Textos do
Jornal Fraternizar

Edição nº 166 deJulho/Setembro 2007

DESTAQUE 1

Paganismo católico regressa a São João de Ver

Com a morte, há um ano atrás, do Padre Caetano que foi pároco de S. João de Ver, pode dizer-se que morreu também naquela freguesia do concelho de Santa Maria da Feira um modelo outro de Igreja, perseverantemente implementado e praticado por ele, ao longo de mais de 30 anos, e que indubitavelmente tinha muito mais a ver com o Concílio Vaticano II e com o Evangelho de Jesus, do que com o Catolicismo religioso-pagão, infelizmente ainda hoje em vigor na generalidade das nossas paróquias católicas romanas. O novo pároco, Padre António Pinto da Costa, de 40 anos de idade, que fez questão de só tomar posse da paróquia depois da morte do Padre Caetano, parece que nem pode ouvir falar no nome do seu antecessor e mostra-se apostado em correr com todos os paroquianos que activamente fizeram Igreja com ele, nomeadamente, os catequistas mais preparados e mais maduros na Fé, e que, desde então, de modo algum estão dispostos a desistir daquele modelo conciliar de Igreja que, na década de sessenta do século passado, o próprio Espírito Santo quis que fosse acolhido e assumido por toda a Igreja católica romana. E não é que neste seu cego empenho em fazer regressar a evangelizada paróquia de S. João de Ver ao tradicional catolicismo religioso-pagão e aos cultos em honra dos seus alienantes e fúteis deuses e deusas, o novo pároco conta com o incondicional apoio da Diocese do Porto, enquanto que os amigos e companheiros do agora definitivamente ressuscitado Padre Caetano são completamente votados ao ostracismo? Jornal Fraternizar passou por aquela freguesia do concelho de Santa Maria da Feira, ouviu pessoas, e pode testemunhar que, nesta altura, a “guerra” do novo pároco contra os amigos e companheiros, elas e eles, do Padre Caetano está ao rubro, o que leva muitos deles a chorar de tristeza e de impotência e, os mais fragilizados, a ter até de recorrer a especialistas em psiquiatria para assim conseguirem superar depressões e outros distúrbios graves de saúde. O que perfaz um crime de lesa-Fé cristã católica e de lesa-Igreja que urge denunciar, combater e, sobretudo, ajudar a superar.

Muito provavelmente, o novo pá­ro­co nem será o principal responsável pela grave situação que, logo de en­trada, acabou por criar e teimosamente mantém entre a população da fregue­sia, para gáudio de todos aqueles resi­dentes que, durante o longo mandato do Pe. Caetano, nunca se deixaram e­van­gelizar por ele e sempre lhe mo­veram uma guerra sem quartel, ora surda, ora declarada. Muito provavel­mente, o novo pároco acaba por ser uma vítima mais duma Igreja católica romana que, apesar de ter visto acon­tecer no seu seio o Concílio Vaticano II, ainda não foi capaz, nomeadamente ao nível da sua hierarquia, de se lhe abrir de par em par e de o pôr alegre­mente em prática.

O Concílio quis ser e foi na Igreja um novo Pentecostes que deveria re­fun­dá-la de raiz e fazê-la passar do ca­tolicismo pagão do Império romano ao Cristianismo de Jesus, o de Nazaré, do qual ela, numa traição pior do que a de Judas, ostensivamente se afastou, quando, no início do século IV, se ali­ou ao imperador Constantino e, de­pois, aceitou transformar-se na religião oficial e única de todo o Império. Fo­ram 16 séculos de Cristandade que, du­ma assentada, deveriam ter sido se­pul­tados no Concílio Vaticano II, para que em seu lugar nascesse o modelo de Igreja comunidade de comunida­des, Igreja-Povo-de-Deus, de irmãs/ir­mãos, radicalmente iguais e diferen­tes, inteiramente ocupada, toda ela, no serviço maiêutico à Humanidade, de resto, o único tipo de culto que a­gra­da a Deus, o de Jesus.

O problema é que nem a Cúria romana aceitou essa revolução coper­ni­cana concretizada, pelo menos, ao nível dos documentos aprovados no Concílio Vaticano II, com destaque pa­ra a Constituição Lumen Gentium, que o Espírito Santo fez acontecer no in­te­rior da velha Igreja católica, numa altura em que até o mundo civil, feliz­mente cada vez mais autónomo e secu­lar, já desacreditava dela por completo e a via mais como objecto de museu do que como Igreja viva e interveniente na História.

Ora, se nem a Cúria romana, com o papa à cabeça e os cardeais das di­fe­rentes Congregações, fez a páscoa ou passagem do Catolicismo religioso-pagão ao Cristianismo de Jesus, pelo contrário, tudo tem feito, desde o Con­cí­lio para cá, para prolongar no tempo o velho modelo de Igreja Cristandade, é então (quase) inevitável que os no­vos padres, como o Pe. António Costa, formados neste contexto eclesiástico anti-Vaticano II, se comportem sobretu­do como sacerdotes pagãos ao jeito da velha Cristandade e, por isso, em lu­gar de se assumirem como presbí­te­ros da Igreja na imprescindível mis­são de evangelizar as populações, a tempo e fora de tempo, limitam-se pra­ti­camente a fazer-lhes todas as suas vontades, a satisfazer-lhes todas as suas vaidades e a alimentar-lhes todos os seus vícios religioso-pagãos.

E quem é que ainda não sabe que as nossas populações, de tradição ca­tó­lica, são todas naturalmente religio­so-pagãs? Do que elas gostam não é de Jesus nem da Boa Notícia de Deus que ele nos trouxe e por causa da qual foi crucificado pelo Império romano, a pedido dos sacerdotes do seu tempo e país, muito menos gostam de Deus Mãe/Pai que Jesus nos revelou medi­ante práticas radicalmente libertado­ras, igualitárias, sororais/fraternas e po­liticamente transformadoras do mun­do e da vida. Do que as popula­ções gostam é de religião nos santuá­rios; de fazer promessas e de as cum­prir de forma ostensiva; de sacrifícios, os mais aberrantes; de peregrinações aos santuários de nomeada; de pagar missas rotineiras pelos seus mortos, todas bem distantes de quaisquer prá­ti­cas solidárias; de caridadezinha em lugar de Justiça social; de zelar altares de imagens mortas de santos e san­tas; de gastar dinheiro em flores caras para enfeitar altares e andores que de­pois levam a passear pelas ruas e ca­minhos da terra; de afrontar os po­bres e humilhados da terra com o es­toiro dos foguetes das suas vaidades e da sua ostentação. Do que as popu­la­ções gostam é dos deuses e das deu­sas imaginados por elas, com os quais iludem os seus medos, as suas me­diocridades, as suas alienações e os seus grandes e pequenos vícios, e também os seus egoísmos e as suas am­bições desmedidas.

Um Deus, como o de Jesus, que “puxe” por elas, que as faça nascer de novo, do Espírito, que as meta no mundo e na História, que faça delas po­pulações com causas, que as retire do sagrado e as meta até aos ossos no profano, comprometidas até ao san­gue na transformação do mundo, é manifestamente impopular, e conta­rá sempre com poucos adoradores en­tre as populações católicas romanas. Desde que a Humanidade é humani­dade, Deus Vivo, anunciado e revelado pelos seus profetas, particularmente por Jesus e pelos pobres da Terra, nun­ca pôde contar com muitos adora­dores entre elas. As populações sem­pre preferem correr para os deuses e as deusas dos cultos do Paganismo e relacionar-se com eles e com elas, como quem faz negócio, em dias, ho­ras e locais especiais, exclusivamente destinados a esse fim. A religião das po­pulações resume-se a isso, ao lon­go de cada ano. E, em cada novo ano, tu­do se repete como nos anos anterio­res. Sempre nos mesmos dias do mês, nos mes­mos locais, com os mesmos ritos, num ciclo de natureza que não pode ser quebrado, não vão os deuses e as deusas zangarem-se e cuspirem toda a sua fúria contra elas.

Os párocos católicos que as po­pu­lações das freguesias, particular­men­te das aldeias do interior, ainda não dispensam existem, no entender delas, para garantirem e alimentarem este tipo de coisas religioso-pagãs. Elas não esperam deles outra coisa, outro serviço. O que mais querem é que eles sejam sacerdotes, na continui­dade dos sacerdotes do Paganismo religioso, que presidam a todos os seus cultos religiosos. De modo algum, as populações estão dispostas a tole­rar que os párocos sejam verdadeiros presbíteros da Igreja, com a missão prio­ritária e quase exclusiva de lhes anunciar o Evangelho de Jesus, a Boa Notícia de Deus Vivo que, segundo o dizer-revelar de Jesus - que veio dire­ctamente do seu seio e por isso sabe bem do que fala - não gosta nada des­tas coisas próprias do religioso-pa­gão, mas só de misericórdia, de per­dão, de justiça, de partilha dos bens, de política que transforme e humanize o mundo e, sobretudo, gosta de ver cada pessoa, cada população, cada terra, cada povo crescer em estatura, em idade, em sabedoria e em graça, até sermos capazes de assumir as nos­sas próprias vidas como se Ele não exis­tisse. Em suma, o que as popula­ções mais querem é que os párocos se­jam os sacerdotes sempre à mão de semear para o seu Catolicismo religio­so-pagão, para os seus cultos públicos sempre os mesmos. Nem sequer que­rem que eles exerçam uma profissão se­cular, da qual vivam como os de­mais cidadãos. E estão, até, dispostas a pagar-lhes o que for preciso – hoje, os novos párocos exigem salários de executivo e carros de grande cilindrada para poderem correr, como baratas ton­tas à roda da chama duma vela, du­ma paróquia para outra, já que são párocos de duas, três, quatro, cinco ou mais paróquias, uma verdadeira lou­cura eclesiástica, a que nenhum bis­po diocesano se atreve a pôr cobro! – nem que, para isso, tenham de pri­var-se dos bens essenciais à sua pró­pria subsistência e à dos seus filhos e filhas. Pode-lhes faltar o pão para a boca e os estudos para os filhos, a casa digna e saudável para a família viver, os cuidados com a saúde dos membros da sua família, mas o que de modo algum pode faltar são os cul­tos nos tem­plos e os sacerdotes bem pagos que a eles presidam. O medo é assim. E o medo dos deuses e deu­sas é mil vezes pior. É gerador de pos­tu­ras irracionais que as sociedades es­tranhamente suportam e até estimu­lam, em nome da liberdade religiosa! E medo, muito medo, é o que continua por aí a fazer girar o mundo das popu­la­ções e a mantê-las em movimento, mas sempre como escravas acorrenta­das dos deuses e das deusas, nunca como filhas, filhos adultos de Deus, res­ponsáveis pelo mundo e pela His­tória.

O Pe. Caetano, pároco de S. João de Ver, durante 33 longos anos, tentou e conseguiu, em grande parte, ser pres­bí­tero da Igreja, mais do que sa­cer­dote do catolicismo religioso-pagão que se pratica por essas paróquias ca­tó­licas romanas além. Formou consci­ên­cias. Fez crescer as pessoas em lu­ci­dez e em dignidade. Promoveu a ci­da­dania da Fé cristã jesuânica entre os seus concidadãos, concidadãs. Não cuidou do templo de pedra, mas do templo vivo que é cada baptizado/crismado. Foi parteiro de mulheres e ho­mens novos, audazes, metidos no mundo, nos sindicatos, nos partidos po­líticos, nas associações de base, nas associações de pais/mães. Combateu o bom combate, na linha inaugurada e consumada por Je­sus. Evangelizou as populações e foi evangelizado por elas, sobretudo pelos jovens, que nun­ca deixaram que ele se fossilizasse, mesmo quando os anos já lhe pesa­vam. Numa palavra, levou longe a sua au­dácia no interior da Igreja do Porto e pagou o preço, pois com isso granje­ou para ele o distanciamento da hie­rar­quia, inclusive do bispo da diocese e de alguns colegas no presbiterado, entre os quais o que veio a ser nomea­do seu sucessor na paróquia. E tam­bém de uma parcela da popula­ção da freguesia que não lhe perdoou por ele lhe dar o Evangelho de Jesus, em lu­gar de foguetes e vaidades de todo o tipo.

Ao contrário dele, o pároco Antó­nio Costa que lhe sucedeu há um ano e que está manifestamente empenha­do em apagar a memória dele e tudo o que possa perpetuar o seu nome e a sua influência evangélica entre a po­pulação, tem já o mundo a seus pés, a começar pelos que mais combateram a acção pastoral do Pe. Caetano e a culminar na cúria da diocese, bispo incluído.

Aos cristãos de S. João de Ver, elas e eles, que cresceram na Fé jesu­â­nica, graças ao ministério presbiteral do Pe. Caetano cabe, agora, a difícil missão de levarem por diante a Igreja conciliar que ele tão bem entendeu e procurou fazer acontecer entre a população da freguesia. Sem sectaris­mos estéreis, mas também sem cedên­cias, numa busca ininterrupta de diálo­go que não dispensa a saudável con­fronta­ção de pontos de vista e de proje­ctos. Alimentem-se do Evangelho e do Espírito de Jesus, em redor de mesas partilhadas, acompanhadas, sempre que possível, de comidas sororais/fra­ter­nas. Sempre de olhos postos e ouvi­dos e pés no mundo, na sociedade, nas alegrias e nas esperanças, nas dores e nas angústias das populações, mais do que no que o actual pároco António Costa possa fazer e dizer, ou deixar de fazer e de dizer. Até que também ele, finalmente, se converta ao Evange­lho de Jesus e aos pobres. E passe a viver longe dos templos e dos altares, como presbítero da Igreja do Porto.


Querido Padre Caetano

Conheço-te desde que fui pároco de Paredes de Viadores, no Concelho de Marco de Canaveses, a paróquia que me foi confiada, logo após ter sido expulso de capelão militar da Guerra Colonial, na Guiné-Bissau. Tu residias e trabalhavas no vizinho Concelho de Baião. Dirigias então um pequeno jornal regional que incomodava certas consciências adormecidas e certas vidas demasiado acomodadas, entre as quais as vidas de alguns clérigos da região. Depressa, soubeste de mim e do Espírito evangelizador que me animava. E, enquanto uma significativa parte dos meus colegas párocos  do concelho começaram logo a hostilizar-me, devido à minha alegria e à minha liberdade no exercício do ministério presbiteral, totalmente gratuito e solidário com os mais pobres e bem centrado no Evangelho de Jesus que, como presbíteros da Igreja, haveremos de anunciar, oportuna e inoportunamente, tu, pelo contrário, fizeste-te logo próximo de mim e até me convidaste a escrever regularmente no jornal que dirigias, o que passei a fazer com muito gosto. Graças a ti, passei também a ter acesso a notícias e a iniciativas então proibidas e clandestinas. Conheci músicas e canções que a Pide e a Censura não toleravam. E sempre tive em ti um companheiro e um irmão que me apoiava e estimulava a permanecer fiel ao Espírito de Deus e ao Evangelho de Jesus. Tornaste-te desde então uma referência na minha vida, uma luz que nunca mais deixou de brilhar e de me acompanhar, mesmo depois que fui obrigado pelo Administrador Apostólico da Diocese a deixar a paróquia, ao fim de apenas 14 meses. Já então eras um padre/presbítero saudavelmente secular, mais longe dos templos e dos altares do que metido na sacristia, um especialista nos assuntos do Mundo, particularmente dos empobrecidos, dos humilhados, dos Ninguém, dos Sem-Terra e Sem-Futuro. Algumas das jovens da minha paróquia de Paredes de Viadores chegaram a frequentar com proveito a OBER, Obra do Bem-Estar Rural que ajudaste a fundar no Concelho de Baião e que dinamizaste de forma libertadora, não paternalista, e nunca mais o futuro delas foi igual. Felizmente.

Mais tarde, já como pároco de São João de Ver, e eu como pároco de Macieira da Lixa, e depois de, nessa qualidade, ter sido preso pela Pide e julgado-absolvido no Tribunal Plenário do Porto, ainda tiveste a audácia de me convidar para pregar na tua paróquia, mais propriamente, na cripta da igreja paroquial ainda longe de estar concluída. Não mostravas pressa em prosseguir as obras da construção do templo. Toda a tua preocupação ia para o desenvolvimento integral das populações. O que mais desejavas era que elas abrissem os olhos da consciência e que entendessem/transformassem o mundo em que um dia haviam nascido. Aceitei com grande alegria o convite e vivi então contigo cerca de uma semana na casa paroquial. A pregação tinha lugar à noite, depois do jantar e, durante uma parte do dia, eu andava de lugar em lugar a ouvir as pessoas e, na outra parte, recolhia-me num lugar solitário a escutar e a escrever o que o Espírito queria que eu pregasse. Foram pregações arrojadas, naqueles tempos de censura e de medos, de liberdade vigiada e de denúncias pidescas, com muitas centenas de pessoas que vinham propositadamente de muitas freguesias das redondezas, não apenas de São João de Ver. Tais pregações valeram-me, então, da parte do Bispo da diocese, D. António Ferreira Gomes, um inesperado inquérito diocesano, em tudo semelhante aos que a Pide me havia feito antes da prisão política, para apurar a ortodoxia de algumas das minhas afirmações; e, depois, na sequência dos resultados apurados, a proibição do Bispo de eu pregar fora da paróquia, a não ser com expressa autorização dele, pedida por escrito, caso a caso! E tudo, tu aguentaste em comunhão comigo, com audácia e com solidariedade inquebrantáveis. Tornamo-nos ainda mais irmãos e companheiros, centrados no essencial que é o Evangelho de Jesus. E, quando, já depois de ter sido retirada a paróquia de Macieira da Lixa e de ter sido "promovido" à actual situação de padre sem ofício pastoral, avancei com a criação do Jornal Fraternizar, foste dos primeiros a querer que ele fosse vendido na tua paróquia, à saída da missa dominical.

Agora que já integras aquela incontável multidão de pessoas definitivamente vivas, no Deus de Jesus que é de vivos e não de mortos, choras, certamente, ao constatar que o teu sucessor na paróquia está a destruir por completo o que tu edificaste com tanto suor e lágrimas. E que vais fazer?


DESTAQUE 2

Há “detractores de Fátima”?

Depois do último 13 de Maio, o director da Voz Portucalense escreveu um "Editorial" a convidar "os detractores de Fátima" a rever as suas posições. O director do Jornal FRATERNIZAR leu e comentou no seu sítio na internet. É esse comentário do Pe. Mário, que também atinge o actual Bispo Manuel Clemente, que aqui se publica como Destaque 2. A reflexão, por demais oportuna, já fazia falta. Porque há católicas, católicos que felizmente não crêem em Fátima, nem vão com a sua senhora/deusa e nem sequer os Bispos das respectivas dioceses parecem ter isso em conta. Leiam e meditem. Comentem, se quiserem.

“Admitamos que nem sempre se pautam pelo equilíbrio as manifes­ta­ções de fé que ali se evidenciam. Mas os detractores do fenómeno de Fátima necessitam de rever as suas posições. E sobretudo ler os sinais dos tempos, à luz da fé, da interpretação dos fenó­menos sociológicos e de uma neces­sária busca do sentido profético dos acontecimentos. E sobretudo, com o olhar da humildade intelectual e com a abertura de coração ao sentido do mis­tério”. É com estas palavras que ter­mina o “Editorial” intitulado “Religiosi­dades” da edição de 16 de Maio 2007 do se­ma­nário da Diocese do Porto, VP Voz Portucalense, assinado pelo respe­ctivo director.

O que mais me leva aqui a falar/protestar acerca do teor deste Editorial é o rótulo de “detractores” com que M. C. F. mimoseia os críticos e os des­crentes do fenómeno de Fátima. E tam­bém o facto de, no corpo do seu texto, se referir por duas vezes ao que ele chama “a manifestação de Maria”, a pro­pósito do que se diz ter ocorrido no dia 13 de Maio de 1917 na paró­quia de Fátima.

Li o texto e todo eu estremeci por dentro de indignação com estas posi­ções. Porque trata-se de um órgão ofi­cioso da Igreja do Porto que, de algum modo, reflecte posições oficiais/institu­cionais da Diocese. De resto, todas elas directa ou indirectamente avaliza­das pelo próprio Bispo Manuel Cle­men­­te que, neste momento, preside a esta nossa Igreja local, concretamente, ao participar com assumida visibilida­de nas cerimónias do último 13 de Maio em Fátima, juntamente com ou­tros bis­pos portugueses e estrangeiros, sem, em momento algum, ter querido saber para nada dos seus irmãos católicos, das suas irmãs católicas que – e nal­guns casos é público e notório – de modo algum se revêem quer na­quelas afirmações do Editorial, quer nas postu­ras fatimistas do Bispo. E que, em nome da Fé cristã católica que professam e vivem, se recusam convi­ctamente a crer no tão badalado fenó­meno de Fátima, sem que, entretanto, a sua pertença à Igreja católica e a sua Fé cristã católica saiam minima­mente beliscadas, muito pelo contrário.

Toda a gente minimamente infor­ma­da sabe hoje que o fenómeno de Fá­tima não faz parte da Fé cristã cató­lica, muito menos, da Fé cristã jesuâni­ca, que há-de ser a Fé da Igreja discí­pula de Jesus, o de Nazaré. Aliás, é a própria hierarquia da Igreja católica quem publicamente já o reconhece e confessa. O problema é que, depois, como se vê por este exemplo, ai da­que­les membros da Igreja católica que não alinharem em toda esta manifesta­ção pública de religiosidade e até se permitirem criticá-la publicamente. Cai o Carmo e a Trindade. São, como aqui se constata, rotulados de “detracto­res”, senão mesmo de outras coisas muito mais feias.

Ora, como é que uma manifesta­ção de religiosidade popular que não faz parte do núcleo central da Fé cristã católica passa, de repente, a ser o indi­cador mais decisivo de quem, pelo me­nos, em Portugal é católico ou não? Não é isto um desvario? Não estamos perante uma situação patológica? Não mostra que somos uma Igreja grave­mente enferma e em estado de peca­do? E que estamos a tornar-nos numa Igreja esquizofrénica? Dar tanto valor ao que não presta, ao que é acessório, em detrimento do que é essencial, é pas­toralmente saudável? Não é ir a re­bo­que da religiosidade popular, em lu­gar de, oportuna e inoportunamente, evangelizarmos as populações ainda em estado de paganismo religioso, e de que o fenómeno de Fátima entre nós é a manifestação mais consegui­da? Será que já esquecemos que as po­pulações e os povos são natural­mente religiosos, isto é, naturalmente pagãos? E não foram a religião e os re­­ligiosos que mataram Jesus, consti­tuído por Deus Vivo pela sua Ressur­reição dos mortos como o Caminho a Verdade e a Vida de todos os seres humanos, crentes ou não? E porque o mataram? Não foi porque percebe­ram que ele não só não canonizou o paganismo religioso que se faz nos santuá­rios, desde que a humanidade é huma­nidade, como até o denunciou como via de perversão humana? Ir a reboque do fenómeno de Fátima, só porque ele movimenta multidões de pessoas e milhões de euros por ano para os co­fres dos gestores do san­tuário é um correcto comportamento pastoral? Al­guma vez o paganismo re­ligioso foi ca­minho de libertação e de salvação da Humanidade? Alguma vez foi via de saúde das pessoas e dos po­vos? Não é a perversão dos seres humanos e do santo Nome de Deus? Esquecemo-nos de que Jesus veio com a Boa No­tícia de Deus e que não é pela via do paganismo religioso que os seres hu­ma­nos hão-de ir, se quise­rem crescer em saúde, em sabedoria e em graça?, isto é, se quiserem cres­cer em humani­da­de, em sororidade/fraternidade e em protagonismo social e político? Como Igreja, discípula de Jesus, podemos ir a reboque do paga­nismo religioso que as multidões não evangelizadas insis­tem em praticar ao seu jeito e segundo usos e costumes dos antepassados? Não temos, ao contrário, de lhe resistir e de ousar viver e anunciar a alterna­tiva libertadora que é a via paradigma­ticamente vivida e anunciada por Jesus, o Cristo de Deus e dos pobres? Não é para viver e anun­ciar esta via de Jesus que o Espírito Santo surpreendentemente nos convo­cou e constituiu como Igreja no mundo entre as populações e nos enviou em missão a todos os po­vos? Deixarmos as populações e os po­vos entregues à sua religiosidade pagã, ao seu paganis­mo religioso, sem audá­cia para lhes anun­ciarmos o Evan­ge­lho de Deus que Jesus nos deu a conhecer com a sua prática e a sua pa­la­vra é postura digna da Igreja que somos? Se nos limitamos a ir a reboque das populações e dos povos natural­mente religiosos e pagãos, o que faze­mos de extraordinário? Não é o que sempre fizeram os sacerdotes de todos os tempos e culturas, como os sacer­dotes de Baal, no tempo do pro­feta Eli­as e os sacerdotes do tempo do após­tolo Paulo? Não foi o que fez também o próprio sacerdote Aarão, no deserto, durante a prolongada ausência de Moi­sés no Monte Sinai?

Por mim, gostaria de ver o director do semanário oficioso da Igreja do Por­to a questionar-se e a questionar a Igreja que está no Porto sobre o fenó­meno de Fátima, nomeadamente, sobre o que o último 13 de Maio de 2007 pôs a nu. O que poderá significar toda a­que­la gente em Fátima? E todo o cres­­cente envolvimento de certos cató­licos, jovens incluídos, em torno de Fáti­ma? Cerca de meio milhão de pessoas em Fátima é motivo de satisfação pas­toral, ou motivo de preocupação pas­toral? Afinal, se nos mostramos satisfei­tos com o paganismo religioso de Fáti­ma, o que fazemos de extraordinário como Igreja cristã católica em Portugal? A verdade é que chegamos ao des­plan­te de dizer, desde o cardeal Cere­jei­ra e com ele, que não foi a Igreja que impôs Fátima às populações e aos povos do mundo, foi Fátima que se impôs à Igreja; e dizemos isto com sa­tisfação. Não de­ve­ríamos, antes, cons­tatar o facto com vergonha? Aceitar semelhante facto como exemplar não é reconhecer que vamos a reboque do paganismo reli­gio­so das populações e dos povos? Mas se fosse para irmos a reboque do paganismo religioso das populações e dos povos, acham que o Es­pí­rito San­to nos convocava e constituía como Igreja em nome de Jesus o Crucificado pelos sacerdotes e pelo san­tuário de Jerusalém, já então convertido em covil de ladrões? Acham, sobretudo, que o Espírito Santo teria feito acontecer Jesus no meio de nós e connosco? Se o Espírito Santo convo­cou e constituiu a Igreja, não é para que ela passe a anunciar oportuna e inoportunamente outra via, concreta­men­te a via de Je­sus, às populações e aos povos natu­ral­mente seguidores do paganismo re­li­gioso que herdaram dos antepassa­dos? Poderá haver na Igreja que se reúne em nome de Jesus e em sua sub­versiva e conspirativa me­mória quem tenha dúvidas a este res­peito?

Saibam que correr para Fátima é mais do mesmo, dentro do paganismo religioso, é desviar-se perigosamente do Evangelho de Deus, da Boa Notícia de Deus que Jesus, o de Nazaré, fez presente entre nós e connosco com a sua prática libertadora e sanadora e com a sua palavra cheia de sabedoria e de Espírito Santo. Quem disser o con­trário mente.

Porém, o que sabemos, desde o início do Cristianismo de Jesus, é que semelhante Boa Notícia de Deus não foi acolhida nem pela maioria dos seus concidadãos, nem pela generalidade dos povos. E ainda hoje continua a não ser acolhida! As populações e os povos são naturalmente pagãos, têm uma ideia e uma concepção de Deus à sua medida e à medida dos seus interesses e não suportam no seu meio a pre­sença de mensageiros que os convi­dem a passar do Deus dos seus ante­passados para o Deus de Jesus. De Deus, as popula­ções e os povos pen­sam que sabem tudo. Nisso, são como os seus antepas­sados. E não podem ouvir dizer que alguém vive e anuncia outro Deus dife­rente do deles, esse mesmo que já os pais deles e os pais dos pais deles sempre reconheceram e adoraram.

Acontece que este é um Deus ído­lo que os escraviza e lhes exige sa­cri­fícios sem conta, peregrinações umas a seguir a outras, os animais e os pró­prios filhos como sacrifícios muitas ve­zes cruentos, o dinheiro e, finalmen­te, as próprias vidas. E tudo elas e eles, as populações e os povos, dão aos sa­cerdotes sem regatear, só para que o seu Deus ídolo lhes seja favorável, pro­teja os seus gados e as suas semen­teiras e colheitas, as suas casas e os seus negócios, nem que seja com re­curso a “milagres” arrancados à custa do seu muito pedir, dia e noite, do seu muito rezar, do seu muito repetir as mesmas fórmulas.

É por isso que Jesus, o de Nazaré, começou a sua missão por anunciar a Boa Notícia de Deus contra a Má Notícia de Deus que as populações e os povos conheciam e viviam, desde que a hu­manidade é humanidade, e que trans­mitiam de pais para filhos, de geração em geração. E logo acrescenta aquele apelo tão difícil de acatar e de realizar: “Convertam-se! E acolham esta Boa Notícia”.

Só que no nosso moralismo reli­gioso-pagão, próprio do Deus ídolo, sempre entendemos aquele “Conver­tam-se!” de Jesus como sinónimo de passarmos a frequentar mais assidua­mente os cultos no templo, a multiplicar as orações e os sacrifícios, as visitas aos santuários, as promessas e os ritos. Somos naturalmente pagãos e pensa­mos que converter-se é passar a ser­mos um bocadinho mais religiosos dentro do paganismo religioso que be­be­mos no leite materno e no ambiente em que nascemos, para que Deus ídolo passe a ser-nos mais favorável.

Estamos redondamente engana­dos. E, se as Igrejas não no-lo dizem, não são Igrejas na peugada de Jesus, são Igrejas na peugada dos sacerdotes das religiões do paganismo que o ma­ta­ram e continuam a matar, isto é, a impedir que ele e a via em que ele foi cons­tituído por Deus, com a sua res­surreição dos mortos, nos façam nascer de novo, do Alto, do Espírito Santo.

Pois bem, aquele “Convertam-se!”, com que Jesus nos sai ao caminho, no início da sua missão de Evangelho vivo de Deus Criador no meio de nós, faz apelo a uma mudança radical. É o mes­mo que dizer: Mudem de Deus! Aban­do­nem de vez o Deus Má Notícia do paganismo religioso com que os sacer­dotes vos enganam, mediante os seus cultos de rotina, sempre os mesmos, e acolham o Deus Boa Notícia que eu vos anuncio e que conheço como ninguém, porque venho da sua intimidade. Por outras palavras: Deixem Deus Criador ser Deus Criador em vós e convosco e vereis que mudareis também radical­mente de vida: Deixareis os cultos e os sacrifícios, as promessas e os medos, os templos e os sacerdotes e mergulhareis no mundo e na História, sereis criadores com Deus Criador, passareis a ocupar-vos da Terra e a cuidar dela e do vosso bem-estar pessoal e cole­ctivo. Crescereis em humanidade e em fraternidade/sororidade, em cultura e em consciência crítica, em protagonis­mo social e político e em política, até alcançardes a maioridade de filhas, fi­lhos de Deus no mundo e para o mun­do.

Era por aqui que eu gostava de ver ir o director do semanário da Dio­cese do Porto. E o seu bispo Manuel Clemente. Pelos vistos, preferem um e outro meter-se no atoleiro do paganis­mo religioso que Fátima é desde o princípio. São sacerdotes do Deus ídolo e da deusa de Fátima, o ídolo maior. Não são Igreja, discípula de Jesus. Ba­ralham tudo. Constroem um Cristianis­mo religioso, típico do paganismo re­ligioso. E só isso explica que no seu Editorial o director da Voz Portucalense chegue a falar em “manifestação de Ma­ria”, a propósito do fenómeno de Fá­tima. A baralhação é tanta, que ele confunde Maria, mulher de carne e osso, em tudo igual à mãe de qualquer de nós, e que morreu há cerca de dois mil anos, com a mítica deusa dos cultos do paganismo religioso, puro símbolo poético sem corpo e sem realidade histórica. Chega ao desplante de a pôr, dois mil anos depois dela ter morrido, a manifestar-se em Fátima a três crianças, vergonhosamente tolhidas e aterrorizadas por catequeses moralistas e terroristas dos padres da Missão e do livro Missão Abreviada que era lido em suas casas à noite, à luz da vela. Semelhante baralhação é um insulto à nossa inteligência de seres humanos do século XXI, felizmente cada vez mais informada pela Ciência. E constitui uma humilhação sem nome, porque nos retira toda a iniciativa política e nos reduz a castigados pagadores de promessas, um ano após outro, de um 13 de Maio a outro 13 de Maio, até que a morte nos torne invisíveis aos olhos, definitivamente viventes no Vi­vente Jesus que Deus Vivo ressuscitou dos mortos, e de quem Maria, sua mãe carnal, também já comunga para sem­pre, não para agora andar por aí a apa­recer e a manifestar-se, mas para tra­balhar com o Deus Vivo na transfor­mação da vida e da História.

É público e notório que eu não a­cre­dito em Fátima. Mas saibam que nem por isso deixo de ser presbítero da Igreja católica que está no Porto. Bem pelo contrário, sou-o ainda mais do que aqueles que acreditam nessa treta, nessa mentira. Por isso dói-me ver o bispo da Igreja do Porto – o meu bispo – a tomar tão abertamente po­sição ao lado de Fátima e da sua men­tira. Sem respeito por mim e pelos ou­tros irmãos, pelas outras irmãs católicos que já não vamos nesse tipo de cristia­nis­mo pagão religioso. Como bispo, de­­veria manter-se equidistante e ocu­par-se inteiramente no anúncio do E­van­­gelho ou Boa Notícia de Deus, o de Jesus. Ainda confio que um dia, não muito remoto, isto sucederá na nossa Igreja do Porto. E, por tabela, na Igreja católica em todo o mundo, a começar por Roma. Acreditem: É por aqui que também vai Maria, a de Jesus, que, co­mo tenho dito e redito, não tem nada a ver com a mítica senhora de Fátima, deusa cruel que se agrada com a humi­lha­ção das populações e dos povos.



EDITORIAL

Políticos dos povos,

ou executivos do Kapital?

Que país seremos, depois destes próximos seis meses em que o primei­ro-ministro José Sócrates - cegamen­te levado ao colo por uma maioria ab­so­luta socialista totalmente domestica­da, anestesiada e instalada nos privilé­gios que o Poder absoluto sempre ga­rante aos seus incondicionais fiéis - vai ter de ser sobretudo o presidente da União Europeia? Ainda seremos um país onde dê gosto viver? Ou apenas um aborto de país, totalmente à mercê de máfias sem escrúpulos e incapaz de se erguer sobre os seus próprios pés, por isso, em tudo semelhante à­que­le paralítico do Evangelho de João (cap. 5) que há 38 anos jazia, impotente e imobilizado, junto da piscina de cinco pórticos em Jerusalém? E o que será a Europa dos 27, no final desta presi­dên­cia portu­guesa de Sócrates, por coin­cidência, em parce­ria com o nosso Durão Barroso - esse mesmo que ven­deu a alma ao diabo (Di­­nheiro), ao a­poiar com entusiasmo a Guerra do Ira­que e que logo a seguir deixou o país entregue à famigerada dupla Paulo Por­tas/Santana Lopes, para se poder tornar no actual presidente da Comis­são Europeia? Será que a so­ma de tan­ta mediocridade e de tanta irresponsabi­lidade pode resultar em algo de bom para Portugal e para os povos do velho Continente? Ou funcio­na­ como o golpe final de uma tragé­dia que atingirá to­dos os povos europeus, hoje, demasia­do adormeci­dos, alienados, instalados nos seus e­goís­mos e nos prazeres de mo­mento, con­frangedoramente esva­zia­dos de pro­jectos com Espírito, o mesmo é dizer projectos com dimen­sões verdadeira­men­te ecuménicas, à escala da Huma­ni­da­de e do universo? E a Igreja que es­tá em Portugal e na Europa, como vai comportar-se duran­te este período da presidência portu­guesa da União Eu­ropeia? Chegará, ao menos, a dar-se conta do facto, ou, pelo contrário, pros­seguirá, como até aqui, entretida nos seus cultos sem cul­tura, nos seus ritos religiosos sem pro­fe­cia e nas suas catequeses moralistas sem Evangelho de Jesus?

Por mim, bem gostava de poder a­nun­ciar aqui boas notícias para o nos­so país e para os povos da União Eu­ro­peia. Mas, infelizmente, tudo nos diz que a tragédia em que já estamos mer­gulhados irá subir de tom e o clamor dos povos conhecerá novas dimensões de dor e de angústia. Estamos a ser governados por executivos ao serviço das multinacionais em lugar de políticos profissionais ao serviço dos povos. E quando os políticos se convertem em executivos, os povos que se cuidem, por­que uma desgraça nunca vem só.

De que adianta votarmos em elei­ções, se, depois, quem nos sai na rifa para governar os nossos destinos naci­o­nais e continentais adopta a postura de viver de cócoras perante os senho­res do Dinheiro e, por vezes, nem se­quer cuida que aos respectivos povos cheguem, ao menos, algumas migalhas da opulência dos ricos, pelo contrário, tudo faz para que a sua opulência seja cada vez maior e cada vez mais inso­lente? Não é verdade que hoje, muito mais do que no passado, são os do Di­­nheiro que, por sinal, nunca vão a elei­ções, quem manda no mundo, atra­vés dos governos-executivos de cada país?

O grande Kapital gosta de estabi­lidade e de condições de segurança. E nunca olha a meios para assegurar uma e outra nos diferentes países. Ele sabe que a instabilidade social impede a sua acumulação nas mãos de poucos. E, quando fala em segurança, não é no bem-estar dos povos que está a pensar. É sempre e só na sua própria segurança, para mais e melhor se po­der reproduzir.

Ora, quanto mais o grande Kapital se reproduz, mais se reproduz também a pobreza estrutural e se multiplica o número dos empobrecidos. Falar de es­ta­bilidade e de segurança do grande Kapital é falar de instabilidade e de insegurança dos povos. É por isso que nunca como hoje os povos da Europa são aliciados ao consumismo, não só de produtos essenciais em excesso, mas sobretudo de produtos supérfluos, de luxo, em detrimento da partilha e da solidariedade. Nunca como hoje os povos são aliciados a dar a sua presen­ça nos grandes estádios de futebol, onde as competições entre clubes ha­bilmente transformados em SADs são cada vez mais sofisticadas e mais aguer­ridas. E também nunca como hoje a ofer­ta de produtos de lazer e de prazer foi tão grande, tão premente e tão mas­si­ficada. É preciso que os povos, nome­a­damente, as suas parcelas mais es­co­la­rizadas e mais ilustradas, não te­nham nem tempo nem disponibilida­de interior para reflectir e para analisar o que se passa à sua volta e no mundo. Tudo está programado para fazer de nós povos nutridos, estressados, inin­ter­ruptamente ocupa­dos com mediocri­da­des e superfi­cia­li­dades.

É de povos assim que o grande Ka­pital carece para poder levar por di­ante o seu projecto de descriar os se­res humanos, numa concorrência de­mo­níaca com o Espírito Criador de Deus Vivo, sempre apostado em fazer de nós suas filhas, seus filhos em esta­do de maioridade e de liberdade, pro­ta­go­nis­tas na História, sujeitos e donos dos pró­prios destinos. O grande Kapi­tal, ao contrário, aposta tudo na descri­a­ção dos seres humanos e é isso o que está hoje a fazer na Europa e no Oci­den­te em geral, enquanto mantém na miséria imerecida e na humilhação a es­­maga­dora maioria dos povos do res­to do mun­do.

Semelhante acto descriador seria impossível sem a cooperação lacaia e incondicional dos políticos profissionais que foram eleitos pelos povos para or­gani­za­rem a economia e a sociedade de mo­do a todos poderem ver satisfei­tas as suas reais necessidades, sem a exclusão de ninguém, mas que, depois, uma vez eleitos, logo se passam com armas e bagagens, isto é, com todo o seu saber, todo o seu dinamismo e toda a sua generosidade para o campo do grande Kapital, como seus executivos de luxo, atentos e reverentes. Recebem em troca benesses sem conta, enquan­to os povos que os elegeram ficam obs­cenamente de mãos a abanar e, quase sempre anestesiados com contínuas over­doses de religião e de futebol e de múltiplas outras iniciativas sem Es­pírito, destinadas a desmobilizá-los das lutas e dos combates.

Longe vão os tempos das insurrei­ções dos povos e das revoluções pací­ficas ou mesmo violentas. Bem sei que, pelo menos, as revoluções violentas tra­­ziam, enquanto decorriam, ainda mais sofrimento para os povos mais fra­gilizados e mais incapacitados, mas ti­nham também o condão de dificultar a ânsia de sucesso ao grande Kapital e obriga­vam-no a recuar e a fazer cer­tas cedências aos direitos dos povos que, de outra ma­neira, nunca teriam ocorrido na His­tó­ria e que hoje já não ocorrem, bem pelo contrário, são-lhes até sistematicamen­te rou­bados, um após outro, sem que os povos revelem já se­quer capacidade para se organi­za­­rem e reagirem, de tão anestesiados, divididos, domesticados, enfraquecidos e entre­tidos que estão com novelas e futebóis, religiões e outras ninharias que tais. A situação dos povos é tal, que já nem sequer lhes passa pela ca­be­ça reagir e defender-se. Limitam-se a carpir a sua situação em certos telejornais, como se alguma vez o grande Kapital e os governos dos países que funcionam como seus executivos tivessem entranhas de humanidade, fossem capazes de mudar de rumo, converter-se aos povos e à Política, concebida como a arte de fazer os povos felizes.

A situação hoje seria outra, muito outra se sempre tivesse havido em Por­tugal e na Europa dos 27 Igrejas cris­tãs jesuâ­nicas, unha e carne com os seus po­vos, em especial com os povos mais empobrecidos e humilhados, sem voz nem vez. Elas desencadeariam en­tre eles e com eles a mesma acção cons­­cienci­ali­za­dora e libertadora que Je­sus desen­cadeou entre e com o povo do seu país, exemplarmente represen­ta­do no homem que jazia há 38 anos (quase uma vida!) junto da piscina com cinco pórticos (alusão aos cinco Livros bíblicos da Lei, ou Pentateuco), a vítima maior da ideologia religiosa e legalista dos sacerdotes do Templo de Jerusa­lém que colocavam interessei­ra­mente Deus, o do Templo e da Lei, acima dos seres humanos, dos povos, senão mes­mo contra os povos. Como se a glória de Deus consistisse em diminuir os se­res humanos e os povos e não, co­mo efe­ctivamente consiste, em fazer com que eles cresçam no mundo e na Histó­ria, como se Deus não existisse.

Vosso  companheiro e irmão, Mário,

presbítero da Igreja do Porto.


ESPAÇO ABERTO

O que se impõe de imediato

é uma revolução energética

Por Fidel Castro (Cuba)

Jornal Fraternizar teve acesso a este texto de Fidel de Castro, datado de 30 de Abril 2007. A sua tradução para português encontra-se em http://resistir.info/. O Comandante cubano continua a falar de revolução. Agora, duma revolução energética. O Império quer transformar alimentos em biocombustíveis para as máquinas. Não se importa que os povos morram à fome. As máquinas é que não podem passar sem combustível. Ninguém deixe de ler e de reflectir. Oportuníssimo.

Nada tenho contra o Brasil. Para não poucos brasileiros, sobre os quais não cessam de martelar argumentos num sentido ou noutro, capazes de con­fundir pessoas tradicionalmente ami­gas de Cuba, pareceríamos desman­cha-prazeres que não se importariam em prejudicar a entrada líquida de moe­da exterior nesse país. Guardar silên­cio seria para mim optar entre a ideia de uma tragédia mundial e um suposto benefício para o povo dessa grande nação.

Não vou culpar Lula nem os brasi­leiros pelas leis objectivas que rege­ram a história da nossa espécie. Trans­correram apenas sete mil anos desde que o ser humano deixou marcas pal­pá­veis do que chegou a ser uma civili­za­ção imensamente rica em cultura e co­nhecimentos técnicos. Seus avanços não foram conseguidos ao mesmo tem­po nem no mesmo lugar geográfico. Po­de-se afirmar que, devido à apa­rente imensidão do nosso planeta, em muitos casos desconhecia-se a existên­cia de uma ou outra civilização. Du­rante milhares de anos jamais o ser humano viveu em cidades de 20 mi­lhões de habitantes como São Paulo ou a cidade do México, ou em comuni­dades urbanas como Paris, Madrid, Ber­lim e outras que vêem transitar com­boios sobre carris e colchões de ar, a velocidades de mais de 400 quilóme­tros por hora.

Na época de Cristóvão Colombo, há apenas 500 anos, algumas dessas ci­da­des não existiam ou a sua população não ultrapassava o número de várias dezenas de milhar de habitantes. Ne­nhuma gastava um quilowatt para ilu­minar as suas casas. Possivelmente a população do mundo de então não ul­tra­passava os 500 milhões de habi­tantes. Sabe-se que em 1830 atingiu os primeiros 1000 milhões, 130 anos de­pois multiplicou-se por três, e 46 anos mais tarde a soma dos habitantes do planeta elevou-se a 6500 milhões, que devem compartilhar os produtos alimentícios com os animais domésticos e, doravante, com os biocombustíveis.

A humanidade não contava então com os avanços da computação nem com os meios de comunicação alcan­çados na actualidade, ainda que já hou­­vessem explodido as primeiras bom­bas atómicas sobre duas grandes comunidades humanas, o que consti­tuiu um brutal acto de terrorismo contra po­pulações civis indefesas, por razões estritamente políticas.

Hoje o mundo conta com dezenas de milhares de bombas nucleares cin­quenta vezes mais poderosas, com por­ta­dores várias vezes mais velozes que o som e de uma precisão absoluta, com as quais nossa refinada espécie pode autodestruir-se. Em fins da Se­gunda Guerra Mundial, que os povos tra­varam contra o fascismo, surgiu um novo poder que tomou posse do mundo e impôs a actual ordem absolutista e cruel.

Antes de Bush viajar ao Brasil, o che­fe do império estabeleceu que o milho e outros alimentos seriam a ma­téria-prima adequada para produzir bio­­combustíveis. Lula por sua vez de­clarou que, a partir da cana-de-açúcar, o Brasil podia fornecer o que fosse ne­cessário; via nesta fórmula um futuro para o Terceiro Mundo, e o único pro­ble­ma de solução pendente seria me­lhorar as condições de vida dos traba­lhadores da cana. Estava bem consci­ente, e assim o declarou, que os Es­ta­dos Unidos pelo seu lado deviam sus­pender as barreiras tarifárias e os sub­sídios que afectam a exportação do eta­nol para os Estados Unidos. Bush res­pondeu que as tarifas e os subsídios aos agricultores eram intocáveis num país como os Estados Unidos, primeiro produtor mundial de etanol à base de milho.

As grandes transnacionais norte-americanas produtoras desse biocom­bustível, que investem aceleradamente dezenas de milhares de milhões de dó­lares, haviam exigido ao chefe do im­pério a distribuição no mercado norte-americano de não menos de 35 mil mi­lhões de galões [132 mil milhões de li­tros] por ano desse combustível. Entre tarifas protectoras e subsídios reais o número anual ascenderá a quase 100 mil milhões de dólares. Insaciável na sua procura, o império havia lançado ao mundo a palavra-de-ordem de pro­duzir biocombustíveis para libertar os Estados Unidos, o maior consumidor mun­dial de energia, de qualquer de­pen­dência externa em matéria de hi­drocarbonetos.

A história demonstra que a mono­cultura da cana esteve estreitamente associada à escravidão dos africanos, arrancados à força das suas comuni­dades naturais e transportados para Cuba, Haiti e outras ilhas do Caribe.

No Brasil ocorreu exactamente o mes­­mo com o cultivo da cana-de-açú­car. Hoje, nesse país, quase 80% da cana é cortada manualmente. Fontes e estudos efectuados por investiga­dores brasileiros afirmam que um cor­tador de cana, trabalhador tarefeiro, de­ve produzir não menos de 12 tone­ladas para satisfazer necessidades ele­mentares. Esse trabalhador precisa efe­ctuar 36630 flexões de pernas, percor­rer pequenos trajectos 800 vezes car­re­gando 15 quilos de cana nos braços e caminhar na sua faina 8800 metros. Perde uma média de 8 litros de água por dia. Só em cana queimada se pode atingir essa produtividade por homem. A cana de corte manual ou mecanizado costuma-se queimar para proteger o pes­soal de mordidas ou picadas dani­nhas e sobretudo para elevar a produti­vidade. Ainda que exista uma norma estabelecida das 8 da manhã às 5 da tarde para realizar sua tarefa, esse corte à tarefa não escapa das 12 horas de trabalho. A temperatura em certas ocasiões atinge os 45 graus Celsius ao meio-dia.

Eu pessoalmente cortei cana não poucas vezes por dever moral, tal como muitos outros companheiros dirigentes do país. Recordo o mês de Agosto de 1969. Escolhi um lugar próximo à capi­tal. A cada manhã ia bem cedo para ali. A cana não queimada era verde, de variedade precoce e de alto rendi­mento agrícola e industrial. Não cessa­va de cortar nem um minuto durante qua­tro horas consecutivas. Alguém se encarregava de afiar o facão. Nem uma vez deixei de produzir um mínimo de 3,4 toneladas por dia. A seguir banha­va-me, almoçava sossegadamente e des­cansava num lugar muito próximo. Ganhei vários bónus pela famosa safra de 1970. Tinha então 44 anos recém fei­tos. O resto do tempo, até a hora de dormir, dedicava aos meus deveres re­vo­lucionários. Detive aquele esforço pes­soal quando provoquei uma ferida no pé esquerdo. O facão afiado havia penetrado na bota protectora. A meta nacional era de 10 milhões de tonela­das de açúcar e aproximadamente 4 milhões de melaço, como subproduto. Nunca foi atingida, ainda que nos apro­xi­mássemos dela.

A URSS não havia desaparecido, parecia algo impossível. O período es­pe­cial, que nos levou a uma luta pela sobrevivência e às desigualdades eco­nómicas com os seus elementos de cor­rupção inerentes, não havia surgido. O imperialismo acreditou que havia che­gado a hora de liquidar a Revolução. Também é honesto reconhecer que nos anos da bonança aprendemos a des­per­diçar e não foi pouco o grau de idea­lismo e de sonhos que acompa­nha­ram o nosso heróico processo. Os grandes rendimentos agrícolas dos Es­tados Unidos foram conseguidos me­diante a rotação das gramíneas (milho, trigo, aveia, painço e outros grãos se­melhantes) com as leguminosas (soja, alfafa, feijões, etc). Estas incorporam nitrogénio e matéria orgânica nos so­los. O rendimento do milho nos Estados Unidos no ano 2005, segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), atingiu 9,3 toneladas por he­ctare.

No Brasil conseguem-se apenas 3 toneladas desse grão na mesma área de terra. A produção total contabilizada desse país irmão foi nesse ano de 34,6 mil milhões de toneladas, consumidas internamente como alimento. Não po­de contribuir com milho para o mercado mundial. Os preços desse grão, ali­mento principal de numerosos países da área, quase duplicaram. O que ocor­rerá quando centenas de milhões de toneladas de milho forem dedica­das à produção de biocombustível? E não vou mencionar as quantidades de trigo, painço, aveia, cevada, sorgo e outros ce­reais que os países indus­trializados utilizarão como fonte de combustível para os seus motores. A isto acres­centa-se que é muito difícil para o Brasil efectuar a rotação do milho com legu­minosas. Dos estados brasileiros que tra­dicionalmente o pro­duzem, oito deles são responsáveis por 90% da pro­dução: Paraná, Minas Gerais, São Paulo, Goiás, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul. Por outro lado, 60% da produ­ção de cana-de-açúcar, uma gramínea que não pode ser alternada com ou­tros cultivos, efectua-se em quatro esta­dos: São Paulo, Paraná, Pernambuco e Alagoas.

Os motores dos tractores, máquinas colhedoras e meios pesados de trans­porte para mecanizar a colheita gasta­riam hidrocarbonetos em quantidades crescentes. O incremento da mecani­za­ção nada ajudaria para evitar o a­que­cimento do planeta, algo que está provado pelos especialistas que me­dem a temperatura anual há mais de 150 anos. O Brasil, sim, produz um ex­celente alimento especialmente rico em proteína, a soja: 50.155.000 tone­la­das. Consume quase 23 milhões de toneladas e exporta 27,3 milhões. Será que porventura uma parte importante dessa soja se vai converter em biocombustível? No imediato, os produ­tores de carne bovina começam a quei­xar-se de que os terrenos plantados com pastos estão a transformar-se em canaviais.

O antigo ministro da Agricultura do Brasil, Roberto Rodrigues, importante defensor da actual linha governamental e hoje co-presidente do Conselho In­ter-americano do Etanol, criado em 2006 a partir de um acordo com o esta­do da Florida e o Banco Inter-ame­rica­no de Desenvolvimento (BID) para pro­mover a utilização de biocom­bus­tíveis no continente americano, decla­rou que o programa de mecanização da colheita de cana não gera mais em­prego e sim, pelo contrário, que se produziria um ex­ce­dente de pessoal não qualificado.

Sabe-se que os trabalhadores mais pobres procedentes de diversos esta­dos são os que vão ao corte da cana por necessidade imperiosa. Em certas ocasiões, são pessoas que têm de se separar durante muitos meses dos seus familiares. É o que acontecia em Cuba até o triunfo da Revolução, quan­do o corte e levantamento da cana era à mão e apenas existia o cultivo e trans­porte mecanizado. Ao desapare­cer o brutal sistema imposto à nossa so­ciedade, os cortadores, alfabetizados maciçamente, abandonaram a sua pe­regrinação em muito poucos anos e foi necessário substituí-los por centenas de milhares de trabalhadores volun­tários.

A isto acrescenta o último relatório das Nações Unidas sobre a mudança climática, o qual diz o que ocorrerá na América do Sul com a água dos gla­ciares e a bacia aquífera do Amazonas à medida que a temperatura da atmos­fera continue a subir.

Nada impede que o capital norte-americano e europeu financie a produ­ção de biocombustíveis. Poderiam in­clusive presentear os fundos ao Brasil e à América Latina. Os Estados Unidos, a Europa e os demais países industria­lizados poupariam mais de 140 mil mi­lhões de dólares por ano, sem se preo­cuparem com as consequências climá­ticas e da fome, que afectariam em pri­meiro lugar os países do Terceiro Mun­do. Sempre lhes restaria dinheiro para os biocombustíveis e para adquirir a qual­quer preço os poucos alimentos dis­poníveis no mercado mundial.

O que se impõe de imediato é uma revolução energética que consiste não só na substituição de todas as lâmpa­das incandescentes como também na re­ciclagem maciça de todos os equipa­mentos domésticos, comerciais, indus­triais, de transporte e de uso social, que com as tecnologias anteriores exigem duas a três vezes mais energia.

É dolo­roso pensar que se conso­mem anualmente 10 mil milhões de to­ne­ladas de combustíveis fósseis, o que significa que a cada ano desper­diça-se o que a natureza levou um mi­lhão de anos a criar. As indústrias na­cionais têm pela frente enormes tarefas a rea­lizar e com isso aumentar o em­prego. Assim se poderia ganhar um pouco de tempo.

Outro risco de carácter diferente que o mundo corre é o de uma recessão eco­nómica nos Estados Unidos. Nos úl­timos dias, os dólares bateram um re­cor­de de perda de valor. Com essa moeda de papel e os títulos norte-ame­ricanos são constituídas a maior parte das reservas em divisas convertíveis de todos os países.

O dia Primeiro de Maio de cada ano é um bom dia para fazer chegar estas reflexões aos trabalhadores e a todos os pobres do mundo.


Levar a Fé ao interior das almas,

em vez de ficar pelas manifestações externas

Por Pe. José Marcos Bach (Doutor em Teologia, Brasil)

1. Não é só o Vaticano que associa Fé com manifestações de massas. Me­ca, na Arábia Saudita, tem o poder de atrair até mais fiéis muçulmanos do que Roma consegue em relação ao mundo católico. Mas a fé que ambos os “luga­res santos” despertam é basicamente a mesma, pois ambos têm em comum o mesmo objetivo: inspirar em seus fiéis uma “certeza”, a certeza da salva­ção e a certeza de estar indo ao encon­tro dela pelo caminho certo!

A “fé” que em ambos os casos se procura estimular e fortalecer nutre-se de “certezas”. Tanto em Roma como em Meca seria linchado, ou ao menos ex­co­mungado todo aquele que pusesse em dúvida a veracidade daquilo que lá está sendo proclamado como verda­deiro, certo e indiscutível.

Tanto o mundo muçulmano quanto o mundo cristão pregam a “tolerância zero” em relação a tudo o que pudesse enfraquecer a fé de seus adeptos. Con­ta-se aos milhões o número de vítimas da “Santa Inquisição” romana. As au­toridades muçulmanas abafaram com brutalidade o sufismo. O que os sufis que­riam era o mesmo que os místicos cristãos queriam: levar a fé ao interior das almas em vez de contentar-se com ma­nifestações meramente externas!

2. Uma manifestação da fé ou é si­len­ciosa e discreta, ou é falsa. Quando os discípulos pediram a Jesus: “Senhor, ensina-nos a orar”, Jesus lhes respon­deu: “Quando orardes, não façais co­mo os gentios e os fariseus, que fazem muito barulho quando rezam, medindo a qualidade da sua oração pelo nú­mero de palavras e pela solenidade dos gestos. Vós, quando vos recolher­des para orar, retirai-vos à solidão do vosso quarto e entretei-vos em silêncio com o vosso Pai Celestial”!

É no silêncio que Deus se manifesta de preferência. É no silêncio que Ele tempera os seus futuros colaboradores, do mesmo modo como é o fogo que em silêncio tempera o aço. Um fogo mui­to brando não serve para temperar um aço de boa qualidade. A capaci­dade de temperar aço de boa quali­dade, o fogo não a deve ao barulho que porventura venha a fazer, mas ao calor que é capaz de produzir.

Uma manifestação de fé muito rui­dosa é tão falsa quanto uma declaração de amor feita em praça pública e regis­tada em cartório. A fé que Jesus espe­ra de seus discípulos não os embala num oceano de certezas. Pelo contrário, joga-os na mais absoluta “incerteza”.

3. Para ser boa, uma máquina tem que funcionar de modo certo. Um reló­gio tem que nos dizer qual é a hora cer­ta do dia ou da noite. Até o final do sé­culo passado os cientistas descre­vi­am o cosmos, a natureza, e até o ho­mem, como máquina. Deles se espera­va que nos brindassem com informa­ções certas. Para serem confiáveis, as suas informações tinham que ser previ­síveis. O filósofo alemão Leibniz ainda de­finiu o universo como um “Re­lógio”.

Foi em 1925 que um físico alemão, Werner Heisenberg, escandalizou o mundo científico, inclusive Einstein, afir­mando que no mundo subatómico vigoram leis diferentes daquelas que regulam o comportamento de um astro. Sustentou que um átomo, ou outra sub-partícula atómica, como um fóton, não assiste passivamente ao que o obser­vador humano está a fazer. Ele, o átomo, observa o observador e sua res­posta não é pré-determinada e não será sempre a mesma em cada expe­rimento.

A relação do espírito humano com o mundo material não pode mais ser vista como a viam os cientistas do sé­culo XIX ou como a vêem ainda hoje Jacques Monod e parceiros. A primeira “pá de cal” levou-a a Teoria mecanicista quando Einstein declarou que “a essên­cia da matéria é espiritual”. Se é assim, não se pode mais sustentar a tese de que espírito e matéria são opostos irre­con­ciliáveis. Se a alma (essência) da matéria é espiritual, então não existe espaço para uma luta entre ambos.

Nada, no entanto, perturbou tanto o sono dos cientistas quanto a contri­buição dos pais da Teoria Quântica, como passou a ser conhecida. Entre as suas teses mais polemicas está a de que as leis que regem a natureza não fornecem certezas, mas apenas pro­babilidades. O “Princípio da Incer­te­za” de Heisenberg continua a escan­da­­lizar as mentes conservadoras do planeta.

Não há religião que não imponha aos seus fiéis uma fé incondicional. Em seus Catecismos e em seus Tratados de Teologia não há lugar para uma fé que forneça aos seus crentes menos do que certezas absolutas. A Teoria da Mecânica Quântica ainda não faz parte dos instrumentos de que um teólogo se serve em sua atividade profissional. Para ele o objecto tanto da fé como dos seus estudos é o dogma, uma cole­ctânea de verdades irrefutáveis. Para ele a verdade é um conjunto de certe­zas. É-lhe completamente estranha a ideia de que a verdade possa ser um conjunto de probabilidades, ou até mes­mo de possibilidades!

Mas é assim que os adeptos da Teo­ria Quântica definem o mundo material. Para eles o universo não é um museu de coisas já feitas, mas um campo ex­pe­rimental de coisas para serem acei­tes. O Criador lançou a Pedra Funda­mental, mas entregou-nos uma obra inacabada.

O cientista quântico não é alguém que avalia e valoriza o que já foi feito. Mas é alguém que volta a sua atenção e o seu interesse intelectual para o que ainda pede para ser completado. O apóstolo Paulo usa a palavra Pleroma, isto é, Plenitude, para definir o que, segundo ele, ainda falta ao Projecto de Cristo para ser completado.

O mundo em que vivemos não é perfeito. Está à espera de quem o com­plete. Não se sabe onde o apóstolo Paulo tirou esta informação, pois em Romanos 8,21 ele diz o seguinte: “A Criação anseia pela liberdade dos Fi­lhos de Deus, pois como nós, também ela vive na esperança de ser um dia libertada da escravidão, da corrupção, para entrar na liberdade da glória dos Filhos de Deus. Pois sabemos que a cria­ção inteira geme e sofre as dores do parto até o presente” (Rm 8,20-22).

Para tornar-se perfeito o universo todo tem que ressuscitar como Cristo ressuscitou. E não apenas como Ele, mas com Ele! Para ser plena e total a fé em Cristo tem que abranger não só o destino glorioso da humanidade, mas também o do universo todo! A “Casa” que o Pai Celestial está preparando para seus Filhos não pode ser uma sen­zala, um espaço confinado e sujeito a regras e limitações. Só pode ser vista como espaço absolutamente livre!

4. Fato que não deixa de ser estra­nho é este: Paulo, o apóstolo que se define a si mesmo como “fariseu” (A­ctos 23,6), é de todos o que mais ener­gicamente se empenha na defesa da “liberdade dos Filhos de Deus”! Assim como existem no fundo dos oceanos continentes perdidos, do mesmo modo se pode falar de verdades perdidas, que, como ilhas, outrora florescentes, hoje se encontram submersas no es­que­cimento!

Uma delas é a relação essencial existente entre a fé em Cristo e a liber­dade dos filhos de Deus! Papas, teólo­gos, canonistas e moralistas fizeram da Sagrada Doutrina da Fé um pacote fir­memente atado de verdades absolutas. Esqueceram-se por completo da pala­vra de Jesus: “Conhecereis a verdade e a verdade vos fará livres” (Jo 8,32).

Como pode libertar o espírito do ho­mem uma verdade que não se apre­senta à mente humana como opção, mas como necessidade? Pode merecer fé uma verdade que chega à consciên­cia do homem pelo estreito caminho da mão única? Pode ser libertadora uma verdade pronta e acabada a que a consciência do crente nada pode acrescentar?

A fé em Cristo não tem como objecto ou alvo um conjunto de doutrinas, mas a Pessoa de Jesus, pois Ele mesmo o disse: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). Se é a Pessoa de Jesus que é o alvo da fé cristã, não se pode confinar a fé em artigos, do­gmas e doutrinas como vem acontecen­do. Mas se a Verdade é Jesus, o Ho­mem mais livre que a história conhece, então não se pode reduzir a fé em Cristo a um acto de submissão!

Uma fé que não liberta é falsa, como a mordaça, ela em nada contri­bui para o bem-estar e a felicidade do crente. Uma fé é tão falsa e tão pouco cristã quanto uma obediência que es­craviza. Uma fé que priva o crente de “voar livremente”, de “tudo experimen­tar”, como ensina o apóstolo Paulo (Rm 12,2), paralisa a consciência humana, impedindo-a de “escolher o melhor”!

5. A verdade em que um cristão de­posita a sua fé não é um objecto, me­nos ainda pode ser tratada como obje­cto pronto para consumo. Jesus não veio semear a fé dos seus discípulos com certezas. A única certeza que nos veio trazer é esta: “O Pai vos ama” (Jo 16,27). E se amarmos o nosso irmão como Ele o ama, seremos os seus dis­cípulos (Cf. Jo 15,17).

Jesus elevou o Amor à condição de “sacramento supremo da Salvação”! Ou apostamos no Amor e nos convertemos a ele, ou merecemos o mesmo destino inglório que tiveram os habitantes do Continente de Mu e da Atlântida 11.500 anos atrás. O primeiro passo a ser dado por quem quer aderir a Cristo é a “con­ver­são”! “Convertei-vos, porque o Reino de Deus está próximo” (Mt 3,2).

Enquanto até nossos mais conspí­cuos representantes de Deus e os mais badalados representantes de Cristo na terra continuam apostando mais nos instrumentos do poder do que na fragilidade do Amor, a humanidade toda pode contar com o mesmo destino que colheram nossos antepassados quando resolveram apostar mais nas pompas do poder e nas suas riquezas materiais do que nas riquezas que só o Amor é capaz de produzir.

Depois que Jesus falou, tudo ficou mais simples. O cristianismo poderia e deveria ser a mais simples das reli­giões. Santo Agostinho percebeu isto. “Ama”, diz ele, “e faz o que bem enten­des, pois desta raiz do amor só pode brotar o bem”!

O Papa actual, Bento XVI, só tem contribuído para complicar ainda mais a “fidelidade a Cristo”! Publicou um ca­tecismo onde se encontra a resposta certa a mais de quinhentas perguntas. De que servem tantas respostas a per­guntas que ninguém faz? Se a fé cristã consistisse em dar a “resposta” certa à “pergunta certa”, Jesus ter-se-ia em­penhado em deixar por escrito tanto a pergunta quanto a resposta. As pa­la­vras de Jesus só foram registadas por escrito muitos anos depois de sua morte por pessoas que as tinham guar­dado na lembrança.

A fidelidade que nasce da fé em Cristo não é a mesma que um judeu deposita nas Escrituras Sagradas. A fé cristã consiste essencialmente em man­ter-se fiel à Pessoa de Jesus! Não à Pessoa do Jesus histórico, mas a do Cristo Ressuscitado, o mesmo Cristo do qual o apóstolo Paulo dizia: “Mihi vivere Christus est”! “Minha vida é Cristo” (Fl 1,21). “Já não sou eu quem vive, mas é Cristo que vive em mim” (Gl 2,20).

Foi e continua a ser um erro peda­gógico-didáctico dos mais desastrosos reduzir a fé em Cristo a um gesto de sub­missão da inteligência a um con­junto de verdades reveladas. Crer em Cristo é muito mais do que aceitar como verdadeiro o que Ele ensinou! É muito mais do que só isto! Ela, a fé em Cristo, nos compromete com a Vida, com todas as formas e manifestações de Vida.

Queres encontrar a Cristo, levanta a primeira pedra que encontras pelo caminho, pois debaixo dela encontrarás “Vida” em abundância! O “objecto” da fé cristã é o “modo como Jesus viveu sua Vida”! Identificar-se com Ele é o mesmo que viver a própria Vida como Ele viveu a dele.

A fé cristã é em sua essência um compromisso existencial da alma com Cristo. A vida temporal de Cristo foi tão simples que até um analfabeto pode imitá-la! “Amai-vos uns aos outros”, dizia o apóstolo São João.”Mestre”, diziam seus ouvintes, “já estamos can­sados de ouvir isto sempre de novo”! Ao que João respondia: “É preceito do Senhor, e se for posto em prática, bas­ta para nos justificar”.

6. O que é verdadeiramente certo, estatisticamente previsível em nossas vidas? A morte é talvez a única certeza estatisticamente comprovada. Mas quando, onde e como ela vai aconte­cer, isso ninguém sabe!

A fé, que Cristo veio pregar fornece-nos poucas certezas, mas fornece-nos um sem número de pistas, capazes de nos conduzir até a Verdade! Mas esta permanecerá sempre distante e inaces­sível. A verdade é como a vida, quem quer “possuí-la acabará por perdê-la”, como ensina Jesus (Lc 17,33).

No universo não há entidade que não tenha consciência do espaço-tempo que lhe é destinado. “Vivemos num uni­ver­so consciente”, diria Deepak Chopra, citando um antigo ensinamento dos Vedas. É verdade: o universo pode ser visto como um “oceano de certezas”. Nele tudo é previsível. Tudo, menos o com­portamento de um átomo ou de um elétron quando está sendo observado por um cientista. O mundo quântico ou subatómico é imprevisível, pois sua reac­ção depende do observador humano!

Neste universo tão “certinho” em tu­do, o homem é o único ser que destoa, pois tem que aprender como se relacio­nar com o seu meio ambiente.

É uma ilusão perigosa imaginar que Jesus, o Caminho, a Verdade e a Vida, veio para forrar o caminho da vida de seus discípulos com toda a sorte de cer­tezas. Assim como acontece com quem se joga nas águas de um oceano, tam­bém a vida de um discípulo de Jesus não oferece apoio seguro a quem o pre­ten­de atravessar! Se quiser manter-se vivo terá que permanecer “nadando”. Se for bom nadador, irá aproveitar a cor­renteza, caso existir alguma. Para o bem de quem deposita sua fé em Deus, existe no universo esta “correnteza”. Os teólogos dão-lhe o nome de Providência Divina. Os Vedas a definem como Cons­ci­ên­cia Universal.

No universo tudo existe em conexão com tudo o mais. Cada mónada tem cons­ciência da sua ligação com todas as demais. Lá a colegialidade é a regra, pois tudo tende a se unir para formar uni­dades cada vez maiores e mais com­plexas.

A incerteza da fé não é um fim em si, mas apenas um meio de se colocar em contacto com a Verdade Total. É indo de uma incerteza para outra mais pró­xima da verdade que se progride no ca­minho da fé em Cristo. Quem não quer ver-se defrontado com a incerteza nem ser atormentado pela dúvida, não deve aventurar-se a navegar por este oceano sem limites nem fronteiras que é a Vida de Fé em Cristo!


O império do consumo

Por Eduardo Galeano (Escritor uruguaio)

A explosão do consumo no mundo actual faz mais barulho do que todas as guerras e mais algazarra do que to­­dos os carnavais. Como diz um velho provérbio turco, aquele que bebe a con­ta, fica bêbado em dobro. A gandaia aturde e anuvia o olhar; esta grande bebedeira universal parece não ter li­mites no tempo nem no espaço.

Mas a cultura de consumo faz muito barulho, assim como o tambor, porque está vazia; e na hora da verdade, qu­ando o estrondo cessa e acaba a festa, o bêbado acorda, sozinho, acompa­nha­do pela sua sombra e pelos pratos quebrados que deve pagar. A expan­são da demanda choca-se com as fronteiras impostas pelo mesmo siste­ma que a gera. O sistema precisa de mercados cada vez mais abertos e mais amplos tanto quanto os pulmões precisam de ar e, ao mesmo tempo, requer que estejam no chão, como es­tão, os preços das matérias-primas e da força humana de trabalho.

O sistema fala em nome de todos, dirige a todos as suas imperiosas or­dens de consumo, entre todos espalha a febre compradora; mas não tem jeito: para quase todo o mundo esta aventu­ra começa e termina na telinha da TV. A maioria, que contrai dívidas para ter coisas, termina tendo apenas dívidas para pagar suas dívidas que geram no­vas dívidas, e acaba consumindo fan­tasias que, às vezes, materializa come­tendo delitos. O direito ao desperdício, privilégio de poucos, afirma ser a li­berdade de todos.

Diz-me quanto consomes e dir-te-ei quanto vales. Esta civilização não deixa as flores dormirem, nem as galinhas, nem as pessoas. Nas estufas, as flores estão expostas à luz contínua, para fa­zer com que cresçam mais rapidamente. Nas fábricas de ovos, a noite também es­tá proibida para as galinhas. E as pes­soas estão condenadas à insónia, pela ansiedade de comprar e pela angústia de pagar. Este modo de vida não é mui­to bom para as pessoas, mas é muito bom para a indústria farmacêutica. Os EUA consomem metade dos calmantes, ansiolíticos e demais drogas químicas que são vendidas legalmente no mun­do; e mais da metade das drogas proibi­das que são vendidas ilegalmente, o que não é uma coisinha à-toa quando se leva em conta que os EUA contam com apenas cinco por cento da popula­ção mundial.

“Gente infeliz, essa que vive a com­par-se”, lamenta uma mulher no bairro de Buceo, em Montevideu. A dor de já não ser, que outrora cantava o tango, deu lugar à vergonha de não ter. Um homem pobre é um pobre homem. “Qu­an­do não tens nada, pensas que não vales nada”, diz um rapaz no bairro Villa Fiorito, em Buenos Aires. E outro con­firma, na cidade dominicana de San Francisco de Macorís: “Meus irmãos tra­balham para as marcas. Vivem com­pran­­do etiquetas, e vivem suando feito loucos para pagar as prestações”.

Invisível violência do mercado: a di­versidade é inimiga da rentabilidade, e a uniformidade é que manda. A pro­dução em série, em escala gigantesca, impõe em todas as partes suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais de­vastadora do que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz seres huma­nos como fotocópias do consumi­dor exemplar.

O consumidor exemplar é o homem quieto. Esta civilização, que confunde quantidade com qualidade, confunde gordura com boa alimentação. Segundo a revista científica The Lancet, na última década a obesidade mórbida aumentou quase 30% entre a população jovem dos países mais desenvolvidos. Entre as crianças norte-americanas, a obesi­dade aumentou 40% nos últimos dezas­seis anos, segundo pesquisa recente do Centro de Ciências da Saúde da Uni­versidade do Colorado. O país que inventou as comidas e bebidas light, os diet food e os alimentos fast free, tem a maior quantidade de gordos do mundo. O consumidor exemplar desce do carro só para trabalhar e para ver televisão. Sentado na frente da telinha, passa quatro horas por dia devorando comida plástica.

Vence o lixo fantasiado de comida: essa indústria está conquistando os paladares do mundo e está demolindo as tradições da cozinha local. Os costu­mes do bem comer, que vêm de longe, contam, em alguns países, milhares de anos de refinamento e diversidade e constituem um património colectivo que, de algum modo, está nos fogões de todos e não apenas na mesa dos ricos. Essas tradições, esses sinais de iden­tidade cultural, essas festas da vida, estão sendo esmagadas, de modo ful­minante, pela imposição do saber quí­mico e único: a globalização do ham­búrguer, a ditadura do fast food. A plas­tificação da comida em escala mundial, obra do McDonald´s, do Burger King e de outras fábricas, viola com sucesso o direito à autodeterminação da cozi­nha: direito sagrado, porque na boca a alma tem uma das suas portas.

A Copa do Mundo de futebol de 1998 confirmou para nós, entre outras coisas, que o cartão MasterCard toni­fica os músculos, que a Coca-Cola pro­porciona eterna juventude e que o car­dá­pio do McDonald´s não pode faltar na barriga de um bom atleta. O imenso exército do McDonald´s dispara ham­búr­gueres nas bocas das crianças e dos adultos no planeta inteiro. O duplo arco desse M serviu como estandarte, durante a recente conquista dos países do Leste Europeu.

As filas na frente do McDonald´s de Moscovo, inaugurado em 1990 com bandas e fanfarras, simbolizaram a vi­tória do Ocidente com tanta eloquência quanto a queda do Muro de Berlim. Um sinal dos tempos: essa empresa, que encarna as virtudes do mundo livre, ne­ga aos seus empregados a liberdade de filiar-se em qualquer sindicato. O McDonald´s viola, assim, um direito le­galmente consagrado nos muitos países onde opera. Em 1997, alguns trabalha­dores, membros disso que a empresa chama de Macfamília, tentaram sindi­calizar-se num restaurante de Montreal, no Canadá: o restaurante fechou. Mas, em 98, outros empregados do McDo­nald´s, numa pequena cidade próxima de Vancouver, conseguiram essa con­quista, digna do Guinness.

As massas consumidoras recebem ordens num idioma universal: a publi­cidade conseguiu aquilo que o espe­ranto quis e não pôde.

Qualquer um entende, em qualquer lugar, as mensagens que a televisão trans­mite. No último quarto de século, os gastos em propaganda dobraram no mundo todo. Graças a isso, as crianças pobres bebem cada vez mais Coca-Cola e cada vez menos leite e o tempo de lazer vai-se tornando tempo de con­sumo obrigatório. Tempo livre, tempo prisioneiro: as casas muito pobres não têm cama, mas têm televisão, e a televi­são está com a palavra. Comprado em prestações, esse animalzinho é uma pro­va da vocação democrática do pro­gresso: não escuta ninguém, mas fala para todos.

Pobres e ricos conhecem, assim, as qualidades dos automóveis do último modelo, e pobres e ricos ficam sabendo das vantajosas taxas de juros que tal ou qual banco oferece. Os especialis­tas sabem transformar as mercadorias em mágicos conjuntos contra a solidão. As coisas possuem atributos humanos: acariciam, fazem companhia, compre­en­dem, ajudam, o perfume beija-te e o carro é o amigo que nunca falha. A cul­tura do consumo fez da solidão o mais lucrativo dos mercados.

Os buracos no peito são preen­chi­dos enchendo-os de coisas, ou sonhan­do com fazer isso. E as coisas não só po­dem abraçar: elas também podem ser símbolos de ascensão social, salvo-condutos para atravessar as alfândegas da sociedade de classes, chaves que abrem as portas proibidas. Quanto mais exclusivas, melhor: as coisas escolhem você e salvam você do anonimato das multidões. A publicidade não informa sobre o produto que vende, ou faz isso muito raramente. Isso é o que menos importa. Sua função primordial consiste em compensar frustrações e alimentar fantasias. Comprando este creme de barbear, você quer se transformar em quem?

O criminologista Anthony Platt ob­servou que os delitos das ruas não são frutos somente da extrema pobreza. Tam­bém são frutos da ética individua­lista. A obsessão social pelo sucesso, diz Platt, incide decisivamente sobre a apropriação ilegal das coisas. Eu sem­pre ouvi dizer que o dinheiro não traz felicidade; mas qualquer pobre que veja televisão tem motivos de sobra para acreditar que o dinheiro traz algo tão parecido com felicidade, que a diferen­ça é assunto para especialistas.

Segundo o historiador Eric Hobs­bawm, o século XX marcou o fim de sete mil anos de vida humana centrada na agricultura, desde que apareceram os primeiros cultivos, no final do paleolítico. A população mundial torna-se urbana, os camponeses tornam-se cidadãos. Na América Latina temos campos sem nin­guém e enormes formigueiros urbanos: as maiores cidades do mundo, e as mais injustas. Expulsos pela agricultura mo­derna de exportação e pela erosão das suas terras, os camponeses invadem os subúrbios. Eles acreditam que Deus está em todas as partes, mas por experiência própria sabem que atende nos grandes centros urbanos.

As cidades prometem trabalho, pros­peridade, um futuro para os filhos. Nos campos, os esperadores olham a vida passar, e morrem bocejando; nas cidades, a vida acontece e chama. Amon­toados em cortiços, a primeira coisa que os recém-chegados descobrem é que o trabalho falta e os braços sobram, que nada é de graça e que os artigos de lu­xo mais caros são o ar e o silêncio.

Enquanto o século XIV nascia, o padre Giordano da Rivalto pronunciou, em Florença, um elogio das cidades. Disse que as cidades cresciam «por­que as pessoas sentem gosto em jun­tar-se». Juntar-se, encontrar-se. Mas, quem se encontra com quem? A espe­rança encontra-se com a realidade? O desejo encontra-se com o mundo? E as pessoas encontram-se com as pessoas? Se as relações humanas foram reduzidas a relações entre coi­s­as, quanta gente se encontra com as coisas?

O mundo inteiro tende a trans­formar-se em uma grande tela de te­le­visão, na qual as coisas se olham mas não se tocam. As mercadorias em oferta invadem e privatizam os es­pa­ços públicos.

Os terminais de autocarros e as estações de comboios, que até pouco tempo atrás eram espaços de encon­tro entre pessoas, estão a transfor­mar-se, agora, em espaços de exibi­ção comercial. O shopping center, o centro comercial, vitrine de todas as vitrines, impõe a sua presença esma­ga­dora. As multidões concorrem, em peregrinação, a esse templo maior das missas do consumo. A maioria dos devotos contempla, em êxtase, as coisas que os seus bolsos não podem pagar, enquanto a minoria compra­dora é submetida ao bombardeio da oferta incessante e extenuante. A multidão, que sobe e desce pelas es­ca­das mecânicas, viaja pelo mundo: os manequins vestem como em Milão ou Paris e as máquinas soam como em Chicago; e para ver e ouvir não é preciso pagar passagem. Os turistas vindos das cidades do interior, ou das cidades que ainda não mereceram estas benesses da felicidade moder­na, posam para a foto, aos pés das marcas internacionais mais famosas, tal como antes posavam aos pés da estátua do prócer na praça.

Beatriz Solano observou que os habitantes dos bairros suburbanos vão ao center, ao shopping center, como antes iam até ao centro. O tradi­cional passeio do fim-de-semana até o centro da cidade tende a ser subs­tituído pela excursão até esses cen­tros urbanos. De banho tomado, arru­mados e penteados, vestidos com suas melhores galas, os visitantes vêm para uma festa à qual não foram con­vi­dados, mas podem olhar tudo. Fa­mílias inteiras empreendem a viagem na cápsula espacial que percorre o universo do consumo, onde a estética do mercado desenhou uma paisagem alucinante de modelos, marcas e eti­quetas.

A cultura do consumo, cultura do efémero, condena tudo à descartabilida­de mediática. Tudo muda no ritmo ver­tiginoso da moda, colocada ao serviço da necessidade de vender. As coisas envelhecem num piscar de olhos, para serem substituídas por outras coisas de vida fugaz. Hoje, quando o único que permanece é a insegurança, as merca­dorias fabricadas para não durar são tão voláteis quanto o capital que as financia e o trabalho que as gera. O di­nheiro voa à velocidade da luz: ontem estava lá, hoje está aqui, amanhã quem sabe onde, e todo trabalhador é um potencial desempregado.

Paradoxalmente, os shoppings cen­ters, reinos da fugacidade, oferecem a mais bem-sucedida ilusão de seguran­ça. Eles resistem fora do tempo, sem ida­de e sem raiz, sem noite e sem dia e sem memória, e existem fora do espa­ço, além das turbulências da perigosa realidade do mundo.

Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma merca­doria de vida efémera, que se esgota assim como se esgotam, pouco depois de nascer, as imagens disparadas pela metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem pausa, no mercado. Mas, para qual outro mundo vamo-nos mudar? Es­ta­mos todos obrigados a acreditar na historinha de que Deus vendeu o pla­ne­ta para umas poucas empresas por­que, estando de mau humor, decidiu privatizar o universo? A sociedade de consumo é uma armadilha para pegar bobos.

Aqueles que comandam o jogo fazem de conta que não sabem disso, mas qualquer um que tenha olhos na cara pode ver que a grande maioria das pessoas consome pouco, pouqui­nho e nada, necessariamente, para ga­rantir a existência da pouca natureza que nos resta. A injustiça social não é um erro por corrigir, nem um defeito por superar: é uma necessidade essen­cial. Não existe natureza capaz de alimentar um shopping center do ta­manho do planeta.


Indagações a Bento XVI

Por Frei Betto (Teólogo brasileiro)

Vossa Santidade ressuscitou o que o Concílio Vaticano II havia enterrado: a missa em latim. Uma exigência de monsenhor Lefebre, arcebispo francês excomungado em 1988 por se recusar a aceitar as inovações conciliares.

Criança, assisti a muitas missas em latim, com o celebrante de costas para os fiéis, segundo o rito tridentino de meu confrade, o papa Pio V, que foi do­mi­nicano. Por que permitir a volta do latim? Quantos fiéis dominam este idioma? Jesus não falava latim. Falava aramaico. Talvez um pouco de hebrai­co. E por viver numa região dominada por Roma, com certeza conhecia alguns vocábulos latinos, como a saudação romana Ave, que se introduziu na ora­ção mais popular do catolicismo, a Ave-Maria.

Assim como o grego se universali­zou pelo Mediterrâneo graças às cam­pa­nhas de Alexandre, o latim estendeu-se na proporção das conquistas do Im­pério Romano. Por esta lógica, não se­ria mais adequado adoptar, hoje, o in­glês? Ora, a grande maioria dos fiéis católicos encontra-se, hoje, na América Latina. E não entende grego, latim ou inglês. Excepto poucas palavras, como paróquia, pedra e futebol. Não é bom que participem da missa em língua ver­nácula?

Considerado o empenho de incul­turação da Igreja, não é contraditório voltar o latim à missa? Tenho um amigo, ateu até à medula, que adora frequen­tar missas em latim. Para ele, a liturgia reduz-se a um espectáculo. É uma ques­tão de estética, não a ponte comu­nitária entre o nosso coração sedento e o Transcendente.

Inquieta-me a sua afirmação de que é “uma praga” casar pela segunda vez e proibir os católicos que o fazem de acesso à eucaristia. Os evangelhos revelam que Jesus comungou com pes­soas que, vistas de hoje, andavam dis­tantes da moral vaticana. Ele defendeu uma mulher adúltera prestes a ser ape­drejada pelos moralistas da época. Cu­rou o fluxo de sangue de uma mulher fe­nícia sem, antes, exigir dela adesão à fé que ele propagava. Curou também o servo do centurião romano sem pri­meiro impor-lhe a condição de repudiar os seus deuses pagãos. Jesus fez o bem sem olhar a quem.

Tenho amigos e amigas que con­traíram segundas núpcias. Todos por ra­zões muito sérias, que seriam melhor entendidas por padres e bispos se eles, como na Igreja primitiva, tivessem mu­lher e filhos. (Convém lembrar que Je­sus escolheu homens casados para apóstolos, pois curou a sogra de Pe­dro).

Contrair matrimónio é algo tão trans­cendente que a Igreja fez disso um sacramento. Ocorre que, antes de ser uma instituição, o casamento é um acto de amor. E há uniões que fracas­sam, pois somos todos frágeis e peca­dores, e as nossas opções, sujeitas a chuvas e trovoadas, deveriam merecer também a misericórdia da Igreja.

Tenho amigos e a amigas divorcia­dos que reconstruíram suas relações afectivas e se recusam a aceitar a proi­bição de comungar. Minha amiga D., três meses após o casamento, sofreu com o marido um grave acidente de trân­sito. Ele ficou tetraplégico. Dois anos depois, com a anuência dele, ela con­traiu uma nova relação, pois ouviu do homem com quem se casou na Igreja: “Por te amar, quero-te plenamente rea­lizada como mulher e mãe.” Ela e o no­vo marido visitavam periodicamente o homem acidentado, que sobreviveu por sete anos e tornou-se padrinho do primeiro filho do casal. Devo dizer a essa amiga que Deus, que é Amor, não está em comunhão com ela e, portanto, trate de manter distância da mesa eu­carística, pois a Igreja a considera “uma praga”?

Certa noite eu encontrava-me em Boca do Acre, em plena selva amazó­nica, numa celebração de Comunidade Eclesial de Base. Dona Raimunda, mãe de seis filhos, cujo marido havia parti­do para a Transamazónica em busca de trabalho - onde ficou quatro anos sem dar notícias (e ela soube que, lá, ela constituíra outra família) -, disse na missa, no momento da Oração dos Fiéis: “Quero agradecer a Deus por me ter dado um outro marido que é um pai bondoso para os meus filhos.”

Dona Raimunda uniu-se a outro homem que a ajudava na sobrevivên­cia e na educação dos filhos numa si­tuação de extrema penúria. Eu deveria dizer a ela para não se aproximar da mesa eucarística? Naquele momento, o papa João Paulo II, em visita ao Chi­le, dava comunhão ao general Pinochet.

Querido papa: leio na Primeira Car­ta de João que “Deus é Amor: aque­le que permanece no amor, permanece em Deus e Deus permanece nele” (I João 4, 16). Essas pessoas que citei, e tantas outras que conheço, amam e, portanto, Deus permanece nelas. Devo adverti-las que não são amadas pela Igreja e, portanto, estão proibidas de receber o pão e o vinho transubstan­ciados no corpo e no sangue de Jesus, o Senhor da compaixão e da misericór­dia?


Um novo Credo

Por Frei Betto

Creio no Deus desaprisionado do Vaticano e de todas a religiões exis­tentes e por existir. Deus que precede to­dos os baptismos, pré-existe aos sa­cramentos e desborda de todas as dou­trinas religiosas. Livre dos teólogos, der­rama-se graciosamente no coração de todos, crentes e ateus, bons e maus, dos que se julgam salvos e dos que se crêem filhos da perdição, e dos que são indiferentes aos abismos misterio­sos do pós-morte.

Creio no Deus que não tem reli­gi­ão, criador do Universo, doador da vida e da fé, presente em plenitude na natu­reza e nos seres humanos. Deus ouri­ves em cada ínfimo elo das partículas ele­mentares, da requintada arquite­ctura do cérebro humano ao sofisticado entrelaçamento do trio de quarks.

Creio no Deus que se faz sacra­mento em tudo que aproxima, atrai, en­laça, abraça e une – o amor. Todo amor é Deus e Deus é o real. Em se tratando de Deus, bem diz Rumî, não é o se­dento que busca a água, é a água que busca o sedento. Basta manifestar sede e a água jorra.

Creio no Deus que se faz refracção na história humana e resgata todas as vítimas de todo poder capaz de fazer o outro sofrer. Creio em teofanias per­manentes e no espelho da alma que me faz ver um Outro que não sou eu. Creio no Deus que, como o calor do sol, sinto na pele, sem no entanto con­seguir fitar ou agarrar o astro que me aquece.

Creio no Deus da fé de Jesus, Deus que se aninha no ventre vazio da men­diga e se deita na rede para descansar dos desmandos do mundo. Deus da Arca de Noé, dos cavalos de fogo de Elias, da baleia de Jonas. Deus que extrapola a nossa fé, discorda de nossos juízos e ri de nossas pretensões; enfada-se com nossos sermões moralistas e diver­te-se quando o nosso destempero pro­fere blasfémias.

Creio no Deus que, na minha infân­cia, plantou uma jabuticabeira em cada estrela e, na juventude, enciumou-se quando me viu beijar a primeira namo­rada. Deus festeiro e seresteiro, ele que criou a lua para enfeitar as noites de deleite e as auroras para emoldurar a sinfonia passarinha dos amanhece­res.

Creio no Deus dos maníacos de­pres­sivos, das obsessões psicóticas, da esquizofrenia alucinada. Deus da arte que desnuda o real e faz a beleza res­plan­decer prenhe de densidade espiri­tual. Deus bailarino que, na ponta dos pés, entra em silêncio no palco do co­ra­ção e, soada a música, arrebata-nos à saciedade.

Creio no Deus do espanto de Ma­ria, da trilha laboral das formigas e do bocejo sideral dos buracos negros. Deus despojado, montado num jumen­to, sem pedra onde recostar a cabeça, aterrorizado pela própria fraqueza.

Creio no Deus que se esconde no avesso da razão ateia, observa o em­pe­nho dos cientistas em decifrar-lhe os jogos, encanta-se com a liturgia amo­rosa de corpos excretando sumos a embriagar espíritos.

Creio no Deus intangível ao ódio mais cruel, às diatribes explosivas, ao he­diondo coração daqueles que se nutrem com a morte alheia. Miseri­cordioso, Deus se agacha à nossa pe­quenez, suplica por um cafuné e pede colo, exausto frente à profusão de es­tultices humanas.

Creio sobretudo que Deus crê em mim, em cada um de nós, em todos os seres gerados pelo mistério abissal de três pessoas enlaçadas pelo amor e cuja suficiência desbordou nessa Cria­ção sustentada, em todo o seu esplen­dor, pelo frágil fio de nosso acto de fé.


Deus-Pai e o problema do mal

Por Manuel Sérgio (Reitor do Instituto Piaget)

O livro de Hans Jonas, Le Concept de Dieu, après Auschwitz (Payot et Rivages, Paris) dá que pensar. Hans Jonas é um filósofo judeu alemão cuja mãe foi morta em Auschwitz e que, por isso não compreende que o “Pai-nosso que está nos céus” permita o mal no mundo e dele não liberte aqueles que diz amar.

Francamente, sem a inteligência e a erudição de Hans Jonas, sou tentado a levantar a mesma questão: “Que Deus é este que pôde deixar fazer isto?”. Será que Deus é mesmo Pai? Ou, sendo Pai, será que Deus é mesmo omnipotente? Como acreditar que um Pai permita tão cruentos sacrifícios aos seus filhos? A fé em Jesus Cristo resol­ve este problema?

No meu modesto entender, resol­ve, mas com uma ideia de fé que não espezinhe e confunda a razão. Res­pon­der-me-ão que manifesto, assim, as taras do iluminismo, que excluem a crença do acto cognoscitivo. Mas não foi no iluminismo, em oposição ao reac­cionário conluio trono-altar, que se de­fendeu a liberdade, a igualdade, a fra­ter­nidade?

No processo histórico, o iluminis­mo foi imprescindível; rejeito, no en­tanto, que só a razão, empirista e ex­perimental, se possa arvorar em conhe­cimento credível. Mas como invocar a fé, para aceitar meia-dúzia de dogmas que não passam de verdadeiros dispa­rates, como aquele da virgindade de Maria, antes e depois do parto, como se a virgindade excluísse o mal e a im­perfeição?

Demais, não acredito que as pes­so­as com a fé dos dogmáticos, dos integristas, da obediência cega ao Va­ticano não tenham defeitos lamentá­veis, como a História nos aponta, repe­tidamente.

Duas perguntas, a propósito: pela mesma razão que temos deformidades morais, sofremos de patologias de vária ordem? Os nossos limites são tanto de ordem física e fisiológica, como espiri­tual e moral? Não tenho quaisquer dúvi­das a este respeito. As minhas dúvidas são outras: como é possível a um Deus-Pai suportar, sem o mínimo de solida­riedade, os sofrimentos pluriformes dos seus filhos?

“A fé tem a resposta” dir-nos-ão alguns serenamente. A fé, para eles, porém, não é um saber crítico e, se não é  um saber crítico, como posso dizer que tenho fé? Eu sei que, assim como a razão pura não entende verdadeira­mente a vida (“a razão não basta para defender a razão”, escreveu Horkhei­mer), a fé, se não é razão, também a não entende.

Quero eu dizer: racionalismo e fé, segundo a filosofia e a teologia tradi­cionais, são dois fundamentalismos. Para mim, a fé é a sabedoria de todos aqueles que sentem a necessidade do Deus que Jesus anunciou. A fé parte da consciência da necessidade de Deus e encontra, em Jesus, a resposta. E este encontro não é racional tão-só, porque nele está, sobre o mais, a com­ple­xidade humana. O vivido, o expe­ri­enciado é bem mais do que uma abs­tracção teórica.

Jesus é um acontecimento histó­rico e um sinal de Deus. A fé resume-se a procurar entender o sinal que é Je­sus de Nazaré, designadamente na sua Paixão, Morte e Ressurreição, onde o mal desabou sobre Ele, o filho do carpinteiro, e não o venceu! Ou seja, ao lado de Jesus, pode vencer-se a morte, o supremo mal! E como? Para mim, pelo sentido que Jesus deu à sua própria vida: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mes­mos! Assim, o sofrimento passa a ter sentido, se a vida é um acto de amor! Termino, adiantando que as dú­vi­das não desaparecem, dentro de mim, mesmo depois daquilo que venho de escrever. Mas, no meio das maiores incertezas, continua a ser Jesus de Na­zaré o visível de todo o invisível.


IGREJA / SOCIEDADE

L. Boff entrevistado pela Revista Forum

Ou mudamos já os nossos padrões

de produção e de consumo, ou poderemos

vir a conhecer o mesmo destino dos dinossauros

Jornal Fraternizar teve acesso à entrevista que o nosso querido amigo e companheiro L. Boff concedeu à Revista  Forum. E dá-lhe aqui o devido destaque. As questões colocadas ao grande teólogo do Brasil são mais do que pertinentes. E as respostas de Boff são cheias de lucidez e de audácia proféticas. "As Igrejas - sublinha quase a concluir - devem ajudar os fiéis a adaptarem-se às mudanças climáticas e, com os recursos próprios da religião, a minorarem os efeitos maléficos do aquecimento global."

O papa Bento XVI é diferente do cardeal Ratzinger?

R. Eu pensava que iria ser dife­rente. Mas vejo que no fundo é o mes­mo. Um Papa doutrinário que ainda pen­sa ser o Cristianismo a única via para a salvação. As demais vias são todas in­completas e não terminam em Deus. Geralmente quando alguém chega ao ponto mais alto do poder, torna-se mais indulgente e flexível. Com o Papa Bento XVI não ocorreu esta conversão. Ele rea­firma a tradicional rigidez do Catoli­cismo romano com as antipatias que pro­voca e a evasão de fiéis que saem inconformados com caminhos da Igreja que não são adequados ao nosso tem­po. Os cristãos têm o direito de serem contemporâneos em sua fé e não ape­nas reprodutores de um passado antigo.

Que futuro o senhor projecta para a Igreja com o pontificado de Ratzinger?

R. Já dá para se ver que ele é um Papa de pura transição. Por isso não pos­sui projecto próprio de Igreja. É o mesmo do de seu antecessor que ele fundamentalmente ajudou a formular: uma Igreja que se constrói para dentro, reforçando sua identidade mas sempre com receios e medos da modernidade, daquilo que chama de relativismo e de po­litização da fé como a teologia da libertação.

Na ocasião da escolha de Ben­to XVI o senhor disse que se­ria difícil “amar o novo papa”. Essa opinião ainda se sustenta hoje?

R. O documento que publicou Sa­cramentum Caritatis sobre a eucaristia contém elementos positivos mas reafir­ma contundentemente a inflexibilidade da doutrina tradicional sobre questões de moral familiar e sexual. Afasta os di­vorciados da comunhão, não aceita os preservativos, mesmo para evitar a Aids/sida, nega o “casamento” entre ho­mossexuais e pede que ministros de Es­tado e legisladores católicos se ne­guem a votar medidas que conflitam com a doutrina católica. Tais coisas es­can­dalizam e tornam o Papa no mínimo antipático. Ele não se faz amável por todos estes e por aqueles que valori­zam o bom senso e a misericórdia, au­sen­tes em sua posição tradicional.

Como o senhor vê a conde­na­ção ao silêncio de Jon Sobrino, expoente da teologia da liberta­ção, pelo papa Bento XVI?

R. Eu vejo como uma escaramuça a mais contra a teologia da libertação, a mais viva em todo o Terceiro Mundo. Roma deu-se conta de que, no fundo, perdeu a batalha contra a teologia da libertação. Produziram-se dois docu­mentos: um claramente contra, em 1984 e outro resgatando alguns ele­men­tos positivos, em 1986. Mas de pou­co adiantou. Esta teologia nasceu de ouvir o grito dos pobres. Esse grito hoje virou clamor. Então ela continua sendo fiel às suas origens, o que irrita o Vaticano. Mas ela não pode fazer outra coisa se quiser ter o mínimo de responsabilidade ética face à miséria na qual vive grande parte da humani­dade. Não escutar este clamor é fazer-se socialmente irrelevante e ser sim­plesmente cínico. A teologia da liber­tação salva o cristianismo deste cinismo vergonhoso. Jon Sobrino é um sobre­vivente do massacre que dizimou toda sua comunidade de jesuítas em 1989 em El Salvador. É um dos teólogos mais respeitados da teologia mundial exacta­mente por sempre e de novo propor a urgência de pensar a fé a partir das ví­timas e de conclamar a Igreja para que tome a sério seu serviço libertador para com os oprimidos do mundo. Co­mo isso não está nas estratégias cen­trais do Vaticano e Jon tem bom aco­lhimento por toda a parte, foi enqua­drado e silenciado. Batem nele mas vi­sam a Igreja latino-americana, para que não tente retomar seus ideais for­mu­lados em Medellin (1968) com a li­bertação, em Puebla (1979) com a opção pelos pobres e em Santo Do­mingo (1992) com a inculturação nas culturas dos oprimidos.

Como se estabelece hoje a sua relação com a Igreja? Às ve­zes o senhor evita tratar de certas questões, por quê?

R. Depois que me auto-promovi a leigo e isso foi aceite por Roma, nunca mais fui perturbado pelas autoridades doutrinais do Vaticano. Minha relação, em termos de opção de vida, continua a mesma: sinto-me dentro da Igreja, como leigo, entretanto mais francisca­no que romano. Evito abordar temas de Igreja, porque considero que os gran­des problemas hoje que movem a humanidade têm pouco a ver com a Igreja-instituição, como a questão eco­lógica, a devastação dos pobres, a at­mos­fera de guerra civil mundial, os fun­damentalismos e o terrorismo e a­gora a incerteza quanto ao futuro do Planeta ameaçado pelo aquecimento global e as mudanças climáticas ine­vitáveis. Esta é a verdadeira galáxia de problemas e não as questões, por vezes, ridículas e despistadoras, susci­ta­das por Roma.

Como se deu exactamente a guinada conservadora da Igreja Ca­tólica?

R. O aparato romano chamado Cú­ria, quer dizer, aquelas instituições responsáveis pela condução da Igreja universal nunca acolheram as reformas feitas pelo Concílio Vaticano II (1962-1965). Elas foram derrotadas, mas nun­ca se renderam. Conseguiram agluti­nar-se, ocupar os principais poderes centrais e impuseram o curso tradicio­nal a toda a Igreja. Elas conseguiram fazer o Papa João Paulo II e agora Bento XVI. Criaram o seu exército de soldados fiéis que são a Opus Dei e outros movimentos conservadores co­mo Comunhão e Libertação e em geral os grupos carismáticos. Elas garantem a reprodução do modelo antigo, desfa­sado do mundo contemporâneo.

O cardeal Ratzinger foi real­mente o mentor dessa guinada?

R. O então Card. Ratzinger foi o intelectual orgânico desta guinada, o seu formulador e atacante central. Não sem razão disciplinou cerca de 140 teó­logos e colocou sob severa vigi­lância as Igrejas que estão na periferia do mun­do e tentam responder aos de­sa­fios das realidades conflitivas nas quais vivem. Criou-se o pensamento único na Igreja: o mesmo catecismo universal, o mesmo direito canónico para o pólo norte e para os trópicos, o mesmo rito romano ao qual se proíbe qualquer in­culturação, a mesma doutrina básica extraída dos pronunciamentos papais. Sem liberdade não é possível qualquer criatividade. Dai a impressão velhista que este tipo de Igreja provoca e a enor­me emigração de fiéis que no Brasil significa 1% em cada ano.

Como está hoje a CNBB e qual é o seu papel actual? Ela é hoje uma entidade conserva­dora?

R. No pontificado passado ocorreu uma grande mediocrização dos episco­pados do mundo inteiro. Para Roma, de facto, o único bispo é o Papa. Os demais bispos desaparecem à sua sombra. E os profetas foram silen­cia­dos ou morreram. Esta política de contenção afectou a CNBB que perdeu muito de seu elã. Mas conserva ainda uma reserva de progressismo, especial­mente, nas questões sociais como se depreende das Campanhas da Fra­ternidade, da iniciativa “Grito do Oprimido”, das pastorais sociais como por terra, tecto, saúde e das pastorais dos índios, dos negros e das mulheres marginalizadas. Aqui e acolá surgem vozes proféticas, mas este não é o tom geral da CNBB. Ela tem demasia­damente os dois ouvidos voltados para Roma e menos para a realidade do povo crucificado. Mas nunca faltaram bispos progressistas e ligados à liber­tação.

A Teologia da Libertação ainda se mantém viva? Tem con­seguido resistir?

R. A teologia da libertação con­tinua viva naquelas igrejas que tomam a sério a opção pelos pobres e contra a pobreza e que acolhem o desafio que vem da injustiça social. Por isso é forte na América Latina, África e Ásia. Mas não possui a visibilidade que possui antes porque não é mais tão polémica como um dia foi.

Onde ela ainda é forte e está mais presente?

R. Quando ocorreu o Forum Social Mundial em Porto Alegre há três anos, houve uma semana antes o Forum Mundial da Teologia da Libertação. Aí estavam representantes, cerca de 300, de todos os Continentes e também do Primeiro Mundo. Aí se pôde notar a vitalidade desta teologia. Se ela não tem muito poder, seguramente possui a hegemonia do discurso, pois sobre as grandes questões que afligem a humanidade sempre tem uma palavra a dizer, como por exemplo, sobre o tipo de globalização económico-financeira que cria milhões e milhões de excluídos, sobre o pensamento único neo-liberal que ameaça a democracia, sobre o fun­damentalismo e o terrorismo e so­bre questões ambientais que agora põem em risco a sobrevivência da espécie humana.

Como o senhor recebeu o re­latório do IPCC (Intergoverna­mental Panel on Climate Change) de que o aquecimento é decor­rência da acção humana e é pra­ticamente irreversível? O senhor imaginava que a situação já havia atingido esse patamar?

R. Pertenço ao pequeno grupo que escreveu a Carta da Terra, iniciativa mundial animada por Michail Gorba­chev e alguns membros da ONU que desde 1992 até 2000 mobilizou mais de cem mil pessoas em 46 países para saber o que se deveria fazer para sal­var a Terra e a humanidade da siste­mática agressão pelo sistema mundial de produção e consumo. Todos os ce­nários com os quais trabalhávamos indicavam o desastre que foi agora confirmado pelo Painel Intergoverna­men­tal das Mudanças Climáticas. Julgo que os dados fornecidos que apontam para um irreversível aquecimento glo­bal com as ameaças que implicam em termos de devastação da biodiversida­de, riscos de dizimação de milhões de pessoas que não terão tempo para se adaptar nem para minorar os efeitos danosos das mudanças climáticas po­dem mudar o estado de consciência da humanidade. Agora temos que contar com a era das tribulações em todas as partes da Terra. Ou mudamos já agora nossos padrões de produção e consu­mo ou então poderemos conhecer o ca­minho já percorrido pelos dinossau­ros.

O senhor concorda que está havendo uma overdose de dis­cus­são sobre mudanças climáti­cas e que isso pode levar a uma banalização completa da preocu­pa­ção ambiental, ou acha que es­sa ampliação da audiência para esse tipo de questão é saudável?

R. Eu acho que se deu uma versão hollyoudiana ao facto, no interesse dos grandes media que lucram com esta dramatização. Mas o tempo do relógio corre contra nós. Se não fizermos nada e deixarmos as coisas correrem como até agora corriam, podemos ir ao en­contro do imponderável e do inevitável e pôr em risco o futuro da espécie até sua completa desaparição. O facto é em si alarmante e exige uma nova res­ponsabilidade colectiva. Antes impor­tava proteger e cuidar e não ultrapas­sar o limite de suportabilidade da Ter­ra. Agora comprovou-se que já ultra­pas­samos o limite, em 25% da capa­cidade de reposição do sistema-Terra. Então temos que mudar radicalmente de paradigma civilizacional. Não pode­mos continuar no mesmo curso, pois ele nos conduz a um abismo dentro de poucos anos. A Terra poderá continuar sem nós.

Como o senhor vê a gestão do presidente Lula na área? Aprovação dos transgénicos e a transposição do São Francisco aparecem como duas das medi­das que desagradam aos ambien­ta­listas, mas que vem sendo encampadas, em algum grau, pelo governo Lula. O que o senhor tem a dizer sobre isso?

R. Pessoalmente creio que o Presidente Lula possui um deficit con­siderável com referência à consciência ecológica. Ele é experimentado na relação capital versus trabalho, mas mostra insuficiências na área ambiental e ecológica em geral. Por isso o PAC não prevê nada específico na área am­biental. Apenas são pressupostas as medidas legais vigentes, sempre que um projecto vai-se implantar. Ele pre­cisa da análise prévia de impacto ambi­ental e a aprovação do Ibama. Mas não há uma política específica, especial­mente, com referência à preservação ecológica da Amazónia. Prevêem-se novas fronteiras agrícolas mas pouco ou nada se diz sobre o risco ambiental que elas comportam. Basta considerar os dados do Orçamento para este ano. O Ministério do Meio Ambiente continua a ter seus recursos cortados; o corte mais recente foi de R$212,7 milhões ou 32,7% pois caiu de R$651,2 milhões para R$438,5 milhões. Excepção seja feita da Ministra Marina que luta feroz­mente por uma nova concepção do de­sen­volvimento relacionada com o ambi­ente e até com um novo paradigma de civilização nos trópicos. Mas é pra­ticamente voz profética no deserto dos que pensam obsessivamente apenas em crescimento.

Como vê a proliferação do eta­nol e do biodiesel? O senhor considera que isso pode levar o país a concentrar ainda mais pro­dução agrícola em poucos pro­dutos e dar mais fôlego para o agronegócio?

R. Eu vejo com preocupação. Pro­cura-se uma alternativa à matriz ener­gética para manter o mesmo padrão de consumo a que estamos acostuma­dos. Este não é universalizável. Já se fizeram os cálculos. Se quiséssemos universalizar o bem-estar material dos países ricos, deveríamos ter à disposi­ção outras três Terras iguais a nossa actual, coisa que é impossível. O triste é que não se prevê uma alternativa de modelo de sociedade menos energí­vora e dizimadora de recursos naturais não renováveis. Nesse sentido o memo­rando Brasil-Estados Unidos ou Bush-Lula contém sérios riscos de perpetuar a crise que por sua vez é responsável pelo aquecimento global. Há ainda o risco de que se roubem terras desti­nadas aos alimentos e às fibras, por­tanto, ao estômago, para produzir eta­nol, a fim de manter o sistema funcio­nando, portanto, as máquinas. Que não ocorra o que aconteceu em São Paulo com a implantação nos anos 70 do Pro­álcool que gerou a expulsão das cul­turas de alimentos, encarecimento de preços dos produtos alimentícios e grande desemprego. Sabe-se que coisa semelhante já está ocorrendo agora em várias regiões de Minas Gerais.

Qual a sua visão de mundo actual? Quais valores lhe pare­cem mais importantes defender e do ponto de vista de suas con­vicções quais foram perdendo espaço nos últimos anos?

R. Vejo que estamos consolidando uma nova fase da história da Terra e da Humanidade que é a fase planetá­ria. Depois da dispersão secular dos seres humanos por sobre as partes da Terra, agora estão voltando para o todo, para a única Casa Comum que é o planeta Terra. Somos e nos sentimos uma espécie, a espécie humana sapi­ens e demens, inteligente e demente, formando a família humana com os mais diferentes filhos e filhas. Mas não esta­mos ainda preparados para esta nova situação. Continuamos vivendo sob o paradigma da divisão, do império de uns sobre outros e da compartimentação das experiências. Importa estarmos à altura da novidade que se está reali­zando. Agora é a idade de ferro da glo­balização sob a regência do econó­mi­co-financeiro. Este se regula apenas pela competição sem qualquer sentido de cooperação. Somente a competição poderá levar-nos a um imenso impasse de falta de um centro articulador que se preocupa com o planeta e com seus habitantes como um todo. Por isso virá ainda ou se reforçará uma globalização política, ética e também espiritual. Eu pessoalmente vejo que precisamos de uma ética mínima que nos permita viver juntos, assentada em três virtudes bá­sicas, a hospitalidade como direito e dever de todos, a convivência pacífica entre os mais diferentes povos e cultu­ras, evitando assim o fundamentalismo e o terrorismo e por fim a comensali­dade, quer dizer, poder sentar juntos ao redor da mesa para comer e beber da generosidade da natureza e sen­tirmo-nos de facto como família humana. Estou seguro de que isso vai ocorrer um dia. Mas precisamos colocar estes fundamentos já agora para que a habi­tação inclua a todos não só os huma­nos mas todos os seres vivos que con­nosco participam desta aventura plane­tária no curto tempo que nos tocar viver sobre a Terra.

Como o senhor vê a emergên­cia das igrejas carismáticas popu­lares no Brasil?

R. Não considero tal facto nenhu­ma tragédia. Como luto pela biodiver­si­dade e a aprecio, aprecio também a diversidade religiosa e eclesial. A Deus ninguém viu e Ele habita numa luz ina­cessível como dizem as Escrituras ju­daico-cristãs. Então ninguém detém um saber exclusivo dele, como se a cada momento tivesse uma entrevista parti­cular com Ele. A Ele chegamos por via dos símbolos, das metáforas, dos ritos, das celebrações, das danças, da música e das artes. Cada caminho religioso e espiritual revela algo de Deus e Deus mesmo através destes caminhos visita os seus. A mesma coisa vale para as Igrejas. Todas elas são portadoras, com maior ou menor fidelidade, da he­rança de Jesus. Ninguém pode pre­tender ter tudo de Jesus. Nem pensa­ram assim os Apóstolos e Evangelistas que escreveram não um mas quatro evangelhos e São João no final do seu diz que se quisesse dizer tudo sobre Jesus o mundo seria pequeno para conter todos os livros. Portanto, não há que se espantar de que haja várias Igrejas. A Igreja Católica possui uma pretensão fundamentalista de ser a única herdeira legítima de Jesus. É pura ilusão. Aliás há outras Igrejas ca­tó­licas que não são a romana como a siríaca, a copta e outras, além da Igreja Ortodoxa grega e russa. Todas elas, por exemplo, não possuem a lei do celibato e nem por isso deixam de ser fiéis ao legado de Jesus. O povo bra­sileiro é singular, pois é um povo reli­gioso e místico. Ele não precisa crer em Deus. Sabe que Ele existe e o acom­panha em toda a sua vida. Crê que no caminho para Deus podemos somar muitas coisas, assumir ele­mentos de outras religiões, dos afro-descendentes, dos índios, dos protes­tantes, dos espíritas e dos católicos. Tudo termina em Deus. O povo não é dogmático nem fundamentalista, mas percebe Deus em todas estas mani­fes­ta­ções. Desta mística lhe vem a ale­gria de viver no meio de tanta miséria e guarda o sentido lúdico que se ma­nifesta no carnaval. Ocorre que as igrejas carismáticas populares aten­dem as classes mais marginalizadas, aquelas as quais ninguém dá valor e que são consideradas zeros económi­cos. Seus fiéis estão cheios de neces­sidades materiais e ao mesmo tempo têm fome de Deus. Estas igrejas desco­briram uma linguagem, que podemos discutir e até criticar, de falar ao pro­fundo destas pessoas e de devolver-lhes auto-estima e sentido de pertença. Sentem-se irmãos e irmãs e amados de Deus. Com isso ganham força para sobreviver e resistir à terrível opressão social pela qual passam. Recuso-me a criticar estas igrejas, com receio de que tiremos o último galhinho, o derra­deiro apoio que dá sentido a suas vi­das. Mas desejaria que elas introduzis­sem os temas do trabalho comunitário, da dignidade humana e dos direitos dos cidadãos. Elas são ainda muito milagreiras e para os destituídos anun­ciam o evangelho da prosperidade.

Que acha do movimento ca­ris­mático católico no Brasil?

R. Eu sou a favor de enfatizar a di­mensão carismática na Igreja pois ela rompe com o monopólio que os padres têm da palavra e da produção de bens simbólicos. Fui talvez o primeiro teólogo a sublinhar este aspecto no Brasil ainda nos inícios dos anos de 70, pois era o núcleo de minha tese doutoral, tão apoiada pelo então professor Joseph Ratzinger na Alemanha no final dos anos de 60. Mas no Brasil o movimento carismático católico aceitou a lógica das religiões de mercado. Estabeleceu-se uma espécie de concorrência: quem atrai mais fiéis é o bispo Macedo da Igreja Universal do Reino de Deus ou o padre Marcelo Rossi da Igreja Cató­lica? Criou-se a igreja mediática, do espectáculo, das multidões entretidas com a aeróbica divina. Os padres pare­cem mais animadores de auditório que evangelizadores. Os conteúdos são de uma pobreza intelectual espantosa. Can­ta-se e dança-se muito. Fala-se do Pai-Nosso, Pai de bondade. Mas quase nun­ca se ouve o Pão-Nosso e os temas da justiça e do empobrecimento de nos­so povo. Tanto o movimento do padre Rossi, quanto a Canção Nova, Shallom e Toca de Assis apresentam nítidos tra­ços fundamentalistas. Jamais fazem qualquer aceno de crítica à instituição. Antes, são bajuladores de padres e bispos. Nada sabem das oitenta mil co­munidades de base, de quase qui­nhen­tos mil círculos bíblicos e das pastorais da Igreja por terra, por tecto, por saúde, por escola, pelos meninos e meninas de rua. Cantam as flores mas esque­cem que o florista está sendo explorado e sendo despejado de sua casa por não ter como pagar aluguer. Tais temas são irrelevantes para esse tipo de evan­gelização. Ela é “moderna”, está no mercado mas sem qualquer sentido de crítica ao tipo de sociedade e de mundo em que vivemos e sofremos. Eles preci­sam ser ajudados a unir Pai-Nosso com Pão-Nosso, pois só assim poderão di­zer, de verdade, amen.

O que o senhor espera da V Assembleia do CELAM a decorrer na Aparecida?

Eu não espero muita coisa. Tam­bém não há muita coisa a inventar para a Igreja na América Latina. O im­por­tante seria reconfirmar as conquistas feitas pelo magistério dos bispos em suas várias assembleias: em Medel­lin (1968) o tema da libertação integral; em Puebla (1979) o tema da opção pelos pobres contra a pobreza; em Santo Domingo (1992) a inculturação da fé nas culturas oprimidas, dos po­bres, negros e índios. Nestas assem­bleias sempre se identificou que a causa maior mas não exclusiva de nossa miséria se deve ao sistema eco­nómico, político e cultural que se ins­talou desde os tempos da colónia que em termos directos se chama de capi­talismo, hoje em sua versão neo-liberal. Espero que esta lucidez esteja presente nos documentos de Aparecida. Um tema gostaria que fosse abordado: o do futuro do planeta, da vida e da Terra e de nossa responsabilidade global. Depois dos dados do IPCC vai mudar o estado de consciência da humanida­de. As Igrejas devem ajudar os fiéis a se adaptarem às mudanças climáticas e com os recursos próprios da religião a minorar os efeitos maléficos do aque­cimento global. A Amazónia brasileira é responsável, em grande parte, pelos climas do mundo. Temos que preservá-la como património comum da huma­nidade. Isso possivelmente estará na agenda de Aparecida. Se fizer isso terá cumprido sua missão histórica num mo­mento crítico da Terra e da Humani­dade.

(www.leonardoboff.com)



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