Textos do
Jornal Fraternizar

Edição nº 161, de Abril/Junho 2006

DESTAQUE 1

SÃO POUCOS OS QUE SE SALVAM?

“Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta e espaçosa é a via que conduzem à perdição, e muitos são os que entram por elas. Como é estreita a porta e apertada a via que conduzem à vida! E como são poucos os que acertam com elas.”

O alerta é de Jesus, o de Nazaré e, nestes precisos termos, encontra-se no Evangelho de Mateus 7, 13-14. Mas também o Evangelho de Lucas se lhe refere, e em termos muito mais dramáti­cos, pois, aí, o alerta aparece como res­posta a uma pergunta muito concreta que alguém de entre a multidão dirige a Jesus, quando ele já vai a caminho de Jerusalém, disposto a enfrentar/des­mas­carar a Perversão institucionaliza­da, alimentada e gerida pelos repre­sen­tantes máximos do Poder religioso, do Poder governativo e do Poder eco­nó­mico-financeiro no país, os quais, por isso mesmo, rapidamente se coliga­ram entre si e o mataram na cruz como o maldito de Deus, para que nunca mais ninguém se atrevesse a pousar nele os olhos e a tê-lo como exemplo ou mo­delo de ser humano. À pergunta: “Se­nhor, são poucos os que se sal­vam?”, Jesus responde assim: “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, porque eu vos digo que muitos tentarão entrar sem o conseguir. Uma vez que o dono da casa se levante e feche a porta, ficareis fora e batereis dizendo: «Abre-nos, Senhor!», mas Ele há-de respon­der-vos: «Não sei de onde sois». Co­me­çareis então a dizer: «Comemos e bebemos contigo e tu ensinaste nas nos­sas praças». Responder-vos-á: «Re­pito-vos que não sei de onde sois. Apartai-vos de mim todos os que prati­cais a Injustiça/Perversão». Lá haverá pranto e ranger de dentes, quando vir­des Abraão, Isaac e Jacob e todos os profetas no Reino de Deus, e vós a ser­des postos fora”.

Mas o alerta de Jesus deve ter mar­cado tão intensamente a consciên­cia das pessoas suas contemporâneas e as pessoas que integravam as pri­mei­ras Comunidades cristãs que escre­veram os Evangelhos canónicos, que nem mesmo o Evangelho de João, bastante mais tardio que os Sinópticos, passa sem se lhe referir, embora já o faça numa linguagem teológica muito mais burilada. Para este Evangelho, a Porta estreita e a Via apertada (ou Ca­minho), pelas quais é preciso entrar para acertarmos na vida, como seres humanos, são já o próprio Jesus: “Eu sou a Via/Caminho” (Jo 14, 6-11); “Eu sou a Porta” (Jo 10, 1-10). O que signi­fi­ca que uma mulher e um homem são-no tanto mais quanto mais forem como Jesus, o de Nazaré e quanto mais pros­seguirem dentro da História aquelas mes­mas causas em prol da Huma­ni­da­de que ele teve como suas, até à entrega da sua própria vida, naquela que só pode ser considerada como a máxima explosão de amor e de graça.

Mas o dramático é que, apesar do apelo de Jesus dirigido às pessoas de todos os tempos, também do nosso, para que entrem pela porta estreita e pela via aper­tada que é ele próprio, o que elas mais querem não é ser como Jesus, mas como Bush, por exemplo, o todo poderoso presidente do Império norte-americano, ou como Bento XVI, o todo poderoso Papa de Roma, ou como Bill Gates, o homem mais rico do mundo. Isto só para citar os três mode­los de ser humano mais em evidência na nos­sa actualidade. Quando, afinal, à luz da Boa Notícia de Deus que é Jesus, o de Nazaré, Bush e o Papa e Bill Gates só podem ser olhados como outros tan­tos exemplos históricos de porta larga e de via espaçosa que con­duzem à perdição humana, se, porven­tura, nos deixarmos atrair/conduzir por eles, em vez de lhes resistirmos com todas as forças e nos deixarmos atrair/seduzir por Jesus.

Mas que conclusão mais chocante, dirão muitas daquelas pessoas que isto lerem. E que conclusão mais insultuo­sa, acrescentarão ainda outras. E logo pensarão umas e outras que quem se atreve a tirar e a publicar semelhante conclusão só pode estar mesmo louco.

Porém, trata-se duma conclusão que decorre cristalina do próprio Jesus, o de Nazaré, que é o Evangelho ou a Boa Notícia de Deus entre nós e connos­co. A quem, no seu tempo e país, as mi­norias do Poder económico-finan­ceiro, do Poder governativo e do Poder religioso, que são simultaneamente as minorias dos privilégios, começaram por tratar por louco e pouco tempo de­pois não hesitaram em matar, como o maldito de Deus. E não estiveram sozi­nhas neste crime dos crimes. Ainda pu­deram contar com o apoio e a coo­pera­ção incondicionais dos seus muitos vas­sa­los e dos seus lacaios funcionários, tanto as elites, no topo da pirâmide, co­mo os pelintras, na base da pirâmide social.

As minorias sabiam e sabem que se o exemplo de Jesus pegasse e as pessoas e os povos passassem a entrar por ele, isto é, passassem a ser como ele, lá se iria por água abaixo a Ordem Mundial que tanto lhes custou a imple­mentar e lá se iam também por água abaixo todos os seus privilégios sobre os demais. Aliás, para hoje poderem continuar a manter inalterável esta mes­ma Ordem Mundial, as minorias dos pri­vilégios não hesitam em recorrer à vio­lência cada vez mais feroz e inumana, seja através dos múltiplos Estados nacionais, seja através do Império de turno, sempre mentiroso e assassino.

É hoje mais manifesto que nunca que as minorias dos privilégios não olham a meios para tentar abafar/silen­ciar os clamores e as legítimas reivin­dicações das maiorias oprimidas e em­pobrecidas do mundo, numa altura em que estas – escândalo dos escândalos – já são quase cinco partes das seis partes de toda a população mundial.

Mas o mais chocante e insultuoso em tudo isto é estarmos em presença du­ma Ordem Mundial intrinsecamente perversa e inumana, desde o princípio, que continua a ser apresentada pelas Igrejas, pelas Religiões e pelas Univer­si­da­des do mundo às sucessivas gera­ções que vêm a este mundo , como u­ma Ordem Mundial natural, inclusive, querida e criada pelo próprio Deus. Quando, afinal, ela não passa de pura criação humana, nomeadamente, das minorias do Dinheiro, do Poder e da Re­ligião, as quais, para cúmulo, sem­pre têm contado, não com a oposição firme e consequente das maiorias sem voz nem vez, mas com a inconsciência, a ingenuidade e a cumplicidade dessas mesmas maiorias, e também com o o­por­tunismo de muitos outros que co­mem das migalhas que as minorias dei­xam cair das suas lautas mesas, como se faz aos cachorros de salão que não ladram nem ferram.

Na verdade, a Ordem Mundial em que hoje nos movimentamos mais não é do que a Grande Mentira, a porta lar­ga e a via espaçosa que sistemati­camente nos descriam como seres hu­ma­nos, e que dificultam o avanço para diante da Criação que Deus Vivo, num princípio, iniciou sem nós, num fantás­tico big-bang de amor sem limites, mas que, agora, depois de nós, os seres hu­manos termos acontecido, no desen­rolar da Evolução, Ele já não poderá mais prosseguir sem a nossa livre cooperação criadora.

Infelizmente, a livre cooperação dos seres humanos com Deus Vivo tem tardado por demais. Mas ela é de todo imprescindível para que a Criação ini­ciada por Deus Vivo avance para di­ante.

Nem mesmo depois que passamos a ter entre nós e connosco no planeta o filho muito amado de Deus Vivo, Je­sus, o de Nazaré, nós, os seres huma­nos, temos sido capazes de pôr nele os olhos e de entrar por ele, como a Porta e a Via que nos foram dadas para nos conduzirem à plenitude do huma­no, que é uma outra maneira histórica de dizer salvação. Em vez disso, temos continuado, todos, ou quase todos, a fazer o jogo das minorias do Dinheiro, do Poder e da Religião e, para cúmulo, quando Jesus viveu entre nós e con­nosco como um de nós, em tudo igual a nós excepto na Alienação e no Obscu­rantismo, corremos, juntamente com elas, a matá-lo, para, assim, podermos continuar, impertur­báveis,  a levar por di­ante a nossa inumana obra de des-Criação do mundo e dos seres huma­nos, em manifesta oposição à Criação que Deus Vivo continua aí apostado em consumar na História.

Porém, se verdadeiramente quiser­mos alcançar a plena condição de se­res humanos na História – é isso sal­var-se – temos que resistir à tenta­ção de entrar pela porta larga e pela via es­paçosa da Religião, do Dinheiro acumulado e concentrado e do Poder, e entrar com convicção pela porta es­treita e pela via apertada da Graça e da Verdade, que se materializam no Amor praticado todos os dias.

Quer isto dizer que seremos tanto mais seres humanos quanto mais con­sentirmos que a Graça ou Vida de Deus – entenda-se, o próprio Ser de Deus, o seu Sopro ou Espírito – nos faça à sua imagem e semelhança. Por outras palavras, trata-se de deixarmos que Deus Vivo seja Deus Vivo em nós/em mim/nós e connosco/comigo, até nos/tor­nar filhas suas, filhos seus, portanto, irmãs, irmãos de cada um dos outros se­res humanos, numa comunhão cada vez mais real e que abranja todas as dimensões do ser humano, não só a dos afectos, mas também a da Mesa (Economia) e a da Cidade (Política).

De modo que tudo o que é hoje produzido ou que venha a ser produ­zido nos sucessivos Hoje de cada ge­ração que vem a este mundo, por meio do trabalho humano e da tecnologia, desde a mais artesanal à mais sofisti­ca­da, terá que ser equitativamente re­partido por todos os seres humanos, segundo as reais necessidades de ca­da qual. E tudo num clima de liberdade, não impositivo ou autoritário, num clima de harmonia e paz. E de intensa e fe­cun­da alegria, precisamente aquela ale­gria que só a Sororidade/Frater­ni­dade praticada, também na dimensão da Riqueza produzida, consegue pro­por­cionar.

Ora, é precisamente aqui que reside a dificuldade maior para nos tornarmos mulheres e homens em esta­do de salvação, isto é, mulheres e ho­mens integralmente humanos, sororais/fraternos e solidários. À porta estreita da Graça e da Verdade, que nos faz filhas, filhos de Deus vivo e irmãs, ir­mãos uns dos outros e uns com os ou­tros, temos preferido de longe, e hoje ainda mais do que no passado, a porta larga da Religião, do Dinheiro acumu­la­do e concentrado e do Poder cada vez mais absoluto. De modo algum te­mos consentido que o Ser de Deus Vivo – o seu Sopro, ou o seu Espírito – se apodere de nós e nos faça mulheres e homens à sua imagem e semelhança, por isso, mulheres-e-homens-para-os--de­mais.

Aquelas pessoas que consen­tem que Ele entre e se apodere delas, são as que entram pela porta estreita e pela via apertada da Graça e da Verdade, também chamadas a Fé de Jesus. Tor­nar-se-ão, progressiva e surpreenden­te­mente, filhas, filhos de Deus Vivo, como Jesus, o mesmo é dizer, tornar-se-ão, progressiva e surpreendente­men­te mulheres/homens humanos e so­rorais/fraternos como Jesus, o de Na­zaré.

Infelizmente, o que as mais das vezes nós, seres humanos queremos, não é ir por aí, mas ao contrário, o que queremos é apoderar-nos de Deus (ou dos símbolos que pensamos que nos remetem para Ele, como, por exemplo os Ritos ou as fórmulas mágicas da Re­ligião, o Dinheiro concentrado e acu­mu­lado e o Poder cada vez mais abso­luto), a fim de o fazermos à nossa ima­gem e semelhança, e, deste modo, po­dermos dispor dEle e recorrer a Ele em qualquer cir­cuns­tância, como dispomos de um objecto, e sempre em proveito pró­prio contra os demais, olhados por nós cada vez mais como inimigos ou, pelo menos, como potenciais inimigos, dos quais sempre nos havemos de de­fen­der, também no jeito daquele menti­ro­so ditado da Ordem Mundial que gos­tamos de repetir a toda a hora e que diz que a melhor defesa é o ataque (é também por isso que, quando quere­mos a Paz, em vez de nos metermos logo a construí-la com engenho e arte, desde os fundamentos, metemo-nos de imediato a preparar a guerra e, por is­so, armamo-nos até aos dentes, a pre­tex­to de que tanto e tão sofisticado ar­ma­mento tem um efeito dissuasor!!!).

Entretanto, apoderar-se de Deus, em vez de deixar Deus ser Deus em nós, é entrar pela porta larga e pela via espaçosa da Idolatria, essa mesma por onde, também hoje, continuam a en­trar multidões sem conta, Igrejas e Religiões incluídas, com os seus prin­cipais líderes à cabeça. Mas enquan­to a via da Graça e da Verdade – a via da Fé de Jesus, o de Nazaré – nos li­ber­ta para a liberdade e para a res­pon­sabilidade uns pelos outros e pela História e nos torna dom/dádiva-para-os-demais, a via da Idolatria, ao contrá­rio, escraviza-nos e aliena-nos, torna-nos progressivamente desumanos e cru­éis, até connosco próprios (vejam o que se passa, inclusive, nos grandes santuários como o de Fátima e nas gran­des empresas multinacionais) e, se for levada ao extremo, acaba por nos transformar nuns monstros em for­ma humana, a respirar Mentira e Ódio por todos os poros, a semear Opressão e Exploração em toda a parte, e a de­senvolver Obscurantismo e Alienação em todas as pessoas e em todos os povos. Numa palavra, faz de nós des-criadores na História, bem nos antípo­das de Deus Criador, semelhantes em tudo aos falsos deuses que se alimen­tam de gente, até acabar por nos con­verter em seres que vivem para matar, roubar e destruir (cf. Jo 10). Portanto, uns desgraçados que desgraçam tudo o que tocam, uns criadores de infelici­dade generalizada, uns seres com in­fer­nos dentro, que infernizam o Mundo, homens e mulheres, cujas acções e in­ter­venções só podem produzir frutos nos antípodas dos produzidos por Je­sus, o de Nazaré.


DESTAQUE 2

19 de Fevereiro 2006, em Portugal

ESTE É O DIA QUE A MENTIRA FEZ

O 19 de Fevereiro 2006 entrará na História como o dia mais desgraçado da primeira década do século XXI em Portugal. Sobre ele, nunca o Salmista bí­blico poderia escrever: “Este é o dia que o Senhor fez!” Se quisesse continu­ar a utilizar a mesma expressão para se referir a este dia, teria que escre­ver: Este é o dia que a Mentira fez. Ou: Este é o dia que a Hipocrisia fez. Ou: Este é o dia que o Obscurantismo fez. O que alguns responsáveis maiores da Igreja católica estão a fazer com os restos mortais da Irmã Lúcia, um ano de­pois da sua morte, é absolutamente imo­ral. Mas também não é menos imo­ral o descarado aproveitamento que os três canais generalistas de televisão do nosso país estão a fazer desse acto imoral dos responsáveis da Igreja cató­lica.

Nem depois de morta, os clérigos fatimistas deixam Lúcia, a da paróquia de Fátima, em paz. E exploram-na, utili­zam-na, sugam-na até para lá do ini­ma­gi­­nável. É o sado-masoquismo na sua versão mais inumana e mais de­gradante. E tudo com o objectivo de­mo­níaco de tentarem impor, duma vez por todas, ao país e ao mundo, a Men­tira de Fátima.

A operação vem desde 1917. E des­de então para cá, conseguiu, para nossa vergonha como país e como I­gre­ja católica, arregimentar à sua volta Papas, com destaque total para o Papa idólatra João Paulo II, muitos cardeais e bispos católicos de todo o mundo, muitos padres e, sobretudo, muitos mi­lhões de pessoas com problemas, ca­rên­cias e aflições de múltipla ordem, a maior parte, na área da saúde.

O Desespero, como o Medo, sem­pre foi criador de deusas e de deuses. E atira para a via da Alienação e da De­mência beata pessoas que antes tí­nhamos por lúcidas, equilibradas, sen­satas. Basta o médico anunciar-lhes, quando elas se encontram gravemente doentes, um daqueles diagnósticos fa­tais, como cancro ou sida, e logo o seu equilíbrio interior se parte. E tudo se al­tera a partir daí. O ateu torna-se cren­te infantilizado e começa a correr para o santuário de Fátima ou outro, onde reaprende a bichanar avé-marias e pai-nossos em série. E o crente mais ou menos lúcido torna-se um beato com­pulsivo. Quando mais necessário era manterem a Lucidez e o Bom Sen­so, para, juntamente, com o médico e outros agentes de Saúde enfrentarem a Doença com inteligência e determi­na­ção, num combate sem tréguas, eis que as pessoas deixam-se facilmente cair na Depressão e afundam-se na Be­atice mais degradante. Uma “fé” as­sim é inumana. É capitulação. É desis­tên­cia. É alienação. É entregar a ima­gens e a santuários e a clérigos comerciantes a resolução dos problemas que só a nós, seres humanos, compete re­solver.

Em lugar de, em tais circunstâncias adversas, Deus vivo acontecer misterio­samente no mais íntimo da pessoa e torná-la lúcida na máxima Luz e comba­tiva na máxima Força, numa luta sem tréguas contra a Doença, o que acon­te­ce e se afirma, na maior parte dos casos, é o Desespero e o Medo, qual de­les o mais perigoso criador de deu­sas e de deuses que se alimentam de pessoas e de populações em situação de notória fragilidade psicológica. En­tão, o ser humano desaparece, para dar lugar à Alienação, à Idolatria, à Re­li­gião. E lá onde o ser humano de­sa­parece ou se demite, sempre cresce a Degradação e a Inumanidade. E o Desastre é completo.

Em alturas destas é que os santuá­rios crescem em número de clientes e de devotos. E os negócios da Religião andam de vento em popa. Populações sau­dáveis e lúcidas, ou mesmo doentes, mas que se mantêm lúcidas, sem­pre resistirão a descambar da Lucidez para a Demência e para a Beatice. E por isso nunca chegarão a ser clientes dos santuários.

Foi assim com Jesus, o de Nazaré. Nunca recorreu ao Templo de Jerusa­lém e aos seus inúmeros sacerdotes, nem quando já era um homem marcado por eles para morrer. Nessa altura, en­trou no Templo, mas foi para o denun­ciar como covil de ladrões, como casa de negócio à sombra do Nome de Deus. E ainda teve a audácia de o des­truir, mediante um corajoso e lúcido ges­to simbólico que lhe custou a vida, mas não a Dignidade! Ele sabia que as Religiões sempre se alimentam da Desgraça e da Degradação. Pessoas escorreitas nunca vão por essas vias ou caminhos. Elas sabem que Deus Vivo só se sente honrado, quando as pessoas e as populações resistem à Alienação e à Humilhação. E tudo fa­zem para se manterem donas dos seus próprios destinos, como se Deus não existisse.

Nunca as Religiões foram caminho para Deus Vivo, na medida em que tam­bém não são caminho de uns seres hu­manos para outros seres humanos. E os sacerdotes que pontificam nos templos e nos santuários são sempre agentes de Alienação que se alimen­tam - e muitas vezes enriquecem - à cus­ta da Alienação das populações, a menos que, a partir desses locais, se atrevam a anunciar o Evangelho da Li­ber­dade e da Responsabilidade huma­nas que levará as populações a afastar-se deles e a deixar de os alimentar com o seu dinheiro.

Um dia, quando a Humanidade atingir o patamar da Maioridade – só então a Liberdade andará definitiva­men­te de mão dada com a Responsa­bi­lidade – os sacerdotes serão todos olhados como inimigos dos seres hu­manos. E os templos e os santuários onde eles hoje pontificam e medram serão declarados espaços de Degra­da­ção humana. Podem continuar abertos, tal como hoje estão abertos os prostíbulos, mas então só quem não tiver coragem para se assumir como se Deus não existisse é que ainda os fre­quentará.

Nunca como neste dia 19 de Feve­reiro 2006, a Hipocrisia e a Mentira an­da­ram tão à solta e foram tão promo­vidas pelas televisões generalistas do nosso país. Digo-o com lágrimas. Ao mes­mo tempo que não hesito em decla­rar aqui sem rodeios, para que todo o mundo saiba: Os meus irmãos da Igreja católica, nomeadamente bispos e pres­bí­teros, teólogos na Universidade cató­lica ou em Faculdades de Filosofia de Universidades não confessionais têm obrigação de saber como eu sei que Fá­tima com a sua senhora feita por um santeiro de turno é pura Mentira. Nem Maria, a de Jesus, nem Jesus, o de Nazaré, têm alguma coisa a ver com todo aquele culto e com todo aquele ne­gócio de bradar aos céus. Muito me­nos têm alguma coisa a ver com toda aquela auto-humilhação colectiva de seres humanos. A Fé de Jesus, que aca­bou por se tornar também a Fé de Ma­ria, sua mãe, já depois da morte violenta dele na cruz, é absolutamente incompatível com as chamadas “apari­ções de Fátima”, ou outras “aparições” semelhantes. Como a Luz é incompa­tí­vel com a Treva. Como a Verdade é in­compatível com Mentira. Mas aqui, no caso de Fátima, a Mentira é ainda mais descarada.

É preciso que se diga: Tudo o que ocorreu em 1917 em Fátima foi previa­men­te programado ao pormenor pelo clero da região. Foi ele quem decidiu, como no guião de um filme, que as “apa­rições” só ocorreriam entre Maio e Outubro. E sempre aos dias 13 de cada mês. De modo que, depois de 13 de Outubro de 1917, o Céu fechou-se para sempre!...

Acham que estou a exagerar? Lei­am com sentido crítico a própria Docu­mentação oficial de Fátima, preparada com o objectivo de nos convencer da veracidade das “aparições”. Conclui­rão, como eu, que tudo foi programa­do ao pormenor. E depois realizado pe­rante populações caídas no Obscu­ran­tismo, esmagadas pelo Medo do in­ferno e pelas pregações terroristas dos Padres da Santa Missão e do livro Mis­são Abreviada. A dramatização em forma de “aparição” devia acontecer ape­nas durante seis meses. Porque se  se prolongasse por mais tempo, teria sido difícil manter a Mentira de pé.

Acham que estou a exagerar? Lei­am o livro As Memórias da Irmã Lúcia e depois confrontem o que lá se escreve com os depoi­mentos das três crianças em 1917, recolhidos pelo próprio clero de Fáti­ma que concebeu e executou a Mentira. Perceberão de imediato que estamos em presença de duas Menti­ras distintas, a inventada pelo “baixo” clero em 1917 e a inventada pelo “alto” clero que, a partir de 1935, escreveu e fez a Irmã Lúcia escrever juntamente com ele essas “Memórias”. As duas Mentiras são tão distintas entre si, que qualquer pessoa não-fanática de Fátima logo se dá conta da contradição entre uma e outra.

Mas Fátima não é só Mentira. É tam­bém Crime. Porque as três crianças envolvidas em toda aquela encenação do clero acabaram por ser também as suas principais vítimas. Apenas o clero saiu vitorioso da inventona. Os dois ir­mãos, Jacinta e Francisco, de tão in­génuos e infantis que eram, nunca per­ce­beram nada de nada do que se fazia acontecer. Não passaram de meros ver­bos de encher em todo o perverso pro­cesso. E acabaram ambos vítimas da Pneumónica, e na ilusão delirante de que os seus inenarráveis sofrimen­tos eram necessários para que Deus não condenasse mais os “pobres peca­dores” ao fogo do inferno, esse mesmo que os pregadores da Santa Missão lhes haviam pintado como tremendo lo­cal de horrores sem fim. (Bastaria este anti-Evangelho, para declararmos sem hesitação, que Fátima é Mentira e Cri­me. Um Deus que é capaz de criar um inferno de fogo eterno para “os pobres pecadores” e que, depois, em lugar de o destruir, ainda manda uma enviada sua à terra a três crianças portuguesas para as convencer a sofrerem horrores e a oferecê-los a Ele para que, assim “os pobres pecadores” não caiam lá mais, é um Deus mil vezes mais cruel que Hitler ou Pinochet e só pode ter si­do inventado pelas frustrações de to­da a ordem dos clérigos, catequizados desde meninos na aversão ao corpo e ao prazer sexual, por sinal, um e outro tão caros a Deus Vivo, o do Cântico dos Cânticos bíblico!).

Dos três primitos, apenas Lúcia con­seguiu sobreviver à vaga da pneu­mónica que então varreu parte do país. Mas para que a Mentira nunca mais fos­se desmascarada, teve que ser en­clau­surada para o resto da vida, por sinal, muito longa, sem nunca mais po­der dispor de si própria. A sua morte, há um ano, foi o momento alto da Men­tira de Fátima. Mas não foi o último. Eis que, hoje, um ano depois, tudo volta a repetir-se. A orquestração é completa. O poder do Dinheiro é avassalador. E a Mentira de Fátima fica consumada contra um tal padre católico “marginal” que se atreveu a escrever e a publicar um livro intitulado Fátima nunca mais.

Para sempre? Enganam-se todos os fatimistas, papas e cardeais que se­jam. Quando a Maioridade humana che­gar, e a Liberdade andar de mão dada com a Responsabilidade, em todas as pes­soas e em todas as populações, a Mentira de Fátima e da sua senhora com tanto de branco como de cruel, des­far-se-á como uma montanha de gelo perante a força do calor do Sol. Bendigo, desde já, esse dia. Por agora, só posso chorar. Convulsivamente.


A lucidez do Pe. Anselmo Borges*

EVANGELIZAR O DEUS DE FÁTIMA

O Pe. Anselmo Borges, grande amigo do nosso Jornal, passou a ser colunista no DN dos domingos. E no dia do 2.º funeral do cadáver da Irmã Lúcia, de Coimbra para Fátima (Jesus bem deixou dito: "Deixa que os mortos enterrem os seus mortos", mas esta Igreja não quer saber), escreveu uma crónica que transcrevemos com vénia. Leiam. Verão que a lucidez e a coragem moram aqui.

"Porque é que você, que é bispo, quando vem falar comigo, nunca me fala de Deus nem da religião, mas do povo, da defesa dos seus direitos e da sua dignidade?”, perguntou o  Presiden­te de Moçambique, Samora Machel, a D. Manuel Vieira Pinto, então Bispo de Nampula. “Porque um deus que preci­sasse da minha defesa seria um deus que não é Deus. Deus não precisa que O defendam. Os seres humanos sim”, respondeu o Bispo.

Foi precisamente o antigo bispo de Nampula que me contou que, encon­trando-se um dia em Fátima, se de­parou com uma senhora que, de joe­lhos, se arrastava a caminho da Cape­linha das Aparições. Na tentativa de de­movê-la, pois o Evangelho não é a favor do sacrifício pelo sacrifício – a dor é um mal a evitar —, lá lhe foi dizendo que Deus não queria aquilo e que ele, bispo, até podia substituir a promessa, por exemplo, pela ajuda a favor de uma obra social. Insistiu, sublinhando-lhe que assumia a responsabilidade. A se­nho­ra, porém, atirou-lhe: “Vá com Deus, senhor bispo. Não foi a si que eu fiz a promessa”.

É preciso respeitar o sofrimento das pessoas e manifestar-lhes simpatia activa na sua dor. Mas é necessário re­conhecer também que o que se pas­sa em Fátima com pregações apelando à penitência e ao sacrifício não está de acordo com o Evangelho.

De facto, até etimologicamente, a palavra Evangelho significa notícia boa. O Evangelho segundo São Marcos começa assim: “Princípio da boa nova de Jesus Cristo, Filho de Deus. Jesus pregava o Evangelho de Deus e dizia: completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo; mudai de menta­lidade e acreditai na Boa Nova”. Lá está: Evangelho enquanto notícia boa e feliz. E habitualmente traduz-se: “fazei penitência”, mas, no original grego, es­tá: “Metanoeite”, que significa: mudai de mente, de pensamento, de cora­ção”. Não está: “fazei penitência”.  E Je­sus proclamava: “ide aprender o que isto quer dizer: Deus não quer sacrifí­cios, mas misericórdia”.

No entanto, frequentemente, talvez porque ao poder e às autoridades inte­ressa o cultivo do medo, o Evangelho tornou-se de facto uma má notícia.

Deus, que Jesus proclamou como Amor, Liberdade Criadora, Fonte de Ale­gria e realização plena, acabou por ficar associado a tristeza, enfado, me­do, castigo, vida tolhida, sentimento de culpa, juízo final, infantilismo.

Para esse “Disangelho”, como lhe chamou Nietzsche, foi decisiva a in­filtração da ideia de que Deus, para aplacar a sua ira e reconciliar-se com a humanidade, precisou da morte do próprio Filho na cruz.

E aí está um deus vingativo, cruel e monstruoso!

Mas, se Deus fosse vingativo e cruel, também nós, os seres humanos, poderíamos exercer vingança e cruel­dade.

Permito-me, porém, lembrar que o teólogo Joseph Ratzinger, hoje Papa Bento XVI, no livro Fé Cristã Ontem e Hoje, traduzido para francês em 1976, recusou acreditar que Deus se tornou “misericordioso” só depois de ver sa­tisfeita a sua “vingança”. Erguendo-se contra a teologia da “satisfação” que situa a cruz “no interior de um meca­nis­mo de direito lesado e restabele­ci­do”, rejeitou a noção de um Deus “cuja justiça inexorável teria exigido um sa­crifício humano, o sacrifício do seu pró­prio Filho. Esta imagem, apesar de tão espalhada, não deixa de ser falsa”.

Mesmo correndo o risco de escan­da­lizar alguém, deve também dizer-se que, de facto, Fátima não faz parte da fé católica, isto é, pode-se ser católico e não acreditar em Fátima. De qualquer forma, Fátima não é  o centro do cato­li­cismo.

Mas Fátima realmente existe e mui­tas pessoas  poderão fazer lá experi­ên­cias boas de Deus. Porque não u­tilizar então Fátima, evangelizada pelo Deus de Jesus, que é Amor e Fonte de Vida, Alegria, Perdão e Beleza, co­mo grande espaço de oração e medita­ção e mudança de mentalidade e até de encontros ecuménicos e de diálogo inter-religioso, a favor da justiça, da paz, da reconciliação entre os homens e da abertura ao Mistério?

A quem receie que o anúncio do Deus-Amor poderia levar ao “vale tudo” e à libertinagem seria bom lembrar que quem se sente autenticamente amado com amor de verdade e sem ingenuida­des rousseaunianas fica religado (um dos étimos de religião é “religare”, re­ligar) a Deus e ao Bem a partir de dentro e não por medo.

Quanto ao novo fervor com as relí­quias, lembra-se que as únicas relí­quias que Jesus deixou são comu­ni­dades cristãs vivas que acreditam, com todas as consequências, que Jesus, crucificado por e para dar testemunho do amor e da verdade, está vivo.

* Professor de Filosofia na Universidade de Coimbra


EDITORIAL

É hora de regressarmos a Jesus, o de Nazaré

D. DINHEIRO

"Quando o Dinheiro/quer ser teu Deus/e te escraviza sem piedade/põe-te em guarda/dá-lhe combate/ou per­de­rás tua Dignidade." O Alerta, feito po­e­ma, vem no meu recente livri­nho Can­to (S) nas Margens, e nunca  foi tão o­portuno como nestes dias de chumbo que estamos a viver no país e que nos estão a matar a alma e a devo­rar a nos­sa Dignidade de seres hu­ma­nos.

Estes são os dias de glória e de exaltação do Senhor Dinheiro, de D. Dinheiro. Ele são OPAs a toda a hora; ele são jogos da Bolsa que fazem ricos da noite para o dia, sem que tenha sido produzida qualquer riqueza no país; ele são Euromilhões a fazer "excêntricos" todas as semanas (vejam a hábil Men­tira da Publicidade que se limita a falar em "excêntricos", em lugar de "loucos", como a sugerir que a acumulação da Ri­­queza nas mãos de poucos não pas­sa duma Excentricidade como outra qualquer, quando a verdade é que é um Crime de lesa-Humanidade, já que a Riqueza é para ser Repartida, segun­do as necessidades de cada qual, pes­soas e povos, nunca para ficar Retida e Acumulada nas mãos de alguns); ele são "directos" de banqueiros nas tvs a anunciar Lucros que insultam o País de Desempregados que hoje so­mos e deixam a nu toda a Crueldade de que o D. Dinheiro é capaz; ele são or­dena­dos fabulosos de jogadores de Futebol que, ainda na sua natural ima­tu­ridade, perdem a alma e de repente passam de bons profissionais de futebol a gastadores compulsivos e craques sem um pingo de dignidade e de exem­plaridade para os muitos adolescentes que têm neles os olhos e logo, por isso, são tam­­bém ten­tados a crescer sem alma, bem à sua ima­gem e semelhança.

Esta é a hora do Poder das Trevas. Quando elevado à categoria de Se­nhor, de Deus, D. Dinheiro gera seres à sua imagem e semelhança, por isso, sem alma, o mesmo é dizer, sem entra­nhas de humanidade, cruéis, insolidá­rios, Caim para os demais. As maravi­lhas que D. Dinheiro opera - e são mui­tas e de encher o olho - vão todas na linha da Descriação do Mundo e da Na­tureza e dos seres hu­manos. Ou D. Di­nheiro não fosse o anti-Deus por anto­no­másia, o Inimigo n.º 1 de Deus vivo e Criador de Universos destinados a ser povoados e geridos por filhas suas, filhos seus, em estado de maioridade, irmãs, irmãos entre si.

Como é que chegamos a se­me­lhan­te Descriação do Universo e dos seres humanos? A Liberdade veio ao mundo, mas nós preferimos o Império à Liberdade. Dei­xamo-nos fazer pela Mentira que é o Dinheiro Acumulado, em lu­gar de nos deixarmos fa­zer pela Ver­da­­de que é Je­sus. Prosse­guimos até hoje com a Religião e o Im­­pé­rio, mesmo de­pois que uma e ou­tro, coligados, ma­ta­­ram Jesus. E, para cúmulo, ain­da cor­re­­mos a fazer de Je­sus crucifica­do o Deus do Império e do Templo que te­mos adorado, em lugar de nos a­tre­ver­mos a ser mu­lhe­res, homens com o mesmo Sopro ou Espírito dele.

É hora de arrepiar caminho e re­gres­sarmos a Jesus, o de Nazaré. E às suas causas, que são as da Humani­dade, a começar pela mais oprimida e empo­bre­ci­da. Ousemos ser pobres por op­ção, como ele foi. Partilhar os bens e a vida, como ele partilhou. Assumir o Mundo e a Vida nas próprias mãos, em comu­nhão fraterna e solidária, como ele assumiu. Ser irmãs e irmãos que se amam, perdoam e vivem a co­mu­nhão em redor de Me­sas comuns e eucarísti­cas, como ele foi e viveu. Numa palavra, deixemos Deus Vivo, não o D. Dinheiro, ser Deus em nós e connosco, como ele sempre deixou.


REQUIEM PELO DIA 9 MARÇO 2006

O meu país deveria vestir de luto

quando esta semana Cavaco Silva tomar

posse como Presidente da República. É

a ascensão do Financeiro sobre o Humano.

Do Esfíngico sobre a Explosão. Do Catolicão

sobre a Fé jesuânica. Do Tirânico sobre

a Ternura. E da Eficácia sobre a Fecundidade.

Para trás ficam dez anos de um Presidente

Cinzentão e cheio de Dúvidas incansável

em viajar pelo País como um Repórter obcecado

em mostrar parcelas da Realidade quando deveria

transformar a Realidade. Várias vezes demos com

ele a chorar e não choramos. Porque dele o que

esperávamos era que pusesse fim à Dor do País.

A maioria dos que votaram escolheu Cavaco

o Profe que nunca teve dúvidas e raramente

se engana. Jornais também não gosta de ler

e dos telejornais só suporta as imagens que

o mostram a dizer ufano que nunca foi capaz

de ler até ao fim um Poema de Sophia muito

menos os Sonetos de Camões e Os Lusíadas.

Números e mais números que representem

milhões e milhares de milhões de euros e de

dólares são a única língua que o novo Presidente

sabe falar. Durante a campanha eleitoral aprendeu

à pressa a brincar com os netos para fotógrafo ver

e divulgar. Mas à Mentira da Revista prefiro a Verdade

da sua medonha boca de Medo num directo da tv.

Nunca depois de Abril Portugal esteve tão

a pique e tão à beira de perder a alma. Tem

ao leme um Trio de seres nos antípodas da

Comunidade de Amor que é Deus Vivo. Já

não bastava um Scolari e um Sócrates. Vem

agora um Cavaco. Se não lhes resistirmos com

Poemas e Ternura acabaremos feitos Sucata.

E não é que até o Cardeal Policarpo que alguns

tinham como Inteligente e Culto vem agora

juntar-se ao Trio de Apanhados pela Alienação

e fazer da Fé católica Cruzada contra o Ateísmo

e os Ateus? Ó Portugal de Bocage e de Camões

de Sophia e de Saramago levanta-te antes que

a Senhora de Fátima seja entronizada nas Escolas!

Nem só de Pão vivem os seres humanos

diz e com razão quem nos conhece melhor que

nós próprios. E ao Pão ainda o comemos mas

ao Dinheiro nunca poderemos comer. Um povo

só goza de boa saúde quando faz da Política

com Espírito a sua Alavanca. Quando a alavanca

é o Dinheiro até os seres humanos ficam coisas.

Escrevam a chumbo o dia 9 de Março 2006

e oiçam em fundo o Requiem de Mozart enquanto

as tvs transmitem em directo a tomada de posse do

novo profe de Finanças. O mês é de Primavera mas

é o Inverno que se inicia. Não. Não choremos por

Abril. Preparemo-nos para os duros tempos de

novas Clandestinidades. E comecemos já a conspirar.


ESPAÇO ABERTO

M. Sérgio (Reitor do Instituto Piaget)

NA COMPANHIA DE JESUS E DE ATEUS

Mais um livro do Padre Mário de Oliveira! Mais um livro para gerar uma saudável polémica! E escrevo “saudável polémica”, porque ela se enquadra nu­ma luta ideológico-política em que to­dos os “homens de boa vontade” de­vem participar. Não uma luta entre duas Verdades que bloqueiam o exercício da razão e do sentimento, mas entre pes­soas que procuram a construção de um mundo mais justo e mais fraterno.

De um lado, estão os que acreditam que o mundo capitalista é a fonte de todo o progresso, que só ele pode de­senvolver as forças produtivas e, por isso, é um erro lamentável assumir pos­turas anticapitalistas; do outro, estão os que não se conformam com socieda­des de mediocridade desencantada que são as que nascem de um capita­lis­mo selvagem e sem alternativas, on­de o mundo se divide, inalteravel­mente, em ricos e pobres, senhores e servos, exploradores e explorados.

Bem vistas as coisas, o capitalismo é um cemitério de descrença. E o mais triste é que as religiões abençoam, em nome de “Deus”, o sistema económico-político que, cientificamente, constrói a sociedade injusta. Ora, é contra a Igre­ja Católica (que muito justamente não se cansou de denunciar os erros de um marxismo ditatorial), conluiada com o Ter e o Poder que o Padre Mário de Oliveira se levanta – porque é pres­bí­tero católico, porque não acredita no “capitalismo próspero” que só é prós­pe­ro para muito poucos; porque ama Jesus de Nazaré  que morreu por um mun­do diferente, onde houvesse igual­dade, nas possibilidades e nas oportu­ni­dades. “Quando rezardes (foi Jesus a aconselhar) dizei: Pai nosso”, ou seja, todos somos filhos do mesmo Pai.

Na colmeia humana, só é cristão quem tenta suprimir, da maneira que pode, o pauperismo e a marginalidade. Nos países nórdicos, exemplos do “ca­pitalismo próspero”, desviam-se os in­teresses das pessoas para a sexuali­da­de obcecante, para uma narcísica rea­lização individual, para uma aceita­ção acrítica de um economicismo sem freios. E o resultado aí está: predomi­nam as drogas euforizantes, o álcool, o erotismo.

Eu ouvi, um dia a D. Helder Câmara (este, sim, deveria ser canonizado): ”É preciso humanizar sub-homens desu­ma­ni­zados por carências de toda a or­dem e humanizar super-homens desumanizados por excessos de toda a or­dem”.

Vem de sair mais um livro do Padre Mário de Oliveira, intitulado Na com­panhia de Jesus e dos Ateus – Livro dos Actos Século XXI e, finda a sua leitura, confirma-se de que lado ele se encontra. Vejamos o que nos diz, na página 10 deste livro: “Do que Deus, o de Jesus, mais gosta é de mulheres, homens que vivam longe dos templos e dos altares (cf. João 4, 21-26), mas muitos próximas umas das outras, uns dos outros (Lucas 10, 29-37), se pos­sível, congregados em pequenas comu­ni­dades sororais, fraternais, em cujo seio nunca chegue a desenvolver-se o mais leve prestígio de hierarquia ou poder (cf. Mateus 18,20). Se formos por aqui, as nossas casas serão todas ca­sas de comunidade, cujas portas estão permanentemente abertas para propor­cionar e acolher encontros entre as com­panheiras, os companheiros que constituem cada uma delas”.

Daqui se infere que a santidade re­side na procura diligente do bem co­mum, do serviço orientado para o de­sen­volvimento do nosso próximo. Aliás, será nunca de esquecer estas palavras de Jesus aos seus discípulos: “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor. A vós chamei-vos amigos, porque tudo o que ouvi a meu Pai vo-lo dei a conhecer” (cf. João 15,15).

Este original estar com Jesus é viver na solidariedade, é sentir-se dom de si mesmo aos outros. Deus, através de Jesus, manifestou a Sua Vontade como as mulheres e os homens para Ele se devem encaminhar. A palavra do Padre Mário vem aqui a propósito: “Nunca de­vemos esquecer que também Jesus, o de Nazaré, sempre se deu bem longe das sinagogas do seu país e longe do altar do templo de Jerusalém. Não foi sacerdote, nem fez das suas discípulas e dos seus discípulos sacerdotes. Aliás, o cristianismo de Jesus não é uma reli­gião mais, entre as muitas religiões. É uma via ou caminho de libertação e de partilha que, se for percorrido até ao fim, nos humaniza e fraterniza/sororiza” (p. 319).

Por isso, perspectiva e antecipa o autor deste livro magnífico: “quando a Igreja deixar de ser Cristandade ou poder-com-o-poder-dominante e for ape­nas presença-fermento na Humani­dade; quando a Igreja perder de vez  a excessiva visibilidade que hoje ainda tem como super-estrutura eclesiástica e humildemente estiver a contribuir, co­mo fecunda presença escondida, para uma maior visibilidade da Humanidade, progressivamente autónoma e protago­nista” – nessa altura, o Padre Mário se­rá compreendido, por muita gente que hoje o olha suspeitoso e de soslaio.

Deixem-me escrever uma frase de Maurice Blanchot: “Tout écrivain qui, par le fait même d’écrire, n’est pas conduit à penser: je suis la révolution – en réalité, n’écrit pas». O Padre Mário de Oliveira é hoje, em Portugal (e não só) um revolucionário. E porquê? Por­que pretende o Poder ou um báculo epis­copal, aplaudido por milhares de basbaques? Porque assumiu o novo-ri­quismo de algumas seitas que por aí pululam? Não, o Padre Mário de Oli­veira é revolucionário, como Jesus o foi, ao proclamar: “Amai-vos uns aos ou­tros como eu vos amei”. O amor, qu­ando não é uma expressão pura de e­goísmo, é um sentimento divino e, na nossa sociedade capitalista e burgue­sa, um desafiador desmoronar de re­gras.

“Por isso, digo: Malditas igrejas que desviam as pessoas de Jesus, das suas lutas, dos seus combates, das suas causas, numa palavra, do esforço con­tínuo que ele desenvolveu  em prol da edificação do Reino/Reinado de Deus neste mundo e passam a ocupá-las em sucessivos cultos, em pregações inócu­as da Palavra de Deus, em estudos bíblicos sem ponta do Sopro ou Espírito de Deus Vivo, em obras de beneficên­cia e de caridadezinha em prol exclusi­vamente dos seus membros mais des­fa­vorecidos, tudo muito longe das lutas duélicas e martiriais pela Justiça, pela Verdade, por uma Nova Ordem mundial à medida das reais necessidades e das legítimas aspirações de todos os povos,  sem excepção” (p. 130).

Para o Padre Mário de Oliveira, a so­li­dariedade decorrente do que Jesus ensinou e viveu não é somente um va­lor apregoado por flácidos gongoris­mos, mas a matéria-prima da própria existência. Não há leituras definitivas do Evangelho. Qualquer leitura é uma per­manente descoberta e uma cons­tante revisão. Mas que o Deus de Jesus é Amor parece-nos indiscutível e que só este Amor pode ser o sismo purifica­dor donde desponta uma humanidade nova também me parece incontroverso, embora não escasseiem por aí muitas terapêuticas religiosas e político-soci­ais. Vivemos uma época de intensa pro­­cura científica, de férvida acelera­ção do progresso. Falta-nos viver a men­sagem do marginal Jesus de Naza­ré, que o marginal Padre Mário de Oliveira quer ressoar e socializar.

O livro Na companhia de Jesus e de Ateus é para ser lido urgentemente. É um verdadeiro acontecimento teoló­gico-literário... que aconteceu por ser escrito por um presbítero, notável teó­logo, que sonha uma nova Igreja, uma nova História, um novo Mundo. Cada página deste livro é (repito-me) um acontecimento, porque em cada uma delas se produz, se reproduz o Jesus de Nazaré; porque cada uma destas páginas é um lugar de resistência fren­te à mentira e à opressão.


Circular Fraterna do Bispo Pedro Casaldáliga

UTOPIA NECESSÁRIA COMO O PÃO DE CADA DIA

«Poesía necesaria como el pan de cada día» diz o poeta. Poesia e utopia rimam bem, e ambas nos são totalmente indispensáveis para atravessarmos o túnel. Não aceitamos essa sociedade oficial que reduz a vida humana a mercado ou, no melhor dos casos, se propõe o objectivo, sempre adiado, de reduzir a fome a metade... Estamos indignados e perplexos.

Muitas vozes, de muitos ângulos, confessam que estamos em crise. E que, estando assim as coisas, não vai bem nem para Deus nem para o Mundo. Estar em crise, entretanto, não é necessariamente uma desgraça. A crise é a febre do espírito. Onde há febre há vida. Os mortos não têm febre. Não se trata de ignorar a realidade. Mais ainda: é preciso assumi-la e transformá-la, radicalmente.

Agora já não mais nos conformamos com proclamar que «outro mundo é possível»; proclamamos que é factível e o fazemos. A Agenda Latino-americana Mundial, que estamos preparando para 2007, intitula-se precisamente «Exigimos e fazemos outra democracia». «Lá em baixo - com o povo - e à esquerda», definem os zapatistas na «outra campanha». E já se tem anunciado que vamos «para o Socialismo do século XXI», com «a Humanidade como sujeito» da mudança.

A utopia é necessária porque a desigualdade entre ricos e pobres aumenta, segundo a ONU, inclusive em países do Primeiro Mundo. Nossa América, segundo a OEA, é a região mais injusta, por essa desigualdade sistemática. Há mais riqueza na Terra, mas há mais injustiça. África tem sido chamada «o calabouço do mundo», uma «Shoá» continental.

2 mil milhões e 500 mil pessoas sobrevivem, na Terra, com menos de 2 euros por dia e 25 mil pessoas morrem diariamente de fome, segundo a FAO. A desertificação ameaça a vida de mil milhões e 200 mil pessoas numa centena de países. Aos emigrantes é-lhes negada a fraternidade, o chão debaixo dos pés. EUA constroem um muro de 1.500 Kms contra a América Latina; e Europa, ao sul da Espanha, levanta uma cerca contra a África. Tudo isso, além de iníquo, é programado.

Um imigrante africano, numa comovedora carta escrita «atrás dos muros de separação», adverte: «Peço-lhes que não pensem que é normal que vivamos assim, porque, de facto, é o resultado de uma injustiça estabelecida e sustentada por sistemas desumanos que matam e empobrecem... Não apoiem esse sistema com seu silêncio».

Mas a Humanidade «move-se»; e está a dar uma virada para a verdade e a justiça. Há muita utopia e muito compromisso neste Planeta desencantado. Alguém já recordou que o Século XX «foi um imenso cemitério de impérios: o britânico, o francês, o português, o holandês, o alemão, o japonês e o russo». Fica, balançando, o império estadunidense, que vai cair também.

América Latina distancia-se da tutela dos Estados Unidos e Ásia deu também as costas aos Estados Unidos, na primeira cúpula organizada pela ASEAN. A UNESCO declarou Património da Humanidade a Diversidade Cultural. O Século XXI - que já sabemos que será um século místico - será também o século do Meio Ambiente. O diálogo ecuménico e o diálogo inter-religioso crescem em vários níveis, como um novo paradigma da fé religiosa e da paz mundial. As Igrejas, as Religiões, vão se encontrar necessariamente e terão de fazer a paz para a paz do Mundo.

Na Igreja Católica, dentro de uma monótona continuidade oficial, que já se esperava, muitas comunidades e muitos colectivos de reflexão teológica e de pastoral sabem ser simultaneamente fiéis e livres. Vamos aprendendo a ser Igreja adulta, una e plural. Se rechaçamos a ditadura do relativismo, também rechaçamos a ditadura do dogmatismo. Não permitiremos que o Concilio Vaticano II seja um «futuro esquecido»; e até urgimos o processo de preparação de um novo Concilio, verdadeiramente ecuménico, que contribua a partir da fé cristã na tarefa maior de humanizar a Humanidade.

Em Nossa América está se preparando a V Conferência Episcopal, chamada «CELAM V». Um primeiro texto, de consulta, resulta pouco estimulante, como escrito «por teólogos que já estão no céu» ironiza um velho teólogo. Teremos que suprir alternativamente e não permitir que esse CELAM V esqueça Medellín. Há prioridades sócio-pastorais, em Nossa América, que nos exigem realismo e utopia, coerência e compromisso, sem possível adiamento.

Aqui, em casa, na Prelazia de São Félix do Araguaia, seguimos caminhando, agora com o bispo Dom Leonardo. Desafios não nos faltam. Continua sem solução o acampamento frente à fazenda Bordolândia, já desapropriada; a Gleba Liberdade, de acampados também, há quase 3 anos esperando; e a aldeia Xavante Marawatsede com treze anos de tensão. (As políticas agrária e indigenista do nosso Brasil estão atoladas, por «respeito» ao latifúndio, ao agro-negócio e à bancada ruralista).

Na Assembleia Pastoral deste ano reafirmamos as três prioridades da nossa Igreja particular: formação, autonomia, pastoral sócio-política. Estamo-nos a preparar para a grande Romaria dos Mártires da Caminhada, em Ribeirão Cascalheira, nos dias 15 e 16 de Julho, por ocasião do trigésimo aniversário do martírio do Padre João Bosco Penido Burnier.

Com o nosso Pe. João Bosco faremos memória também de todos aqueles e aquelas que vêm dando a sua vida pelo Reino, particularmente em Nossa América. O tema da Romaria é «Vidas pelo Reino da Vida».

Entre tantas memórias destacamos a figura do patriarca da causa indígena, Sepé Tiarajú, no 250 aniversário de sua heróica morte. Fazer memória do martírio é vital para cada povo, vital para a Igreja de Jesus. Se perdemos a memória dos mártires, perdemos o futuro dos pobres.

Eu, no meu sossego de aposentado, experimento «a pobreza biológica» com as suas limitações. Em compensação, tenho podido editar alguns livros, como filhos da velhice. Permite-se um comercial?: «Murais da Libertação», com Cerezo Barredo, ed. Loyola; «Orações da Caminhada», ed. Verus; «Cuando los dias dan que pensar», ed. PPC; «Cartas Marcadas», ed. Paulus/Brasil; «Con Jesús, el de Nazaret», com José Luiz Cortés, ed. PPC; «Los ojos de los pobres», com Juan Guerrero, em castelhano e em catalão, ed. Ediciones 62.

Sigamos editando utopia, compromisso, transparência, vida. E recordemos que a utopia deve ser verificada na práxis diária, que «a esperança somente se justifica naqueles que caminham» e que «nos é dada para servir aos desesperançados». Para este serviço penso que hoje nos é pedido, sobretudo, um testemunho coerente, uma proximidade samaritana, uma presença profética.

A todos, a cada um e a cada uma a quem devo amizade, gratidão e carta, um forte abraço na paz militante do Evangelho.

Pedro Casaldáliga, São Félix do Araguaia, MT, BrasilJaneiro 2006


L. Boff (Teólogo brasileiro)

HÁ UM BURACO NO BARCO

Dois rabinos estavam sentados num mesmo barco com preocupações diferentes acerca do futuro da Terra. De repente um deles percebeu que de um lado havia um buraco e entrava muita água. O outro rabino alarmado disse-lhe: “Irmão, há um buraco no seu lado e está entrando água”. Ao que o outro lhe retrucou: “Não se preocupe. É só do meu lado”. Mal sabia ele que o buraco de seu lado iria afundar o barco todo.

Foi o que nos contou o rabino Aw­raham Soetendorp, um dos principais membros da Comissão da Carta da Terra, numa reunião da Carta da Terra, em Amsterdam, nos inícios de Novem­bro de 2005 ao concluir um trabalho em grupo sobre o futuro do Planeta.

É assim que pensa grande parte dos que produzem gazes de efeito estufa: o buraco é só do nosso lado. No entanto, nosso Titanic todo está afun­dando. Este alarme vem precisa­men­te de James Lovelock médico, biofísico e químico, o formulador da hipótese Gaia, a Terra como um super-organismo vivo.

Ele sempre foi um ardoroso opti­mista sobre a capacidade de regene­ração de Gaia. Mas Lovelock mudou como revela seu ultimo livro A Vingança de Gaia. Hoje é um dos profetas mais veementes acerca dos riscos que Gaia está correndo. No dia 18 de Janeiro deste ano no Independent, de Londres escreveu um artigo A nossa única Casa, onde diz que se tornou médico plane­tário e como médico tem más notícias a comunicar.

Os centros de observação do clima da Terra, afirma, funcionam como la­boratórios de patologia de um hospital. Os médicos especialistas em clima ates­tam que a Terra está extremamente do­ente. Pode num tempo muito curto fa­zer-se vítima de uma febre morbosa que pode durar até cem mil anos.

“Devo dizer-lhes, enquanto mem­bro da família Terra e como parte in­tima dela que vocês e sobretudo a  ci­vi­lização de vocês estão em grande perigo”. Esta febre pode transformar-se num coma, pois os indicadores do aquecimento, diz Lovelock, vão muito além do protocolo de Kyoto, são assus­tadores. Na medida em que o século avança, as temperaturas subirão oito graus nas zonas temperadas e cinco graus nos trópicos. As zonas tropicais agora desertificadas e as florestas dizimadas perderão sua função regula­do­ra. A Terra entrará na zona de graves distúrbios.

Por que chegamos a isso? Porque temos interferido de forma excessiva e irresponsável nos ritmos da natureza. Ela mesma, sem nós, regulava seus climas. Mas nós fizemos de Darwin o nosso guia. Ele mesmo não tinha cons­ciência da química da atmosfera e dos oceanos, nem da estreita relação entre a vida e sua base físico-química e am­bi­ental. Ele restringiu a evolução so­mente aos organismos vivos. Se tivesse percebido que a evolução é de toda a superfície terrestre, outro teria sido o destino da ciência e de nossa consciên­cia sobre a Terra, e cuidaríamos dela como algo vivo.

Não somos apenas a doença da Terra. Pela nossa inteligência somos também seu sistema nervoso central. Através de nós, a Terra viu-se a si mes­ma a partir do espaço e começou a compreender seu lugar no Todo. Deve­mos ser a mente e o coração de Gaia. Depois de havê-la explorado, devemos protegê-la, amá-la e selar uma paz pe­rene com ela.

Não pensemos apenas nas nossas necessidades mas nas de todo o siste­ma Gaia, como a nossa grande e única Casa Comum.


Frei Betto (Teólogo brasileiro)

8 DESAFIOS À HUMANIDADE

As recentes manifestações em Hong Kong, contrárias à política pro­teccionista da OMC [Organização Mun­dial do Comércio], confirmam que o mun­do unipolar, hegemonizado pelo poderio económico, militar e ideológico dos EUA, representa séria ameaça ao futuro da humanidade. Somos 6,3 mil milhões de pessoas no planeta, das quais, segundo a ONU, 4 mil milhões vivem abaixo da linha da pobreza, com renda per capita mensal inferior a 60 dólares.

O fenómeno da globalização é, de facto, globocolonização, a imposição do modelo de sociedade anglo-saxó­nico aos países do mundo. Toda essa assimetria é agravada pelo crescente desequilíbrio ambiental e pela equivo­ca­da busca da paz através da imposi­ção das armas, e não da promoção da justiça, como sugeriu o profeta Isaías oito séculos antes de Cristo.

Os desafios que se colocam hoje para a humanidade podem ser resumi­dos em oito pontos:

1) Redução imediata da fome, da pobreza e da desigualdade social. Es­sas são as verdadeiras “armas de des­truição em massa”, que sacrificam, segundo a FAO, ao menos 24 mil vidas por dia. Entre os factores de morte pre­co­ce, a fome supera as enfermidades (cancro, Sida etc.); os acidentes de trân­sito e de trabalho; a violência (guerras, terrorismo, assassinatos). No entanto, o planeta produz alimentos suficientes para 11 mil milhões de bocas. O pro­ble­ma, pois, não é excesso de bocas nem falta de alimentos, mas de justiça, sobretudo de partilha dos bens da Ter­ra e dos frutos do trabalho humano.

2) Respeito à soberania e à auto­de­terminação dos povos. Os organis­mos multilaterais devem evitar sua ma­nipulação por parte das grandes po­tên­cias. Atrás de tratados supostamen­te voltados ao intercâmbio entre na­ções, escondem-se mecanismos cruéis de neocolonialismo. Ninguém é capaz de imaginar uma base cubana nas costas da Califórnia, o que certamente provocaria grande alarde dos media. Porém, há uma base americana nas costas de Cuba, Guantánamo, sem que isso cause reacção indignada dos me­dia internacionais. Uma nação como Porto Rico permanece, desde 1898, sob tutela americana. Bases militares dos EUA espalham-se pelo mundo, nu­ma flagrante ingerência à segurança interna dos países hospedeiros e vizinhos.

3) Fortalecimento da cidadania e da democracia. O conjunto da popula­ção tem o direito de se organizar por grupos de interesses, para defender e reivindicar seus direitos. A cidadania deve-se basear no pleno reconheci­men­to da dignidade de cada ser huma­no, independentemente de sua condi­ção sexual, étnica, religiosa e social. Urge assegurar a todos alimentação, saúde e educação; trabalho, cultura e lazer; moradia e o direito à felicidade.

A democracia alcançará sua ple­nitude, quando equacionar liberdade política com justiça social, de modo que todos tenham renda suficiente que lhes garanta qualidade de vida e plenas condições de desenvolvimento humano.

4) Protecção do meio ambiente. O pla­neta está em vésperas de esgotar o seu potencial energético, há grande ameaça à sua biodiversidade, as con­dições climáticas alteram-se de ano para ano. Sem um novo paradigma de relação entre o ser humano e a natu­reza, a progressiva degradação ambi­ental poderá aumentar os casos de en­fermidades decorrentes do desequi­líbrio ecológico, prejudicando as fontes de produção de água potável e de ali­men­tação.

5) Respeito ao pluralismo religio­so, à diversidade de modelos políticos, e fim das discriminações sexuais e étni­cas. A intolerância religiosa poderá mul­ti­plicar as reacções típicas de ati­tudes fundamentalistas. Daí a importân­cia de favorecer o diálogo inter-reli­gioso. Os modelos de organização po­lí­tica de nossas sociedades devem respeitar as idiossincrasias de cada povo. Os novos papeis sexuais precisam ser encarados com respeito, e as dife­renças étnicas como factor de enrique­cimento da convivência humana.

6) Solidariedade entre as nações. Somos todos passageiros dessa nave espacial chamada planeta Terra. Os recursos são limitados e devem ser dis­tri­buídos com justiça e utilizados com parcimónia. Para tanto, é preciso erradi­car a competição, a opressão e o colo­ni­alismo, que tanto prejudicam a convi­vência entre as nações. O quanto antes é urgente fortalecer nas novas gera­ções a consciência de que somos uma só família humana, e a singularidade de cada povo não deve constituir fa­ctor de preconceito, discriminação, agressão ou imposição de modelos es­tra­nhos à sua história e índole.

7) Superar a economia da carência, que afecta hoje 2/3 da humanidade, obri­gados a sobreviver em condições sub-humanas, e a economia da abas­tança, que propicia a uns poucos países uma apropriação indevida e exagerada de riquezas e recursos que, em princí­pio, pertencem ao conjunto da humani­dade. A economia da suficiência deve assegurar a cada pessoa e a cada povo condições dignas de vida e plena reali­za­ção de seu potencial humano.

8) Fortalecer a cultura que identifica a natureza sagrada de cada pessoa, sua dignidade irredutível e seu direito inalie­nável a uma vida feliz. Cada um de nós é o centro do Universo, e o dom da vida é o valor supremo a ser preservado, aper­feiçoado e exaltado, de modo evi­tar toda banalização da existência, bem como os factores que contribuem para ameaçá-la, destruí-la e desvalorizá-la. Seremos verdadeiramente humanos qu­an­do a felicidade ultrapassar as condi­ções materiais de vida e atingir sua vo­ca­ção à transcendência, elevando o es­pírito humano aos voos da infinitude, ora prenunciados na arte, na mística religiosa e, sobretudo, no amor.


OUTRAS MENSAGENS

A IGREJA VATICANA JÁ MAL SE SEGURA

Em tempos de internet, a correspondência enviada ao director do Jornal Fraternizar é cada vez mais através do e-mail. E não se cinge ao conteúdo do Jornal. Alarga-se às suas outras formas de intervir, nomeadamente, livros e televisão. As mensagens que aqui se reproduzem a seguir são disso testemunho vivo. Não percam.

Madeira. Pe. Mário T. Figueira: Um grande abraço. Parabéns pelo teu novo livro Na companhia de Jesus e de Ateus, o livro que me enviaste. Vale um dinheirão. Mas parece que estás a vendê-lo barato. Aqui vai a minha oferta.

Mantém a tua saúde equilibrada, para que a tua palavra continue forte e viva.

Presentemente, a Igreja Vaticana está velha e débil. Já mal se segura. Po­rém, todas as estruturas instaladas nela, vivendo à sua custa, não serão be­nignas. Muitas estão cheias de energia, atrevimento e apetite.

O caminho ainda é muito longo. Há que percorrê-lo. Tu és um dos atle­tas. Os pigmeus, como eu, admiram a tua energia. Andam pouco, mas tendo atletas pelo meio, sentem-se entusias­ma­dos e avançam.

Avante, companheiro da mensa­gem e da bandeira. Um outro abração.

Leiria. A. Sá Pessoa: Em primeiro lugar, votos de muita saúde, pois pre­ci­samos cada vez mais de si. Esta nos­sa Igreja está cada vez pior. Andam com a Lúcia a passear pelo país e a pu­blicidade é feroz. Podiam aproveitar e fazer a comparação entre o grande Homem que foi Agostinho da Silva (co­memorações do centenário do seu nascimento), na vertente “liberdade para todos os homens e mulheres” e a “vidente” Lúcia, a repressão que ela representa para esta Pátria cheia de abortos e de oportunistas. Estou certo que sairia vitorioso o grande pensa­dor-humanista Agostinho da Silva. A inteligência sai sempre vitoriosa.

Foi de um fôlego que li, analisei, interiorizei o seu, mais um, grande li­vro que nos incomoda e ninguém fica indiferente ao seu conteúdo. Mais uma vez os meus parabéns e tenho que di­zer que só um homem “inspirado e dis­ponível”, cheio de Espírito Santo de Deus, pode, naquelas 340 páginas cheias de mel e de sabor, deixar-nos a mensagem escrita de outra maneira que Jesus quando por cá andou nos deixou, para dele aprendermos com humildade, serviço e entrega. Bem haja pelo seu livro Na Companhia de Jesus e de Ateus.

Aquele seu relato, “Manelzinho sal­vo in extremis dos ratos e da morte” le­vou-me a pensar o quanto somos pou­co generosos, dados aos outros, companheiros de jornada. Quantos nes­te país estão como o Manelzinho? E os que não estão, o que fazem a seu favor?

Manelzinho não é pobre de dinhei­ro, diz. Mas é o mais miserável de todos. Porquê? Porque não tem quem o ame, e não há compaixão igual àquela que mo­veu Jesus, ao curar o leproso que lhe estendia a mão e rogava-lhe: “Se qui­seres, podes limpar-me” (Mc 1, 40-45). O mundo despreza a compaixão, porque ela nos compromete. E ninguém se quer comprometer.

Quando nos encontramos? O Pe. Mário vive muito longe e já não posso, não devo, deslocar-me para sítios longe de Leiria. Mas estamos em espírito. Na leitura deste manual de vida, deste pe­daço de Evangelho, estive consigo, com muita amizade e muito afecto. Um abra­ço cordial e fraterno.

E-mail. Teresa: Meu nome é Te­resa, tenho 36 anos, vivo em união de facto, e desta união tenho 4 filhos. Sou Engenheira técnica agrária, mais co­nhecido este curso por regente agrí­cola. Abdiquei da vida profissional, pa­ra acompanhar mais de perto os meus filhos e família.

Numa destas noites, ao carregar nos botões do comando da tv, sintonizei o canal 2, e deparo-me com um docu­mentário «A fé de cada um», fiquei pre­sa à televisão e assisti, estupefacta, ao referido programa.

Fui educada sob a igreja católi­ca, mas nunca gostei que me imponham ideias e conceitos pré-definidos, como ver­dadeiros, sem que me dê espaço e tempo para pensar e medi­tar. Conside­ro-me minimamente inteligente e com uma certa maturidade, para saber pen­sar e analisar todas as situações. Gosto sempre de ouvir, ver e meditar sobre os dois lados.

Fiquei tão surpreendida que ado­rei o que vi e ouvi, mas não fixei o seu nome, nem os seus livros editados. En­tão, hoje resolvi enviar um e-mail à RTP2 e pedir o seu nome e os referidos seus livros. AQUI ESTOU!!...Tinha tanta coisa que adorava falar, reflectir con­sigo... mas acho que nada é por aca­so!? E agora que o encontrei, primeiro, vou ler e re-ler o seu site... e talvez um dia nos possamos encontrar.

Como já referi anteriormente, sou contra, e sempre fui, até mesmo na ado­lescência, tudo o que me é imposto. A igreja em si é uma hipocrisia, feita por pessoas hipócritas... actualmente vivo o meu próprio cristianismo, com todos os que me rodeiam, não vou á mis­sa, mas dedico-me a tudo e a todos “de corpo e alma”...

Conheci há alguns anos atrás, um padre do Hospital Dona Estefânia, ago­ra já lá não está (tinha 4 filhos, pediu ao Vaticano para se converter na Igreja Católica), que também me mostrou o lado verdadeiro da vida, sem me falar em santos, anjos, pecado, castigo, dor, sofrimento,..., mas sim da realidade das coisas, da Vida, do Amor, da Amizade, do Sofrimento... mas tudo falado, como dois seres humanos,”normais”, humil­des, sinceros... chorávamos os dois, ríamos, por coisas tão importantes e banais.

FICO MUITO FELIZ, por o ter des­coberto, ter uma outra visão das coisas, e conseguir transmitir de um modo tão especial... OBRIGADA PELO SEU TESTEMUNHO.

P.S. Já coloquei o seu site nos meus favoritos.

Bom dia, Teresa!

Mas que lufada de ar fresco a sua mensagem! Em poucas pala­vras, diz tudo. Verdadeiramente, o Sopro ou Espírito de Deus vi­vo que, um dia, pudemos ver em Acção libertadora e solidária em Jesus, o de Nazaré, anda por aí activo, longe dos templos e dos altares. Sim, porque Ele tam­bém não vai às missas que a Igreja insiste em repetir até à náusea e em vender com preços sempre actualizados, ano após ano. Do que o Espírito de Deus Vivo gosta é de pessoas como a Teresa que ousam crescer em dignidade e em liberdade e não têm medo de assumir a sua vida nas próprias mãos. Em comunhão com as demais pessoas.

O seu testemunho é empolgante. Vejo que a Fé de Jesus é que a move e, por isso, já vive liberta dos moralismos rançosos e faz das tripas coração para que as pessoas em seu redor sejam mais pessoas e mais humanas. É por aí que havemos de ir, sempre e cada vez mais. O que não for assim é alienação e torna-nos canas agitadas pelo vento.

Nunca será demais lembrar que a glória de Deus é que as pessoas e as populações sejam lúcidas, cresçam em cultura e sabedoria, vivam de olhos abertos, pratiquem a justiça, partilhem a riqueza e sejam donas dos próprios destinos. Quando as Igrejas nos tentam levar por outros caminhos, que não estes, são Tentação, são Alienação, e temos que lhes resistir. Tudo o que se nos apresenta sob o nome de Deus ou de Jesus, mas não produz destes frutos, é Mentira. Porque pelos frutos é que se conhece a árvore. Também as pessoas. E as Igrejas. Seja bem-vinda, Teresa! Está em casa. Em mim, tem um irmão.

Dou-lhe a minha Paz.

E-mail, Sérgio: Antes de mais, espero que me perdoe pela familiari­dade com que o trato, dado que não o conheço pessoalmente. O meu nome é Sérgio, tenho 29 anos e moro em Lis­boa. Gostaria também deixar desde já claro que sou ateu, por isso espero que compreenda as minhas convicções so­bre essa óptica. Ouvi-o pela primeira vez num programa do Herman José, um dos últimos que vi, devo confessar, dado que não tenho mais paciência para meninos ricos mimados na tv. A sua pos­tura deixou-me positivamente surpreen­dido e curioso, a ponto de ter comprado e lido com prazer 4 livros seus, a come­çar pelo Outro Evangelho de Jesus (penso que se chama assim) e com es­pecial deleite o seu livro Fátima Nunca Mais. E li os seus livros com prazer, não porque penso que eles apoiam uma su­posta causa ateia e que vêm reforçar as pessoas de não-crença, mas sim por­que considero que o senhor tem uma pos­tura honesta sobre o comportamen­to do ser humano. Embora eu seja ateu procuro conhecer o melhor possível a Bíblia, porque considero ser um livro (con­junto de livros) que marcou para o bem e para o mal a nossa história e por isso faz parte de um património cul­tu­ral mundial. A sua interpretação da Bíblia é a primeira que eu respeitei vin­da de um padre. Sinceramente, o modo despreconceituoso com que o senhor trata as coisas ditas religiosas é bas­tante terra à terra e a sua postura soli­tária dentro da Igreja que escolheu servir só me faz respeitar ainda mais, pois todos nós sabemos que as multi­dões sempre vão atrás do que é fácil, sendo a preguiça, a ganância e a vai­da­de vícios ou “pecados” tão sedutores. Bem, não pretendo ocupar mais o seu tempo, gostaria apenas de dizer que o respeito, respeito a sua crença embora não concorde com ela, e respeito acima de tudo o seu comportamento que é co­erente com o que acredita, e isso é ex­traordinário nestes dias que correm. Não acredito num Deus interventivo, mas acredito no Amor e na Liberdade e procuro que o meu comportamento tam­bém reflicta aquilo em que acredito. Per­mita-me endereçar-lhe um abraço e os votos de saúde e felicidade na sua vida e na dos seus.

E ainda o meu caro Sérgio me confessa que é ateu!... Um homem de Fé, na Fé de Jesus é o que o Sérgio será. Uma Fé vestida de Ateísmo, não de Religião. Veja o que espontaneamente me escreve: Creio no Amor e na Liberdade. Sabe, certamente, que o cume da revelação bíblica de Deus consiste em ter-nos dado a conhecer que Deus é Amor. E que o Amor é Deus.

Um dos meus Cantos nas Margens, proclama: “Nosso Deus é Pai e Mãe / É Amor e é também / Liberdade e Salvação / Quem então fora de Deus / Presta culto à mãe dos céus / Continua a ser pagão.”

Como vê, o seu ateísmo não anda longe da minha Fé jesuânica. Pelo contrário, o seu Ateísmo tem muito em comum com a minha Fé e com a Fé de Jesus, o de Nazaré, assassinado pelos que, no seu tempo, criam em Deus.

Anda por aí um Deus que se alimenta de gente, ou que nos substitui na tarefa de humanizarmos a História. E que é pretexto para muita gente se governar e enriquecer. Desse Deus, também eu, que creio em Deus, no de Jesus, só posso ser ateu. Muito mais difícil é sermos ateus também do deus Dinheiro. Mas a Fé que me faz ser o que sou exige-me que eu seja ateu também do deus Dinheiro. É por isso que sou pobre por opção, uma vez que faço da Partilha dos bens uma prática constante, para que todos tenham vida e a tenham em abundância e em qualidade. Já pensou que, num mundo onde todos decidíssemos ser pobres, não haveria lugar para a pobreza em massa, nem para maiorias empobrecidas?

Bem-haja por me ter contactado. E por ter partilhado comigo o seu testemunho. Não me aflige nada o seu ateísmo, uma vez que o Sérgio crê no Amor e na Liberdade. Tomara eu que todos os católicos fossem crentes como o Sérgio é ateu. E que cressem no Amor e na Liberdade como o Sérgio crê. Sobretudo, que fossem crentes praticantes, isto é, que amassem de verdade os seus irmãos e assumissem o mundo e a vida nas próprias mãos, como é próprio de pessoas livres.

Dou-lhe o meu afecto. E a minha Paz. Seu.

E-mail, Jorge: Como se toda a gente perseguida seja exemplo!... O exemplo é quando se pratica o bem, quando se evangeliza pelos caminhos da paz. Pois é, mas dar o corpo ao ma­nifesto ao sol e à chuva como co­nheci e ainda conheço missionários e leigos, agora falar sentado a um computador e aparecer na televisão é pura demagogia; vaidade pessoal. E o pior ainda é a maldade com que se fazem as coisas, mas há pessoas que não são capazes de esquecer e perdoar. Perdoar é uma virtude muito difícil e principalmente perdoar bem do fundo da alma, mesmo que não se consiga esquecer. Quando ouvir dizer que o meu amigo foi trabalhar a sério com os marginalizados, com aqueles que não têm quem os queira acredito em si, agora enquanto o ou­vir falar da cátedra é como um sino que badala e nada mais. Acredite que as pessoas não o levam a sério e por isso é motivo de gozo ou desprezo, não acredite nessa meia dúzia que o aplaudem, pois qualquer pessoa que entre por esse caminho tem ade­ptos, lembra-se da santa da ladeira do Pinheiro? E os bruxos, exorcistas, cartomantes, seitas e outros? No mun­do vazio em que se vive é normal esse fenómeno, os falsos profetas sempre tiveram seguidores, não se iluda. Desculpe o desabafo e se o ofendo, mas digo-o apenas para seu bem e da igreja, pois o senhor faz parte dela e ela espera-o no seu seio, no meio dos pecadores, claro! Boa saúde.

Caro Jorge

É impressionante como pode estar tão contra mim. E como fala de mim com desprezo e má vontade. Chega a parecer ódio teológico. Parece que quanto mais eu me explico e lhe mostro a verdade/simplicidade do meu ser/viver, mais o Jorge me detesta e odeia. Tudo o que outros são e fazem é bom. Só o que eu sou e faço é que é mau? Acha correcta esta sua postura? Vá lá que ainda não lhe deu para tomar Jesus, o de Nazaré, de ponta. Porque, se tal acontecer, ainda vai pretender que, ou ele se parece com Bento XVI, o nosso Papa de Roma, ou está perdido. Por acaso já leu todo seguido o capítulo 23 do Evangelho de Mateus? E os capítulos 2-3 do livro do Apocalipse? Veja o que Jesus diz dos considerados santos no seu tempo e país, os fariseus. E o que o autor do Apocalipse diz ao bispo (anjo) das sete Igrejas da Ásia.

Impressionou-o ver-me ao computador, no documentário A FÉ DE CADA UM? Pois saiba que sou jornalista profissional, desde 1975, e que o computador é o meu instrumento de trabalho.

Missionários? Sou o primeiro a testemunhar que os há duma generosidade a toda a prova. E pobres. Mas também sei que as Congregações de missionários são todas ou quase todas ricas. Nascem sem nada e depois de alguns anos é o que se sabe. Até se costuma dizer com graça que os missionários fazem voto de pobreza, mas as Congregações missionárias não!

Uma coisa sei: Em 1967-1968, passei pela Guiné-Bissau, como capelão militar à força. Na região de Mansoa, onde se encontrava o meu Batalhão, fui encontrar um missionário português que já lá estava há uns bons 20 anos ou mais. Eram os anos de chumbo e da Guerra Colonial. Pois bem. Como capelão militar, atrevi-me a pregar o Evangelho da Paz, que, como sabe, é o Evangelho de Jesus, aos meus homens e à população católica de Mansoa que ia à missa ao domingo na igreja da Missão. Em consequência, fui expulso do Exército, ao fim de apenas 4 meses. E sem qualquer julgamento prévio. Pois nem assim o missionário se assumiu, naquelas circunstâncias concretas, como Igreja profética. Preferiu continuar a enterrar a cabeça na areia, para poder viver sem sarilhos com o Poder que manifestamente oprimia, aterrorizava, explorava e matava as populações que sonhavam com a autonomia e a independência.

Uma coisa lhe peço, Jorge: não continue a ofender-me, como mais uma vez o faz nesta sua mensagem. Fala tanto em perdão e não me perdoa por eu ser padre/presbítero eclesiasticamente não correcto e assumidamente dissidente na Igreja. Mas que quer? É o Evangelho que me faz ser assim. Ora, não é o Evangelho que tem de se converter à Igreja. É a Igreja que tem de se converter ao Evangelho. Evangelizar a Igreja é preciso, imperioso e urgente. É o que procuro fazer com alegria e como um menino. Esta é até a minha maneira de amar a Igreja. Venha daí também.

O meu abraço.

E-mail, Filomena: Ontem vi um documentário na RTP2, onde participa­va e recordei novamente algo que já tinha lido há muitos anos. Há alguns anos recebi de presente um livro seu: Fátima nunca mais! e identifiquei-me imediatamente com as suas opiniões. Na altura participava de uma forma relativamente “activa” na Igreja. Era catequista e fazia parte de um movi­mento mariano. Mas sempre tive dificul­dades em encaixar nas regras. Quando recebia os manuais de catequese não percebia que tipo de mensagem era aquela!! Como é que a Igreja pretende cativar jovens e crianças com mensa­gens completamente ultrapassadas e sempre de horror: Não faças isto e aquilo e mais isto. Penso que a mensa­gem deverá ser: Ama o teu irmão! Pas­sa­dos alguns anos desisti. Para mim Jesus foi acima de tudo um revolucio­nário, alguém que quebrou regras e der­rubou sistemas instalados em prol daquilo que realmente é importante: O Amor, A Fraternidade, A Liberdade de Pensamento. E quando transmiti esta mensagem, em que acredito até hoje, recebi algumas ”chamadas de aten­ção”.

No movimento mariano encaixava-me melhor. Era um movimento jovem e Maria era vista como a mãe de Jesus e sempre o acompanhou incondicional­men­te... um símbolo de perseverança e de fé. Mas depois de entrar na uni­versidade fui progressivamente afastan­do-me da Igreja e de Deus, mas a ra­zão não foi a falta de tempo... Entrei num Curso de Física e a minha capaci­dade de pensar racionalmente que foi crescendo ao longo do tempo, desper­tou-me para as imensas incoerências da Igreja. Se uma instituição baseada em tantas incoerências e mentiras re­sistiu durante tanto tempo e teve e têm tanto impacto na Sociedade Ocidental e no percurso do Mundo, como posso acreditar na existência de Deus e na veracidade da mensagem de Jesus? Será que a mensagem de Jesus que chegou aos nossos dias é a que Jesus transmitiu há 2000 anos atrás?

Na minha opinião a tão aclamada fé, não pode ser exclusivamente emo­cional! A Razão tem de ser uma parte integrante na vivência de um cristão. E Fátima é o clímax de todas as incoe­rências e vivências de uma fé que de tanto emocional passa a não ter qual­quer razão que a sustenha. E realmente até agora não consegui recuperar a mi­nha fé. A partir de agora vou estar atenta ao seu site. Até sempre.

Querida Filomena: Mas que percurso tão emocionante, o seu! O programa na 2 passou a horas impróprias para quem tem horários normais de trabalho por conta de outrem a cumprir, mas vejo que nem isso a desmobilizou. Fico contente. Haveremos de continuar a conversar. O seu ateísmo é semelhante à minha Fé. A minha Fé leva-me a ser ateu dos deuses todos que se alimentam de gente, portanto, também do Deus de Fátima. Mas o Deus de Fátima é perverso, mas não é o mais perverso. O mais perverso é o deus-Dinheiro que está na base do Império que hoje nos aterroriza e cega, infantiliza e estupidifica.

Um dia, a Filomena ainda há-de passar por aqui, ou eu por aí, onde vive. Temos que regressar aos debates com polémica. São eles que nos arrancarão da Treva e do politicamente correcto. E nos farão humanos e sororais.

Se vai passar a frequentar o meu site, veja também o que um engenheiro meu amigo criou para tornar mais acessíveis os meus livros. E que dá acesso aos outros dois que mantenho activos, embora um mais activo que outro. Eis o endereço: www.padredalixa.org

Dou-lhe a minha Paz.

E-mail, Jorge: Gostava de lhe ma­nifestar a minha admiração pelo seu tra­balho e pela sua mensagem. Vi há alguns dias o documentário de Neni Glock - “A fé de cada um” e fiquei bas­tante emocionado e feliz pela sua parti­cipação. É importantíssimo haver vozes que nos ajudem a ver o mundo melhor, principalmente se queremos verdadei­ra­mente fazer um mundo melhor. Claro que quando falo em admiração pelo seu trabalho, estou a incluir também as suas posições, interpretações, valo­res e forma de estar na vida.

O meu pai (Mário Neves) foi pastor protestante da igreja presbiteriana en­tre 1962 e 1971 e sei que entre docu­mentos guardados relativos a esse pe­ríodo estão alguns a propósito da sua exclusão da Igreja. Penso publicar uma memória do que foi o seu trabalho e a sua vida que terminou precocemente em 1988. Não sei se o terá conhecido de alguma forma, mas porque sei que defende muitas ideias semelhantes às que ouvia em casa, gostava de um dia ter oportunidade de trocar consigo algumas palavras. Espero que não se importe também em ter colocado uma citação do seu livro “Fátima nunca mais”, que estou presentemente a ler, num blog que criei, mais para diverti­mento pessoal e para juntar fotografia e poesia, duas das minhas muitas paixões.(http://novasneves.blogspot.com/)

Desejo-lhe as maiores felicidades. Com os meus melhores cumprimentos

Meu caro Jorge

Bem-haja pelas suas palavras. E pelo relevo que deu ao meu livro FÁTIMA NUNCA MAIS, no seu blog, que acabo de visitar com agrado. A transcrição que faz do meu livro foi muito oportuna contra o dia mais desgraçado de Portugal, 19 de Fevereiro 2006. Deixemos os fatimistas andar à vontade, mostremo-los em todas as televisões, que eles acabarão por cair no ridículo. Quanto mais fazem e dizem, mais se enterram. Aquilo é tudo anti-Evangelho! Perante as transmissões televisivas de ontem do segundo funeral da “vidente” Lúcia, quantos ateus mais terão nascido em Portugal e no mundo? Aquelas transmissões só poderiam conduzir a mais ateísmo...

Faz bem em manter viva a memória do seu pai. O nome Mário Neves diz-me alguma coisa, mas a esta distância de tempo, já não posso garantir que o tenha conhecido cara a cara. Pelo que me conta, se o não conheci, só eu fiquei a perder. Sei que tudo fará para continuar a ser digno dele. O meu abraço.

E-mail, M. Lopes: Amigo, entrei na sua página da net e fico admirado mais uma vez, principalmente com a sua maneira de ver a vida. Lembro-me bem ainda do seu contencioso com o estado português e acredito que não é possível a mim como à maioria esma­gadora das pessoas entendê-lo, sabe? Não acredite que a verdade está ape­nas do seu lado como quer fazer passar a imagem, pois também a maioria das pessoas já não se lembra de si ou nem sabe quem é, foi uma personagem po­lé­mica e passageira dos anos 70 e nada mais, a humildade não fica mal a nin­guém.

Acredite que não lhe fica nada bem esse constante maldizer da Igreja e dos seus servidores, HOMENS que dão o seu melhor nas grandes dificul­da­des que a mesma atravessa, ou a­cre­dita que a imensa multidão de Bis­pos, Padres e tantos outros estão enga­na­dos, e o Senhor é que está certo? Co­mo se pode conceber que o Espírito Santo que sempre está presente, deixe que um erro tão imenso esteja insta­la­do? Jesus não era político, na sua pas­sagem terrena foi humilde e tole­rante, virtudes que não se praticam muito por esses lados, desculpe a fran­queza. A Igreja é servida por peca­dores, homens com falhas, muitos de­fei­tos e virtudes, e Jesus não se vai en­vergonhar deles, pois foi com eles que conviveu durante 33 anos, não foi revolucionário ou político, e não consta que odiasse nada nem ninguém ou dis­sesse que era bom, “Bom só Deus”, não foi assim que Ele disse?

Quanto ao fugir da guerra do Ul­tramar, isso é outra história muito com­ple­xa, conheci lá gente de todas as clas­ses e acredite que gente com letra grande, soldados, sargentos e oficiais muito dignos, médicos, engenheiros, pro­fessores, padres e tantos outros, gente honrada, generosa e muito corajosa, autênticos heróis a quem se­ria muito fácil fugir e vir feito mártir em Maio de 74 como tantos. E sabe quem foram esses? Na maioria traidores e co­bardes, pois andar no mato era para heróis, ou naquelas circunstâncias aban­donar a família e a Pátria era di­gno?  Por aqui me fico, desejando-lhe tudo de bom e principalmente reflexões sérias sem mágoas, e muito menos com despeito.

Meu caro M. Lopes

Pelo que me escreve, vejo que ainda não consegui fazer-me entender por si. Peço-lhe desculpa. Peço-lhe também que tenha um pouco mais de paciência comigo. E, sobretudo, que me leia com menos preconceito. O preconceito não nos deixa ver e ouvir correctamente o outro.

Saiba que não ataco a Igreja. Atacar a Igreja seria escrever coisas acerca dela que não correspondem à verdade, apontar-lhe práticas desviantes que não existem. Quando critico a Igreja, procuro colocar-me na continuação do que já em seu tempo fizeram os profetas bíblicos em relação ao Templo de Jerusalém e aos Sacerdotes de Israel que lá pontificavam, e em relação ao comportamento dos reis e da casta privilegiada com que eles se rodeavam. (Re)visite-os na Bíblia e verá. Sobretudo, tento colocar-me na continuação do que fez o próprio Jesus, o de Nazaré que, como sabe, ainda foi mais longe em radicalidade do que os Profetas bíblicos tinham ido. Neste particular, tenho de reconhecer que estou ainda muito aquém de Jesus. O meu confronto com a Instituição e as suas hierarquias ainda não foi tão longe quanto o dele. Certamente, porque ainda não amo tanto como Jesus.

Permita-me que discorde de si sobre o Jesus histórico. Não, Jesus foi muito mais radical do que as suas palavras deixam entender. Não tivesse sido assim e os sacerdotes não o teriam odiado tanto, ao ponto de o matarem, com a ajuda de Pilatos, o representante do Império de então. Ou acha que Jesus foi morto por engano? Ou que foi morto porque Deus assim quis e já estava destinado? Há quem, na nossa Igreja, ensine esta barbaridade e esta monstruosidade. Mas os Evangelhos canónicos que lemos e escutamos em Igreja não nos permitem semelhante interpretação. E se eles a justificassem, então teríamos que os rasgar ou queimar. E a um Deus que fosse assim teríamos que o negar. Sabe que há um certo Ateísmo hoje que tem como fundamento certas catequeses e certas pregações da nossa Igreja católica? Quem o diz não sou só eu. Também o diz o Concílio Vaticano II, sob a forma de corajosa e lúcida auto-crítica.

Se o M. Lopes pudesse vir participar no nosso 6.º Encontro de Espiritualidade, marcado para 30 de Abril 2006, em S. Pedro da Cova, teria oportunidade de aprofundar esta fundamental questão sobre Jesus. Na verdade, o tema proposto é: “Jesus: Porque o mataram? E porque o proclamaram ressuscitado?”

O que diz a meu respeito, como militar na Guerra Colonial, não corresponde à verdade dos factos. Fui capelão militar, graduado em alferes miliciano, na Guiné-Bissau. Obrigaram-me a ir. Não me ofereci como voluntário. Menos ainda fiz parte dos quadros do Serviço de Capelães Militares, como alguns dos meus colegas infelizmente fizeram. Não desertei. O que sucedeu é que, ao fim de quatro meses de serviço na região de Mansoa, fui expulso, porque as chefias entenderam que numa guerra colonial como aquela nossa guerra em África, não se podia nem devia pregar o Evangelho de Jesus. Eu preguei e, quando superiormente advertido, disse com firmeza que continuaria a pregá-lo, que para isso é que havia sido constituído presbítero da Igreja. E todos os meus chefes, padres capelães e bispo castrense incluídos, expulsaram-me, sem qualquer julgamento prévio.

Felizmente, não perdi a Fé. O que então me fizeram os meus chefes eclesiásticos poderia ter tido essa consequência. Felizmente, em mim, teve um efeito contrário. Cresci ainda mais na Fé de Jesus. E no amor à Igreja que um dia me baptizou e me deu a conhecer Jesus e o Evangelho. Mas Fé de Jesus quer dizer Lucidez, Liberdade, Audácia, Responsabilidade, Criatividade. Não quer dizer Subserviência, nem Submissão, nem Vassalagem, nem Medo.

Quando, meses depois, fui arrastado para a Prisão Política do Regime, na minha condição de Pároco de Macieira da Lixa e depois fui presente ao Tribunal Plenário do Porto, tive a satisfação de ouvir o meu Bispo propor, no final do julgamento, que fosse publicado um livro com as principais peças do Processo que me havia sido movido pela PIDE e que a esse livro fosse dado o seguinte título: “Evangelho no Pretório”. Semelhante proposta diz bem quanto o Bispo tinha captado o que estava em jogo na minha pobre pessoa. Era o Evangelho de Jesus que a Igreja tem que anunciar e testemunhar oportuna e inoportunamente. Pois bem, é o que sempre tenho procurado fazer desde que fui ordenado Presbítero em Agosto de 1962. Querem-me mal por isso, mesmo alguns da Igreja? Não me surpreende. Se Jesus, o Evangelho Vivo, foi tido como “louco”, até pela sua mãe e pelos seus irmãos, e como “possesso do Diabo” pelos chefes dos sacerdotes, outro tanto ou pior poderão dizer de mim. Saiba que tudo suportarei por amor da Igreja, de Jesus, do Evangelho e, sobretudo, por amor da Humanidade que Deus Vivo quer que seja cada vez mais liberta para a liberdade.

Não me cabe a mim dizer quem está mais na Verdade, ou melhor, com quem a Verdade mais está: se com os meus colegas que continuam mais ou menos instalados nos privilégios e ocupados em tarefas de culto, sempre as mesmas, ou comigo que desde há anos vivo, gratuitamente, longe dos templos e dos altares, mas muito próximo do Povo mais sofredor e mais oprimido. Jesus diz que é pelos frutos que se conhece a árvore. Não julgo ninguém. Muito menos condeno alguém. Tenho o direito a esperar não ser julgado por ninguém. Muito menos ser condenado por alguém. Mas se me julgarem e condenarem, nem por isso renunciarei a dar o fruto que o Espírito de Jesus quer que eu dê. Tal como Jesus, também eu digo: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa-Notícia aos pobres; enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, e a proclamar um ano favorável da parte do Senhor” (cf. Lucas 4, 18-19). Quer uma missão mais política do que a que este Programa de Acção materializa? É com a Terra que Jesus se preocupa, não com o Céu. Porque até Deus não descansou enquanto não se fez um de nós, Emanuel, Deus connosco e entre nós.

Deixo-lhe o meu afecto.


IGREJA/SOCIEDADE

Irmã Júlia Barroso, stj

O ENCANTO DA RADICALIDADE

Todos os anos, pelo Carnaval, Freiras e frades do nosso país continuam a encontrar-se durante três dias, em Fátima, no Centro Paulo VI. Escutam conferências (há quem aproveite para dormitar). Formulam perguntas a quem a profere. Obtêm respostas eclesiasticamente correctas. Mas nunca vão à raiz do problema da chamada vida consagrada na Igreja e no Mundo. Jornal Fraternizar deixou de acompanhar ao vivo o acontecimento que tem um certo ar de velório. Mas, quando percebe que algo ainda "mexe", aqui está, disponível, a passar a boa notícia. Este ano, entre outras intervenções "incómodas", as freiras e os frades foram surpreendidos pela comunicação da Irmã Júlia Barroso, stj, pensada e proferida na primeira pessoa, como é próprio do testemunho pessoal. Leiam e perguntem-se: Mas então quando fecham de vez os conventos?

Há poucos dias, estando à mesa, fiz a pergunta: Que posso provocar ao falar de ENCANTO a pessoas porven­tura desencantadas? E escutei respos­tas opostas: podes provocar maior frus­tração…, podes indicar caminhos para sair do desencanto e provocar espe­ran­ça…

Com frequência observo à minha volta e experimento em mim e em tan­tas das minhas companheiras de cami­nho, o desencanto, que se capta na fal­ta de brilho nos olhos, próprio de pessoas apaixonadas; na ausência de um tom de uma vida cheia de plenitude e sentido… O desgaste de levar adiante missões difíceis, as relações de uma convivência por vezes pouco gratifican­te, uma vida feita de rotinas que não con­duzem ao sonho, estruturas ainda pouco abertas ao novo e ao diferente vão-nos asfixiando lentamente, silenci­o­sa­mente. Sinto-me dentro deste grupo de pessoas que ao mesmo tempo nos dizemos seguir a radicalidade do se­gui­mento de Jesus pela profissão dos conselhos evangélicos. Também sou tes­te­munha de tantas irmãs que vivem felizes na radicalidade de um segui­mento em fidelidade e entrega genero­sa... O encanto da radicalidade, só o é para o que a vive… e consegue trans­mitir-se na medida em que apaixo­na… O que para uns é apaixonante pode provocar rejeição noutros. O meu encanto na vivência da radicalidade pode não ser perceptível para muitos, e para outros ser sinal de loucura.

Julguei que esta minha comunica­ção não deveria ter muito a ver com um trabalho de carácter científico, ba­seado em livros, enciclopédias ou re­vis­tas especializadas na matéria. Optei por uma simples e humilde partilha do meu pensar e sentir mais profundo, da­quilo que habitualmente vivo e experi­mento…

ENCANTO/PAIXÃO

O que entendo por encanto/paixão não é o fervor dos meus vinte anos, é uma experiência de vida plena de sen­tido. Muitas vezes ao longo da minha his­tória, parei para fazer memória do vivido e perguntar-me: O que está a dar-me sentido? Nos anos da minha ju­ventude era muito a ilusão do futuro, do novo que vinha, do não saber onde nem como, era a disponibilidade para o que viesse… O êxito na missão e tam­bém os fracassos preenchiam a minha existência.

Foram surgindo responsabilidades e com elas, as dificuldades, as tensões ou conflitos inerentes à vida humana em constante relação. Foi o meu tem­po de amadurecimento, de tomada de posições, de opções. E na releitura da minha história, na busca da resposta à minha pergunta: O que está a dar sen­tido à minha vida? Percebi que já não era a ilusão do futuro. Surge a cri­se de sentido… Agora era um presente em que eu assumia as rédeas da mi­nha própria vida, em que eu dava lugar ao sonho, em que me comprometia com seriedade no Projecto de Deus so­bre mim. Sempre atribuí a Ele os êxitos e assumi com normalidade os fracas­sos.

Aos 50 anos senti-me a viver a vida em plenitude. Mas continuei a fazer-me perguntas e surgiam receios pelo futuro, insegurança, tentações… Mas sempre em busca de uma vida coeren­te com o Evangelho, de luta, de risco… E na hora da pergunta sobre o que está a dar sentido à minha vida, devo con­fes­sar-vos que me descobri a viver as­sente nas minhas “boas obras”. Elas estavam a ser a minha segurança, o meu sentido… A idolatria estava a ser em mim uma realidade. Descobrir a construção de uma vida assente em pés de barro que não tardaria em des­moronar-se, era demasiado duro. Eu simplesmente manipulava a Deus. Era eu quem ditava e riscava, ele era um adorno, como um objecto que eu utili­zava… Que terrível! Eu oferecia as o­bras de Caim, eu não estava na dispo­sição de Abel em entregar o meu centro vital. Eu não acreditava na Promessa de Abraão, não estava disposta a cami­nhar sem saber para onde… não estava a ser uma mulher de fé. Buscava muito inconscientemente o apreço das outras pessoas, corresponder às suas expe­cta­tivas. Ficava-me na vasilha e não no tesouro que ela continha. Por fim aco­lhi a minha realidade de pessoa frágil, pequena, pobre, e tão cheia de pecado. E fiquei contente. Esta é a minha verdade. E como nada sei, nada posso; não me toca a mim pensar, sentir, decidir. Ele vive em mim. Ele sabe, pensa, sente, decide, actua… É toda uma revolução interior, é toda uma mudança que se está dando… E esta é a fé radical. Que produz encanto, que apaixona. Que é tão simples quanto radical…

RADICALIDADE!

Os nossos jovens e adolescentes buscam e experimentam os jogos radi­cais. Uma atracção inexplicável… não existe o medo, lançam-se na aventura e no risco. Em nós está este desejo do ra­dical, do risco, do sonho, da aventura. Mais em embrião ou mais desenvolvido, mais consciente em nós ou mais no oculto do nosso inconsciente. Neste ca­so poderá ter a ver com uma história em que a super-protecção ou uma feri­da não curada deixaram marcas nega­ti­vas, ou simplesmente tem a ver com os nossos genes. Ou porque tantas ve­zes ao expressarmos a medo o que sen­timos, estes sonhos foram desvalo­rizados, não acolhidos ou reprimidos. Então pode dar-se o caso de que os medos superem os nossos desejos e os nossos sonhos. Mas fica ainda a possibilidade de alentar os sonhos de outras e outros…

Quantas e quantos de nós nos sen­ti­mos a viver em radicalidade, ape­sar de não ser perceptível!… Uma radi­calidade vazia  de paixão?

Hoje no nosso mundo há tantos exemplos de radicalidade que falam, que nós podemos ler! Nos mais diver­sos sectores! Não são radicais os que nós chamamos Fundamentalistas? A­que­les que se estamparam contra as Torres Gémeas deixaram um manifesto de amor a Deus. No seu ideal de salvar o mundo, do ocidente, que para eles está possesso do demónio, entregam de modo atroz a própria vida. Sentem que agradam a Deus e são verdadeira­mente radicais. Recordaremos aquele pai que, orgulhoso, mostrava através da televisão a foto do filho que se tinha entregue como bombista suicida. O mun­do muçulmano está cheio de exem­plos em que de facto existe uma opção radical que nós não podemos entender e repudiamos.

Mas não precisamos de ir tão longe. A minha vizinha, …, também ela infectada pelo vírus da SIDA, desde o seu amor apaixonado, acompanhou até ao fim o seu marido e companheiro que mais se assemelhava a um trapo huma­no que a uma pessoa. Quem visitar hos­pitais nesta área encontrará muitas mulheres infectadas pelo próprio ma­rido que lho tinha ocultado. Quando ele se confessa portador do SIDA e da dro­ga e escuta da boca da sua esposa ou companheira um “não importa, eu continuo a gostar de ti… seguir-te-ei para onde quer que tu vás…” causa im­pacto. Esta radicalidade costuma ser mais frequente nas mulheres… No caso inverso… elas dizem que ao partilharem com eles que são portadoras do IVH as deixam… elas são as mais radicais no “seguir-te-ei a onde quer que tu vás…”.

Outro exemplo de radicalidade por um ideal a um nível mais institucional, o comunitário, é o caso da UCA (Uni­ver­sidade da América Central) no Sal­vador. Um projecto sonhado pelos Je­suítas para responder à necessidade de um diagnóstico da realidade social, política e religiosa em momentos de ver­dadeiro sofrimento do povo salvado­renho e de toda a América Latina. E sur­ge a melhor universidade de dia­gnós­tico. Mas não tardou a que entre os governantes se instalasse o medo e a insegurança pela ameaça de uma verdade que se impunha. E toda a co­mu­nidade ali presente é assassinada de forma brutal. Simbolicamente, são esquartejados e os cérebros machuca­dos para que todo um povo permaneça na ignorância e se submeta sem dar pro­­blemas ao poder vigente. Um caso que nunca foi investigado. Foi por uma opção muito radical pela justiça. Não será que muita da nossa falta de radi­calidade pessoal e institucional tem a ver com o medo às consequências?

Que diremos de Jesus de Nazaré, da sua radicalidade de vida? Não se mostra nunca conivente com o poder, quer político, quer religioso… leia-se o Evangelho. Por isso Ele é rejeitado, perseguido, condenado à morte.

E para Jesus nos dizer o que pen­sa sobre a vivência do AMOR RADICAL que produz ENCANTO, fala-nos de im­plicação, compromisso, fidelidade a to­da a prova com o outro, o nosso pró­ximo, necessitado de ternura e compai­xão. Fala-nos de consciência e acolhi­mento da nossa verdade. É a parábola do Bom Samaritano.

É possível que a radicalidade da parábola não esteja a ser suficiente­mente interiorizada nas nossas vidas e comunidades… Passaria por nos iden­tificarmos ao nível pessoal e ins­ti­tucional com o caído no caminho, a necessitar de ajuda e compaixão. Por sentirmos, acolhermos e estarmos contentes com o nosso ser pessoal e insti­tu­cional FRÁGIL, pobre, indefeso, peca­dor. Ser afectiva e efectivamente vasilha nas mãos do oleiro que parte e se deixa refazer, pode ser poético e cantado com muita unção, mas é demasiado ar­ris­cado e muito radical. Vamos prefe­rindo permanecer esses vasos intocá­veis para evitar que se rompam… e se ontem esta vasilha servia para um fim, hoje pode não servir e passa a ser um objecto de adorno que fica bem, de­pen­dendo do lugar em que está colocado...

Não deixa de ser igualmente radi­cal assumir a identificação com o doutor da lei, o sacerdote e o levita da pará­bola, especialistas nas coisas de Deus, incansáveis trabalhadores nas imensas obras de solidariedade e de culto. Por incrível que pareça, Jesus atreveu-se a colocar estes personagens numa po­si­ção inesperada. Precisamente de quem não se esperava, do especialista nas coisas de Deus, dos funcionários do Templo, ele os situa a passarem jun­to do profundamente ferido e a desenten­derem-se dele. Reconhecer o nosso real pecado, o pecado da cegueira que não nos permite ver a nossa incapaci­dade para viver a radicalidade da fé, encarnada, historicizada.

Precisamos de nos converter! Jesus coloca-nos o samaritano, aquela pes­soa que está fora da Igreja, aquela pes­soa de quem nada se poderia es­pe­rar… a assumir o gesto da ternura e da compaixão. Será que nos aperce­bemos de facto desta ousadia de Jesus que apenas com normalidade diz o que vê e faz o que diz? Que nos está a acon­tecer que vamos continuando a passar de longe numa atitude defensi­va? Com mil e uma justificações?

Neste amor radical do samaritano que ultrapassa os limites do razoável, que não apenas trata das feridas no pre­sente mas se preocupa com o seu futuro: “Cuida dele, e o que gastares a mais, eu to pagarei no regresso” Je­sus está a revelar-nos o comportamento de um Deus que ama para além do que possamos sonhar, que sempre se com­porta como “próximo” de todos os ho­mens e mulheres: um Deus de vida que salva da morte e assegura o futuro… que olha preferentemente pelo mais débil…

E agora, permiti-me que vos re­conte a história que ouvi pela primeira vez a Toño Garcia, sj: “Alguém per­gunta a uma mãe de vários filhos: como consegues gostar de todos os teus fi­lhos sem que se criem conflitos entre eles? Não tens as tuas preferências? E responde sabiamente esta mulher: ‘Eu amo a todos os meus filhos, mas estou mais atenta e coloco-me ao lado do mais pequeno, até que ele cresça, do doente, até que ele se cure, do que anda longe, até que regresse a casa”.

A mim ajudou-me a perceber me­lhor isso de opção real pelos mais po­bres… numa relação de iguais, sem pre­potência, sem protagonismos, é bo­nito o espírito que anima os da Comu­nidade de Sto Egídio. Com cada um dos mais pobres dos pobres existe uma re­la­ção de amizade. O jovem ou adulto da Comunidade não tem receio nem ver­gonha em sentar-se ao lado, no chão com o amigo sem-abrigo, sabe o seu nome, conhece a sua história, respeita-o porque é a radicalidade do Amor que ama o outro como é e como está, sem nada lhe exigir. E será o Amor que se en­carregará de provocar a mudança se porventura ela se tem de dar…

Por onde passaria hoje uma radi­ca­li­dade evangélica provocativa, ao jei­to de Jesus de Nazaré?

A RADICALIDADE na NORMALI­DADE do QUOTIDIANO

Muitas podem e devem ser as res­pos­tas. Estamos num mundo plural. Eu devo dizer-vos que sintonizo com todas aquelas pessoas que sentem o apelo da radicalidade na NORMALIDADE do QUOTIDIANO. Poderíamos fazer o voto da normalidade sem a separação do mun­do que tanto nos tem caracterizado. O fazer parte da sorte de tantas e tan­tos, o ser vizinhas/os entre vizinhos.

Eu, com as minhas companheiras em comunidade, vemo-nos a aprender todos os dias com os que lutam pela so­brevivência, com os que vivem longe da vida normal, nas periferias onde abun­dam rostos desfigurados, que são rostos de Jesus, neles há sementes de vida que nem sempre alcançamos ver. Aprendemos de mães que se levantam todos os dias para começarem a traba­lhar às 6 da manhã; de crianças que sobrevivem aos maus tratos de adultos e entregues a irmãs de 8, 9, ou 14 anos; de adolescentes que se negam ao convite de outros mais velhos para ex­periências negativas…; de mães solteiras que lutam sozinhas pelos filhos que amam; de outras a quem lhes são tirados os filhos pelos profissionais, por vezes com tão pouca humanidade; de idosas/os vivendo a solidão do aban­do­no. Preocupam-nos tantos jovens de­so­rientados, longe das instituições re­ligiosas ou civis.

As centenas de carros queimados há poucos meses em França exprimem a revolta e a cólera dos jovens que fo­ram deixados sem futuro e sem espaço. E eles são em grande número. Por meio destes carros queimados, os jovens mos­tram a quem o quiser ver, a imagem das nossas sociedades. Sociedades on­de as empresas despedem trabalhado­res, enquanto ganham enormes lucros, e não são condenadas; uma sociedade que já não tem dinheiro para a educa­ção e a saúde, para subir o salário mí­nimo e as irrisórias reformas da maio­ria dos portugueses, mas que aligeira os impostos sobre os grandes rendi­men­tos; uma sociedade que cria ne­ces­si­dades, que incita ao consumo de­senfreado, mas produz excluídos a quem recusa o mínimo vital.

Dizia al­guém que este fogo de vio­lência só será extinto se nos atrever­mos a combater tudo aquilo que o a­teia: injustiça, racismo, desigualdade, desemprego.

Jesus viveu a radicalidade do hu­mano desfrutando da normalidade nas relações, com altos e baixos, conviven­do com a dúvida e a tentação. Não ade­riu a nenhuma anormalidade ascética… fundamentalista… soube gozar a vida com a normalidade do ócio do tempo, dos convívios festivos onde permane­cia. Ele mesmo não estabeleceu rotinas, não inventou normas, não comungou com os ritos vazios de sentido, violou as leis que matavam a vida. Tudo com tanta normalidade!

Optar pela radicalidade na norma­lidade pede-nos buscar este sentido profundo na vida, não nos deixando ador­mecer pela “religião”. O facto de ter­mos feito a profissão e permanecer­mos dentro de uma instituição, de cum­prirmos fielmente as regras, não nos tira a responsabilidade de continuar buscando e optando pelo que vai dando maior profundidade à nossa vida. A nossa radicalidade não passa pela imitação de Jesus. A radicalidade do seguimento de Jesus é o desafio cons­tante de uma vida em Jesus que passa pela experiência de INTIMIDADE com o Pai, deixando-o fazer a Ele. A partir de dentro já não temos opção. Ele é livre e vai onde quer e eu vou com Ele. Sou levada. A minha liberdade é a liber­dade de Jesus no Pai. Não há consulta. Perdes a tua liberdade, para a recupe­rares na liberdade de Jesus: aquilo que agrada ao Pai. Esta será a nossa ale­gria, que Jesus faça em nós aquilo que agrada ao Pai.

Seguir Jesus sem entrar n’Ele, des­de fora, tem limites e corre perigo. Não é seguimento radical de Jesus. É viver assente nas boas obras. É construir so­bre areia, viver assente em pés de bar­ro. E como a grande maioria vivemos desde aqui Ele continua-nos a chamar, pede-nos que aceitemos a poda. Tanto sofrimento causado pela resistência à graça, sofrimento em vão porque surge de não queremos deixar os nossos pró­prios projectos. Se nos fechamos no que pensamos que tem que ser e esta­mos dispostas/os a sofrer o que quer que seja para o conseguir, estamos no maior pecado: a soberba, Deus não po­de tocar-nos.

Se em nós se dá a conversão, então a MISSÃO será a expressão da nossa identidade, do nosso ser de sim­ples vasilhas a permitirem que o tesou­ro que levamos dentro irradie a Glória de Deus. O não saber, o não controlar a própria vida, o passar do raciocínio humano para a vivência do Mistério que nos supera totalmente, conduz a uma sabedoria que nos leva a perceber que é por ali, apesar de ao entrarmos, não sabermos nada. Sente-se alegria, muita paz. Surge o “Bendito sejas”, “dá Glória ao teu Nome”. Isto foi até aqui, agora é outra coisa… Não sabes, mas estás segura. Insegurança humana: plena se­gu­rança para a pessoa de fé.

Eu sinto-me assim, a não saber nada, a não querer nada, e no meio de tantos assuntos, negócios, … sim­plesmente sinto-me a deixar-me condu­zir por Ele, com muita paz. Não tem nada a ver com o êxito. É muito mais o fracasso aparente. Jesus morreu sendo escarnecido. O fracasso verdadeiro para Jesus teria sido se Ele não desse testemunho do Deus verdadeiro, mas do Deus dos fariseus.

O encanto da radicalidade passa pelo fracasso aparente que será inevitável. Os da tua própria casa vão considerar-te fracassada/o. Aqueles e aquelas que se cegam e não querem ver a luz do Evangelho vão rejeitar-te. E não será por mal. Simplesmente a contradição das pessoas boas e/ou a luta contra os que têm o poder hu­mano. Exige manter-se numa abertura radical a Deus; na pura fé que se ali­menta da oração como relação de inti­midade: Não o que eu quero, mas o que Tu queres. É um deixar existencial constante. De contrário tudo se vai abaixo. Aqui na cruz vivida em Cristo existe amor ao inimigo, ainda que ele me rejeite, não lhe fecho o coração, mas não o posso forçar a relacionar-se comigo. O amor aos inimigos é cri­tério de discernimento (Heb 12, 1-17).

Quando somos confirmadas/os por Deus, amadas/os do Senhor, já não buscamos, não sentimos necessi­da­de do apreço dos outros. Mas temos necessidade de uma comunidade de fé. Ela é o contexto formativo onde se deve dar. É ela que te faz experimen­tar que tens valor, que o Senhor se fixou em ti. Pede pessoas em processo de amadurecimento humano, de con­ver­são que alinham em viver como grupo uma peregrinação na fé, em dis­cernimento, onde seja praticado o confronto, onde se partilhem os pro­cessos pessoais de fé…

OS SINAIS DO ENCANTO DA RA­DICALIDADE NA NORMALIDADE

Não são necessárias grandes fa­çanhas, para que se geste uma vida radical, profética. Nasce dia a dia, na força do ouvido capaz de perceber o suspiro silencioso do moribundo, o cla­mor calado da mulher violada, o choro cansado do inocente abandonado à sua própria sorte.

Uma vida vivida em radicalidade ocu­pa-se e preocupa-se pelo quoti­dia­no e trivial, pelo que acontece to­dos os dias: o engano no negócio, a viol­ação dos próprios direitos e dos d­ireitos dos pequenos, dos indefesos, dos emigrantes, o preço das coisas, os baixos salários, o trabalho na cons­trução civil, nas fábricas, no campo e nos serviços, a fartura de uns poucos e o aumento da pobreza na maioria.

A nossa radicalidade leva-nos a ocupar-nos e a preocupar-nos por es­tas pequenas coisas com intensa pai­xão, com grande indignação, com pro­funda sensibilidade perante o mal, por­que experimentamos um Deus im­pli­cado na realidade concreta da his­tória e porque O sentimos apaixonado pela vida de cada uma das suas cria­turas.

O encanto da radicalidade manifes­ta-se no expressar publicamente as es­peranças e os anelos que habitam o nos­so coração e as nossas entranhas para rejeitar a opinião dominante de que o mundo não tem remédio, para so­mar forças, desejos, paixões na ima­ginação activa de novas realidades, para questionar a definitividade que se confere ao presente, para confessar pu­blicamente que acreditamos nas pro­messas feitas por Deus a favor de toda a vida. Ele permanece no centro da his­tória impulsionando-a a criar futuros al­ter­nativos. E nós celebramos publica­mente a nossa fé deixando que Deus seja radicalmente livre para nos surpre­ender no mais profundo do nosso cora­ção e a partir do mais insignificante, ou porventura do mais rebaixado da história. (Cf. Georgina Zubiría Maqueo, rscj, CIRM - IX Semana de Vida Consagrada. Agosto de 2005 - JESUS, EL PROFETA DE NAZARET).

O encanto da radicalidade manifes­ta-se também em comunidades onde se vive de modo encarnado o seguimento de Jesus numa opção clara pelos mais pobres, vivendo entre eles e com eles, na humildade e na simplicidade. Fa­zen­do com eles comunidade de discí­pulas/os. Sem protagonismos, sem idei­as nem projectos preconcebidos. Com estruturas que não vêm de fora, mas de dentro desse saber que nada sabe­mos e que é Ele quem conduz… Uma comunidade que se deixa levar pelo Es­pírito que caminha em processo, que se vai libertando e é libertadora. Simplesmente, uma comunidade que tenta ser radicalmente coerente.

Em jeito de CONCLUSÃO proclamo umas breves bem aventuranças lidas algures, com algumas adaptações:

Felizes, encantadas/os os que es­tão nas margens do poder, porque terão o Reino de Deus como Centro.

Felizes, encantadas/os os que cons­troem Outro mundo e Outra igreja, porque herdarão uma Terra humana e uma Comunidade de irmãs e irmãos.

Felizes, encantadas/os os que bus­cam a verdade sem ataduras ideológi­cas nem dogmáticas, porque a encon­tra­rão juntamente com as pessoas de boa vontade.

Felizes, encantadas/os os que se dei­xam levar pelo Espírito e apesar do medo dão o salto no vazio.

Termino, sublinhando as últimas pa­lavras do comunicado de um grande profeta dos nossos dias, homem que con­tinua a viver o encanto da radica­li­dade de modo espantoso, Casaldáli­ga: “Sigamos editando utopia, compro­misso, transparência, vida. E recorde­mos que a utopia deve ser verificada na praxis diária, que “a esperança só se justifica nos que caminham” e que “nos é dada para servir os desesperan­çados”.

Para este serviço penso que hoje se nos pede, sobretudo, um testemu­nho coerente, uma proximidade samari­tana, una presença profética (UTOPIA NECESARIA COMO EL PAN DE CADA DÍA. Circular fraterna 2006,

pedro.casaldaliga@uol.com.br

SÃO FÉLIX DO ARAGUAIA, MT BRASIL).


Pe. Mário no Café-Concerto

E QUANTO AO PODER, QUE VÁ PARA A PUTA QUE O PARIU!

Os promotores da festa de homenagem a José Afonso, que decorreu dias 24 e 25 de Fevereiro 2006 na cidade de Guimarães, convidaram o Pe. Mário para participar, na tarde de 25, numa conferência/debate, juntamente com os companheiros Alípio de Freitas, Octávio Fonseca e Viriato Teles. A moderação coube ao jornalista Rui Pereira. A intervenção do Pe. Mário, a seguir à do amigão Alípio de Freitas, suscitou aplausos e certamente alguns dissabores, entre as muitas pessoas presentes no espaço do Café-Concerto, do Centro Cultural Vila Flor. Só os aplausos se manifestaram na ocasião. É o texto dessa intervenção que o Jornal Fraternizar aqui partilha. Com o pedido de que não nos deixemos impressionar com a dureza profética da expressão que seleccionamos para título. Vejam nela a força des-sacralizadora da Teologia jesuânica que não suporta a Idolatria do Poder, por mais que ela se vista de Cúria Romana, paços episcopais, templos e catedrais, ou palácios de Governo, ou de títulos pseudo-democráticos que só servem para esconder privilégios que deveriam envergonhar-nos a todas, todos.

É uma responsabilidade enorme dissertar sobre José Afonso, o Músico, o Poeta, o Homem! Mas pediram-me para o fazer. E eu fui incapaz de dizer que não. A José Afonso nunca se pode dizer que não! Ele sempre se entregou por inteiro, sobretudo, aos Sem-Nada; sempre disse sim aos convites para estar presente com a sua Voz, os seus Poemas, a sua Música e com todo o seu Ser nas Causas dos que, no seu tempo, nunca teriam tido entrada em locais como este Centro Cultural Vila Flor, aqui em Guimarães. Por mim, acho que nunca mais seria digno do seu carinho, nem do seu afecto, se me tivesse recusado a estar aqui inteiro. Por isso, estou. Mas, como escrevo no texto que preparei para o livro ZECA SEMPRE, em boa hora lançado estes dias pela Arca das Letras, do Porto, estou aqui com lágrimas. Porque, a esta distância, nós que aqui estamos já deixamos matar Abril que ele preparou e anunciou como um dos seus maiores precursores (e não só com a sua “Grândola, vila morena”); e que, depois de Abril chegar, ajudou a consolidar como poucos, inclusive, mais, muito mais do que os próprios Capitães de Abril. Ou as Canções de José Afonso não fossem todas uma arma que, ao contrário das armas dos militares, põem de pé e em postura de combate as multidões daqueles que hoje voltamos a consentir que vivam por aí condenados a ser uns Ninguém, como se, alguma vez, a Humanidade pudesse ser, sem eles ao nosso lado e sem nós ao lado deles; sem eles sentados à mesma Mesa que nós continuamos a ter todos os dias mais ou menos abundante e bem regada com vinhos de qualidade; e sem eles ao nosso lado no posto de trabalho, de que ainda usufruímos; ou sem eles ao nosso lado na Universidade que ainda frequentamos como alunos ou como professores.

Escrevi há tempos (o texto integral encontra-se no meu novo livro Na Companhia de Jesus e de Ateus. Livro dos Actos Século XXI (edição de Autor), que isto, entenda-se, Portugal, não é um país. É um ninho de víboras! E a verdade é que já nem os (dos Partidos) da Esquerda se aproveitam. Deram-nos a provar as iguarias dos privilégios, admitiram-nos no clube dos endinheirados, nem que seja a troco de empréstimos bancários ou de cartões de crédito, e já não queremos saber dos proletários, muito menos, dos lumpen-proletários para nada. As democracias burguesas e representativas, como as que temos nos países da Europa e do Ocidente, também produzem os seus proletários e os seus lumpen-proletários. Hoje, eles são mais do que muitos, um autêntico exército que poderia derrubar o Sistema e fazer ir pelos ares as Multinacionais da nossa desgraça. O problema é que agora já não há José(s) Afonso(s) que, como a toupeira ou como a formiga, ou como o andarilho que não tem onde reclinar a cabeça, se metam à estrada, se façam próximos deles, lhes ganhem a confiança, se relacionem fraternalmente com eles e mantenham com eles um continuado e fecundo diálogo maiêutico, ao jeito de Sócrates (o famoso filósofo da Grécia, não, evidentemente, o Sócrates de Portugal que hoje nos caiu em sorte como primeiro-ministro), até fazerem despertar dentro deles a consciência crítica, a consciência da sua própria dignidade, assim como o respeito e o amor por si próprios. Vai daí, de exército libertador que poderiam ser, os novos proletários e lumpen-proletários da Democracia burguesa que nos estupidifica, acabam por ser carne para canhão, a troco de nada, comidos pelo Desemprego e pela Droga, destroçados pelas Novelas rascas em série, pela Senhora de Fátima e pelo Futebol, já não dos clubes, como outrora, mas das empresas SAD, cotadas em Bolsa…

Digo-o com lágrimas, daquelas que se derramam na alma e nos deixam em cólera: Já nem os (dos Partidos) da Esquerda se aproveitam. Já nem os da Esquerda vivemos para derrubar o Poder, cada vez mais corrupto e fonte de corrupção e de idolatria. Pelo contrário, pelamo-nos todos, ou quase todos, por partilhar o Poder, nem que seja num confortável cargo de assessor ou de secretária de um escroque qualquer. Exagero? Podem pensar que sim, mas apenas porque ainda não batemos no fundo como milhares de companheiras, companheiros nossos já bateram. Porque, também graças a Abril, que José Afonso ajudou a fazer acontecer e consolidar, nos seus primeiros tempos, ainda somos daquelas, daqueles que pudemos singrar na vida, fazer carreira, instalarmo-nos vitaliciamente numa qualquer direcção de um qualquer sindicato ou duma qualquer central sindical, ou no núcleo duro dum qualquer partido político de Esquerda, ou numa cadeira de deputado em Lisboa ou em Bruxelas (passam sucessivos presidentes da República, com mandatos de dez anos, e eles permanecem sempre os mesmos como os papas da Igreja de Roma). Ou, dito por outras palavras: porque não somos o mexilhão que sempre se lixa, particularmente, quando as crises generalizadas batem à porta das nações…

José Afonso. Não bastam homenagens destas. Os revolucionários como ele não são para homenagear. Todos eles estão-se borrifando, ou – perdoem-me a crueza da linguagem – estão-se cagando para as nossas homenagens! Os revolucionários, como José Afonso – e todo o revolucionário é Músico, Poeta/Profeta e Homem de corpo inteiro e de espinha dorsal erecta – não são honrados com homenagens. A única homenagem que honra os revolucionários como José Afonso é eles poderem ver, lá onde estiverem, que outros homens, outras mulheres estão a prosseguir as suas causas, a correr os mesmos riscos, a protagonizar os mesmos combates duélicos, a gastar as suas vidas longe dos palácios e confundidos com os da base da pirâmide social. Permanentemente, mergulhados na fecundidade do Deserto e da Montanha.

Momentos como este que hoje estamos aqui a viver também são úteis, mas apenas quando, entre uma sessão de homenagem e outra sessão de homenagem – nos 365 dias do ano, de cada ano – estamos efectivamente metidos até aos ossos e até ao limite, naqueles combates e naquelas causas que foram a razão de ser da vida de José Afonso. Se não for assim, deixem-me que lhes diga que estas homenagens não passam de Missas ateias, com tudo de inócuo e de iníquo e de feira de vaidades que as Missas católicas têm dentro dos templos. As quais eu, padre/presbítero que continuo a ser da Igreja do Porto, felizmente já não frequento há muitos anos.

A Memória de José Afonso, Músico, Poeta, Homem, é como a de Jesus de Nazaré, politicamente subversiva e perigosa. Celebrá-la, só tem sentido se for para suscitar mulheres, homens politicamente subversivos e perigosos, em cada hoje e aqui, também nestes que são os nossos hoje e aqui.

Estou desenquadrado nesta minha reflexão? Não creio! Porque uma coisa eu aprendo com Jesus, o de Nazaré, que acabou crucificado: “Pelos frutos, se conhece a árvore”. Portanto, também as festas de homenagem a José Afonso. Se elas não servem para despertar/ressuscitar em cada uma, cada um de nós, o José Afonso que a Democracia burguesa e representativa já conseguiu adormecer ou mesmo matar em nós, então para que servem? Por mais homenagens que lhe façamos, os senhores dos privilégios continuarão aí a explorar à vontade, a desempregar à vontade, a matar à vontade. Porventura, até ao som da música e da voz do nosso querido José Afonso! Só que então, as homenagens que promovemos tornam-se um insulto. Um vómito. E José Afonso terá todo o direito de nos dizer: "Cobre-te, Canalha / com a Mortalha / que hoje o Rei vai nu!" Só que, neste caso, o rei que vai nu somos nós!...

Concluo com uma lembrança viva: Num daqueles concertos de José Afonso, realizados nas condições mais incríveis em que ele quase sempre actuou, vivi com emoção o concerto que ele deu (digo deu, não vendeu!) uma noite em Massarelos, no Porto, a convite da respectiva Comissão de Moradores. No final, quando fui junto dele pelo abraço fraterno, José Afonso diz-me: Li o teu livrinho Maria de Nazaré (edição Afrontamento, há muito esgotado) e estou empenhado em fazer um LP com poemas que hei-de escrever inspirado na mensagem que o livro transmite. Olhei-o estupefacto. E comovi-me até às lágrimas de alegria. E José Afonso acrescentou: Aquela Maria de Nazaré que canta um Deus que derruba os poderosos dos seus tronos e levanta os pequenos, despede de mãos vazias os ricos e enche de bens os esfomeados é uma Mulher revolucionária que eu quero cantar. Porque é uma Fé cristã assim como a dela que mudará o nosso mundo!

Infelizmente, a Doença não o deixou iniciar e muito menos realizar este Projecto. Haverá aqui, ou noutras zonas do país, quem seja hoje José Afonso e realize este Projecto? Concretamente, que seja capaz de associar no seu viver quotidiano Fé cristã jesuânica e Revolução? E que a cante?

Por mim, continuarei a ser o padre/presbítero pobre que desde o início do meu ministério decidi ser e é assim que quero viver até ao fim (presentemente, vivo da minha pequena reforma de jornalista que nem sequer chega aos 450 euros mensais); à semelhança de José Afonso que também viveu e morreu pobre. Prosseguirei como ele alegremente nas Margens, como em Deserto e em Montanha, longe dos Templos e dos Altares, o mesmo é dizer, longe do Poder e dos privilégios que o Poder concede a quem, em lugar de se lhe opor, se torna seu vassalo e servidor. Entre os mais pobres. Para que eles sejam donos dos próprios destinos. Quanto ao Poder que continuamente me/nos bate à porta com as suas seduções e mentiras, que vá para a Puta que o pariu!


EIS AÍ O BARRACÃO DE CULTURA!

O acto público de lançamento da 1.ª pedra do Barracão de Cultura, da Associação Cultural e Recreativa AS FORMIGAS DE MACIEIRA, foi um Momento inesquecível, cheio de Graça e de Verdade.

O mesmo é dizer, com muito de jesuânico; por isso, libertador. Leiam nestas páginas o quase-poema que o pe. Mário escreveu a propósito e que divulgou no seu Diário Aberto, na internet, Transcrevemo-lo na íntegra. Leiam também as palavras do presidente da Direcção da Associação, o jovem Rodrigo Filipe. E o Poema de Sophia de Melo Brayner Andersen, dito na ocasião pelo pe. Mário. E ainda as suas palavras a encerrar. Ninguém gravou as palavras de improviso que saíram directamente do coração de Maria Laura, a dadora do terreno. E foi pena, porque elas fizeram chorar de alegria e de emoção até as pedras. Quem por isso quiser conhecê-las, terá que se aproximar dela com muita Ternura e escutá-las de novo directamente do seu coração. A partir de agora, o Barracão de Cultura está a ganhar forma. Podem vir vê-lo subir deste chão sagrado. E partilhar com ele o dinheiro que puderem. Com alegria. Para que a sua construção possa prosseguir sem sobressaltos até final. Como um Sacramento de Liberdade e de Sororidade/Fraternidade.

Foi bonita a festa de lançamento da

primeira Pedra do Barracão de Cultura e

só perdeu quem não foi capaz de deixar tudo

e vir fazê-la connosco. Somos uma pequenina

Associação com muito daquele Sopro de Deus vivo

que também sopra forte e fecundo nos ateus. E os

das Rotinas e do Poder até fogem de nos tocar.

O milénio que vivemos é já o terceiro depois

de Jesus e o século é o vinte e um. Mas as

nossas populações permanecem ainda tão

sob o Medo da Liberdade que preferem viver na

companhia de quem lhes acena com Mercearia

todos os meses a fazerem-se próximas de

quem vive apostado em fazer delas pessoas.

O Sopro de Deus Vivo bem nos grita

- É a Cultura estúpidos é a Cultura! Mas quem

de nós já se dispôs a tornar-se Criação Poema

Dança Acção Política Música Escultura Festa Irmã

Irmão Solidariedade? Muito poucos. Ou a Cultura

como a Sabedoria não fosse um caminho que não

rima nem com Mediocridades nem com Preguiça.

No acto apareceram Amigas e Amigos de Lisboa

e do Porto. E nem faltou a Aninhas Mates nesta

data a viver em Amarante com uma das suas

filhas. É a decana dos associados e coube-lhe

o alegre Serviço de destapar a 1.ª Pedra da nossa

Esperança. O Momento foi de Páscoa e espantou

o que ainda restava em nós de Medo do Futuro.

Rodrigo Filipe esteve no seu melhor. Foi

a sua estreia como presidente da Direcção

e as suas palavras calaram fundo e tiveram

o condão de fazer rebentar lágrimas de alegria

e de compromisso com a causa da Cultura. A

poucos meses de se tornar assistente social

é juntamente com a Dária o nosso Esteio.

A emoção subiu ao rubro quando Maria Laura

avançou firme sobre o chão do Campo que nos

doou e onde os alicerces já revelam o tamanho

do Barracão de Cultura. Jamais esqueceremos

as palavras emocionadas que nos deu. Nem ela

poderá esquecer-se da Ternura com que de repente

se viu envolvida numa festa de abraços e de beijos.

E quando depois a palavra andou à solta nas

bocas das companheiras e dos companheiros

presentes nem o Doutor Garcia Pereira resistiu

a dar voz a um poema. “O Caminho” que nos leu

desafia-nos a irmos de etapa em etapa até à

meta. É o que sempre faremos com o seu apoio e

o seu afecto e o apoio e o afecto de muitos outros.

“Quero ser um elo em comunhão com os outros elos

que aqui em Macieira da Lixa estão apostados

em tornar realidade um sonho de muitos anos”. As

palavras são de Joaquina a de Mogege. Disse-as

com um rosto onde resplandeciam a Alegria e a Festa

que lhe dançavam dentro do peito. Foi por isso longo

e apertado o abraço que recebeu de Maria Laura.

Tão pouco o Armando resistiu a cantar para nós

em pleno campo. Ninguém resistiu ao seu exemplo

e todos cantámos com ele numa postura própria

de meninas e de meninos que sempre havemos de

ser. E porque o Poder oprime aterroriza inibe e mata

as populações só como meninas e meninos iremos

erguer o Barracão de Cultura que nos liberta a todos.

                                               .../...

Foi de Eucaristia o almoço com Arroz de frango

que aconteceu depois na Casa da Comunidade

onde até velhas Inimizades se desfizeram como

por encanto. Nunca aquela Sala foi tão cenáculo

nem aquela Mesa tão jesuânica. Quando dela nos

erguemos já não éramos só nós mas outros Jesus

disponíveis para darmos a própria vida pelos Ninguém.

Cantem e dancem comigo/connosco. E um destes

dias venham por aí. Com um farnel cheio de Poemas

e de Cantos. Mais o Pão e o Vinho que ao serem

Repartidos entre todas e todos revelarão a disposição de

nos darmos como Jesus se deu para que as populações

cresçam em Cultura e Sabedoria pratiquem a Justiça

partilhem a Riqueza e sejam donas dos próprios destinos.



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