Textos do
Jornal Fraternizar

Edição nº 165 deAbril/Junho 2007

DESTAQUE 1

Se há restos mortais de Jesus,

significa isso que Jesus não ressuscitou?

* Maria Madalena, esposa de Jesus e mãe de um filho de ambos?!

Jesus volta a estar na berlinda. Ago­ra é um documentário cinemato­grá­fico, assinado pelo mesmo realiza­dor de Titanic, que tenta pôr em ques­tão o que há de verdadeiramente es­sen­cial no Cristianismo, a ressurreição de Jesus. O argumento de peso a fa­vor desta hipótese mirabolante, apre­sentada com todo o ar de tese, pelo menos no pensar-dizer da publicidade mundial que tem sido feita ao docu­men­tário é este: foi encontrado em Je­ru­salém um túmulo do século primeiro com restos de humanos que podem muito bem ser duma família judia. Os nomes inscritos no túmulo constam do Novo Testamento e remetem-nos para a possibilidade de serem da família de Jesus, inclusive, de um filho de Jesus e de Maria Madalena, chamado Judas.

É logo de suspeitar que o “picante” em toda esta estória não residirá tanto no “facto” ressurreição de Jesus poder ser definitivamente posto em causa, ao jeito de quem diz: se existe um túmulo com restos mortais de Jesus e de fami­lia­res de Jesus, isso é a prova provada de que Jesus, afinal, não ressuscitou. (Vejam só que argumento mais bobo, este, como se a ressurreição de Jesus pudesse ser entendida como a simples reanimação do cadáver de Jesus, qu­an­do ela o que pretende é revelar/anun­ciar uma dimensão totalmente ou­tra de Jesus crucificado, que o Tem­plo e o Império que o mataram nem sequer são capazes de suspeitar, mui­to menos reconhecer). O “picante” em toda esta estória estará em querer sa­ber se Jesus andou ou não perdido de amores com Maria Madalena, se ambos chegaram a casar e se, inclu­sive, tiveram um filho. O Código Da Vinci foi, se bem se lembram, o maior di­vul­gador desta delirante hipótese, o que garantiu ao seu hábil inventor, Dan Brown, milhões e milhões de dóla­res de lucro e deixou um enorme a­mar­go de boca nos milhões de incau­tos em todo o mundo ocidental que caíram no engodo e correram a com­prar e a ler o seu romance como se de um livro de história se tratasse, e só depois é que se deram conta de que, afinal, haviam sido levados e bem levados, porque tudo aquilo não passa de um romance, uma obra de ficção. Viram-se então na desconfortada situ­a­ção dos hilariantes “apanhados” tele­visivos. Só que aqui com graves danos morais e emocionais para as inúmeras vítimas desta sofisticada versão século XXI do conto do vigário.

Saibam, a propósito de todo este “picante”, que nem sequer os relatos evangélicos do Novo Testamento, ab­so­lutamente essenciais para poder­mos compreender a “alma” de Jesus e o seu projecto político do Reino de Deus, escondem que entre ele e Maria Madalena há uma relação muito espe­cial. Pelo contrário, apresentam-na até como paradigmática para todos os fu­turos discípulos de Jesus, elas e eles. Por isso, dão-lhe ainda muito mais des­ta­que do que à relação entre Jesus e Maria, sua mãe carnal. Esta também aparece realçada, mas bastante me­nos e quase sempre de modo negativo. Enquanto na relação entre Jesus e Ma­ria Madalena há manifestamente com­pa­nheirismo e comunhão de projecto, total identidade de pontos de vista e franco entendimento, inclusive ao nível da indispensável partilha de bens des­tinada a apoiar e a possibilitar a acção libertadora e misericordiosa de Jesus (cf. Lucas 8, 1-3), já entre Jesus e Ma­ria, sua mãe, há manifesto desenten­dimento, distanciamento, total desacor­do no projecto e na acção, ao ponto de sua mãe chegar a liderar um grupo de irmãos de Jesus que, num dado mo­mento crucial da vida militante dele, saem abruptamente ao seu encontro, determinados a detê-lo, na convicção de que ele só podia ter perdido por completo o juízo (cf. Marcos 3, 21; 31-35).

Foi a nossa Igreja católica, sobre­tu­do depois que aceitou tornar-se cons­tan­tiniana e imperial, a primeira a es­candalizar-se com esta relação de inti­midade e de total comunhão na acção entre Jesus e Maria Madalena, teste­munhada nos Evangelhos canónicos de forma ainda mais acentuada do que, por exemplo, a pretensa “tese” do primado de Pedro que a mesma Igre­ja constantiniana e imperial de­pres­sa aceitou e integrou, como se fos­se uma manifestação do próprio que­rer de Jesus, quando efectivamente não é. Do seu querer é precisamente o contrário, e Jesus tem até o cuidado de dizer ao grupo dos Doze, sempre a sonhar com o poder e com os pri­mei­ros lugares, que jamais fossem como os chefes das nações e os gran­des deste mundo, mas apenas simples servidores uns dos outros, uma vez que ele próprio viera não para ser servido mas para servir (cf. Marcos 10, 35-45). Foi também esta Igreja constantiniana e imperial que, a pretexto de que a­que­la relação de intimidade entre Je­sus e Maria Madalena, de raiz indubi­tavelmente jesuânica, dificilmente po­deria ser anunciada/acolhida no seio duma sociedade machista e patriarcal como era a do império romano e do mun­do helénico, tudo fez para a silen­ciar e impedir que ela viesse a fazer caminho no seu interior, de modo que, assim, ela própria pudesse perpe­tuar-se no tempo como Igreja total­men­te pensada e organizada à imagem e semelhança do Império romano e do seu Direito, e não ao jeito de Jesus, o de Nazaré, crucificado pelo Império e ao jeito do Evangelho.

Aliás, como poderia esta “nova” Igreja católica romana, nascida duma espúria aliança entre a sua cúpula e a cúpula do Império romano, dirigida por clérigos, simultaneamente privile­gia­dos funcionários do Império roma­no, continuar a aceitar Jesus-Maria Ma­dalena como o seu princípio fundador, como tão claramente o fazem, por exemplo, as Comunidades cristãs que estão na origem do Evangelho de João (cf. capítulo 20), se o relato desse prin­cí­pio fundador da Igreja começa por anunciar urbi et orbi, a Jerusalém e ao Império, como definitivamente vivo, aquele que acabara de ser crucificado pelo Templo e pelo Império, ao mesmo tempo que deixa cla­ro que ele nunca mais sairá da História, até que esta chegue a ser Reino de Deus em pleni­tu­de? Como é que semelhante boa notícia fundadora da Igreja podia fa­zer o seu curso no interior duma Igre­ja, como a de Roma, que havia caído na tentação de se tornar constanti­nia­na e imperial, bem ao jeito de César e não mais ao jeito de Jesus, o crucifi­ca­do por ele e ressuscitado por Deus, O-que-vive?

Pois bem, foi a partir desta histó­rica traição ao Evangelho, bem pior do que a traição atribuída a Judas Is­ca­riotes, que se inventaram e escre­veram as piores coisas acerca de Ma­ria Madalena, como se a vida privada dela antes de ter conhecido Jesus, ti­vesse sido de prostituição, a mais in­controlada e refinada (saibam que os “sete demónios” dos quais se diz que Jesus a libertou não são, como ensi­nam as catequeses moralistas eclesi­ás­ticas, a totalidade da Perversão. Os 7 “demónios” representam a totalida­de do Medo, todos os Medos, so­bre­tudo os inconscientes que oprimem e condicionam o viver histórico de cada ser humano que vem a este mundo e que, enquanto não forem “expulsos”, não nos deixam ser nós próprios. O que o relato evangélico quer então di­zer com esta referência é uma boa notí­cia a respeito de Maria Madalena, con­cre­tamente, que ela, depois que se en­controu com Jesus e aceitou fazer-se sua discípula e prosseguir o mesmo Projecto dele, experimentou-se Mulher radicalmente livre do Medo, de todos os medos, por isso, tão livre para amar e servir a Humanidade quanto Jesus, coisa que no Evangelho não se diz nunca de mais ninguém, muito menos dos homens que compunham o grupo dos Doze!). Com todas essas coisas su­jas que escreveram contra ela, pre­tendia-se denegri-la por todo o sem­pre, para que a autêntica Maria Mada­le­na, dos Evangelhos canónicos, dei­xasse para sempre de existir no imagi­nário das populações dominadas/con­troladas pelos clérigos católicos e, em seu lugar, passasse a figurar uma ou­tra, a Maria Madalena pecadora, a maior pecadora da História, arre­pendi­da, é certo, mas nunca a discí­pula paradigmática de Jesus para toda a Igreja, sem a qual nem sequer teria começado a haver Igreja.

Com esta difamação-crime, os da cúpula eclesiástica conseguiram dois objectivos, ambos perversos: a) Fize­ram esquecer por completo o princípio fundador da Igreja que é Jesus-Maria Madalena, manifestamente incompatí­vel com a Igreja Poder e de privilégios que eles haviam acabado de criar com a aliança que fizeram com o Império romano (basta dizer, por exemplo, que ainda hoje, entrados já no século XXI, o papa de Roma continua a ser, para as nações e estados do mundo, mais chefe-de-estado-do-Vaticano do que bispo de Roma, continua a remeter-nos mais para o poderoso César de Ro­­ma do que para o Crucificado Je­sus); b) desterraram as mulheres da Igreja (e, por arrastamento, da socie­dade em geral, enquanto esta foi con­tro­lada por eles) para os lugares e os papéis mais subalternos e humilhantes, nomeadamente, fizeram delas eternas zela­doras de altar, freiras sem sexua­li­­dade e sem vontade própria, criadas dos clérigos, mulheres de limpeza dos locais de culto, sempre olhadas como ten­tadoras e perigosas, permanente­men­te impuras, devido à perda cíclica do sangue menstrual, súbditas dos ma­ridos, menores que precisavam de tutor, cujos filhos e filhas nasciam ine­vi­ta­velmente em pecado, devido ao pecado da primeira de todas elas, Eva, sempre entendida como mulher de carne e osso, quando, afinal, não pas­sa duma figura mítica/literária dos poé­ticos relatos das origens, também do relato do Génesis das nossas Bí­blias.

É por isso imperioso e urgente res­gatar Maria Madalena do atoleiro moralista em que a meteram em todos estes séculos para trás, e deixar que ela volte a brilhar na nossa Igreja do Con­cílio Vaticano II, como a paradi­g­mática companheira/discípula de Je­sus, o de Nazaré, na qual todas as fu­tu­ras discípulas, todos os futuros discípulos de Jesus havemos de pôr os olhos. Não se trata, obviamente, de se ser companheira/companheiro de Jesus, na dimensão sexual-genital, manifestamente limitada ao espaço e ao tempo e apenas enquanto a morte biológica não lhe vem pôr termo de mo­do definitivo, mas sim na ilimitada dimensão teológica do Deus Amor/Aga­pê, que está já para lá da morte, ainda que possa e deva começar a ser vivida, como conspiração e insurreição/res­surreição, dentro do Tempo e no Espa­ço que são os de cada qual. Curiosa­mente, é este papel de “esposa”, em sen­tido puramente teológico, que ine­vitavelmente nos remete para o insu­perável poema Cântico dos Cânticos bíblico, que o Evangelho de João (ca­pítulo 20) não hesita em atribuir a Ma­ria Madalena, e, nela, a todas as futu­ras discípulas, todos os futuros discí­pulos de Jesus, naquele relato cheio de Encanto e de Mistério da manhã do primeiro dia da semana, como o pri­meiro dia do novo Génesis, com a mulher e o homem já definitivamente constituídos na Liberdade/Maioridade e na sororidade/fraternidade. E como a dizer/revelar que tais havemos de ser todas as mulheres, todos os ho­mens, em quem o Espírito do Ressusci­tado Jesus habitar por completo e de modo permanente. Tais mulheres, ho­mens não mais agirão movidos pela necessidade, mas apenas pela graça. Não mais amarão como quem conquis­ta e se apodera do amado, da amada para si, mas como quem se dá ao ama­do, à amada num agapê totalmente livre de interesses egoístas, puro dom, pura entrega, como numa Nova Cria­ção, e os dois se dão ao mundo como um fecundo Sopro que sempre liberta e visa suscitar autonomias, lá por onde PASSAR.

É manifesto que esta dimensão exem­plar e paradigmática de Maria Ma­dalena, como discípula/companhei­ra/esposa de Jesus, entendida em sen­tido teológico, tem sido sistemati­ca­mente escondida pela Igreja, nome­a­damente, pela sua hierarquia. Esta não abre mão do poder e dos privilé­gios com que se fez rodear através dos séculos. Ela sabe que no dia em que Maria Madalena reaparecer em plena luz como o paradigma de discí­pula, discípulo de Jesus, nunca mais a nossa Igreja católica poderá continu­ar a ser Igreja constantiniana e imperi­al, hierárquica e de Poder. Terá de vol­tar a ser o que sempre deveria ter sido até hoje: Igreja ao jeito de Jesus-Maria Madalena, por isso, radicalmen­te inclusiva e igualitária, mais femini­na que masculina, mais ternura que poder, mais carisma que instituição, mais humana que divina, mais mise­ricórdia que autoridade, mais política que religião, mais mundo que santuá­rio, numa palavra, mais Jesus que Cris­to. Desde que Cristo/Verbo se fez ser humano em Jesus, o de Nazaré, não há mais Cristo fora dele, fora do huma­no, dos seres humanos concretos que somos todas, todos nós, qualquer que seja a cor da pele, a língua e a cultura, que nos possa libertar/salvar. Mas in­felizmente é o que mais nos têm dado, nestes dois mil anos de Cristianismo ecle­siástico, um Cristo sem Jesus, o de Nazaré, ou um Cristo com Jesus, mas um Jesus inteiramente mítico, não o de Nazaré que acabou crucificado e como o maldito. Eis no que deu a aliança Império-Igreja católica, que o Concílio Vaticano II bem quis enterrar para sempre, mas que a Cúria Romana e a hierarquia eclesiástica (bispos re­sidenciais e párocos em união com eles) não estão dispostos a consentir e tudo fazem, consciente ou inconscien­temente, para que não aconteça nunca. O combate é duélico e contra o Espírito Santo, contra o Espírito de Jesus, o Cru­cificado que Deus ressuscitou. A minha alegria maior é saber que a Cúria ro­ma­na e a hierarquia eclesiástica acaba­rão por perder. À medida que a História avança, a Cúria romana e a hierarquia eclesiástica perderão credibilidade e terreno. E se persistirem na delas, aca­ba­rão a falar sozinhas. Não é com elas que o Espírito de Jesus ressuscitado está. É com a Humanidade, a partir da mais oprimida e empobrecida. É sobre­tudo com as vítimas delas e do Império que Ele está. E trabalha, ininterrupta­mente, na edificação do Reino de Deus na História. A sua arma é a Ternura con­tra o Poder, a Debilidade contra a Arrogância, a Fecundidade contra o Lu­cro, o Amor contra o Ódio, o Carisma contra o Institucional, a Fé contra o Me­do, a Liberdade contra Cretinice, a Luz contra o Obscurantismo, a Verdade con­tra a Mentira, a Prática política libertado­ra contra o Rito, numa palavra, Maria Madalena contra a Hierarquia e Jesus, o de Nazaré, contra o Mito.

É para aqui que aponta o aconteci­mento teológico da Ressurreição de Jesus, o de Nazaré que foi crucificado pelo Templo e pelo Império. Não se tra­ta de afirmar a reanimação do seu cadáver (de pouco valia, pois voltaria a morrer daí a uns tempos!), mas de proclamar que Deus Vivo é com ele que está e não com os seus carrascos ou ver­dugos; é com ele que está e não com os sacerdotes do Templo e os po­de­rosos do Império. E, se é com ele que Deus Vivo está, então também está com todas as vítimas da História, com todas as vítimas dos sacerdotes do Tem­plo e dos poderosos do Império. Deste modo, afirmar que Deus ressuscitou Je­sus é perfeitamente compatível com a existência do cadáver de Jesus e a exis­tência de um túmulo com o nome de Jesus. Saibam, duma vez por todas, que Jesus já era ressuscitado e o seu ca­dáver ainda estava pregado na cruz. Jesus já era Jesus-com-Deus-para-sempre (é outra maneira de dizer Res­surreição), quando o seu cadáver foi tirado da cruz e lançado à vala comum pelos soldados romanos.

O primeiro ser humano da História a cair na conta deste subversivo e cons­pirativo Evangelho que muda ra­di­cal­mente o sentido da História e lhe garante plena realização, é Maria Ma­da­lena, por isso muito justamente cha­ma­da apóstola dos apóstolos. Não é ne­nhum homem do grupo do Doze, de resto, totalmente desfeito com a tríplice negação de Simão Pedro, o primeiro da lista, e a traição de Judas Iscariotes, o último da lista, e com a fuga/deserção de todos (como é que alguns na Igreja ainda hoje pretendem apresentar-se aos irmãos e irmãs na Fé, como suces­so­res deles? Não é a pensar no poder e nos privilégios que o fazem? Acham que é a pensar no serviço martirial e duélico à Causa do Evangelho e de Je­sus?).

É, por isso, a Maria Madalena, mui­to mais do que a Pedro, que temos de regressar como Igreja católica. Qu­an­to antes. Ontem já era tarde. Se o não fizermos, ficaremos em guerra aber­ta contra o Espírito Santo. E não tere­mos futuro como Igreja católica. As por­tas do Abismo/Inferno levarão mesmo a melhor sobre ela! Não esqueçam que é de Jesus, o do Evangelho de Mateus (16, 18-19), esta advertência. Porque então se­ría­mos uma Igreja que, de for­ma contumaz, não liga na terra tudo o que Deus Vivo liga no céu, nem desliga na terra tudo o que Deus Vivo desliga no céu. Seríamos uma Igreja com inte­res­ses diametralmente opostos aos de Deus, o de Jesus. Com um projecto que não é o de Deus, o de Jesus. Um projecto que Maria Madalena soube fazer seu para sempre. Ao contrário duma Igreja que teimasse em manter-se constantiniana e imperial para sempre.


DESTAQUE 2

Carta aberta do pe. Mário aos seus irmãos Bispos

Fátima 1917-2007: 90 anos de Mentira,

a mais cruel, e de crime, o mais horrendo

Meus irmãos Bispos

1. Completam-se, agora, como sabeis, 90 anos (1917-2007) sobre a grosseira mentira, posta a circular em 1917 no nosso país acerca dumas pseudo aparições de nossa senhora, sempre ao dia 13 de cada mês e durante seis meses consecutivos, de Maio a Outubro, a três crianças da freguesia de Fátima. Uma mentira que alguns párocos de Ourém e arredores logo habilmente aproveitaram (se é que não foram eles próprios os seus inventores, como tudo leva a crer que sim) e, depois, tudo fizeram para que ela fosse acolhida e interiorizada pelas populações católicas como a maior das verdades. Este crime sem perdão, que também perfaz um pecado contra o Espírito Santo viria a ser publicamente corroborado e apoiado, não muito tempo depois, por alguns bispos residenciais do país, nomeadamente, de Lisboa, Évora, Beja, Faro, Coimbra, Braga, Angra, Funchal e até do Porto, numa operação concertada, com tudo de maquiavélico e de perverso. Aliás, a diocese do Porto até cedeu um dos seus padres cónegos para 1.º Bispo residencial da Diocese de Leiria, restaurada, poucos meses depois (e não se diga que foi mera coincidência!). D. José Alves Correia viria a revelar-se como a principal peça-chave na consolidação definitiva de toda esta ignomínia.

2. A grosseira mentira teve, por isso, desde a primeira hora, pés para andar, até porque, além do mais, as populações católicas do país eram na altura (infelizmente, ainda hoje são!) populações esmagadoramente analfabetas em teologia jesuânica e viviam, por aqueles dias, visivelmente desorientadas e em pânico, devido à recente implantação da República e às drásticas medidas que aquela não se inibiu de tomar, e bem, contra os seculares e até então intocáveis privilégios do clero e da Igreja católica romana em Portugal.

Por outro lado, eram também populações completamente aterrorizadas por catequeses e pregações terroristas, proferidas noite dentro ou antes do nascer do sol, à luz fantasmagórica de velas (não havia luz eléctrica), proferidas do alto dos púlpitos paroquiais pelos padres da chamada Santa Missão, todas elas inspiradas no mais terrorista dos livros portugueses do século XIX que dá pelo nome de Missão Abreviada, escrito por um padre português, de seu nome Manoel Couto, ele próprio um perturbado e aterrorizado capelão de freiras em Chaves que via demónios em todo o lado, pecados mortais em todas as acções dos seres humanos, mesmo as mais inocentes, como dançar, namorar, abraçar e beijar, e horrendos castigos de Deus concretizados em insuportáveis labaredas do inferno que torturavam e faziam ganir como cães raivosos, dia e noite e por toda a eternidade, as almas dos pobres pecadores condenados, praticamente todas as pessoas até então falecidas (basta ver que, no dizer dessas terroristas catequeses e pregações, era mais fácil encontrar um corvo branco do que salvar-se uma alma!!!).

3. Digo-vos aqui publicamente, meus irmãos Bispos, e sem que a voz e a mão me tremam: São 90 anos de mentira, a mais grosseira e a mais cruel. E 90 anos de crime, o mais blasfemo e o mais horrendo, porque os seus mentores e divulgadores não hesitaram nem hesitam em meter os nomes de Deus, de Jesus e de Maria, sua mãe, em todo este “cozinhado” eclesiástico-católico sem pés nem cabeça, convertido, com o passar dos anos, numa engenhosa fábrica de fazer dinheiro sem paralelo no resto do país, porventura, até na Europa, totalmente isento de impostos (não é por acaso que qualquer congregação religiosa de frades ou de freiras não descansou, enquanto não conseguiu abrir uma casa em Fátima, o mais espaçosa possível, para nela acolher “peregrinos”, pois claro!), e num espaço-altar onde se promove e alimenta um certo tipo de cristianismo católico desgraçado, sem dúvida, o principal responsável por muito do saudável ateísmo generalizado com que hoje estamos cada vez mais confrontados no país e na Europa ocidental. (E como se não bastassem a enorme basílica-túmulo que lá funciona e a espaçosa esplanada com a sua capelinha-cofreforte-ou-banco, ainda se lhes junta este ano mais uma medonha Igreja, denominada da SS.ª Trindade, como se Deus Vivo, o de Jesus, alguma vez vivesse em templos construídos pela mão dos homens, nomeadamente, os homens do poder e dos privilégios, como são os clérigos que nesses locais, mentirosamente ditos sagrados, a tudo presidem como pequenos deuses infalíveis e intocáveis!...)

4. Quem lê com um mínimo de atenção ilustrada e evangélica e também com um mínimo de sentido de dignidade humana, a Documentação Critica de Fátima (hoje, já com vários volumes publicados), compilada com o propósito expresso de justificar cientificamente a veracidade das “aparições”, só pode concluir que, do primeiro ao último momento, tudo aquilo está atolado/conspurcado por pés, mãos e cabeças de clérigos e de bispos residenciais, completamente esvaziados de teologia jesuânica, todos firmemente apostados em impor aquela grosseira mentira ao país e ao mundo. Não há em todo o processo uma única voz dotada de bom senso e de sanidade mental e teológica. Todos os intervenientes actuam manifestamente com o típico espírito de zelosos “cruzados de Fátima”, numa causa que a hierarquia católica por nada deste mundo quis que ficasse pelo caminho, porque representava o seu maior trunfo-vingança contra a República e contra os seus nobres ideais de Verdade, de Liberdade, de Igualdade, de Justiça e de Dignidade humana.

5. O processo que se arrastou, ao longo destes últimos 90 anos e vai certamente prosseguir por muitos mais tem infelizmente contado com a criminosa cumplicidade, feita de distanciamento e de silêncio, de intelectuais católicos e não católicos, inclusive de teólogos e biblistas de todas as Igrejas, que teimam em optar pelo faz-de-conta, como se não fosse nada com eles. E, assim, o que pode ter começado por ser um ingénuo teatrinho catequético, concebido pelos padres da Santa Missão para tentar impor às populações das aldeias a reza do terço, a pia devoção ao Imaculado Coração de Maria e a confissão mensal, e também para meter algum “medo” e “respeito” aos “maçons”que fizeram a revolução da República, engrossou depois, através dos tempos, como um caudal de águas envenenadas, sempre com novos e surpreendentes dados, que nem os principais protagonistas de 1917 conheciam, e que foram sucessivamente acrescentados por clérigos sem escrúpulos, segundo as necessidades e as conveniências de cada momento histórico.

As delirantes Memórias da Irmã Lúcia, iniciadas em 1935 por pressão desses mesmos clérigos que faziam da pobre freira gato-sapato, são, neste particular, o que há de mais aberrante exemplo de manipulação clerical e de delírio eclesiástico. Mas são essas famigeradas Memórias que estão na origem da chamada “Fátima Dois”, por sinal, ainda totalmente desconhecida à data (1930) em que o 1.º Bispo de Leiria publicou a sua Carta Pastoral a dar como “dignas de crédito” as aparições e toda a mentira de Fátima que elas objectivamente constituem. Será que vós, meus irmãos bispos, não sabeis estas coisas? Será que preferis ser cegos e guias cegos?

6. Na retaguarda de toda esta mentira, tem estado sempre, desde o primeiro momento até aos nossos dias, um núcleo duro de cérebros clericais, poucos, mas bem concertados entre si. Ora, vestiram o papel de jornalistas que faziam caricatas perguntas às três crianças, ou o papel de inquiridores sobre o “fenómeno”, junto de crédulos e submissos paroquianos escolhidos a dedo. Eles próprios deram as respostas a essas perguntas como melhor convinha aos seus maquiavélicos propósitos (nada foi deixado ao acaso, mas foi assim que nasceu a chamada Documentação crítica de Fátima, toda ela cheia de parra e uva nenhuma, compilada/tratada “cientificamente” e editada, também ela por outros clérigos!); ora vestiram o papel de confessores e de directores espirituais das crianças, sobretudo da sobrevivente Lúcia, depois que esta foi empurrada por eles para a vida de freira de clausura (uma barbaridade sem nome, muito pior do que um ocasional crime de pedofilia!); ora vestiram e ainda vestem o papel de bispos que tudo aprovam e justificam como do interesse de Deus (para este tipo de eclesiásticos, os interesses da Igreja, mesmo os mais inconfessáveis e perversos são sempre interesses de Deus!); e, finalmente, até vestiram o papel de papa de Roma, com destaque para o polaco João Paulo II, um compulsivo fatimista primário, porventura bem-intencionado, mas que tudo tentou para levar de novo a Igreja do Vaticano II aos tempos e às alienantes devoções pre-conciliares, sem se aperceber que todas elas são pagãs, deístas, inumanas, e referentes ao universo religioso das deusas e dos deuses inventados por ancestrais medos das populações não ilustradas e não evangelizadas.

7. Como já disse, nada foi deixado ao acaso, desde o primeiro instante. Até que, em Outubro de 1930, a Mentira das aparições foi declarada digna de crédito pelo 1.º Bispo da restaurada diocese de Leiria, mediante uma Carta Pastoral que, só por si, deveria fazer corar de vergonha a Igreja do Concílio Vaticano II. O documento episcopal, datado de 13 de Outubro de 1930 foi publicado na íntegra, três dias antes, na edição de 10 de Outubro pelo diário católico “Novidades”!!! Apoia-se todo ele num extenso e prolixo Relatório, escrito pelo Cónego Nunes Formigão (querem agora beatificá-lo e canonizá-lo, certamente como recompensa pelos serviços que prestou à causa da mentira de Fátima!), o qual, por sua vez, quase se limita a transcrever pedaços inteiros dos delirantes livros que ele próprio havia escrito e editado anteriormente, sempre sob o pseudónimo de Visconde de Montelo, com o notório objectivo de impor como verdade a mentira de Fátima ao país e ao mundo.

8. A data escolhida para a aprovação oficial da mentira de Fátima também não foi inocente. O Estado Novo de Salazar dava então os primeiros passos e carecia como de pão para a boca duma mãozinha do “céu” (entenda-se, dos clérigos católicos) para se impor definitivamente no país contra a República de 1910 e contra os seus nobres ideais (e não é que há até uma carta atribuída à delirante Irmã Lúcia que fala de Salazar como o escolhido por Deus para conduzir de novo o nosso país aos caminhos da religião católica?!). Ora, como um favor com outro favor se paga, Salazar, uma vez consolidado no Poder, lá assinou a Concordata com o Estado do Vaticano e restituiu à Igreja portuguesa os privilégios dos clérigos e muito do património eclesiástico anteriormente nacionalizado.

9. Entretanto, das três crianças instrumentalizadas para ajudar a dar corpo à mentira de Fátima, todas elas de muito tenra idade e sem saberem ler nem escrever, Jacinta e Francisco eram irmãos de sangue, primos e vizinhos de Lúcia, a mais velhinha, a quem por isso coube naturalmente o papel de actriz principal em todo aquele teatrinho de mau gosto. Foi também a única que sobreviveu a todo aquele frenético alvoroço eclesiástico das pseudo-aparições, já que Jacinta e Francisco, de tão fragilizados e aterrorizados pelo medo do inferno incutido pelos pregadores da Santa Missão não resistiram à pneumónica que, pouco tempo depois da mentira de Fátima, grassou na região e dizimou muita gente (como vêem, meus irmãos Bispos, nem a senhora de Fátima, com tanta fama de milagreira lhes valeu, nem valeu às populações empobrecidas da região). Mas o que ainda mais dói, na morte antes de tempo destas duas crianças irmãs é o escandaloso abandono a que Jacinta e Francisco foram votados, durante a doença, por parte dos clérigos que as utilizaram, como a deixar perceber que até lhes convinha que elas morressem. A mentira de Fátima teria assim mais facilmente pés para andar. O que veio a suceder, sobretudo depois que conseguiram manter sequestrada por toda a vida e em progressivo estado de delírio, a única sobrevivente, Lúcia.

10. Eis, meus irmãos Bispos o que achei por bem dizer-vos nesta ocasião dos 90 anos da mentira de Fátima. Não me queirais mal por isso. Sabei que o que me move é o amor à causa do Evangelho que, como presbítero da Igreja do Porto, me cumpre anunciar oportuna e inoportunamente. Ai de mim, se não evangelizar. Bem sei que a mentira de Fátima é por vós oficialmente apresentada, desde a primeira hora, como uma epifania de Deus. Mas esse é o seu pecado maior. Porque a Deus, o de Jesus, nunca ninguém o viu nem verá. “O Filho unigénito, que é Deus e está no seio do Pai, é que O deu a conhecer" (Jo 1, 18). Sabeis como eu que o que não for assim é mentira, delírio, perversão demoníaca. Nem argumenteis que há fenómenos que nos ultrapassam e que não somos capazes de explicar. Porque, em nome da Fé de Jesus, uma coisa sempre teremos de dizer: Pois se não sabeis explicar este ou aquele fenómeno, investigai mais, até conseguirdes. E, enquanto não conseguirdes, livrai-vos de, em momento algum admitir que pode ser uma manifestação miraculosa de Deus. Nesse momento, abristes a porta à idolatria, a mais abjecta. E não será por sermos um país caído em idolatria, praticamente desde a fundação da nacionalidade, que somos hoje o povo que somos? Pensai nisto que vos digo, meus irmãos bispos. E, se tiverdes coragem, mudai radicalmente de vida e de Deus. Abandonai o falso Deus da senhora de Fátima, com tudo de vampiro e de demoníaco, e deixai-vos amar/conduzir pelo Deus Vivo, o de Jesus. E de Maria. Deixo-vos o meu afecto e a minha paz.



EDITORIAL

História, lugar e Deus

É Jesus, o de Nazaré, quem nos revela com a sua prática política liber­ta­dora e a sua palavra fecundamente maiêutica que a História sempre foi e há-de continuar a ser o grande palco onde o Espírito de Deus trabalha dia e noite sem descanso. A Boa No­tí­cia, de tão inesperada e tão contra a cor­rente do multi-secular sentir-dizer-fazer das Religiões, continua aí, ainda hoje, a esbarrar com a resistência da gene­ra­lidade das populações e dos po­vos, tra­dicionalmente educados/en­quadra­dos por elas. E - o que é verda­deira­men­te chocante - continua a es­barrar também com a resistência das grandes Igrejas que, não muitos anos depois da Morte cru­cificada de Jesus, se vie­ram a constituir em seu nome e em sua memória.

A História como lugar teológico e co­mo kairós, ou tempo favorável nunca soou bem aos ouvidos dos religiosos e dos eclesiásti­cos, nomeadamente, quando eles se con­cebem a si mesmos - há lá auto-engano maior?! - como sa­cer­dotes ou pastores constituídos pelo próprio Deus para actuarem em seu no­­me em es­paços sagrados e reserva­dos ao cul­to religioso, regra geral, um culto sem cul­tura e sem profecia. No seu entendi­men­to, a História é de­ma­siado profana para poder ser atra­ves­sada por Deus, o totalmente Outro, e fe­cundada pel­o seu Espírito Criador. Deus, dizem, só está pre­sente e actuan­te em espaços pre­via­men­te seleccio­na­dos e consa­gra­dos. E quem quiser es­tar com Ele, be­neficiar da sua Pre­sen­ça e da sua Ac­ção, tem que des­lo­car-se a esses es­paços previamente se­leccio­nados e con­­sagrados e reco­nhe­cer/a­cei­tar a me­­diação dos sa­cer­do­tes e dos pas­tores escolhidos pelo próprio Deus para esse fim. Em vez de lugar teoló­gico, a História é, no enten­­der-di­zer destes religiosos, o palco pri­vi­le­gi­ado do pe­cado, do pro­fano, do sem-sentido, numa palavra, da perdi­ção/condenação da Hu­manidade.

Chegou-se, inclusive, a dada al­tu­ra, a falar de "fuga do mundo", que é o mesmo que dizer fuga da História, como modo privilegiado de encontrar Deus e de beneficiar da sua Presença e das suas bênçãos. Não se pense que seme­lhante mentalidade está hoje já definitiva­men­te ultrapassada. Não está. Aí estão a confirmá-lo as ordens religi­o­sas de estrita clausura, a apontar no li­mite às populações e aos povos es­te caminho dos seres humanos para Deus e de Deus para os seres humanos. De resto, a pró­pria Igreja católica, quando pen­sa em beatificar/canonizar alguém, é sobretu­do nesse universo que costu­ma fa­zer a sua selecção. Porque as pes­­­soas que optaram por viver no Pro­fano, na His­tória, à intempérie, não são modelo de ser humano para ninguém. Porque o profano, em última instância, afasta de Deus, diz ela.

Jesus, o de Nazaré, pensa/diz exa­ctamen­te o contrário. A História/o Pro­fano é o único lugar teológico onde Deus, o de Jesus, se nos revela. Ou Deus encontra-nos e encontra-se con­nosco no Profano, na História, ou não passará de um ídolo, feito por nós à nos­­sa imagem e seme­lhança, e bem à medida dos nossos medos, dos nossos interesses e das nossas ambições.

Será até por isso que as grandes Igrejas não gostam de Jesus, esse mes­mo que foi crucificado, morto e se­pul­tado. É demasiado profano e dema­si­ado histórico para poder ser de Deus, dizem.

O curioso é que, ao pensarem as­sim, as Igrejas mais não fazem do que subs­crever a veredicto oficial dos sa­cer­do­tes  do Templo de Jerusalém e dos seus teólogos de serviço, no qual atri­buíam a Belzebu, entendido na altu­ra como o chefe dos demónios, tudo o que Jesus fazia e dizia, tão às avessas do que eles oficialmente diziam e fazi­am. Compreende-se. Para poder ser de Deus o que eles di­ziam e faziam, só podia ser do Diabo o que Jesus fazia e dizia. E a verdade é que Jesus aca­bou crucificado sob Póncio Pilatos, pro­curador do Império Romano na Judeia, por instigação e pres­são dos sacerdo­tes, e estes pude­ram prosseguir, de­pois do crime, com as suas funções sa­gradas, como se nada fosse.

É certo que as primeiras comuni­dades cristãs vieram, algum tempo de­pois, muito provavelmente, alguns anos depois (é o que significa a ex­pressão evangélica "terceiro dia"), di­zer-teste­munhar que Jesus crucificado é o Res­suscitado por Deus e, com esta pro­cla­mação, testemunham também que é com Jesus que Deus Vivo e o seu Es­pírito estão, não com os sacer­dotes do Templo nem com o represen­tante do Império. Mas, até hoje, os sa­cer­dotes das Religiões e os represen­tantes do Império não acreditaram nes­te seu tes­te­munho. E a prova é que têm prosse­guido nos seus negócios e nas suas ide­o­logias feitas de mentira, como se Acontecimento Jesus nunca tivesse exis­tido.

As próprias Igre­jas, no­mea­damen­te, as grandes, que sem­pre gostam de se auto-apresentar como con­tinuadoras das primi­tivas co­munida­des cristãs, ali­nham pelo mes­mo diapa­são, embora não deixem de afir­mar que reú­nem em no­me e em me­mó­ria de Jesus. Dificil­mente, será o Je­sus Crucificado pelos sacerdotes do Templo e pelos repre­sen­tantes do Im­pério, o único, aliás, que Deus ressus­ci­tou, isto é, o único que Deus reconhe­ce como o seu filho muito amado e em quem se nos deu de­finitivamente a co­nhecer.

Só pode ser então um Jesus habil­men­te fabricado pelas grandes Igrejas à sua imagem e semelhança, à imagem e semelhança do Templo e do Império, por isso, um Jesus sem Espírito, que elas/eles podem ma­nipular a seu belo pra­zer. O nome é o mesmo, mas é outro o seu ser, a sua substância. De Jesus, a víti­ma histórica por antonomásia do Im­pério e do Templo, passou a Jesus, o deus oficial do Império e do Templo, com direito a culto público nos santuá­rios, presidido sistemática e exclusiva­mente por sacerdotes, defendido/pro­te­gido e, por vezes, imposto pelos sol­da­dos e outros funcionários do Impé­rio. Numa adúltera e execrável aliança que, além do mais, serve para conti­nu­ar a impor a todos os povos como de Deus a presente Ordem Económica Mundial, constitutivamente perversa, contra a qual ninguém poderá conspi­rar, muito menos, poderá subverter e der­rubar. E, se o tentar, nunca deverá ser tomado a sério pelo conjunto dos ci­dadãos que se prezam e, se for rein­ci­dente e conseguir gerar um movimen­to social com significativa dimensão, lo­go deve­rá ser desacreditado e, final­mente, ba­ni­do da face da terra, como um mal­dito. "Vão deitar-vos as mãos e perseguir-vos, entregar-vos às sinago­gas e meter-vos nas prisões; hão-de conduzir-vos perante reis e governa­do­res, por causa do meu Nome (...) Se­reis entregues até pelos pais, irmãos, parentes e amigos. Hão-de causar a mor­te a alguns de vós e sereis odiados por todos, por causa do meu Nome. Mas não se perderá um só cabelo da vossa cabeça. Pela vossa constância é que sereis salvos." (Lc 21, 12-19)

Por estas palavras de Jesus, o de Nazaré, temos de reconhecer que ele sempre se assumiu, no seu tempo e país, como um homem na História, in­clu­sive no coração dos conflitos de que a História também é feita. Temos de re­­co­nhecer, igualmente, que Jesus sem­pre tomou partido pelas vítimas, até acabar por se tornar uma delas, no gest­o maior que a solidariedade é ca­paz de protagonizar na História. Como podemos então aquelas, aqueles que nos recla­mamos de suas discípulas, seus discípulos inverter totalmente a situação e sair/fugir da História, das lu­tas políticas pela Justiça, dos comba­tes políticos pelo Pão Repartido e pela Dignidade roubada às maiorias empo­bre­ci­das e oprimidas, dos conflitos polí­ticos, que podem chegar a ser duélicos, pela Verdade que é sistematicamente man­tida cativa na injusta Ordem Mundial do Dinheiro e do Poder?

É a Política que salvará o mundo. O Poder oprime-o e mata-o sem dó nem piedade. Hoje, mais do que nunca, está à vista de todos os povos que é as­sim. Nunca o Poder foi tanto e tão con­­centrado nas mãos de poucos. Nun­ca como hoje a Humanidade esteve tão à mercê de loucos que podem des­truí-la de um momento para o outro. E também nunca como hoje as possibili­da­des e as potencialidades para mu­dar/salvar o mundo foram tantas e tão realizáveis. Mas as possibilidades e as potencialidades nas mãos do Poder são mais Morte e mais Opressão para os povos. Só a Política salvará o Mun­do. A prática libertadora e a palavra fe­­cundamente maiêutica de Jesus, o de Nazaré, é isto que revelam, que só a Política salvará o Mundo. Por isso, Jesus não correu a fundar uma religião, nem a revitalizar a religião do seu povo. Meteu-se até à perda/entrega da pró­pria vida na prática política de abrir os olhos da consciência às maiorias que a minoria do Poder mantinha cegas a vida inteira. E outra coisa não quer que façamos nós, suas discípulas, seus discípulos. Vosso,

Mário, presbítero.


ESPAÇO ABERTO

Manuel Sérgio

Reitor do Instituto Piaget

Por um Socialismo do século XXI

1. Em O que é a filosofia? lembra Ortega y Gasset que, no Sofista, Platão define a filosofia como a ciência dos desportistas. Se a realidade é ontolo­gicamente fixa, imóvel, ou em estado de permanente devir, qualquer filósofo de inteligência pronta e espírito vivo en­contra aí vários motivos de reflexão. “De facto, o homem revela-se numa per­feita continuidade biológica com aquilo que o precede. Em contrapartida, a des­­continuidade humana situa-se  num pla­no totalmente diferente e constitui um fenómeno extraordinário: trata-se de uma evolução de comportamentos, de uma etiologia que, no essencial, dei­xou de ser determinada por fenóme­nos biológicos. No caso da vida, é a pri­meira célula que cria o substracto da evolução (a evolução biológica); no caso do homem, é o momento a partir do qual, em virtude de uma evolução bio­lógica, o ser humano começa a en­gendrar uma cultura que interage com as suas possibilidades cognitivas. A partir daí, a sua evolução comporta­men­tal e o desenvolvimento das suas ca­pacidades técnicas cessam total­mente de ser algo de biológico e pas­sam a ser exclusivamente de ordem cultural” (Albert Jacquard e Axel Kahn: O Futuro não está escrito, Instituto Pia­get, Lisboa, 2004, p. 29). Na reali­dade, “a transmissão da maior parte dos comportamentos não se deve aos genes” (idem, ibidem, p. 69). Que o mes­mo é dizer: o determinismo biológi­co tem os seus limites. Darwin não o en­tendia assim: com o domínio dos me­canismos da evolução e das leis da na­tu­reza, encontrar-se-ia a chave da com­preensão da produção cultural hu­ma­na.

Não sou um perito na matéria, mas julgo que, hoje, a sociobiologia diz o mesmo.

 No entanto, será possível o pro­gresso com o itinerário que aponta a “lei do mais forte” e com os desmandos que dela decorrem? É possível ponderar o progresso, sem solidariedade social? “A teoria liberal baseia-se na apologia do egoísmo. Quando lemos Adam Smi­th, encontramos este tipo de asser­ção: se temos pão para nos alimentarmos, isso não se deve à bondade do padeiro mas, bem pelo contrário, ao seu egoís­mo. Com efeito, o padeiro dirigiu-se ao mer­cado a fim de vender o seu pão o mais caro possível e, ao mesmo tempo, outros foram lá comprar o seu pão o me­nos caro possível. Ora, segundo A­dam Smith, é do encontro desses egoís­mos que resulta o optimum colectivo. A visão actual dos americanos é abso­lutamente idêntica: sejamos egoístas, pois dessa forma contribuiremos para melhorar a sorte colectiva” (idem, ibi­dem, pp. 101/102).

Jean-Pierre Dupuy alerta para o fa­cto de uma primeira série dos argumen­tos adiantados por Hayek (um liberal confesso) já se encontra gravada por Rawls, na sua Teoria da Justiça. “Os resultados do mercado são em si mes­mos desprovidos de qualquer valor moral. São eticamente cegos. Tudo o que se pede ao mercado é que seja efi­caz” (Ética e Filosofia da Acção, Ins­tituto Piaget, Lisboa, 2001, p. 299). As desigualdades chocantes, as confla­grações mundiais, a ausência de rela­ção dialógica, a globalização da injus­ti­ça social compõem este cenário que o neoliberalismo promove e que a em­bria­guez do lucro tornará absolutamen­te insuportável. Francis Fukuyama jul­gou-se um jovem impertinente que se per­mitia atitudes rebeldes quando refe­riu a democracia liberal como o “fim da História”. Demais, os aplausos estru­giram, entre aqueles que o rodeavam. Ora, o fim da História será o fim da hu­manidade – o que não se vislumbra, à vista desarmada. E, porque a flecha do tempo é incontornável, procuremos, por entre a crise do capitalismo, os no­vos paradigmas para as novas e incó­mo­das questões que percorrem os nos­sos dias. O socialismo é, no mundo da política, o primeiro dos paradigmas fa­voritos...

2. Leio o livro de Umberto Eco, A Pas­so de Caranguejo, e lá encontro o seguinte: “Em geral, as ditaduras pre­cisam de manter o consenso popular, em relação às suas decisões e, por isso, denunciam a existência de um país, de um grupo, de uma raça, ou de uma sociedade secreta, que conspi­ram contra o povo dominado pelo dita­dor. Todas as formas de populismo, in­cluindo o contemporâneo, procuram ob­ter o consenso, através de uma su­posta ameaça, que tanto pode vir do exterior como de grupos internos” (p. 54). Umberto Eco apresenta depois dois exemplos paradigmáticos de demago­gia ditatorial: Hitler e Mussolini. Eles de­cidiam tudo por conta própria  mas, porque aos seus discursos assistiam multidões de basbaques acríticos, em­purrados e ordenados pelas “forças da ordem”, logo eles proclamavam que o po­vo aceitava, com irrestrita confiança, as suas deliberações. Ao mesmo tem­po, as centrais de manipulação da opi­ni­ão pública não cessavam de repetir que os ditadores, para além do seu pa­triotismo inultrapassável, eram mentes claras, previsoras, lucidíssimas. E o po­vo acreditava, ou era obrigado a acre­ditar. Estaline, por exemplo, conseguiu mesmo fazer do marxismo não uma filo­sofia, mas uma crença dogmática que ca­nonizava o socialismo científico. Por­que se julgam possuidores da Verdade, os ditadores, designadamente os de es­querda, são os grandes aliados do neo­liberalismo que nos sufoca. O ca­pi­talismo envelheceu e segrega desen­canto e fadiga moral, mas o socialismo dos caudilhos, porque intolerante e ma­ni­pulador, não é menos reaccioná­rio.Uma sociedade alternativa ao capi­talismo não pode usar os métodos de um capitalismo mascarado de socialis­mo. Vivemos o apogeu do capitalismo e, como tal, da exploração. Ele, está mais do que provado, não resolve os pro­blemas da liberdade, da igualdade, da fraternidade. Só que o fracasso das revoluções socialistas, que se conhe­cem, também se tornou evidentíssimo, dei­xando as pessoas descrentes, entre a apatia e o conformismo. O socialismo estatizado e estatizante divide a socie­dade em classes: o poder burocrático e os assalariados, obrigados pelo terror ao absentismo. As purgas de Estaline, mandando fuzilar companheiros de ide­al, é igual a outras purgas, com ou­tros ditadores, à direita ou à esquerda, noutros países. Trotsky retratou, com fi­de­lidade, já em 1935, o que se passa­va, na União Soviética: ”no lugar da di­ta­dura do proletariado, implantou-se a ditadura burocrática”.

Repito-me: são verdadeiros re­gi­mes burocrático-autoritários os re­gimes socialistas que por aí definham e que não são alternativa ao capitalis­mo vigente. A ideia de sociedade, que a eles preside, é de um conservantismo extremo, onde todos são forçados a mani­festar os mesmos ideais e os mes­mos valores. Quem revelar a mínima dis­cordância põe em perigo a sua liber­dade. Há pouco, “o dissidente cubano René Gómez Manzano foi libertado pe­las autoridades, após passar 18 meses detido sem qualquer acusação”. Trata-se de um opositor ao regime e preten­de que se processe, na sua pátria “uma mudança pacífica para a democracia” (Diário de Notícias, 2007/2/10). Co­mo se vê, um “criminoso temível” que me­rece o desprezo dos seus compa­trio­tas!... Mas, não será o socialismo o próximo regime, para um mundo onde o capitalismo apodrece? Não tenho dú­vidas, a este respeito: o século XXI será o de um novo socialismo! Um novo so­cialismo e portanto que não se confun­de , nem com o de Mário Soares, de Fe­lipe González, de Tony Blair, etc., nem com o da URSS, ou de Cuba, ou daquele que Chávez anuncia, gover­nando por decreto e beneficiando da cha­mada Lei da Responsabilidade So­cial, onde as críticas ao governo se con­sideram “ameaça à segurança social” (Veja, S. Paulo, 2007/1/31). Um ponto pa­rece indisputável: a humanização do capitalismo (que faz da mais-valia a fonte de acumulação do capital) é im­possível e o Estado-Deus-Paternalista, castigador e protector, castrador da ener­gia social, falhou (e falhará) tam­bém. O que nos resta? Criar o ainda-por-fazer, visando o socialismo e rejei­tando tanto a estatolatria como o “so­cialismo democrático” que, sem uma ruga de inquietação, procura salvar o capitalismo.

3. A estratégia da luta contra o capi­talismo, procurando a tomada do poder e estabelecendo outra ditadura, está exaurida, pelos falhanços sucessivos. O novo socialismo constrói-se, no meu modesto entender, introduzindo, com fir­meza e lucidez, a máxima democrati­za­ção, a qual se oriente contra o capi­talismo, as suas instituições, a sua lógi­ca e a sua cultura. E não reformando cau­telosamente o que aí está, de molde a tornar o capitalismo mais suportável. Pelo contrário, é preciso expô-lo a uma nu­dez fragilizada, onde se tornem evi­dentes os disfarces da sua própria de­gra­dação, já que o socialismo deve en­tender-se, acima do mais, como sociali­za­ção do poder político, ou seja, cria­ção iniludível de uma democracia par­ticipativa, que substitua a de­mo­cracia unicamente representa­­ti­va; estabelecimento de uma e­co­nomia norteada pela lógica das necessidades e da produção de “sujeitos económicos”; e, ain­da, promoção de uma cultura as­so­ciativa, onde possa realizar-se o ideal da solidariedade; e, por fim, crítica incessante às no­vas formas de organização soci­al, como expressão e nutriente do que se vai teorizando e prati­can­do. Ora, tudo isto é incompatível com a democracia neoliberal que nos go­verna que, se produz crescimento (quando produz...), se encontra nas mãos de um empresariado agressiva­men­te classista e sem um assomo se­quer de sensibilidade social, embora utilizando hipocritamente, aqui e além, uma espectacular filantropia. Não abun­do, no entanto, nas ilusões de Engels e de Lenine, que julgavam que a extin­ção das classes implicaria a dissolução do Estado. Sou em crer, embora a vo­ca­ção anti-estatal do “novo socialismo” que, nele, o Estado é para converter-se em semi-Estado e não para ser er­ra­dicado totalmente. O Estado tem sido, inalteravelmente, um instrumento de do­minação. Urge convertê-lo ao servi­ço de todos, socializá-lo, transformá-lo em democracia participativa, onde os políticos sejam capazes de ceder o poder a todos os cidadãos organiza­dos... diariamente e não só no período das eleições! Uma cidadania activa é o cerne do “novo socialismo”.

Como concretizar a democracia par­ticipativa? Resumo assim o que preten­do dizer, servindo-me do livro do chile­no Tomás Moulian, Socialismo del Si­glo XXI – la quinta via (Ediciones LOM, Santiago 2000), que me inspirou na feitura deste artigo: fragmentação do poder político em espaços de ho­nes­ta participação activa; iniciativa po­pular em matéria legislativa; democra­cia interna nos partidos que, hoje, são tão classistas como o mundo capitalista donde nascem; espaço político, aberto e plural, sem classe dominante – espa­ço compatível com uma sociedade ver­da­deiramente deliberativa; institucio­nali­za­ção de associações autónomas, onde se defendam, sem cessar, os Di­rei­tos Humanos e se pratique uma se­ve­ra auto-crítica, isto é, a coragem de apontar a injustiça e o erro, nas insti­tuições que se representam; reforço da liberdade pessoal de decisão sobre os problemas de ordem axiológica; se a no­va fonte de riqueza é o conheci­men­to, não devemos esquecer-nos que “a epistemologia só surge como inicial, se a questão ontológica estiver resolvida” (Fernando Ilharco, A Questão Tecno­ló­gica - Ensaio sobre a Socieda­de Tecnológica Contemporânea, Prin­cipia, Cascais, 2004, p.. 105). Ou se­ja, a própria competência tecnológi­ca e científica e o talento e a honradez e a coerência de que se fizer acompa­nhar não deve também perder o senti­do da construção do “novo socialis­mo”. Volto a Fernando Ilharco, no livro atrás citado: “O que é mais decisivo, o que é mais raro, por isso o que gera rique­za, é o que é criado e gerado, nos ter­mos do novo mundo e para o novo mun­do. Não é tanto falar da tecnologia, ali­nhar a tecnologia, utilizar a tecnolo­gia, mas antes voltar ao mais essencial, à satisfação das necessidades concre­tas das pessoas individualmente consi­de­ra­das” (p. 106).

4. Impor mordaças ao povo, para falar, horas intermináveis, em seu no­me, é a mais abjecta das dominações; instituir a censura, alegando que se tra­ta de meio de autodefesa contra “mer­ce­nários”, a soldo de potências estran­gei­ras, e não ver nela tão-só uma profi­la­xia provisória, alargando-a, indefini­da­mente, a qualquer escritor ou jorna­lis­ta e a todos os órgãos da Comunica­ção Social; um governante que vive do que  fez, em emotiva consonância com os interesses do seu país, e tudo sa­cri­­fi­­­ca a esse evento de forte carga pa­triótica, localizado e datado, como se de uma aparição divina se tratasse – nada disto me parece próprio de um so­cialista, mas apenas de uma pessoa infeliz que obriga os seus concidadãos a participarem da sua infelicidade. O so­cialismo, em que acredito, há-de defi­nir-se, singularizar-se, principalmente, co­mo democracia participativa, e­co­no­mia de necessidades e cultu­ra solidária e deverá ser construído, com o destemor do risco, por todos os ci­dadãos, proletários ou não. O “novo socialismo” não pode estar de acordo com certas situações a que o velho so­cialismo contribuiu, ardorosamente, ao afirmar-se representante do proletaria­do tão-só, dado que em socialismo a extinção das classes é inevitável. De facto, ao novo socialismo corresponde uma economia nova, que deverá orien­tar-se para a satisfação das necessi­da­des básicas dos cidadãos, para uma relação íntima entre a propriedade pri­vada e a propriedade social e para o surgimento de “sujeitos económicos”, isto é, de produtores e consumidores, capazes de participarem nos processos de decisão e que não esperam, de mão estendida, que seja a gula do capital ou o paternalismo estatal a determinar as suas necessidades. Assim, através da participação, a economia politiza-se e recusa visceralmente que se con­fun­da fruição pessoal com egoismo, bem-estar com descaso pela miséria do nosso semelhante e solidariedade com “caridadezinha”.

    

Enfim, o “novo socialismo” (que não pode considerar-se adquirido, uma vez por todas, mas é um processo contínuo) não aceita unanimidades, nem leituras de­finitivas, mas caminha decididamente para uma cultura do ser, em oposição à burguesa cultura do ter, uma cul­tu­ra comunitária, em oposição a uma cultura individualista. A cultura do ser não aposta no despojamento de quais­quer bens materiais, mas numa cul­­tura onde os valores de fraternidade, igualdade e solidariedade entrem em com­petição permanente com a explora­ção, alienação e a marginalização so­cial. No entanto, a luta hodierna, por um mundo novo, não passa pela apro­pria­ção, armada ou não, do poder, faze­dora de mais uma ditadura, mas pela contestação da modernidade ocidental, a partir de uma perspectiva pós-capi­talista, pós-colonial, pós-eurocêntrica e criação experimental do futuro – luta le­vada a cabo, por diversos protagonis­tas, visando a soberania popular e a emancipação social; luta da qual deve­mos sair reconciliados com os outros e con­nosco mesmos. E deixem-me termi­nar com a definição de fé em Unamuno: “A fé não consiste em crer no que não vemos, mas em criar o que não vemos”.


Frei Betto

Teólogo brasileiro

As trapalhadas de Bush

Joseph Stiglitz ganhou o Prémio No­bel de Economia e foi economista-chefe do Banco Mundial. Linda Bilmes en­sina finanças públicas em Harvard. Juntas, as duas cabeças calculam que Bush já gastou 2,2 triliões de dólares na guerra do Iraque. O orçamento real é 22 vezes maior que o oficialmente de­clarado. Isso é mais de duas vezes o PIB do Brasil.

Bush demitiu, em 2003, o seu mais alto assessor económico, Larry Lindsey, por ter ousado sugerir que o custo da guer­ra podia chegar a 200 biliões de dó­lares. A Casa Branca irritou-se na épo­ca e desdobrou-se no Congresso para acalmar os parlamentares. Des­pa­chou Paul Wolfowitz (era o número 2 do Pentágono e é, hoje, presidente do Banco Mundial) para ir lá e jurar a de­putados e senadores que o próprio Ira­que financiaria tudo com o petróleo que jorra de seu solo...

A intervenção dos EUA no Iraque resulta de uma sequência de mentiras. Primeiro, Bush alardeou que o governo de Saddam estaria envolvido no 11 de Setembro. A acusação jamais foi com­pro­vada. Depois, acusou-o de estocar ar­mas de destruição em massa. Sad­dam abriu as portas do país e permitiu que peritos da CIA o revirassem de ca­be­ça para baixo. Após um ano de inves­tigações, nada foi encontrado. Os gran­des jornais dos EUA chegaram a pedir desculpas aos leitores por terem acre­di­tado no engodo. Enfim, Bush tentou jus­tificar o atoleiro em que se meteu pro­metendo fazer do Iraque uma de­mocracia capaz de disseminar-se pelo mundo árabe. Forjou eleições, dividiu a nação e aprofundou a mortandade.

Saddam Hussein foi enforcado sob acusação de matar 104 xiitas. Na épo­ca, o Iraque estava em guerra com o Irão e o ditador era um títere às mãos do Tio Sam [EUA]. O apoio foi levado a Bagdá por Donald Rumsfeld, que até há pouco monitorava o Pentágono e a guerra no Iraque.

Bush está desesperado. Com a apro­vação popular em míseros 27%, e as derrotas nas eleições da Câmara e do Senado.

Já morreram no Iraque 3 mil solda­dos made in USA e 700 mil iraquianos. Como cota de urgência estão seguindo mais 20.000 soldados – número insi­gni­fi­cante numa Bagdá com 5 milhões de habitantes hostis à presença dos EUA.

Ao referir-se ao custo da guerra, Bush omite os gastos com cerca de 20 mil militares feridos. Hoje, as máquinas de guerra oferecem blindagens mais re­sis­tentes. Diminuem o total de mor­tos, mas produzem mais feridos: daí os enormes gastos com amputações, inter­namentos, indemnizações, aparelhos ortopédicos, etc. Calcula-se que só os danos cerebrais consomem 35 mil mi­lhões de dólares.

Com a invasão do Iraque, Bush con­cedeu ao terrorismo status de guerra, ampliou o poder de recrutamento de suas organizações e ofereceu-lhes ob­je­ctivos e alvos concretos. No Iraque, o terror sabe onde e em quem atirar, en­quanto as tropas de ocupação miram em alvos imprecisos e penalizam a po­pu­lação civil.

O que fará Bush? Se correr, o bi­cho pega; se ficar, o bicho come. Nem po­de retirar as tropas do Iraque, exce­pto admitindo a derrota, nem sabe como, porque e até quando mantê-las ali. Além da guerra coordenada pelo Pen­tá­gono, há também uma guerra civil que cindiu a unidade nacional iraquia­na. Os EUA não podem apoiar os suni­tas, seus inimigos históricos. Não po­dem apoiar os xiitas, aliados do Irão. Não podem apoiar os curdos, porque a Turquia não toleraria.

A milícia xiita, conhecida como E­xército do Mahdi, liderada pelo clérigo Moqtada al-Sadr, conta com 60 mil com­batentes, tacticamente apoiados por 2 milhões de xiitas que habitam o leste de Bagdá. O Exército e a polícia iraquianos são constituídos predomi­nan­te­mente por xiitas. Como oferecer segurança aos bairros habitados por su­nitas, que apoiam seus rebeldes?

O gra­ve é que o que move Bush é a sede de vingança. Não se conforma de seu pai ter fracassado na tentativa de derrubar Saddam Hussein, em 1991, e de sua família ter sido sócia dos Bin Laden em negócios de petróleo. Como bem escreve Herman Melville em Moby Dick: “Ah, Deus! Que tormentos so­fre o homem que se consome com seu desejo de vingança. Dorme de mãos cerradas e acorda com as unhas ensanguentadas cravadas nas palmas.”


L. Boff

Teólogo brasileiro

Opção Terra

A marca registrada da Igreja da libertação com sua correspondente re­fle­xão reside na opção preferencial pe­los pobres, contra a pobreza e em favor da vida. Nos últimos anos, começou-se a perceber que a mesma lógica que explora as pessoas, outros países e a natureza, explora também a Terra como um todo, em vista do consumo e da acumulação a nível planetário. Daí a urgência de se inserir na opção pelo pobres o grande pobre que é hoje a Terra. A opção não é tanto pelo de­senvolvimento, ainda que sustentá­vel, nem pelos ecocossistemas em si, mas pela Terra. Ela é a condição prévia para qualquer outra realidade. Ela tem que ser preservada.

O relatório do Painel Intergoverna­mental das Mudanças Climáticas (IPCC) que envolveu 2.500 cientistas de 130 países, revelou dois dados es­tar­recedores: primeiro, o aquecimento global é irreversível e já estamos den­tro dele - a Terra busca um novo equi­lí­brio; segundo, o aquecimento é um fe­nómeno natural mas que, após a Re­volução Industrial, foi enormemente ace­lerado pelas actividades humanas a ponto de a Terra não conseguir mais regular-se a si mesma.

Segundo James Lovelock, em A Vin­gan­ça de Gaia (2007), anualmente lançam-se na atmosfera cerca de 27 mil milhões de toneladas de dióxido de carbono que, condensadas, equivaleri­am a uma montanha de um 1,5 quiló­metros de altura com uma base de 19 qui­lómetros de extensão. É o efeito es­tu­fa que pode elevar a temperatura glo­bal, consoante o Painel, ainda neste sé­culo, entre 1,8 a 6,4 graus Celsius. Com as medidas que possivelmente se­rão tomadas, a elevação de três graus é tida como a mais provável, mas inevi­tá­vel. As conseqüências serão incontro­lá­veis, os oceanos subirão entre 18 e 59 cm, inundando cidades litorâneas co­mo o Rio de Janeiro, haverá devastação fantástica da biodiversidade e milhões de pessoas correm risco de desapare­cer.

Jacques Chirac, presidente da Fran­ça, face a tais dados, disse com acerto: “Chegou a hora de uma revolu­ção no verdadeiro sentido da palavra: uma revolução das consciências, da eco­nomia e da ação política”. Efectivamen­te, como não podemos parar a roda do aquecimento, podemos, pelo menos, de­sa­celerá-la mediante duas estratégias básicas: adaptar-se às mudanças; quem não se adapta, corre risco de morrer; mi­norar as conseqüências deletérias per­mitindo sobrevida à Gaia, aos orga­nis­mos vivos, especialmente, aos huma­nos.

Aos três famosos “R”s: reduzir, reu­tilizar e reciclar, há-de acrescentar-se um quarto: rearborizar todo o planeta, porquanto são as plantas que capturam o dióxido de carbono e reduzem consi­de­ralvemente o aquecimento global.

Esse quarto R é fundamental para a preservação da Amazónia. Suas flo­restas húmidas são as grandes regula­do­ras do clima terrestre. O desafio é co­mo combinar desenvolvimento com a manutenção da floresta de pé. Não po­de­mos desmatar no nível que se estava fazendo. Mas nem de longe somos os cam­peões do desmatamento, como re­ve­lou recentemente E. E. Moraes em seu livro Quando o Amazonas Corria para o Pacífico (2007). A África mantém só 7,8% de sua cobertura florestal; a Ásia, 5,6%; a América Central, 9,7%; e a Eu­ropa (que mais nos acusa) apenas 0,3%. O Brasil conserva ainda 69,4% das suas florestas primitivas e 80% da floresta amazónica.

Isso não desculpa os nossos níveis de desmatamento, nem é motivo de or­gu­lho, mas representa um desafio à nos­sa responsabilidade global para o bem do clima de todo o Planeta.


Outras Mensagens

NÃO, P. MÁRIO, NÃO VOU POR SI!

Dornes. Rosa Maria: No seu últi­mo jornal pode ler-se a propósito da questão do aborto: “Vão, pois, por mim. E no dia 11 de Fevereiro de 2007, reco­nhe­çam às mulheres o direito a esco­lherem em consciência se hão-de levar a gravidez ao fim ou se hão-de inter­rom­pê-la no ambiente humano e afecti­vo de um hospital público.” NÃO, Pe. Mário! NÃO VOU POR SI!

Sabe, Pe. Mário estou cansada do FRATERNIZAR, da sua linguagem apa­ren­temente evangélica, aparentemente bonita, aparentemente afectuosa, como parece à primeira leitura desse peque­no texto que transcrevi em cima; mas qual ambiente humano e afectivo? Na realização dum crime pode falar-se as­sim? Onde está o Pe. Mário a defender os pobres, os doentes, os PEQUENOS? Será que os HOMENS se medem aos pal­mos? Ou não será um Homem/Mu­lher o ser que uma grávida sustenta no seu seio?! NÃO VOU POR SI, porque num estado de direito, que encerra ma­ternidades (por razões económicas), faz sentido investir o dinheiro dos nos­sos impostos em abortos sem razão clí­nica? Não faça do aborto uma questão abstracta, mas pense um pouco nas tor­turas que são infligidas ao embrião. Tam­bém para ele o ambiente será hu­ma­no e afectivo…?

Pe. Mário, eu sou pela VIDA! Pois, se até criamos associações para defen­der os animais em vias de extinção, co­mo não defender e proteger a Vida Hu­ma­na? Somos uma espécie em perigo! O Homem é lobo do Homem e do mais pe­quenino! As razões da mulher são outra questão que merecem atenção e resposta, mas não por esta via. Esta via é um passo para outros desregra­mentos sociais. O Cristo de que tanto fala é o Senhor da Vida desde o princí­pio, não é só da vida da mulher que es­tá em apuros, mas da VIDA TODA! São dele estas palavras: “Eu sou o ca­mi­nho, a verdade e a VIDA”.

Agora quero pedir-lhe que inter­rom­pa o envio do jornal. Certo?! Ape­sar de tudo, junto envio cheque para mi­norar o atraso do pagamento da as­si­natura. Olhe que o seu Jesus é o mes­mo que o meu, e é pela Vida! Até sempre!

N.D.

Querida Rosa Maria

Tenho pena que decida interrom­per o envio do Jornal. Mas, se esta é uma decisão ditada pela sua consciên­cia (e não tenho razões para pensar que não é), não me resta outra alterna­ti­va que não seja acatá-la. Por isso, a próxima edição – a menos que até lá nos diga que pensou melhor e decidiu outra coisa – já não entrará na sua cai­xa do correio. Custa-me que assim seja. E mais me custa que o faça pelas ra­zões que aponta na sua carta. Mas cada qual é como é. Espero, entretanto, que, com o passar dos anos, a Rosa Maria venha a compreender que o caminho que o FRATERNIZAR propôs, no refe­ren­do do passado dia 11 de Fevereiro, ainda é o que mais se coaduna com as entranhas de Jesus, o de Nazaré. Veja que não se tratava de escolher entre abortar ou não abortar, mas entre abor­tar na abortadeira ou abortar num estabelecimento de saúde pública. Essa era a questão básica e fulcral com que estávamos confrontados no Referendo. Porque se fosse entre abortar ou não abor­tar, acredite que nem sequer Re­fe­rendo haveria.

Vejo que a Rosa Ma­ria, nesta maté­ria, raciocinou como os nossos Bispos que, pelos vistos, tole­ram, ou, pelo me­nos, não fazem nada, nem sequer ba­rulho nas ruas para de­nun­ciar o facto de que as mulheres abortem clan­des­tinamente nas abortadeiras e nas clí­nicas privadas, mas já ficam “furio­sos” e fora deles, se as mesmas mulhe­res forem abortar, às claras, num esta­be­lecimento de saúde pública. Em am­bos os casos, há um aborto, exacta­men­te o mesmo aborto, só que, num caso, é realizado nos estabelecimentos de saúde pública e, por isso, oferece às mulheres em causa condições de di­gnidade, de higiene, de saúde e até de reflexão acompanhada que as po­de levar a desistirem de abortar. E no ou­tro caso, o aborto (pelo menos, o da abortadeira) é realizado em condi­ções de indignidade total, de falta de higie­ne, com graves consequências para a saúde das mulheres e sem ne­nhum tempo de reflexão acompanha­da. A­cha, então, que a sua maneira de ver/legislar e de agir, relativamente às mu­lheres que decidiram abortar, defende mais a vida do que a maneira de ver/legislar e de agir defendida por mim e pelo Jornal? Respeito a sua po­sição, mas não vou por ela. Prefiro ir pela mi­­nha.

Pelos vistos, entre os milhões de portuguesas/portugueses que fo­ram votar no Referendo, a esmagadora maioria sente e vê como eu. Somos então um país de assassinos?! Veja que nem os Bispos foram capazes de dizer semelhante coisa, depois de ve­rem que o país, desta vez, já não se deixou impressionar pela sua lingua­gem moralista/terrorista.

Finalmente, quanto ao que a Rosa Maria diz sobre a minha “linguagem apa­­rentemente evangélica, aparente­mente bonita, aparentemente afectuo­sa” chega quase a ser ofensivo. Quero que saiba que essa é a linguagem que me dita o coração e a mente. Mas se calhar o que mais a incomoda é que se­ja uma linguagem libertadora, um discurso com Espírito, na linha da Profecia bíblica e do Evangelho de Jesus. Por alguma coisa o Jornal se chama FRA­TER­NIZAR. Deveria ser FRATERNIZAR/SORORIZAR, mas, quando nasceu, há 20 anos, ainda não estávamos tão sen­si­bilizados para a linguagem inclusiva e de género, como hoje felizmente es­ta­mos e praticamos.

Agradeço-lhe, em meu nome e em nome do FRATERNIZAR o seu cheque de estímulo e de apoio. Dou-lhe um beijo fraterno/sororal, sobretudo, por reconhecer, no final da sua carta, que “o seu Jesus é o mesmo que o meu”. Afi­nal, não estamos assim tão de costas voltadas. E nem percebo porque é que a Rosa Maria desiste do FRATERNIZAR. Não quer mesmo pensar melhor e mais a frio esta sua decisão? Fico na expe­cta­tiva. E no afecto.


Frei Gilvander visitou Cuba e partilha

com o Fraternizar o seu emocionado testemunho

A Revolução fez nascer um Povo culto e solidário

Falar de Cuba, do socialismo e do grande líder revolucionário Fidel Cas­tro ainda causa muito constrangi­men­to e indignação. Os media, geral­mente, des­filam um rosário de precon­ceitos acerca do regime político cubano e da história da Revolução. Todavia, mes­mo corren­do o risco de causar cons­tran­gimentos e indignação, quero as­su­mir o compro­misso e a responsabili­dade de compar­tilhar a experiência de conhecer de per­to a resistência e a determinação desse povo que luta contra o capitalismo e contra o impe­rialismo criminoso dos Es­tados Unidos da América. Faço-o em 10 pontos.

1. Primeiras impressões

Antes de emitir qualquer opinião sobre Cuba, acredito ser relevante ter em mente dois aspectos fundamentais: o primeiro, a localização estratégica da ilha que fica apenas a 150 km do maior império da actualidade. Esta é a distân­cia que separa Cuba do estado da Fló­rida nos Estados Unidos. O se­gundo as­pecto é o fato de o país ter so­frido, e con­tinuar a sofrer, ao longo de sua his­tória, permanentes tentativas de inva­são, exactamente em vista de sua posi­ção estratégica na entrada do golfo do México.

Cuba é uma ilha de 110.000 Km2, estreita e comprida, semelhante a um jacaré. Com 11 milhões de habitantes, é uma ilha encantada por sua beleza na­tural e encantadora pelo seu povo. Cristóvão Colombo, ao chegar em Cuba, em 1492, já afirmara: “Esta é a terra mais bela que olhos humanos viram.”

Nos dias actuais, pode-se afirmar que em Cuba, além de vermos coisas que nossos olhos nunca tinham visto antes, vamos sentir uma grande nostal­gia diante de tantos objectos antigos que fizeram parte do nosso quotidiano num tempo em que nossas vidas eram bem mais simples e livres do actual estresse em que vivemos. Vamo-nos deparar com coisas totalmente inusita­das e criativas: táxis em bicicletas, car­ros remendados com madeira e plásti­cos, ónibus construídos sobre antigas carretas, chamadas “camelos”. Tudo isso permite àquele povo resistir, com in­trepidez e dignidade ao criminoso e diabólico bloqueio estadunidense. Con­vivem, no mesmo cenário, recursos ma­te­riais limitados, tão abundantes nos países ocidentais, com o que há de mais moderno e avançado na criação hu­mana. Seja nas ciências, nas artes, nos desportos, os cubanos destacam-se sempre.

Ouvi relatos e reflexões que meus ou­vidos nunca tinham ouvido. Procurei ouvir mais do que emitir qualquer pare­cer acerca do modo de vida que surge e que se actualiza desde o triunfo da Revolução, em 1959. Aliás, este um fa­cto que gera tanta especulação: as pos­si­bilidades de sobrevivência do regime socialista cubano diante da globaliza­ção, da pressão capitalista em todos os moldes e, principalmente, após a previ­sível morte de Fidel.

Com ouvido atento, procurei desco­brir a beleza daquela grande nação. O tempo todo, tinha a sensação de estar na ilha imaginária de Thomas Morus, UTOPIA, na qual o autor, inspirado na República, de Platão, pensa uma so­ciedade ideal em todos os sentidos, so­li­dária, sem propriedade privada, sem violência e com dignidade para todas as pessoas. No entanto, não tenho a pretensão de defender a existência de uma sociedade perfeita. O meu propó­sito nesta reportagem é mostrar que, somando o que há de bom em Cuba, fica um grande saldo, dadas as limita­ções existentes, sobretudo se levarmos em conta que a maioria das carências impostas ao povo advêm não do regime político socialista e sim do bloqueio da política imperialista dos Estados Unidos, que causa enormes danos à economia cubana.

2. O impacto já ocorre na che­gada

À chegada a Havana, capital de Cuba, já é possível sentir a diferença de se estar num Estado socialista. Do aeroporto José Marti ao centro da capi­tal, há um percurso de aproximada­men­te 30 quilómetros. Neste trajecto somos presenteados com uma delicada e bem cuidada paisagem, onde não há sequer uma única propaganda comer­cial. Nas ruas de Havana, ocorre o mes­mo, nenhum outdoor que estimule o consumo. Só podem ver-se, e poucas, propagandas do regime socialista. Lem­bro-me de algumas:

“Neste momento mais de 2 milhões de crianças estão passando fome nas ruas do mundo, nenhuma delas é cu­ba­na.” “Pela vida: Não ao bloqueio eco­nó­mico dos Estados Unidos.” “Che Gue­­vara, teu exemplo é uma luz na nos­sa marcha socialista.” “Em Cuba, 100% das crianças estão na escola.”

Em 1961, após uma intensa cam­pa­nha de alfabetização, Cuba foi de­clarada território livre do analfabetis­mo. Vimos pelas ruas pessoas simples e trabalhadoras que nos dão a certeza da existência, naquele território, de um povo educado e saudável. Também cha­­ma a atenção a enorme diversida­de, nas pessoas, nas cores dos carros, no modo de vestir. Pessoas alegres e que falam com muito orgulho do seu país. Determinados mesmo quanto à independência e da opção e luta obsti­na­da pelo socialismo e pela soberania.

Nos quatro canais de TV abertos, todos estatais - há vários outros canais  regionais - não há também propaganda comercial. Só há programas culturais, informativos e desportivos. Poucos são os programas de entretenimento, den­tre eles uma novela brasileira, actual­mente, “Senhora do Destino”, à qual os cubanos se referem com grande en­tu­siasmo. Gostam muito de telenovelas e radionovelas. Vale até lembrar que se orgulham de terem criado as radio­no­velas, a primeira que se tornou fa­mosa no Brasil, “O direito de nascer”.

3. A relação de Cuba com os demais países da América Latina

A eleição de Hugo Chaves, na Ve­nezuela, criou novos laços entre os paí­ses da América Afrolatíndia e desen­volveu uma outra forma de solidarie­dade entre as nações do continente. Cuba recebe o petróleo venezuelano em troca do apoio na área da saúde. São milhares de médicos e outros pro­fissionais a trabalhar na Venezuela. Mi­lhares de venezuelanos estão a ir a Cu­ba fazer tratamento de saúde. A ex­ce­lência cubana na área da saúde tam­bém tem ajudado muitos outros países como o Brasil e a Bolívia.

Ao visitar o Museu da Revolução, antiga sede presidencial do ditador Ful­gêncio Batista, encontrámos um grupo de jovens bolivianos, orgulhosos do go­verno Evo Morales. Aqueles jo­vens infor­maram que, logo após as­sumir a presi­dência, Morales enviou 400 jovens para cursar medicina em Cuba. Formados, serão missionários de uma revolução no sistema de saúde boliviano e pode­rão trabalhar também noutros países, vo­­lun­tariamente.

Na ELAN – Escola Latina Ame­ri­cana – criada em 1999, há 4 mil jovens latino-americanos cursando medicina. O es­tado cubano custeia tudo: além dos pro­fes­sores e da manutenção da uni­ver­­si­dade, oferece hospedagem, ali­men­ta­ção, livros, cadernos e ainda dá uma aju­da de custo mensal. Os livros usados são devolvidos no final de cada ano, para que outros estudantes possam estu­dar neles. É interessante registar: en­quanto nos Estados Unidos são gas­tos 350 mil dólares para formar um mé­dico, em Cuba 120 mil dólares são sufi­cien­tes.

Há milhares de estudantes estran­gei­ros em Cuba, na graduação e na pós-graduação. Só do Brasil são 700 jovens, 70 dos quais são enviados pelo MST para fazer medicina e outros cursos.

4. Contra o bloqueio, muita criatividade

Cuba foi inicialmente uma colónia espanhola. Em 1898 foi ocupada mili­tarmente pelos Estados Unidos. A partir de então, cresceram os negócios dos norte-americanos na ilha que só em 1902 se tornou um país independen­te. O destino de Cuba foi profunda­mente marcado pela influência norte-ame­ri­cana, tanto no plano político, me­di­ante o apoio a partidos ou gru­pos, quanto no económico. A beleza caribenha e a localização estratégica atraíram também para o local o lazer e a orgia dos ian­ques. Também uma ch­aga que gera um grande incómo­do: uma base militar dos Estados Uni­dos em território cubano, a base de Guantánamo. Essa base militar resul­tou das negociações para a reti­rada das tropas americanas na indepen­dên­cia.

Após a Revolução em 1959, mui­tos cubanos emigraram para os EUA; e, por discordarem do regime, são, ainda nos dias actuais, manipulados e financiados pelo governo estaduni­dense com o in­tuito de derrubar o re­gime liderado por Fidel Castro. Hoje, incluindo os descen­dentes, há mais de um milhão de cuba­nos que vivem na­quele país. A grande maioria cola­bora efectivamente para a economia cubana enviando dólares para os pa­ren­tes que moram na ilha. Uma minoria, conhecida como a máfia cubana de Miami, que perdeu dinheiro e poder após a Revolução de 1959, conspira o tempo todo contra a política socialista. Essa pressão de uma minoria cubana interessa à política imperialista dos Estados Unidos que usa de artifícios para isolar o último país de resistência socialista existente no planeta.

Basta ver que quando um estran­geiro chega clandestinamente aos Es­ta­dos Unidos é imediatamente man­da­do de volta ao seu país. Os cu­ba­nos são a excepção. Para incen­tivar a saída de Cuba, o governo dos Esta­dos Unidos aco­lhe como cidadãos os cubanos que che­gam ao seu territó­rio. Ou seja, os úni­cos estrangeiros que têm visto de permanência incon­dicional nos Estados Unidos são os originários de Cuba.

O bloqueio dos Estado Unidos a Cu­ba consiste na proibição do comér­cio dos produtos cubanos nos Estados Uni­dos e a venda de qualquer produto norte-americano a Cuba. Além, é claro, da proibição do uso de tecno­logia de­sen­volvida nos Estados Uni­dos. Não existe relação diplomática e comercial entre os dois países. Isso gera enormes dificuldades à econo­mia cubana, devido ao custo do trans­porte que é acrescido a todos os pro­dutos que vêm de países bem mais distantes, como os países europeus, o Canadá ou a China. Cuba tem de pagar sobretaxas para importar produ­tos norte-americanos de outros países.

Deste modo, a única forma de o go­ver­no cubano sobreviver ao blo­queio, é usar de muita criatividade e contar irrestritamente com o apoio de um povo educado e que conhece muito bem a sua história. 

Vimos muita criatividade no sistema de transporte cubano: táxis em triciclos, uns motorizados, como os cocotáxis pa­ra os turistas, outros movidos somente com a força do pedal por valentes con­du­tores, que levam passageiros a pe­que­nas distâncias. Automóveis que fo­ram sofisticados na década de 1950 e que continuam rodando sumptuosos pe­las avenidas de Havana. Pequenos au­to­móveis Fiat, parecendo miniaturas dos antigos 147. Carros russos, como o La­da, das décadas de 1970 e 1980. Alguns seminovos, numa grande variedade de tipos e cores. Micro pick-ups com ape­nas 3 rodas, ónibus antigos tipo jardi­neira e os “camellos”, carretas com a carroceria transformada em “super-ónibus”, como base para o trans­porte colectivo dos trabalhadores, quase de graça. Incrível a diversidade de tipos e cores dos meios de trans­porte em Cuba.

Vimos um grande número de pes­so­as à boleia e muitos motoristas a ofe­recer boleia, especialmente nos horá­rios de pico. Depois soubemos que cer­ca de 80% dos automóveis são estatais e são orientados a dar boleia. Os carros particulares, que são poucos, também cultivam essa prática de dar boleia. É muito difícil ver uma pessoa sozinha no veículo. Normalmente andam duas, três ou quatro pessoas no mesmo au­to­móvel, inclusive nos táxis. Percebe­mos que dar e receber boleia é um valor socialista e faz parte da cultura, é o normal. Muita gente vai trabalhar e volta sem ter que pagar pelo transporte. Não existe o menor receio de violência como seria de se esperar no Brasil. Também uma forma bastante inteligente de eco­no­mizar energia. O petróleo é muito oneroso para o governo cubano.

E desta e de outras maneiras, Cu­ba vai driblando o bloqueio norte-ame­ricano.

5. Exercício do poder em Cuba

Conversámos com taxistas, médi­cos, lixeiros, comerciantes, professoras, psicólogas, agrónomos, advogados. Não vimos nem uma pessoa reclamar de Fidel Castro, nem do socialismo, nem da Revolução cubana. Pelo contrá­rio, ouvimos o reconhecimento e a cons­­ta­tação de que a Revolução deu dignidade para milhares de pessoas em Cuba. Conforme já afirmámos, o diabólico bloqueio económico que o (des)governo dos Estados Unidos im­pôs a Cuba desde 1961 é identificado pelo povo cubano como o responsável pelas dificuldades enfrentadas em todos os níveis.

Em Havana, as praças públicas são realmente públicas. O povo circula à vontade. Não vimos ninguém alertando sobre riscos de roubo e assalto. A po­pu­lação está desarmada. Afirmam que existem armas guardadas em vários lo­cais e que podem ser disponibilizadas à população em caso de invasão dos Es­tados Unidos. “Aqui não há delinqu­entes nem delinquência. Aqui temos paz social, fruto da justiça social existente. É muito raro acontecer um assassinato ou um assalto”, diz uma criminóloga cu­ba­na. E acrescenta: “Em caso de inva­são, cada um dos cubanos sabe onde deve estar imediatamente.”

Perguntámos a várias pessoas: “Co­mo é exercido o poder em Cuba? Fi­del manda muito?” Explicaram-me: “A base do exercício do poder em Cuba está nos CDRs – Comitês de Defesa da Revolução. Esses comitês que sur­giram para proteger a população das tentativas de golpe, existem em todas as quadras das cidades e também na zona rural. No CDR todas as pessoas da quadra estão cadastradas. Fazem assim um retrato de toda a população. Sabem quantas crianças, quantos ido­sos e gestantes existem no país, com uma margem de erro insignificante. Há em cada comitê um/a presidente/a, um secretário/a e um vigilante que é o res­pon­sável pela saúde, educação das pes­soas que moram naquele local. A­lém do CDR, há o delegado de circuns­crição que exerce a função como vo­luntário, isto é, não recebe salário para desempenhar a função. De três em três meses, esse delegado presta contas ao povo. Vinte delegados escolhem um delegado de território.

A organização política cubana in­clui também uma Assembleia municipal (poder executivo + legislativo) que cui­da de finanças, desporto, educação, saú­de, moradia, comércio, transporte, ruas e estradas, comunidades. Existem ainda as Assembleias provinciais (14 pro­víncias).

Da Assembléia Nacional fazem parte 601 deputados. Vale destacar que recebem apenas o necessário para vi­ver. Exercem o mandato de deputado e continuam a trabalhar na sua profis­são e por isso recebem salário, não pe­lo facto de serem deputados, mas como padeiros, professores, médicos, ou qualquer outra profissão que exer­çam. Em Cuba uma pessoa é reconhe­ci­da na sociedade pelo que faz em prol da colectividade e não pelo que conse­gue angariar para si mesma, como pela capacidade de ganhar dinheiro ou ter sinais exteriores de riqueza.

Há um Conselho de Ministros com um presidente, que agora é Ricardo Alareni. As grandes decisões nacionais são tomadas na Assembleia Nacional. Fidel Castro é, desde o triunfo da Revo­lução em 1959, reeleito como deputado. É o primeiro secretário do PCC e co­mandante das Forças Armadas. Ilude-se quem pensa que Fidel decide tudo sozinho. É claro que ele tem muita influ­ência nas decisões por razões histó­ricas e pela idoneidade moral que ad­quiriu e conserva.

Conforme vemos, há uma rede de participação que vai dos CDRs até ao Comitê Central da Revolução. Essas pessoas são integrantes do Partido Co­munista de Cuba, mas só se ingressa no Partido após verificar com rigor a ido­neidade e o interesse da pessoa pe­lo bem comum. 

7. Idoneidade comunista 

“Cuba é uma fábrica de médicos”, ex­clama Mongui, um cubano que se sen­te embaixador do Brasil em Havana. Na medicina a excelência cubana tem o seguinte objectivo: conquistar os me­lhores remédios para todos com o custo mais económico possível e de forma sus­tentável. O Ministério da saúde, as faculdades de medicina e os médicos incentivam e incluem cada vez mais todos os tipos de medicina alternativos e naturistas – homeopatia, geoterapia, ervas medicinais, massagem.  Prioriza-se muito a medicina preventiva que pas­sa necessariamente por uma boa alimentação.

Há 60 mil médicos cubanos a tra­ba­lhar voluntariamente em missões in­ter­nacionalistas, em 69 países, contri­buindo para o resgate da saúde de mi­lhares de pessoas. Na Venezuela, actu­al­mente, existem cerca de 20 mil mé­di­cos cubanos alavancando uma revo­lução no sistema público de saúde. São responsáveis pelo atendimento primá­rio da população, algo parecido com o médico de família. Estão nas favelas e bairros pobres; lá vivem e atendem com competência e dedicação os po­bres. Recordo-me de ter ouvido em Ca­racas, no 6.º Fórum Social Mundial, três jovens camelôs dizendo com veemên­cia: “Por mais de 50 anos, os médicos ve­nezuelanos recém-formados recusa­ram-se a ir para interior, para os bair­ros, para a periferia. Só queriam ficar na capital, ganhar dinheiro às custas da dor. Agora, com Hugo Chávez, eles tiveram sua chance de ajudar o povo. Não quiseram. Então foi preciso apelar para a solidariedade. Vieram os médi­cos de Cuba e estamos tendo acesso à saúde nos lugares mais distantes e po­bres”. Ainda, em Caracas, em conver­sa com duas médicas e um médico, ou­vimos, entre tantas coisas, o seguinte: “Não viemos aqui para ganhar dinheiro, mas por amor ao próximo. Estudamos me­dicina para cuidar das pessoas, nun­ca para ganhar dinheiro. Quando ter­mi­namos o curso de medicina em Cuba, fazemos um juramento de cuidar sempre da vida ameaçada em Cuba e em qualquer país do mundo. Quando se é de esquerda, socialista, somos mais cristãos, pensamos mais no pró­ximo. Todo o povo do mundo é meu pró­ximo, é minha família. Somos e de­vemo-nos comportar todos como ir­mãos. Vivo para servir a sociedade. Aqui na Venezuela, recebemos apenas uma ajuda de custo para pagar o metro, ónibus colectivo e comprar alimentos e alguma coisa mais necessária.” O es­tipêndio recebido pelos médicos cuba­nos não chega a um salário mínimo da Venezuela, que é cerca de R$405,00.

Mesmo com as dificuldades inter­nas para a produção de alimentos, em Cuba, todas as crianças até aos 7 anos de idade e as gestantes têm garantido um litro de leite por dia.

Cuba é administrada considerando todos os cubanos como sendo uma só família. Fidel é o pai de todos e os cu­ba­nos são todos irmãos e irmãs. Por isso todos são tratados com igualdade de oportunidades. Há prioridades que devem ser satisfeitas: alimentação, saú­de, educação, transporte público, cultura e desporto. As reivindicações pessoais são atendidas, desde que se­jam viáveis e no interesse de todos. Por exemplo, só tem computador indivi­dual – o que é um “luxo” em Cuba – quem está desenvolvendo um trabalho social relevante e que precisa deste instrumento. Só será permitido comprar celular, quando se encontrar um sistema que seja acessível a todos. E estão quase conseguindo.

O povo cubano é um povo sadio. Come-se o necessário para viver, sem exageros. Não vimos sequer uma pes­soa obesa. A alimentação é orientada por nutricionistas e contém todos os nutrientes necessários para uma boa saúde.

Norma, uma psicóloga cubana, pas­sou três meses no Rio de Janeiro. Contou-nos que, convidada para parti­cipar de diversos churrascos e rodízios, estranhou muito diante de tanta fartura de carne e tão pouca fartura na cultura e nas artes. Quando quis ir assistir a um show de Gilberto Gil no Canecão avi­saram-lhe que era muito caro. Ela revelou: “Entre comer muito, participar de rodízios, prefiro alimentar meu espírito. O que mais nos alimenta são os bens espirituais: cultura, arte, des­porto e trabalho voluntário, tudo isso dentro do espírito revolucionário socia­lista. A sociedade capitalista enche a barriga das pessoas, mas deixa o espí­rito vazio .”

Vimos que a agricultura está dire­ctamente associada à saúde. Os ali­mentos são produzidos de forma orgâ­nica e ecológica. Usa-se muito pouco produtos químicos na agricultura. Está em curso um grande projecto de reflo­restamento com árvores nativas e exóticas.

7. Telenovelas brasileiras em Cuba

Em Cuba, a TV veicula uma teleno­vela por noite. Uma noite, uma teleno­vela cubana e, na noite seguinte, uma telenovela brasileira ou de outro país. Antes de ser emitida, uma comissão do sector de relações internacionais ana­lisa a telenovela estrangeira, dá um parecer, corta cenas de sexo, de bana­lização.

Perguntei a várias pessoas cuba­nas se já tinham pensado sobre os pos­síveis efeitos das telenovelas brasi­lei­ras sobre o povo cubano. Caridad, psi­có­loga do sector de relações interna­ci­onais da TV cubana me explicou: “A programação dos 4 canais cubanos é basicamente cultural. O povo estava pe­dindo mais programas de entreteni­mento. É muito melhor passar uma telenovela latino-americana do que filmes dos Estados Unidos, filmes que geram uma cultura de violência e de con­sumo. A questão central não é vei­cular ou não uma novela. A questão é como veicular. Em Cuba as telenovelas são veiculadas sem nenhum comercial, apenas uma por dia. Assim o/a telespe­ctador/a acompanha mentalmente o desenrolar da ficção. No Brasil, são mui­tas novelas por dia e são envene­na­das pela propaganda intermitente, entremeada na novela. Quando o/a te­lespectador/a começa a raciocinar, in­ter­rompe-se a novela e entra a publi­cidade. A pessoa deixa de pensar na novela e começa a pensar na publi­cidade. Esta mistura de novela com pu­blicidade faz um estrago mental em quem está a assistir. Fica como abelha tonta. É impedida de pensar. Resultado: a novela “vira” tranquilizante. Além dis­so, em Cuba o povo é culto e não aceita pacificamente o que é apresentado na tv. Também não encontra na realidade o luxo espelhado nas telenovelas. Fica só na ficção.”

8. Cristãos em Cuba

Participamos de uma celebração na Igreja Baptista, presidida pelo pas­tor Raul Soares, deputado do PCC – Partido Comunista de Cuba. De origem camponesa, já está no 3.º mandato como deputado. É um dos três pastores deputados em Cuba. Além de Raul, há um outro da igreja episcopal e outro pres­biteriano. Raul Soares disse-nos: “Não há contradição entre ser pastor e ser deputado socialista. Em Cuba 80% das pessoas declararam-se religiosas. Acreditam em Deus. Seguimos o teste­munho do Concílio Vaticano II, das Co­mu­nidades Eclesiais de Base e da Te­o­logia da Libertação. Os pobres nos evangelizam. Em 1959, a Igreja Cató­lica cubana traiu os pobres, Jesus e Deus, porque colocou-se contra a Re­forma Agrária que Fidel Castro estava a fazer. Sou um pastor de esquerda. Espero que Lula não traia os pobres e que faça uma verdadeira reforma agrária no Brasil. Não há saída para a humanidade fora do socialismo. Preci­sa­mos melhorar o socialismo. Capita­lismo é anti-cristão e anti-humano.”

Conhecemos o Centro Martin Lu­ther King, com sede nas dependências da Igreja Baptista. A partir da pedago­gia de Paulo Freire, esse centro tem ajudado a construir cerca de 60 casas populares, por ano, em mutirão com a participação activa dos sem-casa. Esse centro participa de brigadas populares de limpeza de praças públicas em tra­balho voluntário.

9. Produção de alimentos

Sentimos como Cuba vive, desde o fim do apoio soviético ao país, um grande desafio para alimentar o seu po­vo. Todavia, mesmo diante dessa difi­culdade, em Cuba, os produtos trans­génicos são proibidos. Lá, de facto, as se­mentes são património da humani­dade. Preserva-se a diversidade das se­mentes e espécies.

A produção de alimentos, em Cuba, acontece de forma diversificada. Há “granjas”, grandes fazendas do Estado, que produzem cana-de-açúcar, tabaco, arroz e gado. Poucas pessoas, com im­ple­mentos agrícolas, garantem uma grande produção para o abastecimento de toda a população ou industrializa os seus produtos de exportação, como o açúcar e os famosos charutos e rum cubanos. Há pequenas, médias e gran­des CCS – Cooperativas de Crédito e Serviço – que reúnem muitas famílias de pequenos proprietários; são empre­endimentos mistos: privado e estatal. O cultivo é feito em sistema de rodízio. Por exemplo, ara-se um pedaço de ter­ra, planta-se banana (só um pé em cada cova, 1,5 metro entre as fileiras, pois as­sim produz mais). Após a colheita, ara-se novamente a terra e planta-se uma nova cultura que pode ser man­dioca, ou milho, depois feijão, tomate, e assim por diante. Deste modo, é pre­servada a fertilidade da terra. Há ainda as “fincas”, que são pequenas cháca­ras, nas quais a agricultura familiar é tocada por uma, duas ou três pessoas. Em Cuba a maior parte da terra rural pertence ao Estado. É muito raro o co­mércio de terras. O agricultor possui, geralmente, apenas o usufruto da área em que trabalha.

Actualmente o Estado cede terra para usufruto por três anos. Se a pes­soa progride, passa a ter direito sobre aquela porção de terra. Se não, a terra é devolvida ao Estado que a repassa para outro.

Todos os trabalhadores, tanto do campo quanto os da cidade, têm todos os direitos respeitados. Aposentadoria aos 60 anos para os homens e 55 para as mulheres, férias mesmo para aque­les que trabalham por conta própria, saú­de e educação, licença de materni­dade de 1 ano para as mães. Em Cuba há apenas 3% de desempregados.

Após a queda do socialismo real, em Novembro de 1989, Cuba entrou num Regime Especial. A agricultura ur­ba­na é incentivada e está a ser desen­volvida para melhorar a alimentação do povo da cidade. Lotes vagos, fundo de quintal e pequenos espaços de ter­ra na cidade estão a ser aproveitados na produção da horticultura. Há técni­cos agrícolas que orientam o plantio. Sementes são doadas. Fertilizante orgâ­nico e húmus a partir de minhocas chi­ne­sas garantem o êxito da produção de verduras.

10. Economia cubana

Em Cuba a economia é estatal. Cada pessoa só pode ter uma casa e os que têm, só podem ter um carro. Exis­tem diversos mecanismos para se impedir a acumulação de riquezas. Com uma economia tão “engessada” di­riam os economistas de plantão, Cuba cresceu mais de 12,5% no ano passa­do.

Em Cuba é proibido enriquecer-se, pois o enriquecimento de uns gerará o empobrecimento de outros. Para ga­rantir esse princípio, uma série de me­di­das económicas são tomadas. Por exemplo, de dois em dois anos, mais ou menos, muda-se a moeda para evi­tar acumulação. Quem juntar dinheiro em casa, ainda que pouco-a-pouco, ven­dendo artesanato, com táxi, turismo, só poderá trocar pouco dinheiro velho pelo novo. Assim controla-se e impede-se a acumulação.

Em 2005, foi proibido o comércio com dólar em Cuba. Agora o turista é obrigado a trocar o dólar para “peso convertible” com uma desvalorização de 20%, isto é, 1 dólar vale 0,80 de peso “convertible”. Este vale 24 “pesos nacionais”, que é a moeda utilizada pe­los cubanos. Uma pessoa cubana paga em peso nacional a maioria dos produ­tos. Um estrangeiro paga em peso “con­vertible”.

É proibida a existência de classes entre os cubanos. O salário-mínimo es­tá em 225 pesos nacionais por mês, piso mínimo para os aposentados. Há acréscimos como prémio aos melhores funcionários. Uma pessoa não conse­gue ganhar mais do que 900 pesos na­cionais por mês, incluindo todos os in­cen­tivos e prémios por mérito. As em­pre­sas estatais dão “estímulos”, tais co­mo cesta-básica, direito de fazer um curso especial em Cuba ou no exterior.

Em Cuba as tarifas por serviços públicos são baixíssimas. A tarifa de energia é de 9 pesos nacionais (cerca de 35 centavos de real) para 100 quilowatts de energia. Tanto as famílias quanto as empresas pagam o mesmo valor por 100 quilowatts. Paga-se muito pouco também pelo consumo de água e gás de cozinha.

Os cartões de crédito – excepção feita ao American Express e aos emiti­dos nos Estados Unidos – são aceites em Cuba, em muitos lugares.

Muitos se perguntam como se po­de viver com tão pouco em Cuba. O in­crível é que não há violência no país, pelo rosto vê-se que as pessoas gozam de boa saúde, todos estudam ou só não estuda quem não quer. Quase to­dos têm trabalho. Não falta alimento nu­tritivo para ninguém. Só não há luxo e desperdício alimentar. Como a educa­ção e a cultura são prioridades do go­verno, os cubanos pagam muito barato para entrar nos teatros, nos museus, e em todos os locais que custam mais caro para os turistas. Esse pode ser um exemplo a ser seguido por outros povos.

Se olharmos bem, após conhecer Cuba, podemos ver que Cuba é um país para todos. Uma cubana provocou-nos: “O Brasil é um país lindo, mas me dói o coração e me deixa indignada ver os deputados brasileiros aumentarem em quase 100% seus próprios salários, já astronómicos. Isso é uma desuma­ni­dade gritante. Não entendo como o po­vo brasileiro não se levanta contra essa e tantas outras injustiças.”

A maioria dos cubanos admira a Teologia da Libertação, frei Betto, Leo­nardo Boff, as Comunidades Eclesiais de Base - CEBs - o MST e os Movimen­tos Populares do Brasil. Isso fortalece os nossos laços de amizade e a vontade de voltar ao país que recebe a todos como irmãos.

Engana-se quem pensa que Cuba se esfacela após Fidel Castro. A admi­ração e o respeito que os cubanos têm pelo Grande Comandante, a ponto de o chamarem de “nosso pai”, garantirão a firmeza na marcha socialista, mesmo após sua morte. Fidel está interiorizado no povo e será muito mais vivo e forte após sua morte. Em Cuba pode-se afir­mar, sem sombra de dúvidas, que há 11 milhões de defensores da Revolução. Quem viver verá!

Frei Gilvander Moreira

gilvander@igrejadocarmo.com.br


IGREJA /SOCIEDADE

II Forum Mundial de Teologia e Libertação decorreu entre 16 e 18 de Janeiro em Nairobi (kenya)

Espiritualidade para outro mundo possível

Breve notícia, em 8 parágrafos, elaborada

por Evaristo Vilar e divulgada por EcleSALia

Na impossibilidade de se deslocar a Nairobi, no Kenya, para acompanhar ao vivo o II Forum Mundial de Teologia e Libertação, Jornal Fraternizar tem, no entanto, a alegria de poder partilhar com as suas leitoras, os seus leitores a breve notícia eleborada por Evaristo Vilar e difundida pela EcleSalia. Partilha também, logo a seguir, o texto condensado da conferência que o nosso companheiro e amigo, o teólogo ibérico Juan José Tamayo, proferiu naquele evento de tanta monta. Ninguém deixe de ler/dialogar/divulgar

1. Participaram umas 300 pessoas. A cidade de Nairobi que acolheu o Fó­rum tem quase 3 milhões de habitantes. Línguas mais faladas, inglês e kiswa­hili. Três quartas partes da população vivem em bairros pobres (“slums”), que formam uma cintura de miséria e de de­gradação a contrastar com um cen­tro colonial, comercial e administrativo mais próspero. Tal como o I Fórum, em 2005, no Brasil, também este acon­teceu imediatamente antes do Forum Social Mundial e na mesma cidade.

2. A grande novidade deste II Fó­rum foi o grande número de comunica­ções apresentadas e o grande número de grupos de trabalho que debateram de forma acalorada e fecunda as espi­ri­tualidades, as igrejas, o diálogo inter-religioso, intercultural e inter-étnico, os rituais, a justiça económica e ecoló­gica, os direitos humanos, a democra­cia e a paz, a releitura dos textos sa­grados, as diferentes espécies de femi­nismo, as religiões, etc

3. No primeiro dia, o Forum fez uma análise sócio-económica, estrutural e de conjuntura, do neoliberalismo rei­nante. Encarregou-se disso François Houtart, sociólogo e perito do Vaticano II. Fundamentou igualmente o apareci­mento urgente duma espiritualidade que encarne/visualize a preferência de Deus pelos pobres. Houtart sublinhou a brecha crescente que se está a abrir en­tre o Norte e o Sul, com o dramático resultado de um holocausto implacável contra a população do Sul, cada dia mais empobrecida. Entre outros eixos da acumulação e da usura capitalista, des­tacou com particular ênfase o agro-negócio, a privatização dos serviços pú­blicos e o controlo da biodiversidade.

4. A resposta a esta dramática si­tua­ção veio pela mão de três teólogos que reflectiram a partir dos perdedores: Tinyko Maluleke, africano, que desta­cou o contributo que as religiões podem dar neste combate; Rohan Silva, asiá­tico, que aprofundou a necessária cum­pli­cidade das igrejas com os movi­men­tos sociais; e Jon Sobrino que, a partir da América Latina, voltou a realçar a centralidade das vítimas na experiên­cia de fé das comunidades cristãs.

5. No segundo dia, a manhã foi de­di­cada à reflexão sobre a realidade só­cio-religiosa africana. O diálogo entre os teólogos John Lukwata, ugandês, e Philomena Mwarua, keniata, pôs em evi­dência alguns aspectos menos edifi­cantes do actual processo sócio-reli­gioso africano e as possibilidades de o enfrentar mediante um encontro só­lido entre o cristianismo e as religiões autóctones. A tarde proporcionou aos participantes a marcante experiência de imersão nos bairros de miséria de Nairobi. “Onde encontrar Deus neste lugar de morte?”, parecia perguntar a algaraviada das crianças vestidas de sujidade e de miséria que nos saltavam ao caminho.

6. O terceiro dia foi de trabalho de grupos. Formaram-se 24 grupos. No seu conjunto, tentaram captar os princi­pais desafios com que a espiritualidade dos seres humanos está hoje confron­ta­da: os bairros de miséria; a luta contra a SIDA, a prostituição; o tráfico de mu­lhe­res e crianças; os direitos humanos espezinhados; a democracia e a paz que ainda não há; a superação da teo­logia do Império e dos fundamenta­lis­mos.

7. Na manhã do quarto e último dia, duas mesas redondas. Uma dedi­cada ao diálogo entre as tradições reli­giosas numa perspectiva libertadora e à espiritualidade e respeito pela diver­si­da­de. A outra abordou as patologias a superar pela nova espiritualidade e a disposição de aceitar os novos para­digmas que se avizinham. Foi nesta mesa redonda que participou o teólogo madrileno, Juan José Ta­mayo (ver texto da sua comunicação ao lado).

8. A concluir, fica aqui uma síntese do grupo de trabalho sobre “espiritua­lidade laica”, animado pela Rede Eu­ropeia e não isento de polémica. Inte­graram o grupo os teólogos Hugo Cas­telli, Maria José Arana, José M.ª Vigil e Evaristo Vilar. Eis algumas pistas-força:

a. O cristianismo europeu está a atra­vessar uma grande crise, devido às transformações da consciência religio­sa que já não nos permite “crer da mes­ma maneira”.

b. Uma primeira transformação é con­sequência do crescente pluralismo religioso. Depois de séculos a viver a experiência de um cristianismo como a “única religião verdadeira”, hoje a bio­diversidade, também religiosa, é captada como um valor sagrado que não permite aqueles exclusivismos. Esta nova consciência está a afectar já a nos­sa forma de viver e de compreen­der a nossa espiritualidade e o nosso cristianismo.

c. Uma segunda grande transfor­ma­ção é causada pelo avanço dos sa­be­res no seu conjunto. Na nova era do conhecimento em que estamos a en­trar, a religião já não pode continuar a desempenhar os papéis que jogou nos milénios anteriores. A forma de ex­pressão religiosa que a espiritualidade do ser humano adoptou nos últimos mi­lénios está em crise. Precisa de outra forma de expressão. Obriga-nos a viver em estado de procura, assediados de novas perguntas ainda sem respostas.

d. Neste contexto, onde encontrar um núcleo comum sobre o qual assen­tar no futuro a nossa espiritualidade? Muitos de nós cremos encontrar esse núcleo na assim chamada regra de oi­ro: “Trata os outros como queres ser tra­tado por eles”, que é a mais univer­sa­lizável colaboração entre as religi­ões e também o mais seguro caminho para a paz. Entre os cristãos, a regra de oiro expressa-se no imperativo cate­górico do amor-justiça libertador que, nas últimas décadas, se formulou como “opção pelos pobres”. Por aí passa, a nos­so ver, o núcleo comum do que ho­je seria a espiritualidade essencial.

e. Mais em concreto: para que tipo de espiritualidade caminhamos? A es­piritualidade vai deixar de ser um cam­po separado da vida e submetido à reli­gião, para converter-se numa dimensão profunda da vida em plenitude Será uma espiritualidade em geral desvincu­lada das religiões, laica, simples e pro­fun­damente humana. Talvez estejamos a ir para um “pós-cristianismo”, ou um “pre-cristianismo”, um fenómeno espi­ri­tual como o movimento de Jesus “an­tes do cristianismo”.

f. Se esta hipótese estiver certa, então deveremos propormo-nos os seguintes objectivos: reconhecer o plu­ralismo religioso existente como ponto de partida e via de superação de toda a forma de exclusivismo e de inclusi­vismo teológico confessional e como condição necessária para a aceitação da igual dignidade de todas as religi­ões. Deveremos tomar consciência da mudança epocal que se está a verificar na consciência do ser humano e no con­junto de todos os saberes, assim como da crise que está a afectar muito seriamente a plausibilidade da fé, para encaminharmos conjuntamente toda a humanidade para um lugar comum, pré­vio e para além das religiões, onde seja possível o encontro de todos os se­res humanos, crentes ou não.

g. Em resumo: Diante da desigual­dade e da exclusão que fazem alargar a brecha de separação entre os seres humanos, uma espiritualidade para “Outro mundo possível” deverá regres­sar à regra de oiro presente em quase todas as religiões, como base comum e impulso ético capaz de implantar uns mínimos de justiça e de liberdade, que dignifiquem a vida humana e a própria continuidade do planeta terra.

h. Em consequência, uma espiritua­lidade para “Outro mundo possível terá que estar sempre muito colada à vida e à terra, exercendo adultamente a sua liberdade e responsabilidade no mun­do, sendo crítica com todos os poderes fácticos que pretendam tutelá-la e eman­cipando-se de todas as instâncias e instituições - mesmo as religiosas - que tentem condicionar/controlar a identidade do ser humano. Dito de ou­tra maneira: Uma espiritualidade que não renuncie nunca à aventura de vi­ver, e de viver em plenitude.


Juan José Tamayo foi um dos intervenientes no Fórum

Sem dimensão política,

a espiritualidade desemboca no espiritualismo

- Conferência traduzida e condensada pelo Jornal Fraternizar

Aos meninos, às meninas de Kibera, em Nairobi, o subúrbio mais povoado de África - 800.000 pessoas - e símbolo da exclusão por amor da globalização neo-liberal, que me acolheram carinhosamente com a saudação de “Karibu” (= bem-vindo!) e com quem sonhei por umas horas um “outro mundo possível”. Oxalá o Fórum Mundial de Teologia e Libertação e o Fórum Social Mundial, celebrados estes dias na cidade de Nairobi, despertem a consciência dos governantes e gerem a rebelião dos excluídos.

Centrarei a minha intervenção na diversidade religiosa e cultural, em cujo horizonte é necessário re-pensar e vi­ver a espiritualidade. Divido a minha ex­posição em três partes. A primeira re­fere-se às patologias da espiritua­li­dade. A segunda analisa o fenómeno da diversidade religiosa e cultural co­mo um facto, como uma necessidade e como riqueza do humano que deve ser potenciada. A terceira é a proposta de um novo paradigma de espirituali­dade que apresenta quatro caracterís­ti­cas: inter-culturalidade, inter-identi­dade, inter-espiritualidade e inter-li­ber­ta­ção. Começo com uma breve in­tro­dução sobre a espiritualidade como dimensão fundamental do ser humano e a sua relação com outras das suas di­mensões.

1. A espiritualidade, dimensão fundamental do ser humano

A espiritualidade é tão inerente ao ser humano como a sua corporeidade, a sua sociabilidade, a sua praxicidade. Possui autonomia relativa, já que “be­be” nas condições em que vivem os se­res humanos: condições políticas, soci­ais, económicas, culturais, biológicas, ao mesmo tempo que as ilumina e trans­forma.

É necessário evitar dois perigos: a separação absoluta da espiritualida­de das demais dimensões do ser huma­no, que desembocaria no dualismo e no espiritualismo; e a identificação com as outras dimensões, como um todo in­di­ferenciado. A relação tem de ser dia­léctica.

Não é possível vida espiritual sem vida real e histórica, como tão pouco é possível viver com espírito sem que este se faça carne.

2. Patologias da espiritualidade hoje

A espiritualidade vive hoje uma sé­rie de patologias que a desviam da sua função libertadora e transformado­ra. Debruçar-me-ei sobre seis dessas patologias: a) Espiritualidade entendi­da e praticada como negócio e sujeita ao assédio do Mercado; b) Espiri­tu­a­li­dade manipulada politicamente por in­teresses espúrios ao serviço do Império e posta ao serviço dele; c) Espirituali­da­de vivida e praticada patriarcalmente nas religiões monoteístas; d) Espirituali­dade uniforme e monolítica nos discur­sos identitários e nos monoteísmos; e) Es­piritualidade institucional sem e(E)s­pí­rito; f) Privatização e despolitização da espiritualidade.

a) O negócio da espiritualidade

Actualmente, até a espiritualidade acabou por cair nas redes do Mercado, sujeitando-se às suas férreas leis. Tor­nou-se um objecto mais de consumo e de compra-e-venda. O Wall Street Jour­nal revelava no ano 2000 que a espiri­tua­lidade movimentava no mundo mais de mil milhões de dólares. Por mim, a­cho que será ainda bem mais. Basta ver como a magia e a superstição, na sua versão religiosa e laica, se apode­ra­ram da espiritualidade e a comerciali­zam a preços de mercado, depois de a esvaziar da sua dimensão vital pro­funda. Aproveita-se da debilidade psi­co­lógica e cultural das pessoas e faz-se negócio até com os seus sentimentos que são o que elas têm de mais sagra­do. Aumenta o número de clientes da “cul­tura dos horóscopos”, que se con­ver­teram numa religião de pessoas cré­dulas, carentes de sentido crítico diante da publicidade enganosa. Aumentam as consultas a videntes, cartomantes, adi­vinhos, bruxas. O preço que se paga é elevado, quer no plano económico, quer no plano humano. Estamos peran­te uma nova forma de simonia, ainda mais perversa que a descrita no Livro dos Actos dos Apóstolos (8, 14-24). Na religião do mercado, a espiritualidade converte-se em idolatria, já não ao be­zer­ro de ouro, como nos tempos de Moi­sés, mas ao ouro do bezerro!

Também as religiões orientais aca­ba­ram convertidas no Ocidente em mais um negócio. O que, à partida, é um maravilhoso capital antropológico, sapiencial e místico da humanidade pas­sou a ser uma forma de exploração de pessoas crédulas, sem capacidade de autodefesa perante as agressões de manipuladores sem escrúpulos.

Na religião do Mercado não há lu­gar para a gratuidade, nem para a com-paixão, muito menos para o com-parti­lhar.

Os traços comuns a toda a espiri­tua­lidade são os seguintes: o respeito pelo mistério, que é imanipulável, a gra­tuidade, o encontro gozoso com a natureza, a experiência comunitária da fé, a relação pessoal com a divindade e com o que nos transcende, a contem­plação, o silêncio, a estética do sagra­do, o fascínio pelo santo, o compar­ti­lhar, o reconhecimento do O(o)utro e suas consequências éticas, a com-pai­xão. Mas na religião do Mercado, não há lugar para nada disto. E no seio das re­ligiões ou igrejas tradicionais do Oci­dente, também não.

b) A manipulação da espiri­tua­li­da­de na religião do Império

A espiritualidade está sujeita ao assédio do Império, na nova religião que este construiu à sua imagem e se­me­lhança. O Império apropria-se do Deus cristão como seu aliado e ao seu serviço, nomeadamente, da guerra. A­pro­pria-se de Jesus de Nazaré, cuja per­sonalidade subverte. Faz do cristia­nismo a sua religião oficial e converte-a numa espiritualidade de reconquista, de combate, de trincheira contra o Is­lão, considerado por Samuel Huntin­gton, um dos ideólogos do Império, co­mo “a civilização menos tolerante das re­ligiões monoteístas”. O Deus do cristi­a­nismo acaba transformado num ídolo e a religião cristã numa mediação ido­lá­trica. A manipulação de ambos acaba por legitimar os comportamentos bélicos do Império. O Deus da vida torna-se as­sim no Deus da morte. A espirituali­da­de do Império é por isso uma espi­ri­tualidade necrófila, semeia a morte e a destruição por toda a parte: na hu­manidade, na natureza e até na atmos­fera.

c) Espiritualidade androcêntrica nas religiões monoteístas

As religiões estão configuradas pa­triarcalmente. E a espiritualidade insti­tu­cional adquire feições patriarcais e an­dro­cêntricas. Na tradição cristã, o lugar das mulheres tem sido junto à cruz, a sua espiritualidade tem sido a do sofrimento redentor, sem nunca che­ga­rem à ressurreição, quando, afinal, até foram mulheres as primeiras teste­mu­nhas do Ressuscitado. Ao contrário, a espiritualidade do varão é a do mé­ri­to, da autoridade, do êxito, do reco­nhe­cimento, da visibilidade, muito parecida com a do fariseu do evange­lho. A das mulheres caracteriza-se pelo silêncio, abnegação, submissão, invisi­bi­lidade, o cuidado pela vida, a entre­ga, o serviço, à semelhança de Cristo que não veio para ser servido mas para servir.

d) Espiritualidade uniforme nos discursos

Hoje, predominam os discursos identitários, para fazerem frente ao “ou­tro”, aos “outros”. São discursos que não assumem nem integram as diferen­ças culturais e religiosas de cada qual, mas fomentam o choque, o confronto, e estão na origem de novas guerras de religiões e de culturas.

Dois exemplos emblemáticos de dis­curso identitário fechado: um, cultu­ral, e outro, religioso. O cultural está representado por Samuel Huntington que defende o choque de culturas e de civilizações como lei da História no sé­culo XXI: “A fonte essencial de conflito neste mundo novo não será fundamen­tal­mente ideológica nem económica. As grandes divisões da humanidade e a fonte predominante do conflito serão de tipo cultural. As nações-Estado con­ti­nuarão a ser os actores mais podero­sos na política mundial, porém, os prin­ci­pais conflitos produzir-se-ão entre na­ções e grupos de civilizações distin­tas. O choque de civilizações dominará a política mundial. As linhas divisórias entre civilizações serão as frentes de batalha do futuro”.

O discurso identitário religioso es­tá representado pelo documento Domi­nus Iesus, publicado em 2000 pela Con­gregação para a Doutrina da Fé. O seu obje­ctivo é duplo: fixar nitidamente a ortodoxia católica na relação com as ou­tras religiões, segundo o velho axio­ma “Fora da Igreja não há salvação”, apresentando Jesus de Nazaré como salvador único e universal (cristologia e eclesiologia excluentes); e condenar as teologias do diálogo inter-religioso e da complementaridade do cristianis­mo e das religiões, defendendo a su­pe­rioridade daquele sobre estas. “É, portanto, contrário à fé da Igreja a tese do carácter limitado, incompleto e im­per­feito da revelação de Jesus Cristo, que [assim] seria [apenas] complemen­tar à que se encontra nas outras reli­giões”.

Os discursos identitários, instala­dos com frequência nas cúpulas das re­ligiões e da política, dão lugar a uma es­piritualidade uniforme, fechada sobre si mesma, sem comunicação com outras espiritualidades e experiências.

e) Espiritualidade institucional sem espírito

As religiões tendem a preservar as instituições de toda a ameaça externa e interna e a blindá-las frente a toda a crítica. Pensam que assim asseguram melhor a sua estabilidade e garantem a sua sobrevivência. Esquecem-se com frequência da mensagem original, do espírito dos seus fundadores e do con­tex­to em que todas elas surgiram. Re­sul­tado: Ganha corpo uma espirituali­dade cheia de poder, mas sem espírito, dotada de disciplina rígida mas sem di­na­mismo, afirmativa na sua autoridade mas sem liberdade, firme na sua estabi­li­dade institucional mas sem profecia.

f) Privatização e despolitização da espiritualidade

Há hoje uma tendência cada vez mais acentuada para dividir a realida­de em dois planos perfeitamente dife­renciados e incomunicados: público-pri­vado, sagrado-profano, material-espi­ritual, celeste-terrestre, humano-divino, mito-história. Como justificação de tal se­paração, costuma citar-se, fora do contexto e com forte carga ideológica, o texto evangélico: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. De­duz-se daqui que o divino subsiste fora do humano e que o lugar natural da espiritualidade é a alma. Eis aí o grau máximo de privatização, despoliti­za­ção e espiritualização.

Ora, sem dimensão política, a espi­ritualidade desemboca no espiritualis­mo, e sem espiritualidade – não neces­sa­riamente religiosa – a política conver­te-se em razão de Estado e passa a ser pura gestão administrativa rotineira e técnica eleitoral, que existe para legi­ti­mar a ordem estabelecida e renuncia por completo à sua função libertadora.

3. Diversidade religiosa e cultural

A diversidade é uma dimensão do hu­mano e constitui a verdadeira riqueza da humanidade. Está na natureza das coisas, é um valor a potenciar. Mais, é a perfeição do universo. A diversidade oferece uma riqueza de possibilidades e possui um grande potencial criativo que está confrangedoramente audente no pensamento único e na uniformi­da­de.

O mesmo se passa no terreno reli­gioso. Vivemos num pluriverso religioso, não num universo religioso. A história das religiões mostra a grande criativida­de mítica, sapiencial, ritual, ética e sim­bólica da humanidade. Mostra que exis­tem múltiplos e variados universos reli­gio­sos, cada qual com a sua especifi­ci­dade cultural em constante intercâm­bio e em reformulação dos seus respe­ctivos patrimónios culturais.

Demos dois exemplos: O subúrbio de Kibera, aqui em Nairobi, e o meu pró­prio país, Espanha. Em Kibera, exis­tem mais de 300 denominações religio­sas e 50 etnias e não costuma haver con­flitos por razões religiosas. Em Es­pa­nha, país de religião e de cultura úni­cas durante séculos, a católica, devido à expulsão dos judeus e dos muçulma­nos e à perseguição do protestantismo, é hoje, felizmente, um caudal fecundo de culturas, religiões e movimentos es­pi­ri­tuais em diálogo.

A diversidade religiosa não repre­senta uma ameaça contra a vivência e o desenvolvimento da própria religião. Pelo contrário, é uma vantagem.

A Carta aos Hebreus, da Bíblia cristã, afirma que noutras épocas Deus falou de múltiplos modos através dos profetas e, finalmente, o fez por Jesus Cristo. O Alcorão refere de maneira insistente as diferentes revelações de Deus, desde Abraão a Maomé.

Mas será que a diversidade religio­sa conduz ao relativismo da religião e à perda da prática religiosa? Assim pen­sava o cardeal Ratzinger e ainda pen­sam alguns dirigentes eclesiásticos. Mas não é verdade. Diversos estudos so­ciológicos coincidem em que os paí­ses e as cidades com maior grau de diversidade religiosa são também os que possuem os índices mais altos de crença e de prática.

4. Novo paradigma de espiritualidade

O nosso mundo e as nossas socie­dades requerem um novo paradigma que responda a quatro aspectos hoje fundamentais na espiritualidade:

a) A inter-culturalidade, como si­nal dos tempos e imperativo ético.

O choque de civilizações não é uma lei da história humana, tão pouco um sinal do nosso tempo e menos ain­da uma espécie de imperativo ético. É uma patologia que resulta duma cons­trução ideológica do Império, para que este continue a dominar o mundo, travestido no papel de “grande irmão”. O sinal dos tempos e o imperativo ético são a inter-culturalidade que, por sua vez, dá lugar à inter-identidade e à inter-espiritualidade.

A inter-culturalidade parte do va­lor e da dignidade de todas as culturas, da não superioridade apriorística du­ma sobre as outras. É um antídoto con­tra o fundamentalismo político, cultural e económico. Além de tolerância, a inter-culturalidade implica comunica­ção fluida entre grupos diferentes e con­vivência dinâmica. Implica também assumir os conflitos que ela possa ge­rar e por vezes gera. Do ponto de vista moral, a inter-culturalidade implica che­­gar a uns mínimos éticos comuns para uma convivência harmónica. Cons­titui uma experiência de abertura respeitadora do “outro”, dos “outros”.

b) A espiritualidade no diálogo de civilizações

Este diálogo faz-nos compreender que o “eu” é antes de mais relação com o outro,o “tu”, com todos os “t(T)u”. Leva-nos a perceber que o trabalho não é tudo na vida. Há outros valores fundamentais, como a festa, o jogo, a dança e questiona o crescimento ce­go, desligado do bem e da felicidade de todos os seres humanos. Exige u­ma política de “fins” e não apenas de “meios”. Descobre a dimensão nova da fé na política e na cultura e vive a li­berdade como participação de cada pessoa no acto criador.

Uma espiritualidade assim enten­dida e vivida pode livrar-nos do “suicí­dio planetário” que se manifesta nos se­guintes fenómenos: crescimento da desigualdade entre Norte e Sul e, den­tro dos países desenvolvidos, entre os que têm e os que não têm; natureza em vias de extinção, devido à contami­nação e ao esgotamento dos recursos; estilo de vida ocidental insustentável e não universalizável; lógica da vida su­jeita à lógica do mercado. “Uma revolu­ção necessita mais de transcendência do que de determinismo” (Garaudy).

c) Inter-identidade

Não existem identidades puras, in­con­taminadas, nem religiosas, nem cul­turais. A identidade constrói-se em diá­lo­go com e em abertura com outras iden­tidades. Em constante dialéctica de en­contro e de enfrentamento. “A minha pró­pria identidade depende, de modo crucial, das minhas relações dialógicas com os demais” (C. Taylor).

A Bíblia hebraica e a Bíblia cristã são um bom exemplo desta relação dia­ló­gica, crítica e reciprocamente fecun­da entre helenismo e judaísmo, entre pensamento grego e cristianismo, entre Atenas e Jerusalém.

d) A inter-espiritualidade como alternativa

Na origem das religiões, há uma ex­periência mística, vivida na sua radi­calidade pelos fundadores e pelos pri­meiros seguidores que brota do encon­tro com o mistério. O hinduísmo remonta aos rishis, os sábios do bosque. O Dhar­ma budista arranca do momento da ilu­minação de Siddharta Gautama, o Buddha. O judaísmo tem a sua origem na revelação de Iahvé aos patriarcas e às matriarcas de Israel, Abraão, Isaac e Jacob, a Moisés o libertador e à sua irmã Míriam, aos profetas e profetisas crí­ticos do culto e defensores da justiça e da subjectividade da fé. O cristianismo nasce do encontro de Jesus com Deus, a quem num gesto de confiança chama Abbá. A origem do Islão encontra-se na re­velação de Alá a Maomé e na experi­ência mística do profeta. É também a mís­tica que constitui o elemento de ins­piração e de dinamismo das religiões in­dígenas de Ameríndia e da religião africana.

O problema é que a religião e a cul­tura dominantes tentaram sufocar e desacreditar a experiência mística nes­tas religiões. “A cultura dominante admi­te os indígenas e os negros como obje­ctos de estudo, mas não os reconhece como sujeitos de história; os indígenas têm folclore, não cultura; praticam su­pers­tições, não religiões; falam diale­ctos, não línguas; fazem artesanato, não arte” (Eduardo Galeano)

A mística como lugar de experiên­cia inter-religiosa e inter-espiritual é in­compatível com os dogmatismos ins­talados nas religiões e constitui um an­tí­doto contra os fundamentalismos e pre­vine o choque de civilizações e de culturas.

e) Inter-libertação

É necessário realizar a grande re­vo­lução dos valores que comece pelo próprio ser humano e se estenda até às estruturas. Uma revolução que impli­ca: a libertação da nossa riqueza e bem-estar sobreabundntes e a opção por uma cultura do com-partilhar; a li­ber­tação da nossa prepotência e a o­pção pela virtude que se afirma na de­bilidade; a libertação do nosso consu­mo que nos leva a consumir-nos até a  nós próprios, e a opção pela austeri­da­de; a libertação do nosso domínio so­bre os outros e a natureza, e a opção por umas relações assimétricas e não opressivas; a libertação da nossa apa­tia diante da dor humana, e a opção pela misericórdia com as pessoas que sofrem; a libertação da nossa pretensa inocência ética e da nossa pretensa neutralidade política, e a opção pelo com­promisso na vida política, nos mo­vimentos sociais e nas ONGs; a li­bertação da nossa mentalidade patri­arcal e machista, e a opção pela igual­da­de não clónica de homens e mulhe­res; a libertação de todo o poder o­pres­sor, e a opção pela amizade, o diá­logo, a convivência, a gratuidade, a pro­ximidade, a fraternidade-sororida­de; a libertação de espiritualismos eva­sivos, e a opção pela “santidade políti­ca”, como reclama Dietrich Bonhoeffer.

f) Para uma espiritualidade femi­nista

Na nova espiritualidade, a mulher redescobre-se como sujeito e não acei­ta mediações clerico-patriarcais ou hi­e­rár­quico-institucionais que, no fundo, pretendem negar a sua subjectividade.

O lugar da nova espiritualidade é o mundo sem fronteiras, a natureza, a vida como dom e tarefa, a realidade sem dualismos, numa palavra, todos os recantos onde respirem seres humanos e o E(e)spírito. É uma espiritualidade sa­piencial, política, não intimista, activa, que levanta a voz e luta a favor das pes­soas indefesas e da natureza. Por isso, é uma espiritualidade rebelde e in­conformista com o Sistema excluente e caracteriza-se por uma profunda ins­pi­ra­ção ético-práxica, consciente de que uma espiritualidade sem ética é va­zia e uma ética sem espiritualidade é cega.

A nova espiritualidade expressa-se através da linguagem dos símbolos, dos corpos, dos sentimentos, das pai­xões, da experiência. É, enfim, é uma espiritualidade ecológica.



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