Textos do
Jornal Fraternizar

Edição nº 162, de Julho/Setembro 2006

DESTAQUE 1

Código Da Vinci: a verdade e a mentira

Por Pe. Marcelo Barros (Monge beneditino, Brasil) e

       Frei Gilvander Moreira (Padre Carmelita, Mestre em Exegese Bíblica, Brasil)

Nos dias em que as Igrejas cris­tãs de tra­dição antiga se preparavam para a festa litúrgica do Pentecostes, que celebra a vinda do Espírito de Deus para fecundar todas as culturas e tornar os discípulos e as discípulas de Jesus ca­pazes de compreender os diferentes idiomas e linguagens da humanidade - a base da vocação para o diálogo com o diferente e a unidade - eis que apa­re­ce­ram, um pouco por todo o mun­do,  grupos de cristãos e pastores fa­zen­do campanha contra o romance O Código da Vinci, do escritor Dan Brown e contra o filme dirigido por Ron Howard, inspirado no livro.

Estas campanhas contêm vários riscos e enganos. Podem até transfor­mar-se em peça favorável à obra que querem atacar. Dizem que as informa­ções do romance sobre o cristianismo e as origens da Igreja são todas men­tirosas. No entanto, negam com tanta força as afirmações do livro que pare­cem aceitar a tese do autor de que se os tais segredos contidos no romance fossem descobertos, destruiriam a fé cristã.

Estas campanhas colocam-se, as­sim, no mesmo nível do escritor em seu fun­damentalismo. A diferença é que Dan Brown propôs-se escrever um ro­mance e não reconstituir a história. Os tais cris­tãos que pensam defender a fé atacan­do O Código da Vinci, além de fazerem propaganda da obra, ao reduzirem a fé a certas expressões his­tóricas do do­gma, testemunham uma fé fechada e rígida. Esta imagem ne­ga­tiva do cristi­a­nismo só os cristãos a podem dar.

Para quem não leu o livro e não viu o filme é difícil resumir a complexa trama do romance. Um director do Mu­seu do Louvre é descoberto assassi­na­do. Junto ao corpo, encontram-se es­tra­nhos códigos, escritos com o seu sangue. A polícia francesa pede a aju­da de Robert Langdon, norte-america­no, professor de simbologia religiosa, que acaba por se tornar suspeito. Ro­bert e Sophie, neta da vítima, saem co­mo detectives, por vários países da Eu­ropa, atrás do segredo ali contido. Des­cobrem que o avô de Sophie era um dos líderes do Priorado de Sion, so­ci­e­dade secreta que teria pertencido a Leonardo da Vinci e que tem como meta proteger um segredo milenar. Este crime, como outros, teria sido cometido pela Opus Dei, associação católica tra­di­cionalista, que faz tudo para impedir que se descubra a verdade, há dois mil anos, ocultada pela Igreja: - Jesus Cristo foi casado com Maria Madalena. Era um simples homem que, no século IV, o Concílio de Niceia (ano 315 d.C.), sob pressão do imperador Constantino, teria divinizado. De facto, após a sua cru­cifixão, Maria Madalena, grávida de Jesus, teria emigrado para França e ali tem descendência, sendo que até hoje existe ali uma herdeira sua.

Actualmente, no mundo inteiro, co­mu­nidades cristãs da América Latina, África e outros continentes sentem ne­ces­­sidade de “des-ocidentalizar” o cris­­tianismo, ou seja, que a fé cristã se ex­presse de um modo novo, mais apto a tocar no coração da humanida­de plu­ralista de hoje.

Historiadores e teólogos sabem que foi sob pressão de imperadores e de conjunturas políticas pouco evangé­li­cas que alguns dos Concílios antigos formularam importantes dogmas da fé cristã. É verdade que os imperadores antigos se utilizaram do cristianismo e que grande parte da hierarquia ecle­siás­tica da época se deixou utilizar po­liticamente para conquistar o poder em nome de Deus. É verdade também que o imperador Constantino teve forte in­fluência na afirmação dogmática do Concílio de Niceia (315) sobre a nature­za divina de Jesus. Mas já não é verda­de que ele tenha “inventado” a divinda­de de Jesus.

A fé de que, de alguma forma, Je­sus é o Filho de Deus vem de tempos antigos. Apoia-se em afirmações dos E­vangelhos que, embora tenham um si­gni­ficado mais simples, permitem esta interpretação. Hoje, várias correntes da Teologia estão aprofundando e pro­­põem uma nova forma de compre­ender a pessoa de Jesus e sua unida­de com Deus. Não há um dualismo en­tre natu­reza humana e divina. “Jesus foi tão hu­mano, tão humano, que se tornou di­vino”, exclamou o papa João XXIII. Logo, Jesus tornou-se divino. 

Conforme o que se percebe no ro­mance, parece que uma possível rela­ção amorosa entre Jesus e Maria Ma­da­le­na seria a prova de que este é um sim­ples homem e não Deus. Ora, desde os primeiros séculos, a maioria dos cris­tãos professa que se Jesus é divino, o é justamente por ser total­men­te ho­mem. A oposição entre ser divino ou hu­mano não existe. Muitos dos que en­tram nesta polémica não percebem esta contradição. Ao negar que Jesus pu­des­se ter vivido uma relação matri­mo­nial com Maria Madalena, pelo fato de ser Filho de Deus, reforçam uma visão sobre a divindade de Jesus que a Igre­ja cristã nunca aceitou. A questão se Jesus foi casado ou não com Maria Ma­da­lena pode ser discutida em ter­mos históricos. Até hoje, não existe prova duma tal relação.

No ponto de vista histórico, as alu­sões a uma possível relação amorosa entre Jesus e Madalena baseiam-se em manuscritos descobertos em 1948 em Nag Hammadi (Egipto). São textos ori­ginários de seitas gnósticas (hoje dirí­a­mos esotéricas) dos séculos II e III. En­tre eles, o chamado Evangelho de Fi­lipe chama Maria Madalena de “a com­panheira do Senhor” e diz que Je­sus a beijava na boca.

Nestes textos antigos, tais infor­mações têm um sentido bem diferente da que ganham ao ser lidos hoje. Os gnósticos queriam superar os limites da corporalidade para serem mais es­pirituais. Para eles, a união entre o mas­­­culino e o feminino era vista como superação da divisão corpórea. Jesus e Madalena eram exemplos desta inte­gração. O beijo na boca era como uma senha do grupo. Era sinal da comuni­cação da sabedoria interior. Dizer que Jesus beijava Madalena na boca era a forma de dizer que Jesus pertencia ao grupo deles e Maria Madalena era a depositária privilegiada da sabedoria comunicada por Jesus.

O livro aborda questões que a I­gre­ja deve olhar com mais atenção, co­mo a integração entre o masculino e o feminino e o consequente lugar da mu­lher na Igreja. Dan Brown recorda-nos que, nos primeiros tempos do cris­ti­a­nismo, algumas comunidades viviam isso de forma mais feliz. Maria Madale­na era símbolo da comunidade cristã. Esta comunidade vive com Deus uma aliança de amor, simbolizada na rela­ção entre o homem e a mulher. O pró­prio evangelho de João conta o encon­tro de Madalena com Jesus no jardim do sepulcro, na manhã do domingo, re­correndo a palavras do Cântico dos Cân­ticos, quando este narra a busca eró­tica da amada pelo amado (Ct 3).

A tradição ocidental confundiu a figura de Madalena com a da mulher adúltera e com a pecadora que unge com lágrimas os pés de Jesus em Be­tânia. Marcos e Lucas chegam a dizer que Jesus teria expulsado dela sete demónios (Mc 16,9 e Lc 8,2). Mas, ne­nhum evangelho ou texto antigo a ch­ama de pecadora, prostituta.

Maria Madalena é citada nominal­mente como discípula de Jesus (Lc 8,1-2) e como testemunha da sua ressur­rei­ção (Lc 24,1-10). Na história do cris­tianismo, muitos interpretaram mal a ex­pressão: “Maria Madalena, da qual haviam saído sete demónios” (Lc 8,2). Essa expressão criou uma série de preconceitos contra Maria Madalena. O número sete, sempre simbólico, pa­re­ce indicar a gravidade da situação. No encontro com Jesus, ela recupera a har­monia interior e entra num pro­ces­so de crescimento e de amadure­cimento pessoal, até atingir a plenitude do seu ser na experiência pascal.

No evangelho de Lucas (e nos ou­tros evangelhos sinópticos) Maria Ma­dalena é citada em primeiro lugar, indi­cando a sua liderança no grupo de dis­cí­pulas de Jesus. Por isso, desde o co­meço da tradição apostólica, Maria Ma­dalena recebeu o título de apóstola dos apóstolos, porque ela recebeu a prin­cipal ordenação, sem a qual nenhuma outra teria sentido: ela recebeu a or­dem de lhes anunciar que Jesus estava vivo, ressuscitado.

O mais lamentável nesta história não é o que está atiçando a ira da mai­o­ria dos crentes. É que a fé cristã con­tinue associada a nobres e a cavaleiros de guerra e não a pessoas consagra­das à paz e a grupos empenhados em tornar este mundo melhor.

Entretanto, nisto, Dan Brown não inventou. Ainda temos no mundo um cris­tianismo ligado à cultura de guer­ras, conquistas e segredos de corte. Em tal atmosfera, fica fácil fazer roman­ces de mistério. São muitos os que pululam por aí, sobre lendas do Santo Graal, Irmandade do Santo Sudário e outros.

Na realidade, o tal Priorado de Sion nada tem a ver com cavaleiros me­dievais. Foi criado em 1961, por Pier­re Plantard, francês que, para con­quistar cre­dibilidade, inventou docu­men­tos que o ligariam à dinastia dos merovíngios e o Priorado de Sion a ordens medie­vais. A pesquisa histórica descobriu que os documentos eram falsos, mas a fantasia agradou a muita gente.

Quanto à Opus Dei, existe e é po­de­rosa na Igreja e no mundo. Os crimes narrados no romance, atribuídos à Opus Dei são ficção. Entretanto, ao mostrar a relação entre fanatismo religioso e as­sassinato, o romance permite uma análise justa sobre fundamentalismos actuais, responsáveis por muitas das guerras que dilaceram o mundo.

O romance é comercial e o filme mais ainda. Entretanto, atraem multi­dões porque criam uma cumplicidade com as pessoas em procurar ver o hu­mano – masculino e feminino – pre­sente em Deus. O Código da Vinci faz com que muita gente, há tempos, de­sinteressada por qualquer assunto reli­gi­oso, novamente aceite interrogar-se sobre a fé e a espiritualidade. Insistem em discutir os fundamentos do cristia­nismo, o que pode não ser fiel ao dog­ma, mas é saudável para a busca es­piritual.

Mesmo se muitas das informações do romance não têm consistência his­tórica, somos sempre convidados/as a prosseguir a busca, como Maria Mada­le­na, perguntando por Jesus no jardim da ressurreição ou como a amada do Cântico dos Cânticos que procura o amado na noite escura da vida. Certa­mente, Deus prefere ser procurado as­sim do que ser afirmado com a frieza do dogmatismo que não aceita discus­sões.

O mundo tem fome de Jesus e o que lhe dão?

In Diário Aberto www.padremariodemacieira.com.sapo.pt

O mundo tem fome de Jesus e o que lhe

dão? O Código Da Vinci. Primeiro em livro

depois em filme. E não é que as pessoas

lêem o romance concebido para dar uma

fortuna a ganhar ao seu autor e vêem o

filme como se um e outro fossem a verdade

sobre Jesus? Crime sem perdão é o que são!

Entre Jesus e o Dinheiro a incompatibilidade

é total. Desde que Jesus revelou que ninguém

pode servir a Deus e ao Dinheiro e que quem

serve o Dinheiro deixa de ser humano para se

converter em mentiroso e assassino nunca mais

os do Dinheiro lhe perdoaram. E tudo fazem

para o tirar do coração e da mente das pessoas.

A luta é duélica e manifestamente desigual. E

vai durar até ao fim dos tempos. As populações

têm de andar avisadas para se não deixarem

enganar. Pois neste duelo o Dinheiro conta com

meios cada vez mais sofisticados e eficazes. Ele

é a Besta que opera milagres e arrasta multidões

sem conta para os seus múltiplos locais de culto.

Jesus pelo contrário é como Deus. Limita-se

a bater à porta da nossa liberdade e aguarda

pela nossa resposta. Não opera milagres nem

prodígios. Não faz publicidade. Não tem media

ao seu serviço. E até as Igrejas que deveriam

ser uma só coisa com ele acabam quase sempre

aliadas ao Dinheiro contra ele e o seu Evangelho.

A via que Jesus propõe é a da porta estreita

que as multidões não estão dispostas a fazer

sua. Preferem o caminho largo que o Dinheiro

impõe. Dois caminhos antagónicos que muitos

tentam conciliar. E também muitas igrejas. Em

vão. Só a via Jesus é a Verdade que nos faz

livres. A via Dinheiro é a Mentira que nos mata.

É de Jesus que o mundo tem fome e as Igrejas

deveriam gastar-se dia e noite na missão de o

anunciar e à Boa Notícia de Deus que ele é. Em

vez disso gastam o melhor das suas energias em

estúpidos cultos sem cultura e sem profecia. Os

do Dinheiro aplaudem e até financiam. Enquanto

perseguem e matam quem o segue e anuncia.

Ide por todo o mundo anunciar a Boa Notícia

de Deus a toda a criatura. Esta ordem de Jesus

é dada a todas as discípulas e discípulos. Para

que de geração em geração o mundo creia e veja

despertar em si a mesma Fé de Jesus. E com

ela a salvação. Mas nós anunciamos o Dinheiro

e a sua Mentira. E só pode acontecer a Perdição!

Evangelizar os pobres é preciso. Dia e noite.

Contra o Império do Dinheiro e sua perversa

Publicidade que se faz passar por Evangelho

de Deus quando é a Mentira que mais oprime

e mata. Feliz de quem lhe resistir e se mantiver

fiel a Jesus e ao Evangelho de Deus que Jesus

é. Do seu Ser vive e respira o resto do mundo.


DESTAQUE 2

Carta Aberta ao novo Bispo de Leiria-Fátima

Vós tendes por pai a Mentira

Meu querido Amigo e Irmão

1. Como já lhe disse, por e-mail de 28 de Abril 2006, fiquei perplexo com a sua nomeação para Bispo de Leiria-Fátima. Escrevi então: “Ainda há tão pouco tempo em Viseu e já se vai embora? Parece que a Cúria Romana anda a brincar com as Igrejas locais. E as Igrejas locais, por sua vez, tudo suportam como se fossem cadáveres. Igrejas? Talvez, mas então nem frias nem quentes, como diz profeticamente o Apocalipse com que fecha/abre a Bí­blia. Depois, Leiria-Fátima. Precisamen­te, a diocese que alberga a Mentira maior da Igreja em Portugal e que dá pelo nome de senhora de Fátima. Sabe tão bem como eu que aquilo é tudo Men­tira. Arranjinho do clero católico. E que não tem nada a ver com Maria, a de Jesus. Muito menos com Deus, o de Jesus. Aliás, à luz da Teologia de Jesus, tudo aquilo é abominável. Tem o Medo por mãe e a Mentira por pai. Co­mo tal, só pode ser fonte de idola­tria e de ateísmo. Bispo de Leiria-Fáti­ma? Só se for para desmascarar a Men­tira e a Idolatria que Fátima é e promo­ve. De contrário, será o passo mais des­graçado da sua vida. Bem sei que, se aceitar aquela Mentira e pactuar com ela, passará a andar nas bocas do mundo. E terá muitos devotos da se­nhora à sua volta. Mas não terá mais o Sopro de Jesus, esse mesmo que des­truiu simbolicamente o templo de Jerusalém como o Perverso e como covil de ladrões”.

2. Porém, agora que acabei de ler o seu livro, de 70 páginas, Fátima e a Modernidade. Profecia e Escatologia (Edição Fundação Jornal da Beira), em que junta e divulga dois artigos escritos por si em diferentes circunstâncias, por sinal, ainda antes de ter sido nomeado Bispo de Leiria-Fátima, encontrei de ime­diato uma explicação para a sua no­meação. A Cúria Romana (não con­fun­dir com a Igreja una santa católica e apostólica) precisava a todo o custo de encontrar um Bispo – na esteira do Bispo Serafim Ferreira e Silva, também meu Amigo e Irmão, que teve de resi­gnar por limite de idade – disposto a dar cobertura à Mentira da senhora de Fátima e à galinha de ovos de ouro em que ela, com o passar dos anos, se tornou para a nossa Igreja católica romana e para o nosso país turístico. Por sinal, encontrar um Bispo assim à medida da Mentira da senhora de Fáti­ma não era tarefa fácil, sobretudo, de­pois do êxito editorial que continua a ser o meu livro Fátima nunca mais (Edi­ção Campo das Letras, Porto), teologi­ca­mente irrefutável, e que já “obrigou” um papa, o fatimista compulsivo João Paulo II, a vir por mais duma vez ao san­tuário, numa desesperada tentativa de manter como verdade a Mentira que Fátima é. E não só. “Obrigou” tam­bém o mesmo Papa João Paulo II a no­me­ar propositadamente um cardeal por­tuguês para presidir à Congregação da causa dos santos, a fim de que esta fosse conivente com uma outra fraude não menor que a de Fátima (a Mentira institucional sempre foi e será muito fe­cun­da e, por isso, gera mentiras e per­ver­sões em cadeia), a saber: a cari­cata beatificação das duas crianças irmãs, Jacinta e Francisco, sem dúvida, as vítimas maiores da senhora de Fáti­ma. Terá bastado à Cúria Romana ler em diagonal os dois artigos que “fa­zem” o seu livro, para logo concluir que tinha encontrado o Bispo à medida que tanto procurava. Mas o Bispo aca­bado de encontrar por ela não tinha sido nomeado há muito pouco tempo para Viseu? E não estava a tentar levar por diante todo um interessante proje­cto pastoral naquela Igreja local? De nada quis saber a Cúria Romana. Um Bispo assim, tão crédulo na senhora de Fátima, e, para cúmulo, com um dis­curso mariológico aparentemente mo­der­no, era o homem ideal para suce­der ao Bispo Serafim Ferreira e Silva, oriundo da Igreja do Porto, que, com o passar dos anos, se veio a revelar no mais desvanecido sacerdote da deu­sa de Fátima, inteiramente dispo­nível para todo o mal que ela e a sua Mentira quiseram fazer, e muito foi, co­mo podem testemunhar todas as outras Igrejas cristãs do país e do mundo e a totalidade dos teólogos não fatimistas da nossa Igreja católica, assim como a cada vez mais alargada tribo dos ateus e agnósticos. E não é que o meu Amigo e Irmão Bispo António Marto não se fez rogado e disse logo sim à estra­tégia da Cúria Romana?

3. E agora que já tomou posse como Bispo da Diocese de Leiria-Fátima, tenho que lhe dizer, a si e a to­dos os eclesiásticos católicos com responsabilidade – bispos residenciais e párocos que porventura também se revejam na teologia deísta e idolátrica com que teceu os dois textos do seu livro – o que Jesus, o do Evangelho de São João, disse aos fariseus e de­mais chefes religiosos dos judeus seus contemporâneos que pontificavam no Templo de Jerusalém e se sentavam na cátedra de Moisés: “Vós tendes por pai a Mentira [= Diabo] e quereis rea­lizar os desejos do vosso pai. Ele foi assassino desde o princípio e não es­teve pela verdade, porque nele não há verdade. Quando fala mentira, fala do que lhe é próprio, porque é menti­ro­so e pai de mentira.” (cf. todo o capítulo 8, mas em especial os versículos 42-59). E porquê?

4. Se o meu Amigo e Irmão Bispo António Marto já tivesse lido o meu livro Em Memória delas. Livro de Mulheres (Edição Campo das Letras), teria deparado lá com um texto teoló­gico intitulado “O que nunca nin­guém disse sobre Maria, mãe de Jesus”. E teria concluído que as coisas não são nada como os seus dois textos apresentam, quer sobre a senhora de Fátima (1.º texto), quer sobre Maria de Nazaré (2.º texto). A Teologia que os dois textos do seu livro veiculam é sem dúvida uma re­flexão sobre Deus, mas um Deus-ídolo, como o de Fátima, que está nos antí­podas de Deus Vivo que se nos revelou em definitivo na prática politicamente libertadora e integradora de Jesus e de Maria (exactamente por esta ordem, e não ao invés, de Maria e de Jesus). O Deus de Fátima, que subjaz a todo o seu livro, é um ídolo que devora as multidões que lhe apareçam pela fren­te, assim como todo o ouro que elas le­vem com elas: – brincos, arrecadas, cor­dões, voltas, anéis; e dinheiro, muito dinheiro. Quando pede às multidões “ora­ção e penitência”, está simples­men­te a fazer um frete aos eclesiásticos católicos que, desde antes de 1917, estão por trás de toda aquela pueril e nefanda encenação. Na prática, o que esse Deus-ídolo pretende, com esse pedido de “oração e penitência”, é que as populações regressem em força às mis­sas ao domingo, passem a frequen­tar de novo os templos, rezem terços em série todos os dias, obriguem os fi­lhos e as filhas a inscrever-se como acólitos de missa, confessem os seus pecados aos pés dos senhores abades, usem medalhas e escapulários ao pes­coço, zelem e enfeitem altares de ima­gens mortas de santas e de santos, ocu­pem-se com os nichos de imagens de deu­sas à beira das estradas, digam jaculatórias o dia todo, mandem rezar mis­sas, muitas missas pelos mortos e as paguem ao preço tabelado pelas dioceses, continuem a submeter os fi­lhos recém-nascidos ao rito do baptis­mo de água e paguem aos párocos pa­ra eles lho administrarem, observem o jejum e a abstinência nas semanas ditas da Quaresma, façam muitos sacrifícios “pela conversão dos pecadores” (enten­da-se, todos os que já deixaram de fre­quentar o templo paroquial) e muitas outras coisas bobas do género. Na ver­dade, se as multidões cada vez mais deixarem de fazer estas coisas – o que su­cederá inevitavelmente quando elas forem adultas na Fé, pelo menos, como eu procuro ser e, sobretudo, quando também já tiverem passado da Fé em Jesus, para a Fé de Jesus – com o que se ocuparão os párocos e os bispos re­­sidenciais, se todos eles, ou quase, nem consciência parecem ter de que a missão principal da Igreja é Evangelizar os pobres?

5. Em verdade, em verdade lhe digo e, na sua pessoa, digo a toda a Igreja que está em Portugal: A mensagem de Fátima, ao contrário do que todos os ecle­siásticos fatimistas nos têm andado a impingir desde 1917 para cá, não é, não pode ser, a mesma coisa que a men­sagem de Jesus e de Maria, sua discípula na ordem da Fé e da Graça, e sua mãe carnal, na ordem da natu­reza. A mensagem de Fátima – digo-o aqui sem que a voz me trema – é a reprodução a papel químico do obsce­no Moralismo com que os Padres da Santa Missão e da Missão Abreviada, por aqueles sinistros anos do início do século XX, pervertiam e aterrorizavam as consciências das populações das aldeias do interior de Portugal. A apre­goada “conversão” a que a mensa­gem de Fátima reiteradamente chama as populações é um regresso puro e simples àquele obsceno Moralismo. É, por isso, uma anti-conversão àquela que nos é proposta pelo Evangelho de Jesus. A “conversão” a que Jesus nos convida e que o próprio anuncia como Boa Notícia ou Evangelho de Deus, logo a abrir a sua missão de Enviado do Abba Pai/Mãe, consiste precisamen­te em trocar duma vez por todas todo esse obsceno Moralismo pela Boa No­tícia de Deus que ele, o seu filho muito amado, trouxe/traz a todos os povos e a todas as nações, e que, lá onde for acolhida, deitará por terra todas as senhoras de Fátima e outras senho­ras do género, mai-los seus cultos idolátricos que o Medo e a Mentira, des­de os tempos mais primitivos, têm feito prosperar, como demónios, nomeadamente, entre as camadas mais atra­sadas e mais iletradas das popula­ções que habitam o planeta. Do que verdadeiramente se trata, meu Amigo e Irmão Bispo António Marto, na conver­são anunciada por Jesus no seu Evan­gelho, é de mudar/trocar de Deus. A­que­le “Convertei-vos”, na boca de Je­sus, é o mesmo que: “Mudai/trocai de Deus”. Renunciai duma vez por todas ao Deus-ídolo cruel dos cultos do Paga­nismo, do Templo, dos sacerdotes e das Religiões e, sobretudo, ao Deus Di­nheiro, o mais cruel de todos os deu­ses, e deixai-vos conscientemente aco­lher pelo Deus Abba Pai/Mãe que já vos habita desde o princípio e cujo Es­pírito ou Sopro está empenhado em fazer de todos vós, mulheres e homens, filhas suas, filhos seus bem adultos. Trata-se, na prática, meu Amigo e Ir­mão Bispo António Marto, de passar­mos a viver todos os dias sob o impulso da Graça e da Verdade que nos fazem livres e responsáveis, em lugar de con­ti­nuarmos a viver sob o impulso do Me­do e da Mentira que nos mantêm opri­midos e em estado de menoridade a vida inteira e de geração em geração. E o meu Amigo e Irmão Bispo sabe tão bem como eu que quem não dá este pas­so para a Liberdade/Responsabili­dade – “nascer do Alto ou do Espírito, chama-lhe Jesus, o do Evangelho de São João 3 – permanece no Pecado e a Verdade não mora na sua consciência. Tudo o que disser e fizer sai inquinado, não liberta nem cura, perverte e escra­viza.

6. E que dizer da Mariologia pre­sente no segundo texto do seu livro, por sinal, em tudo igual à que é hoje ensinada pela generalidade das Uni­versidades católicas? Por mais que ela se apresente tecida de belas frases e de conceitos aparentemente ilustrados, tenho que lhe dizer que não me revejo nada nela. Permito-me lembrar-lhe a pro­pósito o que é básico na Fé das Igre­jas cristãs jesuânicas do princípio e que deverá ser normativo também para as Igrejas cristãs que hoje somos, no século XXI, em lugar de persistirmos em todas essas perversões que foram su­cessivamente introduzidas na nossa Igreja católica por influência dos cultos das imagens das deusas do Paganismo, desde o tempo do imperador Constan­tino até ao Concílio Vaticano II, de feliz memória. Não! Não é por Maria que che­gamos a Jesus, como se diz por aí e o seu livro parece reforçar. A verdade que nos faz livres e responsáveis é exacta­mente ao contrário. É por Jesus, o de Nazaré, Crucificado/Ressuscitado, que chegamos a Maria, sua discípula. Como é por Jesus que chegamos a Moisés e a Abraão, numa palavra, ao Antigo Testamento, simples "pedagogo", no lúcido dizer de S. Paulo (cf. Gálatas 3, 24-29). Não é pelo facto de Maria ser a mãe carnal de Jesus, que se tornou exemplo para nós, no plano da Fé e da Graça. Apenas por ter chegado a ser discípula do próprio filho, Jesus, o fi­lho amado do Abba Pai/Mãe e, por ele, com ele e nele, ter-se finalmente aberto ao Deus dele. Aliás, são do próprio Je­sus estas palavras: “Quem são minha mãe e meus irmãos?” E, depois de percorrer com o olhar os que estavam sentados à volta dele, disse: “Aí estão minha mãe e meus irmãos. Aquele que fizer a vontade de Deus, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe.” (cf. Marcos 3, 31-35). Sem o Sopro de Jesus – ele é a definitiva Palavra de Deus feita ser humano entre nós e con­nosco – ninguém, nem sequer Maria, sua mãe carnal, pode dizer Abba, Pai/Mãe (cf. Gálatas 4, 4-7; Romanos 8, 9-27). E no testemunhar do Evangelho de Marcos (ver, a propósito, o meu livro O outro Evangelho segundo Jesus Cristo), esta operação não foi nada fá­cil nem para ela, nem para os irmãos de Jesus. E só terá acontecido já de­pois da morte do próprio Jesus na cruz. Mas também não é fácil para todos e cada um dos seres humanos nascidos e criados dentro desta Ordem Econó­mica e Política do Império e do Templo. A inércia é deixarmo-nos levar pelo Deus-ídolo que preside a esta Ordem Mundial e pelo seu perverso Moralis­mo. E, se for caso disso, nem sequer hesitamos em matar os profetas do Deus de Jesus. Tão pouco, hesitamos em matar, as vezes que forem neces­sárias, o seu Filho muito amado, Jesus, o de Nazaré. Mas é assim que mostra­mos à saciedade que continuamos a ter por pai a Mentira [= Diabo, Deus-ído­lo] e que fazemos as obras do nosso pai, isto é, roubamos, matamos e destruímos (cf. João 10, 7-10). E tudo em nome do nosso Deus-ídolo!

7. Tenho de terminar. Muito mais poderia (deveria?) dizer sobre Fátima (as duas Fátimas, a de 1917 que cul­minou na desgraçada morte dos dois pequeninos “videntes” e no encarcera­mento de Lúcia no Asilo de Vilar, no Porto e, depois, o resto da sua vida, num convento de estrita clausura; e a Fá­tima das chamadas Memórias da Irmã Lúcia, aparecida só a partir de 1935, e prati­camente a única que, para nossa vergo­nha, aca­bou por se impor); sobre a imagem da senhora/deusa de Fátima que nos remete para os cultos do Paganismo mais primitivo e cruel; e sobre o arranjinho do clero católico que tudo aquilo é, desde o princípio até hoje. Já não bastava o que fizeram os clérigos católicos ao tempo das cha­ma­das “aparições”, e nos anos que se lhe seguiram; hoje, até já está a ser publica­da, como abóbada de toda esta Mentira, uma obra, em vários volumes, pomposamente chamada Documenta­ção Crítica de Fátima, realizada sob o “patrocínio científico” (!) da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa, numa edição do Santuário de Fátima!!! Fica, assim, tudo em famí­lia clerical, como convém. Aliás, já das três crianças escolhidas em 1917 para se­rem “vi­dentes”, duas delas eram ir­mãos entre si e as três eram primos uns dos outros, a viver porta com porta, filhas assustadas de duas famílias com­pletamente dominadas pelos senhores abades, pelos confessores, e por aque­le que depois veio a ser escolhido como primeiro Bis­po da Diocese de Leiria, com a missão de reconhecer publica­mente a “verdade” das “aparições” de Fátima. Mas prefiro terminar. E faço-o com as mesmas palavras com que terminei o e-mail que lhe enviei em Abril passado: “Ainda tenho esperança – e por isso partilho consigo esta reflexão – que [o meu querido Amigo e Irmão Bispo António Marto] avance para lá [Diocese de Leiria-Fátima] aberto ao Sopro de Jesus e que se deixe guiar por ele. De modo que, algum tempo depois de tomar posse, tenha a cora­gem martirial de denunciar/anunciar urbi et orbi a Mentira que Fátima é. Tenho a certeza que esse dia ainda há-de acontecer na nossa Igreja católi­ca. Mas ficaria muito feliz se pudesse ver o meu Amigo Bispo António Marto como o profeta desse dia. Pense nisto. Para que a Alegria e a Paz o habitem, pelo menos, tanto como me habitam a mim. É tudo por agora. Desculpe a mi­nha frontalidade. Mas rima com frater­ni­dade. Fique então com o meu abraço de irmão na Fé, Padre Mário."


RELIGIÃO

Promessas e ópio?

Por Pe. Anselmo Borges (Professor de Filosofia na Universidade de Coimbra)

Jornal Fraternizar volta a transcrever com a devida vénia um magistral texto do Pe. Anselmo Borges, aparecido na edição de domingo 13 de Maio, do DN. Nele, o professor de Filosofia na Universidade de Coimbra evoca os cem anos de nascimento de António, Bispo do Porto, e brinda-nos com esta preciosidade teológica. Como vêem, já não estamos tão sozinhos no bom combate pelo Evangelho libertador de Jesus e por uma Fé decente.

Entendo - ou julgo entender - as promessas a Nossa Senhora de Fátima, ao Santíssimo Sacramento, ao Senhor dos aflitos ou aos santos. Habituadas a verem a sobrevivência, a saúde e a sua vida em geral dependentes de senhores e senhoras “omnipotentes”, egoístas, arbitrários e tiranos, as pes­soas atiram para cima de Deus todos esses atributos. Então, como diante dos senhores deste mundo se põem de joe­lhos, oferecem como presente o que lhes faz falta, metem cunhas - como é que os pobres chegam a uma operação no hospital sem uma cunha? -, também fazem promessas a Deus e a Nossa Se­nhora, andam de rastos, oferecem sacrifícios, na esperança de que talvez desse modo Deus e a Nossa Senhora se comovam e tenham compaixão

Num diálogo com Óscar Lopes, em 1970, no Seminário da Boa Nova, Vala­dares, sobre a crise da fé, D. António Ferreira Gomes, cujo centenário do nascimento se comemorou no passado dia 10, deixou um pronunciamento polémico. Referindo-se à religião de Fátima, disse: “Sabemos que para baixo de Fátima ainda há todo o culto mágico que, tomado a sério, é uma ofen­sa profunda a Deus, porque na realidade a magia está a embotar o sentimento religioso do povo. A magia é uma vontade de encadear, de pren­der as forças sobrenaturais, considera­das mais como malignas do que como benéficas. Ora, isto, em relação à reli­gião cristã, é a maior ofensa que se pode fazer a um Deus de bondade. Mas nós lidamos com isto, lidamos com a religião utilitária, do ‘dou para que dês’. Eu prometo, eu faço uma promes­sa para que Deus me faça isto ou a­quilo. Faço um negócio, um contrato. E para quê? Evidentemente, para a vida, para a saúde, para o dinheiro, para isto tudo. Ora, isto, com muita piedade e muita fé no nosso povo, isto não é religião cristã de forma nenhu­ma.

Já antes, no início da sua inter­venção, o então bispo do Porto - voltar ao seu pensamento é homenageá-lo no melhor sentido - referira que tinha uma definição de fé que achava muito boa. Ela encontrava-se numa cartinha breve em que Óscar Lopes lhe dizia que a sua participação na Mesa-Re­don­da (houve outros participantes, como Luís Moita e Bento Domingues) seria “um depoimento na primeira pes­soa do singular acerca daquilo que durante 50 anos julgo ter crido a partir dum fervoroso catolicismo de infância. Apenas desejaria descobrir o melhor de mim mesmo no melhor catolicismo de hoje, e contribuir para tudo aquilo que deveras nos transcende”.

D. António comentou: “Eu tenho para mim que quem procura pôr-se deveras em relação com aquilo que nos transcende está numa atitude re­ligiosa.” E, voltando-se para Óscar Lo­pes: “Desculpe, senhor doutor, se o ofendo.” E Óscar Lopes: “De modo nenhum!”

D. António constatou: “Nós sabe­mos que a maior parte da nossa boa gente não transcende.” E estava com­ple­tamente de acordo com Óscar Lo­pes, ao referir a palavra de Marx sobre a religião, ópio do povo. “Segundo me pareceu, disse que Marx foi transfor­man­do um pouquinho o seu conceito, mas não penso que precisasse de re­formá-lo, pois a religião é realmente muitas vezes ópio para o povo. A re­ligião pode realmente ser ópio do povo. Não é uma palavra de insulto. Evidente­mente, não é uma palavra ofensiva na medida em que se não refere ao cris­tianismo nem a Cristo que continua vivo no Espírito. Mas, repito, muitas vezes para o povo a religião no geral não si­gnifica nada de transcendente.”A ati­tude religiosa aparece, portanto, no mo­vimento do transcender do homem para o transcendente. Onde se encon­tra então o que é próprio do cristia­nismo?

D. António afirmou que poderíamos adoptar a linguagem de Bonhoeffer, o teólogo protestante mártir do nazis­mo, e aceitar que o cristianismo não é religioso, na medida em que o Deus re­velado em Cristo não serve para nos solucionar problemas insolúveis e os homens têm de arranjar-se autonoma­mente sem apelarem para Deus. O Deus cristão não é ópio nem um deus ex ma­china com que se negoceia promessas. Ópio e promessas - isso é o religioso que está para baixo.

“A religião cristã, entretanto, o li­miar diferencial da religião cristã co­meça quando alguém se debruça sobre o outro, quando alguém se volta para o que o transcende, seja o outro neste mundo, seja Deus enquanto o Outro absoluto, sabendo que a relação ao Outro absoluto é exactamente também a relação ao irmão.”

O amor a Deus e o amor ao pró­ximo são um só e têm de exprimir-se também na política. “Nenhum homem res­ponsável da Igreja poderá dizer que não quer saber de política ou que nada percebe de política.”


EDITORIAL

É hora de regressarmos a Jesus, o de Nazaré

D. DINHEIRO

"Quando o Dinheiro/quer ser teu Deus/e te escraviza sem piedade/põe-te em guarda/dá-lhe combate/ou per­de­rás tua Dignidade." O Alerta, feito po­e­ma, vem no meu recente livri­nho Can­to (S) nas Margens, e nunca  foi tão o­portuno como nestes dias de chumbo que estamos a viver no país e que nos estão a matar a alma e a devo­rar a nos­sa Dignidade de seres hu­ma­nos.

Estes são os dias de glória e de exaltação do Senhor Dinheiro, de D. Dinheiro. Ele são OPAs a toda a hora; ele são jogos da Bolsa que fazem ricos da noite para o dia, sem que tenha sido produzida qualquer riqueza no país; ele são Euromilhões a fazer "excêntricos" todas as semanas (vejam a hábil Men­tira da Publicidade que se limita a falar em "excêntricos", em lugar de "loucos", como a sugerir que a acumulação da Ri­­queza nas mãos de poucos não pas­sa duma Excentricidade como outra qualquer, quando a verdade é que é um Crime de lesa-Humanidade, já que a Riqueza é para ser Repartida, segun­do as necessidades de cada qual, pes­soas e povos, nunca para ficar Retida e Acumulada nas mãos de alguns); ele são "directos" de banqueiros nas tvs a anunciar Lucros que insultam o País de Desempregados que hoje so­mos e deixam a nu toda a Crueldade de que o D. Dinheiro é capaz; ele são or­dena­dos fabulosos de jogadores de Futebol que, ainda na sua natural ima­tu­ridade, perdem a alma e de repente passam de bons profissionais de futebol a gastadores compulsivos e craques sem um pingo de dignidade e de exem­plaridade para os muitos adolescentes que têm neles os olhos e logo, por isso, são tam­­bém ten­tados a crescer sem alma, bem à sua ima­gem e semelhança.

Esta é a hora do Poder das Trevas. Quando elevado à categoria de Se­nhor, de Deus, D. Dinheiro gera seres à sua imagem e semelhança, por isso, sem alma, o mesmo é dizer, sem entra­nhas de humanidade, cruéis, insolidá­rios, Caim para os demais. As maravi­lhas que D. Dinheiro opera - e são mui­tas e de encher o olho - vão todas na linha da Descriação do Mundo e da Na­tureza e dos seres hu­manos. Ou D. Di­nheiro não fosse o anti-Deus por anto­no­másia, o Inimigo n.º 1 de Deus vivo e Criador de Universos destinados a ser povoados e geridos por filhas suas, filhos seus, em estado de maioridade, irmãs, irmãos entre si.

Como é que chegamos a se­me­lhan­te Descriação do Universo e dos seres humanos? A Liberdade veio ao mundo, mas nós preferimos o Império à Liberdade. Dei­xamo-nos fazer pela Mentira que é o Dinheiro Acumulado, em lu­gar de nos deixarmos fa­zer pela Ver­da­­de que é Je­sus. Prosse­guimos até hoje com a Religião e o Im­­pé­rio, mesmo de­pois que uma e ou­tro, coligados, ma­ta­­ram Jesus. E, para cúmulo, ain­da cor­re­­mos a fazer de Je­sus crucifica­do o Deus do Império e do Templo que te­mos adorado, em lugar de nos a­tre­ver­mos a ser mu­lhe­res, homens com o mesmo Sopro ou Espírito dele.

É hora de arrepiar caminho e re­gres­sarmos a Jesus, o de Nazaré. E às suas causas, que são as da Humani­dade, a começar pela mais oprimida e empo­bre­ci­da. Ousemos ser pobres por op­ção, como ele foi. Partilhar os bens e a vida, como ele partilhou. Assumir o Mundo e a Vida nas próprias mãos, em comu­nhão fraterna e solidária, como ele assumiu. Ser irmãs e irmãos que se amam, perdoam e vivem a co­mu­nhão em redor de Me­sas comuns e eucarísti­cas, como ele foi e viveu. Numa palavra, deixemos Deus Vivo, não o D. Dinheiro, ser Deus em nós e connosco, como ele sempre deixou.


EDITORIAL

Futebol em vez de Poemas

InDiário Aberto www.padremariodemacieira.com.sapo.pt

O futebol continua a ser tratado pelos

media na local Desporto. Deveria passar

para a local Economia/Finanças. Desde

que o Dinheiro entrou no futebol nunca mais

houve desporto. O negócio é descarado. E

os jogadores tornaram-se coisas de compra

e venda. Prostitutos. Os mais caros do Mercado.

Ele é a Liga. Ele é a Selecção nacional.

Ele é o campeonato da Europa e o do

Mundo. Ele é a Taça das Taças e a Liga

dos Clubes Campeões Europeus. Em

todo o lado está o selo do D. Dinheiro. A

loucura do Mercado. Com multidões a

aplaudir. A pagar. E a perder a dignidade.

Desporto é cultura. É desenvolvimento. É

prática de grupo. É fraternidade/sororidade.

É comunhão. É gratuidade. É convívio com

a Natureza. É saúde. É festa. Viva o Desporto!

Vieram as SADs e tudo perverteram. Mataram

o Desporto. E matarão as populações que

insistam em frequentar tão macabra liturgia.

Os campos de futebol são arenas. Os que

correm atrás da bola são putos a quem o

D. Dinheiro transtorna a cabeça e rouba

a alma para os poder utilizar como peças

do Mercado. Os empresários são traficantes

de jogadores pagos a peso de ouro. O que

será do mundo se acabar reduzido a Futebol?

Nunca entrei num estádio de futebol. São

outras tantas Catedrais onde o D. Dinheiro

humilha milhões de seres humanos. Temos

fome de beleza e de cultura. De paz e de

bem-estar. Aspiramos a mais humanidade e

festa. Servem-nos Ópio e Alienação que nos

deixam ainda mais vazios e desmobilizados.

Ganharás o Pão com o suor do rosto – diz a

palavra de ordem da Vida que nos quer ver

passar de condições menos humanas a mais

humanas até chegarmos à comunhão de bens

em redor de mesas comuns experimentadas

como verdadeiras frátrias. Mas logo o Futebol

do D. Dinheiro chegou e roubou-nos esta via.

Calculem as horas que os media gastam com

o Futebol do D. Dinheiro. Contem as empresas

que engordam à sua custa. Reparem no empenho

dos sucessivos governantes de turno. Tudo hoje gira

em função dele. O país falece à míngua de Poesia.

De trabalho com direitos. E de crianças. Mas que

importa se há a selecção do senhor Scolari?!

Acordemos! O Dinheiro ataca-nos hoje por

todos os lados e de todos os modos. E só pára

quando nos arrebatar a alma. Cuidado! Ele é

o nosso pior inimigo. Ou lhe resistimos com toda

a nossa mente e com todas as nossas forças e

permanecemos humanos com humanos. Ou

acabamos a comer Dinheiro como o Mourinho!

Resistamos-lhes com todas as nossas forças

Os senhores do Dinheiro que são também os donos dos grandes media nacionais e mundiais não conhecem, nem querem conhecer, muito menos alimentar a face mais genuina dos se­res humanos. Apenas a sua face per­ver­sa. É na face perversa dos seres hu­manos que eles apostam tudo. Todos os seus recursos. Toda a sua inteli­gên­cia. To­do o seu tempo. Todas as suas ca­pa­cidades. São perversos e, como tal, só se sentem bem a lidar com a fa­­ce per­ver­sa dos seres humanos. A única que lhes garante êxito material. Sucesso sem fim. E também a adoração perma­nente de (quase) toda a gente que os rodeia. Acabam até a pensar que já não são seres humanos como os de­mais; que são deuses. E deuses são. Fal­sos, mas deuses. Cruéis, mas deu­ses. Perversos, mas deuses. Cria­do­res de perversão e de perversos, mas deu­ses.

Nunca, desde que o mundo é mun­do, os senhores do Dinheiro che­garam tão longe como hoje em po­der, domínio e fascínio. E também em adoração, por parte dos outros seres humanos. Mes­mo assim, o que hoje nos é dado ver é apenas o começo do po­der, domínio e fascínio dos senhores do Dinheiro. A menos que nós, os se­res humanos, contra todos os prognósticos, caiamos na conta de que esta­mos cada vez mais nas garras e nas algemas dos senhores do Dinheiro e lancemos o nosso plane­tá­rio grito do Ipiranga pela liberdade e pela digni­da­de. Trata-se duma Revo­lução abso­lu­ta­mente necessária, mas que, para nossa desgraça, está ainda muito longe de aparecer no horizonte. O que hoje apa­rece no horizonte e reco­lhe aplausos generalizados é a Descri­ação dos seres humanos, conduzida cientificamente e com toda a crueldade pelos senhores do Di­nheiro. E pelos seus grandes media. O que está hoje em curso no mundo é a Descriação Total dos seres humanos. Concreta­ment­e, da sua face mais ge­nuí­na. Com o objectivo de que os seres huma­nos venham a ser apenas a sua face per­versa. Pi­o­res que os animais da selva. Robots. Corpos sem entranhas de hu­ma­nidade. Puros com­putadores entre outros com­puta­do­res. O sucesso desta operação de Des­criação está à partida garantido, por­que não encontra oposi­to­res à al­tura. Nem nas Igrejas, nem nos Partidos de Esquerda. As Igrejas, porque cruci­fi­ca­ram de novo Jesus e agora passam to­do o seu tempo a ado­rá-lo na cruz. Sem quererem saber para nada do seu E­van­gelho de libertação para a liberda­de, que, aliás, até acham fora de moda e obsoleto. À missão E­van­gelizar os pobres que lhes foi confi­a­da por Jesus, pre­ferem a rotina diária da venda de ri­tos religiosos nos tem­plos e a prega­ção de mora­lis­mos chei­os de ranço. Os partidos de Esquerda, porque tiveram acesso a alguns dos pri­vilégios dos senhores do Dinhei­ro e agora, quais adolescen­tes de in­ter­natos dirigidos por frades ou freiras que de repente viram uma mulher nua, nem que seja só em foto­gra­fia, já não querem outra coisa. E só não se pas­sa­ram já todos com ar­mas e bagagens para as multinacionais dos senhores do Dinheiro, por pudor e uns restos de vergonha. Mas já é lá que têm o seu co­ração, a sua mente, os seus desejos. E sobretudo os filhos, as filhas.

Contra os senhores do Dinheiro e os seus grandes media, erguem-se, ho­je e sempre, Jesus e o Evangelho de Deus Criador de seres humanos à sua imagem e semelhança. Temos por isso que regressar a Jesus. E ao seu Evangelho. Pessoalmente e em grupos de dois ou de três, de vinte ou de trinta, de dois mil ou de três mil. Ao contrário dos senhores do Dinheiro que apostam tudo na face mais perversa dos seres humanos, Jesus aposta tudo, até a sua própria vida, na face mais genuína dos seres hu­manos. Puxa por ela e alimen­ta-a com a sua pró­pria vida feita Pão e Vi­nho. E Pala­vra animada de Sopro liber­ta­dor para a Liberdade e para a Res­pon­­sa­bilidade. O mesmo é dizer, para a Política co­mo entrega da nossa própria vida pela vida do mundo.

Tornemo-nos então surdos aos me­dia dos senhores do Di­nheiro. E, se ainda lhes der­mos atenção, que seja para fazer­mos sempre o contrário do que eles dizem. Eles estão aí seriamen­te apostados em tornar-nos tão perver­sos quanto os seus donos. Nós, na po­bre­za imerecida; eles na riqueza acu­mu­la­da e concentrada. Mas perversos, todos. Resista­mos-lhes com todas as forças. E abramo-nos de par em par ao Espírito de Jesus que nos quer fazer tão humanos quan­to ele. Tornemo-nos suas discípulas, seus discípulos. Na prática alegre da Partilha dos bens. E no amor sororal/fraterno. Sempre em diálogo maiêutico, libertador, uns com os outros. Na paz revolucionária. E no perdão.

Mário, presbítero da Igreja do Porto


ESPAÇO ABERTO

Não aceitamos heranças

Declarações do Pe. Baptista, do Calvário de Beire,

ao Jornal O ARRIFANA, Março 2006

P. Com que finalidade foi cria­do O Calvário? E para que tipo de pessoas?

R. Para doentes sem cura e sem família. Aliás, quando deram esta quinta ao Pe. Américo já foi um bocadinho com esse sentido. Ele já sentia a pres­são dos doentes, por­que visitou sempre do­entes pobres e chegou à conclusão de que ha­via alguns que, se não fos­sem acolhidos, mor­re­riam por lá como ani­mais. E foi com o intuito de dar uma resposta a essas necessidades mais pre­mentes, todos doentes incuráveis e que não tinham sequer onde morrer, que o Cal­vário foi criado. “Vou dar-vos uma cama para poderem morrer condi­gnamente”, dizia ele. E começámos a obra, em­bo­ra o Pe. Américo não tivesse chegado a ver o Calvário a funcionar.

P. As pessoas per­manecem a­qui por quanto tempo?

R. Nós não somos como as institui­ções em geral. Nós temos tempo. E a­qui somos uma família. Ora, a família gere a vida dos seus membros duma maneira diferente das outras institui­ções que não se concebem como fa­mília. Todos os que a Lei permite que ve­nham são recebidos. Infelizmente, a­gora não nos deixam receber crianças. Temos que nos contentar com as crian­ças que temos cá. Porque uma família normal tem crianças, adultos e velhos. Os que vêm ficam na família até ao fim da sua vida. Aqui não se manda nin­guém para a rua. Dos rapazes que en­traram nesta casa doentes, muitos de­les conseguiram recuperar e entraram num regime normal, apesar de limitados intelectualmente. São já umas duas cen­tenas que regressaram à socieda­de. Alguns emigraram, outros casaram e levam uma vida perfeitamente inte­grada. Os que permanecem aqui, não têm as mesmas capacidades e vão ficar connosco até ao fim dos seus dias. Há pessoas que vivem aqui há 47-48 anos, desde os seus 5-6 anos. Até criei um cemitério lá em cima no monte, para serem nele sepultados os seus corpos.

P. Como é que as pessoas do­en­tes vêm para cá? Através das famílias ou das instituições?

R. Cada doente tem a sua história. Alguns aparecem, eles próprios, a pedir para ficarem cá. Outros, por terem fa­mílias numerosas. Outros, são os páro­cos ou as Conferências Vicentinas que os encaminham para cá. Havia também muitos pedidos da Segurança Social, todos os dias, mas agora não. Cada doente tem a sua história. Lembro-me de três que vieram com 6 meses e um deles esteve cá até aos 45 anos. Nunca andou, movimentava-se numa cadeira de rodas e lentamente começou a fazer uma vida quase normal. Era uma espé­cie de ajudante dos outros, apesar da sua limitação. Era ele quem dava de comer aos bebés. Às vezes, substituía-me. Por vezes, não havia ninguém para acompanhar lá em cima e ele ajudava as raparigas a acabar os trabalhos ma­nuais. Ele tinha jeito para tu­do, até pa­ra tricot. Fa­zia coisas espantosas. Só aos 12 anos é que teve a visita da mãe. Foi abandonado no Hospi­tal dos Capu­chos. Com ele, vieram mais três be­bés na mesma altura. Um deles era uma miú­da que veio de Fafe. Eu soube da situação e fui dar com ela em cima de um monte de esterco, nua, com fome e cheia de frio. Entrei na casa e dei com a mãe num estado de tal degrada­ção, que acabei por a trazer também. A mãe morreu 15 dias depois e a filha continua viva, já com 46 anos. Com 6 anos, ainda só pesava 4 quilos, não ti­nha nem olhos, nem cabelo, nem den­tes. Nunca tinha tomado leite até aos 6 anos e por isso estagnou nos 4 qui­los. Mas geneticamente era perfeita. Tanto que, depois, contra todas as in­dicações médicas, começou a crescer. Um ano depois de cá estar, já pesava 26 quilos e hoje é uma pessoa normal. Vive num quarto só dela e ajuda os ou­tros. É muito inteligente e, embora com limitações físicas, consegue fazer a sua vida normal, deslocar-se e ajudar os outros no que for preciso, ela a que, aos olhos de muitos, é a que mais pre­cisa! Foi quase uma ressurreição. Mas o Calvário é sobretudo para acompa­nhar doentes incuráveis, não tanto para recuperar doentes. E doentes incuráveis são já centenas que passaram por cá. Já recebi doentes cancerosos, um dos quais veio duma pocilga da zona do Porto, nas proximidades da Igreja da Lapa. De pocilgas, trouxe vários, assim como de galinheiros. Uma doente vivia presa dentro de um galinheiro, com um colchão no chão, como um animal. Havia muitas pessoas em cortes. Hoje, pa­rece estranho, mas se formos a ver, ainda há casos destes. Só que se es­condem. Ora, foi para doentes desses que nós abrimos o Calvário e o mante­mos a funcionar.

P. Então para se entrar aqui não é preciso ter bens?

R. Pelo contrário, para nós, ter bens é um empecilho para entrar. Lembro-me de um homem que uma vez me apa­receu e que queria cá ficar. Eu já estava disposto a recebê-lo, quando ele disse: “Sabe, eu tenho no banco…”, já não me lembro quanto era, mas era muito e logo eu exclamei: “Ai o que você me disse!” E já não o recebi. O homem fi­cou impressionado, mas eu tive escrú­pu­los em o receber.

P. Porquê?

R. Nós temos pobres e mais pobres e como ele tinha alguns bens, eu tinha remorsos de o acolher e deixar pobres de fora. Nós somos ao contrário das outras instituições. Não vale a pena ten­tar entender-nos. Somos assim. Que­remos aqueles que não têm nada. Hoje toda a gente tem a sua pensão social, mas para nós não conta. Prefe­rimos os mais pobres. O dinheiro para a Obra vem de outros lados. É uma ques­tão de perspectiva e de fé.

P. Tem havido pessoas a fazer doações em testamento?

R. Sim, tanta gente e a toda a hora. Mas temos recusado. Não aceitamos he­ranças. Já nos ofereceram quintas pa­ra fazermos um segundo Calvário, em Lisboa, mas nós não temos capaci­dade para isso. E não queremos multi­plicar o património, pelo contrário, que­remos apenas o pão nosso de cada dia. Tem havido oferta de heranças muito gran­des, mas nós não as aceita­mos. Só a­cei­tamos o que a pessoa dá, ela pró­pria, não o que ela deixa em he­rança. Assim o dinheiro é dinheiro duma pes­soa viva. Dinheiro que a pes­soa deixa em herança para depois nos ser en­tre­gue é um dinheiro morto e nós não o queremos. Temos tido algumas di­­fi­cul­dades em libertar-nos desses tes­ta­mentos. E quando de todo em todo não conseguimos, então fica­mos com as coisas, mas para as dar­mos a ou­tras instituições. Aqui há tempos, ofere­ce­ram-nos uma casa com uma quinta e nós oferecemo-la à Mise­ricórdia de A­veiro. E isso tem aconte­cido muitas vezes. Não queremos acu­mular, pelo contrário, queremos repar­tir.

P. Que actividades desenvolve esta família que vive no Calvá­rio?

R. Tudo o que podemos fazer faze­mos. Tenho como norma de vida que aquilo que um doente possa fazer nin­guém o deve fazer por ele. As pessoas que aqui vivem ocupam-se fundamen­tal­mente das tarefas domésticas do dia a dia, desde ajudar na cozinha, pôr as mesas, ajudar a dar de comer às pes­soas que não conseguem comer por si, e fazer as camas. As pessoas que podem fazem trabalhos cá fora, a tratar dos jardins da casa. Tudo como numa casa dita normal. O fundamental é a entreajuda na vida da casa. Todas as pessoas que têm capacidades põ­em-nas a render. E por vezes desco­brem-se capacidades que estavam es­condidas, ou eram menosprezadas. A­qui procuramos que as pessoas des­cubram as suas capacidades e as po­nham a render. E a verdade é que aca­bam por se equilibrar psicologicamente através das actividades a favor dos de­mais. Há os medicamentos, evidente­mente, mas a grande medicação para o equilíbrio psicológico dos doentes é a ocupação no trabalho e na dedica­ção aos outros. A melhor maneira de andarmos equilibrados é esquecermo-nos de nós mesmos e pensar nos ou­tros. Por isso é que há um equilíbrio psi­cológico mui­to grande aqui em casa. A própria Natureza e a ocupação nos jardins dão um equilíbrio muito grande. Mas hoje o mundo vive contra-natura. Se repararmos, a Natureza repousa no Inverno, o Inverno é o seu repouso. E as pessoas o que fazem? Vão para fé­rias no Verão, quando a Natureza está pujante. Deveria ser ao contrário. As fé­rias grandes deveriam ser no Inverno, quando toda a Natureza está em re­pouso.


A educação desportiva

Por Manuel Sérgio (Reitor do Instituto Piaget)

Ao Congresso do Desporto, organizado pela Secretaria de Estado da Juventude e Desporto, que findou no passado dia 18 de Fevereiro, apresentei a seguinte proposta:

1.  Um Desporto que não seja ape­nas uma actividade física, mas tam­bém consciencializada por problemas sociais e políticos. Os efeitos preven­tivos e curativos da motricidade huma­na, na forma de jogo e desporto, no que respeita a diversas patologias, são in­dis­cutíveis. Só que uma abordagem sistémica do Desporto atribui grande importância ao esforço físico, mas não esquece que o ser humano só se rea­liza, para além do físico, tendo em con­ta a complexidade humana que é cor­po-mente-desejo-natureza-sociedade

2. O Desporto deve considerar a questão dos valores. “Os valores do mer­cado penetraram em sectores da so­ciedade a que anteriormente presi­diam, condições de não mercado” (George Soros, “A Crise do Capitalismo Global”, Temas e Debates, Lisboa, 1999, p. 105). Ora, a vocação do Des­porto é ética, antes do mais. O Desporto (repito-me) não radica, unicamente, em princípios biológicos, como cartesiana­mente se pensou. O ser humano é um animal político... até a fazer desporto!

3.  “Método e teoria são interde­pendentes. A metodologia, por simples ou básica que seja, depende de um con­junto de supostos teóricos. Por exemplo, a recolha de dados sobre o desporto requer (...) uma definição de desporto de modo que, antes do mais, ela esteja presente em tudo o que se faz. Sem esta orientação conceptual, não há parâmetros, nem fronteiras, nem limites” (Kendall Blanchard y Alice Cheska, “Antropologia del Deporte”, ediciones bellaterra, s.a., Barcelona, 1986, p. 43). Para mim, o Desporto, como motricidade humana e como moral em acção, é epistemologicamente um dos as­pectos de uma nova ciência humana e politicamente visiona o nascimento de um novo socialismo, que se confunde com uma democracia participativa e uma economia distributiva.

4.  “O jogo é menos um diverti­men­to que uma atitude fundamental e mesmo específica da existência huma­na (...). Com efeito, como já o mostrou Hui­zinga, quase tudo é jogo na existência humana” (Nicolas Grimaldi, “Traité de la banalité”, PUF, Paris, 2005, pp. 155/156). Se quase tudo é jogo na exis­tência humana, o jogo (e por extensão o desporto) tem a ver com quase tudo o que é humano. Daqui se in­fere que os curricula dos cursos de Ciências do Desporto estão ultrapassa­dos e há, ne­les, novos saberes a estu­dar. O Despor­to, quando é só uma acti­vi­dade física, transforma-se normalmen­te num es­pa­ço donde normalmente despontam pessoas acéfalas e acrí­ticas. O que pode acontecer com os programas das aulas de Educação Física, no Ensino Secundário.

5. Substituição, no Básico e no Secundário, da disciplina de Educação Física, pela de Educação Desportiva que integraria, administrativamente, a Educação Física e o Desporto Escolar. E digo, administrativamente, porque conceptualmente tudo deveria repen­sar-se. Se as aulas de Educação Física se resumem a prática desportiva (sa­bem o que resta de uma aula de Edu­ca­ção Física, sem uma bola? Quase nada!); se é do conhecimento generali­zado que estas aulas não educam físi­cos, mas pessoas em movimento inten­cional – a Educação Física “desportivi­zou-se” e, portanto, até aqui deixou de existir! Por outro lado, atendendo ao carácter educativo do Desporto que, se for entendido como um dos aspectos de uma nova ciência humana, não tem par, no cotejo com as demais discipli­nas, sugere-se a criação da Educação Desportiva, como disciplina opcional, em todos os cursos universitários

Dizia Lenine que “nada é mais prá­tico do que uma boa teoria”. Assim, em nome de um Desporto e de uma Socie­dade diferentes, invoco a necessidade de uma Educação Desportiva que, em movimento intencional, se transforme numa Educação Problematizadora. Na Escola, no Clube, na Reabilitação, na Saúde em geral, no Espectáculo, na Uni­versidade, o Desporto não pode des­tinar-se a adormecer as pessoas à re­cusa da sociedade injusta estabele­ci­da. A revisão curricular das licenciaturas em Ciências do Desporto, acompanha­da de uma crítica epistemológica e po­lí­tica, poderia ser o princípio da trans­formação que se anseia, em ordem à construção de um mundo novo. Mas, infelizmente, continuaremos a ensinar aos alunos uma “teoria e metodologia do treino” que nada tem a ver com a trans­formação da sociedade e da his­tória. O Desporto é, hoje, o fenómeno cul­tural de maior magia. Mas, para al­guns, parece destinar-se tão-só a fazer “bestas esplêndidas”. E, pior ainda, re­produz e multiplica, demasiadas vezes, a alta competição em que se desen­tra­nha o neoliberalismo dominante. Em Portugal, antes da Revolução dos Cra­vos, acusava-se o salazarismo de ser a “causa das causas” dos três éfes (Fa­do, Fátima e Futebol). Hoje, continua­mos na mesma. Não somos contra o Des­porto. Bem pelo contrário! Mas que ele se transforme na expressão cor­po­ral do desenvolvimento sócio-econó­mico do nosso tempo, pois que tem virtualidades para tanto!


Evangelho de Judas

Por Leonardo Boff (Teólogo brasileiro)

Judas Iscariotes era um apóstolo de Jesus, portanto, alguém de sua inti­midade. Mas segundo São João “era ladrão; tirava dinheiro da bolsa co­mum”(12,5). Denunciou às autoridades, ao preço de trinta moedas de prata, onde Jesus estava escondido e com um beijo na sua face identificou-o para os soldados e assim o traiu. Depois, arre­pendido, quis devolver o dinheiro, o que não foi aceite. Desesperado, enfor­cou-se, segundo São Mateus (27,3-5). Segundo a fala de São Pedro nos A­ctos dos Apóstolos, sofreu um acidente, “arrebentou-se ao meio derramando todas as vísceras”(1,18).

Por volta do ano 100, segundo Pa­pias, discípulo do evangelista João, Judas “teria inchado de forma mons­truosa, apodrecendo vivo”. Como se de­preende ninguém sabe direito seu fim trágico. Mas todos o consideram “o traidor”.

Para a Igreja antiga sempre foi um enigma: por que Judas traiu o amigo? Muitas são as teorias. A mim con­vence-me uma bastante aceite na exegese ecuménica, pois guarda certa coerência interna. Ela reza assim:

Predominava no tempo de Jesus uma visão do mundo chamada apoca­líptica. Segundo ela, o fim do mundo estaria iminente. O Reino irromperia, pon­do fim a esta desgraçada existên­cia. Mas antes haveria o grande embate com o Anti-reino e os seus asseclas. O Messias seria submetido “à grande tentação”. Quase morreria. Mas na hora suprema Deus interviria, salvaria o Mes­si­as e inauguraria o Reino.

Junto com outros estudiosos, co­mungo da ideia exposta nos meus livros Paixão de Cristo-paixão do mundo e Pai Nosso que Jesus se inscrevia dentro desta visão. Ele fala do fim iminente e do Reino que já está dentro de nós. Usa expressões técnicas quando se refere à “tentação”, à “hora” e ao “be­ber o cálice”, coisa que lhe produz an­gús­tia mortal, a ponto de suar sangue e rezar:”Pai afasta de mim este cálice”.

Os apóstolos participavam desta leitura do mundo. Judas, nesta lógica, no afã de acelerar a vinda do Reino, en­tregou Jesus para pô-lo em grande aperto e assim obrigar a Deus a in­ter­vir. Nesta compreensão, Jesus mesmo no alto da cruz, na cercania da morte, se dá conta de que Deus não intervém como esperava. Grita estas terríveis pa­lavras: ”Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Marcos 15,34). Mas sua última palavra foi: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito” (Lu­cas 23,46). A traição de Judas seria portanto um acto teologicamente funda­do, para acelerar a vinda do Reino.

Bem outra coisa diz o Evangelho de Judas, manuscrito de 13 páginas em papiro, originalmente escrito em grego antigo e depois traduzido para o copta, por volta do final do século III e inícios do IV. Portanto cerca de 150 a 170 anos após a morte de Judas.

Descoberto nos anos 70 no Egipto, só recentemente foi decifrado e publi­cado. O texto principal traz a fala de Je­sus a Judas: “Tu ultrapassarás a to­dos os outros (apóstolos); tu sacrificarás o homem que me serve de roupagem; eu te ensinarei os mistérios do Reino; mas por isso tu sofrerás muito”.

O contexto é do gnosticismo, uma cor­rente filosófico-existencial que ne­ga­va valor ao corpo e à carne. Jesus aqui deveria libertar-se desse enve­lo­pe carnal para revelar sua divindade. Essa seria a missão de Judas.

Uma tal doutrina está longe do es­pírito dos evangelhos que afirmam a carne que Deus fez sua. Santo Ireneu, bispo de Lyon, no ano 180, conhecia esse evangelho de Judas e denun­ciou-o como ficção. Mas o manuscrito depois sumiu. Por melhores que tenham sido as razões de Judas, ele foi o traidor e continua Judas.


O Evangelho segundo Barrabás

Por Frei Betto (1) (Teólogo brasileiro)

Todos sabemos que a choldra, como diria Elio Gaspari, preferiu libertar Barrabás e condenar Jesus, como narra o Evangelho. Os romanos ocupavam a Palestina no século I; suas leis previam que, por ocasião da festa judaica da Páscoa, um prisioneiro seria indultado. O curioso é que horas an­tes, à entrada de Jerusalém, a multidão havia aclamado Jesus: “Bendito o filho de David! Bendito o que vem em nome do Senhor” (Lucas 19,38).

Jesus Barrabás (sim, assim se cha­mava o nosso homem) era discípulo de Judas, o Galileu, líder do partido dos sicários que, acusado de promover uma rebelião contra os impostos co­brados por Roma, morreu crucificado quando Jesus se encontrava na ado­lescência. Sobre Barrabás pesava a acu­sação de ter matado um soldado romano no outono anterior, o que lhe angariava simpatias aos olhos dos ju­deus contrários à ocupação romana.

A multidão teria sido assim tão vo­lúvel? Porque entregar agora à con­de­nação aquele que havia saudado, ao vê-lo entrar no Templo pela Ponte de Xisto, montado num jumento? Tudo faz supor que a turba que acolheu Je­sus como sucessor do rei David, has­teando palmas, não era a mesma que se encontrava na Fortaleza Antónia, onde ele foi julgado por Pilatos. Faz sentido. Na via pública, junta-se qual­quer um. Nas dependências de um edi­fício que servia de palácio ao governa­dor romano só ingressavam os cre­denciados, os “amigos da casa”. E com certeza não eram pessoas dispostas a contrariar as autoridades.

Jesus intriga-nos. Ele é o anti-he­rói. Jamais escreveu um livro, actuou apenas durante três anos, entrou na história pela porta dos fundos, desafiou as autoridades do seu tempo. Se os homens sonham em ser reis e os reis gostariam de ser deuses, em Jesus Deus fez-se homem. Ninguém marca tão profundamente a cultura ocidental quanto o Nazareno. “Ainda que me pro­vassem que a Jesus não estava com a verdade, eu ficaria com Jesus”, declarou Dostoievski.

A existência do filho de Maria e de José dá asas à imaginação. Não só agora com O Código da Vinci, de Dan Brown, um Harry Potter para adul­tos. Já nos primeiros séculos da nossa era, uma centena de evangelhos foi publicada, atribuídos a Pedro, Tomé, Filipe, Matias, Barnabé, Maria Madale­na etc. Agora vem a público um de suposta autoria de Judas, cujo autor procura salvar a sua má fama, tentan­do justificar que o apóstolo-tesoureiro teria agido de comum acordo com Je­sus. O bispo Gelásio, falecido em 496, publicou um texto conhecido por De­cre­to Gelasiano, no qual condena ao menos 60 textos considerados apócri­fos. Na lista não aparece o Evangelho de Judas, sinal de que não devia ser muito popular.

Não duvido que surja amanhã o E­van­gelho de Jesus Barrabás. O agi­tador teria deixado um relato no qual afirma que sua prisão fora uma farsa montada para apressar a condenação de Jesus. Ou que seu indulto foi com­pra­do a peso de ouro por seus compa­nheiros sicários, pago a um Caifás corrupto, o mesmo que repassou as trinta moedas a Judas, e que teria insuflado a turba contra Jesus.

Acho curioso constatar que muitos indagam “quem foi Jesus?” e “quem matou Jesus?”, quando as perguntas pertinentes são “o que fez Jesus?” e “porque condenaram Jesus?” Dessas interrogações muitos fogem como o diabo da cruz. Sabem que as atitudes de Jesus com as suas críticas à ganân­cia dos ricos, a sua exigência de amar os inimigos, são no mínimo desconfor­táveis para uma sociedade centrada no sonho da opulência, canonizadora da apropriação privada da riqueza e pre­nhe de ódio frente aos adversários.

Jesus foi assassinado como prisio­neiro político, não por ter sido traído ou porque Deus, Pai sanguinário (na ver­são de Mel Gibson), se quis com­prazer ao ver o Filho contorcer-se na cruz. A pena de morte adoptada pelos romanos, a crucificação, atingiu Jesus, porque sua militância ameaçou a estabilidade do regime político e eco­nómico vigente na Palestina. “Não com­preendeis que é melhor que só um ho­mem morra pelo povo, do que perecer toda a nação?”, indagou o Sumo Sacer­dote (João 11, 50).

Somos cúmplices de Barrabás qu­ando acorrentamos o Jesus que nos ha­bita e os valores evangélicos paradig­má­ticos de uma ética fundada no res­peito à sacralidade do próximo e da na­tureza, e quando preferimos a compe­ti­tividade à solidariedade, a vingança à compaixão, o ódio ao amor. Eis uma maneira muito em voga de escrever o Evangelho segundo Barrabás.


O Silêncio de Deus

Por Frei Betto (2)

Na visita a Auschwitz, o papa Ben­to XVI fez uma prece que surpreendeu a muitos: “Onde estava Deus naqueles dias? Porque ficou em silêncio? Como pôde permitir esse massacre sem fim, esse triunfo do mal?”

Esta foi a oração de Jesus na cruz: “Meu Deus, meu Deus, porque me a­ban­­do­naste?” (Mateus 27, 46), fazen­do eco ao Salmo 22: “Meu Deus, eu grito de dia e não me respondes; de noite, e nunca tenho descanso.”

Nem sempre a nossa oração é de súplica, gratidão ou louvor. Há momen­tos em que o silêncio de Deus nos inco­moda, sobretudo diante do mal prati­cado e da impunidade. Talvez Ele es­teja sugerindo, com esse silêncio, ca­ber a nós reparar a injustiça e evitar o mal. Deus é pai mas não paternalista. “Onde estavam vocês, homens e mu­lheres de bem, naqueles dias? Porque se demitiram?”

A religião não é para ser crida, é para ser vivida. Mais vale fazer do que crer; amar ao próximo do que prestar culto a Deus. Mas quem, hoje, prescin­de de religião? Como celebrar momen­tos fortes da vida – nascimento, casa­mento, morte – sem recorrer a ritos e símbolos religiosos?

Muitos já não buscam a libertação social e política, devido ao ocaso das ideologias progressistas, embora so­nhem com um mundo melhor. Agora a libertação cede lugar à salvação. A uto­pia – situada no futuro da história – é suplantada pela experiência imediata do sagrado.

As instituições tópicas da moderni­dade estão em crise, como a família mo­nogâmica, a escola e a igreja. Nunca Pro­tágoras esteve tão em moda como nesse primórdio da pós-modernidade. Também quanto à religião os fiéis que­rem ser a medida de todas as coisas. Rejeitam os canais institucionais de mediação com o divino. Olham descon­fi­a­dos para instituições aferradas ao equívoco histórico de que sempre coin­cidem autoridade e verdade.

Daí o êxodo de fiéis das igrejas históricas às variadas manifestações esotéricas. Não estão à procura de dou­trina, mas de alívio e soluções para os seus problemas existenciais. Não buscam mandamentos, e sim consolos. Não querem o perdão, mas explicação para as suas angústias e dificuldades. À promessa de salvação pós-morte pre­ferem o guru capaz de premonição frente ao futuro imediato. Ficarei cura­do da doença? Meu filho largará as dro­gas? O amado retornará aos meus braços? Há videntes que garantem, em seus anúncios, a volta em três dias do amor perdido ou a devolução do di­nhei­ro da consulta...

Nas grandes cidades há muita in­se­gurança. O ritmo da vida acelerou-se e não bastam pão e pouso para se ser feliz. O nível de exigência inclui riqueza, fama e beleza (sobretudo ma­greza). O ser robótico esculpido pelos media acentua a baixa auto-estima. Como me posso sentir feliz se tenho dívidas, sou anónimo, desprovido de beleza física e não me consigo conter diante de um caldeirão de gorduras saturadas e uma travessa de doces? Como sentir-me bem se estou amea­çado pelo desemprego? E se a política não me dá respostas e as ideologias se calam, onde buscar refúgio senão no esoterismo religioso? Como resistir ao pastor que me promete prosperi­da­de em troca de uma vida menos des­regrada e o dízimo pago em dia? Como não se sentir atraído pelo padre que me insere entre os eleitos do Es­pírito Santo e me faz falar em línguas estranhas?

As igrejas históricas dividem-se en­tre as que ainda não se urbanizaram e insistem nos mesmos arcaicos méto­dos paroquiais, sem recursos para evan­gelizar a juventude, os sectores profis­sionais, os movimentos sociais, e aque­las que, actualizadas pelos media tele­visivos, “privatizam” a fé, reduzida a um meio de consolo pessoal e identificação do fiel com a sua igreja. Toda a dimen­são social encontrada no Evangelho – o compromisso de Jesus com os mais pobres, a crítica aos opressores e ven­di­lhões do Templo, o amor ao próximo que reconhece nos famintos a própria face do Cristo – é ignorada.

Assim, a religião exerce, de um la­do, o papel de legitimadora da desor­dem vigente na sociedade e, de outro, induz ao fundamentalismo que acredita na partidarização política da igreja co­mo única forma de salvar a sociedade...

Evangelizar, hoje, é resgatar os mé­todos adoptados por Jesus: antes de proferir o discurso moralista, oferecer o absoluto de Deus, como fez ele à sa­maritana; antes de exigir adesão à dou­trina, propor a opção pelos pobres, co­mo disse ele ao homem rico; antes de realçar a sacralidade das instituições religiosas, acentuar o ser humano, em es­pecial o faminto, o enfermo e o opri­mido, como templos vivos de Deus. E anunciar o Deus do amor e do perdão, e não do juízo e da condenação; o Deus da alegria, não da tristeza; Deus como pão da vida, e não cruz a ser carregada neste vale de lágrimas...

Jung demonstrou como Jesus está presente no inconsciente colectivo do Ocidente. O que explica o sucesso do Có­digo Da Vinci que, supostamente, esclarece a “história da vida privada” de Jesus. Essa tendência à privatização de todos os aspectos da vida, compro­vada pelo êxito de publicações que apa­rentemente fazem o leitor penetrar na intimidade de celebridades, é uma das características da filosofia neolibe­ral que respiramos em tempos de uni­po­laridade do capitalismo. Esse voy­eurismo exacerbado neutraliza o nosso potencial de transformar a sociedade e resgatar a nossa auto-estima como seres ontologicamente políticos, como observou Aristóteles.

Diante da tanta injustiça, não é o si­lêncio de Deus que nos deveria inco­modar, e sim a nossa desmotivação para combatê-la e construir o “outro mun­do possível”.


A prática teológica das mulheres

ajudará à compreensão do Evangelho

Prefácio do Pe. Anselmo Borges ao livro

Teologia e Género, edição Ariadne

Prefácio quer dizer feito antes, por­tanto, é o que precede o texto propria­mente dito, já terminado. Mas, se é escrito no fim, também a sua leitura de­veria seguir essa ordem — do fim para o princípio —, estimulando a releitura apro­fundada da obra. Embora não seja uma conclusão, um prefácio é na reali­dade sempre posfácio.

Um prefácio pode ter essencial­mente duas funções. Uma delas é servir de introdução à obra apresentada. No caso vertente, essa apresentação já existia, numa síntese acabada que o pre­faciador não teria conseguido. A o­utra seria a de um propósito laudatório. Mas também essa intenção aqui se não jus­tifica, como o leitor desta obra pio­neira entre nós poderá constatar por si próprio. Assim, neste pré-texto, pre­ten­de-se tão-só, aproveitando o pre­texto duma obra inaugural entre nós sobre teologia e género, apresentar mo­destamente alguns pontos de refle­xão sobre uma temática tão urgente como complexa.

Teologia é o discurso sobre Deus que se revela, portanto, dentro do cír­culo hermenêutico do “crer para enten­der e entender para crer”, compreensão da fé enquanto entrega confiada ao Mistério vivo e pessoal que salva. A fé não abandona o logos, pois, embora não seja a conclusão lógico-empírica da razão, exige que dê razões de si mesma. Sendo um acto pessoal de en­trega do Homem todo em todas as suas di­mensões, implicou sempre a presen­ça da teologia. Por sua vez, a teologia só desempenha a tarefa que é a sua, se, como escreveu Hans Küng, se man­tiver fiel a duas constantes ou pó­los, em “correlação crítica”: a primeira constante, pólo ou horizonte é o nosso mundo presente de experiência, na sua ambiguidade, ambivalência, contingên­cia, mutabilidade; a segunda constante, pólo ou norma fundamental é a tradi­ção judaico-cristã, que, em última aná­lise, tem o seu fundamento e expressão na mensagem do Evangelho de Jesus Cristo.

A revelação não cai directamente do céu. Ela dá-se em experiências e com experiências humanas. Por con­se­guinte, o próprio Evangelho – mesmo na origem – nunca é apresentado pu­ro, pois, dado que o ser humano é, por natureza, cultural, aparece sempre me­dia­do pelas culturas, melhor dito, me­di­ado e expresso culturalmente. Esta mediação e expressão implicam, por um lado, que o Evangelho critica as cul­turas, mas, por outro, que ele apare­ça encoberto por elas. A tarefa da(s) teo­logia(s) é servir a mensagem cristã, mantendo, como se disse, em correla­ção crítica, aquele duplo pólo, mas em vigilância permanente por causa das pos­sibilidades de encobrimento, tam­bém e sobretudo encobrimento ideoló­gico. Este trabalho é sempre complexo, porque a(s) própria(s) teologia(s) está (estão) de facto sempre ameaçada(s) pelo perigo da ideologia. É assim que, no caso em estudo, a categoria de “gé­nero”, proveniente das ciências huma­nas e utilizada desde os anos sessenta e setenta do século XX (os gender stu­dies são da década de setenta) no sentido de mostrar que as diferenças en­tre homens e mulheres (desigualda­des, hierarquia, subordinação da mu­lher, domínio masculino...) não têm a sua base na natureza, mas na cultura – são construções sociais, culturais, e daí a distinção entre “sexo biológico” e “sexo social” —, é preciosa para mos­trar como a mensagem do Evangelho, cuja intenção radical é a libertação ple­na de todos os seres humanos e do Ho­mem todo, se pode ter apresentado e apresenta como factor opressivo. Ve­jamos alguns exemplos.

É sabido que a linguagem não é um mero instrumento para transmitir idei­as já constituídas. Pensamos lin­guis­ticamente, a consciência é linguis­ticizada e somos na linguagem, que é “a casa do ser” (M. Heidegger). En­ten­de-se assim, no nosso caso, a rela­ção estreita entre a linguagem e a figu­ra da mulher. Veja-se, por exemplo, o arrepio causado por expressões como: a cardeal-patriarca de Lisboa ou a bis­pa do Porto. E o que pensariam os cristãos, se, um dia, o padre, na cele­bração da Eucaristia, inaugurasse a proclamação da fé, nestes termos: “Creio em um só Deus Mãe toda pode­ro­sa”? Aqui, na base da relutância e do reboliço, embora seja claro que Deus transcende a determinação se­xual, está também uma deficiência e mesmo uma ignorância da biologia – não se esqueça que a descoberta do óvulo feminino data apenas de 1827. De facto, São Tomás, no quadro do hilemorfismo aristotélico, assumiu que, na procriação de um novo ser humano, a mulher dá a matéria, que é passiva, sendo o homem a dar a forma, que é activa. Assim, se a mulher, em última instância, é passiva, como é que pode ser imagem do Deus infinitamente activo e criador, como é que pode pregar nas igrejas, etc.? Tomás de Aquino dirá ex­pressamente que a mulher é um “varão falhado”: de facto, de si, a força activa do sémen está orientada para gerar uma realidade semelhante, portanto, do sexo masculino; a geração do feminino acontece devido a uma fraqueza. Daqui concluirá que por natureza a mulher é subordinada ao homem, que os filhos devem amar mais o pai do que a mãe, que o sacerdócio está vedado à mu­lheres, que elas não podem pregar, pois a pregação é um exercício de sa­bedoria e autoridade.

A relação da mulher com a pos­sibilidade da ordenação sacerdotal im­plicaria só por si um tratamento longo e aprofundado, tanto mais quanto o de­bate tem de excluir o equívoco de que o sacerdócio significa acesso a posi­ções de poder. Nunca se sublinhará su­ficientemente que do que se trata é de serviço e não de domínio. Mas, no âm­bito do acesso ao sacerdócio, o que seria necessário explicar em primeiro lugar é que a raiz fundamental das di­ficuldades se encontra na concepção sacrificial da Eucaristia. Na realidade, embora possa haver nele alguns res­quí­cios dessa tentativa interpretativa, o que é facto é que o Novo Testamento evitou o uso da palavra hiereus (o sa­cer­dote que oferece sacrifícios) apli­cada aos que presidiam às comunida­des cristãs. A interpretação sacrificial da Eucaristia apareceu fundamental­men­te por causa da necessidade de, no quadro do Império Romano, mostrar que os cristãos, acusados de ateísmo, também ofereciam um sacrifício. Note-se, porém, que a orientação teológica de conceber a morte de Cristo enqu­anto sacrifício e resgate exigidos por Deus Pai para aplacar a sua ira acabou por apresentar o cristianismo numa pers­pectiva de religião cruel e bárbara e impôs ao Ocidente uma profunda car­ga de culpabilidade, o que constitui uma contradição, quando se pensa que a mensagem de Jesus tem como seu núcleo a experiência e o anúncio do Deus que é Amor. De qualquer modo, a partir do momento em que aparecem os sacerdotes em conexão com o sacri­fício, surge a ligação com as categorias religiosas universais de puro e impuro. Ora, a mulher era considerada impura sobretudo por causa da menstruação. Por essa e outras razões, também se foi impondo na Igreja católica a lei do celibato para os padres, e as mulheres ficarão inevitavelmente excluídas do altar, mesmo se, no princípio do cristi­anismo, presidiram ao memorial euca­rís­tico celebrado nas casas particu­la­res. Por outro lado, quando se pretende fundamentar a exclusão das mulheres ao acesso à ordenação sacerdotal com base em que Jesus na Última Ceia só teria dado esse poder a homens, é ne­cessário responder, como faz com uma ponta de cinismo o exegeta Herbert Haag, recentemente falecido, que en­tão só será legítimo ordenar judeus, já que os apóstolos eram judeus.

Neste contexto, deve também refe­rir-se o pecado original, elaborado es­sen­cialmente por Santo Agostinho, pois não se encontra na Bíblia. Baseado na tradução latina da Carta aos Roma­nos, 5, 12, referente a Adão: “no qual to­dos pecaram”, ele, contra o texto ori­ginal grego, que diz: “porque todos pe­ca­ram”, interpretou que o pecado de Adão não é apenas o primeiro da série de todos os pecados cometidos pelos homens e pelas mulheres ao longo da história, mas que esse pecado é um pe­­cado hereditário (em alemão, distin­gue-se entre Ursünde e Erbsünde), de tal modo que é um pecado de todos os seres humanos, transmitido por ge­ra­ção pelo acto sexual. Portanto, o recém-nascido não é inocente, nasce em pecado, do qual, para evitar a con­de­nação eterna, só o baptismo o pode libertar. Foi pelo pecado de Adão que veio todo o mal ao mundo (mas os teó­logos não esqueciam que uma das ver­sões do Génesis sobre a criação e a queda dizia que foi Eva que tentou Adão), incluindo a morte. Esse pecado tornou a humanidade toda “massa con­denada” ao inferno, do qual só alguns são libertos pela graça imerecida de Deus. As mulheres ficaram particular­mente afectadas por esta doutrina, não só porque são as tentadoras e seduto­ras, mas porque acabam por levar con­sigo ao longo de nove meses no seu ventre alguém concebido em pecado e que transporta o pecado merecedor do castigo eterno. Não se esqueça que Santo Agostinho não hesitou em deixar cair no inferno, embora concebido de forma mais mitigada, as crianças sem baptismo, de tal modo que é incalcu­lável o sofrimento das mães cristãs que ao longo dos séculos viram os seus fi­lhos morrer sem baptismo.

Uma experiência pessoal sexual dramática de Santo Agostinho e uma exegese errada deram azo a uma dou­trina cruel e contrária à Boa Nova de Jesus. Tanto assim é que, neste enqua­dramento, surge a doutrina da conce­pção imaculada de Nossa Senhora. A festa que se celebra no dia 8 de De­zembro, com feriado nacional, tem aqui a sua base, precisamente com o nome de Imaculada Conceição. Quer dizer, Maria, a mãe de Jesus, seria uma ex­cepção à universalidade do pecado ori­ginal, pois teria sido concebida sem pe­cado. Neste âmbito, a figura de Nossa Senhora é paradigmática no campo da fé e da teologia. Por um lado, Maria de Nazaré é tratada no Novo Testa­men­to com sobriedade, mas sem deixar de se lhe atribuir inclusivamente traços revolucionários: “Derrubou os podero­sos dos seus tronos e exaltou os humil­des. Aos famintos encheu de bens e aos ricos despediu de mãos vazias”. Por outro lado, no quadro de influências pagãs, de uma Igreja com uma hierar­quia masculina e de uma fé vivida numa sociedade patriarcal e em que era ne­ces­sário evitar toda uma linguagem que lembrasse as deusas pagãs da fertili­dade, Deus é simbolizado com traços masculinos e, paradoxalmente, como contraponto, Maria acaba por ser quase divinizada. Ela é arrancada à humani­dade e, à maneira de mito, esquecen­do também que o Credo não é de modo ne­nhum um tratado de biologia, ideali­zada como virgem e mãe. Então, é ne­cessário perguntar se este ideal impos­sível de virgem e mãe é favorável ou des­favorável à libertação da mulher ou se, pelo contrário, contribui para a sua opressão. Como se sentirão as mu­lhe­res que não foram concebidas sem pe­cado e têm de carregar no seu ventre com o fruto do pecado? É certo que, frente a uma imagem masculina de Deus com traços inclusivamente cruéis e a uma Igreja também profundamente masculinizada na sua hierarquia e nu­ma sociedade onde a figura do pai tão frequentemente aparecia (aparece?) como distante e ditatorial, Nossa Se­nho­ra surge como uma espécie de al­mofada maternal. Mas, depois, a nível religioso, chega-se ao cúmulo de atri­buir-lhe, em visões e aparições, afirmações que, teologicamente, são, no mínimo, discutíveis: “Meus filhos, a mão do Meu Divino Filho está prestes a descarregar a sua justa ira sobre o mundo; não consigo detê-la. Ajudai-me! Se in­vo­cardes a minha Chama de Amor, jun­tos salvaremos o mundo.”

A igualdade radical de género não deverá pôr em causa o modo próprio de as mulheres habitarem o mundo nem a riqueza das diferenças – são co­nhecidos os debates entre o femi­nismo da igualdade e o feminismo da dife­rença. Mas o que fundamental­men­te se segue desta breve reflexão é que a teologia terá cada vez mais de aten­der à sua dimensão crítica no sentido de pôr a nu tudo o que de ideológico se foi infiltrando na fé, na dogmática e na piedade cristãs. Para que a revelação cristã, que tem como seu critério de verdade a liberdade e a libertação plena de todos os homens e mulheres, participe cada vez mais intensamente na história da emancipação. Afinal, o ho­mem bíblico é mesmo o homem-corpo vivo, a ponto de se poder e dever dizer que o cristianismo é, em última análise, uma religião do corpo: no princípio, Deus criou o Homem à sua imagem e se­melhança – homem e mulher os fez – e abençoou a sexualidade e viu que era tudo muito bom; na Bíblia, encontra-se um dos livros mais eróticos da histó­ria da literatura mundial – o Cântico dos cânticos; Deus mesmo em Jesus Cristo assumiu a corporeidade: “o Lo­gos fez-se carne”; a humanidade cor­pórea encontra-se, pela ressurreição de Jesus, no seio da Trindade. Por ou­tro lado, quando se está atento à ati­tude, ao comportamento, à prática ver­da­deiramente subversivos e revolu­ci­onários de Jesus na sua relação com as mulheres, toma-se consciência da urgência em fazer a história do mal-estar na Igreja em relação ao corpo, ao sexo e à mulher, e tentar compre­endê-la. Uma teologia liberta tornar-se-á libertadora. E a presença maior das mulheres na prática teológica aju­dará a todos na compreensão mais pro­funda e activa da Boa Nova de Je­sus. Esta obra é um contributo indis­pen­sável nesse sentido.


Sobre o livro

Nem as duas coordenadoras da edição, Manuela Silva e Fernanda Henriques, que assinam a apresentação do livro; nem nenhuma das 6 autoras de textos (apenas uma é do país vizinho), respectivamente, Ana Maria Jorge, Isabel Gomez Acebo, Teresa Toldy, Maria Carlos Ramos, Maria Luísa Ribeiro Ferreira, Maria Joaquina Nobre Júlio; nem nenhum dos 5 autores de textos, respectivamente, João Duque, António Matos Ferreira, Joaquim Cerqueira Gonçalves, Armindo dos Santos Vaz, José Tolentino Mendonça; nem tão pouco Anselmo Borges que assina o Prefácio fazem a mais pequena referência ao Jornal Fraternizar que tanto tem contribuído no nosso país para pôr na ordem do dia a problemática "Teologia e Género", muito menos, à obra, única no género, Em Memória delas. Livro de Mulheres (Edição Campo das Letras, Porto), do seu director Pe. Mário de Oliveira. Apenas Armindo dos Santos Vaz, padre carmelita e Professor Associado da Faculdade de Teologia da UCP, que disserta sobre "Reabilitação de «Eva», ou o elogio do feminino", se refere ao livro Nem Adão e Eva, nem Pecado Original (Campo das Letras) do Pe. Mário, mas sem coragem para identificar o nome autor, de tão maldito que se terá tornado no universo católico daquela Universidade. Eis a referência: "Sendo assim, nem é preciso dizer que «Adão e Eva nunca existiram", quando se quer dar um ar 'avançado' ao entendimento desse texto bíblico". Regista-se a omissão e absolve-se do respectivo pecado a Editora Ariadne, que não tem culpa que autoras, autores tão credenciados como os que "fazem" o volume de 265 páginas que ela em boa hora deu à estampa no nosso país, assim se comportem com um dos seus irmãos de caminhada e de causas. Mas assim somos os humanos, ainda tão ao contrário do Deus Criador que está apostado em fazer-nos à sua imagem e semelhança, em feminino e em masculino. Leiam o livro e, se puderem, leiam também o silenciado Em Memória delas. Livro de Mulheres.


OUTRAS MENSAGENS

Rabanada de Vento

E-mail. Ana: Olá Sr. Padre Mário de Macieira da Lixa. Chamo-me Ana e tenho 18 anos. Vivo num colégio de Irmãs Católicas há 13 anos, mas saí com as ideias do avesso (do ponto de vista delas). Estamos no mês de Maio e, como pode imaginar, por estes lados é animado.

Hoje, apesar de eu ter um teste de matemática, tive que ver com o resto das miúdas um filme sobre o "Milagre de Fátima", aquele em que entra o Diogo Infante e a Catarina Furtado. Acho que nunca acreditei nisso na minha vida. Desde pequenina que vejo Fátima apenas como uma mera história. E lembrei-me de si, enquanto via o filme. Aliás, lembrei-me do título do seu livro: Fátima Nunca Mais.

Dei então uma fugida à internet para descobrir mais qualquer coisa sobre o conteúdo do livro e qual não é a minha surpresa quando vejo que o autor é um padre!

Enfim, deixo aqui os meus mais sinceros cumprimentos e a promessa de que lerei o livro.

p.s. Reparei que menciona sempre o feminino antes do masculino, e chego à conclusão que o objectivo é para se diferenciar dos outros padres e da Igreja em geral que secundarizam a mulher. Estarei certa?

N.D.

Olá, Ana!

Bem-haja pela sua mensagem cheia de juventude. E de lucidez. Fiquei muito feliz. As freiras a quererem impingir-lhe e às suas companheiras do colégio a mentira de Fátima, através de um filme bobo que é um atentado à inteligência das pessoas e um insulto ao Deus de Jesus, e a Ana, enquanto vê o filme, a lembrar-se de mim e do meu livro FÁTIMA NUNCA MAIS e a tomar a decisão de, logo após, ir procurar na Internet mais informação a propósito. Que coisa mais bonita e feliz!... E agora ainda aqui está a escrever-me com toda esta naturalidade e simplicidade. Só posso ver o dedo de Deus em tudo isto. Fomos feitos para a Verdade e para a Beleza, como para o Amor e para a Liberdade, e não descansamos enquanto não descobrimos o caminho (“Eu sou o caminho”, diz Jesus) que, ao ser percorrido, nos levará até lá.

Faz muito bem em ler o meu livro. E depois desse, poderá ler outros mais, vida fora. Um beijo.

E-mail. Teresa: Caro Companheiro. O livro que lhe adquiri, Na companhia de Jesus e de Ateus, tem andado a circular junto de colegas e tem recebido espantosos comentários, de modo muito positivo. Pena que as finanças (e a mentalidade...) das gentes ande pelas ruas da amargura, e não se lhes dá para investir em livros.

Fique certo, no entanto, que o sr. Pe. anda a abrir os olhos a muita gente. Sei que não lhe falta coragem, por isso, uma vez mais, obrigada, parabéns e até breve.

Fraternalmente,

E-Mail. Marcelo: Querido padre Mário. A sua mensagem de 19 de abril sobre a Páscoa de Jesus deixou-me profundamente tocado e foi, para mim, a Boa Nova, o próprio Evangelho. A morte física em si não é problema. Como bem se depreende de tuas palavras, é ela que nos abre para a dimensão do outro, da alteridade. O problema está justamente na forma como vivemos, no aqui e agora de nossa História!

É de coração que eu falo: como é gostoso e libertador viver essa fé jesuanicamente ateia ou ateisticamente jesuânica. O seu texto foi para mim verdadeiro sacramento de crisma: ungiu-me com a coragem de testemunhar que o Deus vivo só é vivo de facto em nós. Não precisa de milagres nem de manifestações sobrenaturais. O Deus vivo o que quer é apenas e tão somente o prazer de sermos humanos, profundamente humanos. Numa sociedade justa, fraterna, anárquica. Acredite, estou profundamente emocionado com a sua mensagem e, se me permitir, ela será proclamada como Evangelho na nossa celebração do próximo domingo em nossa CEB.

E, mais ainda: esta mensagem coincide com um forte momento de minha vida pessoal em que renunciei a um cargo administrativo em nosso sistema educacional brasileiro, cargo que quase todos almejariam, justamente porque eu não queria oprimir ninguém. E esse cargo traria recompensas e poder, mas em troca venderia minha alma, adoptando politicas neo-liberais no sistema educativo. Não deixei sequer o convite ser exposto: a simples exposição completa me ofenderia e ofenderia a minha fé jesuânica. Sou cristão jesuânico e como tal anarquista e socialista... Voltei como professor para a sala de aula na periferia de São Paulo. Lá sim quero organizar alunos e comunidades para defenderem seus direitos.

Assim, querido Padre Mário, estou em Páscoa: tive força de vida para romper as estruturas de morte e poder respirar. E tive também a vontade de, como você mesmo diz, partilhar maieuticamente essa experiência com você. Viver numa perspectiva libertadora faz-nos menos infantis e mais felizes. Estou muito, muito feliz mesmo, em ser livre. Como Jesus pediu que fôssemos.

E, por fim, aqui no Brasil, conte sempre comigo: sabe, em nossa comunidade, somos vários os leitores de teu site na internet e pensamos até em organizar, para Maio, uma pequena colecta que mandaríamos, aqui do Brasil, para a construção do vosso Barracão de Cultura. As pessoas de nossas Cebs animaram-se com a ideia. E alguém levantou: mas com tantos problemas sociais aqui, porque iríamos ajudar alguém do outro lado do mundo? Ao que prontamente respondi: porque a solidariedade não tem fronteiras e ao Sopro do Espírito vai onde quer. Por isso, e se tudo der certo, organizaremos uma pequena colecta entre Maio e Junho. E se isso for efectivamente realizado, posteriormente entrarei em contacto para mandar a pequena oferta de nossas comunidades de trabalhadores sofridos, mas que em todos os ofertórios de nossas celebrações cantam: “Quem disse que não somos nada / que não temos nada para oferecer? / repare nossas mãos abertas/ trazendo as ofertas de nosso viver!

Assim, é com minhas mãos e sobretudo com meu coração aberto que lhe ofereço, por ora, meu carinho, minha estima e minha solidariedade. E, por fim, orgulho-me de ser cristão, primeiro por Jesus Cristo, o Homem Pleno, e depois, por pessoas como você, padre Mário.

A paz do Cristo Libertariamente Anárquico.

N.D.

Companheiro Marcelo.

As suas palavras voltaram a deixar-me em emocionada EUCARISTIA. Bem-haja.

É claro que nem precisa da minha autorização para utilizar o quase-poema a que se refere na celebração.

É da maneira que estarei intensamente com todas, todos vocês.

Deixemos que o Espírito nos faça outros Jesus, hoje e aqui.

O meu abraço fraterno, extensivo a toda a Comunidade. Convosco Mário.

Cós. Samuel Neto: Em primeiro lugar, quero expressar a minha grande satisfação por poder receber o FRATERNIZAR. Se tivesse que comparar este acontecimento, diria que se assemelha a uma rabanada de vento que, por instantes, cria o caos e que, ao mesmo tempo, refresca, areja e arruma. Enquanto ele existir, quero continuar a receber as suas provocações, por forma a me ajudar na caminhada desta vida.

Quero participar que nem sempre recebo o Jornal, e que já por diversas vezes tive de telefonar, para posteriormente me ser enviado. Gostaria de saber se este facto está ligado exclusivamente a falhas dos correios, ou se há alguma responsabilidade do próprio Jornal. Queria ainda pedir que me seja enviado sempre um recibo do valor enviado, só para controlo próprio das minhas comparticipações. Quero ainda aproveitar para fazer uma sugestão à Direcção do Jornal: Dado que o Jornal é enviado a muitas pessoas que depois não enviam contribuições e que isso pode pôr em causa o seu futuro, proporia o seguinte: a. Todos os assinantes pagariam anualmente o equivalente a duas assinaturas do Jornal; b. Esta premissa garantiria a publicação do dobro dos jornais, sem perdas para o Jornal; c. Com critérios bem definidos, e sempre tendo em atenção as dificuldades económicas dos leitores, a Direcção definiria quem receberia sem custos estes excedentes; d. Sempre que algum assinante propusesse um novo assinante, pagaria com a proposta uma assinatura anual em nome do novo assinante.

Com estes ou outros critérios bem definidos, criaríamos uma coisa que acho muito importante - o Jornal teria sempre condições para subsistir, e não seria por causa de outros, para os quais o Jornal não tem o valor que os assinantes lhe reconhecem, que ficaríamos irremediavelmente sem condições para o continuar a publicar. Considero isso uma injustiça para com todos os leitores e assinantes, para quem o FRATERNIZAR é uma preciosa bênção nas suas vidas. Um abraço para todos e bom ânimo para o Pe. Mário.

N.D.

Aqui fica a sua sugestão. Cada qual fará o que entender em consciência. Mas bem sabe que não é só de dinheiro que o FRATERNIZAR carece. Também carece de pessoas, concretamente, de um novo director, perito em teologia de libertação e desprendido do dinheiro e dos privilégios. Até hoje, o dinheiro tem chegado. E há-de continuar a chegar. Precisamos de pessoas à altura do percurso já andado. E que o prossigam ao seu jeito, mas com a mesma fidelidade ao Espírito. Quanto às falhas na recepção dos exemplares do Jornal, serão exclusivas dos correios. Da nossa parte, sempre temos enviado cada edição para os endereços que temos no computador, sem qualquer discriminação. Tal como o sol quando nasce é para todos, também o Fraternizar é para todos os assinantes, independentemente, de terem ou não a assinatura em dia.

Castelo de Paiva. José Seabra:

Junto envio... euros. Da última edição, agradou-me especialmente o Editorial D. Dinheiro que bate em cheio na ganância e hipocrisia humanas e na estupidez do ser humano que tudo destrói: as florestas, os campos aráveis, polui mares, ares e rios, na mira do lucro fácil, com a bênção dos políticos, bispos e do Banco do Vaticano, representado em Portugal pelo "santuário de Fátima".

Enfim, prefiro a filosofia budista e a sabedoria do Dalai-Lama à hipocrisia de papas autopromovidos a santos e autênticas "fábricas de santos", como foi João Paulo II. (...)

Parabéns, pe. Mário pelos Destaques 1 e 2. Jesus Cristo não tem culpa da Igreja que tem. Resta-nos a Natureza, onde está a verdadeira Fé.

Benavente. Silvestre: Não posso nem devo deixar de aproveitar a oportunidade para lhe transmitir a minha opinião acerca do Jornal e ela resume-se à expressão: É muito mais do que alguma vez imaginei! Confesso-lhe que a decisão de efectuar a assinatura foi um acto de pura solidariedade, estilo "o Jornal de que é director um homem como este deve aumentar o número de assinantes"; mas ao receber os exemplares que me enviou, logo percebi que afinal tenho andado a perder informação preciosa. Felicito-o pois pelo que faz e felicito-me pelo que a partir de então passei a usufruir. Um abraço.



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