em geral, como actor económico directo na cons­trução na infra-estrutura e nos campos sensíveis da economia.

Agora não se trata de re-fundar o neoliberalismo, mas de inaugurar outra arquitectura económica sobre bases não fictícias. Isto quer dizer, a economia deve ser capítulo da política (a tese clássica de Marx), não ao serviço da especulação, mas da produção e da ade­­quada acumulação. E a política se regerá por critérios éticos de transparência, de equidade, de justa média, de controlo democrático e com especial cuidado para com as condições ecoló­gi­cas que permitem a continuidade do projecto planetário humano.

Por que a crise actual é crise de hu­manidade? Porque nela subjaz um conceito empobrecido de ser humano que só considera um lado dele, seu lado de ego. O ser humano é habitado por duas forças cósmicas: uma de au­to-afirmação, sem a qual ele desapa­rece. Aqui predomina o ego e a com­petição. A outra é de integração num todo maior sem o qual também desapa­re­ce. Aqui prevalece o nós e a coope­ração. A vida só se desenvolve sauda­velmente na medida em que se equili­bram o ego com o nós, a competição com a cooperação.

Dando rédeas só à competição do ego, anulando a cooperação, nascem as distorções que assistimos, levando à crise actual. Contrariamente, dando espaço apenas a nós sem o ego, gerou-se o socialismo despersonalizante e a ruína que provocou.

Erros desta gravidade, nas condi­ções actuais de interdependência de todos com todos, podem-nos liquidar. Como nunca antes, temos que nos ori­entar por um conceito adequado e in­te­gra­dor do ser humano: por um lado, individual-pessoal com direitos; e por outro, social-comunitário com limites e deveres. Caso contrário, nos atolaremos sempre nas crises que serão menos económico-financeiras e mais crises de humanidade.


 

OUTRAS CARTAS

Quero dar-te boas notícias

Querido padre Mário! Antes de mais nada, quero dar-te boas notícias:

1º) Escrevo para te dizer de como tuas últimas crónicas teológicas têm sido muito bem aproveitadas aqui pelo Brasil. Teu site (www.padremariodema­ciei­ra.com.sa­po.pt) tem sido muito di­vulga­do. Eu mesmo sempre vou man­dan­do este endereço para uma lista de mais de trezentas pessoas semanal­mente. E o resultado é a formação de um grupo de estudos mensais para dis­cu­tirmos Teologia da Libertação, á luz das questões que colocas. No últi­mo encontro (já foram dois) estiveram presentes 50 pessoas. Eram líderes comunitários, agentes de pastoral e padres que ficaram maravilhados com a vitalidade teológica e política de teu Pensamento. A cada encontro (mesmo que não o saibas) nos unimos a ti no es­tudo, na reflexão e sobretudo no com­bate.

2º) Deram-nos um xeque-mate em nossa paróquia. Ou nos conformáva­mos a uma pastoral inofensiva ou se­ríamos barrados das reuniões de nossa paróquia central. Optamos pelo enfren­tamento carinhoso, mas combativo. Não arredamos pé das reuniões. Nos posi­cionamos. Exigimos revisão pastoral dos métodos eclesiásticos. E lutamos.

Agora a briga é por uma nova con­ce­pção de catequese. E de Eucaristia. E quer saber de uma coisa? Estamos conseguindo muitos frutos... Quer ver um? Uma criança da catequese, de uma de nossas comunidades, nos emo­cionou a todos: ela não queria que a mãe comprasse um vestido branco para a primeira comunhão. E pediu o dinhei­ro. A mãe lhe deu, pensando que fosse guardá-lo... Sabe o que a menina fez? Deu para a senhora idosa vizinha, para que esta comprasse o remédio de que tanto precisava... Perguntada porque tinha feito isso, ela respondeu que ha­via aprendido comigo (seu catequista) que a verdadeira eucaristia era a par­tilha da nossa vida com os outros... Entâo, ela percebeu que o vestido bran­co de nada serviria, mas que o remédio seria muito mais importante... Essa menina fez ali sua primeira Eucaristia. E me emocionou profundamente. Re­sultado: já não precisou participar do ritual da primeira Comunhão. A menina já comunga connosco em nossas reu­niões... E foi uma lição para todos nós.

3) Ainda outro exemplo. Em uma de nossas capelas, uma senhora de pos­ses doou um crucifixo de ouro. Mas não para que colocássemos na capela. Até porque não aceitaríamos. Ela ouviu atentamente a leitura de parte de O Outro Evangelho Segundo Jesus Cristo, de tua autoria e percebeu que aquele crucifixo de nada serviria. A não ser para ser vendido e o dinheiro doado ao centro de defesa dos direitos huma­nos, para pagamento dos advogados que defendem os pobres injustiçados. Ela se converteu aos pobres. E disse que havia entendido o significado de sermos como Jesus. Ou, como dizes, ela passou da fé em Jesus para a fé de Jesus

4) E é assim como eu mesmo me sinto. A cada dia que passa, sinto-me mais livre, pois percebo que estou vi­vendo a fé de Jesus na construção de uma sociedade politizada. Pude com­pre­ender, inclusive, que a morte de Je­sus só aconteceu, quando ele se colo­cou inteiramente livre. Também ele a­pren­deu a ser livre : percebeu que a liberdade é uma construção que só se realiza quando deixamos de lado a ido­latria do poder e nos colocamos maieuticamente em escuta das dores dos outros, dos pobres e excluídos.

E, por último, em nome de nossas comunidades e em meu nome próprio, só nos resta agradecer pela tua cora­gem libertadora. Teus textos nos fize­ram ser mais gente, mais humanos, mais Jesuânicos. Mais aderentes á fé de Jesus. Deixamos a dependência de uma fé em alguém, para aderirmos a fé de Jesus! Obrigado! Muito obrigado! Um abraço na fé jesuânica

Meu Companheiro e Irmão Marcelo

A tua mensagem é toda Evangelho, Boa Nova, a de Deus, o de Jesus. Os testemunhos que partilhas são ACTOS, como os relatados por Lucas, no se­gun­do volume da sua obra, mais co­nhe­cido por esse nome. São testemu­nhos que me (nos) edificam. Por isso, vou partilhá-los no Correio Aberto não-confidencial, para que levantem caídos e mobilizem deprimidos por tanto Reli­gi­oso que por aí se faz só para fabricar sub-mulheres, sub-homens, abortos de mu­lher, abortos de homem. Esquece­mos que só na Insurreição Desarmada é que somos. Enquanto não chegamos a essa dimensão humana, somos capa­chos, necessitados de Religioso a ro­dos. A Fé de Jesus não vai por aí, como bem sabes e bem testemunha mais este teu mail. A Fé de Jesus é a Plenitude do Humano e quem chega lá dispensa todo o Religioso e afirma-se de Insur­reição em Insurreição, feitas de Práti­cas Políticas e Económicas Maiêuticas como as dele. Até que os do Poder, im­po­tentes para fazerem frente a tanta Fra­gilidade Desarmada, perdem a ca­be­ça e matam-no. No género de morte mais ignominioso que tiverem à mão, hoje, o incruento do desprezo e do os­tra­cismo totais.

Fico feliz e em EUCARISTIA com mais este teu mail. É já assim que sem­pre vivo cada dia. Mas este teu teste­munho sobre o que o Espírito faz acon­tecer, a partir de certas crónicas teoló­gicas com que se tece o meu DIÁRIO ABERTO na net, ou a partir de algum dos meus livros chegados ao Brasil, dei­xa-me ainda mais feliz e ainda em mais EUCARISTIA. Na minha fragilidade desarmada, o Espírito de Deus Abbá, Nossa Mãe / Nosso Pai, manifesta-se na abundância dos seus dons e os fru­tos são os que tão eloquentemente aqui me relatas. Cantemos e dancemos juntos, que o Oceano nos une, tal como o Espírito de Jesus.

Abraço-te, companheiro e irmão. E, em ti, abraço todas essas Comunidades que dinamizas em nome de Jesus e que tanto te alimentam e me alimentam. Teu / Vosso, Mário

E-mail. Érico: Boa noite, o meu nome é Érico e tenho 36 anos. Obtive o seu livro, Quando a Fé Move Monta­nhas, há uns 3 meses, e só agora é que terminei a sua leitura. Escrevo-lhe para dizer que li e reli e não percebi ainda a parábola do juízo final, Mateus 25,31-46, onde o padre Mário diz, e não Jesus, Vinde, também os da es­querda. Do que eu li do livro todo e muito tempo demorei, é que o padre Mário põe palavras na boca dos discí­pulos de Jesus. Reparei ainda que o padre Mário distorce o Novo Testa­mento todo; em que pé é que ficamos? Obrigado.

R.

E eu a pensar que o Érico me escre­via para se alegrar comigo e com a Boa Notícia ou Boa Nova que leu no meu livro, a propósito dessa parábola atribuída a Jesus pelo Evangelho de Ma­teus. E o Érico, em vez disso, escre­ve para me “desancar”. Até parece que, se Deus não for um pouco assim como eu digo nes­sa resposta que dei, o Érico fica muito perturbado / zangado com Ele. Será que é tão sado-masoquista (desculpe esta pergunta, mas tenho de lha fazer), que só gosta de Deus, se Ele condenar a maioria da Humanida­de, ou toda a Humanidade ao "fogo e­ter­no do inferno"?! E quem lhe garante, se as coisas fossem assim como se diz na parábola, que o Érico não faria par­te desse número dos que, nesse mo­men­to, estariam à esquerda de Jesus?

As palavras que escrevi e escrevo no livro não são de Jesus? São apenas minhas? Mas o Érico ainda acha que as palavras dessa parábola mateana (só ele é que a apresenta!) foram ditas tal e qual por Jesus? Já havia gravado­res na altura para gravar?! Os 4 Evan­gelhos canónicos não são, basicamen­te, uma criação das Comunidades? Co­mo explicaria então a abissal diferença entre os três Sinópticos e o Evangelho de João? A força e o valor dos 4 Evangelhos não vêm do facto de as comuni­dades terem conseguido estar tão-no-Espírito-e-com-o-Espírito de Jesus, que o fazem dizer, anos depois da sua Mor­te Ressuscitada, aquelas palavras que os respectivos destinatários deles mais precisavam de ouvir, nessa altura, para serem outros Jesus? E não é esta Mis­são Maior que as Igrejas todas estão desafiadas a fazer, também as Igrejas deste nosso século XXI? Elas não o fa­zem? Limitam-se apenas a repetir a­que­les textos das comunidades do sé­culo I? Problema delas. Não me conde­ne a mim, por tentar fazê-lo. Na fideli­da­de ao mesmo Espírito de Jesus, ob­vi­a­mente.

Em que ficamos então? Por mim, prefiro ir por esta via, a da fidelidade ao mesmo Espírito de Jesus, em vez de continuar a fazer das palavras do Novo Testamento mera letra sem Espí­rito, uma espécie de objecto de museu, um ídolo, no fim de contas. E nunca se esqueça que a letra mata, só o Espírito é que vivifica. É claro que o Érico se­gui­rá a via que entender. Experimente, ainda assim, ir pela via do mesmo Espí­rito de Jesus. De contrário, arrisca-se a ficar só com a letra do NT. E ela, sem o Espírito, acabará por o matar, pelo menos, por o não deixar crescer em SER e em LIBERDADE. Que me diz?

O meu abraço, Mário


 

PÁGINAS CENTRAIS

DOCUMENTO

A intervenção da teóloga do Brasil, Nancy Cardoso Pereira (não conhecem, pois não?!...)

que tirou do sério o XXVIII Congresso de Teologia de Madrid e a Teologia (ou Idolatria?!)

que se ensina nas Universidades católicas do Ocidente

Contribuições das lutas de libertação da AL para o Cristianismo

"...porque [o Cristianismo] me matou tão mal e eu continuei a cantar!"

1. Por que tinha eu, por fim, de ser cristão?

Para me organizar para esta con­versa com vocês fui reler meus livros mais queridos... revisitei minha bi­blioteca, procurando vozes do passado que gostaria que me ajudassem a iniciar a reflexão sobre “contribuições do cristianismo libertador na América Latina”. Não queria os textos óbvios! Queria os textos difíceis, porque este é um tema que precisa ser complicado, fugir das respostas acomodadas e sim­ples. Fui buscar textos em que a teolo­gia da libertação pergunta pelo cristia­nis­mo na América Latina, sem respostas prontas... sem truques epistémicos ou ge­nealogias domesticadas.

Encontrei o texto de Raúl Vida­les de 1982: Volveré... y seré millones [Hei-de regressar e serei milhões], edi­tado por CELADEC – Comissão E­van­gélica Lationamericana de Educa­ção Cristã. O título do livro recupera a expressão atribuída a Tupac Katari, liderança indígena na luta contra a vio­lência colonial.

Raul Vidales apresenta uma refle­xão sobre O sujeito histórico da Teolo­gia da Libertação e abre o debate com Enrique Dussel, Hugo Asmmann, Jur­gen Moltmann, Luis Rivera Pagan e ou­tros (num tempo em que nós, as teólogas, ainda não existiamos, eles diri­am!). As perguntas e os debates são ex­tremamente honestos, quase seve­ros, difíceis. Nada fica intacto! Tudo pode ser criticado!

Dussel dispara: Se a teologia parte da teologia, então eu pego no Wor­terbuch, de Kittel. Se a teologia parte da comunidade cristã, então eu parto da história da Igreja. Mas se a teologia quiser partir da realidade con­creta, da acção dessas maiorias opri­mi­das, o problema é muito mais com­ple­xo e exige uma precisão categorial maior também.

Moltmann pergunta: Por que ti­nha eu, por fim, de ser cirstão? Se co­me­ço por este método, não vejo razão de me fazer cristão.    

Responde o jovem Hugo Ass­man­n: Aqui, torno-me materialista. Tra­ta-se da última instância material da vida real. Nem Marx, nem eu, ja­mais dissemos outra coisa: a vida, a produção da vida real, a reprodução da vida real, a reprodução das condi­ções da vida real. A consciência é ma­terial.O funcionamento de tudo o que implica a capacidade da alegria, a ca­pa­cidade de pensar, a capacidade real de apreciar a beleza, tudo isso é mate­rial, porque se inscreve no ser material dos seres humanos. Essa última instân­cia da vida para mim… não pode ser con­testada sem a intromissão de uma trans­cedentalidade no seio da vida re­al… no encontro entre o materialismo hístórico e os requesitos mais originais da tradição judeo-cristã.

Mesmo sabendo que o último Ass­mann denunciou as falsas fidelidades à TdL como esclerose e rotinização e a presença de temas sociais nos discur­sos oficiais das igrejas e dos teólogos, como clara tendência de autoconservação e um fechar-se sobre si mismas...,a afir­mação de fé projecta-se até nós ho­je: a vida! A vida!

Dussel vai insistir na realidade con­creta de acção das maiorias: a vida! A vida!

O tema desta conversa então pre­ci­sa de ser alterado... porque eu esco­lho um lugar de significado, eu situo-me numa tradição de fé e teoria: não vou partir da teologia mesmo... nem da história da igreja. Materialista, eu tam­bém, vou pensar o cristianismo na Amé­rica Latina a partir da vida, da reali­da­de... da luta de classes e das intro­missões de alegria e de beleza. Assim, a vida dos pobres: homens e mulheres.

Não posso oferecer então, como me propuseram, “as con­tri­bui­ções do cristianismo libertador pa­ra América Latina”. Este não pode ser o meu ponto de partida, nem o meu ponto de che­ga­da... Ao invés, quero sugerir este outro:

2. As contribuições das libertações latinoamericanas para o cristianismo.

Como religião imposta, o cristianis­mo não tem contribuição positiva. Não há maneira de mudar esta avaliação sem comprometer os dados e as inter­pretações da história já conhecida por todos/as. Volto à pergunta de Molt­mann:

Por que tinha eu, por fim, de ser cristão? Se começo por este método, não encontro razão de me fazerr cris­tão.    

O cristianismo deixa de ser religião imposta, quando finalmente olha nos olhos do continente, nas muitas caras de muitos povos... quando aceita ser uma religião entre outras, uma possibi­lidade salvadora entre outras. Assim... o cristianismo pode deixar de ser reli­gião imposta para ser religião acolhi­da, apropriação popular marcada pelo sincretismo.

Estas são as contribuições das lutas de libertação na América Latina (AL) para o cristianismo:

* viabilizar o sincretismo e

* radicalizar a alteridade da en­car­nação

* ampliar criticamente  a noção de sujeito.

Estas contribuições devem neces­sa­ria­mente ser entendidas dentro do quadro do conflito, da luta de classes, dramática na AL. Significa dizer que se­ctores hegemónicos do cristianismo continuam comprometidos com as elites capitalistas do continente e seus in­teresses globalizados. Neste sentido reafirmo a Teologia da Libertação (TdL) e suas variações e reinvenções como ex­pressão deste cristianismo que se dei­xa evangelizar pelos pobres, como retomada vital da encarnação, que en­tre nós chamamos Jesus.

2. 1. ...porque me matou tão mal e eu continuei a cantar!

A nossa possibilidade de reinven­ção e superação do cristianismo das elites está na história precária da evangelização na AL: fomos sub-evange­lizados, mal-evangelizados, semi-evangelizados. A pressa, a violência e a cobiça inviabilizaram qualquer alteri­dade, tornando a imposição da religião uma realidade superficial e contraditó­ria.

Como na canção de Mercedes So­sa [aqui a teóloga cantou mesmo com a voz e todo o corpo]: Dou graças à desgraça e à mão com o punhal, por­que me matou tão mal

Além da ineficiência da evangeliza­ção, a resistência activa e passiva dos po­vos nativos e africanos escravizados, os mais de 500 anos de persistência cultural e política criaram as condições re­ais de sobrevivência, de capacidade de gerar processos de autonomia e de enfrentamento do poder imposto. A sub-evangelização deixou lacunas; a má-evangelização produziu uma religião mí­nima  - ou religião popular - latino-ame­ricana atravessada de ambiguida­des que foram reinterpretadas e re-apropriadas pelos pobres – em sua plu­ralidade.

O resultado foi um cristianismo sel­va­gem, sincrético, indisciplinado, híbri­do... ambíguo. “Ambiguidade” pode ser genericamente definida como: A quali­da­de de ter mais de um significado. A com­preensão acerca da “ambiguidade” no contexto da linguística contemporâ­nea fez com que a ambiguidade pas­sasse a ser tratada como “disjun­ção”, “problema de recepção”, “proble­ma linguístico” ou “estratégia discur­siva”... logo um problema a ser supera­do. Mas, por exemplo, na poesia e no hu­mor, a ambiguidade é considerada par­te essencial do mecanismo discur­sivo e não uma indeterminação.

Onde a linguagem e a literatura se encontram com a história, a ambigui­dade pode aparecer como resistência, escapando do ordenamento funciona­lis­ta que vê a linguagem unicamente como instrumento de comunicação subordinado. Ambiguidade não é falha, defeito, carência de um sentido que seria rigoroso se fosse unívoco. Ambiguidade é a forma de existência dos objectos, da percepção e da cultura, percepção e cultura, sendo elas também ambíguas, constituídas não de ele­mentos ou de partes separáveis, mas de dimensões simultâneas que, como dizia ainda Merleau-Ponty, somente se­rão alcançadas por uma racionali­dade alargada, para além do intelectua­lismo e do empirismo.

A demarcação entre popular e ofici­al, centro e periferia é inadequada e in­suficiente para se entender a situa­ção. As práticas religiosas co-existem, competem, derivam-se e influenciam-se sem que se possa reduzir a um mesmo denominador esta ou aquela prá­t­ica.

A visão dicotómica entre religião popular e religião oficial, mesmo quan­do trata de valorizar e se identificar com o que é chamado de popular, acaba obstaculizando o trabalho de reconstru­ção, uma vez que continua trabalhando com uma percepção de religião como uma entidade monolítica, imutável. O mais apropriado seria identificar o carácter dialéctico, inter-relacional e mul­tidirecional do fenómeno religioso.

Algumas pesquisas vão preferir tra­tar a delimitação do popular evitando a discussão clássica de ideologia e po­der, criando critérios menos conflitivos como folclore, religião familiar, religião comunitária. Tal evitamento cria aparentemente condições para se trabalhar com rituais ligados a questões quotidia­nas e mais próximas dos segmentos so­ciais mais distanciados dos aparelhos institucionais do poder e da religião co­mo: nascimento, crianças, festas e pe­regrinações, ritos funerais, rituais li­gados à comida, inaugurações de casa, colheitas, calendários sagrados, adivi­nhações, magia, encantamentos e, tal­vez, sacrifício de crianças.

Esta perspectiva, entretanto, incor­re num labirinto analítico, uma vez que evitando-se a discussão sobre o poder anulam-se as condições materiais de pro­dução e reprodução de bens simbó­licos. Religião popular não pode ser definida por elementos de aparente e suposto isolamento do aparato oficial de poder e religião. De modo especial, tal caracterização acaba idealizando certas práticas rituais, isolando-as num suposto âmbito desprovido de relações de poder e, pela contramão, enfraque­cendo o potencial e os elementos de re­sistência e de contra-poder dos se­gmentos sociais envolvidos.

São elementos, lugares e presen­ças de uma religião mágica das massas que convivem e se contrapõem a um esquema de religião burocrático das eli­tes. Seriam fragmentos de uma reli­gião anónima, religião mínima. Estrato e resíduo de uma religiosidade que não desaparece, apesar das pressões centralizadoras e repressoras dos a­gentes e agências oficiais, senhores de­cisores da divindade que deve ser cultuada.

O mesmo Raul Vidales, alargando a discussão sobre o sujeito histórico revolucionário na AL, já apontava que:

Dentro da rebeldia possível dos índios, joga um papel importantíssimo a sua vontade, simbolizada em mitos, crenças, tradições. Neles, expressa-se a consciência colectiva de retorno e da acumulação de forças para a reconstrução orgânica da sua sociedade, da sua identidade, da sua história.

A continuidade dos assim chama­dos “povos profundos” e sua capacida­de de resistência expressam-se nas lu­tas de libertação e de reinvenção da ca­pa­cidade de produção e reprodução da vida material (voltando ao jovem Assmann): na linguagem, na quotidia­nei­dade, nas formas de organização so­cial e do trabalho, nas festas, nos rituais e de modo muito especial nas lutas pela terra e a luta na terra.

A questão da terra e do povo da terra são os pontos cruciais de avalia­ção de políticas e teologias... porque são os lugares de avaliação dos instru­mentos de interpretação, das media­ções políticas, das formas de organiza­ção e das qualidades de poder.

“O capital mundializou-se, mundia­li­zou seu território. Produziu, construiu, transformou seu território. E qual foi o re­sultado desse processo? Uma peque­na parte da humanidade apropriou-se, de forma privada, do mundo. O terri­tó­rio capitalista confiscado historicamente no processo de sua construção agora é contestado. As lutas dos Sem-Terra são marcas visíveis dessa contestação. E, mais do que isso, pequenas parcelas estão sendo retomadas pelos Sem-Ter­ra. Nelas estão semeando a utopia, re­encontrando sua identidade e a tornar-se cidadãos”. (FERNANDES, Bernardo Mançano. MST, Formação e Territo­ri­alização. São Paulo: Hucitec, 1996).

O MST (ou qualquer outro movi­mento sócio-territorial) pode ser com­pre­endido fora do processo de reor­ganização anti-capitalista em curso no mundo, o que nos obriga a pensar o específico de cada lugar e de cada questão específica no contexto das trans­formações mundializadas e da com­plexa luta de classes internacional.

“Povos profundos” aqui devem ser entendidos então não só como os povos nativos/indígenas e africanos, como também o campesinato pobre expulso da Europa e refém do mesmo modelo de exploração e violência. Os proces­sos de luta pela terra na AL – entendido como território, como espaço e como mo­do de vida – têm sido as expressões de luta de libertação mais significativas em nossa história.

São estes “povos profundos” que buscam formas de organização e de disputa que explicam o momento actu­al da AL de aprofundamento do capita­lismo internacional, por um lado (ex­pres­são dos interesses das elites bur­guesas e seus compromissos com o capitalismo globalizado) e as alternati­vas políticas de poder que atravessam o continente, tanto como expressão na­cional (Bolívia, Venezuela, Paraguai), como de dissenso político significativo com os Zapatistas no México, a luta dos Mapuches no Chile, o MST no Brasil, entre outros.

Nas palavras de Bonfill Batalla (Utopia y Revolución - el pensamiento político contemporáneo de los indios em AL, México, Nueva Imagem, 1981), a luta pela identidade étnica, a luta pelo direito de ter formas de vida dife­rentes das impostas pelo capitalismo não pode separar-se da luta de classes e dos processos de libertação.

Esta não é uma conclusão fácil nem uma utopia apressada. Este é o mo­mento actual das lutas de libertação na AL: processos plurais e contraditó­rios que redefinem estratégias e tácti­cas, recompõem as formas de organi­za­ção popular e de luta, em especial em relação à terra, ao território e às for­mas de produção e reprodução da vida material e simbólica.

Em alguns momentos na história dos 500 e poucos anos, o cristianismo soube dialogar e aprender destes “po­vos profundos”  e seus processos de re­sis­tência e luta. Os exemplos de teo­logias episódicas e isoladas em defesa de indígenas ou pobres mais reforçam a incapacidade do cristianismo hege­mónico. Em minha avaliação, foi a TdL que conseguiu explicitar de modo evi­dente e necessário o conflito de clas­ses dentro do próprio cristianismo, cri­an­do as condições para um cristia­nis­mo libertador na AL. Mas tal explicita­ção não surgiu da teologia mesmo, nem como expressão natural da história da Igreja... foi um processo doloroso e conflitivo (ainda em curso!), fruto da espiritualidade do compromisso de cris­tãos – homens e mulheres – e de comu­ni­dades cristãs que se reconheceram e se organizaram nas lutas de liber­tação. Momento primeiro: a vida!

“Graças a Deus, choveu no sertão. Graças a Deus, o milho brotou. Graças a Deus, o gado não morreu. Graças a Deus, estou curada. Deus, como chuva, milho, gado vivendo, cura... Deus, como esmola, ajuda, pão. Deus, como pedin­do em mim, pedinte nos outros (as). Deus, como comida. Deus, como carên­cia, sem omnipotência nem ciên­cia.... Deus, como trabalho, casa, compa­nheiro... quebra minha solidão, grita comigo, suspira comigo, busca comigo.” (Ivone Gebara

2. 2. Da desimportância do cristianismo: viva o cristianismo vivo!

A idéia de um continente consen­sualmente cristão já não resiste a um teste de opinião pública. Somos um continente com pluralidade religiosa. Cos­tu­mávamos falar da África, da Ásia, como continentes com diversidade de religiões e por isso mesmo marcados por conflitos.

Nós, latino-americanos, não! De certo modo orgulhávamo-nos do nosso cristianismo. A emergência de movi­mentos de libertação, étnicos e de mu­lhe­res ao lado das organizações popu­lares e a tentativa de recuperar a his­tó­ria, a partir dos pobres, de fazer teo­logia, a partir e com os pobres...revelou um continente atravessado por reli­giões, deuses e deusas.

Esta descoberta tem trazido desa­fios enormes para o cristianismo-já-não-tão-hegemónico: uns querem re­sol­ver esta contradição com um pedido apressado de desculpa e uma rápida justaposição de religiosidades e divin­dades, dizendo...é tudo a mesma coisa! Deus é um só! Incorpora-se na liturgia e na pastoral das igrejas um ou outro elemento de outros cultos e divindades, fazem-se ajustes e recauchutagens teo­lógicas...tudo rápido e simples num proselitismo disfarçado de ecumenismo Na pressa, acabam reforçando os esque­mas de dominação e de exclusão. Rou­bam os cultos e os deuses e deusas dos outros/outras...para que fiquem, obe­dientes e contentes, dentro dos limites impostos pelo cristianismo. Muitos chamam isso de inculturação.

Outra possibilidade tem sido a de tratar da religião dos outros/outras, como tema de estudo, exotismo a ser explorado,  vídeo a ser feito, terreiro a ser visitado, conferência a ser feita, livro a ser publicado...num exercício de tolerância que, reduzindo a fé-do-ou­tro/a em coisa, foge-se do enfrenta­men­to e crítica do suposto lugar de consen­so e liderança que o cristianismo goza nas sociedades latino-americanas. Re­du­zidos a tese de doutorado, os deuses e deusas do continente continuam en­curralados por este olhar aparente­mente displicente e desapaixonado, mas que, a partir da objectividade cien­tí­fica, continua servindo os interesses de um cristianismo que come na mesa do poder.

Difícil tem sido aprender que so­mos uma religião entre outras, que nos­so Deus é único, só dentro de nossas tradições, igrejas e credos, mas tem que conviver com outras divindades no dia-a-dia da vida dos povos pobres do con­tinente latino-americano. Difícil tem si­do perder a pose de monoteísmo escla­recido, de ecumenismo compreensivo para aprender a conversar e conviver de igual para igual com o sagrado plu­ral.

3. Da saúde da

Teologia da Libertação

Com este deslocamento, quero man­ter o exercício de fé e teoria, man­tendo a fidelidade à vida como intromis­são, momento primeiro da teologia. Com este deslocamento, também gosta­ria de responder e reagir à pergunta in­sistente sobre a saúde da TdL: “aca­bou, morreu, esfacelou-se, perdeu coerência, perdeu-se, está enfraqueci­da, depois da queda do muro, antes da volta de Cristo, o método simplista, o sujeito insuficiente, o projecto inviável, a noção sem noção de estrutura social e: Já morreu! Quem sabe dorme! Enfra­queceu! Perdeu coerência! Bonitinha, mas ordinária.”

Quem pergunta? Um amigo/amiga distante? Um amante saudoso? Quem per­gunta? Alguém interessado em transformar a TdL num parque temá­tico? Num museu de exóticas figuras? Quem pergunta? A teologia burguesa apressada em declarar a TdL como epi­sódio particular de uma teologia sel­vagem e sem futuro?

Ai! valei-me, meu materialismo his­tórico! Luta de classes, rogai por nós!

Perguntam, querendo exactidões e pensamento sistemático e complexo. Que­rem uma teologia profunda, reconhecida pelas tramas da universidade, com densidade científica, com reco­nhe­cimento de celebridades... Pois... contra a teologia dita profunda... só temos esta vertigem das lutas de classe do conti­nente, o corpo pessoal e social atraves­sado de dores e de prazeres, estas for­mas rascunhadas de organização, de con­tradição e de dignidade.

Dizer de uma história, uma pano­râ­mica da Teologia da Libertação não pode ser um projecto dominado por uma temporalidade ordenada, linear, tratando de alinhavar bem sucedidas prosas teológicas. Não! não será pela lista pródiga de livros e escritos, nem pelo número de conferências e ouvin­tes. Não se poderia avaliar a Teologia da Libertação, a partir dos nomes dos seus filhos mais ilustres... Parida na lu­ta de classes dos terríveis anos de chumbo, na América Latina, a história da Teologia da Libertação não pode ser uma montagem selectiva de auto­res, ideias e escritos.

As teologias de compromisso ra­dical não podem ser transformadas em relíquias que se vendem em suas universidades de elite. Contar da Teolo­gia da Libertação, de concílio em con­cílio, de bispo em bispo, de documento em documento, de livro em livro, de teólogo em teólogo... seria render-se a uma história triunfalista e autoritária.

A TdL sempre vive de elementos preteridos e esquecidos, faz do lugar dos vencidos seu lugar privilegiado de aprendizagem, escuta e escrita. Impos­sível estar aí neste lugar da fragilidade e do fracasso imposto pela rapina burgue­sa e não se deixar contaminar pe­la vulnerabilidade da opção.

A história não é facto... é proble­ma. Por isso, leia-se a TdL pela contra-mão, por suas escolhas radicais, es­treitas e difíceis como a vida dos po­bres. Daí a sua debilidade, daí a sua força... a sua resistência, a sua plura­lidade e grande liberdade.

A teologia diz de Deus entre os ven­cidos e o lixo, e entre os vencidos garimpa uma, duas e mais bíblias e lê, lembra e afirma e anuncia os viven­tes de nítido contorno contracultural - longe de possuir um carácter essencia­lis­ta - é o homem e a mulher, a comu­nidade dos viventes que lutam por ter­ra, tecto e trabalho. A teologia, como exercício de antropofagia, como rituais de uma postura cultural crítica capaz de compreender a latino-americanida­de como algo dinâmico, construído no movimento dialógico entre diferenças culturais: o local, o nacional e o uni­ver­sal, o interior e o exterior, o eu e o outro, a classe-em-si e a classe-para-si.

A/o teóloga/o entre os viventes é o canibal, um ‘polemista’ (do grego pólemos = luta, combate). A teologia, como linguagem polêmica, de luta, deixa de impor um sentido único, auto­mático e viciado da significação. A teolo­gia da libertação não explica: des-expli­ca! Sem carácter descritivo, não se con­tenta em estabelecer nexo causal entre isto e aquilo, Deus e o mundo. A teolo­gia atrasa relógios, ataca o mecanismo de permanência e constância e desins­tala o tic-tac ininterrupto e participa da criação desse tempo de agora, o mo­mento exacto onde é possível intervir, alterar, destruir, transformar. Como nar­rativa e ritual, a teologia pode fissurar o tempo e estilhaçar o fluxo vazio do tempo passante do “progressismo” bur­guês.

E Deus também não pode ser “o grande relógio” a marcar o tempo e a his­tória, como mecanismo fora do tempo e da história. A teologia burguesa de um deus intervencionista e omnipotente funcionou e funciona como normatiza­dor do relato dos vencedores.

O Deus de Jesus, encarnado na his­tória, morre na luta dos pobres e res­sus­cita na luta dos pobres, não como fa­ctor certeza e justiça predestinada, mas como exercício constante de radical solidariedade e amor revolucionário, profunda misericórdia e fidelidade à vida.

Assim não há certezas escatoló­gicas nem especulações metafísicas ga­rantidoras de uma acção divina realiza­dora da justiça... que confortem teólo­gos e teologias em suas cátedras “rasas e confortáveis”... parafraseando o mesmo Mariátegui:

“A teologia burguesa se satisfaz com uma crítica racionalista do método, da teoria, da técnica das práticas pastorais... Que incompreensão! A força dos agentes eclesiais de base não reside em sua ciência e sim em sua fé, sua pai­xão, sua vontade. É uma força reli­giosa, mística, espiritual. É a força do Mito. A emoção revolucionária (...) é uma emoção religiosa. As motivações religiosas se deslocaram do céu para a terra. Elas não são divinas, mas humanas e sociais” (Mariátegui, El hombre y el mito, em  El Alma Matinal, 1925).

4. A contribuição das lutas feministas para a TdL e para o cristianismo

...aproximou-se dele uma mulher, trazendo um vaso de alabastro cheio de precioso bálsamo, que lhe derramou sobre a cabeça, estando ele à mesa.” (Mateus 26,7)

Vendo isto, indignaram-se os dis­cípulos e disseram: Para quê este des­perdício? Pois este perfume podia ser vendido por muito dinheiro e dar-se aos pobres.” (Mateus 26, 8 e 9)

Para quem se faz aprendiz das teo­logias do continente latino-americano, para quem se faz mulher e teóloga gerada e crescida nas lutas dos movi­mentos de libertação, o gesto de inva­dir a casa aonde se reúnem os homens e derramar o perfume traduz bem o tanto de desafio e tarefa que vem sendo feito e ainda se tem para fazer.

Nós também não fomos convida­das, nem éramos esperadas neste mo­mento de páscoa-confronto, no qual a Teologia da Libertação se fez e se vai fazendo. Prioridades elencadas, lutas fundamentais identificadas, preferên­cias assumidas, agentes sociais privi­legiados alimentam o esforço dos teó­logos que se sentam na mesa do conti­nente-leproso. E já é muito que estejam sentados nesta mesa. Aí, entra a mulher e derrama seu perfume.

- Desperdício! gritam os senhores teólogos ciosos de suas prioridades. A mediação é o pobre! Insiste entre irritados e indiferentes, sugerindo que o que chamamos de teologia feminista poderia ter, de alguma forma, revertido na direcção hermeneuticamente e po­liti­camente adequada. Tratam de fazer do cheiro que exalamos um tema a mais, entre outros que se su­bordinam e se ajustam aos parâme­tros da mediação do pobre.

As teologias interrompidas vêm derramando e empregnando a casa, a igreja, as editoras, os institutos, as bibliotecas, os seminários, as gavetas, as assembleias e os concílios? Por que é que ouvimos tantas vezes que a teologia que fazemos é des­per­dício?!

4. 1. Recusamo-nos continuar a pensar o sagrado a partir dos parâme­tros patriarcais e mais que isso, denun­ciamos a teologia feita até aqui como idolátrica, uma vez que incorpora o macho e seus atributos como extensão do divino. Cheiramos a teologias que já não precisam de fundamentos, mas que na exposição de suas motivações re­velam o sagrado, com os muitos no­mes que Deus pode ter. A Teologia da Libertação ainda não denunciou sufici­entemente o que nela mesma é patri­arcalismo e fetichismo do macho: nem a nível metodológico nem nos des­do­bramentos eclesiológicos que ainda asseguram o privilégio masculino ao saber e administração do sagrado.

4. 2. Nossas teologias têm cheiro de corpo. Pedimos aqui que a Teologia da Libertação caminhe uma segunda milha. Já foi feito o caminho de cons­truir a teologia, a partir da realidade e seus conflitos, fazendo-o de modo comprometido, na preferência pelos po­bres. As teologias feministas insistem que a mediação sócio-analítica não pode esgotar-se no pobre como genera­lidade e insiste em apontar o corpo como ponto de mediação hermenêu­tica. O corpo cheira, é contextualizado, datado, situado. O corpo da classe.

Mais que isto, o corpo da classe é sexuado. Raça, classe e género não são portanto meros apetrechos decora­tivos da reflexão mas, na interacção com o corte sócio-económico, circuns­crevem as condições objectivas e subjectivas aonde a interpretação e a formulação do discurso e prática do sa­grado acontecem.

4. 3. Queremos que a casa cheire: a Simão, a casa do povo e a casa dos teólogos e teólogas também. A Teologia da Libertação não sabe ficar em casa. O que tem de novo e de libertador só pode ser exalado nos espaços públicos dos movimentos, das organizações e das entidades. Os teólogos da liber­tação não têm casa: vivem nos aviões ou em suas malas, entre uma viagem e outra, uma assessoria e outra. Inseri­dos, não moram. Comprometidos, não convivem. Passam pela casa do povo, da congregação ou da igreja local, co­mo seres especiais que não se pren­dem ao mundo das necessidades. Nisto se parecem aos teólogos mais tradicio­nais.  Daí que a casa continua sendo espaço vazio de dignidade e o quoti­diano despossuído de beleza ou valor. As relações homem-mulher, adulto-criança não contam. A economia da casa, a reprodução e o trabalho doméstico não interferem nas análises sócio-eco­nómicas que sustentam toda reflexão teológica libertadora. Daí que conti­nua­mos a não ter o que dizer e a conviver com a miséria emocional e sexual de nossos povos. E a nossa.

4. 4. As teologias feministas que­rem mais. Propomo-nos o orgasmo como dinâmica prazerosa que dignifica a pessoa, as relações, a família e a ca­sa. Fazemos teologia por prazer, por­que é bom, porque liberta e dignifica a vida. Daí o porquê de nos ocuparmos da discussão sobre culpa e prazer, se­xo e poder, sexualidade e política, pro­dução e reprodução. Isto tudo cheira de­mais e quase sempre o grito -  desperdício! é mais forte do que as ten­tativas e alternativas que vamos te­cendo.

5. 5. Cheiramos das muitas jorna­das de trabalho que compartilhamos com as mulheres do continente. Privile­giadas pelo acesso ao estudo e à vida académica, convivemos em situações familiares e esquemas de vida religiosa opressoras. Vivemos num continente que respira e convive com a miséria quo­tidianamente. Entre nós a pobreza tem sexo: são as mulheres e as crianças do continente que sofrem de modo mais imediato e directo com as crises económicas e políticas que arrastam o continente latino-americano por 5 sé­culos.

5. 6. Temos cheiro de mãe. Mas já não queremos vestir as vestes aper­ta­das e incómodas da maternidade despossuída de dignidade. Entre estas vestes que cheiram a mofo está todo o discurso religioso que mistifica e idealiza a maternidade, em especial no aprisionamento de Maria, mãe de Je­sus. Enclausurada numa virgindade absur­da e desnecessária, Maria, passa a assumir no discurso da Teologia da Libertação o papel da mãe que tudo sofre, tudo crê, tudo suporta pelo amor dos filhos e do povo na afirmação de um novo tipo de virgindade: a sócio-política. Recauchutam-se os dogmas e Maria e todas nós continuamos a ser depósitos virtuosos e militantes da causa do Reino e do povo. Queremos der­ramar o perfume do corpo sexuado de Maria e de todas nós, tomando o discurso sobre a maternidade, virgin­dade, concepção e fecundidade em nos­sas mãos, em nosso ventre, em nos­so sexo. Queremos continuar a engravidar só de ouvir as canções que o sagrado sopra sobre nós. Mas inteiras. Virgens ou não.

5. 7. Mães ou não. Aceitamos o diá­logo com outras mulheres, cristãs ou não, que se colocam o desafio de pen­sar sobre direitos reprodutivos, inclusive o aborto. Conversamos tam­bém com os milhares de mulheres que morrem todos os anos em abortos clan­destinos desesperados e mal feitos. Re­cusamo-nos a conversar com o clero e senhores da lei e da moral incapazes de fazer da experiência matéria teo­lógica. Esta conversa tem de ter cheiro de mulher. Ninguém quer o aborto. Mas ele existe e precisa ser descriminaliza­do, para que a conversa aconteça de modo libertador. Precisa de ser legali­zado para que o sacrifício sistemático de mulheres pobres acabe. A Teologia da Libertação tem afirmado o primado da vida como critério regulador das ques­tões morais e éticas. Vamos jun­tas... mas queremos mais. Não existe a vida, como um valor em si mesmo, fora dos limites e determinantes sócio-culturais. Afirmamos a vida, na sua con­cretude, nas suas contradições e feixe de relações. Daí que a ética deixa de ser a defesa de absolutos, para ser o discernimento do que é justo e belo nas particularidades.

5. 8. Nossa teologia tem cheiro de criança. E que cheiros uma criança tem! São tantos e todos e nenhum deles perpassa pela teologia. Nenhuma de­las... nem a da Libertação. As crianças em­pobrecidas aparecem como tema, como exemplo de situação de opressão e sa­crifício, mas não são afirmadas como agente eclesial e social activos. Mere­cem as acções libertadoras dos adultos, mas não são entendidas como parte activa e presença profética no meio da comunidade de fé.

5. 9. Também nos gritam - desper­dício!, quando derramamos a exigência de democratização e socialização dos sacramentos e ordens. Até mesmo entre as teólogas existe as que fazem coro, dizendo que a luta pela ordenação femi­nina não é prioritária. Correcto: nossa prioridade não é o púlpito ou o poder de administrar o sacramento. Mas não dá para conviver com formas de orga­ni­zação da vida eclesial que continuam a proibir o acesso de mulheres a esta ou aquela instância da vida interna da comunidade cristã. A luta pela ordena­ção feminina não se esgota no acesso à ordem e aos sacramentos, mas arti­cula-se com um processo mais amplo de avaliação e na busca de novas for­mas de ser igreja. Qualquer discussão sobre poder e carisma que não aponte para o acesso inclusivo ao ministério joga água no moinho da discriminação nas igrejas e na sociedade.

5. 10. Torna-se necessário recolo­car a religião e seus textos, no hori­zonte das discussões contemporâneas sobre os modelos exploratórios e de dominação da natureza e seus seres, dos enfrentamentos da base material da existência e dos modelos teóricos e empíricos de experiência e investi­gação da vida. Tudo se transfigura qu­ando tocado pelo capital: o valor da ter­ra, a direcção da água, a noção de floresta, o interior da semente, a previ­são dos imprevistos, a ciranda do clima. Tudo etiquetado e negociado na banca internacional dos violentos deixa de ser “matéria” e “corpo do mundo” para assu­mir poderes sobrenaturais de objectos inanimados como valor de troca, item de crédito e de débito, que nega as rela­ções de trabalho e cultura com as forças vivas da humanidade. A capita­lização da natureza reproduz um cam­po de acumulação de riqueza que, além de não favorecer formas de distri­buição, legitima e acelera formas polí­ticas de exclusão.



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