Textos do
Jornal Fraternizar

Edição nº 167 de Outubro/Dezembro 2007

DESTAQUE 1

Falta de Padres,

ou de outros modelos de Igreja?

Pela primeira vez nos últimos 50 anos, a Diocese do Porto não teve um único candidato a padre/presbítero para apresentar na tradicional ordenação de verão. O Bispo Manuel Clemente mostra-se de cabeça perdida e culpa Deus. Inclusive, publicou uma Nota Pastoral com um rol de medidas de emergência que, bem analisadas, não passam de mais do mesmo. Ora, assim, não vamos lá. É a Igreja clerical a lutar contra o Espírito Santo. Porque o que faz falta são outros modelos de Igreja e outros modelos de ministérios eclesiais, com as mulheres em pé de igualdade com os homens. Sem que ninguém seja tratado como menor e como um castrado à força. Haverá audácia para tanto?

“Estes irmãos que [hoje] acedem às ordens sacras são certamente fruto da oração da Igreja. E podemos dizer que ainda seriam mais e muitos mais, se também maior e mais insistente fos­se a nossa oração. Não nos lamente­mos, pois. Agradeçamos o que temos e decidamo-nos a pedir o que falta”.

Quem isto diz é o Bispo do Porto, Manuel Clemente, na homilia da missa de ordenação, segundo domingo de Julho 2007, na sua Sé Catedral. É por isso uma afirmação do seu magistério episcopal ordinário. Leio e quase nem posso crer no que leio. Porque esta afir­mação revela bem o tipo de Fé que o anima e que anima a generalidade dos bispos e dos presbíteros da nossa Igreja católica, tanto a do Porto, como a das demais Igrejas locais ou dio­ce­­sa­nas do país e do Ocidente. E se a Fé da generalidade dos bispos e dos presbíteros é desta qualidade tão pou­co jesuânica, o que dizer da Fé dos demais católicos?

O Bispo Manuel Clemente está visivelmente aflito com a falta de pa­dres e de vocações para padre. E culpa Deus por essa falta. Acha que se lhe pedíssemos muito mais do que o temos feito até agora, haveria padres em a­bun­dância. E como há falta, muita fal­ta, conclui, precipitadamente, que é porque temos pedido pouco a Deus! Parece que nos culpa a nós, por não termos pedido bastante. Mas na ver­dade culpa Deus, porque um Deus que pode fazer com que haja padres em número suficiente na sua Igreja e não lhos dá, só porque nós não lho pedi­mos a toda a hora e instante, só pode ser um Deus cruel e sádico, com nada de Jesus e tudo de Bush, a quem, por isso, será preciso tentar convencer das nossas necessidades, como se, sem essa nossa persistente intercessão, Ele se estivesse nas tintas para nós.

Por outro lado, com este seu ensi­namento, o Bispo Manuel Clemente dá também a entender que a oração que fazemos é para comover e convencer Deus a ser-nos favorável, o que perfaz um insulto a Deus-Amor. Então não é Deus quem sempre toma a iniciativa e nos sai ao caminho? Não é Deus quem primeiro nos ama e cuida de nós? Aliás, orar não é dispormo-nos a deixar Deus ser Deus em nós? No caso concreto da falta de padres, não é dispormo-nos, como Igreja, a aban­do­nar os nossos esquemas eclesiásti­cos, as nossas tradições sem Tradição e, sobretudo, sem Evangelho, aban­do­nar este modelo cleri­cal de Igreja que teimamos em prolongar no tempo, à revelia do que de melhor nos reve­lou e apontou o Concílio Vaticano II? Não é abrirmo-nos ao Espírito que está aí empenhado em fazer novas todas as coisas, também em suscitar minis­térios eclesiais outros, bem mais con­for­mes ao novo tempo que estamos a viver e bem mais de acordo com as exi­gências do Terceiro Milénio? Numa palavra, orar não é convertermo-nos a Deus, ao seu projecto, à sua vonta­de, em lugar de querermos converter Deus a nós, aos nossos projectos, aos nossos egoísmos corporativos, aos nos­sos privilégios clericais, às nossas rotinas e às nossas vaidadezinhas?

Pelos vistos, vocações para Bispo, ainda há muitas na Igreja. Ninguém po­de começar a falar em crise de vo­ca­­ções para Bispo. Por este andar, chegará ainda o tempo em que haverá mais bispos do que padres! Mas o mais curioso e elucidativo é que, na mesma altura em que o Bispo Manuel Clemente lançou este seu dramático apelo a mais e mais oração e até fazia publicar uma breve Nota Pastoral sobre o problema da falta de padres, o Papa Bento XVI nomeava mais um bispo au­xiliar de Braga, e, com isso, “roubava” mais um padre à diocese do Porto. Po­deria e deveria ter escolhido um padre da arquidiocese de Braga, mas não; optou por um da diocese do Porto. E não é que ele aceitou, apesar de haver tanta falta de padres? Trata-se de um padre da Sociedade Missionária Boa Nova, António Couto, de seu nome. Te­rá, inclusive, de abandonar o cargo de Superior geral daquela Sociedade Missionária, para se tornar bispo au­xiliar de Braga, mas, pelos vistos, isso não é problema.

O facto, porém, prova que a nome­ação para bispo ainda continua a en­con­trar muitos candidatos disponíveis. E isto, sem chegar a ser necessário que os fiéis católicos multipliquem os seus pedidos a Deus em oração!... Na hora, os candidatos sempre aparecem e avançam.

Sem entretanto querer fazer juízos de intenção, é de suspeitar que os can­di­datos ao episcopado o são, não tanto por fidelidade ao Espírito Santo, como sobretudo por vaidade pessoal. Ou o episcopado não aparecesse aos olhos das populações de tradição ca­tó­lica romana e dos próprios padres/pres­bíteros candidatos, como uma di­gni­dade, uma honraria, aquele passo que lhes faltava para atingirem o topo da carreira eclesiástica e clerical. Se fosse, como deveria ser, a fidelidade ao Espírito Santo a mover quem aceita ser bispo, os nomeados em causa teri­am necessariamente, depois de orde­na­dos, outro comportamento eclesial e social, outra prática episcopal bem mais evangélica e jesuânica. A sua vi­vência de bispo seria assumida sobre­tu­do como incruento martírio a favor da libertação dos pobres e oprimidos do mundo, não como um privilégio de casta, muito menos como o topo da car­reira eclesiástica.

Infelizmente, são poucos, muito poucos os bispos mártires entre nós e na Igreja católica ocidental. Abun­dam os bispos-poder, os bispos funcio­nários eclesiásticos, os bispos súbditos da Cúria do Vaticano e vassalos de Ro­ma. Quem, de todos os bispos hoje em exercício na Igreja em Portugal, está a ser inequivocamente bispo már­tir, testemunha viva de Jesus e do seu projecto? Não são todos sobretudo fun­cionários eclesiásticos, mais atentos à Cúria romana e ao Núncio apostóli­co residente no país, do que ao Espí­rito Santo e aos pobres?

Ao contrário do que ocorreu até há bem pouco na Igreja católica em Portugal e por todo o Ocidente da Cris­tandade, são hoje quase nenhumas as chamadas vocações para padre/presbítero. Pode-se por isso dizer que esse já foi chão que deu uvas, quando ser padre ainda aparecia aos olhos das populações católicas humilhadas e empobrecidas do interior como uma oportunidade de o candidato a padre sair da pobreza e da humilhação. Ter um filho padre dava prestígio à família em causa e assegurava-lhe uma certa prosperidade material e social. Só isso explicará a abundância de vocações para padre nos tempos passados que eram também de generalizada miséria ime­recida e de generalizado analfa­betismo das populações. E explicará igualmente a escassez com que hoje a Igreja se depara. Não é, por isso, uma questão de mais oração, ou de menos oração, como erradamente en­sina o Bispo Manuel Clemente. Pelo me­nos, para se ser padre deste mo­delo clerical e piramidal de Igreja ca­tólica romana.

A oração tem, evidentemente, o seu lugar na Igreja, mas quando é feita para nos converter (não para converter Deus!), concretamente, quando é feita para nos levar a desejar/acolher pa­dres/presbíteros, mulheres e homens, cheios de Espírito Santo e de Fé, da mes­ma Fé de Jesus, como Estêvão e Barnabé, por exemplo, logo no início pa­ra­digmático da Igreja, em Jerusa­lém. Porque, para se ser funcionário eclesiástico, clérigo instalado nas roti­nas e nos ritos, como é o que hoje os bispos eclesiásticos, súbditos de Roma, mais pretendem que os padres sejam, não contemos nunca com a interven­ção do Espírito Santo. Ele simplesmen­te não tem lugar numa Igreja assim ecle­siástica e clerical. E, por isso, a ora­ção, por mais que se multiplique nu­ma Igreja assim não passará de ora­ção à maneira dos pagãos que pen­­sam que é no muito repetir e no muito pedir que serão atendidos. Não são, porque Deus não é Deus de roti­nas nem de ritos, nem de carreirismos eclesiásticos, nem de vaidadezinhas clericais. É Deus de vivos, que vê sem cessar a situação de miséria imerecida dos povos oprimidos e escuta os seus clamores e está aí ininterruptamente apostado em libertá-los, mediante su­ces­sivas Páscoas sociais e políticas que visam fazer novas todas as coisas. Porque a uma Igreja de rotinas e de ri­tos, como a nossa Igreja católica ro­mana hoje é, também aqui no Porto, Deus Vivo só pode vomitá-la da sua boca.

Rezam os factos que este ano, pela primeira vez nos últimos 50 anos, a diocese do Porto não conseguiu apre­sentar um único candidato a pa­dre/presbítero nesta habitual ordena­ção de verão. É verdade que houve or­denações, muito poucas, no segun­do domingo de Julho passado, mas ne­­nhum era da Igreja diocesana, pro­pria­mente dita. Estão sob a jurisdição do Bispo do Porto, mas provêm directa­mente de Congregações religiosas, que têm a sua própria autonomia ca­nó­nica; não provêm do seminário da dio­cese. Este dado objectivo é deveras perturbador, se for visto à luz do actu­al modelo clerical de Igreja que o Papa e os Bispos insistem em perpetuar como se fosse querido por Deus (que futuro pode ter este modelo de Igreja clerical, se não consegue ter candida­tos para ordenar?!). Terá sido este da­do que desencadeou no Bispo Manuel Clemente justificada aflição. Como há-de ele continuar a ser o bispo do Por­to, se tem cada vez menos padres clé­rigos para colocar à frente das cente­nas de paróquias? E se os que actual­mente se mantêm à frente delas estão já, na sua maioria, na casa dos 70 anos de idade e, mesmo assim, ainda têm de assumir duas, três ou mais paró­quias ao mesmo tempo? Perante uma realidade eclesiástica tão desoladora, o Bispo que veio do Patriarcado de Lisboa, onde era auxiliar, para titular do Porto e que, quando tomou posse, há meses, era todo sorrisos e ar de fe­licidade, está agora aos papéis, pois vê o chão fugir-lhe de debaixo dos pés. E tão aos papéis, que nem hesita em responsabilizar Deus por este be­co eclesiástico sem saída!...

Ainda não percebeu o Bispo Ma­nuel Clemente que é este modelo cle­ri­cal de Igreja e este modelo clerical de ministério ordenado que estão con­­de­nados a desaparecer! E quem mais empenhado está nisso é o pró­prio Espírito Santo. Basta sabermos ler os sinais dos tempos para chegarmos a essa conclusão. É por isso que não se trata de pedir a Deus para que nos dê muitos e bons sacerdotes, como sem­pre fez a Igreja clerical, nos sécu­los passados e, pelos vistos, ainda per­siste em fazer hoje. Do que se trata é de passarmos a ser uma Igreja que consente que Deus, o de Jesus, seja Deus nela e por ela. Com todas as con­sequências. Os ministérios ordenados e não-ordenados acontecerão então segundo as necessidades e com a rou­pagem secular que hoje as socieda­des já têm e que a Igreja também há-de passar a ter. Por isso, ministérios pro­tagonizados igualmente por ho­mens e por mulheres de Fé jesuânica comprovada, casados, viúvos ou celi­ba­tários por opção (nunca celibatários à força como agora), com formação aca­démica ou sem ela, mas sempre com capacidade de discernir os sinais dos tempos e de ajudar a fazer crescer na Fé as comunidades, isto é, com capacidade para fazer com que as co­munidades cristãs sejam comunidades empenhadas, historicamente compro­me­tidas com as causas da Huma­nidade, a começar pela mais empo­bre­cida e oprimida.

Infelizmente, o Bispo Manuel Cle­mente, como de resto, os seus irmãos no episcopado, a começar pelo Bispo de Roma e papa da Igreja universal, preferem assobiar para o ar e convi­dar as pessoas católicas a multiplica­rem a recitação de fórmulas de oração, como se a nós católicos nos pertences­se convencer Deus a ser-nos favorá­vel, quando, afinal, Deus é o primeiro a sair-nos ao caminho, para que lhe demos a oportunidade de ser Deus em nós e por nós, tal como aconteceu, de forma plena e definitiva, com Jesus, o de Nazaré. Infelizmente, é nesta erra­da direcção que vai a homilia profe­rida por ele na referida missa de orde­nação. E é igualmente nessa mesma direcção que vai também a Nota Pas­toral, divulgada por ele, na mesma oca­sião. Em concreto, são estas as orien­tações que a Nota Pastoral nos apre­senta, por sinal, todas demasiado va­gas e, pior, sem que haja quem lhes pos­sa dar corpo na diocese. Trans­crevo:

“Reforçar a pastoral de conjunto; corresponsabilizar ainda mais os vá­rios agentes da pastoral, clérigos e lei­gos, desenvolvendo a formação para o diaconado e os ministérios; incre­mentar a formação a todos os níveis; intensificar a pastoral vocacional; a­com­panhar de perto os padres, diáco­nos e leigos comprometidos na pasto­ral; olhar mais criativamente as novas fronteiras da evangelização, na socie­dade e na cultura; agilizar os serviços de apoio à pastoral e redefinir even­tual­mente a quadrícula diocesana (re­giões pastorais, vigararias…).”

No meu modo de ver, trata-se de uma orientação pastoral certamente bem intencionada, mas que acabará por deixar tudo na mesma, pois não con­segue descolar dos lugares co­muns, já tantas vezes repetidos na Igreja católica romana, quando, do que hoje se nos exige é que façamos no­vas todas as coisas. Para vinho novo, odres novos, sublinha Jesus, o dos Evangelhos Sinópticos. Ora, do que hoje se trata é de termos a humildade e a audácia de deixar de continuar a gastar o melhor das energias das pes­soas e das organizações católicas em rotinas eclesiásticas sem sentido e a­lienantes, e de atrevermo-nos a colo­car toda a Igreja do Porto em estado de missão, onde a prioridade das prio­ridades vá inteira, não para os ri­tos e os cultos sem profecia, para as de­vo­ções e os sacramentos sem mili­tância no mundo, mas para a missão de Evangelizar os pobres, oportuna e inoportunamente e, entretanto, saber esperar, com a atenção vigilante e com­prometida das chamadas virgens sábias do Evangelho de Mateus, que o Espírito Santo suscite novos mo­delos não mais clericais e paroquiais de fazer Igreja e os correspondentes mi­nis­té­rios ordenados e não-ordenados que a levem a ser Igreja no mundo e na His­tória, inteiramente ocupada em mu­dar a face da terra, mediante a imple­mentação de práticas económicas e po­líticas outras, geradoras de so­rori­dade/fraternidade universal.


DESTAQUE 2

Emigrantes: são 300 milhões

e exigem nova Ordem Mundial

São hoje 300 milhões os emigrantes em todo o mundo. Por isso, a presente Ordem Mundial do Dinheiro, do Templo e do Império que os pariu a todos, que se cuide. Porque tanto sofrimento, tanto desenraizamento, tanta exploração, tanto cinismo e tanta arrogância, à mistura com tanta fome de justiça, vão acabar por exigir e fazer surgir uma outra Ordem Mundial bem mais decente e à medida da dignidade dos povos. Não há já sinais?

O lema do XXVII Congresso de Teologia de Madrid sobre a emigração, "Fui emigrante e acolhestes-me", não podia ser teologicamente mais desa­fia­dor e provocador. Recorda-nos que em cada emigrante que deixa a sua terra, o seu país e quase sempre tam­bém a própria família de sangue e vai para um país desconhecido e distan­te, em busca de trabalho melhor remu­nerado e de mais e melhor qualidade de vida para si e para os seus, é o pró­­prio Jesus - o próprio Deus - que mis­teriosa e inesperadamente nos vi­sita e espera ser acolhido por nós.

Soubessem disto os países da abun­dância e os respectivos povos e a rea­lidade da emigração, hoje tão pre­men­te e massiva, seria indubitavel­men­te encarada de outro modo bem mais humano. Em lugar de história de dor e de humilhação, de desprezo e de exploração que continua a ser na mai­or parte dos casos, tornar-se-ia acon­­tecimento maior de acolhimento e de en­contro de povos e de culturas, numa comunhão e partilha de valores que nos havia de enriquecer a todos.

Infelizmente, o nosso mundo vive hoje, mais ainda do que no passado, sob uma Ordem Económica Mundial cons­titutivamente perversa e cainita, que não olha a meios para conseguir satisfazer os seus apetites de mais e mais Dinheiro e de mais e mais Poder - é a lógica do grande Capital e das suas multinacionais sem entranhas de humanidade - dentro da qual não há, quase não há lugar para os seres hu­ma­nos anónimos e sem muito Ter, muito menos há lugar para Deus, sobretudo, para aquele Deus que faz questão de se tornar misteriosamente presente en­tre nós na pessoa de homens, de mu­lhe­res e de povos em situação de afli­ção e de grande carên­cia, de desempre­go e de busca de melhores condições de vida. Aliás, já não houve lugar para Ele, quando Ele paradigmaticamente se fez Jesus, o de Nazaré, a reclamar de nós e de todos os povos entranhas de misericór­dia e de acolhimento, de partilha da riqueza produzida e de comunhão de vidas. "Veio para o que era seu, e os seus não o receberam", re­vela para todo o sempre o Evange­lho de João. E recusa a recebê-lo co­me­­çou logo pelos principais dirigentes políti­cos e pelos proprietários maiores de en­tão, os quais, como sucede ain­da hoje, beneficia(va)m mais do que nin­guém da Ordem Económica Mundi­al.

Hoje, porém, a realidade da emi­gra­ção em todo o mundo conhece pro­porções que o passado nunca conhe­ceu. Estudos recentes e sérios revelam que são 300 milhões os emigrantes em toda a terra. Revelam também que são dramáticas as condições de vida em que a maior parte dos emigrantes é conde­na­da a ter de viver, num contraste sacrí­lego e blasfemo com o espavento e o faus­­to em que insistem em viver as mi­no­rias privilegiadas dos países aonde os emigrantes se estabelecem e vêem a sua força de trabalho ser vergonhosa­mente explorada por empresas sem es­crúpulos. Seme­lhan­te contraste brada aos céus e atin­ge não só o coração de Deus Vivo, mas também o coração e a mente dos próprios emi­grantes de car­ne e osso.

Não se pense que semelhante cla­mor continuará a ser por todo o sempre politicamente estéril e incon­sequente. Não será mais assim. Pelo contrário, o século XXI será um século de viragem e de parto de uma nova Ordem Econó­mica Mundial, mais condizente com a justiça e a dignidade dos seres huma­nos e dos povos, qualquer que seja a cor da sua pele, a cultura e a naciona­lidade. Tão grande número de emi­gran­tes, quando gerar um colectivo à Moisés bíblico, tornar-se-á imparável no mundo e na História. A sua força política será semelhante à de um tsu­nami que derrubará a presente Ordem Económica Mundial e estabelecerá as condições propícias ao desenvolvi­mento de uma outra bem mais humana. Poderá ser uma revolução global con­duzida pela inteligência e pela ternura. Como poderá ser uma revolução global violenta. Por parte dos emigrantes e de todos os que estamos com eles na mesma fome de justiça e de dignidade, será uma revolução global conduzida pela força da ternura e pela inteligên­cia. Só recorreria á força da violência, se os detentores dos privilé­gios perma­necessem tão grosseira­men­te surdos e insensíveis que não entendessem outra linguagem senão essa.

O XXVII Congresso de Teologia de Ma­drid que decorreu, como de costu­me, na sala de actos das Comisiones Obreras, constitui um momento de graça e de verdade para os cerca de mil par­ti­ci­pantes, muitos dos quais, mulheres e homens, integram múltiplos colectivos de imi­grantes em Espanha. Aliás, al­gumas delas, alguns deles tiveram voz e vez no Congresso e marcaram a ferro em brasa a consciência dos demais.

Jornal Fraternizar que esteve pre­sente, na pessoa do seu director, desde a ses­são de abertura à de encerramen­to, percebeu que os tempos europeus e mun­diais estão a ficar maduros para uma inevitável revolução global, com os emigrantes como principais protago­nistas. Se não forem os que primeiro cá che­garam, serão os seus filhos e filhas, ou os seus netos e netas que as­su­mirão esse serviço libertador. Uma coisa é certa: A pre­sente Ordem Mun­dial do Dinheiro, do Templo e do Im­pé­rio não tem futuro, de tão perversa e assassina que é. Se persistir em ser cega, surda e muda, nos seus dirigentes políticos maiores, a mudança será cru­enta, mas será!



A emigração produz famílias transnacionais

O XXVII Congresso de Teologia de Madrid não poderia ter começar melhor, a nível de comunicações, de partilha de ideias e de pontos de vista. Enrique de Castro, o pároco de Entrevías (foto) que há meses resiste com ternura e paz à guerra aberta que o Arcebispo de Madrid não hesitou em abrir contra ele e contra o trabalho pastoral exemplar que ele está a levar a cabo, fez a apresentação, logo seguido da primeira conferência proferida por Carlos Jiménez. Este Prof. da Universidade Autónoma de Madrid surpreendeu todo o Congresso, ao colocar toda a ênfase nos aspectos positivos da emigração. "A emigração produz a criação de famílias transnacionais e obriga a ultrapassar o tradicional figurino Estado-Nação". Já a conferência de encerramento do Congresso coube ao belga de renome mundial, François Houtart, Director do Centro Tricontinental, sem dúvida o mais aplaudido pelos congressistas, elas e eles.

"Calculo - começou por dizer Enri­que de Castro, vestido com a máxima simplicidade e invulgar alegria -  que um dos motivos por que me convidaram a apresentar este congresso de teolo­gia deve-se ao apoio que nestes últi­mos meses tendes dado à nossa paró­quia, pelo que, nesta ocasião, quero, sobretudo, dar-vos um muito obrigado em nome de toda a nossa comunida­de". E prosseguiu (leiam até final, que é exemplar como procedem):

"Não foi só uma manifestação de apoio, mas uma constatação de que to­dos nós estamos empenhados em pro­var que é possível recuperar o sentido genuíno da Igreja de Jesus, baseada na utopia (talvez hoje entendemos me­lhor esta palavra do que a palavra rei­no), a justiça da reconciliação e a soli­dariedade.

«Fui emigrante e acolhestes-me». Na nossa paróquia tudo começou no final de 2001. Chegaram da América Latina, do Magreb, subsarianos, alguns do leste europeu e até dois da Mongó­lia. Pretendiam os papéis ou a legaliza­ção, mas viviam na rua, sem casa. Des­co­brimos que não bastava apoiar as suas reivindicações, havia outros nou­tras paróquias e diversos centros e, em diversas cidades, promoveram-se ma­ni­fes­tações massivas de apoio. Não nos foi difícil perceber que, enquanto procu­ravam os seus objectivos, precisavam de satisfazer as suas necessidades mí­ni­mas de alimentação, tecto e afecto, por­que já tínhamos a experiência dos cha­mados meninos da rua. A única coi­sa que os distinguia destes é que eram estrangeiros. Em tudo o mais, é a mes­ma coisa: têm, como eles, que assegu­rar a própria subsistência e são também perseguidos como eles, mas ainda com maior requinte. Vimos que não tinham apoio, devido a estar fora da sua terra, não sabiam onde refugiar-se ou escon­der-se como os de cá, eram desconfia­dos e os marroquinos mal balbuciavam a nossa língua...

Começaram então a viver nas nos­sas casas, sobretudo, os do Magrebe, o que foi para eles passar a sentir se­gu­rança e confiança. Na paróquia e nas nossas casas acolhemos centenas deles. Tomamos contacto com as suas famílias e em diversas ocasiões fomos mesmo conhecê-las ao vivo, no país de origem, o que fez com que desde então nos considerem sua família em Espanha.

Hoje, temos muitos menores de 18 anos que estão a ser abusivamente ex­pulsos, sem qualquer garantia jurídica, sem que se conheça a sua situação fa­miliar, enganando-os, lesando os seus di­reitos fundamentais. A equipa de ad­vo­gados da paróquia conseguiu arran­car literalmente do avião, por ordem judicial, muitos destes rapazes que iam ser repatriados clandestinamente.

Não posso alongar-me. Quero só as­sinalar que há diversos grupos no nos­so país, crentes e não crentes, que estão a viver esta mesma experiência com os imigrantes. Através dela passa­mos da convivência e do apoio à luta mais ou menos organizada, na qual par­­ti­cipam os próprios, os antigos ra­pazes da rua e os diversos grupos que se organizaram já nos anos oitenta, as mães incluídas.

Quero assinalar outro aspecto da ligação entre eles e nós. No final de 2001, celebrámos a eucaristia aos do­min­gos, como sempre. Para isso eles ti­nham que retirar da sala onde cele­brávamos os colchões, mantas e obje­ctos pessoais. Entretanto, todos faziam questão de permanecer na nossa cele­bração. Para os imigrantes de língua cas­telhana, cristãos na sua maioria, não era difícil, mas para os muçulmanos sim.

Começámos por isso a fazer cele­brações comuns, lendo também versí­culos do Alcorão que eles traduziam, dizendo nós Amén à oração deles em árabe e unindo eles as suas mãos às nossas no Pai-Nosso. Eles dizem “a me­sa de Jesus”, partilham connosco o pão e o vinho, tal como os ateus e agnós­ticos e um ou outro diz: “Sou muçulma­no, mas esta é a minha igreja”. De fa­cto, consideram a paróquia como a sua casa, participam em tudo, celebramos jun­tos as suas festas e as nossas e eles também gritam o “NO, NO NOS MO­VERÁN”. Hoje, não há diferença entre nós, entre os de cá e os de lá, são mui­tos os laços que nos unem, inclusive a fé que nos leva a superar obstáculos e medos.

Os imigrantes são parte dos po­bres e dos excluídos da terra, portanto são a herança, a igreja do Deus de Je­sus. Nós só somos Igreja de Jesus se convivemos com eles e lutamos com eles.

Queria ainda fazer convosco uma re­flexão em vários pontos, a partir do que fomos descobrindo estes anos na paróquia, agora que se tornam tão evi­dentes aos olhos de todos as diferenças entre a concepção da Igreja vaticanista e a que podemos chamar Igreja de ba­se.

Em primeiro lugar, pensamos que se­ria importante mudar a concepção de paróquia como lugar de culto para a transformar em lugar de encontro. Se a Igreja de Jesus é dos pobres, as pa­ró­quias e as comunidades são o lugar dos pobres e, hoje, que falamos deles, também dos imigrantes. Os que já esta­mos dentro delas teremos que abrir-lhes as portas e facilitar-lhes que des­cu­bram a fé como motor da vida huma­na, das suas próprias vidas, não por discursos, mas encontrando com eles a riqueza que existe na desnudez de cada um. Não se abre uma paróquia se não se abrem as nossas casas e os nossos tempos, se não se verifica um encontro e uma convivência em igual­dade, onde todos mergulhamos no inte­rior dos outros, escutando necessida­des, problemas, procurando soluções e, quando estas acontecem, celebrá-las. A celebração, a festa, a eucaristia deixarão então de ser vazias, porque celebraremos o que estamos a desco­brir e a viver.

Isto fará mudar a nossa concepção assistencialista e moralista que diz: “Te­mos que ajudar os pobres”. Todos os que formamos a paróquia e a comu­ni­dade nestes anos, já descobrimos que foram eles, os pobres/imigrantes os que deram sentido às nossas vidas, porque primeiro nos ofereceram as su­as. Fizeram com que caíssem os nossos esquemas, as nossas concepções bur­guesas, o nosso protagonismo. Torna­ram possível que descobríssemos a fé no ser humano e na nossa capacidade de mudança. Trouxeram-nos a boa no­tícia.

O segundo momento desta reflexão é sobre a liturgia nas nossas paróquias e comunidades. Os pobres - e aqui in­cluo os jovens - devem percebê-la co­mo algo seu. Mas como? Com estas rou­pagens? Já lhes basta Cañizares! Com estes cânticos? Com estes monó­logos dos párocos?

Em muitas comunidades isto está a mudar, nós aprendemos com elas, e em algumas paróquias há grupos que celebram de outra maneira, mas às es­condidas. Penso que temos de ir supe­rando medos, para que numa socieda­de cada vez mais laica as nossas pa­ró­quias não escorracem as pessoas por aborrecimento ou por indiferença. Não vemos nem sequer os mais velhos fugir das celebrações em que todos par­ticipamos. Apenas se afastaram os sub­missos, os que colocam a norma por ci­ma do ser humano.

O último ponto a que me quero referir é o da luta. Quando facilitamos uma casa a um imigrante, ou o ajuda­mos a conseguir os papéis, ou lhe facili­tamos um posto de trabalho, já fizemos muito por ele. Porém, isso ainda é assistencialismo. Mas se estás vinculado pessoalmente, denuncias quando o mal­­tratam, protestas contra a sua ex­pulsão, ou esconde-lo, dás-lhe um tra­balho clandestino, tornas-te cúmplice, incondicional, encobridor, que ninguém lhes toque porque já são algo de ti. A caridade deixa de ser assistencialismo e converte-se em justiça, baseada no amor, não na lei. E tudo isto vivido não iso­ladamente, mas em grupo, em co­mu­nidade, torna possível a utopia, isso que nós chamamos reino.

Estamos a assistir a situações es­pan­tosas dos emigrantes nas travessias pelo mar e nos desembarques ilegais, a perseguições, inseguranças e expul­sões de multidões de pessoas que só procuram viver. Penso que este con­gres­so nos ajudará a construir uma Igre­ja que responda não ao que recla­mam os hierarcas investidos de poder, mas às expectativas de quantos andam à procura da boa notícia.


François Houtart:

Hoje o capitalismo procura novas fronteiras

"Hoje, tudo - Estado, media, escolas [e até Igrejas?] - está ao serviço da acumulação do capital. Também a emigração. Abrem-se, ou fecham-se fronteiras, conforme interessa à acumulação do capital. Hoje, o capitalismo procura novas fronteiras". São lúcidas palavras de François Houtart, no encerramento do Congresso de Teologia.

O conhecido sociólogo belga, cristão ilustrado e comprometido, nomeadamente com os povos empobrecidos do Sul, advertiu também que o capitalismo, na sua fome insaciável de acumulação do capital, vai matar, dentro de muito poucos anos, tudo o que ainda resta de agricultura camponesa. Ficará apenas a agricultura empresarial. O Banco Mundial já o diz abertamente e está a trabalhar para que assim se faça. Age, sem querer saber dos milhões de pessoas que vivem/sobrevivem da agricultura camponesa. Todos serão expulsos das terras que trabalham. Em vários países da América Latina, são centenas de milhões. A acumulação do capital exige este passo e ele acabará por ser dado. De resto, a lógica do capitalismo é reduzir o ser humano a mercadoria. E a emigração também. Será que os povos ainda vão conseguir resistir a este destino? Ou embarcam nesta carruagem, mais ou menos alienados? Os emigrantes/imigrantes resistirão, ou embarcarão, seduzidos pelas ilusões que o capital tão habilmente sabe criar, junto das pessoas? Ainda iremos a tempo e obrigaremos o Capital a parar na sua insaciável fome? Conseguiremos que as pessoas e os povos estejam primeiro, valham mais do que o capital?

Houtart não hesitou em apontar a solidariedade como caminho a ter de ser percorrido pelos povos. Mas alertou para o perigo de um certo tipo de solidariedade paternalista que ainda cai dentro da lógica do capitalismo e, à distância no tempo, acaba por o fortalecer ainda mais, quando é urgente enfraquecê-lo, dominá-lo, controlá-lo, domesticá-lo.

Receitas estruturais e imediatas, não há. Há indícios, sinais, iniciativas que suscitam esperança e podem abrir o futuro ao presente. Em concreto, apontou a recente criação do Banco do Sul, ainda a dar os primeiros passos, mas que pretende vir a afirmar-se como alternativa ao Banco Mundial. Fala também da necessidade premente de redefinir a Economia e de a reconstruir. E agrada-se perante o socialismo século XXI, de que fala com entusiasmo o presidente Hugo Chávez, da Venezuela.

Outra via que aponta e que há-de ser assumida pelos povos é privilegiar o valor de uso sobre o de troca. E lembrou a necessidade premente de generalizarmos a prática da democracia participativa, incluída, obviamente, a democracia económica e de género.


Mensagem final

do XXVII Congresso de Teologia

De 6 a 9 de Setembro de 2007, cerca de mil pessoas participamos no XXVII Congresso de Teologia, celebrado em Madrid, sob o lema “Fui emigrante e acolhestes-me”.

1. É evidente que nos últimos anos em Espanha produziu-se uma grande mudança sociológica, devido aos fortes fluxos migratórios que puseram à prova a capacidade solidária da população em geral e dos cristãos em particular, assim como a capacidade legislativa e executiva dos sucessivos governos para fazer frente aos problemas derivados desse novo fenómeno social. De país de emigração, Espanha transformou-se num país de imigração. E a realidade mostra que nem sempre soubemos estar à altura das exigências que a nova sociedade nos coloca.

2. Temos que encarar esta nova realidade não apenas numa perspectiva sociológica e económica, com suas repercussões directas no mercado de trabalho e na economia, mas também na sua dimensão religiosa e cultural, sobretudo, se temos em conta que uma percentagem muito elevada dos imigrantes integram culturas, religiões e igrejas cristãs de tradições diferentes da maioria em Espanha.

3. Do ponto de vista religioso, a fé cristã não faz distinção de raças nem estabelece fronteiras de separação, portanto deve promover uma sociedade inclusiva, na qual todos e todas possam ocupar um espaço digno em igualdade de oportunidades; uma sociedade na qual não haja estrangeiros nem apátridas e os “papéis” não condicionem nem a dignidade nem as oportunidades das pessoas.

4. As migrações massivas obrigam-nos a recordar a mensagem paulina: “Acolhei-vos uns aos outros como Cristo nos acolheu” (Rom 15, 7). Ou o texto-lema do nosso Congresso: “Se um emigrante [estrangeiro] vier residir contigo na tua terra, não o oprimirás. Será tratado como um dos vossos compatriotas e amá-lo-ás como a ti mesmo, porque também vós fostes emigrantes na terra do Egipto” (Lev 19, 33-34). Este “acolher o outro”, sem qualquer discriminação, sem paternalismos nem exclusivismos de nenhum tipo, é o núcleo da boa notícia ou Evangelho [de Jesus] e a chave para criar uma nova sociedade.

5. Como população receptora de imigrantes, Espanha tem que aprender a vê-los não como um problema, mas como uma fonte de riqueza, tanto do ponto de vista cultural e espiritual, como pela contribuição que eles estão a dar ao desenvolvimento do país. Não se trata de ”mão-de-obra barata”, da qual se poderá prescindir quando o ritmo da economia afrouxe ou as circunstâncias o aconselhem, mas de pessoas, sujeitos de direitos: direito ao acolhimento, direito à dignidade, direito à defesa jurídica, direito à livre circulação, direito a beneficiar de um marco jurídico que lhes proporcione estabilidade, direito à prática da sua própria religião e património cultural, direito a uma casa digna, direito à reunião da família… Numa palavra, são pessoas às quais devem ser reconhecidos todos os direitos humanos, incluído o sufrágio eleitoral, como cidadãos que são para todos os efeitos.

6. O Congresso revelou especial sensibilidade para com as mulheres imigrantes, dupla ou triplamente oprimidas: por ser imigrantes, por ser mulheres e, em muitos casos, por pertencer a culturas, raças e etnias discriminadas. E assumiu o firme propósito de trabalhar neste terreno para conseguir a sua plena integração na sociedade e o reconhecimento dos seus direitos em todos os campos: laboral, familiar, económico, educativo e social.

7. Numa palavra, temos que aprender a valorizar a riqueza cultural e económica que a presença dos imigrantes nos traz, sempre no respeito pela diferença, num marco de igualdade jurídica em que possam ser criados espaços comuns de convivência, nos quais temos de exercer a solidariedade de maneira activa e generosa.


À margem da temática do Congresso

Reconhecimento a Jon Sobrino

"Somos milhões os que te acompanhamos, mas sobretudo acompanha-te Jesus de Nazaré". São palavras vigorosas e proféticas do Bispo Pedro Casaldáliga, escutadas durante a sessão pública de reconhecimento a Jon Sobrino, o teólogo maior da Igreja dos pobres, recentemente condenado pela Cúria Romana. A sessão foi promovida pelo XXVII Congresso de Teologia de Madrid. Recordou aquelas palavras, com visível emoção, o próprio presidente da Associação de Teólogas/teólogos João XXIII, Júlio Lóis.

O mesmo teólogo citou também a tomada de posição dos 19 directores da Revista internacional de Teologia Concilium. Nela se afirma que a Notificação da Cúria Romana "não tem em conta o desenvolvimento que a teologia conheceu nestes últimos 50 anos e recorre a uma argumentação dedutiva que não pode fazer justiça ao enfoque contextual e hermenêutico de Jon Sobrino, muito menos ao seu compromisso académico com o avanço exegético e teológico". E acrescenta: "O caso Jon Sobrino tem as suas implicações sobre o modo em que o magistério da Igreja se relaciona com os teólogos, assim como sobre o modo em que os teólogos se relacionam com a fé dos pobres do mundo."

Também o conhecido teólogo ibérico, J. M.ª Castillo, integrou a mesa da sessão. E abriu a sua intervenção indignada com a Cúria Romana e solidária com Jon Sobrino, com uma eloquente pergunta: "Porquê a Cúria Romana se incomoda tanto com a forma como Sobrino fala e testemunha sobre Jesus, o dos pobres, e não sobre tantos outros temas que ele aborda libertadoramente na sua teologia?" E respondeu: "Porque o Vaticano tem medo dos pobres. Para o Vaticano, primeiro estão os dogmas, só depois a realidade e, desta,os pobres que são a realidade mais real. A Igreja no Vaticano tem medo dos pobres e só os encara como objecto de caridade. Não pode com os pobres como sujeito. Metem-lhes medo! E defende-se deles com os dogmas."

Por sua vez, o grande teólogo José Tamayo Acosta interveio com uma comunicação objectiva e contundente contra o Vaticano. Sobretudo, pela sua incapacidade em entender, acolher e aprender com o teólogo maior dos pobres e dos mártires que é Jon Sobrino, ele próprio um mártir vivo, sobrevivente da UCA. Mas os cardeais da Cúria passarão e a teologia maior de Sobrino ficará!


IApresentação da

Agenda Mundial

Numa sessão extra-Congresso, mas no mesmo espaço onde ele decorreu, teve lugar a apresentação da Agenda Latino-americana 2008, que hoje já se assume como agenda mundial. Temática em destaque deste ano é a Política, uma que morreu e outra que tem de erguer-se e praticar-se, sob pena de o nosso presente mundial vir a ficar sem futuro!

O teólogo clareatiniano José M.ª VIGIL, principal cérebro da Agenda, desde o seu primeiro número, em total parceria e comunhão com o Bispo Pedro Casaldáliga, hoje já emérito da Igreja de São Félix do Araguaia, no Brasil, foi um dos rostos da apresentação. Salientou a importância que a edição de 2008 dá à Política. Reconheceu que há hoje um tipo de política que é sinónimo de corrupção e de corruptos, de mentira e de mentirosos, de assassínio em massa e de assassinos, vestidos de dirigentes, de governos e de presidentes de república, totalmente de cócoras perante o grande capital. Mas este facto, longe de nos fazer virar as costas à política há-de, pelo contrário, levar-nos a encarar a Política como Deus a pratica. Na sua reflexão, não chegou a citar o Fraternizar, do qual é leitor e companheiro, mas bem o podia ter feito. Porque não nos cansamos de insistir nessa tese. E o nosso Director até publicou um livro, cujo título diz tudo: E Deus disse: Do que eu gosto é de Política, não de Religião.

A Agenda 2008 será publicada, como as edições anteriores, em bastantes países do mundo, em outras tantas traduções. Infelizmente, o nosso país ainda não conseguiu aderir ao projecto e dar-lhe corpo. Ao contrário do Brasil, onde a Agenda conhece uma edição em língua portuguesa, por sinal muito bem traduzida e apresentada. Contamos falar dela com mais pormenor na nossa 1.ª edição de 2008.


EDITORIAL

São quatro jovens mulheres

São quatro jovens mulheres. Todas ainda na casa dos vinte anos: Laura, Joana, Ana Sofia e Susana. As suas ca­ras de reclusas ingenuamente felizes e tiradas a papel químico são capa na edição da revista Notícias Magazine, de 16 Setembro 2007. São todas freiras de clausura. No Carmelo de Coimbra. O mesmo que enclausurou até à morte Lú­cia, a da mentira católica das apari­ções de Fátima em 1917. A reportagem ocupa várias páginas de destaque. Li-a integralmente. E fiquei chocado. De­cepcionado. Abismado. Tudo aquilo não passa de mais do mesmo do primi­ti­vo Paganismo religioso dos povos não ilustrados e não evangelizados, agora na re­ciclada versão católica que o Im­pé­rio romano de Constantino habil­men­te conseguiu impor às populações que então dominava e explorava e que, depois, a Cristandade Ocidental que lhe sucedeu, ainda exportou para ou­tros povos de outros continentes, atra­vés das chamadas missões católicas. A Cruz e a Espada, lembram-se?! Dilatar a Fé e o Império, lembram-se?! Um crime sem perdão, feito de séculos e séculos de exploração/latrocínio e de escravatura/genocídio, que depressa esquecemos, porque fomos, ainda so­mos os beneficiários, não as vítimas. A repórter quase se limita a reproduzir, acrítica e ingenuamente, o que lhe dis­se­ram e o que lhe mostraram. Não con­se­guiu ir além da casca. Do habilmente propagandeado. Da mentira do discur­so oficial. Do ideológico institucional re­ligioso, que é sempre demoníaco. Ficou-se pelas aparências. Como uma câ­mara fotográfica. Não conseguiu ver, para lá dos sorrisos das quatro mulhe­res a quem roubaram tudo, até os cor­pos, concretamente, todo o hediondo dA­quilo que, como oportunamente re­vela o Evangelho de Jesus, mata o corpo e a alma de quantas lá caem den­tro. Não teve a audácia nem a lu­cidez para interpelar até ao âmago as quatro mulheres e, sobretudo, a insti­tui­ção-vampiro que as mantém seques­tradas, para as poder devorar todos os dias, como ídolo que é e que, para melhor se poder impor e se fazer se­guir, até com sorrisos de ingénua felici­dade, faz-se passar aos olhos delas men­tirosamente por Deus. A repórter não foi capaz de as questionar, às qua­tro. Nem se indignou perante elas e pe­rante tudo aquilo que lhes estão a fa­zer, para cúmulo, com o declarado con­sentimento delas. Não protestou. Pelo contrário, chega até a parecer as­sustada com o que teve de ver e de relatar. Como sempre acontece diante da Imagem, do Ídolo, do Mítico, do Sa­grado, do Santuário! Ainda não se deu conta, como sucede aliás com a maior parte das pessoas, sobretudo, as mais religiosas, que só a Mentira assusta, suscita Medo, esmaga-nos, oprime-nos, come-nos, mata-nos, reduz-nos a Na­da. A Verdade, ao contrário, faz-nos li­vres, solta-nos, liberta-nos para a li­ber­dade, catapulta-nos para a Plenitu­de do Ser. Porém, nem tudo na repór­ter é assim tão acrítico e ingénuo como parece. Timidamente, como quem não quer a coisa, não vá magoar o Deus-ídolo a quem estas quatro mulheres a uma só voz, como se de uma cassete se tratasse, dizem amar em exclusivo, lá conseguiu classificar a reportagem que assina, com uma palavra terrível, embora escrita num tipo de letra quase invisível: “RECLUSÃO”. Assim é. Podem dizer por aí à boca cheia que é uma re­clu­são, sim, mas voluntária. Respon­derei: Reclusão voluntária? Tanto pior. Um suicídio, se voluntário, não é ainda mais horrível? Saibam, senhoras e se­nhores, frei­ras e frades, clérigos católi­cos e todos os seguidores dos seus es­piritualismos moralistas, que fomos cria­dos para a Li­berdade. E para a Plenitu­de do Ser. Não para a Humilhação. Não para o Sa­cri­fício. Não para Alienação.

Da re­por­tagem em questão, o mais asque­roso ainda é o que se relata no final sobre como são preenchidos os dias e as noites das 20 mulheres que actualmente estão reclusas no Carmelo de Coimbra. Todas vivem em função do Ídolo que as hipnotiza e devora, co­mo costuma fazer a víbora assassina, quando quer devorar o pequeno pás­saro que começou por hipnotizar. As re­clusas chamam-lhe Deus, mas é o Ídolo que habilmente se disfarça de Deus. Só ele existe para elas. Madru­gam para se lhe dirigir em orações ri­tua­lizadas que as impedem de chegar a pensar próprio, a dizer próprio, a sentir próprio, numa palavra, a ser elas próprias. Todos os dias estão marcados e preenchidos com rezas destas, do levantar ao deitar, sempre as mesmas ou do mesmo tipo. Uma rotina absurda. Estúpida. Criminosa. Destinada a alie­nar e a manter alienadas todas as vinte mulheres, tanto as muito idosas, como as muito jovens, como é o caso das quatro da reportagem. Um disparatado papagueado, sempre o mesmo para to­das por igual. Ano após ano. Vejam só. Já foi esse mes­mo papagueado que eu fui encontrar no seminário do Porto, nos anos da minha formação, e de que, fe­lizmente, me libertei, quando cresci na Fé cristã jesuânica. Um horror sem no­me.

Por favor, não se escandalizem com o que aqui escrevo. Escandalizem-se com o Horror que se está a praticar todos os dias no Carmelo de Coimbra. E em muitos outros locais como aquele. Em muitas outra vidas de seres huma­nos católicos e não só. Se a Igreja não põe termo a Isto, torna-se Horror, ela pró­pria. E se, em vez de lhe pôr termo, ainda vai dar mais força a Isto e desa­creditar/matar o mensageiro e o Evan­ge­lho que ele anuncia?! Lembrem-se que outro tanto fizeram já os chefes da “Igreja” do Templo de Jerusalém a Je­sus, o de Nazaré, por ele ter dito que era o Ídolo que eles lá adoravam/idola­travam, dia e noite, sob o disfarce de Deus. Será que não aprendemos nada com a História?

Minhas irmãs, meus irmãos, fujamos do Ídolo! Deus Vivo, o de Jesus, tem a cara e o corpo do Pobre, do Oprimido, do Excluído, do Imigrante, dos Povos Cru­cificados. É aí que sempre nos espe­ra. Entretanto, vive mais íntimo a nós dos que nós próprias, nós próprios! Por isso, sempre nos sai ao caminho a per­guntar: “Onde está a tua irmã/o teu ir­mão? Que fizeste da tua irmã/do teu ir­mão? E ainda adverte aquelas/aqueles de nós que nos temos na conta de muito religiosos: “Quem diz que ama a Deus a quem não vê e não ama as irmãs, os irmãos a quem vê é mentiroso”.

Vão por mim: Mudem de Deus! Re­nun­cie­mos de vez ao Ídolo e deixe­mos Deus Vivo ser Deus em nós e por nós!


ESPAÇO ABERTO

A mulher adúltera

Prof. Manuel Sérgio

Tendo passado a noite a orar, no Monte das Oliveiras, Jesus desceu à cidade, nas primeiras horas da manhã e dirigiu-se para o Templo. Mal clarea­va o dia e as cerimónias religiosas só algumas horas depois começariam. No entanto, os peregrinos, em cavaqueiras intermináveis, já caminhavam, também em direcção ao Templo e em número cres­cente. Alguns deles, vendo Jesus, acompanhado dos seus discípulos, junto da Porta Dourada, sentaram-se junto d’Ele, na esperança de escutar al­gumas das suas prédicas. De súbito, como torrente que galga o penedio das margens, uma centena de homens aos gritos aproximou-se. À frente da turba, nu­merosos escribas e fariseus empur­ravam uma despenteada e assustada mulher que era vítima de toda a sorte de impropérios. Ao chegar o cortejo bem perto de Jesus, a turba formou um círculo. A mulher ficou no meio, sacu­din­do-se em intermináveis soluços. Um dos escribas levantou a voz: Mestre, sa­bemos que és justo e sábio. Acon­selha-nos, por isso. “Mas o que se pas­sa?” inquiriu o Mestre. O escriba deitou-se a um pomposo discurso, cheio de ci­tações do Antigo Testamento. Distraí­do, Jesus agachou-se e começou a de­se­nhar na areia. Findo o exórdio, o escriba concluiu, julgando irrefutáveis as suas palavras: Logo, porque esta mulher é casada e foi apanhada a fornicar com outro homem que não é o seu, esta mulher, segundo a lei de Moi­sés, deve ser imediatamente delapida­da. Qual é a tua opinião, a este respei­to? Jesus, sem dar a mínima atenção ao palavreado do orador, continuava a riscar a areia. Exasperado, um fari­seu rugiu: Não dizes nada? E outro, já de voz embargada: Diz alguma coisa. Caso contrário, matamos já a mulher...

Quando ouviu a palavra “matar”, Je­sus estremeceu e levantou-se. E o­lhan­do fixamente os escribas e os fa­ri­seus afirmou em voz pausada: “De todos vós quem estiver aqui sem pe­cado atire contra esta mulher a pri­mei­ra pedra”. E voltou a acabar os dese­nhos que iniciara. No entanto, como por milagre, nos riscos que Jesus fizera na areia, surgiram as palavras ladrão, as­sassino, perjuro, adúltero, burlão: afi­nal os crimes daqueles hipócritas juízes, embora argumentadores sagazes e ar­gu­tos, os quais, para Jesus, tinham pe­ca­dos iguais, ou piores, do que os da­que­la pobre mulher. Lentamente, os acu­sadores, transtornados os seus pla­nos, desapareceram e ficaram Jesus e a mulher, olhando um para o outro. Je­sus adiantou-se: “Mulher, onde estão aqueles que te acusavam? Ninguém te condenou?”. E ela, ainda de voz embar­gada: Não, senhor, ninguém me con­de­nou. “Nem eu também te condeno. Vai e não voltes a pecar”.

Grande exem­plo o de Jesus! Ele con­denou, de facto, os que vêem o ar­gueiro no olho do seu semelhante e não vêem a trave no seu próprio olho. Dias antes, o Mestre tinha perguntado aos discípulos: “Qual de vós, tendo cem ovelhas, e perdida uma, não deixa as noventa e nove e não corre atrás da que se perdeu até achá-la? E, achando-a, não a põe aos ombros e não diz aos amigos: Alegrai-vos comigo, porque achei a minha ovelha perdida? (...). Digo-vos, pois, que haverá mais alegria no céu por um pecador que se arre­pende, do que por noventa e nove jus­tos que não precisam de arrependi­mento”. Em Jesus, não há Index, não há exclusão, não há marginalização. Todos os “homens de boa vontade” cabem na casa do Pai.

Fui dos que ouvia, sem perder ne­nhuma delas, as homilias do Padre Fe­li­cidade Alves. Era uma voz de não-equilíbrio, dinâmica como a vida, e eu encontrava-me saturado, desiludido com os sermões doutros sacerdotes que repetiam o que o Cardeal Cerejeira ordenava: o absentismo mais despu­dorado diante de uma guerra colonial, sem sentido e sem futuro; o conservan­tismo de quem temia o próprio Concílio Vaticano II; o reaccionarismo de quem con­tinuava a ver no Estado Novo a bar­reira inultrapassável para os “ventos da História”. Ignorantes, não sabiam estes arautos de uma religião falida que a verdadeira crença é ao mesmo tempo não-crença, isto é, tensão entre a dúvida e a fé. Daí, a angústia como ma­nifestação típica dos nossos limites, embora os nossos infinitos anseios; daí, a necessidade daqueles que, com fé profunda em Jesus, ou em Jesus Cristo, não aceitam servilmente o “nihil obstat” romano. O Padre Felicidade Alves che­gou a dizer que era “ateu” do Deus que lhe pretendiam impingir. Um Deus só de certezas, de abstracções essen­cialistas, de dogmas perfeitamente dis­pa­ratados e pueris. Fiquei, por isso, ver­dadeiramente feliz, quando o actual Patriarca de Lisboa presidiu ao casa­mento canónico de Felicidade Alves e o recebeu, no seio da igreja lisbonense.

Não era preciso tanto, para o actual Bispo do Porto aceitar o Padre Mário de Oliveira, como padre, em exercício e na efectividade, da diocese do Porto. Ao invés de Jesus, não vi o Bispo do Porto em busca de um presbítero que é necessário, porque (repito: com fé pro­funda em Jesus de Nazaré) é dife­rente. Quando será que a Igreja Cató­lica se transforma em espaço de sujei­tos (ser sujeito é não sujeitar-se), cada um deles com a sua visão própria da men­sagem cristã ou jesuânica? Des­cam­ba-se assim na anarquia? Pelo contrário: mais tarde ou mais cedo, pe­la via do diálogo (ou da racionalidade comunicativa) geram-se os grandes con­sensos provenientes de princípios partilhados, porque em conjunto li­vre­mente se criticaram.

Jesus não condenou a mulher adúl­tera. Aconselhou-a tão-só a não pecar. Jesus adoptara, desde sempre, a matriz feminina da vida. E sabia que quem ama não peca. Estou a defender o a­dul­tério? Não, defendo a necessidade de aprendermos com muitas mulheres adúlteras e com todos os que são capa­zes de pôr em causa uma bafienta auto­ri­dade tradicional. Num sistema em re­de, não pode haver um centro controla­dor, mas um espírito que informe todas as coisas. Quando se lê o Evangelho, de­pressa somos forçados a concluir que é necessário reenvangelizar a Igreja, que é necessário reenvangelizarmo-nos a nós mesmos.


Igreja católica, grande seita?

L. boff (Teólogo)

Os acontecimentos ocorridos nos últimos meses dentro da Igreja Roma­na Católica fazem suscitar a questão do risco de esta assumir claramente comportamentos de seita. Bento XVI está a imprimir um curso perigoso à Igreja Católica, provocando severas críticas não apenas de teólogos, mas também de cardeais, de inteiros epis­co­pados como o da França, de grupos de bispos da Alemanha e, espantosa­men­te, de bispos da romaníssima Itá­lia, além de outros líderes religiosos e de organismos ecuménicos mundi­ais.

Desde o tempo de Cardeal, ele tem tra­tado os grupos progressistas e os teólogos da libertação à bastonada, e com pele de pelica os conservadores e tradicionalistas, seguidores do Bispo Lefèbvre, excomungado em 1988 e que à revelia de Roma ordenou bispos e padres.

O Vaticano acabou por acatar os seus seminários onde se forma o clero no rito tradicionalista. E nestes dias recentes acaba de atender mais uma de suas demandas maiores: regressar à missa em latim do Concílio de Trento (1545-1563), com todas as limitações históricas, hoje inaceitáveis. Ai se reza “pelos pérfidos judeus” para que acei­tem Jesus como Messias.

O mais grave ocorreu logo em se­gui­da com a publicação de cinco ques­­tões sobre a igreja, oriunda da Congregação para a Doutrina da Fé e aprovada pelo Papa, na qual se repete o que o então Cardeal J. Rat­zinger em 2000 enfatizava no documen­to Dominus Jesus, verdadeiro extermi­nador do futuro do ecumenismo: a única Igreja de Cristo subsiste somente na Igreja Católica, fora da qual não há sal­vação; as demais “igrejas” não o são, pois possuem apenas “elementos ecle­siais” e a Igreja Ortodoxa, tida como ­uma expressão concreta da catolicida­de, foi rebaixada a simples igreja parti­cular. Estas posições reacendem a guer­ra religiosa, quando todos estão bus­can­do a paz, cuja realização é enfra­que­ci­da pela Igreja.

A Igreja está a isolar-se mais e mais de tudo. Sua base social são principal­mente os movimentos, medíocres no pen­samento e subservientes às autori­da­des; preferem a aeróbica de Deus a confrontar-se com os problemas da po­breza e da injustiça.

Uma Igreja comporta-se como seita, segundo clássicos como Troeltsch e We­ber, quando tem a pretensão abso­lu­tis­ta de deter sozinha a verdade, qu­an­do se nega ao diálogo, rejeita o tra­ba­lho ecuménico e manifesta crescen­te autofinalização. Nesse sentido, cabe lembrar que o Vaticano não assinou em 1948 a Carta dos Direitos Huma­nos, re­cusou-se a entrar no Conselho Mun­dial de Igrejas, porque se julga aci­ma e não junto das demais Igrejas, negou-se a apoiar a convocação de um Concílio uni­versal de todos os cristãos na pers­pectiva da paz mundial, sob o pretexto de que cabe exclusivamente a Roma fazê-lo, proibiu a compra dos cartões da UNICEF destinados à infân­cia caren­te, alegando que esta entida­de favore­cia o uso de preservativos.

Ao lado disso, cresce o património imobiliário da Igreja que, segundo pes­quisas (ADISTA 2/6/07), chega a 1/5 de todo o património italiano e romano. A especulação imobiliária e financeira ren­deu ao Vaticano, entre 2004-2005, 1,47 mil milhões de Euros.

A estratégia doutrinal do actual Papa é a do confronto directo com a modernidade, num pessimismo cultural inadmissível em alguém que deveria saber que o Espírito não é monopólio da Igreja e que a salvação é oferecida a todos.

Não causaria espanto se alguns mais radicais, animados por gestos do actual Papa, tentassem um cisma na Igreja. No século IV, quase todos os bis­pos aderiram à heresia do arianismo (Cristo apenas semelhante a Deus). Foram os leigos que salvaram a Igreja, proclamando Jesus como Filho de Deus. É urgente actualizar esta história, dada a estreiteza de mente e o vazio teológico reinante nos altos escalões da Igreja.


Felicidade interna bruta

L. Boff (teólogo)

Butão é um pequeníssimo reinado hereditário nas encostas do Himalaia, entre a China, a India e o Tibet. Não tem mais que dois milhões de habitan­tes, cuja maior cidade é a capital Timfú com cerca de cinquenta mil moradores. Dentro de poucos anos está ameaçado de quase desaparecer, caso os lagos do Himalaia que se estão enchendo pelo degelo transvasem avassaladoramente. Governado por um rei e por um monge que possui quase a autoridade real, é con­­siderado um dos menores e menos desenvolvidos países do mundo. Contu­do, é uma sociedade extrema­mente in­te­grada, patriarcal e matriarcal simulta­nea­mente, sendo que o membro mais in­fluente transforma-se em chefe de fa­mília.

Butão possui algo único no mundo e que todos os países deveriam imitar: o “indice de felicidade interna bruta”. Para o rei e o monge governante o que conta em primeiro lugar não é o Produto Interno Bruto medido por todas as rique­zas materiais e serviços que um país ostenta, mas a Felicidade Interna Bruta, resultado das políticas públicas, da boa governação, da equitativa distribuição da renda que resulta dos excedentes da agricultura de subsistência, da cria­ção de animais, da extração vegetal e da venda de energia à Índia, da ausên­cia de corrupção, da garantia geral de uma educação e saúde de qualidade, com estradas transitáveis nos vales fér­teis e nas altas montanhas, mas especi­al­mente fruto das relações sociais de cooperação e de paz entre todos. Isso não chegou a evitar conflitos com o Ne­pal, mas não tem desviado o propósito humanístico do reinado. A economia que no mundo globalizado é o bezerro de ouro, comparece como um dos items no conjunto dos factores a serem con­si­de­rados.

Por detrás deste projecto político funciona uma imagem multidimensional do ser humano. Supõe o ser humano como um nó de relações orientado em todas as direções, que possui sim fome de pão como todos os seres vivos, mas principalmente fome de comunicação, de convivência e de paz que não po­de ser comprada no mercado ou na bolsa.

Função de um governo é atender à vida da população na multiplicidade das suas dimensões. O seu fruto é a paz. Na inigualável compreensão que a Carta da Terra elaborou da paz, esta “é a plenitude que resulta das relações correctas consigo mesmo, com outras pessoas, com outras culturas, com ou­tras vidas, com a Terra e com o Todo maior do qual somos parte”(IV, f).

A felicidade e a paz não são cons­truídas pelas riquezas materiais e pe­las parafernálias que a nossa civiliza­ção materialista e pobre nos apresenta. No ser humano ela vê apenas o produ­tor e o consumidor. O resto não lhe in­te­res­sa. Por isso temos tantos ricos de­sesperados, jovens de famílias abasta­das que se suicidam, por não verem mais sentido na superabundância. A lei do sistema dominante é: quem não tem, quer ter, que tem, quer ter mais, quem tem mais diz: nunca é suficiente. Esque­ce­mos que o que nos traz felicidade é o relacionamento humano, a amizade, o amor, a generosidade, a compaixão e o respeito, realidades que valem, mas não têm preço. O dramático está em que esta civilização humanamente po­bre está a dar cabo do Planeta no afã de ganhar mais, quando o esforço seria o de viver em harmonia com a natureza e com os demais seres humanos.

Butão nos dá um belo exemplo des­ta possibilidade. Sábia foi a observação de um pobre de nossas comunidades que comentou: "Aquele homem é tão pobre, mas tão pobre, que tem apenas dinheiro. E é notoriamente infeliz".


A pedagogia fascista

Rui Manuel Grácio das Neves op (Teólogo)

1. Há anos, desde pequeno, que vivo fora de Portugal. De maneira que, sempre que passo algum tempo em Lis­boa, procuro estar com muita atenção a tudo o que acontece por estas terras. Sem querer, a gente compara, mede, pesa... e analisa! Gosto de fazer socio­logia do quotidiano, observando o dia-a-dia, o que acontece nas ruas e com as pessoas. Gosto também de ver as mon­tras das livrarias, mas reconheço que o faço ultimamente cada vez mais por cima. Mas, das últimas vezes, cha­mou-me mui­to a atenção ver à venda uns livros de leitura da primeira, segun­da, terceira e quarta classes... “de an­tes”! Mesmo do tempo da Dita-dura sala­zarista! Interroguei-me então porque é que estes livros ainda se vendiam e con­ti­­nua­­vam a figurar nas montras. Su­posta­men­te, a Dita-dura passou (?). O próprio livreiro disse-me, todo contente, que es­ta­vam a vender-se bastante... (Como quem diz: “Aquilo é que eram li­vros de escola!”). Ao princípio, não os comprei. Mas, aos poucos, foi-me en­trando o “bichi­nho” da curiosidade, a­que­le “bichinho” que levava a recordar a­queles tempos de ensino de criança. (Quando acabei a quarta-classe e o exa­me aos liceus, já estava a viver em Espanha). Talvez pudesse encontrar nes­ses livros alguma coisa de interes­sante que explicasse a minha infância...

2. Uma das últimas vezes que estive em Lisboa, a penúltima, em 2006, deci­di finalmente fazer um estudo mais a sé­rio, um estudo pedagógico, analisan­do esses livros. O objectivo era mais so­ciológico, o que poderíamos incluir den­tro de estudos formais de sociologia do conhecimento. A pergunta da investi­ga­ção pessoal era: como aparecia a ideologia fascista nuns livros de texto tão aparentemente inocentes, escritos para crianças de seis, sete, oito ou nove anos? Noutras palavras, como é que nos “educaram” (ou nos “amestraram”), como é que foram “fazendo a nossa cabeça” (como dizem no Brasil) para que a Dita-dura nos parecera algo de normal e até po­sitivo? Como nos incutiram os “valo­res” fascistas na nossa vida? Com estas perguntas, fui à Biblioteca Nacional do Palácio das Galveias e pedi os livros es­colares que lá tinham. Dediquei-me então a “estudar” principalmente “O Li­vro da Primeira Classe”. Mas também li pa­cientemente “O Livro da Segunda Classe” e no ano seguinte comprei até “O Livro da Terceira Classe” (pois tinha conservado “O Livro da Quarta Classe”). Trabalhei toda a série! A seguir, faço os meus comentários ao “O Livro da Pri­meira Classe”.

3. Chamou-me imediatamente a a­ten­ção a Bandeira Nacional logo na pri­meira página. Fica bem claro, desde o princípio, o sentido nacionalista (ou me­lhor, patrioteiro) que o ensino das pri­mei­ras letras tinha. Também aparecia a imagem da Igreja logo ao princípio. Era interessante observar a clareza dos objectivos pretendidos, sem mensagens subliminares, especificamente. E apare­cia uma imagem de uma Família, possi­vel­mente a família ideal portuguesa. Um bocadinho mais à frente lá esta­va o Mar, a recordar a vocação marítima “do nos­so grande Portugal” e a pôr o acento so­bre o aspecto produtivo essencial da­queles anos: a agricultura. Isto ficava muito presente ao longo de todas as pá­ginas. Para além de uma presença abundante de Natureza no texto (que até poderia parecer positivo...), estava a questão de que Portugal, ainda nos anos quarenta (e mais tarde, pois o livro era o mesmo quando estudei nos anos sessenta) não era um país in­dustrial, mas agrícola (porquê?). E não podia faltar também logo uma gra­vu­ra da Mocidade Portuguesa! Es­ta­vam dados assim os eixos sociais em que se apoiava ideologicamente a Dita-dura. Inclusive, na página 30, a­parecia um rotundo “Viva Carmona” e, pouco depois, na página 34, um “Vi­va Salazar”. Eram os rostos, as fi­sio­no­mias, as “pedras fundamentais” do sis­tema político que se tratava de le­gitimar, desde a mais tenra infân­cia.

4. Também era interessante ob­ser­var o papel ideológico que a Re­ligião representava aqui. Por exem­plo, no mês de Maio aparecem uma série de meninas (não há meninos!), a rezar, de joelhos. Será que a religi­ão era só para meninas? Aqui vemos a religião combinada com o sexismo, tema este último bastante presente ao longo de todos os textos da Primá­ria. É “curiosa” também a imagem de Nossa Senhora e de um menino, am­bos loiros (o “branco” como a imagem perfeita para apresentar a Divindade). Isto poderia fazer-nos entrar numa in­te­ressante análise de modelos co­mu­ni­ca­tivos que se pretendem mos­trar, que aqui só sublinhamos. Mais à frente (p.59), volta outra vez esta as­sociação de “pele branca” com as ima­gens religiosas apresentadas (“O Carlinhos era uma linda criança de cabelos louros e olhos azuis”. Por is­so a avozinha podia rezar: “Meu Je­sus! Protegei e abençoai o meu meni­no. Fazei-o como o pai, obediente à Vossa lei, bom para si e útil à Pátria”). In­siste-se numa religião (o catolicis­mo) muito sentimental, sem perguntas de fundo. Por exemplo, há que auxi­liar os companheiros, há que visitar os doentes, há que ajudar os pobres (aparecem várias vezes, mas nunca há uma pergunta do tipo: “Porque é que existem pobres?”. Supõe-se que isso é resultado do Destino ou da Von­tade de Deus, que no fundo apa­re­cem aqui como sendo a mesma coi­sa: fatalismo). Também vem a justifica­ção religiosa do Poder: “É Deus quem nos manda respeitar os superiores e obe­decer às autoridades”, diz-se na pá­gina 75. Excelente! A Religião ao serviço do Poder! O racismo unido à religião apa­rece nesta bela definição do que se­­re­mos quando formos mais grandes: “- E eu, disse a Clarinha, gostava de ser missionária, ir para muito longe en­sinar a doutrina aos pretinhos” (p. 85). Ou seja, a visão da religião apoiando o poder colonial: “pacificação” (“doutri­na”) das mentes dos “pretinhos”, para que sejam obedientes às autoridades, sobretudo às coloniais... Unida à ideia da Religião aparece a do respeito abso­luto à Ordem Estabelecida: “Os traba­lhos hão de correr bem durante a se­ma­na, porque toda a gente respeitou o dia do Senhor” (p.88). Respeitar a ins­ti­tuição religiosa é cumprir a Vontade de Deus e ter êxito no resto da vida. Uma vez mais, ser obedientes às Autori­dades estabelecidas (e Deus é a pri­meira delas!), à Lei, às Normas, aos Deveres, ao Estado, à Igreja... Assim tudo irá bem... para o Sistema! Até aparece o que poderíamos definir “A Oração do Fascismo”: “Abençoai, Se­nhor, a Vossa Igreja, a nossa Pátria, os nossos Governantes, as nossas fa­mílias e todas as escolas de Portugal”(p. 93). Será isto tão diferente do que acon­tece hoje, na época dita “democrática”?    

5. Há algumas “pérolas políticas” que não podem deixar de ser citadas: “Perguntei à senhora professora quem tinha feito tanto bem à nossa escola e ela respondeu-me: -Foi o Estado Novo, que gosta muito das crianças e para elas tem mandado fazer escolas e can­tinas, creches e parques. Mas as famí­lias que possam também devem ajudar. Não te esqueças de o dizer à tua mãe” (p. 69). Sem comentários!

6. E também “pérolas económicas” importantes: “O seu a seu dono. Nunca devemos ficar com o que não nos per­ten­ce” (p. 73). Isso mesmo! É preciso co­meçar logo, desde pequen@s, a res­peitar a sagrada propriedade privada!

7. O sexismo está claramente pre­sente em todos os textos. Por exemplo, nas imagens: as meninas só aparecem com bonecas. Como quem diz, as bo­ne­cas são para as meninas, que devem aprender já de pequenas quais serão as suas actividades futuras... Como esta, da perfeita “dona de casa”: “Emilita é muito esperta e desembaraça­da e gosta de ajudar a mãe. -Minha mãe. Já sei varrer a cozinha, arrumar as cadeiras e limpar o pó. Deixe-me pôr hoje a mesa para o jantar. - Está bem, minha filha. Quando fores grande, hás de ser boa dona de casa” (p.55). Por aqui já se vê qual é o ideal de uma boa mulher e esposa, além de “esper­ta”, para o futuro! Mostra-se também que uma boa menina é uma menina de “bom coração”, que ajuda as com­pa­nheiras pobrezinhas. (Como sempre, aparecem muitos pobres ao longo do texto, e sempre há que ajudá-los, mas nunca há uma simples pergunta: por­que é que existem os pobres?). Há tam­bém uma permanente mitificação senti­mental das “mãezinhas”, e do papel que significam a nível educativo familiar. No texto seguinte, vemos o modelo de famí­lia da época fascista: “- Mãezinha, já pode tirar a sopa. O Paizinho vem aí. - Vem muito cansado, Paizinho? - Sim, tra­balhei muito e venho cansado. Mas pensava em vós e dizia comigo: - É pa­ra os meus filhos que eu trabalho. Deus me ajude a criá-los” (p.61). O con­texto deste texto é precisamente o mun­do rural (Portugal como um país feudal). O trabalho da “mãezinha” é na casa e na cozinha. Pergunta: “Para quem tra­balha realmente o Paizinho”? Os filhos só têm que obedecer aos pais (e às Au­toridades). Assim, tudo funciona per­fei­tamente no mundo corporativo do sa­la­zarismo. Até aqui O Livro da Pri­mei­ra Classe.

8. O Livro da Segunda Classe conti­nua nesta mesma linha. Há referências explícitas ao Estado Novo, que mandou construir escolas (p.25). Afirma-se que a Colectividade “é organizada e dirigi­da pelo Estado, que coordena e asse­gura o livre exercício de todas as acti­vi­dades necessárias à vida da Na­ção”(p. 39). (Claro que aqui se levan­tam algumas perguntas: O que é que se entende por “livre” exercício? De onde lhe vem ao Estado a legitimidade para organizar e dirigir a “Colectivi­dade”? Quem lhe deu esta missão?) Neste Livro da Segunda Classe há mais textos literários e uma selecção for­temente nacionalista dos textos, para fazer entrar nas cabeças e corações, já desde pequenin@s, a assim cha­ma­da “Cultura Portuguesa”, a visão nacio­nalista-corporativista da Dita-dura sala­zarista. Conclusão: Acho que estes tex­tos citados não necessitam de muito mais comentário político. São suficien­te­mente claros para ser entendidos por si mesmos. Deixo à inteligência do lei­tor/a o trabalho de identificar interior­men­te todas estas questões na sua pró­pria educação, tanto escolar como fami­liar, e de perguntar-se a si própri@ co­mo é que conseguiu superar esta visão educativa (se é que realmente a su­peramos, claro...).

Nagpur (Índia), 17.08.07.


Necrocombustíveis

Vamos alimentar carros e desnutrir pessoas?

Frei Betto op (teólogo)

O prefixo grego bio significa vida; necro, morte. O combustível extraído  de plantas traz vida? No meu tempo de escola primária, a história do Brasil dividia-se em ciclos: pau-brasil, ouro, cana, café etc. A classificação não é de todo insensata. Agora estamos em pleno ciclo dos agrocombustíveis, incor­rec­tamente chamados de biocombustí­veis.

Este novo ciclo provoca o aumento dos preços dos alimentos, já denuncia­do por Fidel Castro [ver Fraternizar n.º 166]. Estudo da OCDE e da FAO, divul­ga­do a 4 de Julho, indica que “os bio­com­bustíveis terão forte impacto na agricultura entre 2007 e 2016.” Os pre­ços agrícolas ficarão acima da média dos últimos dez anos. Os grãos deverão custar de 20% a 50% mais. No Brasil, a população pagou três vezes mais pelos alimentos no primeiro semestre deste ano, se comparado ao mesmo período de 2006.

Vamos alimentar carros e desnutrir pessoas. Há 800 milhões de veículos au­tomotores no mundo. O mesmo nú­me­ro de pessoas sobrevive em desnu­tri­ção crónica. O que inquieta é que ne­nhum dos governos entusiasmados com os agrocombustíveis questiona o mo­delo de transporte individual, como se os lucros da indústria automobilís­tica fossem intocáveis.

Os preços dos alimentos já sobem em ritmo acelerado na Europa, na Chi­na, na Índia e nos EUA. A agflação – a inflação dos produtos agrícolas – deve chegar, este ano, a 4% nos EUA, com­parada ao aumento de 2,5% em 2006. Lá, como o milho está quase todo desti­nado à produção de etanol, o preço do frango subiu 30% nos últimos doze meses. E o leite deve subir 14% este ano. Na Europa, a manteiga já está 40% mais cara. No México, houve mobi­lização popular contra o aumento de 60% no preço das tortillas, feitas de mi­lho.

O etanol made in USA, produzido a partir do milho, fez dobrar o preço deste grão em um ano. Não que os ian­ques gostem tanto de milho (excepto pi­po­ca). Porém, o milho é componente essencial na ração de suínos, bovinos e aves, o que eleva o custo de criação desses animais, encarecendo deriva­dos como carne, leite, manteiga e ovos.

Como hoje quem manda é o mer­ca­do, acontece nos EUA o que se repro­duz no Brasil com a cana: os produtores de soja, algodão e outros bens agríco­las abandonam seus cultivos tradicio­nais pelo novo “ouro” agrícola: o milho lá, a cana aqui. Isso repercute-se nos pre­ços da soja, do algodão e de toda a cadeia alimentar, considerando que os EUA são responsáveis por metade da exportação mundial de grãos.

Nos EUA, já há lobbies de produto­res de bovinos, suínos, caprinos e aves pres­sionando o Congresso para que se reduza o subsídio aos produtores de etanol. Preferem que se importe eta­nol do Brasil, à base de cana, de modo a evitar-se ainda mais a alta do preço da ração.

A desnutrição ameaça, hoje, 52,4 mi­lhões de latino-americanos e caribe­nhos, 10% da população do Continen­te. Com a expansão das áreas de culti­vo votadas à produção de etanol, cor­re-se o risco dele se transformar, de facto, em necrocombustível – predador de vidas humanas.

No Brasil, o governo já puniu, este ano, fazendas cujos canaviais dependi­am de trabalho escravo. E tudo indica que a expansão dessa lavoura no Su­des­te empurrará a produção de soja Amazónia adentro, provocando o des­ma­tamento de uma região que já per­deu, em área florestal, o equivalen­te ao território de 14 estados de Ala­goas.

A produção de cana no Brasil é his­to­ricamente conhecida pela superex­plo­ra­ção do trabalho, destruição do meio ambiente e apropriação indevida de recursos públicos. As usinas se ca­ra­cterizam pela concentração de terras para o monocultivo voltado à exporta­ção. Utilizam em geral mão-de-obra mi­grante, os bóias-frias, sem direitos tra­ba­lhis­tas regulamentados. Os trabalha­do­res são (mal) remunerados pela quan­tidade de cana cortada, e não pelo número de horas trabalhadas. E ainda assim não têm controle sobre a pesa­gem do que produzem.

Alguns chegam a cortar, obrigados, 15 toneladas por dia. Tamanho esforço causa sérios problemas de saúde, co­mo caibras e tendinites, afectando a coluna e os pés. A maioria das contra­tações dá-se por intermediários (traba­lho terceirizado) ou “gatos”, arre­gi­men­ta­dores de trabalho escravo ou semi-escravo. Após 1850, um escravo costu­mava trabalhar no corte de cana por 15 a 20 anos. Hoje, o trabalho excessi­vo reduziu este tempo médio para 12 anos.

O entusiasmo de Bush e Lula pelo etanol faz com que usineiros alagoanos e paulistas disputem, palmo a palmo, cada pedaço de terra do Triângulo Mi­neiro. Segundo o repórter Amaury Ribeiro Jr, em menos de quatro anos, 300 mil hectares de cana foram planta­dos em antigas áreas de pastagens e de agricultura. A instalação de uma de­zena de usinas novas, próximas a Ube­raba, gerou a criação de 10 mil empre­gos e fez a produção de álcool em Mi­nas saltar de 630 milhões de litros em 2003 para 1,7 bilhão este ano.

A migração de mão-de-obra des­qua­lifi­ca­da rumo aos canaviais – 20 mil bóias-frias por ano - produz, além do au­mento de favelas, o de assassinatos, tráfico de drogas, comércio de crianças e de adolescentes destinados à prosti­tui­ção.

O governo brasileiro precisa livrar-se da sua síndrome de Colosso (a fa­mo­sa tela de Goya). Antes de transfor­mar o país num imenso canavial e so­nhar com a energia atómica, deveria priorizar fontes de energia alternativa abundantes no Brasil, como hidráulica, solar e eólica. E cuidar de alimentar os sofridos famintos, antes de enrique­cer os “heróicos” usineiros.


Violência e agressão

Frei Betto op (Teólogo)

Friedrick Hacker (1914-1989), psi­quia­tra norte-americano, analisou com propriedade as raízes da violência que impera neste mundo globocolonizado que se ajoelha reverente ao deus Mer­cado. A agressividade é própria da na­tu­re­za animal, incluída a espécie huma­na. Denota o nosso espírito de sobrevi­vência. Frente a determinadas circuns­tân­cias, cada um é agressivo ao seu modo: ironia, humor, astúcia, desprezo, presunção etc. Violência é quando se rompe a barreira da alteridade e a for­ça física se impõe sobre o mais frágil ou indefeso e como reação ao agressor.

Quase nunca entendemos como vio­lenta a acção que atinge o outro, excepto quando nós somos as vítimas. Se a polícia cerca, na saída de um ci­nema, o nosso grupo de amigos e exi­ge que fiquemos todos de mãos na pa­rede e pernas abertas, enquanto nos revista, consideraremos uma violência. Se do alto da janela do apartamento vemos a mesma cena, com a diferença de que os detidos são jovens da perife­ria, admitimos que a polícia cumpre o seu dever. Sentimos mesmo certo alívio por saber-nos protegidos pelo Estado que, sustentado por nossos impostos, nos oferece segurança.

Se um dos amigos protesta pelo modo como está sendo apalpado e re­ce­be em resposta um empurrão, fica pa­tente a violência. Para a polícia, em nenhum momento houve violência. Jul­ga apenas que cumpre o seu dever. É o caso do pai que, ao retornar do tra­balho, descobre que o filho mais velho bateu no mais novo. Para dar-lhe uma lição de que nunca deve bater em al­guém mais fraco do que ele, o pai dá uma surra no mais velho. Sem nenhu­ma consciência de que pratica exactamente o que recriminou. É essa contra­dição entre o discurso sobre a educa­ção e os métodos aplicados que dissemina o comportamento violento.

Por que o mesmo acto cometido por um é repreensível e, por outro é, legítimo? Esse pai jamais se conside­rará violento. Se questionado, dirá ape­nas que é seu dever educar.

Esta a estrutura em que a violência se apoia: é sempre praticada, como se fosse acto de justiça, legitimada por uma razão superior, seja o Deus dos cruzados ou dos fundamentalistas; a defesa da propriedade privada; o libe­ralismo do Mercado; os deveres de uma boa educação etc.

A violência é a mais primária forma de manifestação da agressão. Toda a es­trutura da sociedade, com suas leis e instituições, contém boa dose de a­gres­sividade, assim como a disciplina que os pais impõem à boa educação dos filhos. Ela favorece a nossa convi­vência social e reprime nossas tendên­cias auto-destrutivas. O melhor exem­plo de agressividade sem violência é o desporto.

Já a violência é rasteira, cruel, re­petitiva, o que permite à polícia iden­tificar o modus operandi [o modo de agir] de criminosos, pois ela se propa­ga sem a menor criatividade, excepto os equipamentos bélicos concebidos para torná-la mais e mais brutal e mas­siva. Para saber lidar com a agressi­vidade é preciso certo refinamento de espírito. Já a violência é burra, não exi­ge educação, está ao alcance de qual­quer um.

O mais grave é que nos acostuma­mos à prática da violência. Covardes, não ousamos usar as próprias mãos, mas aplaudimos quando a polícia es­pan­ca o bandido; a lei retroage a idade penal; o plebiscito liberaliza o comércio de armas; o Estado decreta a pena de morte etc. Sem nos darmos conta de que nos deixamos dominar pela parte mais primária de nosso cérebro, lá on­de se aloja o réptil que nos precede na escala evolutiva e do qual somos tri­butários.

Se uma sociedade perde a sen­sibilidade à violência e ignora o limite que deve perdurar entre ela e a agres­si­vidade, isso aquece o caldo de cultu­ra do autoritarismo. O sentimento de hu­milhação que a Primeira Guerra im­pôs ao povo alemão favoreceu a ascen­são do “vingativo” Hitler. A derrota de Bush pai no Iraque, em 1991, impeliu boa parte da opinião pública dos EUA a apoiar, em 2003, o filho disposto a “la­var a honra”.

Ninguém é capaz de atacar o seu semelhante, a menos que produza, en­tre si e ele, a dessemelhança. Assim, o homem bate na mulher por conside­rá-la imbecil; o branco agride o negro por encará-lo como inferior; a grande na­ção decreta guerra à pequena que se nega a abrir mão de sua soberania; o líder popular passa a ser demonizado pelos media, de modo a deslegitimar a causa que defende. Essa postura dis­tan­cia, desculpabiliza, abre caminho à violência como legítima e até legal.

Não convém erradicar a agressivi­dade própria do humano e que nos im­pele a alcançar metas e conquistas. O desafio é fazer a distinção ensinada por Hacker e criar uma cultura baseada no mais primordial paradigma da alteri­da­de, que tem a sua origem nAquele que, radicalmente diferente de nós, nos criou à sua imagem e semelhança.


“Rejeitei a Fé!”

Outras Cartas

Pombal. António Marques: Proble­mas de doença (acabei por ter de me prender irremediavelmente à máquina dialítica, provavelmente porque me tra­maram os deuses em que não acredi­to…) têm-me impedido de resolver o a­tra­so no pagamento da minha assina­tu­ra do Fraternizar. Por isso só agora lhe envio o cheque, no valor de…, que tanto pode servir para a assinatura de “apoio” como para dirigir o excedente ao Barracão de Cultura.

Apesar de me considerar “cristão que não crê em Deus”, como há dias ouvi dizer Eduardo Sá, num progra­ma da Antena 1, muito gosto teria em po­der fre­quentar esse Barracão, e es­tou em crer que, se viesse a reacreditar, se­ria no Deus em que Vocês aí, no Fra­terni­zar, acreditam. Seja como for, dá-me bem para estar convosco, mes­mo com o V/ Cristo (ou o V/ Jesus?), pres­cindin­do, é claro, da sua divinda­de…

Neste número 166 do Fraternizar, encontrei dois tópicos que chamaram especialmente a minha atenção. Um, é o texto de Eduardo Galeano, p.12. E porquê? Precisamente porque estou a traduzir (e com que prazer) um dos seus livros: Memoria del Fuego 1 – Los Na­cimientos, para a pequena editora do meu filho Pedro Marques: Livros de Areia. Espero tê-lo pronto a ser publi­cado por todo este ano. Assim a máqui­na (a carroça dia-sim-dia-não) mo per­mita… O outro, são as perguntas (as questões) de Manuel Sérgio, p. 15. Ques­tões que ele por sua vez adopta de Hans Jonas: “Que Deus é este que pôde deixar fazer isto? Será que Deus é mesmo Pai? Ou, sendo Pai, será que Deus é mesmo omnipotente? Como acre­­ditar que um Pai permita tão cruen­tos sacrifícios aos seus filhos? A fé em Jesus Cristo resolve este problema?” E porquê estas questões me tocam as­sim tanto? Precisamente porque foram elas que me atiraram fora da fé. Assim: ten­do-as eu feito a mim próprio quando ainda tinha fé, ouvi dos meus botões uma profunda convicção que nunca mais esmoreceu, pelo contrário, só se tem tornado mais forte, mais… convicta. É uma reflexão silogística elaborada muito pouco depois de ter abandonado o sacerdócio, de me ter despadrado (sim, porque fui eu que me despa­drei…).

Com efeito, perante a trágica si­tua­ção em que se me apresentava o mundo (cada vez mais se apresenta!) – a es­ma­gadora maioria dos seres humanos, incluindo os milhões de cri­anças ino­centes e os outros milhões de inocentes que não são crianças, morrem de fome, de miséria, de injus­tiça, de violência, etc, etc – perante es­ta trágica situação generalizada, globalizada, não é possí­vel haver Deus, haver um deus omnipo­ten­te, omnisciente, omnibondoso, o­mni­mise­ricordioso, assistindo, a partir de uma qualquer galáxia, a todo este de­pri­mente espectáculo e deixá-lo con­ti­nuar e mesmo agravar-se!... E a con­clu­são do silogismo é dilemática: ou deus não existe, ou deus é um brinca­lhão inqu­a­li­fi­cável. Rejeitei a fé! E nun­ca mais tive medo de morrer! De so­frer, sim, te­nho um medo pânico, ape­nas mi­ti­gado pela certeza de que é assim a na­tureza que nos pariu, como a nature­za que pariu os gorilas e todos os ou­tros seres animados ou inanima­dos… mais ou menos inteligentes…

Por isso, de Hans Jonas, através de Manuel Sérgio, adopto as pergun­tas (questões), mas não as respostas/reflexões da coluna lateral, poéticas, talvez muito místicas ao contrário… A não ser que transforme a frase inicial de todas, dando-lhe forma negativa: “Não creio no Deus que…”, ou “Não pos­so acreditar no Deus que…”.

Com um grande abraço e alguma es­perança na sua/vossa “missão profé­tica” que, para mim tem apenas o sen­tido de “previsão analítica de que é ca­paz a inteligência humana pela sua cla­rividência sincera e corajosa”.

N.D.

Meu caro A. Marques: É mui­to corajosa a sua carta. Fico con­­ten­te com semelhante confis­são. Só mesmo uma publicação como o Fraternizar poderia tê-la susci­tado e aqui congratular-se publi­ca­mente com ela. Entre­tanto, não deixa de ser curioso que a outras pessoas que leram este mesmo n.º 166, tocou-as sobretudo o tex­to de Frei Betto, “Um novo Cre­­do”, que o A. Mar­ques, ob­via­­men­te, só aceitaria, se formula­do na negativa. Acom­panho-o nas perguntas que for­mu­la, não nas conclusões a que tão convicta­men­te chega. Poderei até dizer-te que se Deus não fos­se, como fe­lizmente é o Gran­de Mistério que se nos revela na medida em que se nos escon­de, eu teria mui­ta dificuldade em crer nEle. É por Deus se nos revelar como o Grande Pre­sente ausente e o Grande Ausente presente, que eu creio nEle. Um Deus demasia­do visível e inter­veniente na His­tória, que nos sub­stituísse; que impedisse a nossa liberdade; que desencade­as­se um dilúvio ou um tsunami, sempre que a Maldade Hu­mana so­be de tom e leva mi­lhões e mi­lhões de inocentes a so­frer es­tupidamente; que dificul­tas­se/obstaculizasse o nosso cres­­­ci­mento individual e colecti­vo; que nos tratasse como meno­res e saísse a terreiro para nos cas­tigar, sempre que temos compor­tamentos cainíticos para com os nossos semelhantes e a Natu­reza; que continuasse a conduzir so­zinho o processo evolutivo da Criação, em lugar de progressi­va­mente o confiar, depois que fi­­nal­mente aparecemos na Histó­ria, à nossa liberdade e à nossa responsabilidade – é um risco, mas só assim é que é possível cri­ar criadores como Ele e com Ele, filhas e filhos adultos, em lugar de súbditos assustados e es­cravos – seria um ídolo com tudo de pai tirano, ao jeito dos an­tigos faraós do Egipto. Só um Deus, como o que se nos revela no viver do próprio Jesus, total­mente ausência e totalmente si­lên­cio (“meu Deus, meu Deus, por­­que me abandonaste?”) e, ao mes­mo tempo, totalmente presen­ça e totalmente Acolhimento (“Pai, nas tuas mãos entrego o meu Futuro”); só um Deus que aceita diminuir e como que desa­parecer na História, para que os seres humanos cresçamos em liberdade/responsabilidade e em protagonismo é que é credível. E tanto mais, quanto, em lugar de nos esmagar a toda a hora e mo­mento, como os antigos fa­raós, consegue misteriosamente vi­ver mais íntimo a nós do que nós próprios, ao ponto de pare­cer que nem existe, para que e­xis­tamos nós. Fosse Deus como o A. Marques e tantos outros a­teus hoje parecem reclamar e só Ele existiria, não nós. Ou nós, também, mas como seus es­cravos aterrorizados, como súb­di­tos, co­mo menores.

Não deixo de reconhecer, con­sigo, que está a ser difícil fa­zer de nós todos, filhas, filhos adul­tos de Deus. Mas não é a Deus que havemos de pedir con­tas! Por­que essa é precisamente a gran­de apos­ta de Deus. É aos se­res humanos. Deus, não só não é o cul­pado, como é até o pri­meiro a sair-nos continuamen­te ao ca­minho (“eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, eu en­­­trarei na sua casa e cearei com ele e ele comigo”, Ap 3, 20), com a iniludível pergunta/in­terpe­lação, capaz, só por si, se for es­cutada/acolhida, de sus­citar liberdades humanas histori­ca­mente respon­sá­veis, sororais e solidá­ri­as: “On­de está o teu ir­mão? Que fizeste do teu ir­mão?” (Géne­sis 4). E não só. Tam­bém com o Cha­mamento (“Moi­sés, Moisés! Eu vi a opressão do meu povo, ouvi o seu clamor, conheço os seus so­frimentos”), o Envio (“Vai… En­vio-te ao fa­raó”) e a Missão de ca­da qual (“Faz sair do Egipto o meu povo!”, Êxodo 3).

Porque have­mos de culpar Deus, quando, afinal, somos nós, muitos de nós e com a cumplici­dade de (quase) todos, que recu­samos crescer em sororidade/fra­ternidade e em comunhão so­li­dá­ria e não damos ocasião a Deus de ser Deus em nós e con­nosco, co­mo Jesus, o ser huma­no por an­to­nomásia, fe­liz­mente deu, e de modo ininter­rupto?!

Em lugar de continuar­mos a culpar Deus, porque não nos da­mos ao trabalho de bus­car/en­contrar dentro da História os responsáveis concretos e as cau­sas concretas de tanto Mal e de tan­to sofrimento de inocentes?


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