Textos do
Jornal Fraternizar

Edição nº 169 de Abril/Junho 2008

DESTAQUE 1

Confissão auricular: Sacramento ou pesadelo?

Este ano, a Páscoa de calendário chegou muito cedo. Caiu quase em cima do natal. Ainda o puto Jesus do natal não tinha largado as fraldas e já estava aí, homem feito, a ser preso, julgado, flagelado, condenado e assassinado. Tudo faz-de-conta, já se vê, que isso é o rito, a liturgia eclesiástica. Por isso é já depois da Páscoa de calendário, que Jornal Fraternizar propõe às suas leitoras, aos seus leitores este Destaque 1 sobre o Sacramento da Confissão, provocado por duas crónicas dominicais do nosso querido Amigo, Frei Bento Domingues, no PÚBLICO. Não percam. E se quiserem escandalizar-se, que não seja com o que vão ler, mas com o que a nossa Igreja católica fez durante séculos e séculos e, pelos vistos, ainda continua a fazer aqui e ali, mesmo em Lisboa e no Porto.

Inopinadamente, a Confissão de joelhos aos pés de um clérigo católico, sentado algures num confessionário inesteticamente plantado nas igrejas paroquiais e capelas abertas ao culto, voltou ao debate em Portugal por meio de duas crónicas do nosso querido ami­go Frei Bento Domingues, nas pá­ginas do PÚBLICO.

Pelos vistos, entre as duas cróni­cas, publicadas em dois domingos se­gui­dos, ainda houve um encontro-de­bate ao vivo com o próprio Frei a coor­de­nar, no Convento de São Domingos, e que terá sido muito participado e mui­to acalorado, ao ponto de o Frei do­minicano chegar a ser alertado por alguns dos presentes do perigo que cor­reria de, juntamente com a água suja do banho, deitar fora também o bebé acabado de ser lavado nela.

Na minha qualidade de director do Jornal Fraternizar, fico espantado / es­can­dalizado com tudo isto, pois pen­sava que a Idade Média alta que, no Ocidente, se estendeu até ao Con­cílio Vaticano II, realizado tardiamente já na segunda metade do século XX, tinha falecido e sido definitivamente sepultada. Pelos vistos, não foi. Pelo menos, para um certo sector da nossa Igreja católica, necessariamente redu­zido, porque, se reduzido já é hoje o número de católicos que ainda se as­su­mem como praticantes de missa ao domingo, muito mais reduzido terá de ser o número dos que se assumem pra­ticantes da Confissão semanal, men­sal, ou mesmo anual.

Não sei, em tudo isto, o que mais me causa espanto / escândalo: se a pa­ciência e a bonomia do nosso amigo Frei Bento, se o catolicismo medievo ainda activo no século XXI, e em Lis­boa, onde o referido debate aconte­ceu e onde as duas crónicas do PÚBLI­CO foram dadas à luz.

O facto em si da Confissão auri­cular, histórica e objectivamente tão inquisitorial e pidesco, inumano e anti-jesuânico, já não deveria merecer, ob­vi­amente, qualquer referência neste Jornal. Ignorá-lo, seria certamente o mais avisado. Mas não quero que res­tem dúvidas a este respeito, não vá o silêncio do Jornal poder ser interpreta­do como concordância com o que foi dito e, pelos vistos, ainda está a ser pra­ticado por aí em certas paróquias que se podem ter por muito católicas, mas jesuânicas é que elas não serão.

Desde que o IV Concílio de Latrão (1215) a tornou obrigatória para todos os fiéis católicos - então, praticamente, toda a população que habitava os ter­ri­tó­rios da Cristandade Ocidental - a Confissão auricular nunca mais foi sa­cra­mento da Igreja, muito menos de Je­sus. Tornou-se, isso sim, numa ar­ma espiritual e também social - e que arma! - do Poder eclesiástico e cleri­cal. Uma arma de horror. E de terror. Terrorismo sob a capa de virtude, sem dúvida o pior terrorismo.

Nesse dia, as populações, se o fos­sem em estado de maioridade - e pode haver Cristianismo de Jesus sem pes­so­as / populações em estado de maio­ri­dade?! - ter-se-iam rebelado contra o IV Concílio de Latrão e suas deci­sões; e, se os eclesiásticos-mor que estavam à frente das respectivas dio­ceses ainda persistissem na deles, deveriam pura e simplesmente deixar de continuar a frequentar os espaços eclesiásticos onde eles eram senhores e amos - Jesus, o de Nazaré, também não deixou de frequentar o Templo de Jerusalém?! - pelo menos, até que se­me­lhante decisão / norma fosse abo­lida.

O carácter obrigatório da Confis­são retirou-lhe automaticamente tudo o que aquela acção sacramental pu­des­se ainda ter de humano e de salu­tar para certas pessoas. O que até en­tão poderia ser Graça, passou automa­ticamente a ser tortura. E que tortura! Nenhum de nós é, felizmente, desses fu­nestos e medonhos tempos de domí­nio clerical e eclesiástico absoluto. Mas dá para perceber, até por esta de­ci­são / norma da Confissão obriga­tória, que eram sinistros e medonhos tempos, bem piores do que os sinistros e medonhos tempos da Pide, nos anos do ditador Salazar, de má memória.

Sou presbítero da Igreja do Porto, nascido como tal por ocasião do Con­cí­lio Vaticano II (Agosto de 1962) e conheci a Confissão, primeiro, no pa­pel de “réu”, como “obrigação” sema­nal, durante os anos do Seminário e nos primeiros anos de exercício do mi­nistério presbiteral, e, já depois de or­denado, também no papel de “juiz”. Re­cordo-me, como se fosse hoje, o horror que era aquele momento sema­nal, a humilhação que era aquela prá­ti­ca da confissão semanal no Seminá­rio.

Na capela do dito, os que deseja­vam confessar-se com a regularidade semanal (quem não desejasse passa­ria a ser olhado de viés pelos demais e pelos próprios “superiores” que con­trolavam todos os nossos passos, um dia após outro), teria de deslocar-se, durante a celebração da missa diária, do seu lugar habitual no banco e diri­gir-se, perante toda a assembleia, para o fundo da capela, onde aguar­da­va, juntamente com outros, a vez de se confessar.

O acto decorria numa salinha ao fundo da referida capela, onde o “juiz” nos esperava todos os dias, àquela mesma hora, durante a celebração da missa, oficiada e presidida por um ou­tro padre. Os “penitentes” daquele dia e daquela semana juntavam-se todos ali ao fundo. E entravam na salinha, cada qual na sua vez.

O padre “juiz”, de preto vestido, es­perava-nos sentado numa cadeira, com um genuflexório ao seu lado, on­de o “réu” que entrava deveria ajoe­lhar-se e passar a confessar todos os seus pecados, cometidos desde a últi­ma confissão que havia sido há preci­sa­mente uma semana. O mais compli­cado era arranjar pecadilhos novos, para não estar sempre a repetir os mes­mos, semana a semana. Uma ver­dadeira tortura, para adolescentes e quase-jovens que já então todos éra­mos, no Seminário de Vilar. E tudo se manteve igual, depois, no Seminário da Sé, já em pleno curso de Teologia.

Para lá desta tortura semanal, ha­via ainda, de tempos a tempos, a pas­sa­gem obrigatória pelo director espiri­tual. Era por ordem alfabética, para que ninguém escapasse. O encontro rea­lizava-se a sós, no gabinete do pa­dre director espiritual do Seminário. Nem vos digo os calafrios que sentía­mos, quando chegava o dia e a hora de termos de ir ao “picadeiro”. Íamos ma­nifestamente como “réus”. A humi­lha­ção era total. Libertação? Quem pode falar aqui de libertação nesta prá­tica regulamentada e imposta? Só respirávamos de alívio, quando o dire­ctor espiritual nos dava “alta” e podía­mos regressar à nossa intimidade, à nossa privacidade, sempre controlada, sempre vigiada, que para tanto havia em cada corredor, em cada salão e nos recreios, pelo menos, um prefeito, padre, mas prefeito, vigilante atento, autoritário e repressivo / agressivo, sem­pre que fosse achado necessário.

Sinal de Graça e de Perdão esta prática eclesiástica? Sinal de Miseri­cór­dia? Horror, isso sim. Tortura, isso sim. Total devassa da nossa privaci­da­de e da nossa intimidade, isso sim.

O que mais me espanta / escan­da­liza, ainda hoje é como houve pa­dres que se prestaram, como infantis ou adolescentes, a estes inquisitoriais papéis. Como acataram essas normas. Como não lhes desobedeceram. Como não se indignaram perante elas. Como não objectaram contra elas. Como as realizaram “santamente”, “piamente”. Como acharam normal, saudável, san­tificador este tipo de práticas, manifes­ta­mente demoníacas, opressivas, in­quisitoriais, pidescas, catastróficas no harmonioso desenvolvimento dos can­didatos a padre/presbítero.

Depois de ordenado, vi-me, de um dia para o outro, no duplo papel de ainda “réu” (a obrigação de me con­fes­sar uma vez por semana mantinha-se! Pelo menos, eram essas as instru­ções que trazia para alimentar a minha vida espiritual presbiteral e que eu ini­cialmente cumpri escrupulosamente) e, agora, também no de “juiz”. E foi no exercício deste papel de “juiz” que tudo veio a desmoronar-se. Até hoje.

Se o papel de “réu” perante o pa­dre “juiz” já me perturbava e humilha­va, o de “juiz” tornou-se-me absoluta­men­te intolerável. Eu, um “puto” à bei­ra daqueles homens e daquelas mu­lhe­res que tinham idade para serem meus pais, mães, avôs, avós, sentado e eles de joelhos diante de mim, a tremerem por todos os lados de vergo­nha e de humilhação, e tudo isto, para que Deus lhes perdoasse os pecados, era absolutamente intolerável. Era o intolerável. A vergonha das vergonhas. Um verdadeiro pesadelo, antes de mais para mim. Era a Humilhação no seu pior.

O caso atingia o paroxismo da hu­milhação, quando, de longe a longe, um colega padre como eu fazia ques­tão de se confessar a mim, de ajoelhar perante mim, de quase me forçar a ou­vi-lo de confissão. Até suores frios subi­am pelo meu corpo, nessa ocasião. Sa­cramento de Deus, isto? Sinal de Graça e do Amor de Deus, este rito? Ou o horror dos horrores?!

A princípio, ainda tentei levar as coisas para o campo da des-confissão. Deixava que as pessoas se aproxi­mas­sem para o “confesso”, mas, de­pois, tentava rir-me com elas e libertá-las daquele pesadelo, no género: Mas acha que isso que me diz é algum pe­ca­do? E foi para confessar essas ni­nha­rias que me veio procurar? Não acha que é tempo de nos deixarmos des­tas coisas sem sentido? Deus pode estar envolvido nestes actos eclesiásti­cos católicos? E se, em vez de andar­mos nisto de ano para ano, crescêsse­mos todos mais na Fé?

Consegui, em muitas ocasiões, que as pessoas passassem dos nervos miudinhos para a gargalhada, quase escandalosa dentro do templo. E essas, sim, terão sido as únicas vezes em que o sacramento da Confissão aconteceu! Com o “réu” e o “juiz” a rirem a bom rir, a bandeiras despregadas!

Este problema de ter de atender assiduamente de confissão as pessoas pôs-se-me, sobretudo, quando fui pá­ro­co. Nas aldeias, a obrigação de se con­fessar era escrupulosamente cum­pri­da por quase todas as pessoas, no­me­a­da­mente, na quaresma / páscoa. U­ma verdadeira estopada! Chegavam a formar-se longas filas na igreja paro­quial, como de verdadeiros condena­dos ao patíbulo. E o padre lá estava a tentar dar vazão a tudo aquilo, em condições que tinham tudo, inclusive para ele, de tortura, nada de Graça.

Foi sobretudo nesses poucos anos de pároco, que eu dei uma volta de mais de 180 graus na minha consci­ência. Praticamente, recusava-me por princípio a ouvir a lista de pecados que as pessoas traziam mais ou me­nos engatilhada. Aproveitava aquele momento para evangelizar as pesso­as, uma a uma - por isso, cada encon­tro era mais demorado - e assim tentar convencê-las de que aquela fosse a última vez que se viessem confessar, porque Deus, o de Jesus, não queria, não quer, não pode querer nada des­tas coisas objectivamente abomináveis.

Estas coisas, dizia-lhes com con­vicção, são uma injúria ao seu Nome. São puro domínio clerical e eclesiás­tico sobre as vossas consciências. São uma prepotência. Um abuso. Um sacrilégio. Uma devassa intolerável.

Obviamente, os meus colegas pá­rocos das redondezas acabaram por saber destas minhas “confissões”, já que há sempre alguma “ovelha” mais fiel ao amo e senhor do “rebanho” que vai alertá-lo para o que de subversivo e de libertador um outro pároco, con­cre­tamente eu, andava por ali a fazer no seu “redil”. E a verdade é que, ain­da pároco de Macieira da Lixa, lá dei­xei de ser convidado pelos párocos vi­zinhos para as chamadas “confissões de desobriga”, na Quaresma de cada ano. O que, para mim, foi um verdadei­ro alívio.

Entretanto, na paróquia, avancei, com audácia criadora, para a celebra­ção comunitária do Perdão, onde a Palavra escutada e o Espírito que nela Sopra actua(va)m misteriosamente na consciência da assembleia e na de cada um dos seus membros, sem que eu tivesse de interferir directamente, caso a caso.

Desde então, eu próprio nunca mais me vi no papel de “réu” - nunca mais me confessei! - nem no papel de “juiz” - nunca mais confessei ninguém. Aco­lho as pessoas e sou acolhido por elas na Comunidade que reúne em no­me e em memória de Jesus, e o Espíri­to de Deus que nos conhece melhor do que nós próprios é quem nos per­doa e recria, nos faz Novos a cada ins­tante. Confissão, como Tribunal da Inquisição, nunca mais!

Por isso, em verdade, em verdade vos digo: Não temam, vocês também, deitá-la fora juntamente com a água suja do banho. Façam-no sem hesitar. Ela é a água suja do banho! Uma prá­tica eclesiástica católica sem remissão. Mantê-la, século XXI adiante, seria perpetuar a Idade Média que nunca de­veria ter existido. Evangelizar os pobres é preciso. Confessar nestes mol­des eclesiásticos não é preciso. É até pecado! Populações evangelizadas - para Evangelizar os pobres é que exis­tem o ministério presbiteral e o mi­nistério episcopal na Igreja - são popu­lações convertidas, perdoadas, euca­rís­ti­cas, sororais, fraternas, militantes, alegres, políticas, metidas não nos tem­plos e nos ritos, mas no mundo e na História, como o fermento na mas­sa, a luz no meio da cidade, o sal da terra, a sentinela que alerta para a a­proximação do Inimigo da Humani­da­de que hoje vem até ela disfarçado de Deus, o Senhor Deus Dinheiro e o Se­nhor Deus Religião, para que ela per­maneça, séculos e séculos, infantil, em lugar de crescer como Jesus em ida­de, estatura, desenvolvimento, sabedoria e graça.

Vão por mim. Aceitem o desafio e tornem-se mulheres, homens adultos na mesma Fé de Jesus, não nessa fé re­ligiosa e eclesiástica que é sobre­tudo medo e infantilismo. E hão-de ver que o resto virá por acréscimo.


DESTAQUE 2

Luta contra a Pobreza: Somos todos uns hipócritas!

Por ocasião da realização do Fórum Social Mundial 2008, a Pobreza esteve em debate, no decurso de uma tertúlia, realizada num Café da cidade de Penafiel. Fui convidado a participar, também na minha qualidade de director do Jornal Fraternizar, pelos promotores locais da iniciativa. E aceitei, ainda que com alguma relutância. Se lerem, saberão o porquê dessa minha relutância.

A simples existência da Pobreza em massa e de pobres em massa é uma aber­ração, um crime que nunca deveria ter começado a existir à face da terra. Mas que não só começou a existir, como ainda se mantém. Propositadamente. Um crime que é todos os dias alimenta­do por grandes Inteligências dementes e cientificamente organizadas. Para que atinja cada vez mais pessoas e povos. Inclusive, alimenta-se, até, com debates como este em que também estou aqui par­ticipar. Daí a minha relutância em vir. Na verdade, quando mais parecemos erguer-nos contra a Pobreza, ainda aí es­tamos a contribuir para que ela se mantenha.

Em matéria de Pobreza e de pre­tenso combate à Pobreza, somos todos uns hipócritas. Vivemos a fazer de conta. Desde logo, porque não são os pobres, as vítimas da Pobreza, que organizam o Forum Social Mundial, nem sequer, nas suas dimensões locais, como este debate aqui em curso. São minorias não-pobres - não quer dizer que sejam ricas, mas são não-pobres - e mais ou menos escolarizadas que estão na ori­gem de iniciativas deste género.

Os pobres, as vítimas da Pobreza, nem as promovem, nem aparecem a elas. Aliás, tão pouco chegam a ser con­vidados. Cheiram demasiado mal, são demasiado incómodos e conspirati­vos, para poderem entrar e estar nestes lugares reservados a eleitos, mais ou menos preocupados com eles e com a pobreza que os exclui e mata lentamen­te, sadicamente, mas apenas isso.

Os pobres, as vítimas da Pobreza nunca estão aí. No Forum Social Mundial 2007, em Nairóbi, África, os pobres ain­da estiveram por alguns momentos, no decurso duma tarde. Não como prota­gonistas, obviamente - alguma vez os não-pobres acham que os pobres são ca­pazes de alguma coisa?! - apenas como objecto da curiosidade, disfar­çada de solidariedade, dos participan­tes no Forum, idos de todo o mundo, quando os promotores da iniciativa de­cidiram ir de visita, como quem vai a um jardim zoológico, a um dos bairros-favela mais miseráveis e mais numero­sos em habitantes por metro quadra­do, nos subúrbios daquela cidade afri­cana.

Alguns dos participantes, os mais sensíveis, até vomitaram, perante tama­nha miséria, tamanha degradação, ta­ma­nho desprezo, tamanha humilhação, tamanho crime, tamanho genocídio co­metido vinte e quatro horas sobre vin­te e quatro horas. Outros, menos sensíveis, mais intelectuais cere­brais, indignaram-se perante o que lhes foi dado ver e escreveram / dissertaram so­bre aquela situação-espelho do nos­so mundo global. Sofreram pesade­los, durante algumas noites e até du­ran­te alguns dias. Aqueles rostos da Po­breza e da Degradação não lhes saíam de diante dos olhos.

Mas depressa tudo se apagou, tu­do voltou à normalidade, depois que escreveram toda a sua indignação em jornais e revistas da especialidade e se insurgiram com veemência verbal contra tamanha Indignidade e tamanha Inumanidade. Os textos que produzi­ram e as conferências em que disserta­ram sobre aquela situação e sobre a Pobreza em geral bastaram para lhes trazer o sossego de volta e o sono tran­quilo, sem mais pesadelos

Entretanto, o enorme bairro-favela de Nairóbi continua lá, em carne viva. O genocídio ao vivo e continuado que ele é continua lá. Os pobres aos mi­lhões, crianças, jovens, mulheres e ho­mens de meia-idade e outras, outros precocemente velhos (que a fome ma­ta, senhoras, senhores; que a Pobreza mata, senhoras, senhores!), esses con­ti­nuam lá. Ignorados. Esquecidos. Cada vez em maior número e cada vez mais pobres. Cada vez mais degradados.

Somos assim, duma maneira ge­ral, os não-pobres e mais escolariza­dos, ou mesmo semi-analfabetos. Uns hipócritas. Vejam que até dos pobres e da Pobreza de que todos eles são ví­timas, nós, os não-pobres, os mais es­colarizados, tiramos proveito pes­soal e corporativo. Fica bem, é de bom-tom, dá prestígio promover iniciativas como o Forum Social Mundial. E parti­cipar nelas. E debitar discursos duran­te elas. Somos por momentos indivi­dua­lidades. Locais ou regionais, por­ventura, mas individualidades. E fica a impressão, perante a sociedade e os nossos próprios olhos, de que so­mos militantes de causas, no caso, que estamos empenhados na erradicação da Pobreza.

É tudo mentira. Estamos simples­men­te a auto-promover-nos e a dar nas vistas, a ter alguns dos nossos tão co­bi­çados quinze minutos de fama, de que tanto necessitamos para subirmos no conceito dos que nos rodeiam, na sociedade em que nos situamos, na organização partidária ou eclesiástica em que estamos inscritos e, onde, des­te modo podemos fazer carreira com mais facilidade.

Perdoem-me esta rudeza, mas é isto que sucede. Porque somos não-pobres e o que mais queremos, lá no fundo do nosso inconsciente, é que este nosso estatuto de não-pobres se mantenha estável e, se possível, até suba e nós acabemos ainda menos não-pobres, por isso, um pouco mais ricos, com novas possibilidades e no­vos amigos, não entre os pobres, mas entre os mais ricos do que nós.

Parece que queremos mudar / trans­formar o mundo, acabar com a Po­breza, mas só parece. O que efectiva­mente mais conseguimos, e é se for­mos intelectuais lúcidos e honestos (por­que há por aí uma espécie de in­te­lectuais dementes, corruptos, que se vendem como prostitutos ao Grande Dinheiro e ao Grande Poder, ao serviço dos quais põem o melhor dos seus sa­beres e das suas capacidades, num prolongamento do gesto de Judas, o traidor dos Evangelhos canónicos do Novo Testamento, ou do gesto de Caim que mata o irmão Abel, os dois perso­na­gens do conhecido mito bíblico do Génesis) é, não transformar o mundo, como seria necessário, mas apenas explicá-lo, precisamente este nosso mun­do, onde nós, os que nos envolve­mos nestas iniciativas somos da imensa minoria dos não-pobres.

No máximo, conseguimos explicar teoricamente porque há pobres e Po­bre­za no mundo. De modo algum, ousa­mos transformar o mundo que continua a produzir pobres e pobreza em massa, com a mesma eficiência e a mesma frie­za com que produz automóveis, mobília mais ou menos bizarra, computadores, telemóveis, perfumes, detergentes e mui­tos outros artigos de consumo.

Ou acham que podemos alguma vez acabar com a Pobreza e libertar as víti­mas dela, os pobres, sem acabar­mos com a Riqueza acumulada e con­cen­trada e com o Sistema, democrático que se diga, que torna possível esta De­mência, esta Inumanidade organiza­das?

Ora, de que adianta erguermo-nos indignados contra a Pobreza e explicar porque é que ela existe, se não nos er­gue­mos contra a Riqueza acumulada e concentrada, nem contra nós próprios que fazemos parte da imensa minoria dos não-pobres, sempre a sonhar ser cada vez menos não-pobres, por isso, cada vez mais ricos? Acham que exa­gero?

Vamos a um teste. Quem de nós, ao envolver-se nestas pretensas cau­sas, pomposamente chamadas por nós de luta contra a Pobreza e de erradi­cação da Pobreza no mundo, já se fez mais pobre? Quem já desistiu de que­rer ser rico? Quem já fez, por exemplo, o que Zaqueu, o do Evangelho de Lu­cas, fez, quando Jesus, o de Nazaré, não o das Igrejas eclesiásticas, ópio dos pobres e dos ricos, entrou na sua casa / na sua vida, e ficou uns dias com ele? “Vou dar metade dos meus bens aos pobres e dar quatro vezes mais do que roubei a todos aqueles [e muitos eram!] que roubei”. Algum de nós já foi capaz de tal decisão pessoal e corporativa, partidária, associativa, eclesiástica, paroquial, mesmo entre os que nos dizemos cristãos e da Es­quer­da política, e militamos nela em lugares de destaque? Não?!

E quem de nós já teve a audácia de realizar a Política económica que Jesus propôs ao Homem rico - enten­da-se, à imensa minoria dos não-pobres - que o procurou preocupado com questões relacionadas com a sal­vação eterna, depois da morte, em vez de com as questões e as aflições do quotidiano, onde estão mergulhados todos os pobres que diariamente fabri­ca­mos e onde está a Pobreza em mas­sa, estrutural? “Vai, vende tudo o que tens, dá aos pobres e depois vem e segue-me”.

Sabem que esta palavra de ordem económica e política - a única que tem força para mudar / transformar o mundo - continua ainda por realizar e que os que a ouviram pela primeira vez até cor­reram a matar crucificado aquele que teve a lucidez / humildade de a captar e a audácia de a praticar / propor / a­nun­ciar?

Registam os três Evangelhos Si­nópti­cos que, ao ouvir semelhantes pa­la­vras, o Homem rico retirou-se triste, porque era possuidor de muitos bens. Pois é. Esse é o problema. Essa é a questão nuclear no que respeita à exis­tência da Pobreza e de vítimas da Po­bre­za.

Os detentores da Grande riqueza acumulada e concentrada e os seus inú­meros admiradores menos ricos mas já não-pobres, podem dizer-se até ateus ou agnósticos, mas o que na verdade to­dos são, somos, é idólatras, isto é, vi­ve­mos de cócoras e de joelhos diante do Senhor Deus Dinheiro, hoje total­men­te independente da Política e total­mente à solta, servido por grandes inte­li­gências, todas dementes, sádicas e cruéis, mas cada vez mais eficientes e cada vez mais bem pagas. E, embora tristes - todo o assassino e mentiroso é triste; e assassino e mentiroso é o Gran­de Dinheiro e quem está incondi­cio­nal­mente ao seu serviço - todos eles exibem ares de muita satisfação, nadam em privilégios, dominam o Mundo, man­dam nos Executivos das nações, se­guem exclusivamente as leis que eles próprios concebem e aprovam, sempre em mutação / adaptação, segundo a ló­gi­ca dos seus interesses. Além disso, sabem-se temidos, adorados, idolatra­dos. E isso consegue disfarçar toda a tris­teza que sentem no mais fundo de si próprios e toda a solidão em que vi­vem, como ratos encurralados, rodea­dos de seguranças por todos os lados.

Eu sei - Jesus também o soube me­lhor do que ninguém e foi já com ele que eu aprendi - que o problema não é apenas, nem sobretudo de pessoas. É estrutural. É sistémico. Ele chamou-lhe “O Pecado do Mundo”. Mas também é de pessoas. Concretamente de nós, de cada uma, cada um de nós. Porque são as pessoas que podem mudar o Sistema Económico e Financeiro que hoje nos asfixia e mata e produz pobres e Pobreza em massa.

Porque a existência de pobres e de Pobreza em massa não é, como nos fazem crer, uma fatalidade da natureza. É uma opção. Económica e Política. Uma opção que, na nossa demência, não temos querido fazer correctamente e preferimos alinhar no Pensamento Ú­nico, na Ideologia / Ideolatria do Impé­rio do Dinheiro e da sua Ordem Mundial intrinsecamente perversa e assassina.

Na verdade, ou todos escolhemos ser pobres, isto é, não-ricos, ou a Po­breza continuará a desenvolver-se no mundo, não apenas numa progressão aritmética, o que já seria tremendo, mas numa progressão geométrica.

“Felizes vós os pobres”, diz Jesus, não, obviamente, os que o são à força, criminosamente fabricados pelas nos­sas Economias do Dinheiro cada vez mais acumulado e concentrado. Mas os pobres que o são por opção, que esco­lheram ser pobres, isto é, não-ricos, por toda a vida. “Ai de vós, os ricos”, acrescenta depois Jesus, aqueles que o são por opção e por escolha, por acu­mulação.

Não há saída libertadora e salva­do­ra, digna dos seres humanos e dos povos, fora desta via praticada por Je­sus e anunciada por ele à Humanidade. E todas as pessoas e todos os povos, temos que escolher.

O Mercado, o Grande Mercado não é solução. É genocídio. A única saí­da é a opção pessoal e global de ser­mos pobres por toda a vida. É por aqui que vai o Evangelho de Jesus e o pró­prio Jesus. Esta via está magistralmente descrita naquela metáfora apresentada pelos quatro Evangelhos canónicos, a metáfora viva da Partilha, não multipli­ca­ção, como repetem / mentem as Igre­jas, dos pães e dos peixes.

A solução da fome, da Pobreza, não passa por mais e melhor Mercado, nem por mais e melhor assistencialismo / caridadezinha, mas exclusivamente por mais e melhor Partilha da Riqueza produzida.

Lê-se na referida metáfora: “Está aqui um pequeno, isto é, um que es­colheu ser pobre, por isso, não-rico, e que tem cinco pães e dois peixes, o que, no total, perfazia o número sete, biblicamente, o da plenitude humana. Quer dizer: Era um Ser Humano cem por cento, sapiente, não um monstro, um inteligente demente, um chico-esperto.

A verdade é que é a partir desta disponibilidade, desta Partilha - há lá gesto mais politicamente fecundo do que este?! - logo assumida por outro e mais outro e mais outro, que todos, na hora - também nesta que é a nossa hora - comeram / comem e ficaram /  fi­cam saciados e ainda sobrará comida, para mais dois ou três mundos como o nosso.

Deixemos, porém, a metáfora e fi­quemos com a Luz Política que dela salta. E com ela, façamos / criemos E­co­nomias e Políticas nacionais, euro­peias e mun­diais. Veremos que nunca mais haverá Pobreza, nem vítimas da Pobreza. Porque também nunca mais haverá Riqueza acumulada e concen­tra­da, muito menos, o Grande Dinheiro que hoje anda por aí à solta, numa Obs­cenidade sem nome. Consequentemen­te, também não haverá mais ricos e po­bres. Haverá seres humanos, simples­mente. E povos, todos diferentes, todos iguais. Todos irmãos e irmãs.

Utopia? Sem dúvida, mas que ou nós a tornamos topia, isto é, realidade histórica mundial, ou ficamos sem Futu­ro. A escolha é nossa. E nem que seja tomada já hoje, saibam que, mesmo assim, peca por demasiado tardia.

Mais um pouco de tempo nesta selvajaria global que é hoje o Império do Grande Dinheiro, e o processo evo­lu­tivo em marcha na História para nos tornarmos seres humanos deixará de poder prosseguir. Em vez de seres hu­ma­nos perfeitos, como Jesus, o Para­digma de todos os seres humanos, aca­ba­remos reduzidos a Coisas.

Está nas nossas mãos escolher. Se formos como o Homem rico dos Evan­gelhos Sinópticos, escolhemos o Gran­de Dinheiro e ficaremos coisas. Ouse­mos, por isso, ser como aquele pequeno não-rico que Partiu os cinco pães e os dois peixes que possuía. Seremos ple­na­mente humanos, alegres, sororais/fraternos, felizes, sem pobres no meio de nós e sem Pobreza.



Ainda o debate em Penafiel

Nunca mais seremos os mesmos

Foram contundentes as minhas palavras no debate sobre a Pobreza, mas tocaram a consciência de todas, todos nós. Quantas, quantos lá estivemos nunca mais seremos os mesmos!

Foram contundentes, mas dificil­mente irrefutáveis, as minhas palavras no debate sobre a Pobreza, na cidade de Penafiel. O Café foi pequeno para con­ter todas as pessoas. Ninguém ar­re­dou pé, apesar da contundência das minhas palavras. Fui o único, entre os elementos convidados para a me­sa do debate que agarrei o proble­ma pelos cornos e pus os pontos nos iis.

Nestas coisas, não suporto o politi­ca­mente correcto. Nem o moralismo. Acho que tem de ser pão, pão, queijo, queijo. Falar claro é preciso. E mesmo isso é pouco, comparado com o facto mas­sivo da Pobreza que hoje proposi­ta­damente produzimos e mantemos no mundo.

O facto da Pobreza em massa tem de ser visto em toda a sua amplitude e não apenas caso a caso, família a fa­mília. O crime da pobreza é um crime estrutural. E, ou lhe pomos fim, medi­ante decisões económicas e políticas drásticas, estruturais, ou somos mons­tros dos piores.

Ainda pensei que alguns dos pre­sentes me iriam cair em cima, no final da minha intervenção. Ou que saíssem do Café. Mas não. Ninguém arredou pé. E foi impressionante o silêncio, du­rante a minha comunicação. As reac­ções orais, no final, foram, senão de ras­gado aplauso - tomei isso como um bom sinal - de concordância e de mani­festa incomodidade interior.

A consciência das pessoas presen­tes ficou manifestamente abalada e pe­sada. Interpelada. Alguém, na hora, usou a expressão “Senti-me julgado pelas suas palavras”. Disse-o, não no sentido de quem se sentiu acusado, mas de quem se sentiu interpelado. Só pude alegrar-me com esse testemunho que espelhava bem o da generalidade das pessoas presentes.

A Palavra, quando sai atravessada e carregada de Espírito, o do Deus de Jesus que é também o Deus dos po­bres, é um dos efeitos que produz em quem a ouve/acolhe. Sou sempre o pri­meiro ouvinte da Palavra que sai da mi­nha boca. Por isso, sou sempre o pri­meiro a ser julgado / iluminado / to­ca­do / interpelado / transformado por ela.

A Palavra, quando anda carregada e atravessada pelo Espírito de Deus, o de Jesus e dos pobres, não condena ninguém. Liberta-nos, torna-nos mais humanos, menos monstros, mais próxi­mos uns dos outros e sobretudo dos pobres, mais abertos, mais livres e por isso mais responsáveis uns pelos ou­tros e pela História.

Num primeiro momento, a sensa­ção é que a Palavra nos condena. É por isso uma sensação de desconforto. Mas logo percebemos que esse descon­forto é como o do bebé recém-nas­ci­do. De repente, vê-se fora do útero ma­terno, onde sempre havia vivido até então. E de um momento para o outro, passa a ser um novo ser fisicamente se­parado, autónomo, da mãe, inde­pen­dente, carregado de futuro que ele próprio há-de abrir e percorrer, num processo sem fim. O desconforto é total. Mas, ou assim, ou nunca chegaremos a ser nós próprias, nós próprios.

Ora, a Palavra com Espírito, o do Deus de Jesus e dos pobres, quando é escutada / acolhida / praticada produz em nós um Novo Nascimento, um Novo Começo. É como um Novo Parto. Não se­gundo a Carne e o Sangue, ou se­gun­do a Ideologia do Sistema-Ventre que é a Ordem Mundial onde estamos fisicamente situados, mas segundo o Es­pí­rito do Deus de Jesus e dos pobres.

O desconforto é por isso inevitável, porque entre a Ideologia da Ordem Mun­dial e o Espírito do Deus de Jesus e dos pobres não há qualquer compati­bilidade, nem reconciliação possível. Os dois são entre si como a Treva e a Luz, a Mentira e a Verdade. Onde esti­ver um, o outro não pode estar. A Treva odeia de morte a Luz. A Mentira odeia de morte a Verdade. E quando os da Luz e da Verdade tentam reconciliar-se com os da Treva e da Mentira aca­bam sempre reféns da Treva e da Men­tira. Nem frios nem quentes. Por isso, vomitados da boca de Deus, o de Jesus e dos pobres.

As Religiões e as Igrejas, quando se convertem em religiões, é por essas águas turvas que navegam. Os partidos políticos que se formam para tomar o Poder, chegar ao Poder, partilhar do Po­der, é também por essas águas tur­vas que navegam. A Treva e a Mentira agradecem a umas e a outros. E conce­dem benesses, mordomias, bons salá­rios, muitas regalias.

Ainda que algu­mas, alguns pare­çam muito aguerridos nas suas inter­ven­ções, não passam de tigres de pa­pel, figurantes mais ou menos folclóri­cos. O mais que podem suscitar nos adversários / concorrentes dos outros partidos, das outras religiões são sor­risos de condescendência e de bono­mia. Depois da refrega, já estão todos à mesma mesa - a dos privilégios - a disputar mais uns nacos de carne e a di­vidir o bolo entre todos, sem nunca chegarem a derrubar a mesa - a Ordem Mundial - que os alimenta a todos.

Os pobres do mundo - as maiorias empobrecidas - é que nunca chegam a ter assento nela. E se algum membro dessas maiorias, porque excepcional­mente mais dotado, ronda a mesa dos privilégios, pode ser convidado a inte­grá-la, contanto que acate as regras do jogo. Porque, se for para a fazer im­plodir, depressa é assassinado. Por­que a Treva e a Mentira não conhecem Moral, nem Ética, fora da sua própria moral e da sua própria ética, as do As­sas­sínio e as do Roubo ou Exploração, ditadas pela Ideologia por que ambas se regem.

Por isso é que Jesus, o de Nazaré, foi banido da Ordem Mundial. Não só foi morto, de morte crucificada, mas foi banido da Ordem Mundial. Em seu lu­gar, ficou um mítico Cristo que as Igre­jas ditas cristãs, mas não jesuânicas, cultuam como o seu Deus, em tudo igu­al aos demais deuses inventados pelos nossos medos e pelos nossos cri­mes. Deuses à nossa imagem e seme­lhança. E à nossa medida. Ídolos que justificam todos os crimes da Ordem Mundial e dos seus chefes de turno, e até os abençoam, a começar pelo crime da Pobreza em massa.

Jesus foi o primeiro Homem, o pri­meiro Ser Humano que nasceu e veio ao mundo para dar testemunho da Ver­dade. Ele é a Verdade. Ele é a Luz, escreve o Evangelho de João, logo no Prólogo. A Treva e os da Treva, a Men­tira e os da Mentira não o suportaram. E a razão salta à vista: As obras deles, todas as obras deles são más. Sempre foram. E serão.

Por isso é que os que um dia nas­cemos e viemos a este mundo, temos de escolher. Ou somos Treva e dos da Treva, Mentira e dos da Mentira - da Ordem Mundial em que estamos fisica­mente inseridos e não há como lhe es­capar - ou somos Luz e dos da Luz, da Verdade e dos da Verdade, mulhe­res e homens jesuânicos, companhei­ras / companheiros de Jesus, segui­dores dele e prosseguidores do seu Projecto e das suas Causas.

Porém, se para Jesus, a Luz e a Verdade, não houve lugar dentro da Ordem Mundial, tão pouco haverá para nós, à medida que formos como ele, for­mos ele. Daí, o desconforto que ine­vitavelmente sentimos, quando escuta­mos a Palavra carregada e atravessada pelo Espírito do Deus de Jesus e dos pobres. Acolhê-la e, sobretudo, prati­cá-la faz-nos nascer de novo, de Fora da Ideologia da Ordem Mundial, por isso, do Espírito do Deus de Jesus e dos pobres que Sopra dentro dela, para a derrubar, para a fazer implodir.

Dizem-me algumas pessoas - e neste debate em Penafiel também hou­ve quem o referisse - que, quando cons­ti­tuímos família e há filhos, filhas nossos a crescer, as coisas tornam-se mais complicadas. Compreendo que assim possa suceder. Talvez por isso é que Jesus chega a dizer que quem qui­ser ir com ele, ser ele em cada tem­po e lugar, tem de deixar a família, pai, mãe, filhos, casas, campos. Não se trata, evidentemente, de um simples dei­xar fisicamente. Também não deixa­mos, não podemos deixar fisicamente a Ordem Mundial. Do que se trata é den­tro da Família, como dentro da Or­dem Mun­dial, ousar viver segundo o Es­pírito do Deus de Jesus e dos pobres e não segundo a Ideologia da Ordem Mundial e da Família tradicional.

Educar, neste caso, será despertar os filhos, as filhas para que se deixem seduzir e conduzir por este Sopro ou­tro, o do Deus de Jesus e dos pobres, em vez de pela Ideologia da Ordem Mundial que é assassina e mentirosa. Sei bem, até por experiência, que viver assim não é fácil. E é por isso que a maior parte as pessoas desiste, fica pelo caminho, como o tolo no meio da ponte, nem frias nem quentes, como vo­mitadas da boca de Deus, o de Jesus e dos pobres.

Parece que é por aí que prefere an­dar a imensa minoria que tem dado corpo à chamada classe média. Nem são dos poucos muito, muito ricos, nem das maiorias pobres, muito pobres, pior, empobrecidas. Se repararem, são estas pessoas que alimentam as Reli­giões e as Igrejas convertidas em reli­giões. E a Ordem Mundial e a sua Ideo­logia de Treva e assassina.

O que fazer? Não vejo outro cami­nho que não seja a lucidez e a audácia de mudarmos de Deus - mesmo dentro do Ateísmo esta mudança é necessária, mudar de Ateísmo - passarmos, como numa verdadeira Páscoa, da Ideologia da Ordem Mundial para o Sopro ou Espírito do Deus de Jesus e dos pobres. E fazermo-nos progressivamente próxi­mos dos pobres, das maiorias empo­bre­cidas. Como intelectuais ou mais le­trados orgânicos, na condição de seus discípulos, seus amigos, a caminhar / lu­tar com eles, não em vez deles.

Os filhos, as filhas que tivermos, pe­lo menos, enquanto viverem com os seus pais / as suas mães, não terão ou­tra saída senão acompanhá-los nes­ta conversão, nesta Mudança radical. Neste fecundo desconforto. E nesta Alegria, que semelhante Mudança sem­pre traz no bojo.

Não mudamos o mundo da noite pa­ra o dia? Mas, pelo menos damos, o que já não é pouco, mais força e mais visibilidade ao Processo Histórico que levará à Implosão da presente Ordem Mundial e da sua Ideologia de Treva e de Assassínio, ao mesmo tempo que antecipamos nos nossos próprios cor­pos um Futuro outro, a Ordem Mundial outra, edificada segundo o Espírito ou o Sopro do Deus de Jesus e dos po­bres, que é o único Espírito Criador de filhas e de filhos da estatura de Jesus, por isso, em estado de maioridade, so­ro­rais / fraternos, responsáveis pela His­­tória, vidas feitas de Luz e de Verdade sempre em acção, em movimento. Acção Política, Movimento Político, ne­ces­sariamente.


EDITORIAL

A escolha

Entretidos e pervertidos por todas estas Páscoas de Calendário e do Gran­de Mercado, mais a sado-maso­quis­ta Páscoa das Religiões, em que hoje todas as Igrejas cristãs, com maior incidência na nossa Igreja católica ro­mana, estão desgraçadamente trans­for­madas, já nem sequer somos capa­zes de mergulhar com todo nosso ser na Grande Pergunta que a Páscoa de Je­sus, o de Nazaré, levantou e que, desde então, tem de atravessar a cons­ciência de todas as gerações, de qual­quer cultura ou nação,a saber: POR­QUE O MATARAM? Ora, esta é a única Pergunta que pode abrir progressiva­men­te os olhos da mente e da consciên­cia dos povos, de todos os povos da ter­ra, à Verdade e, por ela, com ela e ne­la, à Liberdade e à Salvação, enten­da-se, à Responsabilidade que só a Li­berdade é capaz de gerar e que faz de nós seres humanos cada vez mais humanos e cada vez mais realizados na História e até para lá da História, u­ma vez que a anunciada Morte biológi­ca de cada qual não é limite, muito me­nos castigo - as Igrejas e as Religiões mentem, quando dizem que ela é casti­go de Deus devido ao "pecado origi­nal", coisa mais boba, e só por isso já de­veriam, todas as que ainda hoje o fa­zem, deixar de continuar a merecer o nosso respeito - apenas é a Grande Ex­plosão que nos abre Dimensões e Ho­rizontes de Plenitude de vida que nun­ca os nossos olhos viram, nunca os nossos ouvidos ouviram, nem pude­ram sequer alguma vez imaginar. Por­que é essa Grande Pergunta que sem­pre co­lo­cará a mente e a consciência de cada geração humana que vem a este mun­do perante o Mistério que so­mos e perante o Grande Mistério de on­de vimos e para onde vamos. Por outras palavras, revela-nos cada vez mais e melhor quem e como somos, os seres humanos e os povos, e quem é o Sopro ou o Espírito que nos fez SER/ACONTECER e está aí ininterruptamen­te a PASSAR (Páscoa) por nós, até nos fazer - só precisa da nossa livre coope­ração - SER/ACONTECER em plenitude, no nosso aqui e agora e para lá dele.

Sem esta Grande Pergunta, corre­mos cada vez mais o risco de nunca chegarmos a entender-nos como e quem realmente somos, Homo sapiens e Homo demens, ao mesmo tempo, nu­ma dialética individual e colectiva que se pode tornar compulsivamente as­sas­si­na e mentirosa, quando em nós, indivíduos e corporações de indivíduos (famílias, instituições, nações) e Povos, se afirma mais o Homo demens do que o Homo sapiens, e este é progressiva­men­te anulado, porventura, até suici­da­do.

Aquela Grande Pergunta que, des­de o dia 7 de Abril do ano 30 da pre­sen­te era comum, precisamente, o dia, o mês e o ano em que Jesus foi cru­ci­ficado como o Maldito de Deus e da Hu­manidade, representados ambos, Deus e Ela, nos chefes do Templo e do Império e do Sinédrio, as três insti­tui­­ções oficiais que deliberaram o seu as­sassina­to (sim, porque Jesus não mor­­reu, como por aí levianamente se re­pe­te até à náusea, FOI ASSASSINADO por motivos políticos, religiosos e eco­nó­mi­co-financeiros; e foram seres hu­ma­nos muito concretos e bem conheci­dos, con­­vertidos em Executivos das na­ções, das Religiões e do Dinheiro da Or­dem Mundial da época, que o mata­ram) continua aí a interpelar-nos a to­das, todos, e cada uma, cada um. Mas continua, sobre­tudo, a revelar-nos/gri­tar-nos que, se dei­xamos à solta o Ho­mo demens que somos e anulamos ou sui­cidamos em nós o Homo sapiens que somos, torna­mo-nos Humanidade - indivíduos, na­ções e povos - Demente-em-acção, a Demência Humana em ac­ção, e, por isso, tudo o que pensamos, pro­jecta­mos, criamos - sistemas econó­micos, financeiros, políticos, estados, na­ções, religiões, deusas/deuses, ide­o­logias/idolatrias - mais não será do que para matar, roubar e destruir (cf. Jo­ão 10). Antes de mais, a vida em toda a sua imensa variedade de espécies, as pes­soas, os povos, e a Natureza. Nu­ma pa­lavra, tornamo-nos seres hu­manos nos antípodas de Jesus, o Homo sapi­ens em plenitude, o primeiro e o úl­timo, o Alfa e Ómega, que nos foi da­do, o único em quem o Homo demens nun­ca teve qual­quer oportunidade de ser e de agir, porque ele sempre resis­tiu ao Tentador ou Demente. E por isso que nós experi­mentamos/confessa­mos/testemunha­mos Jesus, o de Nazaré, e apenas ele, como O Homem em pleni­tude e, nessa medida, Deus Vivo entre nós e connos­co, o Salvador, isto é, a­quele em quem todos os demais seres humanos, antes e depois dele, ha­ve­mos, finalmente, de nos tornar. Como? Anu­larmos cada vez mais em nós o Ho­mo demens que so­mos e expandirmos até à plenitude o Homo sapiens que somos. Na medida em que o Homo sa­pi­ens que somos é que pensar/proje­ctar/agir/realizar em nós, diminuirá em nós o Homo de­mens que somos e, nes­sa mesma medi­da, existiremos/vivere­mos para que to­dos, pessoas e povos, tenham vida e vida em abundância, se­jam de olhos/men­tes abertos, livres, au­tênticos, soro­rais/fraternos, simples­men­te humanos, nunca mais Executi­vos.

O Poder, todo o Poder, as Religi­ões, todas as Religiões, o Dinheiro, to­do o Dinheiro que deixa de ser mero instru­mento nas nossas mãos e passa a ser o Senhor Deus Dinheiro que tudo domina e controla, e a todos - pessoas e povos - seduz, submete e reduz a se­us incondicionais servidores/ado­ra­dores, a tro­co de Privilégios, são cria­ção, não de Deus Vivo, nem do Homo sa­piens que somos, mas exclusivamen­te do Homo de­mens que somos. São, por isso, a De­mência Humana Organi­za­da, o anti-Jesus, o de Nazaré, o anti-Homo sa­piens na plenitude que ele foi/é/será. E fora do qual não há salvação, enten­da-se, não há Homo sapiens, a­pe­nas Homo demens.

Foi esta Demência Organizada, co­mo uma Trindade, três num só, que ma­tou Jesus. Tanta Demência Humana Con­­centrada e Objectivada em Sistema não suportou tanta Sapiência Humana Concentrada e Encarnada num Homem - O Homem! - Jesus, o de Nazaré. E ma­tou-o, para poder continuar aí a ma­tar, roubar/explorar e destruir.

Ou regressamos a Jesus, o de Na­za­ré, o Homo sapiens sem fissuras, ou prosseguiremos na nossa Demência Hu­mana Organizada cada vez mais Con­­centrada e Objectivada em Sistema a matar, roubar/explorar, destruir. Neste momento, já quase atingimos um ponto de não-retorno, completamente cegos, encandeados pelo Senhor Deus Dinhei­ro, o novo Império Emergente, Global, Não-Territorial, Mentiroso, Assassino, na sua dimensão mais cruel que o tor­na Genocida e Ecocida. Ou Je­sus, o de Nazaré, ou César, hoje, Deus-Di­nheiro. Ou Homo sapiens, ou Homo demens. A escolha é nossa. Em cada dia. E todos os dias. Vosso, Mário


ESPAÇO ABERTO

A Colonia e os Senhorios

Pe. Mário Tavares (Madeira)

(Colonia: “Contrato entre colono e proprietário, na Ilha da Madeira, pelo qual o colono perde o direito às benfei­to­rias prediais”. Dicionário Geral e Analógico da Língua Portuguesa, Artur Bivar, Edições Ouro, Lda. Porto, 1948)

Fiz um texto por ocasião do 30.º aniversário da lei para a extinção da colonia cá na Madeira. Os ricos acharam de fazer da humanidade a sua vaca leiteira. E não será fácil escapar-lhes perante tantos serviçais e tantos anjos patetas no incenso. Cristo quis encarnar na Humanidade. Contudo, muito poucas pessoas se mostram disponíveis a dar-lhe espaço… Eis o texto que elaborei e agora aqui partilho também com as leitoras, os leitores do Jornal Fraternizar.

Os povos sempre funcionaram co­mo um manancial de sonhos, lucros e des­graças/sofrimento. Transportam em si: a) as estruturas do poder e do domí­nio: o governo e as leis; b) os senho­ri­os, no exercício constante de instalar-se e cobrar os seus interesses; c) uma regulamentação de funcionamento dis­ciplinar, a vestimenta que controla as pes­soas no seu espaço de vida e de tra­balho.

Contudo, ao mesmo tempo os po­vos estão dotados de uma alma viva com identidade própria, com direitos que, em consciência, reclamam seus, com um sonho de liberdade e uma pres­são constante de renascer. Uma na­ção é uma ebulição de vida e precisa sempre de rumo, mas com duas verda­des fronteira: a) a anarquia não serve. É como uma máquina solta nas suas pe­ças. Não funciona. b) A disciplina pre­judica sempre os mais pequenos. Quando os direitos são bens, as pes­so­as têm a liberdade de usufruir deles. Mas quando os direitos são apenas a­ces­sos, estes mesmos direitos mostram-se tantas vezes paralíticos no lado de dentro dos guichés.

Um pequeno retrato vivo da Colonia

Quando se deu o 25 de Abril, todo o governo português foi desaparafusa­do. Os novos governantes ocuparam os seus cargos, mas nenhum ficou de pe­dra e cal. Estavam todos inseguros. Era o caminho iniciado da democracia.

A folha dos direitos humanos en­trou em circulação e os direitos sociais das pessoas foram-se erguendo. As cha­gas do povo tornaram-se públicas e, entre nós, madeirenses, ganhou evi­dência o cancro da colonia. A colonia era um sistema de exploração agrária com mais de 300 anos. Já estava em de­cadência, porque, em 300 anos, u­ma sociedade circula, evolui e questio­na-se. Mas era uma grande fonte de re­ceita: 50% da produção agrícola dos terrenos colonizados a custo zero. Os senhorios faziam tudo por a não per­der. Lembremos, de um modo genérico, as histórias amargas e vivas que tantos caseiros transportavam:

Primeiro: os caseiros despejados das suas benfeitorias, onde, durante dé­cadas, tinham vivido uma vida amar­ga de fome e de trabalho, repartindo a meias com o senhorio todo o fruto do seu suor derramado na terra. Por serem já velhinhos, restos de gente sem produzir, não interessavam ao senho­rio. Lembro a história da avó da senho­ra Inês. Lembro a família “Pancada”, do Jardim da Serra, possuidora de u­mas benfeitorias (cerca de 33000 m2). Quando o chefe da casa faleceu, todo o terreno foi retirado à família, embora esta continuasse a pagar uma pesada contribuição às Finanças, em razão des­sas benfeitorias roubadas. A viúva, uma caixeira de bordados, que funcio­nava como veio de exploração do pa­trão entre as bordadeiras do lugar, man­te­ve-se contrária a todo o comu­nis­mo de direitos. A família, bastante pobre, tudo perdeu.

Segundo: Os caseiros, amarrados aos seus tugúrios, umas paredes de pe­dra solta, cobertas de palha velha e podre, estavam impedidos de transfor­má-los num coberto em cimento arma­do, ou de acrescentar-lhes uma peque­na cozinha, para garantir refeições quen­tes no Inverno, imposição intransi­gente do senhorio sob pena de despe­jo. Assim, o senhorio obstruía qualquer valorização das benfeitorias do caseiro e mantinha-o dependente e inseguro na sua sujeição. O caseiro, sem direito a um lar de aconchego nas próprias ben­feitorias onde vivia e trabalhava, engolia a sua frustração atrás de uma cara rude de sofrimento, tornando mais amarga a sua vida em família.

Terceiro: Os senhorios, gestores das águas de rega, na busca de maio­res lucros, retiravam a água dos terre­nos dos seus caseiros e vendiam-na a outros agricultores. Os caseiros, obriga­dos a partir a meias, viam mirrar as su­as colheitas e ainda conviviam com o ladrão ou seu representante e trata­vam-no por senhor.

O caminho que se fez

O 25 de Abril quebrou a barreira dis­ciplinar entre caseiro e senhorio e er­gueu-se, de imediato, a exigência dos caseiros exercerem os seus direitos. Os mais corajosos tomaram a gestão com­pleta dos terrenos de que eram colo­nos: a) recusaram repartir as colheitas; b) iniciaram a recuperação das casas on­de viviam, alargando-as às suas ne­ces­si­dades; c) destituíram os senhorios da categoria de senhores e colocaram-nos na lista dos exploradores que os sugavam. Isto não foi tão simples como se escreve. Houve trabalho árduo, co­ra­joso, inteligente, metódico e dinâmi­co, no meio de um tecido social vivo e pe­rigoso, cheio de confusões, difama­ções, ameaças e acções de facto, como bombas e alguns conflitos.

Valeram, entre os caseiros, os ho­mens e as mulheres não aventureiros, mas dispostos a dar passos certos, estu­dados em reuniões, aceitando o acom­pa­nhamento de apoio.

Valeram os padres que roeram a cor­da da obediência oficial e que, nas suas mensagens e actividades, dina­mi­zaram alguns conteúdos da revolu­ção como conteúdos evangélicos, que­brando a atmosfera do pensamento único, fechado e conduzido.

Valeram os políticos de esquerda que debateram estes temas e encora­jaram as pessoas. Valeram alguns té­cni­cos doados à causa dos trabalha­dores que, como veios condutores, num silêncio organizador, funcionaram na ginástica jurídica e nos acessos aos res­ponsáveis da governação. Valeu o jornal “O Caseiro”, que noticiava os acon­tecimentos, as reuniões, as toma­das de decisão, as manifestações e in­cutia coragem e orientação para que os caseiros se mantivessem unidos e participassem nas iniciativas de defesa dos seus direitos. Valeu a organização dos caseiros em comissões por fre­guesia, pondo à frente de cada uma ca­seiros corajosos e activos. Valeram as manifestações de caseiros, as reuniões em todas as freguesias e a sua numerosa presença nas salas dos tribunais, quando era preciso acom­panhar e fortalecer o caseiro perante a acusação do senhorio. Valeram as reu­niões das Comissões com os órgãos governativos, forçando-os a reconhecer os direitos dos caseiros e a actuar em favor dos mesmos: a) na causa das á­guas de rega desviadas; b) na tolerân­cia da recuperação das casas dos colo­nos; c) na entrega da cana-de-açúcar em nome do caseiro produtor e não em nome do senhorio. O vinho e a ba­na­na ganharam o mesmo estatuto.

A oportunidade para a solução da colonia existiu, embora ainda não para todos. Muitos estão apanhados por vá­rias gerações de herdeiros não legal­mente solucionados. Os que têm a pos­se da terra resistem, mas há muito o­portunismo no “usucapião” e o desen­vol­vimento urbanístico não é favorável aos mais pobres. Há vários casos no tri­bunal ainda não solucionados. Meu cunhado, por exemplo, tem um há mais de 20 anos. Vai passando de tribunal para tribunal, vítima da espera e do re­curso…

Conclusão

É verdade que, após um longo grá­fico de gerações subjugadas e oprimi­das, coube-nos um tempo de uma certa liberdade de vida, com direitos huma­nos e sociais, informações, cultura, glo­balização e acessibilidades, uma cida­dania real, embora limitada. Mas tudo isto corre inseguro e de portas abertas. Até todos nós colaboramos. Somos ar­ras­tados pela aventura e, voluntaria­mente, partilhamos nela. O que é o jogo senão baralhar os dados e lançá-los? E vamos atrás disso, a ver se também nos cabe uma fatia do bolo.

A globalização e a mobilidade trou­xe­ram-nos a decadência e a banaliza­ção dos valores. Tudo está caindo na tômbola da sorte: o ambiente, o traba­lho, os ordenados, a saúde, a educa­ção, a justiça, o estatuto de cada pes­so­a, os direitos, o futuro. Vivemos um tempo em que se tenta trocar a guerra e o trabalho pelo casino da vida. O oportunismo económico, investindo as riquezas que controla e utilizando a ciência e a técnica, criou a sociedade espectáculo, multiplicando os espaços ur­banos, enchendo-o de acessibilida­des, mobilidade, abundância e boa ima­gem. O palco está montado com os seus actores, as verdadeiras figuras do trabalho no conceito de hoje, e com tudo quanto existe de valor atractivo e comercial.

Para os camarins do espectáculo é empurrado todo o resto: a) o trabalho intensivo e apertado, sem limites de tem­po e sem horário, inseguro nos re­sul­tados e inseguro no direito dos tra­ba­lhadores, mas que tem de garantir, na ocasião oportuna, as inaugurações, a boa imagem e as farturas para o con­su­mo; b) os trabalhos e trabalha­do­res que vão ficando cada vez mais ocasionais; c) os excedentários, arma­ze­nados em listas, à espera da oportu­nidade; d) as famílias e as pessoas eco­nomicamente cada vez mais débeis, que vão perdendo a possibilidade de circular e se vão calando, acantonadas à sombra do esquecimento, um novo ter­ceiro mundo de exclusão, sofrimento e miséria, filho da boa imagem e das farturas, nascido na tômbola da sorte, a cara nova da concorrência e do de­sen­volvimento.

Com esta fuga para a frente, pro­vo­cada pela imensa riqueza acumula­da em poucas mãos, vamos vendo o exer­cício democrático reduzido: a) às campanhas, onde os mais fortes for­tificam a sua posição; b) às eleições, em que as elites da boa imagem ga­nham sempre; c) aos noticiários de con­sumo, reduzindo os cidadãos a co­niventes passivos, meninos de coro da sociedade.

Escrevi/disse, no início, que os po­vos transportam em si “um sonho de li­berdade e uma pressão constante de renascer”. O património da riqueza mun­dial, produzida pelo desenvolvi­men­to do último decénio é riqueza so­cial, fruto do labor dos povos e da ge­ne­ro­sidade da Natureza. Contudo, está nas mãos e ao serviço dos grandes gru­pos económicos, para enriquecê-los cada vez mais. Isto quase nos diz que qualquer dia para vivermos teremos de lhes pagar bilhete. A comunidade hu­ma­na vai ficando cada vez mais na de­pendência dos [novos] senhorios.

Somos cidadãos de pleno direito. Há muito que trabalhamos, situados na responsabilidade activa da cidadania. Somos construtores de gente com di­gni­dade e com direitos. Contudo, há que ter sempre os olhos bem abertos. Es­tamos todos a ser apanhados por uma maré negra de insegurança que terá de ser superada, e por um não-fu­turo que terá de ser destruído. A nos­sa militância é continuarmos como alti­falantes do alerta, como porta-estan­dartes da retoma da esperança. Exigi­mos a construção de uma cidadania mais estruturada e mais segura, onde a digni­dade, a seriedade e a justiça tenham maior presença e o pão de cada dia es­teja garantido para cada pessoa.


A feira das vaidades

L. Boff (1), Teólogo

Com frequência comparece nas colunas sociais dos periódicos a feira das vaidades. Há disputa para entrar no cercadinho onde estão as celebri­dades, geralmente, modelos da moda ou artistas conhecidos. Travam-se ver­da­dei­ras batalhas para conquistar um lugar na primeira fila e ganhar visibili­dade. Na época do carnaval, então, isso chega ao seu paroxismo. Nos pa­lá­cios de governo, os políticos acotove­lam-se para estar fisicamente mais per­to do chefe. As fotos nas colunas soci­ais mostram pessoas glamourosas, apa­rentemente felizes, comendo, be­ben­do e festejando.

Mas basta vasculhar outras pági­nas do mesmo jornal para se ver o ou­tro lado da realidade: violência ge­ne­ralizada, enfrentamento entre polícias e gangues da droga, assaltos, assassi­natos, escândalos políticos que nunca pa­ram, crescente favelização das cida­des e, por fim, as ameaças de devasta­ção que pesam sobre o inteiro Planeta. Como combinar esses dois cenários?

Espontaneamente vem-me à mente o relato do dilúvio. Indiferentes à mal­da­de que grassava no mundo, as pes­so­as, dizem os textos, “comiam e be­­biam, sem se darem conta de nada, até que veio o dilúvio e arrebatou a todos”.

Não precisamos do dilúvio. Basta-nos a certeza de que todos, também os glamourosos, são mortais. Com o tem­po, a beleza se esfuma, os achaques aparecem, o envelhecimento é irrefre­á­vel e por fim todos morrem. Carrega­mos apenas o bem que tivermos feito e nada do glamour e da fama. É a con­di­ção humana que importa nunca es­que­cer para não parecermos frívolos ou ridículos.

Outra cena. Em função do trabalho de assessoria a grupos populares, en­con­tro outra paisagem social: pessoas das periferias, habitantes de comunida­des carentes que chamam de “favelas”, grande parte trabalhadora e honesta, enfrentando, dia a dia, a dura luta pela so­brevivência. Os rostos vincados, as mãos calosas, o olhar determinado mos­tram os sinais da luta renhida pela vi­da. Os glamourosos vêem-nos com certo desdém, com receio, no máximo, com pena. Nem se lembram de que são seus semelhantes e imortais.

Olhando-os atentamente, vem-me à mente uma cena do Apocalipse. Um dos anciãos pergunta: “Estes, milhares, quem são e de onde vieram? E o Senhor respondeu: estes são os que vêm da grande tribulação… O Cordeiro os a­pas­centará e guiará às fontes de água viva e Deus lhes enxugará toda lágrima dos olhos”. Estes, da grande tribulação, mesmo sendo mortais, vejo-os eu na sua dimensão de imortais. Pois, em ca­da pessoa, mas particularmente nestes, Deus está nascendo dentro deles, fazendo-os seus filhos e filhas e urdin­do-lhes um destino de imortalidade.

Se nós os olhássemos nesta ópti­ca, outra seria a nossa atitude. Da­ría­mos uma pequena oportunidade à ver­dad­e de poder triunfar sobre os pre­con­ceitos. Descobriríamos que somos todos imortais, também os mortais gla­mou­rosos, pois assim fomos feitos e este é o desígnio do Criador. Jesus não quis outra coisa senão que nos tra­tássemos como irmãos e irmãs e que revelássemos uns aos outros a Deus como Pai e Mãe.

Cada manhã ao levantarmos, te­mos que decidir: queremos comportar-nos como mortais ou imortais? Viver da aparência enganadora ou da realidade pura e simples?

Quão monótona e semelhante é a vida das celebridades mortais! Quão diversificada e épica é a vida dos sim­ples imortais!


Limites da Tolerância

L. Boff (2), teólogo

Tudo tem limites, também a tole­rân­cia, pois nem tudo vale neste mun­do. Os profetas de ontem e de hoje sa­cri­ficaram suas vidas, porque ergueram a sua voz e tiveram a coragem de dizer: “não te é permitido fazer isto ou aqui­lo”. Há situações em que a tolerância si­gnifica cumplicidade com o crime, omis­são culposa, insensibilidade ética ou comodismo.

Não devemos ter tolerância com aqueles que têm o poder de erradicar a vida humana do Planeta e de destruir grande parte da biosfera. Há que sub­me­tê-los a controlos severos.

Não devemos ser tolerantes com a­queles que assassinam inocentes, abusam sexualmente de crianças, trafi­cam órgãos humanos. Cabe aplicar-lhes duramente as leis.

Não devemos ser tolerantes com aqueles que escravizam crianças para produzir mais barato e lucrar no merca­do mundial. Aplicar contra eles a le­gisla­ção mundial.

Não devemos ser tolerantes com ter­roristas, pessoais ou de estado, que em nome da sua religião ou projecto político cometem matanças. Prendê-los e condená-los duramente às barras dos tribunais.

Não devemos ser tolerantes com aqueles que, no afã de lucro, falsificam remédios que levam pessoas à morte ou instauram políticas de corrupção que dilapidam os bens públicos. Cada país imponha duras penas a esses cri­mi­nosos.

Não devemos ser tolerantes com as máfias das armas, das drogas e da prostituição que incluem sequestros, tor­turas e eliminação física de pessoas. Há punições claras para elas.

Não devemos ser tolerantes com práticas que, em nome da cultura cor­tam as mãos dos ladrões e submetem mulheres a mutilações genitais. Contra isso valem os direitos humanos.

Nestes níveis não há que ser tole­rantes, mas positivamente intolerantes, que implica sermos firmes, rigorosos e severos. Isso é virtude e não vício. Se não formos assim, não teremos prin­cí­pios e seremos cúmplices com o mal.

A ilimitada liberdade conduz à tira­nia do mais forte. Da mesma forma tam­bém a ilimitada tolerância acaba com a tolerância. Tanto a liberdade como a tolerância precisam da protecção da lei. Senão assistiremos à ditadura de uma visão de mundo que nega todas as outras. O resultado é raiva, amargu­ra e vontade de vingança, fermento do terrorismo.

Onde estão então os limites da to­le­rância? No sofrimento, nos direitos humanos e nos direitos da natureza. Lá onde pessoas são desumanizadas, aí termina a tolerância. Ninguém tem o direito de impor sofrimento injusto ao outro.

Os direitos ganharam sua expres­são na Carta dos Direitos Humanos da ONU, assinada por todos os países. To­das as tradições devem confrontar-se com aqueles preceitos. Se certas prá­ti­cas implicarem violação da dignidade humana, não podem justificar-se. A Carta da Terra zela pelos direi­tos da na­tu­reza. Quem os violar perde legiti­mi­da­de.

Por fim, dá para sermos tolerantes com os intolerantes? A história compro­vou que combater a intolerância com ou­tra intolerância leva à espiral da into­lerância. A atitude pragmática busca es­tabelecer limites. Se a intolerância implicar crime e prejuízo manifesto a ou­­tros, vale o rigor da lei e a intolerân­cia deve ser enquadrada. Fora deste constrangimento legal, vale a liberda­de. Deve-se confrontar o intolerante com a realidade que todos compartem como espaço vital. Deve-se levá-lo ao diálogo incansável e fazê-lo pensar so­bre as contradições de sua posição. O me­lhor caminho é a democracia sem fim que se propõe incluir a todos e a res­peitar um pacto social comum.


Tropeços do cavalo

Frei Betto (1), Teólogo

Fala-se muito em neoliberalismo pa­ra definir o novo carácter do capita­lis­mo. O que significa isso? A essência do capitalismo é a progressiva acumu­la­ção do capital em mãos privadas. Os bens já não têm valor de uso; têm valor de troca. Não são para se viver; são para se vender. No capitalismo, o di­nheiro – essa abstracção que represen­ta valor – está acima dos direitos e das necessidades das pessoas.

Como observa Houtart, após a Se­gunda Guerra Mundial três factores puxaram as rédeas do cavalo de corri­da chamado capitalismo: o fortaleci­men­to do movimento operário e o medo da expansão do comunismo, que fize­ram com que os Estados burgueses re­gulassem os direitos trabalhistas; a im­plantação do socialismo no Leste euro­peu; e o projecto de desenvolvimento na­cional em países pobres como o Bra­sil (conferência de Bandung, Indonésia, 1955).

Esses três factores eram a pedra no casco do sistema capitalista que, por força deles, se viu obrigado a reduzir seu nível de acumulação e sua liber­da­de de apropriar-se de tudo que possa gerar riqueza.

O cavalo reagiu. Deu um coice na re­gulação do trabalho, lesando os di­rei­tos dos operários sob os eufemismos de flexibilização, terceirização etc., des­mobilizando o movimento sindical e au­mentando consideravelmente o índice de trabalhadores informais e o desem­prego, agravados pela crescente infor­ma­tização da economia.

O segundo coice foi no socialismo, com a derrubada do Muro de Berlim e o esfacelamento da União Soviética, acrescido da cooptação da China.

O terceiro, a globocolonização, a internacionalização da economia e a imposição ao planeta de um único mo­de­lo de sociedade, o anglo-saxónico, que predomina na zona rica do planeta.

Eis o neoliberalismo: livre de ré­deas e de freios, o cavalo corria desa­ba­lado na pista da acumulação.

Ocorre que a vida é feita de impre­vis­tos. O sistema carrega em si suas pró­prias contradições. Como apontou Marx, ele é o seu próprio coveiro. E, ago­ra, o cavalo vê-se obrigado a desa­celerar sua corrida por força da crise ecológica (o aquecimento global), da crise de superprodução (há mais oferta que demanda de produtos) e da actual crise financeira que exaure os bancos dos EUA, faz mais de 1 milhão de pes­so­as verem evaporar seu sonho de ca­sa própria, e provoca, em apenas um mês, o desemprego de mais de 35 mil bancários estadunidenses.

Os governos dos países capitalistas vivem a queixar-se de que o déficit pú­blico é alto e eles não têm dinheiro pa­ra o essencial: alimentação, saúde e educação etc. Porém, na hora em que o cavalo tropeça, o dinheiro ime­diatamente aparece para socorrê-lo.

Bush libertou 145 mil milhões de dólares para tentar evitar a recessão norte-americana, e os Bancos Centrais do mundo rico tratam de disponibilizar seus balões de oxigénio financeiro aos bancos asfixiados pela crise ou em ago­nia diante de um mercado inadim­plente.

Ora, não viviam a conclamar que o mer­cado é o melhor regulador da eco­nomia? Não viviam apregoando “me­nos Estado e mais mercado”? Por que agora todos correm aos braços acolhedores do Estado de bem-estar financeiro? E de onde veio toda essa fortuna antes negada aos direitos soci­ais, ao socorro da África, ao cumpri­men­to das Metas do Milénio?

A recente reunião de Davos, clube que aglutina os donos do dinheiro, foi como um conclave de cardeais que, de súbito, descobrem que Deus não exis­te. Eis abalada a fé no mercado. Se ele trouxe tantas bênçãos aos eleitos da fortuna, agora ameaça com maldi­ções.

O curioso é que a origem do pro­ble­ma não é mundial. É local, nos EUA. Como toda a economia mundial se atrelou à hegemonia unipolar de Wall Street, se este espirra, o mundo gripa-se. Resta esperar para conferir se a gripe é passageira, curável com um anal­gésico, ou levará o doente à cama, acometido por febres e infecções.

O que ninguém duvida, entretanto, é que, mais uma vez, a conta de tantos tropeços do cavalo será paga pelos pobres. Assim funciona o sistema que promete – liberdade, prosperidade e paz para todos - e não cumpre. Há que buscar um outro mundo possível.


À mesa com Fidel

Frei Betto (2), Teólogo

Conheci Fidel em 19 de Julho de 1980, em Manágua, por ocasião das co­memorações do primeiro aniversá­rio da Revolução Sandinista, ao qual compareci na companhia de Lula. Fren­te à oportunidade de conversar com o líder cubano, dei ouvidos ao meu anjo da guarda: “Esta é provavel­mente a única vez que você será ouvi­do por ele. Fale da Igreja”.

Descrevi as Comunidades Eclesiais de Base e salientei como a gente sofri­da da América Latina encontra na fé cristã a energia necessária à busca de uma vida melhor. Muitos partidos comunistas falharam, por professarem um ateísmo apologético que os afas­tou dos pobres imbuídos de religiosida­de.

Fidel traçou um longo histórico da Igreja em Cuba, acentuou o carácter franquista do clero anterior à Revolu­ção e os conflitos ocorridos à raiz da vitória dos guerrilheiros de Sierra Maestra, em 1959.

— Comandante, qual é a atitude do governo cubano frente à Igreja? – per­guntei-lhe. E acrescentei: — A meu ver, há três possibilidades: a primeira, tentar acabar com a Igreja e a religião. A história demonstra ser impossível, e tal postura ajudaria a reforçar a cam­panha dos que insistem numa ontoló­gi­ca incompatibilidade entre cristianis­mo e socialismo. A segunda, manter Igreja e cristãos marginalizados. Isso favoreceria a política de denúncia do que ocorre nos países socialistas, co­mo o desrespeito à liberdade religiosa. A terceira, abertura aos cristãos inte­res­sados em participar da construção do socialismo. Qual das três o governo cubano assume?

— Nunca havia encarado a ques­tão nesses termos – admitiu Fidel -, mas a terceira me parece mais sábia. Você tem razão, devemos buscar me­lhor entendimento com os cristãos, su­pe­rando qualquer forma de discrimi­na­ção.

Indaguei-lhe ainda por que o Esta­do e o PC cubanos eram confessio­nais. Ele estranhou: “Como confessio­nais?” Expliquei que afirmar ou negar a existência de Deus é ignorar uma das conquistas da modernidade: o carácter laico do Estado e dos partidos. Pouco depois, Estado e PC cubanos deixaram de ser oficialmente ateus e passaram a laicos.

O líder cubano propôs-me ajudar o Estado a reaproximar-se da Igreja Católica. Há anos não se encontrava com nenhum bispo católico, malgrado suas boas relações com a embaixada do Vaticano em Havana e as Igrejas pro­testantes. No ano seguinte, o epis­co­pado de Cuba aceitou-me como in­ter­mediário na reaproximação Igreja-Estado, tarefa que desempenhei du­rante dez anos e teve seu ápice com o lançamento, em 1985, do livro “Fidel e a Religião”, no qual o entrevistado con­firmou o direito de liberdade religiosa na Ilha.

Ao visitar Havana em Fevereiro de 1985, fui convidado a jantar em casa de Marina Majoli e Chomy Myiar; ele, secretário particular de Fidel. Em torno da mesa, Armando Hart, ministro da Cultura; Manuel Piñeiro, chefe do De­par­tamento de América; e sua mulher, Marta Harnecker, intelectual chilena.

Chomy preparou a comida: arroz, feijão preto, carne de porco assada, mandioca cozida e banana frita. Típico cardápio cubano - e, por coincidência, típico cardápio mineiro, o que só os afri­canos vindos como escravos para a América explicam.

Chomy comentou que Fidel tam­bém gostava de pilotar um fogão. Ao café, cerca de meia-noite, o Comandan­te entrou. Tomou assento entre livros e discos, aceitou uma única dose cow­boy de uísque e bebericou lentamente.

— Descobri uma área na qual somos concorrentes – disse-lhe.

— Qual?

— Cozinha. Sou filho de uma espe­ci­a­lista. Minha mãe é autora de um clás­sico, Fogão de Lenha, 300 anos de cozinha mineira.

— Como ela fez a pesquisa? - indagou.

— Percorreu o interior de Minas, re­colheu velhos cadernos de receitas, co­lectou textos sobre culinária em romances e ensaios.

— Comer é bom mas engorda - observou Piñeiro.

— Depende, quem mastiga muito engorda pouco - retruquei.

— Minha especialidade são os ca­ma­rões – gabou-se Fidel.

— Mas garanto que nunca provou um bobó de camarão - arrisquei.

Pediu-me para descrever a receita devagar, de modo a memorizá-la. Esta uma característica do líder cubano: a memória privilegiada.

— Cozinhe os camarões com casca até a primeira fervura da água - expli­quei. — Retire-os e, ao esfriarem, des­cas­que-os. Tempere com sal e limão. À parte, cozinhe a mandioca, corte em pe­daços e bata no liquidificador com a á­gua de cozimento dos camarões. Colo­que água suficiente para obter uma pas­ta de mandioca relativamente espessa, nunca mole como mingau. Misture a pasta com os camarões. Na frigideira, prepare os temperos: azeite-de-dendê bem quente, cebola e alho picados, sal, pimenta a gosto, tomates descascados e espremidos ou molho de tomate es­pes­so. Deixe curtir bem e misture na pas­ta de mandioca com os camarões. Tire do fogo e acrescente leite de coco. O segredo da receita é bater a mandio­ca na mesma água em que se cozinham os camarões.

— Posso fazê-lo - garantiu Fidel - desde que você me envie o azeite-de-dendê, que não temos aqui. De onde vem este prato?

— Creio que dos escravos. Eles ti­nham na mandioca a base de sua ali­men­tação, como ainda hoje os nossos índios. Feita a pasta, misturavam os res­tos da casa-grande. Pode-se fazer tam­bém bobó de galinha ou mesmo com pequenos pedaços de peixe assado, sem espinhas.

Dias depois, Cuba importou do Bra­sil uma grande quantidade de azeite-de-dendê.


Entre o Passado e o Presente

Manuel Sérgio (Reitor do Instituto Piaget

Entre o Passado e o Futuro é o no­me de um livro de Hanna Arendt. Pos­so até começar com uma frase deste livro: “O testamento, que indica ao herdeiro aquilo que legitimamente lhe pertence, transmite ao futuro os bens do passado. Sem testamento ou, para aclarar a metáfora, sem a tradi­ção – que escolhe e nomeia, que trans­mite e preserva, que indica onde se encontram os tesouros e qual o seu valor – é como se não existisse conti­nuidade no tempo e como se, por con­se­guinte, não houvesse nem passado nem futuro, em termos humanos, mas apenas a perpétua mudança do mundo e o ciclo biológico dos seres vivos” (Relógio d´Água Editores, 2006, p.19).

Costuma dizer-se que a civilização ocidental assenta sobre quatro pilares: a filosofia grega, o espírito jurídico la­tino, a religião judaico-cristã e o espí­rito crítico que nasce com o Renasci­mento. Mas... o que distingue o nosso tempo?

A Nova Física diz-nos que a reali­da­de se revela mais como possibili­dade do que como causalidade rigoro­sa e onde, por isso, a fé e a ciência ca­bem inteiramente. E assim, diante da realidade, há um conhecimento causal e experimental e matematizável e tam­bém uma vivência mística da “Unidade fundamental de todas as coisas”.

A compreensão do Todo pede bem mais do que aquilo que os laboratórios dão. A fé é necessária, até como nova forma de conhecimento das coisas ma­te­riais, já que a matéria é bem mais do que matéria. No fundo, ela é Forma, Si­metria, Relação.

A crise ecológica do nosso tempo resulta do facto de não descobrirmos Es­pírito na Matéria.

Nesta conformidade, Ciência e Fé com­pletam-se. É que, nem uma, nem ou­tra, descrevem completamente a rea­lidade. Não têm razão, portanto, o posi­ti­vismo e o neopositivismo, nem todo o tipo de fundamentalismo religioso, por­que onde há Espírito há Matéria e onde há Matéria há Espírito.

O neoliberalismo, ou a nova liber­da­de que nos prende a um modelo eco­nó­mico globalizante e excludente; o “pen­samento único”, ao serviço do neo­li­beralismo dominante, ou da “ditadura do lucro”; a sociedade do espectáculo onde naufragam valores imprescindí­veis a uma vida com dignidade – re­sultam do desconhecimento da Nova Ciência que nasce com o anúncio de Koyré que se passou de um “mundo fe­chado” a um “universo infinito”.

Depois de ouvirmos falar alguns eco­nomistas que são políticos e alguns políticos que são economistas, que pri­mam ambos pelo cálculo e pelas estatís­ticas, somos tentados a concluir que nos encontramos diante de pessoas da mais actualizada ciência.

Só que, assim como uma teoria físi­ca é uma imagem construída por nós, se­gundo o físico alemão Heinrich Hertz, também a economia que os neo­liberais nos apresentam é, toda ela, fei­ta de acordo com os interesses da “clas­se dominante”.

Por isso, num mundo onde proliferam os economistas de renome internacio­nal, nasceu um novo colonialismo onde o que é bom para a General Motors é pro­clamado como coisa boa, para o mundo todo!

E, num tempo onde se multiplicam as instituições de solidariedade social, a globalização não passa por vezes (de­masiadas vezes) de cocacolonizar e recolonizar os países mais pobres, ou que os Estados perderam a sua iden­tidade, pois que é o dinheiro que tudo governa, ou ainda que o desenvolvi­mento tecnológico, atraente e garrido, não concorre ao termo do desemprego, ou que o Estado de Direito é uma fa­lácia, dado que as leis são “as leis da selva”.

De facto, como se provou, não era o Iraque de Saddam Hussein a causa principal da crise generalizada que nos avassala, mas, acima do mais, a “divi­nização” de um sistema económico que põe a ciência ao serviço da mais fla­grante injustiça social.

Aliás, para os pseudo-cientistas que nos governam, as coisas não são boas por serem verdadeiras ou não, mas por serem, ou não, vendáveis. Por outras pa­lavras: as coisas só são boas, se dão lucro! Qualquer consideração de ordem moral não entra nas contas des­tes insignes matemáticos!

Não se passou do capitalismo à glo­balização, porque esta é a forma actu­al do capitalismo! Mal da humanidade se tudo isto fosse o “fim da História”. Pe­lo contrário: tudo isto há-de ser Pas­sa­do.

De acordo com Max Weber, foi o ascetismo protestante que deu ao lu­cro, como fim em si mesmo, a grande motivação para se transformar no gran­de ídolo do nosso tempo.

O Futuro está por construir. Uma so­ciedade desenvolvida deverá enten­der-se, não em função da alta tecnolo­gia que produz, mas principalmente sobre os benefícios dessa tecnologia para todos os cidadãos.

Sabemos bem como uma tecnolo­gia, sem outros valores, conduz a inú­meros crimes ambientais. Cientificar não pode significar desumanizar.


Comunhão E Libertação

A minha experiência

Lenira (CEBs Brasil)

Aprendemos com nossos erros e passos em falso, portanto aí vai a mi­nha experiência com este movimento.

Final de 1979: Uma amiga, compa­nheira da Pastoral de Juventude convi­dou-me a ir a uma reunião da assim cha­mada “Pastoral Universitária”; fica­va numa casa que a Arquidiocese de São Paulo reservou para esse fim.

Pareceu-me interessante a reunião, os cânticos não tão diferentes. Tinham aos domingos uma celebração que coincidentemente era na capela da minha Faculdade (Santa Casa de São Paulo. As missas também não tinham nada de diferente, ou de neoconservador. O pa­dre que liderava vivia em Itália, onde de­pois vi que os do Brasil, periodica­men­te, se deslocavam. No lugar dele, estava o P.e Gigio.

Luigino Valentini e o Vando que ti­nha cursado Ciências Políticas na Itália e fazia teologia na Faculdade N S da Assunção, hoje já ordenado, é vigário da paróquia Universitária da PUC (Pon­ti­fícia Universidade Católica de São Pau­lo). Era de facto uma das pastorais da arquidiocese.Também me atraiu o trabalho que tinham na Pastoral de Fa­ve­las em São Mateus-Zona Leste de São Paulo.

Soube depois que, quando chega­ram ao Brasil, foram para essa paróquia onde desenvolveram um trabalho de apoio irrestrito à organização popular, ao movimento de saúde da Zona Leste, e que ficou famoso por sua combativi­da­de. Teve lá o seu ponto de apoio.

As reuniões eram feitas no salão da Igreja. Também participaram no movi­mento contra a carestia que, na época, organizava as compras comunitá­ri­as.Também trabalharam com a Pastoral Operária, concretamente ajudavam nos fundos de greve e nas campanhas da oposição sindical metalúrgica.

Até esta altura, achei que estava no lugar certo. Mas foi então que comecei a detectar sinais de diferença. No início do ano de 1980, houve um encontro de Teologia da Libertação, com os prin­ci­pais teólogos e os bispos da América Latina, adeptos da Teologia da Liberta­ção. No ano anterior, a revolução tinha triunfado na Nicarágua e uma noite foi de­dicada a ela. Chamou-se-lhe “Noite da Nicarágua”, onde estava Daniel Orte­ga e outras lideranças sandinistas. Nes­sa noite, o bispo Pedro Casaldaliga foi presenteado com um casaco do e­xer­cito sandinista. Ele disse que, vestido da­quela forma, se sentia do mesmo mo­­do como paramentado para uma mis­sa.

Comentando isso depois, o João Carlos Petrini (hoje, bispo auxiliar de Salvador), já de volta ao Brasil, comen­tou: “Tão ingénuo quanto ridículo”. Se­melhante comentário intrigou-me. De­pois, João Carlos voltou para Itália, on­de ficou durante mais tempo, por ques­tões pessoais.

Ao Gigio, eu considerava-o muito e até hoje considero. É bastante afectivo e as suas homilias são muito interessan­tes. Nesse ano, intrigou-me muito o que eles chamavam de “Educação Perma­nen­te na fé”. Era baseado num livro do P.e Giusani, ainda não editado no Brasil (portanto, líamos o livro por capítu­los). A­chei estranho, questionei porque não usavam como texto os livros de Leo­nardo Boff e porquê o texto de Puebla também não era estudado? E isso ficou sem resposta.

No retiro da Páscoa, D. Paulo esteve presente e fez uma palestra muito im­portante para minha vida. Cerca de um mês antes, D. Romero havia sido martiri­zado. D. Paulo falou. Além de dizer que a morte do bispo Romero era a mesma morte de Jesus, disse também que o cris­tianismo não era simplesmente reli­gião, era um projecto de Nova Socieda­de, baseada na Justiça, no Amor, na so­li­dariedade. O Gigio na sexta-feira san­ta, lembrou especialmente isso. E a  coi­sa foi indo. O clima era agradável e de amizade.

Mas logo depois disso, vi que faziam críticas ao marxismo. Eu, certa vez, per­guntei porque faziam isso e acrescentei: “Será que isto aqui é a TFP (Tradição Fa­mília e Propriedade, uma instituição de extrema direita) disfarçada?” Riram-se, como única resposta.

Depois do regresso de João Carlos de Itália, comecei a perceber isso me­lhor. Já estávamos no ano de 1981, eles trouxeram com eles um jornalista, um tal Alver, de um jornal católico italiano (que depois apu­rei ser de direita), o “IL Sabato”. Tinha ido a Nicaragua e, um dia, em que eu não estava presente, fez uma palestra sobre (contra) as co­mu­nidades cristãs da Nicarágua.

Alem dessas críticas ao marxismo, os textos do Giussani eram difíceis de entender. Até que chegou um sobre “au­to­ridade”, que vi ser uma pedra funda­men­tal para eles. O texto dizia qua a au­toridade era escolhida por Deus e in­ter­pretava a sua vontade, por isso sabia o que era melhor para nós, mais até do que nós própri@s.

Não concordamos com esse texto. Continuavam as investidas contra o mar­xismo. Nesse mesmo ano, houve dois cur­sos com italianos, um com o P.e Ricci (hoje já falecido), outro com um profes­sor de uma Universidade, chamado Fran­cesco Botturi.

O curso de Ricci fez cair a máscara perante mim e muit@s mais. Falava so­bre (contra) os países do Leste, criti­cando a “invasão” soviética, criticava o marxismo e dizia que se pretendia aca­bar com toda a visão de transcendência.

O curso de Botturi foi mais pensado, ia directo à Teologia. Criticava o que eles chamavam de “Teologia da Secu­larização” e também criticou muito Die­trich Bonhoeffer.

Eu não sabia, na altura, que Bonho­ef­fer era um mártir, vítima do nazismo, nem conhecia sua obra. Estava presente um estudante beneditino de teologia, de nome Mauro. (Faço aqui um parên­tesis: a CL – Comunhão e Libertação -sempre teve “namoros” com os bene­ditinos/as. Foi através deles que co­nheci o Mosteiro de Itapecirica). Creio que esse Mauro veio ao curso, por que­rer saber “qual era a deles”, por­que tinham um discurso dúbio e tam­bém uma prática dúbia. Eu aproveitei e perguntei-lhe quem era o teólogo ale­mão que Botturi tanto criticava e combatia. Foi por ele que eu soube que ele era um mártir do nazismo e um precursor da Teologia da Liberta­ção e do ecumenismo.

Disse-lhe: “Então você tem que di­zer isso no decorrer do curso, ou esta­rá a pecar por omissão”. Ele disse e Botturi ficou atrapalhado, tentou fugir à questão e disse que não questiona­va a pessoa, mas apenas as suas idei­as, pois sabia bem o valor dele co­mo pessoa crente.

Esse ano passou e eu e mais al­gu­mas companheiras e companheiros começámos a perguntar-nos se aquilo era a Pastoral Universitária da arqui­dio­cese de São Paulo, ou apenas uma célula disfarçada da CL.

Na passagem do ano, fomos num grupo a Itanhaem, litoral de São Pau­lo, durante uns dias. Ocorreu então uma discussão que eu iniciei e não previa que iria durar tanto. Foi das 18 ate 23 horas, sem parar, todos con­cordararam comigo. Com uma ou duas excepções, já não me lembro bem. De volta a São Paulo, começá­mos um movimento para desmascarar a situação.

Eis alguns dos nossos questiona­mentos: Porque não se estudava a Teo­logia da Libertação? Porque é que eles dependiam tanto de Itália? Aquele foi por isso um ano foi de em­ba­tes entre nós e eles.

Na tradicional recepção aos ca­loiros, muitos companheir@s ficaram em dúvida se eles estavam a convi­dar para a Pastoral Universitária, ou se estavam a aliciar um grupo para Co­munhão e Libertação. Como eles eram submissos à hierarquia do mo­vimento, a crise fez com que o Pe Gius­sani viesse ao Brasil. Na conversa com todo o grupo reunido, ele falou com todas as letras que a Comu­nidade, espelho da igreja, era como uma pirâmide. Para mim e muit@s companheir@s, isso foi o fim.

Passámos então a procurar os do­minicanos. Pessoas como o Pe Gigio, com quem eu conversava e confiden­ciava muitas coisas (era diferente dos demais), disse-me que esse seria o caminho.

Nesse ano, também começámos a chamar João Carlos de “Il Duce”. Ele, aproveitando homilias, falava num tom agressivo. Antes da recepção aos ca­loiros, disse: “Deus vai pedir-vos con­tas”. Argumentando que dizíamos inver­dades.

Foi então que este grupo dissidente ligou-se aos dominicanos. Pouco tempo depois, D. Paulo não mais encarregou os da CL da Pastoral Universitária, cri­ando a Pastoral Universitária Diocesa­na, sob coordenação de Frei Gilberto Gorgulho, conhecido exegeta, adepto da Teologia da Libertação.

O que é mais importante e que eu omi­ti aqui é que eles sempre procura­vam contacto com a intelectualidade e tentaram fundar uma revista chamada “O Socialismo”, juntamente com o CE­BRAP, um centro de estudo de proble­mas brasileiros, que tinha em seus quadros Fernando Henrique Cardoso, enquanto foi senador, e Paul Singer (economista e importante quadro do PT até hoje, é também um dos autênticos que quer uma renovação no partido)

Tentaram usar a revista (que não che­gou a ser fundada, pela esperteza dos intelectuais do CEBRAP) para colo­car o material que recebiam do Leste Europeu, de movimentos como o “Luz e Vida”, do qual fazia parte Lech Wale­sa, e era apoiado pelo então Cardeal Wojtyla.

Um discurso permanente deles era que os movimentos sociais não deviam entrar na política. E até a participação no Movimento estudantil era desenco­ra­jada por eles. Mas hoje caiu a más­cara e vê-se que no movimento deles, na Itália, o responsável da revista é Giulio Andreotti (político bem conhecido por escândalos de corrupção) E um importante quadro deles que “se con­verteu” do marxismo ao catolicismo, é deputado e foi impedido de entrar no parlamento europeu, por ser contra as uniões de homossexuais.

No Brasil, nas eleições de 1989, apoi­aram Collor, ainda que sem o con­sen­so do grupo, só da direcção do mo­vimento.

Há ainda outros factos importantes que devem ser contados: Aquando da pri­meira visita de Wojtyla ao Brasil, como papa, apesar da CNBB ter esta­belecido que não haveria audiências para grupos particulares, ele recebeu-os como última actividade dele num dia tumultuado.

Diria, ainda, que a queda do Leste já vinha sendo engendrada há tempos por pessoas como Wojtyla, que desla­vadamente apoiou o Solidarnosc, inclu­sive com dinheiro. Portanto a queda do Leste não foi como muitos (mesmo den­tro da esquerda dizem) pelos seus erros internos. Teve uma articulação, inicial­mente “microscópica”, que aumentou aos poucos e ganhou o mundo.

Costumo dizer que a queda do Les­te e a destruição da URSS se deram pela articulação: Reagan, Gorbachev e Wojtila. Isso está bem documentado no livro de Carl Berstein e Marco Po­­litti, “Sua Santidade: João Paulo II e a historia oculta de nosso tempo”.

Passei, mais tarde, já fora do gru­po, a ler esporadicamente a revista “Trenta Giorni”, traduzida em portu­guês. Vi então que seu director era Giu­lio Andreotti. Também li entrevistas des­ta­cadas com o então Cardeal Ratzin­ger, quando ainda imquisidor. Duas matérias para mim ficaram dignas de nota.

Uma intitulada “Teilhard de Chardin e o Papa Bom”, onde se referia a cen­suras que o papa João XXIII teria feito a livros do padre jesuíta, perseguido pelo seu antecessor. Nessa matéria, cuja chamada era uma grotesca falta de respeito, diziam alguns que a cen­su­ra foi feita por uma certa comissão e que o papa não tinha conhecimento. Mais adiante citava outra fonte, segun­do a qual o papa sabia e aprovava!

A outra matéria foi sobre os perga­minhos do Mar Morto e o fragmento 7 Q 5, que seria do evangelho de Marcos. O comentário: “Isso refuta a teoria mo­dernista, segundo a qual os evange­lhos foram escritos pela segunda gera­ção de cristãos. Mas esta descoberta confirma o que a igreja sempre ensinou, que a tradição oral dos apotolos foi com­pilada”. Incongruências ou desfar­ce?

Ao lerem esse artigo, certamente verão que nele se referem a factos, como a tese de mestrado do então Pe João Carlos Petrini, sobre Comunida­des Eclesiais de Base e orientada por Fr Gorgulho.

Também poderão argumentar que o seu principal quadro em Belo Hori­zonte, Pe Pigi (Pierluigi), foi preso pela policia, por defender os favelados. Mas essas incongruências entre prática e teoria ocorrem em todas as correntes e movimentos, dentro e fora da igreja.

A minha conclusão é esta: Este movimento CL o que mais pretende é um regresso à Cristandade. Um regres­so impossível, porque o comboio da Historia não tem regresso.


OUTRAS CARTAS

Um farol e um incómodo

E-mail. J. Machado: Caro senhor Padre “malu­co”: Quei­ra-o ou não, o se­nhor é um farol, mas também um incó­modo (grande ou pequeno, só Deus o sabe) neste mundo que não é nada de Cristo. Por o seu mundo, o reino que pre­­ga, não ser deste mundo, não o verá com certeza nesta vida implantado. Je­sus estava consciente de algo seme­lhan­te, quando o afirmou alto e bom som. É um reino impossível para a maio­ria de nós, humanos, incapazes de lutar por ele, embora possamos sentir, bem cá no fundo, que o deveríamos fazer. No entanto, o senhor é um farol que tei­ma em nos inquietar, em nos inter­pelar, em não nos deixar dormir sosse­gados. O que diz, são verdades como punhos; mas nós não queremos ouvir essas verdades que põem rudemente, sem contemplações, a nu, sobretudo as nossas cobardias, as nossas fraque­zas, as rotinas que nos dão segurança contra os medos que sentimos e contra os quais tanto arremete.

A sua interpretação (teórica e prá­tica) dos Evangelhos, é um verdadeiro retrato do que se passou há dois mil anos na Judeia, como o foram (são) tam­bém os exemplos de todos aqueles que, como o senhor, levaram (levam) de­masiado à risca a mesma interpreta­ção. São exemplos que, o Sistema/Tem­plo contra o qual tanto se bate, ignora ou trata de minimizar o mais pos­sível pelas formas que puder utilizar.

O senhor propõe-nos uma escolha terrivelmente exigente que é, afinal, a escolha que Jesus propôs a todas/os: a escolha entre o certo e o incerto; en­tre o ter e o ser; entre o receber e o o­fe­recer; entre o hoje e o amanhã; en­tre o poder e a renúncia; entre o eu e o próximo. Convenhamos que essa escolha é muito difícil e eu percebo por­que a mai­o­ria nunca escolheu (nem es­colherá) segui-lo (mais valera não ter havido Je­sus!). Mas também percebo porque, apesar de tanta religião, não consegui­mos fazer um mundo melhor.

Parece que a Humanidade em ge­ral possui em si genes auto-destrutivos que a impedem de arriscar arrepiar ca­mi­nho. Acredito, no entanto, que são os ain­da que pequeninos luzeiros co­mo o senhor, que vão aparecendo aqui e ali no caminho dessa Humanidade, que a têm defendido de uma catástrofe defi­nitiva. Caro senhor Padre salutar­men­te, sa­diamente  “maluco”: Se a pe­que­nez do meu apoio lhe servir de algu­ma coi­sa, pois ele aqui mora e que o senhor possa dizer com uma gargalha­da bem-hu­morada, à maneira dos Gato Fedo­rento: E então eu é que sou o ma­lu­­co?! Receba um abraço de amigo e quem sabe, um até breve.

N.D. Meu caro J. Machado

Uma agradável surpresa a sua men­sagem. Uma lufada de ar fresco. Um naco de Pão e de Vinho para eu poder prosseguir viagem nesta “loucura” de viver com Causas e não como um sim­ples cata-vento e uma simples lagartixa em forma humana. E, como reza o título de um dos meus recentes livros, sempre NA COMPANHIA DE JESUS E DE ATEUS. O Evangelho de Jesus, na versão de Ma­teus, diz que haveremos de ser o sal da terra e a luz do mundo. Mas também previne, noutro relato, o de João, que os homens amaram mais a Treva do que a Luz. E adianta a razão de seme­lhante opção contra-natura: Porque são más as suas obras.

A Ordem Mundial em que vivemos, mas sem sermos dela - parece uma contradição, mas será, é a única ma­nei­ra de sermos e permanecermos hu­ma­nos - não tem futuro, é demasiado perversa, assassina e mentirosa para ter futuro. Acho por isso que não sermos dela é uma boa aposta, ainda que te­nhamos de viver nela. Para a fazermos implodir. Com práticas políticas soro­rais / fraternas e solidárias, também li­bertárias, e com palavras politicamente incorrectas. Querem-nos quebrar a es­pi­nha, ou de espinha já quebrada, mas haveremos de resistir e não fazer o jogo deles. Conheceremos então o des­prezo deles? Mas há lá coisa mais bela do que o desprezo deles?! O Es­sencial é sempre invisível aos olhos. E eles, em todo o seu Poder, não vêem o Essencial. Por isso é que até o seu bri­lho é Treva e a sua luz cega aquelas, aqueles que a fixarem. Não vou por aí. Prefiro o Essencial. O invisível aos olhos, porque só Ele dá sentido ao meu quotidiano. Veste-me de paz. E de Ternura. A Paz e a Ternura que lhe dou agora a si, juntamente com o meu abraço. Seu, Mário

Marinha Grande. Carlos Vicente: Caro Amigo e Senhor Padre Mário. Per­­mita-me que assim o trate. Conheço o seu Jornal Fraternizar muito vaga­mente. Aliás, foi na emigração na Ale­manha, através do meu querido amigo José Corceiro Mendes que pela primei­ra vez tive contacto com o seu jornal. Ao padre Mário conheço-o da televisão e de alguns livros seus que já li. Gosto da sua escrita. Fui baptizado pela Igre­ja católica, mais tarde casei canonica­mente e tudo somente para cumprir tra­dições. Apre­cio os temas tratados no Jornal Frater­ni­zar, desejo passar a re­ce­ber este, daí que envio a quantia para custear a as­sinatura.

Estou de acordo consigo, no que diz respeito ao papel da Igreja na sua história, foi estar sempre do lado das forças opressoras. Tanto na Alemanha nazi, como na Itália de Mussolini, na Espanha de Franco ou no Portugal de Salazar. A quem tiver dúvidas, como a ilus­tre leitora do Jornal Fraternizar, Car­la, aconselho a leitura do livro de Gerald Grenn, o Holocausto, ou Fidel e a Reli­gião, de Frei Betto, para melhor ficar­mos a saber qual tem sido o verda­deiro papel da Igreja para com os mais des­fa­vorecidos. Como escrevia o poeta António Aleixo: Morre o rico dobram os sinos / morre o pobre não há dobres. / Que Deus é esse dos ricos / que não tem pena dos pobres?

Padre Mário, se achar que vale a pena, publique esta minha opinião, pois sou daqueles que aprendeu a tem­­po que Deus só ajuda, se nós aju­dar­mos. Em criança, ouvia os homens com quem trabalhava na arte de mol­dar o vidro, esta canção: Não entre na igreja, o cavador / é falsa a religião de tanta canalha / os santos são de pau não têm valor / só deves dar valor a quem trabalha.

Porto. António Alte da Veiga: Nun­ca deixo de ler os artigos de Frei Betto no Jornal Fraternizar. Houve um perío­do em que ele se dedicou à “poesia” e não gostei tanto. Gostei dos outros, mas nem sempre concordo com tudo o que diz, como explico adiante.

No fim da página 11 do Jornal Fra­ternizar de Janeiro/Março 2008, sob o título «Privatização da Revolta» fala no massacre dos indígenas da América Latina pelos colonizadores ibéricos. Há anos Frei Betto mencionou o mesmo e afirmou que o Brasil foi a última colónia americana (ou latino-americana, não me lembro) a tornar-se independente.

Quanto à primeira afirmação, seria mais justo se Frei Betto mencionasse também os colonizadores não ibéricos (ingleses, franceses e holandeses). Mas Frei Betto e muitos brasileiros igno­ram a realidade total. É tão verdade que os invasores e primeiros coloniza­dores europeus mataram, roubaram e expulsaram os índios dos seus territó­rios, como é verdade que os herdeiros deles se desvincularam das metrópoles e continuam a matar, roubar e perse­guir os legítimos donos dessas terras com a ajuda de novos colonizadores de diversos países.

Será que Frei Betto e todos os não índios desse continente concordavam com a independência dos brancos da África do Sul e com a sua política de apar­theid? Ou concordariam com a in­de­pendência “branca” das ex-colónias portuguesas na África e na Ásia? Mas foi exactamente isso que os não índios fizeram e continuam a fazer no Conti­nen­te americano.

Quanto às datas de independência, é simplesmente falso. Não verifiquei o que se passou na América Central e Ca­raí­bas, mas não é preciso ir tão lon­ge. O Brasil tornou-se independente em 1822; a antiga Guiana Inglesa em 1966; o Suriname (antiga Guiana Ho­lan­desa) em 1975. A Guiana Francesa não é colónia – o seu nome oficial é Território sob Administração de França. Salazar dava um nome mais curto às colónias: Províncias Ultramarinas. E es­ta Guiana Francesa faz fronteira com o Brasil. Será possível que os brasilei­ros o ignorem?

Para terminar, espero que ninguém veja nestas palavras qualquer senti­men­to contra o Brasil. Bem pelo contrá­rio, fiz boas amizades com brasileiros que conheci no Brasil nos três anos que lá vivi e nos que vou conhecendo aqui e reconheço a cultura de alguns deles.

Escariz S. Martinho. António Ma­cha­do: Caro amigo Padre Mário, se é que me permite tratá-lo assim tão fa­miliarmente. Desde há bastante tempo que trago no meu pensamento fazer-lhe uma visita para conversarmos sobre as­suntos referentes a Jesus (o de Naza­ré). Eu sei que foi um homem extraordi­nário que só falava de coisas de Deus, mas ao mesmo tempo foi um revoluci­o­nário contra a corrupção, contra os usurpadores, contra aqueles que su­ga­vam o sangue dos oprimidos. O seu desejo era que todos se amassem uns aos outros. Mas ninguém o compreen­deu, incluindo a própria Mãe, os ir­mãos, os apóstolos. E todas e todos aqueles que o acompanhavam. Quan­do foi para a crucificação, todos fugiram e ele foi só, com os companheiros de infortúnio. Isto é um pequeno esboço da­quilo que eu compreendi. Por esta ra­zão é que eu gostava de conversar com o meu amigo para me refrescar as ideias, pois ainda há muito a dizer sobre o assunto.

Junto envio cheque para pagamen­to da assinatura do Jornal.

Lourosa. Arménio dos Santos: Caro Amigo, Padre Mário. Acuso-me muito sinceramente que sou um deslei­xado, pois o que venho fazer agora, já o deveria ter feito há já algum tem­po, mas acredita, não foi nem é por me ter esquecido do nosso querido Jor­nal, que tanto nos estimula e ali­men­ta a nossa Fé. Mas como há um tempo para tudo, hoje, esquecendo tu­do o res­to, ponho a minha correspon­dência em dia, incluindo o pagamento e actu­a­lização de algumas assinaturas anu­ais, às quais neste preciso momen­to estou devedor, incluindo o Jornal Fra­ternizar.

Faço votos para que o Espírito San­to continue a dar-te força como até aqui, para poderes continuar a tua mis­são como verdadeiro Apóstolo, neste País que se diz cristão, mas que o clero tão teimosamente continua a brincar com os fiéis, impondo a sua autoridade sem discriminação. E é talvez por isso que hoje vemos cada vez mais as igrejas vazias. Mas os nossos bispos e padres já se aperceberam disso. Sentem que o chão lhes está a fugir dos pés. Mas an­tes de abrir mão dos seus poderes, tentam reverter a situação, organizan­do e assistindo a Simpósios, Congres­sos e retiros de estudo, etc, sem surgir nada de novo, deixando durante este tempo os seus paroquianos à deriva, en­tregues a si mesmos.

Recebe um grande abraço dos teus amigos e com­panheiros que te lem­bram mais uma vez que, sempre que venhas para estes lados, nos faças uma visita. Te­mos tanto para conver­sar… Obrigado, Amigo.

E-mail. Marcos: Há dias veio-me à mão um famigerado Fraternizar e pen­sei que o sr já tinha acalmado esse ódio contra a IGREJA e sua hierarquia, mas não, continua como sempre e até tal­vez mais refinado. Fiz umas pes­qui­sas na net e então vê-se bem o tempo que gasta e perde a alimentar esse ó­dio. Esta última crónica sobre as missas rotinei­ras é de rir, a Igreja deveria ce­le­brar ao canto da Grândola e afins, não era mesmo? E padres e bispos de pistola à cinta como já se viu em países talvez admirados por si, onde o povo é esma­gado e eliminado, se não se ver­gar ao gosto dos novos senhores. Haveria mui­to a dizer, mas pelo que me foi dado apre­ciar seria uma perda de tempo, o meu amigo cristalizou aí e então tudo contra a Igreja e nada pe­la Igreja, se a Igreja estiver dum la­do, o sr estará do outro, pelo que vi, para si ela só tem defeitos, defeitos e mais defeitos e quem a segue e serve é um anormal, aí em Macieira da Lixa é um oásis da verdade, hei-de fazer uma visita se ca­lhar um dia, mas antes aceite um con­se­lho, não peça nada a nin­guém para a construção do “barra­co”, pois o sr pelo que parece acha que o dinheiro não é preciso, ou é só a Igreja Católica que vive do dinheiro? É mesmo de pasmar, então o sr de­fende o aborto?!... Olhe, só mais outra coisa, não assine e não se diga presbí­tero da Igreja do Porto, o sr auto-ex­clui-se dela, ser Presbítero é muito digno e sério.

N.D. Meu caro Marcos

A sua mensagem respira ódio e des­prezo. Porquê? Não me conhece. O Fraternizar incomodou-o assim tan­to? Encontrou heresias? Mentiras? Ou, pelo contrário, exigente Boa notícia, na linha da Boa Notícia de Deus, que é Jesus, o Crucificado/Ressuscitado, e na linha do Evangelho de Jesus? Quem lhe ensinou que amar a Igreja é dizer ámen a tudo o que ela faz e achar bem tudo o que ela diz/faz? Não seria isso idolatria? Não sabe que amar a Igreja é quase sempre dissentir dentro dela, sem nunca saltar fora? O que sabemos nós de amar a Igreja? Já leu as sete cartas que a comunidade que escreveu o Apocalipse dirige às Igrejas, no fim do século I? Já leu, de um fôlego, todo o capítulo 23 do Evangelho de Mateus sobre o que Jesus diz dos escribas e fa­riseus hipócritas? Olhe que eram ofi­ci­al­mente considerados os santos, os modelos para os demais, na época de Je­sus e no tempo das comunidades cris­tãs que escreveram os Evangelhos canónicos… E, apesar disso, não esti­veram eles, como grupo, directamente envolvidos na decisão de matar Jesus? O que sabe o meu caro Marcos sobre a prática de Jesus e dos profetas bíbli­cos? Já alguma vez parou a pensar por­que mataram Jesus e quase todos os profetas? Alguma vez leu, por exem­plo, o profeta Jeremias e os três livros de Isaías e reparou no que eles dizem sobre os sacerdotes e as suas liturgias no Templo de Jerusalém?

Fico surpreendido consigo. E preo­cupado. O que o levou a escrever-me uma mensagem assim, com tanto ódio e desprezo, só porque o Fraternizar lhe foi parar às mãos? Famigerado Frater­ni­zar? Porque?! Diga em concreto um só conteúdo que não corresponda à ver­dade? Põe o dedo na ferida? E pôr o dedo na ferida para a curar não é is­so amar? Ou acha que ser Igreja é coisa simples e fácil? Que basta ali­mentar as rotinas do dia a dia e dos ri­tos litúrgicos? Porque teve necessi­dade de me ofender e de me humilhar, se nunca esteve comigo olhos nos olhos? É crime lembrar à Igreja, da qual sou presbítero ordenado, o Evan­gelho de Jesus? Mas não foi para a­nun­ciar o Evangelho de Jesus que a Igreja me ordenou e ordenou os outros presbíteros como eu e os bispos?

Reflicta. Releia o que me escreveu e ponha-se na minha pele. O que lhe parece? Acha normal? O que o moveu a escrever-me semelhante mensagem?

Fico à sua disposição. Se quiser conversar, venha por aí. Sou um ho­mem irmão universal. E nos meus 71 anos de idade, continuo a cantar: Qu­ando for grande vou ser / quero ser co­mo um menino / convidar prá minha mesa / quem p’lo mundo é desprezado / acabar com a pobreza / quero ser como um menino.

Dou-lhe o meu afecto e a minha paz. Mário



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