Textos do
Jornal Fraternizar

Edição nº 158, de Julho/Setembro 2005

DESTAQUE

Tanta catequese nas paróquias para quê?

Já o mês de Maio 2005 ia para o fim, quando entra na minha caixa de correio electrónico uma mensagem enviada por um pai residente com a respectiva família – a mulher, uma filha e um filho – numa cidade do norte do país. Mostra-se preocupado com o que ultimamente algumas pessoas católicas andam a dizer à sua filhinha de 10 anos que não é baptizada, nem frequenta a catequese da Paróquia católica. Nas suas conversas com a filha, falou-lhe de mim e do Evangelho de Jesus que procuro viver e anunciar e conseguiu, inclusive, que a menina escrevesse na mensagem enviada por ele algumas das perguntas que gostaria de me fazer pessoalmente. Porque tanto a mensagem recebida, onde se incluem as perguntas da menina, como a resposta que sem demora enderecei directamente à própria menina me parecem um bom ponto de partida para uma reflexão teológico-pastoral sobre catequese, o tema de Destaque desta edição n.º 158 do FRATERNIZAR, aqui divulgo uma e outra na íntegra. Omito apenas o nome da cidade, e atribuo nomes supostos às pessoas directamente envolvidas. Façam o favor de ler/meditar/divulgar/debater. E de comentar, se assim o entenderem, para a local “Outras Cartas”, do nosso Fraternizar. Eis.

“A minha filha Zélia tem 10 anos e não foi baptizada nem frequenta as «mentirosas catequeses». Tomei essa decisão, porque acho que devo ser eu a falar-lhe de Cristo e da sua mensa­gem. Na verdade, a maneira que eu tenho para lhe falar Dele é como você o faz: sem mistérios, fáceis milagres, sem mentira...

Passa-se que, como vivemos em so­ciedade, a pequena tem sentido al­gu­mas pressões, quer de colegas, quer de adultos (o que é mais lamentável) em relação à nossa forma de receber Jesus, «o revolucionário e político».

Como eu lhe tenho falado muito do «meu amigo Padre Mário», ela veio per­guntar-me se você achava que era verdade o que lhe disseram : «...que ela não tinha nome, pois não era bapti­za­da, e que não iriam nunca para o céu.» Disse-me que queria falar consi­go para lhe fazer umas perguntas e eu respondi-lhe que lhe poderíamos enviar este e-mail. Assim sendo, segue o texto que ela escreveu. Da minha par­te um grande abraço! Por favor respon­da e anote o meu novo e-mail.

AS PERGUNTAS:

1. Porque é que os padres não se podem casar?

2. Um dia uma senhora disse-me que eu não tinha nome se não fosse ba­pti­zada, e depois ao meu irmão que apenas tem 21 meses e não percebe nada do que lhe dizem, que ele não se cha­mava Jorge, se não fosse ba­ptizado. Senti um nó na garganta da raiva que sentia. Porque é que toda a gente me fala disso?

3. Vou dizer-lhe uma coisa: eu pos­so ver as nuvens da cor que eu qui­ser, e você consegue? Toda a gente me diz que não!

4. O signo da mãe de Jesus era vir­gem? Se não é, como pode ter en­gra­vidado virgem?

Aqui acabam as minhas pergun­tas.

Um abraço, Padre Mário; aguarda­mos a sua resposta, e obrigado, Zaca­ri­as. (Em anexo, seguem duas fotos: uma da nossa família pequena , outra é um pôr-do-sol que a Zélia fotografou e lhe quis oferecer.”

AS MINHAS RESPOSTAS

Querida Zélia:

Fico feliz por não frequentares a ca­tequese da paróquia. E, sobretudo, por teres uma mãe e um pai que se pre­o­cupam contigo, também nesta di­mensão da tua educação na Fé. Fos­sem todas as mães, todos os pais assim e o mundo seria bem mais decente. E a Igreja também. Felizmente, também eu tive a sorte de ter podido despertar para a Fé de Jesus, graças ao testemu­nho de vida da minha Mãe, uma mulher pobre que nunca quis enriquecer. Tal e qual como Jesus, que também nunca quis enriquecer. Apenas quis ser plena­mente humano, solidário e fraterno, até à doação da própria vida pela vida do mundo.

A catequese da Paróquia tem muito de “obrigação”. As catequistas compor­tam-se como funcionárias eclesiásticas. As meninas, os meninos são obrigados a ir à catequese. E depressa têm que pas­sar a frequentar as missas como as pessoas adultas. E depois há aquelas “festas da catequese”, ao longo de cada ano, até se chegar à Comunhão Solene e ao Crisma, as quais mais pare­cem uma passagem de modelos. Feliz­mente, estás dispensada dessa feira de vaidades. Deves ter gosto e muita ale­gria perante as tuas companheiras, os teus companheiros, por seres dife­rente. És ainda menina, mas já és dissi­dente. Só posso alegrar-me contigo. Um dia ainda hei-de conhecer-te e envol­ver-te no meu abraço amigo e compa­nheiro. Seremos grandes amigos, se tu assim quiseres. Eu quero.

E agora, vou directo às tuas per­guntas com as minhas respostas.

1. Porque é que os padres não se podem casar? Olha, Zélia, lá poderem ca­sar, os padres podem. Só que se o fizerem, têm que renunciar ao exercício do ministério. Na prática, ficam como se não fossem padres. Continuam a ser padres, mas não podem exercer como tal na Igreja oficial. Isto é assim, porque os que mandam na Igreja católica do Oci­dente decidiram, há muitos séculos, que quem aceitasse ser padre tinha que viver em celibato, o que na prática signi­fica, viver sem casar. Esta decisão não vem de Deus, nem de Jesus de Na­zaré. É uma lei inventada pelos que mandam na Igreja, a chamada hierar­quia, concretamente, o Papa e os Bis­pos. Mas é uma lei perversa, que tem que ser combatida, até ser abolida. É o que eu faço há bastantes anos. Para que, finalmente, na Igreja o celibato seja não imposto, como agora é, mas opcional, isto é, resulte da escolha de cada padre. Enquanto não chegarmos aqui, temos que continuar a exigir do Papa e dos Bispos que acabem com a lei do celibato obrigatório para os padres. Tu própria já podes entrar nes­ta luta pela liberdade. Que tal se es­cre­vesses ao Bispo da tua diocese? E ao Papa Bento XVI? E se convidasses as tuas amigas, os teus amigos a faze­rem outro tanto?

2. O que essa senhora te disse sobre os nomes das crianças sem ba­ptismo foi um disparate de todo tama­nho. Antigamente, os clérigos ensina­ram esses disparates às populações analfabetas. Para as obrigarem a ba­pti­zar as filhas, os filhos, diziam-lhes que era o baptismo que dava a alma e o nome às crianças. Portanto, sem a água do baptismo, elas não teriam nem nome, nem alma. Mas esta doutrina é pura mentira. E faz parte do terroris­mo que muitos clérigos utilizaram para melhor terem as populações nas mãos. Por isso, não te deixes impressionar com esses ditos de certas senhoras de­votas. E procura esclarecê-las com a tua simplicidade. São pessoas ignoran­tes que precisam de quem as ajude a li­bertar-se da ignorância. Aliás, o Ba­ptismo, como sacramento da Igreja, só deverá ser celebrado com pessoas a­dul­tas, e depois delas terem sido correctamente evangelizadas. Nas Comu­ni­dades cristãs de Base, que tenho acompanhado, as mães e os pais mais conscientes já não baptizam as filhas, os filhos em pequeno. Ajudam-nos a crescer e deixam que elas, eles, um dia decidam se hão-de ser baptizados ou não. De resto, o verdadeiro baptis­mo nem é o de água, mas o Baptismo no Espírito Santo. Mas esse as paró­quias católicas não são capazes de o fazer acontecer. As Paróquias católicas são demasiado legalistas e rotineiras, e nem sequer chegam a ser capazes de entender o que seja baptizar no Es­pí­rito Santo. Tomara eu que tu, Zélia, ve­nhas um dia a ser baptizada, mas no Espírito Santo. Saberemos se sim, pelos efeitos, pelo estilo de vida que tu passes a adoptar para ti. Quanto mais te pareceres com Jesus, o de Nazaré, mais saberemos que foste ba­ptizada no Espírito Santo, tal como ele foi.

3. Não és só tu que consegues ver as nuvens da cor que tu quiseres. To­das as meninas, todos os meninos con­se­guem. E eu também consigo, na me­di­da em que me mantiver menino. Qu­an­do deixar de conseguir ver as nuvens da cor que eu quiser, é sinal de que dei­xei de ser como um menino. E, nesse dia, deixarei de ser humano, para ser outra coisa, por exemplo, um senhor importante, mas muito infeliz.

4. Quanto ao signo da mãe de Je­sus ninguém sabe, porque ninguém sabe o dia em que ela nasceu. Também não interessa. O que te posso dizer é que ela, para poder ser a mãe de Jesus, também deixou de ser fisicamente vir­gem, tal como sucede com qualquer outra mulher que se torna mãe. O que não é uma desonra, mas uma mais va­lia para as mulheres. E digo-te ainda mais: Quando os Evangelhos de S. Ma­teus e de S. Lucas falam de Maria, co­mo virgem, eles não estão a dizer nada sobre a mãe de Jesus, mas sobre o seu filho Jesus. Querem dizer-nos, com recurso a essa linguagem, que Jesus, o filho de Maria, é sobretudo filho de Deus, é Deus entre-nós-e-connosco, é a definitiva revelação de Deus no meio de nós. Infelizmente, as catequeses das paróquias católicas não têm sabido interpretar os Evangelhos e andam há séculos a ensinar mentiras e disparates às populações, como essa mentira e esse disparate de que Maria é fisica­mente virgem antes do parto, durante o parto e depois do parto. Felizmente, tu, Zélia, estás a crescer longe dessas mentiras e desses disparates. E eu só posso alegrar-me contigo.

Antes de terminar, aproveito para te agradecer teres-me enviado a tua men­sagem. E por teres confiado em mim, mesmo antes de me conheceres cara a cara. Fiquei com muita pena por não ter conseguido abrir o anexo, para te ver em fotografia e à tua família. Diz ao pai que tente outra vez, mas agora com recurso a outro programa, que não o “pageMaker”.

Abraço-te e à mãe e ao pai. Dá um beijinho meu ao teu mano Rodrigo.

Mário

DEZ ANOS É MUITO TEMPO

Ao contrário desta menina de 10 anos duma cidade do norte do país, as crianças/adolescentes filhas/filhos de mães e pais católicos tradicionais con­tinuam a ter que frequentar, se qui­serem cumprir à risca o que está deter­minado pela nossa Igreja católica, 10 anos de catequese paroquial, dada a par­tir de um catecismo diferente em cada ano. O que pressupõe a existência de um verdadeiro exército de catequis­tas em todo o país, uma vez que a cate­quese é ministrada em pequenos gru­pos autónomos e separados por anos.

O que é mais de espantar é que to­do este exército de catequistas é cons­ti­tuído, na sua esmagadora maio­ria, por adolescentes e jovens, que se alistam totalmente de graça e que, ao longo de cada ano, cumprem escrupulo­sa­mente com essa “obrigação” sema­nal. Uma "greve" geral a este serviço de volun­tá­rios paralisaria por completo a cate­que­se nas paróquias católicas. Mas não há memória de nenhum caso de "greve" de catequistas em Portugal e nem é sequer provável que algum dia tal venha a acontecer. São pessoas de­ma­siado jovens e de consciência muito pouco crítica, todas elas forma­das pela mesma escola católica que fo­menta a reverência ao clero e impede o aparecimento de consciências críticas e não pode suportar a existência de dis­sidentes nas suas fileiras.

Basta atentar nos títulos dos cate­cis­mos aprovados pela autoridade e­cle­si­ástica católica e ainda em vigor no nosso país, para se perceber que a catequese ministrada através deles é uma catequese totalmente inofensiva, esvaziada de profecia e do Sopro fe­cun­da­mente libertador e saudavel­men­te dissidente de Jesus de Nazaré, o Ca­te­quista por antonomásia de Deus Cri­a­dor, que é simultaneamente o Deus do Reino, que ele fez presente e anun­ciou com a sua prática dissidente e a sua palavra libertadora. Em todos os mi­lhares de sessões de catequese se­manal não há nunca notícia de nenhum desacato, nem de nenhum conflito, sus­ci­ta­dos pela catequese. Nem as crian­ças/adolescentes que a frequentam, nem as catequistas que a ministram sob o comando e o controlo dos párocos (são sobretudo mulheres, não homens, quem mais se presta a este voluntaria­do paroquial, o que não deixa de ser si­gnificativo), nem as mães nem os pais das crianças/adolescentes que a fre­quen­tam, alguma vez foram protagonis­tas de desacatos e de conflitos, no jeito daqueles que o Evangelho de Jesus, nas suas quatro versões canónicas, re­gista como desencadeados pelo “cate­quis­ta” Jesus e pelas suas catequeses. Nas catequeses semanais das paróqui­as católicas não acontece de seme­lhan­te. É tudo muito conforme à Ordem estabelecida, onde os párocos conti­nuam a ter lugar de destaque, é tudo muito de acordo com as orientações dos párocos e do respectivo bispo dio­ce­sano, é tudo muito dentro dos câno­nes moralistas emanados da Cúria Ro­mana e das Cúrias diocesanas. Numa palavra, é tudo muito domesticado, muito eclesiástico, muito previsível, sem ne­nhum lugar para a sempre imprevi­sí­vel Boa Notícia de Deus, o de Jesus.

São estes os 10 títulos dos catecis­mos ainda em vigor: 1. Jesus gosta de mim. 2. Estou com Jesus. 3. Queremos se­guir-te. 4. Ficamos contigo. 5. Eu sou o vosso Deus. 6. Jesus Cristo é o Se­nhor. 7. Ele caminha connosco. 8. So­mos um Povo. 9. Urgente viver. 10. Ou­sar crer.

MAS QUE JESUS?

Para elaborar este destaque, de­brucei-me com especial atenção, sobre o catecismo do 2.º ano, para meninas/me­ninos de 7-8 anos de idade. O cate­cismo está centrado em Jesus, o que, à primeira vista, é positivo, uma vez que Jesus é o rosto definitivo de Deus e tudo o que possamos pensar e dizer de Deus, fora de Jesus, é sempre idola­tria.

Mas que Jesus é que, semana a semana, se apresenta às crianças, ao longo de todo um ano, com este catecis­mo? Tanto os textos, como as gravuras remetem-nos para um Jesus que não é o do Evangelho, mas um Jesus ecle­siástico, clerical, mais parecido com os párocos e os bispos católicos! Trata-se de um Jesus metido nos templos, perdido com missas ritualizadas, repre­sentado e controlado por sacerdotes que pontificam nos alta­res, um Jesus milagreiro, sem conflitos, sem História, sem Reino de Deus, zelador dos egoís­mos e dos mesquinhos interesses da­que­las, daqueles que frequentam as missas de domingo. Tudo está orienta­do para levar as crianças da catequese a frequentar as missas de domingo e a saber responder ao ritual. Visa pre­parar adultas, adultos eclesiásticos, mis­seiros, em lugar de cidadãs, cida­dãos políticos, bem metidos no mundo e na História, como obreiros e militan­tes do Reino de Deus, ao jeito de Jesus de Nazaré.

Um exemplo: o tema n.º 2 titula-se: “Que bom estar com Jesus”. Mas, depois, a ilustração que acompanha o texto é uma igreja sem casas à volta, no género das tradicionais igrejas pa­ro­quiais, que as meninas, os meninos da catequese já conhecem e frequen­tam. O que levará as crianças a con­cluir, mas erradamente, que para esta­rem com Jesus, ao longo da sua vida, têm que frequentar a igreja da paró­quia, pois é lá que ele mora! Ora, isto é uma mentira pegada! E um insulto à memória de Jesus. Estamos com Je­sus, quando nos reunimos em seu no­me. E reunimo-nos em seu nome, qu­an­do nos reunimos para nos darmos à Humanidade e às suas causas. O que tem tudo a ver com a Política e nada a ver com os templos das paróquias, quase todos eles casas de alie­na­ção, de opressão, de beatice, de mis­sas por mortos, de meninas, meninos de coro, e até covis de ladrões.

Outro exemplo: O tema n.º 10 deste mesmo catecismo tem por título: “Jesus é amigo de todos”. E tanto o texto como as ilustrações do tema sugerem ape­nas situações mais ou menos cor de ro­sa, sem conflitos de nenhuma espé­cie. Mas então Jesus não teve inimigos? Não suscitou ódios de morte contra ele? Os sacerdotes e os doutores da Lei, mais os escribas e os fariseus não o per­seguiram, não o caluniaram e, final­mente, não o mataram? Onde aparece neste tipo de catecismo e de catequese a dimensão política da missão de Jesus? Onde as referências às suas lutas duélicas contra os detentores dos privi­légios? Onde a referência às suas soli­dariedades até ao fim, até à morte, com as vítimas dos poderosos e dos ricos, dos sacerdotes e dos fariseus/santos?

Perante tamanho cinzentismo ao nível dos catecismos e das catequeses que se ministram por essas paróquias católicas fora, é então caso para levar mais longe e mais fundo estes ques­tio­namentos e perguntar: Mas, afinal, o que se pretende com tantos anos de catequese e com tanta gente mobilizada para a tornar realidade, semana após semana e ano após ano, em cada paró­quia? pretende-se fazer despertar em cada criança/adolescente a fé de Jesus, ou, ao contrário, fazer despertar a fé em Jesus? Mas será que, em Igreja, ain­da nem sequer nos demos conta que mais do que termos mulheres, homens que crêem em Jesus, é decisivo para o futuro do mundo e da Humanidade ter­mos mulheres, homens com a mesma fé de Jesus?


Editorial

Outro País. Outra Igreja

1. O nosso país está à beira de bater no fundo, em consequência da po­lítica sem Espírito e sem entranhas de humanidade, o mesmo é dizer, sem sa­bedoria e sem competência dos po­lí­­ticos profissionais que nos têm gover­nado. Todos eles - ministros, presiden­tes da República, deputados, autarcas - cada qual ao seu jeito e ao seu modo, vivem cada vez mais de cócoras pe­rante os poderes económicos e finan­cei­­ros, cujos rostos nem eles conhecem e, talvez por isso, tratam como se fos­sem outras tantas divinda­des di­ante das quais não se atrevem a resis­tir-lhes, muito menos a contrari­ar as suas desmedidas ambições de lucro e de do­mínio absoluto e global.

Mas o pior de tu­do ainda é termos de constatar que os políticos profissio­nais têm vindo progressivamente a po­der contar com a cumplicidade de to­das, todos nós que delegamos neles a con­du­ção dos nossos destinos cole­ctivos, para assim, livres de toda e qual­quer responsabi­li­da­de política, po­dermos  dedicar-nos a encher re­gu­larmente os es­tá­dios de futebol, ou a ver nove­las umas atrás das outras, jun­tamente com sucessivas emissões da quinta das famosas nuli­dades, ou a fa­zer in­ter­mi­náveis filas de carros em di­recção às praias, mal o sol dá um ar da sua graça de calor, ou a encher as bermas das estradas com inumanas pere­gri­nações a pé a Fátima, à Santa Rita ou ao S. Bentinho da Porta Aberta, ou a queimar o tempo do desemprego e da reforma pelos bancos dos cafés e dos jardins, em jo­gos de cartas, que não levam a ne­nhum lado, senão à de­gra­dação, à alienação, ao desânimo e, finalmente, à morte.

Trabalhar no duro faz calos e ho­je já não se usa. Quando muito, deixa-se isso para os imigrantes que insis­tem em vir viver no meio de nós. Estu­dar, ser discipli­na­do, aplicar-se, fazer esforço pessoal, cuidar dos campos, desistir do litoral e regressar às aldeias do interior do país, reaprender a regar os campos com o suor do nosso rosto, ler livros, debater ideias, ir ao teatro, fazer teatro, ouvir os poetas, escrever poemas, ir a concertos, escrever músi­ca, numa palavra, cultivarmo-nos como povo, para mais e melhor podermos assumir a Política como um serviço colectivo, são tudo acções que já não entram nas nossas agendas quotidia­nas ou sema­nais, nem nos nos nossos tempos co­muns de cidadãs, de cidadãos. Aliás, as nossas casas nem sequer pre­vêem uma sala para livros e para repou­sadas e fecundas leituras de livros. E o nosso dia de 24 horas tão pouco contempla qualquer disponibilidade para tertúlias, para leituras de grupo, dialo­gadas e debatidas, para encontros em que se façam lúcidas análises económi­cas, finan­ceiras, políticas, culturais, religiosas e teo­lógicas do país. Limitamo-nos a ser simplesmente consumi­doras compulsi­vas, consumidores com­pulsi­vos. Em consequência, até o carro que já não conseguimos dispensa­r e que é as­sim como o nosso cartão de identida­de individual, já quase só conhece o ca­minho rumo às grandes superfícies, aos médios centros comerciais e aos locais de lazer/prazer e de alienação. A Política continua a ficar com os profis­sionais da dita. E, se estes fo­rem corruptos, tanto melhor, porque assim nunca lhes passará pela cabeça demitir-se e devolver o país às cidadãs, aos cida­dãos. Quando estiverem fartos de "ga­mar", passam o testemunho da corrupção a outros iguais ou piores que eles, até cairmos todos, um dia, no abismo. Um desastre que, pelo andar da carru­a­gem, já não estará assim tão distante.

Reconheço que o retrato que acabo de fazer me saiu muito a preto e bran­co. Mas a realidade, provavelmente, a­in­da será pior. Só daremos conta, quan­do batermos no fundo. Até lá, can­tamos e rimos, ou gememos e chora­mos, con­for­me a realidade concreta de cada pes­­soa e de cada família. Duma coisa po­de­mos ter a certeza: Se não inverter­mos depressa a presente situação, será cada vez maior o número daquelas, da­queles que gememos e choramos.

O que eu então mais posso desejar é que, quando acordarmos desta letar­gia e desta alienação colectivas, não de­ses­pe­re­mos nem entremos pela  es­té­ril revolta. Pelo contrário, ou­se­mos com lucidez e coragem dar à vol­ta à si­tuação, a começar por nós pró­prias, nós próprios. Porque um país é o que for o conjunto do seu povo. Não o que forem os seus políticos profissio­nais.

Uma coisa temos que meter bem na cabeça e na prática de vida de todos os dias: A Política não é coisa de pro­fissionais. A Política é para ser assumi­da por todo povo. Só a Política nos faz cidadãs, cidadãos de corpo inteiro. Quando nos demitimos da Polí­tica e corremos a entregá-la aos profissi­o­­nais da dita, ela corrompe-se em Po­der, que progressivamente perverte tudo e to­dos. E é assim que, com o passar dos anos, as popu­la­ções crescem em alie­na­ção e em me­di­o­cridade, quando de­ve­riam crescer em sabedoria e em gra­ça. E lá acabamos todos mais ou me­nos corruptos. Não é verdade que um pouco de fermento corruptor cor­rom­pe toda a massa, todo um país? É por isso hora de dizermos/fazermos stop. E nascermos de novo como povo!

Para quando então a primeira gran­de Insur­reição Cívica nacional? E a primeira grande Insurreição Cívica europeia?

2. O cardeal Ratzinger mudou de nome. Agora é papa Bento XVI. Por es­colha do Espírito/Sopro de Deus? Ou por escolha do espírito/sopro do Medo? Todo o Poder alimenta-se do medo. E o Poder absoluto, como con­ti­­nua a ser o poder do papa, alimen­ta-se do medo absoluto. Por outro lado, o medo criou os deuses. E a Religião, cujos sacerdo­tes deverão promover-lhes reiteradas ses­sões de cul­to, desti­na­das a apazi­guar os deu­ses e a tor­ná-los favoráveis às preten­sões do Po­der. A Cúria Roma­na não fo­ge à regra, ou ela não fosse a suces­so­ra do Impé­rio, que a antece­deu no Poder de domina­ção do mundo.

Só que tudo isto que acabo de referir é do reino do Demoníaco, não é do Reino de Deus, anunciado por Je­sus, o de Nazaré, a quem o Poder ab­soluto do Império e do Templo matou na cruz como o maldito dos malditos. Do Reino de Deus, anunciado por Je­sus, é a Liberdade, sem qualquer lugar para o Medo.

Ora, é de Liberdade, não de Medo, que precisamos a todo o instante para sermos seres humanos. O Medo sempre faz abortar os seres humanos. E conver­te-os em escravos, súbditos, subservien­tes, vassalos, menores. Que é o que hoje mais abunda na Igreja católica e nas sociedades controladas pelo seu Moralismo e pela sua Religião.

A Liberdade, ao contrário, gera se­res humanos da estatura de Jesus de Na­zaré, o Ser Humano integral que en­frentou o Império e o Templo - os dois pais do Medo - e só se dá por satisfeita quando vê as mulheres, os homens as­sumir-se na História co­mo sujeitos, protagonistas, por isso, constitutivamen­te políticos, não religiosos.

Como presbítero da Igreja católica que está no Porto, também eu reconheço o papa Bento XVI, evidentemente. Mas tal como Paulo reconheceu Pedro, no início da Igreja. Reconheço-o, para lhe resistir activamente, sempre que as suas palavras e as suas decisões não trouxerem as marcas da Liberdade, mas as marcas do Medo. Previsivelmen­te, terei de viver em estado de resistên­cia activa ao seu magistério. Enquanto Bento XVI se mantiver no estatuto de Po­der absoluto, as suas palavras e de­cisões serão marcadas pelo espírito ou sopro do Medo. Resistir-lhe activa­men­te, será então a única maneira de me man­ter humano e presbítero da Igreja. Será também a melhor forma de lhe ma­nifestar o meu amor de irmão, de amigo e de companheiro.

Onde houver Poder absoluto, tam­bém há Medo absoluto. É por isso que a Igreja católica, com o cardeal Ratzin­ger/Bento XVI à frente dos seus desti­nos, é hoje a grande instituição gera­do­ra de Medo. Ai então de quem não se atrever a resistir activamente a Bento XVI e à sua Cúria Romana. Ai dos Bispos que, na sua relação com Bento XVI, não tiverem a audácia de Paulo na sua relação com Pedro. Dei­xa­rão de ser pastores, para serem mer­cenários, executantes de ordens, de normas, de decretos, de cânones, de catecismos, de Moralismos, de discipli­nas eclesiásticas. Em lugar de homens livres, por isso, responsáveis, serão cor­­reias de transmissão dos interesses do Poder absoluto de Bento XVI e da sua demoníaca Cúria Romana.

É dura esta linguagem? É a lin­gua­gem da Verdade. E do Amor. Por mim, não conheço outro jeito de ser Igreja. E que ninguém me queira obri­gar a identificar Igreja com a Cúria Romana, os seus cardeais, os seus conclaves gerontocráticos cheios de Medo, onde não sopra nem o fortís­si­mo Vento juve­nil, nem a mais leve brisa feminina!

Mário,presbítero da Igreja do Porto


ESPAÇO ABERTO

Editorial  COM ESPERANÇA

É grande a minha esperança. Nas recentes eleições legislativas antecipa­das para a Assembleia da República, mobilizámo-nos co­mo país e, com o nosso voto de­positado nas urnas, cor­re­mos politicamente com o desgover­nado governo de Paulo Portas e de Santana Lopes. Pelo caminho, ainda de­mos mais força e mais voz aos Par­tidos po­líticos que defendem os valores da Esquerda, indubitavelmente, mais próximos dos valores do Reino/Reinado de Deus, e já empossámos o novo Go­ver­no, encabeçado por José Sócrates, do PS, o qual, felizmente, resistiu à tentação de acolher no seu seio certos ví­cios políticos do aparelho partidário, de onde emana, ao mes­mo tempo que teve a audácia de se abrir à sociedade civil, da qual o seu Governo também ema­na, e ainda mais do que do apa­relho partidário.

Estas mudanças, só por si, são fon­te de esperança, porque um Governo pio­r do que o imedi­a­tamente ante­rior seria de todo impossível. É verdade que as mulheres estão muito pouco pre­sentes no novo Go­verno. E as poucas que estão, aparecem colocadas à frente de ministérios de menor peso polí­tico.

Este facto, que aqui registo com desagrado e bastante perple­xi­da­de, cons­titui uma falha subs­tan­cial que po­de vir a revelar-se irreparável, ao lon­go do man­da­to.

Mesmo assim, prefiro subli­nhar, nesta hora, o óbvio, isto é, que nin­guém, mulher ou homem, foi ou está a ser im­­pedido de participar politica­men­te no processo de recuperação do país. Para este processo, todas, todos, podemos e deve­mos continuar mobili­za­­dos, tanto ou mais que os deputa­dos no novo Parlamento e que os mi­nistros e os secretários de Estado no novo Governo.

O que quero dizer com isto é que a mo­bilização a que fomos capazes de dar corpo nestas elei­ções legislativas antecipadas de modo nenhum é para suspender agora. Pelo contrário, tem que prosseguir, sem desfalecimentos. Com muita imaginação. Muita inteligên­cia. Muita vigilância. E também com muita con­fi­an­ça. Muita alegria. Muita de­termi­na­ção.

Não basta termos mudado o Parla­mento e o Governo. Foi bom, muito bom, mas é insufici­ente. É impe­rioso que mudemos também o país. Digo mais: É imperioso que nos mude­mos também a nós próprias, a nós pró­prios, como povo portu­guês.

E aqui é que as mulheres que fo­ram perigosamente subal­terni­zadas pelo primeiro-ministro na formação do XVII Governo cons­titucional, têm um in­substi­tuível papel a desempenhar, pro­vavelmente, ainda mais decisivo do que o dos membros do Par­lamento e do Governo.

Se tal vier a acontecer – e tem que a­con­tecer, sob pena de falharmos co­mo país, e não apenas como Par­la­men­to e como Governo – então acabare­mos por reconhecer que até terá sido bom as mulhe­res terem ficado tão pou­co pre­sentes no Governo e no Parla­mento, embora, neste, as mulheres te­nham sido tidas mais em conta por parte dos partidos de Esquerda, do que pelos partidos da Direita.

Tenho para mim que é a Polí­tica, não o Poder, que muda o mun­do e que salva a Humanida­de. Embora, desde que existe mundo, os poderosos sem­pre nos tenham querido convencer - e com êxito, reconheça-se - que é o Poder que muda o mundo e que salva a Huma­nidade. Não é. Che­gou-se inclusive ao cúmulo do des­caramento de ensinar – e nisso as Igrejas ajudaram os podero­sos com ambas as mãos e com uma teo­­lo­gia feita de mentira e de idola­tria!... – que todo o Poder vem de Deus. Uma completa barbaridade teoló­gica, pelo menos, no âmbito da teologia je­suâ­nica, de consequên­cias tremendas na História da Humanidade, a pior das quais, é, porventura, a reiterada sacra­lização dos sempre cruéis e perversos Impérios de turno, sem esquecer o Im­pé­rio eclesiástico católico romano.

Com essa sua men­tirosa pro­pa­gan­da, ensinada até nas Uni­ver­si­da­des católicas como Evangelho de Deus, os podero­sos têm conseguido assegu­rar e até aumentar sem grandes custos os seus inúmeros privilégios e justificar todos os seus crimes.

Aliás, na boca deles, nunca são cri­mes. São sempre acções/interven­ções necessárias e oportunas, destina­das a manter a Ordem estabelecida e a paz de cada Império de turno, a qual, como é manifesto, nunca co­incide, nem nunca poderá coin­cidir com aquela paz por que aspira a Humanidade e que só pode ser a Paz que vive casada e aos beijos com a Justi­ça, com o Pão em todos os lares e com a Liberdade a ser protagonizada por todas as pes­soas e por todos os povos.

O Poder corrompe. Perverte. Men­te. Exclui. Tudo compra, até consciên­cias. Tudo vende, até a honra e a pala­vra dada. Submete. In­fantiliza. Humilha. Opri­me. A­ter­ro­riza. E, no limite, ma­ta. Nunca olha a meios para atingir os seus fins, os quais nun­ca andam dissociados dos pri­vilégios dos poderosos.

Não é assim a Política, no­mea­da­mente, quando ela vive desca­sa­da do Poder e recusa liminar­mente andar de mão dada com o Poder. A Política, só por si, diz com poesia e profecia. E com cui­dado. E com vida. E com ter­nura. E com afectos. E com bem-estar. E com fe­licidade das pes­soas e dos povos.

Lá, onde o Po­der exclui, a Política in­tegra. Onde o Poder oprime, aterro­riza e infantiliza pessoas e povos, a Po­lítica liberta, desperta potenci­a­li­da­des e faz nascer sujeitos. Lá, onde o Poder faz caridadezinha social, para melhor se perpetuar, a Política faz nas­cer protagonis­mos pessoais e comuni­tá­rios que podem, um dia – oxalá não seja muito distante – chegar a dispen­sar o Poder que hoje, disparata­da­mente, ainda temos como insu­bstituível, porque ele, habil­men­te, sempre se tem feito passar por Política, quando, efecti­va­men­te, é a sua sibilina negação.

Se a Política vem de Deus, me­lhor, se a Política é o próprio Deus-em-acção-no-mundo-e-na-História, o Po­der vem do Demoníaco, melhor, é o De­moníaco ou o anti-Deus, ou a anti-frater­nidade/sororidade-em-acção-no-mundo.

A Política é Força cria­dora e liber­tadora na História, cujo Sopro vem sem­pre de fora dos circuitos do Poder e, por isso, é sempre fecun­do, é gerador de Frater­ni­da­de/sororidade universal. O Poder é uma criação dos seres hu­ma­­nos, nomeadamente, daqueles que vêem nos demais seres humanos, não ir­mãs e irmãos a quem amar, mas ri­vais, concor­ren­tes, inimigos a neutra­lizar, dominar ou mesmo abater. É uma criação, não do Espírito do Deus vivo nos seres humanos, como a Polí­tica, mas da dimensão cainí­tica dos seres humanos e das instituições por eles cria­das e mantidas ao longo dos sécu­los (a mais antiga de todas é, sem dú­vida, a religião!), co­mo pesos mortos, nem que, para as defender e conservar, eles tenham que roubar, matar e des­truir sem dó nem piedade não só os seus opositores, mas o próprio planeta que nos serve de casa a todas, todos.

De Jesus, o de Nazaré, sabe­mos que sempre recusou o Po­der, não a Po­lítica, evidentemente. Na sua perce­pção do Real, Jesus sempre colo­cou o Poder no âmbito do Demo­nía­­co, por isso, no âmbito da Ten­tação, melhor, do Tentador que sempre está interes­sa­do em tornar inumanos os seres hu­ma­nos. Em consequência, Jesus nunca aceitou ir pelo Poder. Nem fez jamais qual­quer pacto com ele. “A César o que é de Cé­sar, e a Deus o que é de Deus”. Isto é: Ao Poder o que é do Poder, e à Política o que é da Política.

Enquanto durar a História, sempre teremos Poder e Política. O Poder puro mata tudo o que tocar. O que o torna suportável e tolerável é que ele sem­pre pro­cura actuar vestido de Política. Mas só até ao ponto em que nunca nin­guém ouse provocá-lo até ao limite, ou desmascará-lo por completo. Jesus, o de Na­zaré, atreveu-se a fazê-lo e logo foi morto na cruz, como o maldito por antonomásia.

Do novo Governo, espero que te­nha a sabedoria e a coragem de ser mais político do que po­der. Que tome de­cisões lúcidas e corajosas destinadas a cuidar da vida das pessoas, das popu­la­ções e da Natureza. Que enfrente o Poder, lá onde ele está alojado e não suporta sequer a ideia de vir a perder pri­vilégios adquiridos.

Mas para que o Governo pos­sa rea­lizar esta ingente Acção Po­lítica, nas múltiplas frentes em que essa Acção tem que rea­lizar-se para dar fruto, é de todo necessário que o país que se mo­bilizou para votar, agora não des­mobilize politicamente nunca mais. A come­çar pelas mulheres. As poucas que estão no Governo e a quase totalidade das outras que estão fora do Governo, mas não estão fora do País. Nem po­dem estar de fora da Política. É hora!

Deixemo-nos de lamúrias, de cren­dices, de beatices, de fatimices, de mi­­­la­­grices. Recusemos o Poder e os privilégios com que ele sempre tenta comprar as pessoas e as suas almas. Mas vivamos em cheio a Política, ao jei­to de Jesus. Veremos o país a passar (Pás­coa) da depressão para a festa da vida. Vosso companheiro e irmão

Mário, presbítero da Igreja do Porto.


Espaço Aberto

González Faus (Teólogo ibérico)

Carta ao novo Papa

Querido irmão no Senhor Jesus:

Ao entrar no Conclave de onde saís­te eleito, juraste ser fiel ao “mini­stério de Pedro”. Esta é uma das cara­cterísticas mais importantes de toda a parafernália destes últimos dias, embo­ra os meios de comunicação social quase nem tenham dado por isso.

Juraste ser fiel ao ministério de Pedro, não ao de Pio, ou de Gregório, ou de Alexandre... Seguramente, o mi­nistério de Pedro necessita hoje de um restauro semelhante ao das pinturas de Miguel Ângelo, da Capela Sistina, para recuperar a frescura da sua primi­tiva cor. Mas não só o ministério de Pedro: os nossos políticos esqueceram já que a palavra ministério significa etimologicamente serviço. E esse facto dá-me a oportunidade para comentar contigo algumas características desse serviço.

1. Pedro não foi um chefe de Esta­do. Por pequeno que seja, o Estado con­fere uma categoria e uns poderes que não são de nenhum modo evangé­licos (lembra-te do Mónaco ou de An­dorra que também são Estados minús­culos).

Creio que, neste ponto, deverias pa­recer-te mais com Pedro que com muitos dos seus sucessores, para não mereceres a repreensão que há quase 10 séculos S. Bernardo dirigiu a Eugé­nio, teu antecessor: “Em muitas coi­sas não pareces sucessor de Pe­dro, mas de Constantino”.

2. Pedro foi muito querido na primi­tiva Igreja: quando esteve preso, rezou-se continuamente por ele. Mas ele nun­ca quis envolver esse apreço numa atmos­fera de sacralidade. Não se fez chamar Santidade, nem santo padre, nem vigário de Cristo, mas, como Je­sus, despojou-se da sua categoria e procurou “apresentar-se como um homem qualquer” (Filipenses 2, 7). E quan­do Cornélio quis prostrar-se dian­te dele, logo o impediu dizendo: “Le­vanta-te, que eu também sou um ho­mem” (Actos 10, 26).

3. Pedro exerceu o seu serviço de um modo conciliador: depressa teve que enfrentar uma facção de direita em Jerusalém, capitaneada por Tiago, ir­mão do Senhor, e uma outra, liberta­dora, congregada à volta de Paulo. Ape­sar dos fervores iniciais, os enfren­tamentos foram de tal modo grandes, que S. Lucas, propenso a idealizar, teve que reconhecer que houve “altercações violentas” (Actos15, 2).

Pedro actuou como mediador en­tre ambas as igrejas, e viu com bons olhos que se reunisse uma assembleia na qual ele se limitou a perguntar à fac­ção mais integrista: “Porque tentais a Deus, impondo aos discípulos uma carga que nem os nossos pais nem nós próprios aguentamos?” (Actos 15,10).

4. Todavia, neste conflito, Pedro, Tiago e João deram plena confiança ao sector “liberal” de Paulo, impondo-lhe uma única condição: “que não se esquecessem dos pobres” (Gálatas 2, 10). A causa dos pobres passou assim a ser, por sua vez, critério da verdadeira liberdade e factor de unidade para a Igreja. Creio que estaremos de acordo em que esta é uma das caracte­rísticas mais belas do ministério petrino.

5. Pedro foi em alguns pontos mais longe que o próprio Jesus: abriu as por­tas judaicas da Igreja ao mundo, apesar do próprio Jesus ter dito que havia sido enviado apenas “às ovelhas perdidas da Casa de Israel”. Mas Pedro não esqueceu que a vida do Mestre es­tava cheia de gestos que tornavam evidente esse critério, e actuou na con­vicção de que não atraiçoava o Mestre, pelo contrário, se deixava guiar pelo seu Espírito (Actos 10).

6. Por agir assim, Pedro foi critica­do pelos primeiros cristãos de Jerusa­lém. Mas nem por isso os excomungou, antes se reuniu a conversar com eles e a explicar-lhes os seus temores huma­nos e as suas razões de crente: “O Es­pírito disse-me que fosse ter com eles, deixando de lado toda a hesitação” (Actos 11, 1 sgs). Foi essa sua audácia que salvou a Igreja, caso contrário o medo tê-la-ia tornado estéril por muitos séculos.

7. Pedro teve as suas hesitações: era intuitivo e impulsivo, mas cobarde. E em certo momento, para evitar com­plicações, retrocedeu na abertura aos não judeus, quando antes ele próprio a tinha possibilitado. Paulo, como um ciclone, criticou-o publicamente por isso. E Pedro deu uma grande lição de humildade, ao aceitar a crítica. E não privou Paulo da palavra.

Recordarás certamente o que, a este propósito, Santo Agostinho comen­tou mais tarde: “Atrevo-me a dizer que mais exemplar que a valentia de Paulo, foi a humildade de Pedro”.

8. Pedro afirmou na cara das auto­ri­dades que é necessário obedecer a Deus, antes que aos homens (Act 5,29). Esta frase, tão forte como perigosa (pelo poder que nós, humanos, temos de a manipular), tem um sentido muito mais profundo, quando é proferida por uma pessoa investida de autoridade, do que quando é utilizada por um sim­ples soldado raso.

Por isso te peço que a não esque­ças nunca, porque hoje é impossível exercer um serviço cristão sem enfren­tar os poderes deste mundo; e também porque é muito possível que alguns dos teus fiéis achem que devem recorrer a ela, para, com ela, te dizerem algo de importante. Será então outra vez o momento de procurarmos, juntos, a von­tade de Deus.

9. Pedro foi educado pelo Ressus­citado a saber respeitar e a não con­trolar o carisma do discípulo amado que parecia por vezes andar em roda livre e encarnar aquela advertência do Senhor de que “o Espírito sopra onde quer” (e não onde a autoridade quer).

Repara como à pergunta preocu­pa­da de Pedro (“E que vai ser deste?”), o Senhor respondeu: “E que tens tu com isso? Tu vem e segue-me” (João 21, 21). Amar e seguir mais a Jesus do que os outros é o mais importante do minis­tério de Pedro.

10. Nos seus discursos, Pedro anunciou, primária e quase exclusiva­mente, a vida entregue, o assassinato e a Ressurreição de Jesus e que, atra­vés dessa vida, Deus perdoou inclusive aos seus verdugos e se reconciliou de­fi­nitivamente com toda a humanidade (Actos 2 e 3), porque “Deus não faz acepção de pessoas” (Actos 10, 34).

Outros problemas de índole prática (a circuncisão ou a vigência da Lei an­ti­ga) Pedro não quis resolvê-los de ime­diato, antes deixou que fossem re­solvidos pelo contacto entre as diversas igrejas.

11. Segundo o evangelista Mateus, a Igreja está fundada sobre a fé de Pedro. Quando esta fé olhava Jesus a partir de Deus, foi classificada pelo Senhor como uma “rocha”. Mas Pedro foi também chamado “Satanás” por Je­sus, quando pensou Deus em termos de poder e de triunfo e não em termos de vida entregue (Mateus 16, 18 e 23).

12. O poder de atar e desatar que Pedro recebeu (Mateus 16, 19) recebe­ram-no igualmente os outros apóstolos directamente de Jesus (idem 18, 18). Portanto, Pedro não é nada sem o colé­gio apostólico do qual é cabeça, mas sem jamais o suplantar.

13. A historiografia confirma que o ministério de Pedro não teve nos seus começos uma presença e uma pro­jecção tão universais e constantes como hoje, embora a Igreja fosse à época mais jovem e mais frágil. Pedro era, antes de mais, bispo de Roma. E foi o exemplo da Igreja romana, na pu­reza da sua fé, no seu cuidado dos po­bres e na sua relação com as demais Igrejas, que fez que estas olhassem cada vez mais para Roma. A perda des­se exemplo foi mais tarde causa de se­pa­rações absurdas entre as Igrejas, contrárias à vontade de Deus. O mi­nistério de Pedro é um ministério de uni­dade que não pode suportar essa divisão e deveria recuperar a sua ima­gem primitiva.

14. Tu sabes bem que, ao longo da história, Pedro negou Jesus mais de três vezes. E sabes também que isso não é razão para desanimar, mas ape­nas e só para “chorar amargamente” (Lucas 22, 62) e amar ainda mais o Senhor. Só assim “confirmarás na fé os teus irmãos” (Lucas 22, 32). E isto é o mais sublime do ministério petrino.

15. Finalmente, Pedro, o pescador inculto de uma aldeia perdida, teve o mérito de deixar a capital religiosa da época para ir para a capital do futuro, cosmopolita e desconhecida dele. Não sei bem o que isso poderia significar hoje, mas suspeito que quer dizer-nos alguma coisa.

Irmão Pedro:

No meu pobre entender, estas são algumas das coisas às quais juraste fi­delidade. A hora actual do cristianismo, por difícil que seja, não é mais séria nem mais complicada que a da primeira Igreja. Todos os que temos a imensa fe­licidade de crer em Jesus Cristo que­remos sair ao teu encontro com aquela incessante oração da primitiva Igreja, que conseguiu para Pedro que “lhe caíssem as cadeias das mãos” (Actos 12, 5 e 7). Dominus tecum! (O Senhor esteja contigo!).


Frei Betto (Teólogo brasileiro)

D. Pedro Casaldáliga, santo e herói

O Brasil é um país de santos e heróis, embora poucos alcancem reconhecimento público. Talvez seja efeito de nossa baixa autoestima, tão evidente que, hoje, induz o governo federal a promover campanha publici­tária para que o nosso povo sinta orgulho do que é e do que faz.

Durante séculos, de costas para a América Latina, miramos no espelho dos brancos europeus e norte-ameri­canos. O que víamos não era o nosso rosto indígena, negro, mestiço. Era a imagem paradigmática do colonizador a convencer-nos de que somos atrasados, feios, improdutivos e inferiores. Por isso, nossos avós almejavam “purificar-se” dessa fétida brasilidade contraindo matrimónio com imigrantes brancos.

Quantos brancos casados com negras? Quantos negros das classes A e B casados com negras? Impedidas pelo preconceito e pela pobreza de frequentar escola, as negras servem para trabalhos domésticos, onde a chi­bata é substituída, em geral, por um salário ínfimo. E as mestiças, identi­ficadas às mulas, tratadas de mulatas, tornaram-se símbolos do hedonismo carnavalesco e dos atractivos turísticos voltados à prostituição farta e barata.

Abrigamos no Brasil o mais longo período de escravidão das três Amé­ricas – 358 anos – e ainda culminámos o processo da abolição com a exclusão dos negros libertos do direito de acesso à terra, entregue aos colonos europeus que aqui aportaram empurrados pelo desemprego causado pela revolução industrial do século XIX e a acelerada urbanização do Continente europeu.

Restrita a nação ao convés da pri­meira classe, perdemos de vista nossos santos e heróis, embora proliferem entre nós tantos artistas, atletas, inte­lectuais, e também inventores como Santos Dumont.

Não tão conhecido como merece­ria, há no Brasil um santo e herói: Pe­dro María Casaldáliga. Santo por sua fidelidade radical (no sentido etimoló­gico de ir às raízes) ao Evangelho, e herói pelos riscos de vida enfrentados e as adversidades sofridas.

Catalão de Barcelona, onde nas­ceu em 1928, a 16 de fevereiro, Casal­dáliga ingressou na Ordem Claretiana, consagrada às missões, onde foi orde­nado sacerdote em 1943. Impregnado da espiritualidade dos Cursilhos de Cris­tandade, veio para o Brasil e, em 1968, mergulhou na Amazónia. Em 1971, nomearam-no bispo de uma prelazia amazónica, à beira do sumptuoso rio Araguaia: São Félix do Araguaia. Adoptou como divisa princípios que ha­veriam de nortear literalmente sua acti­vidade pastoral: “Nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, so­bre­tudo, nada matar”. No dedo, como insígnia episcopal, um anel de tucum, que se tornou símbolo da espiritua­lidade dos adeptos da Teologia da Libertação.

São Félix é um município amazó­nico do Mato Grosso, situado em frente à Ilha do Bananal, numa área de 36.643 km2. Na década de 1970, a ditadura militar (1964-1985) ampliou a ferro e fogo as fronteiras agropecuárias do Brasil, devastando parte da Amazónia e atraindo para ali empresas latifundiá­rias empenhadas em derrubar árvores para abrir pastos ao rebanho bovino. Casaldáliga, pastor de um povo sem ru­mo e ameaçado pelo trabalho escra­vo, tomou-lhe a defesa, entrando em choque com os grandes fazendeiros; as empresas agropecuárias, minerado­ras e madeireiras; os políticos que, em troca de apoio financeiro e votos, aco­ber­tavam a degradação do meio ambi­ente e legalizavam a dilatação fundiária sem exigir respeito às leis trabalhistas.

Dom Pedro tem sido alvo de inúme­ras ameaças de morte. A mais grave em 1976, em Ribeirão Bonito, no dia 12 de outubro – festa da padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida. Ao chegar àquela localidade em compa­nhia do missionário e indigenista je­suíta João Bosco Penido Burnier, sou­be­ram que na delegacia duas mulhe­res estavam sendo torturadas. Foram até lá e travaram forte discussão com os policiais militares.

Quando o padre Burnier ameaçou denunciar às autoridades o que ali ocor­ria, um dos soldados esbofeteou-o, deu-lhe uma coronhada e, em se­gui­da, um tiro na nuca. Em poucas ho­ras, o mártir de Ribeirão Bonito faleceu. Nove dias depois, o povo invadiu a de­le­gacia, soltou os presos, quebrou tudo, derrubou as paredes e pôs fogo. No local, ergue-se hoje uma igreja.

Cinco vezes réu em processos de expulsão do Brasil, Casaldáliga mora em São Félix num casebre simples, sem outro esquema de segurança se­não o que lhe asseguram três pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Calçan­do apenas sandálias de dedo e uma roupa tão vulgar como a dos peões que cir­culam pela cidade, Casaldáliga am­plia sua irradiação apostólica através de intensa actividade literária. Poeta renomado, traz a alma sintonizada com as grandes conquistas populares na Pá­tria Grande latino-americana. Ergue sua pena e sua voz em protestos contra o FMI, a ingerência da Casa Branca nos países do Continente, a defesa da Re­volução cubana e, anos atrás, em solidariedade à Revolução sandinista, ou para denunciar os crimes dos mili­ta­res de El Salvador e da Guatemala. Hoje, inquietam-lhe a demora do gover­no Lula em realizar a reforma agrária e o lastro de miséria e destruição que o agronegócio deixa em terras do Mato Grosso.

Dom Pedro tornou-se também pas­tor dos negros e dos indígenas, intro­du­zindo suas riquezas culturais nas liturgias que celebra. Em sua prelazia habitam os índios Tapirapé, salvos da ex­tinção graças aos cuidados tomados pelo bispo.

Convocado às visitas periódicas (ad limina) que todos os bispos devem fazer ao Vaticano para prestar contas, Casaldáliga faltou a inúmeras, por con­siderar os gastos de viagem incompatí­veis com a pobreza de sua gente. No entanto, remeteu aos papas cartas proféticas, exortando-os à opção pelos pobres e ao compromisso com a liber­tação dos oprimidos.

Certa ocasião fez uma longa via­gem a cavalo para visitar a família de um posseiro que se encontrava preso. Chegou sem aviso prévio. Diante de um prato de arroz branco e outro de ba­nanas, a filha mais velha, constran­gida, desculpou-se à hora do almoço: “Se soubéssemos que viria o bispo teríamos feito outra comida”. A pequena Eva, de sete anos, reagiu: “Ué, bispo não é mais melhor que nós!” Esta uma lição que ele guardou. E sempre prati­cou, evitando privilégios e mordomias.

Fundador da Comissão Pastoral da Terra e do Conselho Indigenista Missio­nário, Casaldáliga admite que a sabe­doria popular tem sido a sua grande mes­tra. Indagou a um posseiro o que ele esperava para seus filhos. O ho­mem respondeu: “Quero apenas o mais ou menos para todos”. Pedro guardou a lição, lutando por um mundo em que todos tenham direito ao “mais ou menos”. Nem de mais, nem de menos.

Em setembro de 1985 viajei a Cuba com os irmãos e teólogos Leonardo e Clodovis Boff. Falámos com Fidel que dom Pedro se encontrava em Manágua, participando da Jornada de Oração pela Paz, e o líder cubano insistiu para que o trouxéssemos a Havana. Tão logo desembarcou na capital de Cuba, a 11 de setembro, o bispo foi conduzido di­re­ctamente ao gabinete de Fidel. Este mostrava-se interessado na literatura sobre a Teologia da Libertação. Dom Pedro observou com a sua fina ironia:

— Para a direita é preferível ter o papa contra a Teologia da Libertação do que Fidel a favor.

Na mesma noite, Casaldáliga dis­cursou na abertura de um congresso mundial juvenil sobre a dívida externa:

— Não é só imoral cobrar a dívida externa, também é imoral pagá-la, por­que, fatalmente, significará endividar progressivamente os nossos povos.

Ao reparar que os sapatos do pre­lado estavam em péssimo estado, o secretário de Fidel ofereceu-lhe um par novo de botas.

— Deixo os meus sapatos ao Mu­seu da Revolução – brincou dom Pedro.

Fomos juntos para a Nicarágua no dia 13. Ali Dom Pedro participou de inú­meros actos contra a agressão do governo dos EUA à obra sandinista e baptizou o quarto filho de Daniel Orte­ga, Maurice Facundo.

Na sua segunda viagem a Cuba, em fevereiro de 1999, Casaldáliga declarou em público, em Pinar del Río:

— O capitalismo é um pecado capi­tal. O socialismo pode ser uma virtude cardeal: somos irmãos e irmãs, a terra é para todos e, como repetia Jesus de Nazaré, não se pode servir a dois se­nho­res, e o outro senhor é precisa­men­te o capital. Quando o capital é neo­liberal, de lucro omnímodo, de mercado total, de exclusão de imensas maiorias, então o pecado capital é abertamente mortal.

E enfatizou:

— Não haverá paz na Terra, não ha­verá democracia que mereça resga­tar este nome profanado, se não houver socialização da terra no campo e do solo na cidade, da saúde e da educa­ção, da comunicação e da ciência.

Em 2003, ao completar 75 anos, Casaldágica apresentou seu pedido de renúncia à prelazia, como exige o Va­ticano de todos os bispos, excepto ao de Roma, o papa. Só agora, em 2005, o Vaticano nomeou-lhe um sucessor. Antes, porém, enviou-lhe um bispo que, em nome de Roma, pediu que ele se afastasse da prelazia, de modo a não constranger o novo prelado. Dom Pedro não gostou do apelo e, coerente com o seu esforço de tornar mais democrá­tico e transparente o processo de esco­lha de bispos, recusou-se a atendê-lo. O novo bispo, frei Leonardo Ulrich Steiner, pôs fim ao impasse, ao declarar que dom Pedro é bem-vindo em São Félix.


JJ. Tamayo Acosta (Teólogo ibérico)

João Paulo II e a Opus Dei

A relação entre Karol Wojtyla e a Opus Dei inicia-se nos anos sessenta do século passado, consolida-se na dé­cada seguinte e chega ao seu zénite nos anos 80-90, com a imparável as­cen­­são da Obra até à cúpula do Va­ticano, a partir de onde, após ocupar os mais influentes lugares de chefia, in­ter­veio activamente, primeiro, no planeamento e, depois, na execução do pro­cesso de restauração da Igreja cató­lica sob o protagonismo do Papa e a orienta­ção teológica do cardeal alemão Ratzin­ger.

Ao longo do último quarto de sé­culo, o catolicismo configurou-se à ima­gem e semelhança da organização de Escrivá de Balaguer. A Opus começou a mimar Karol Wojtyla, quando ele era arcebispo de Cracóvia. Como? Organi­zando viagens por todo o mundo para ele, convidando-o a participar em con­gres­sos da Obra em Roma e a proferir conferências no Centro Romano de En­contros Sacerdotais (CRIS).

Uma dessas conferências, dentro da mais pura tendência espiritualista da Opus, tinha por título, “A evangeli­zação e o homem interior”, e foi pro­nun­ciada em Outubro de 1974, no mes­mo ano em que Paulo VI publicava a encíclica Evangellii nuntiandi, que sublinhava a relação entre a evangeli­zação e a promoção humana. A sintonia foi fácil desde o início, já que partilha­vam a mesma ou parecida concepção da Igreja e da política: devoção maria­na, conservadorismo teológico, anti-comunismo, confessionalidade das ins­ti­tuições temporais, rigorismo moral, autoritarismo eclesiástico, etc.

Como demonstraram os “Discípu­los da Verdade”, na sua documentada obra “A sombra do papa enfermo”, a Opus planeou com grande precisão a estratégia para a eleição papal de Wojtyla, com a colaboração decisiva do arcebispo de Munique, José Rat­zin­ger, os cardeais norte-americanos próximos da Obra, J. Joseph Krol e J. Patrick Cody, e o arcebispo de Viena, cardeal Franz König, então entusiasta da Obra. O centro de operações da dita estratégia foi Villa Tevere, quartel ge­ne­ral da Opus Dei em Roma, onde Woj­tyla rezou diante do túmulo de monse­nhor Escrivá de Balaguer, antes de en­trar no conclave, do qual sairia Papa, e onde voltaria para rezar diante do ca­dáver de monsenhor Álvaro del Por­tillo, primeiro bispo da prelatura pes­soal.

Durante os seus quase 27 anos de pontificado, o Papa pôs em prática a concepção de Igreja própria da Opus Dei, sem nunca se afastar do guião, a não ser na questão social: desactiva­ção da linha renovadora do Concílio Va­ticano II, no qual ele, ainda arcebis­po de Cracóvia, tinha alinhado pelos sectores mais conservadores; cruzada anti-comunista frente aos partidários da chamada ostpolitik, posta em mar­cha durante o pontificado de Paulo VI; condenação da modernidade, na linha de Pio IX e Pio X, por a considerar ini­miga do cristianismo; “restauração” da Cristandade através da “nova evangelização”.

Tratava-se de um programa ma­ximalista que a Obra já tinha querido de­senvolver no Vaticano durante os pon­tificados de João XXIII e Paulo VI, mas sem êxito, já que não gozava da simpatia de nenhum deles. Com João Paulo II como Papa, sim, podiam levá-lo a cabo, já que, além de bom entendi­mento, havia convergência de objecti­vos, de interesses e de estratégia entre eles.

A Opus é uma organização católica elitista implantada em todo o mundo, com uma estrutura hierárquica rígida, enorme poder económico, disciplina fér­rea acompanhada de terminologia militarista (“uma milícia armada da me­lhor maneira para a batalha espiritual, graças a uma mais severa disciplina”), forte componente proselitista e tendên­cia doutrinal, ao jeito de “lavagem ao cérebro”. Por trás da sua aparente ima­gem laica, esconde-se uma organiza­ção clerical-eclesiástica.

Em seguida, começaram as nome­a­ções de eclesiásticos próximos da Opus, para postos chave do Vaticano. O espanhol Martínez Somalo, antes nún­cio na Colômbia, de tendência con­servadora com ligações directas à Opus, foi nomeado substituto da Se­cre­ta­ria de Estado, uma espécie de ministro da Presidência. O cardeal Pietro Palaz­zini, ligado à Obra, ocupou o cargo de prefeito da Congregação das Causas dos Santos, o que acelerou o processo de beatificação de Escrivá, iniciado em Maio de 1981, apenas seis anos depois da sua morte.

Um salto qualitativo no protagonis­mo da Opus dentro do Vaticano foi a no­meação como director do gabinete de imprensa da Santa Sé do médico espanhol Joaquín Navarro-Valls, mem­bro numerário da Obra, que contou com uma forte resistência na Cúria. O contro­lo opusdeísta do poder mediático da Igreja católica garantia o êxito do pro­grama restaurador do Papa polaco.

Na­varro-Valls agiu durante quase quatro lustros como a única e mais au­torizada voz do Papa e chegou a vetar a participação de determinados jorna­lis­tas nas viagens papais. Foi o caso de Domenico del Rio, do diário romano La Repubblica - acusado pelo director de L’Osservatore Romano de “rançoso, autista e sórdido anti-clericalismo” e de “novo integrismo radical-laicista” - que em Janeiro de 1985 se viu excluído do voo que levava João Paulo II à Venezue­la, Perú e Equador.

O controlo pleno do poder por parte da Opus produziu-se em 1990, com a nomeação de Angelo Sodano como secretário de Estado, uma espécie de che­fe de Governo do Vaticano, depois te ter sido aceite a demissão do car­deal Casaroli, da tendência liberal den­tro da Cúria.

Sodano tinha entrado no serviço diplomático da Santa Sé em 1961, foi nún­cio no Chile durante a ditadura de Pinochet e amigo pessoal do ditador, pre­parou cuidadosamente a viagem de João Paulo II ao Chile em 1987 - que se converteu num acto de legitimação re­ligiosa do general - e intercedeu jun­to do Governo britânico para que colo­cas­se em liberdade Pinochet e lhe per­mi­tisse regressar ao Chile, quando ele estava preso em Londres, devido ao pe­dido de extradição que o juiz es­panhol Baltasar Garzón fez. Entretanto, recordo aqui a resposta do mesmo car­deal Sodano no aeroporto de Barajas, quando foi confrontado pelos jornalis­tas com a secula­rização do teólogo brasi­lei­ro, L. Boff: “Não estranho; também entre os 12 apóstolos houve um trai­dor”. Vejam só: O franciscano Boff com­parado com Judas!

A influência da Opus fez-se sentir de modo especial na política de nome­a­ções de bispos, arcebispos e cardeais. Os bispos renovadores nomeados por Paulo VI ou na linha do Concílio Vatica­no II foram substituídos por hierarcas “da restauração” do pontificado de João Paulo II, que são a maioria hoje na I­gre­ja católica e ocupam as sedes epis­copais mais importantes e influentes da cristandade, tanto no Primeiro Mundo como no Terceiro Mundo.

Mas as duas actuações que ex­pres­sam bem a sintonia entre o Papa e a Opus foram a elevação desta à cate­goria de “Prelatura pessoal”, o que a con­­verte, para todos os efeitos, numa diocese supra-territorial, não sujeita à jurisdição dos bispos locais; e a canoni­zação de Escrivá de Balaguer. A primei­ra foi um facto sem precedentes em toda a história do cristianismo. A “milícia opusdeiísta” e os seus dirigentes res­pon­dem por seus actos apenas perante o Papa e perante Deus. Nenhuma outra autoridade pode pedir-lhes contas.

A mudança de estatuto jurídico da Opus teve uma ampla contestação den­tro da Igreja católica, não só entre os se­ctores progressistas, mas até na cúria e entre os bispos de todo o mundo, es­pa­nhóis incluídos, que foram os mais activos. E não era para menos. A deci­são “pessoal” do Papa era considerada perigosa para o ordenamento hierár­quico e para a unidade católica, já que mudava a obediência aos bispos pela submissão ao chefe de fila da Obra. Temia-se além disso que, uma vez sub­traída à obediência aos bispos locais, a Obra se convertesse numa seita. E o temor não demorou a ser realidade.

De então para cá, a Opus é e opera como “uma Igreja dentro da Igreja”. Para cúmulo, com Escrivá de Balaguer, “o Pai” e o fundador, elevado aos alta­res e convertido num exemplo a imitar! A canonização consumou-se com a opo­sição de amplos sectores católicos, cardeais incluídos, arcebispos e bispos, e num tempo recorde de 27 anos, en­quanto outras personalidades reconhe­cidas como santos pelo povo cristão, como João XXIII e monsenhor Romero ficavam para trás.

Enquanto o Vaticano enchia de fa­vores e de privilégios a Opus Dei, João Paulo II consumava actuações repressi­vas contra organizações e tendências eclesiais renovadoras. Duas das mais “badaladas” foram a “purga” da Com­pa­nhia de Jesus e a “campanha” con­tra a Teologia da Libertação que Tad Szulc, biógrafo de João Paulo II, rela­ciona estreitamente entre si. Esta última, personificada na admoestação pública a Ernesto Cardenal, ministro da Cultura do Governo sandinista, e nas condenações contra o teólogo brasileiro L. Boff.

O questionamento do Papa contra a Teologia da Libertação começou em 1979, na II Conferência do Episcopado Latino-americano e foi atiçada por mon­senhor Alfonso López Trujillo, secre­tá­rio geral, primeiro, e depois presi­den­te da referida Conferência e um próxi­mo da Opus Dei, com uma influên­cia crescente na Cúria romana, onde actualmente ocupa o cargo de presi­den­te da Congregação para a Família.

Na campanha anti-liberacionista da Teologia jogou um papel relevante a Opus Dei através de influentes teó­logos e bispos latino-americanos sim­pa­ti­zantes ou numerários, que margina­lizaram - e inclusive perseguiram - nas suas respectivas dioceses, leigos, sacerdotes, religiosos/as e comunidades de base, líderes comprometidos social­mente na luta contra a injustiça estrutu­ral, e denunciaram perante o Vaticano teólogos e teólogas da libertação.

Entre os mais fiéis ao fundador e mais críti­cos da Teologia da Libertação há que referir o cardeal Cipriani, arce­bispo de Lima, e monsenhor Sáenz Lacalle, arcebispo de S. Salvador.

A “purga” da Companhia de Jesus parece ter relação directa ou indirecta com a imparável ascensão da Opus no Vaticano. Quanto mais degraus subia na cúpula romana, mais se apertava o cerco aos jesuítas que, a partir da sua Congregação Geral XXXII (“decreto IV: Nossa missão hoje: Serviço da fé e promoção da justiça”), deram um giro co­pernicano nas suas prioridades e­van­ge­li­zadoras: compromisso com a justiça, diálogo com a secularização; e­vangelização libertadora; inculturação da fé.

O Papa proibiu ao padre Arrupe, superior geral da Companhia de Jesus a convocatória da Congregação Geral de 1981, onde ele pensava apresentar a sua demissão: “Não quero que con­vo­que esta Congregação nem que se demita, para bem da Igreja e para bem da sua própria Ordem”, disse-lhe de for­ma taxativa. Logo a seguir, em Agos­to do mesmo ano, Arrupe sofreu um gra­ve ataque, que João Paulo II apro­vei­tou para dar um golpe de mestre na Companhia de Jesus. Encarregou a direcção da mesma ao padre Paolo Dezza, jesuíta italiano octogenário, com a ajuda do padre Pittau, provincial da Companhia no Japão, ambos descon­ten­tes com a abertura de Arrupe.

Razões invocadas para a interven­ção papal? A confusão que os jesuítas estavam a criar no povo de Deus; a sua desmedida implicação na activida­de sócio-política, com a consequente perda da dimensão religiosa; o seu vínculo com a Teologia da Libertação, sobretudo na América Central; tendên­cias secularizantes no seio da Compa­nhia; formação excessivamente libera­cio­nista dos jovens jesuítas.

Subscrevo, a concluir, o que escre­veu Juan Arias, um dos melhores co­nhe­ce­dores do último pontificado: a his­tória dirá se Wojtyla foi o Papa da Opus Dei, ou se a Opus Dei foi quem prepa­rou os caminhos do arcebispo de Cracó­via, embora também possa acontecer que as partes da alternativa se­jam am­bas verdadeiras. O que eu penso é que Opus e Wojtyla contribuíram para esva­ziar as esperanças postas no Concílio Vaticano II duma reforma da Igreja, por parte de milhões de cristãos, crentes de outras confissões religiosas e não crentes. Com o concílio, a Igreja cató­lica iniciou um novo caminho ao ritmo da história e em chave de libertação. Mas a Opus e João Paulo II acabaram por inverter o sentido da marcha.


Frei Betto (Teólogo brasileiro)

À conversa com o Diabo

— Você existe mesmo?

— Ora, não se lembra do que disse o cardeal Ratzinger? “Para os fiéis cris­tãos, o Diabo é uma presença misterio­sa, mas real, pessoal e não-simbólica”.

— Talvez concorde com o último predicado.

— Por quê? – perguntou o Diabo.

— Porque símbolo [sim-bolos], reza a etimologia da palavra grega, é o que une, agrega. O antónimo é dia-bolos, o que desagrega. Desculpe a minha falta de fé.

— Em mim ou no cardeal?

— Nos dois. Na ausência de uma boa dúvida cartesiana, fico com Spino­za: se você, contra a vontade de Deus, induz os seres humanos a praticar o mal, e ainda nos condena à danação eterna, que diabo de deus é esse que o deixa impune e ainda permite que sejamos punidos por você? Afinal, você é inimigo ou cúmplice de Deus?

— Não esqueça, fui criado por Deus. 

— Não como demónio, mas como anjo, observei.

— Sim, agora sou um anjo decaído, pois fiz com que a primeira criatura, A­dão, se voltasse contra o Criador. Adão tornou-se cativo de meu reino. Jesus teve que morrer na cruz para o resgatar.

— Não me venha com esse papo de Mel Gibson, reagi. — Você bem sabe que Deus tinha o poder de arrancar A­dão do reino do mal sem precisar de mandar o seu Filho e deixar que sofres­se tanto. Qual é o pai que se compraz com o sofrimento do filho? Jesus veio ensinar-nos o amor como prática de justiça. E foi vítima da injustiça estru­tural que predominava em sua época, como ainda hoje.

— Deus tentou enganar-me. Man­te­ve em segredo o nascimento de Je­sus. Mas à medida que o Filho crescia, fui percebendo quão perfeito ele era. E quis tê-lo do meu lado.

— Você tentou seduzi-lo três vezes e quebrou a cara. Prometeu-lhe os rei­nos deste mundo, mas ele preferiu o de Deus; mandou que transformasse pe­dras em pães, mas ele não acedeu à primazia dos sentidos; quis vê-lo voar como os anjos, atirando-se do pináculo do Templo, mas ele optou pelas vias or­di­nárias, e não pelos efeitos extraor­dinários.

— Admito que não consegui dobrá-lo aos meus caprichos. Mas desenca­deei as forças do mal contra ele, até que morresse na cruz.

— Mas ele ressuscitou, venceu o mal, frisei.

— Sim, Deus enganou-me.

— Como assim?

— O homem Jesus era a isca na qual Deus escondeu o anzol da divin­da­de de Cristo. Quando percebi isso, era tarde demais.

— Por que Deus, em vez de sacrifi­car seu Filho na cruz, não matou você?

— Isso é um segredo entre mim e Deus.

— Não posso acreditar que Deus comparta qualquer coisa com você, co­mo as almas de seus filhos e filhas, e nem mesmo a existência. Ou acha que vou acreditar que a falta de Adão tenha sido mais grave que o assassinato do Filho do Homem na cruz?

— Eu sou a contradição de Deus, vangloriou-se o Diabo.

— Você já leu Robinson Crusoé? Lembra-se da “catequese” que ele ten­tou impingir a Sexta-Feira? Este inda­gou: “Se você diz que Deus é tão forte, tão grande, ele não é mais forte e mais po­deroso que o Diabo?” Crusoé confir­mou. Então Sexta-Feira concluiu: “Por que Deus não mata o Diabo para ele não fazer mais maldade?” Embaraçado, Crusoé fingiu que não ouviu.

— O que você responderia?, in­da­gou o Diabo.

— Diria que Deus não pode ma­tar o que não criou. Você é uma cria­ção das religiões arcaicas que dividi­am o mundo entre as forças do bem e do mal, o que a Bíblia rejeita, embo­ra alguns políticos actuais queiram justificar seus ímpetos bélicos e suas am­bi­ções imperialistas na base desse dua­lismo.

— Mas eu figuro na Bíblia!, exal­tou-se ele.

— O que não significa que de fa­cto exista, assim como Adão e Eva também estão citados lá e nunca exis­ti­ram. Adão significa “terra” e Eva, “vida”. A Bíblia, como um livro em lin­gua­gem popular, an­tro­pomorfiza con­ceitos abstractos. Ou você acha que Elias subiu ao céu num carro de fogo e que existe o dragão citado no Apo­ca­lipse?

— Então você não crê na minha existência? Como explica tanto mal no mundo?

— Você mente tanto e tão bem que até faz a gente tender a acreditar que existe. O mal é uma decorrência da li­ber­dade humana. Eternizar o cas­­tigo é eternizar o mal. Somos cha­mados a res­ponder livremente ao amor de Deus. E onde há amor, há li­berdade, inclusive de se fechar a Ele.

— E no inferno, você acredita?

— Fico com Dostoievski, “o inferno é a incapacidade de não poder mais amar”. Borges frisa que “é uma irre­ligiosidade” crer no inferno.

— Mas eu sou real, insistiu o Diabo.

— Deus não tem concorrente,  reba­ti. — Nós inventamos você para nos exi­mirmos das nossas responsa­bi­lidades e culpas, por nem sempre corresponder­mos ao que Deus espe­ra de nós.


Leonardo Boff (Teólogo brasileiro)

Corrupção e Poder

“O poder corrompe e o poder abso­luto corrompe absolutamente”. Esta é a famosa frase de Lord John Emerich Edward Dalberg-Acton (1843-1902) sempre citada em contextos de corrup­ção. De família aristocrática anglo-italo-alemã, foi professor de história em Cam­bri­dge. Católico e adepto do liberalismo, opunha-se duramente ao reaccionaris­mo do Papa Pio IX. A 5 de Abril de 1887 escreveu uma carta a seu colega Man­dell Creighton que havia publicado cin­co tomos sobre a história dos Papas do tempo da Reforma protestante. Aí mos­trou como eles, contrariamente aos prin­cípios cristãos, abusavam de sua posi­ção de poder e justificavam suas acções imorais apelando para a sua função re­li­giosa, pois, nas palavras de Dalberg-Acton “a função santifica o seu porta­dor”. Este facto levou-o a afirmar que o poder absoluto corrompe absoluta­men­te. Não sei se por pessimismo ou por realismo afirmava também: "Meu dogma é a geral maldade dos homens com autoridade”.

Como católico, o Lorde via na cor­ru­pção a presença do pecado original. Esta expressão, não a realidade, foi criada por Santo Agostinho em 416. Por ela queria expressar a visão bíbli­ca segundo a qual “a tendência do coração é má desde a infância”(Gn 8,21). Por esta razão, em lugar de pe­cado original a tradição cristã usava a expressão corrupção no seu sentido etimológico: ter um coração(cor) rom­pido(ruptus) ou simplesmente ser ho­mo corruptus.

O filósofo Kant não pensava outra coisa quando dizia metaforicamente: “somos um lenho torto do qual não se podem tirar tábuas rectas”. Em ou­tras palavras, há no ser humano uma corrupção básica que se manifesta maximamente nos portadores de po­der. Porquê exactamente neles? Nin­guém melhor que Thomas Hobbes para nos responder em seu Leviatã (1651): “assinalo, como tendência ge­ral de todos os homens, um perpétuo e irrequieto desejo de poder e de mais poder que cessa apenas com a morte; a razão disso reside no facto de que não se pode garantir o poder senão buscando mais poder ainda”.

Há, portanto, uma ligação estreita entre poder e corrupção. Corrupção é usar do poder em benefício próprio. O benefício pode ser dinheiro, influência, projecção, tratamento especial. Funda­men­tal é o segredo das transacções por­que são ou imorais ou ilegais. Usam-se passiva ou activamente presentes, pres­sões, fraudes, subornos e nepotis­mo. Corrupto é quem suborna ou aceita ser subornado para garantir benefícios para si ou para o partido ou para o go­ver­no. O ponto central é o abuso da po­si­ção de poder.

Como superar a corrupção? De prin­cípio, sempre confiar-desconfiando do ser humano, porque nunca é imune a abusar do poder. Nada de dar cheques em branco. Depois, evitar a concentração de poder. A divisão dos poderes foi pensada para evitar a corrupção pos­sí­vel. Em seguida, o controlo da socieda­de usando especialmente os multimedia. Exigir sempre transparência em todos os procedimentos. Por fim punir os cor­ru­ptos políticos com penas pesadas por terem cometido um delito especialmente grave que é lesar a colectividade.


Diário Aberto do Pe. Mário

Bento XVI: Sucessor de Pedro,
ou de César de Roma?

No dia a seguir à entronização do Papa Bento XVI, Jornal Fraternizar foi espreitar o sítio do seu Director (www.padremariodemacieira.com.sapo.pt) e encontrou lá

esta reflexão teológica no "Diário Aberto". Aqui a partilha tal e qual. Deixem-se escandalizar. E trabalhemos pelo advento duma Igreja outra, só de irmãs/irmãos.

Bento XVI foi ontem, domingo, 24 de Abril, entronizado como Papa. A cerimónia foi transmitida em directo pelas televisões urbi et orbi. Foi uma estopada de todo o tamanho, ao longo de quase três horas. Tudo se resumiu a mais uma missa super-solene con­ver­tida em mais um festival de vaida­des e numa manifestação de Poder eclesiástico monárquico absoluto, sau­dado e aclamado por muitas palmas de vassalagem da parte de muitos dos grandes deste mundo que não resisti­ram a marcar presença na cerimónia, e também da parte de muitos súbditos católicos (como pode haver ainda tan­tas católicas que aplaudem um papa, como este, quando ele as reduz à hu­mi­lhante condição de menores na Igre­ja, as discrimina e as atira para a margem, para a condição de zeladoras de altar, ou para a condição de cozinhei­ras e de serventes dos seus próprios aposentos, sem nunca as reconhecer como dignas de agir sacramental­men­te “in persona Christi”, concretamente, exercer o ministério ordenado de pres­bítero e de bispo?). Até o nosso pri­meiro ministro fez questão de ir a cor­rer colocar-se entre os grandes do mundo que lá estiveram e, como eles, também não resistiu ao preito de vas­sa­lagem, no final da missa, quando todos, em fila indiana, lha foram pres­tar. A cena não podia ser mais terrivel­mente eloquente e mais anti-Evange­lho de Jesus: o Papa sentado na sua cátedra dogmática e os grandes do mundo, um de cada vez, a cumprimen­tá-lo de pé (e vá lá que agora já não se usa ajoelhar-se diante dele e bei­jar-lhe os pés).

A cerimónia foi bem, do princípio ao fim, o que eu mais temia que fosse: uma manifestação de ostentação, de riqueza, de poder sem limites, de ido­la­tria de um homem, por isso, uma ce­ri­mónia feita de mentira, fonte de de­su­manização. Depois do que, ontem, nos foi dado a ver, temos que concluir que o Império romano continua vivo e recomenda-se. E os cultos religiosos do Paganismo que reclama(va)m as bênçãos e os favores das deusas e dos deuses para o seu representante máximo na terra, o imperador de Ro­ma, também. Mas é claro que tudo se apresentou travestido de Igreja, desta Igreja católica romana que temos. En­tre este festival católico romano de vaidades e os festivais que se organi­za­vam há 20 séculos, nesta mesma Roma, por ocasião da entronização dos imperadores, que diferenças ha­verá? Na essência, é tudo a mesma coi­sa. Nada se alterou. Por isso, o pa­pa, embora oficialmente se reclame de Jesus e de Pedro, é ao imperador de Ro­ma que ele efectivamente represen­ta. Com todo este fausto, exibido em di­recto pelas televisões urbi et orbi, ele continua a dar a César o que é de César, quando mentirosamente diz que está a dar a Deus o que é de Deus.

Entre Deus e César, a incompati­bi­lidade é total. Até Jesus, o de Nazaré, a Humanidade não conhecia esta Boa Notícia, este Evangelho, e era levada a pensar que entre Deus e César havia total coincidência, assim como entre o sumo sacerdote do Templo de Jerusa­lém e Deus. Jesus é quem nos revelou a mentira de tudo isto, a total incompa­ti­bilidade entre Deus e César, entre o sumo sacerdote e Deus. Exactamente como entre Deus e o Dinheiro, sempre que este é erigido como o Absoluto, ao qual se sacrificam e imolam as pes­so­as e os povos, tal como sucede actu­almente com as economias capitalistas e neo-liberais das multinacionais do nosso tempo. É certo que Jesus teve que pagar com a própria vida esta reve­lação, esta Boa Notícia, mas foi aí que teve início a radical libertação da Hu­manidade.

Por isso, Jesus se constituiu no nos­so Libertador mais radical e no nos­so Salvador universal. Por ele, com ele e nele, somos libertas, libertos para a liberdade, na medida em que ousamos acolher a Luz/a Verdade que ele é e, sobretudo, na medida em que ousamos ser mulheres, homens do mesmo jeito dele, e agir em todas as nossas cir­cuns­tâncias como ele agiu nas dele. O que, infelizmente, ainda não é assim tão frequente, na Humanidade em geral. Ou a liberdade para a qual Jesus nos libertou, não seja a dimensão da vida humana mais difícil para os seres humanos. Efectivamente, do que as pes­soas e os povos gostam, ainda agora, é sobretudo de Segurança e de “Al­guém, ou de Alguma Coisa que nos do­mine”, como tantas vezes se ouve por aí de bocas humanas. E do que as pes­soas e os povos têm mais medo é da Liberdade. E da Responsabilidade que dela decorre.

Nada em Bento XVI, no decorrer desta cerimónia, nos fez lembrar Jesus, o de Nazaré. Tudo nos fez lembrar Cé­sar de Roma, o imperador. Até aquelas suas palavras, na homilia, que os co­mentadores dos media, ingenuamente se apressaram a classificar como uma pública expressão de humildade. Nada disso. O Poder nunca pode ser humilde. Poder e Humildade são sempre incom­pa­tíveis. A humildade é própria de mu­lhe­res, de homens. Nunca do Poder, muito menos do Poder eclesiástico cató­lico romano.

Quando Bento XVI pediu que re­zás­semos por ele, mais não fez do que repetir o que sempre fazem os pode­rosos do mundo que, como se sabe, nunca são ateus, mas deístas. Só que o Deus que invocam é uma projecção deles próprios, uma espécie de alter ego deles, lá longe, nos infinitos céus. Porque o Deus a sério, aqui na Terra, são eles, que põem e dispõem da vida dos seus súbditos a seu bel-prazer. Não é isto que faz, hoje, o presidente Bush, com o aval dos demais poderosos do mundo? Não é isso que fazem os Pa­pas de Roma, sobretudo, nos domínios da consciência das pessoas e dos po­vos? Quando Bento XVI pede para re­zar­mos por ele, é para que ele leve por di­ante e por muitos anos a função em que aceitou ser investido, e que até Deus esteja ao seu serviço. Fossem hu­mildes estes homens da Igreja e de imediato renunciariam a essa função, as­sassinariam o Poder. Seriam anti-papas. Se a Humanidade não pode vi­ver sem Política, já pode muito bem viver sem Poder. É o Poder é que nos impede de crescermos como pessoas livres e responsáveis e de sermos huma­nos. Inclusive, o Poder apodera-se da Política e não nos deixa ser protago­nis­tas na História. Sempre nos reduz à condição de seus vassalos, seus ser­vos, seus súbditos, seus fiéis incondi­cionais.

Não é assim a Humildade. Onde ela estiver, sempre diminui, para que as pessoas e os povos cresçam. Essa é a sua alegria. Essa é também a ale­gria de Deus, do Deus de Jesus. Do Deus dos poderosos, também do Papa, a alegria maior é a humilhação das pessoas e dos povos, que é o que os poderosos sempre fazem. O Papa João Paulo II, por exemplo, não cresceu até à idolatria mais aberrante de milhões e milhões de súbditos em todo o mun­do, ao mesmo tempo que humilhou até ao abismo dos abismos teólogos da li­bertação, como o franciscano de gema que é o nosso querido Leonardo Boff? Di­zem alguns, agora, que não foi ele quem assim agiu com L. Boff, mas o Pre­feito para a Congregação da Doutri­na da Fé, cardeal Ratzinger, agora Bento XVI. Como não foi ele? Acaso algum dia João Paulo II destituiu Ratzin­ger dessas funções e correu ao Brasil abraçar o teólogo humilhado e reduzi­do ao silêncio? Pelo contrário, não san­­cionou todas as decisões de Ratzin­ger e, finalmente, antes de morrer, não suge­riu o nome dele para seu suces­sor?

Em determinada altura da sua homilia, Bento XVI ainda disse que são os crucificados que redimem o mundo, não os crucificadores. Esta afirmação faz parte da Boa Notícia de Deus, do Evangelho de Jesus. Mas que importa esta afirmação, se é dita por ele, o ho­mem do Poder eclesiástico católico ro­mano? Também o sumo sacerdote Cai­fás, do país de Jesus, profetizou, a pro­pósito da acção subversiva e radi­calmente libertadora deste, que era melhor morrer um só homem pelo povo, do que perecer a nação inteira. Porém, não reza a História (e o Evangelho de João) que foi ele, na sua condição de sumo sacerdote, o Poder, portanto, que nos dias seguintes, negociou com Pila­tos e fez morrer de imediato Jesus na cruz? Que importa que Bento XVI tenha proferido aquela afirmação, como par­te constitutiva do Evangelho de Jesus, se, entretanto, continua aí como monar­ca absoluto e, por isso, como um cruci­fi­cador? Só os do Poder são crucifica­dores. Todos os mais são suas vítimas, crucificados, duma ou de outra maneira. À luz daquela afirmação de Bento XVI, temos que dizer que o humilhado/cru­cificado Leonardo Boff está a redimir a Humanidade, enquanto que o seu verdugo, agora Papa entronizado, seu crucificador, está a desgraçar a Huma­nidade. São os L. Boff de todo o mun­do, as vítimas humanas de todo o mun­do, que redimem/humanizam a Huma­nidade, não os poderosos, seus verdu­gos, vistam de presidente dos EUA, ou de Papa!...

E que dizer da solene investidura do pálio e do anel petrino? Vaidade das vaidades e tudo é vaidade! São assim os crucificados? Ou os crucifica­dores? O próprio Bento XVI deixou a sua boca fugir para a verdade, quando, ao tentar explicar o simbolismo de um e de outro, reconheceu que o pálio nos ombros dos Papas de Roma, é uma insí­gnia de Poder que remonta ao sé­cu­lo IV. Só lhe faltou acrescentar que tal se ficava a dever ao imperador de Roma, certamente, como uma das múl­tiplas compensações com que ele agra­deceu à Igreja católica a aliança que ela fez com o Império romano. Por outras palavras, o pálio faz parte dos “30 dinheiros” da traição da Igreja!... Por sua vez, ao anel com a efígie de Pedro e as chaves, chamam-lhe “anel petrino”. Mas a quem é que Bento XVI e os homens da Cúria Romana pensam que enganam? Acaso Pedro, depois que se converteu a Jesus e ao seu pro­jecto do Reino/Reinado de Deus, foi a correr gravar um anel para deixar aos seus sucessores? Mas Pedro alguma vez teve sucessores? Acaso a Igreja de Je­sus é uma monarquia? Pior, uma mo­nar­quia absoluta? Mas então, se é uma monarquia absoluta, a Igreja é uma Igre­ja de crucificados ou de crucificado­res? Quem manda gravar em exclusivo anéis petrinos ou outros, para assinalar o seu poder sobre os demais, só pode ser do número dos crucificadores, não dos crucificados.

Também não posso esquecer a insistência com que, mais uma vez, se falou no decorrer desta cerimónia, do “poder das chaves”. Do “poder de ligar e de desligar”. Trata-se de um poder do Papa sobre o próprio Deus! É mes­mo uma obsessão eclesiástica, nomea­da­mente, dos seus chefes maiores e mesmo dos clérigos em geral, párocos incluídos. É uma doença. Uma esquizo­fre­nia. Neste contexto, vir depois dizer, como Bento XVI disse, que, como Papa, é “o servo dos servos de Deus”, só pode ser escutado pela Humanidade ilustra­da e evangelizada como anedota, co­mo uma afirmação de humor negro!... Ou talvez não, mas então o Deus a que se refere a afirmação não é o Deus do Servo Sofredor de Javé, paradigmatica­mente protagonizado por Jesus crucifi­cado, mas o Deus do Império Romano e da Cúria Romana, sua sucessora, por isso, o Deus dos crucificadores! Só o servo dos servos de um Deus assim pode viver em semelhante luxo, em se­melhante fausto, como esta cerimónia revelou ao mundo. Mas nada disto tem a ver com Jesus e o seu Evangelho. As discípulas, os discípulos de Jesus, não cuidam nunca em ser servos dos servos de Deus. Basta-lhes, para serem os mais humanos dos seres humanos, ser servos dos servos das mulheres e dos homens, a começar pelos mais empobrecidos e mais oprimidos.

Finalmente, uma palavra sobre a exe­gese bíblica que Bento XVI fez na sua homilia. O Evangelho que foi pro­cla­mado na cerimónia litúrgica foi ex­traí­do do apêndice do Evangelho de S. João. Por isso, embora apresente Pe­dro e mais seis companheiros na faina da pesca e, concretamente, refira a pes­ca de 153 grandes peixes, e faça conver­gir toda a acção teológica para uma comida eucarística que acontece na praia, imediatamente antes de Jesus se dirigir a Pedro com aquela pergunta, três vezes repetida – “Tu amas-me mais do que estes?”, nunca este relato, para ser correctamente interpretado, pode ser posto em relação com o relato de outra pesca, concretamente, com a­que­le que aparece no Evangelho de S. Lucas, que também tem Pedro como principal protagonista. O episódio com que teria de ser relacionado é com uma outra comida de pão e peixe, nas mar­gens do Lago de Tiberíades, também relatada pelo mesmo Evangelho de S. João, no extenso capítulo 6. Deste mo­do - é assim que se há-de proceder exe­geticamente no respeito pela Pala­vra de Deus - a mensagem que salta da relação entre estes dois relatos é totalmente distinta daquela que o Papa fez ressaltar na sua homilia! Mas ao Papa Bento XVI, o que nesta circuns­tân­cia concreta lhe interessava, era ressaltar o “Poder” que Jesus teria con­fiado a Pedro e, nele, é claro, a ele próprio, Bento XVI. E para isso, nem sequer hesitou em trocar as voltas à exegese!

Só que no meio de tudo isto, o Papa esqueceu-se dum pormenor que faz toda a diferença. E qual é? É que Jesus nunca teve poder nenhum para confiar a ninguém! Jesus foi a vítima maior do Poder. Como poderia então confiar a Pedro o que ele próprio nun­ca teve e até considerou como algo de­moníaco e que sempre recusou ao longo da sua missão histórica? O que o relato do Evangelho de João que foi proclamado nesta cerimónia de entro­ni­zação de Bento XVI quer ressaltar é que Simão (Pedro), ao contrário do que sempre têm dito e repetido todas as ca­te­queses católicas, também esta ho­mi­lia de Bento XVI, só naquele momen­to final, portanto, bastante tempo de­pois da morte crucificada de Jesus e da Fé no Ressuscitado Jesus, deu a sua adesão pessoal a Jesus e ao seu projecto político do Reino de Deus. Só por isso é que o relato evangélico con­clui com aquela palavra de ordem de Jesus: “Segue-me!”, a qual, no Evange­lho de S. João, nunca antes havia sido dita por Jesus a Simão Pedro.

Deste modo, meu caro Bento XVI, tudo é distinto do que tu disseste urbi et orbi, neste dia da tua entronização como Papa. O que disseste é mentira, a juntar a tanta outra mentira que tem sido ensinada como verdade, ao longo destes últimos dezasseis séculos de Igreja católica romana. Sabes bem que, no princípio, com Jesus e as comunida­des cristãs que nos legaram o Evange­lho de S. Marcos, não foi nada assim. Poder, foi coisa que nunca entrou na Igreja de Jesus, enquanto ela foi sim­plesmente comunidade de comunidades de irmãs e irmãos, em radical igualda­de. Muito menos, o Poder de um só homem sobre todos os demais. Isso é demoníaco, meu irmão! E temos todas, todos que lhe resistir. Tu também. Em nome de Jesus. Em nome do Evange­lho!

Mas não é mentira apenas o que tu disseste durante a tua entronização. É mentira também tudo aquilo que fizes­te e mostraste no decorrer da cerimó­nia. Isto, é claro, se quisermos fazer passar a mensagem, como é notório que tu quiseste, que o Evangelho de Jesus é por aí que vai. Não é! Sabes bem que não é. O que vai por aí é o anti-Evangelho do Império romano e de todos os demais impérios. Por isso, o que a tua entronização mostrou ao mundo foi o poder e poder absoluto, o fausto, a tirania, a opressão, o dogma­tis­mo, o patriarcalismo, a vaidade, o luxo, a corte do Império Romano e, agora, também da Igreja católica romana, sua sucessora. Por isso, as pessoas que lá estiveram presentes e os muitos mi­lhões de pessoas que terão assistido via tv em todo o mundo, entre as quais também eu me incluo, ficámos tristes e oprimidos. A menos que tenhamos esta­do vigilantes (foi assim que procurei estar), como aquelas “virgens sábias” da parábola do Evangelho de S. Ma­teus. E como o próprio Paulo de Tarso, no princípio da Igreja, quando entre os antioquenos (cf. Gálatas 2, 11-14), co­rajosamente, resistiu a Pedro na cara, quando ele começou a meter os pés pelas mãos, no intuito de agradar aos ju­dai­zantes, em lugar de se manter fiel à Verdade do Evangelho que liberta.

Esta tua entronização, querido Pa­pa Bento XVI, foi concebida e realizada para te aclamar como o maior, como o monarca absoluto da Igreja! Por isso, todas as pessoas que não lhe tiverem resistido e, pelo contrário, se tiverem deixado levar pelo envenenado sopro que nela se fez sentir, terão passado a ser teus súbditos, teus vassalos, teus servos, quando, pelo menos em Igreja, todas, todos devemos ser simplesmente irmãs, irmãos, em radical igualdade. Per­doa, por isso, que te diga, mas com esta tua entronização, tu foste para o mundo o rosto do Império de Roma, e da Igreja católica romana que lhe sucedeu, não foste, em momento algum, o ros­to de Jesus. Nem mesmo, quando Par­tiste o Pão e Derramaste o Vinho em memória de Jesus. Pela simples ra­zão de que Jesus é o Crucificado em comunhão com todos os crucificados da Terra e tu, nesta tua entronização, vestiste a roupa e assumiste o papel de todos os crucificadores.


Bispo Pedro Casaldáliga

É mais uma Circular

Durante toda essa maré eclesiásti­ca (morte de João Paulo II, eleição de Bento XVI, nomeação do novo bispo de São Félix do Araguaia), temos recebido aqui, na Prelazia, muitas cartas, muitas mensagens, de solidariedade. E tam­bém, com elas, perguntas, indignadas ou ansiosas e declarações de amizade e de esperança, a pesar de certos pe­sares...

Em meu nome pessoal e em nome desta pequena Igreja, agradeço a to­dos, a cada um, a cada uma. Somos co­munhão e a inter-solidariedade nos alimenta na caminhada.

Temos um novo papa. Já se tem falado muito sobre o assunto. Papa é Bento XVI e com ele seguirá a Igreja, que é maior que o papa e seguirá, so­bre­tudo o Reino de Deus, que é maior que a Igreja. Sejamos corresponsáveis, fielmente livres, militantes da Grande Esperança.

Socialmente falando, frente a essa nefasta política neoliberal, contra todas as ditaduras da economia e das armas e da mentira, prossigamos com a nossa diária e comunitária participação. O Espírito do Ressuscitado nos acompanha e nos impulsiona e é a nossa garantia.

Aqui, em São Félix, o irmão bispo, Leo­nardo Ulrich Steiner (fotos), chegou muito franciscanamente e já começou a mergulhar na vida do povo. Sua pri­meira visita pastoral foi a Ribei­rão Cas­calheira, onde está o Santuário dos Már­tires, aos assentamentos de pos­seiros de Querência e à aldeia Xa­vante Marãwatsedé acuada pelos inva­sores e num lerdíssimo processo judi­cial.

Um sertanejo me fazia do bispo Leonardo este elogio maior: “O novo bis­po é um homem natural”. É o melhor modo de ser sobrenaturalmente evan­gé­lico... Na solene missa da posse, em nome desta Igreja que ele assumia, eu lhe dei um anel de tucum, símbolo da aliança com as causas da Prelazia de São Félix do Araguaia: A opção pelos Pobres, a Terra, os Povos Indígenas, as Comunidades de fé, corresponsá­veis e comprometidas, a Inter-solidarie­dade, a Pátria Grande... E recebeu tam­bém Leonardo três chaves emblemáticas: a da Catedral (matriz da Prelazia), a do Arquivo (símbolo da Memória, so­bre­tudo do Martírio) e a da Administra­ção (símbolo da partilha solidária na pobreza).

Estamos felizes, numa comunhão cres­cente e numa inamovível esperan­ça. E continuaremos contando com to­dos e todas vocês, com cada um, com cada uma. Sempre caminhando para esse Outro Mundo Possível, construindo essa Igreja Outra, levados pelo vento do Espírito, Reino afora.

Como a gente diz aqui, damos a todos, todas, um beijo no coração. E a paz d’Aquele que é a nossa paz.

Pedro Casaldáliga


Outras Cartas

Jornal Fraternizar:
um desassombro que me delicia

E-mail. Ronaldo: Caro Padre Mário de Oliveira: Quero enviar-lhe as mi­nhas felicitações pelo último número do nosso Fraternizar. Como sempre, trata de temas da maior relevância na perspectiva da luta dos povos por um mundo mais humano, livre da explora­ção e da alienação. Porém, nesse nú­me­ro há que realçar (além das habitu­ais e valiosas contribuições de Manuel Sérgio, Frei Betto, Leonardo Boff, etc) as duas importantes contribuições de D. Pedro de Casaldáliga e de Ernesto Cardenal. Eles são não apenas dois sím­bolos, mas dois pilares da luta revo­lucionária dos povos latino-americanos, na tradição do saudoso padre Camilo Torres.

A referência que o jornal faz ao forum da teologia da libertação em Por­to Alegre é também muito importan­te e só é pena que não haja espaço para publicar as comunicações e deba­tes deste forum. Talvez fosse possível ir pu­blicando uma de cada vez.

Mas o certo é que o Fraternizar ne­cessitaria de ter outra periodicidade. Para isso seria importante que a gran­de maioria dos assinantes do Le Monde Diploma­tique se tornasse também assi­nante do Fraternizar, cujo papel escla­recedor e pro­gressista vai num sentido conver­gente.

Pessoalmente (como marxista e não-crente) penso que as convergên­cias entre o marxismo (vivo, dialéctico, revolucionário, não dogmático) e a Te­o­lo­gia da Libertação são muito mais importantes e fecundas do que as di­ver­gências. Bastaria referir que este ramo interpretativo do cristianismo (porventura o mais profundo) aceita como fundamental o papel das massas tra­balhadoras na história, aceita a luta de classes (e não aquela caridade que humilha) como um meio legítimo e ne­ces­sário para que as massas humanas oprimidas alcancem a sua libertação contra as elites opressoras e o imperia­lis­mo.

Ora, essa é também a base funda­mental da concepção marxista da his­tória da sociedade humana e a sua perspectiva de superação de todo o ti­po de opressão.

Lenine, nos seus “Cadernos sobre a Dialéctica de Hegel” já referia o mar­xismo como um entrelaçamento dialé­ctico e mutuamente fecundante entre o “materialismo inteligente e o idealis­mo inteligente”, criticando o materialis­mo primário e mecanicista. O diálogo entre cristãos e marxistas continua a frutificar na América Latina e o MST (Movimento dos Sem-Terra) é disso um exemplo.  Um forte abraço e continua­ção de bom trabalho.

Sertã. L. Pires: Aqui fica o paga­mento em atraso da assinatura do FRA­TERNIZAR, que suponho ser referente aos anos 2004 e 2005. Os restantes 10 euros são para o Barracão de Cul­tura. Não é muito, mas sei que poderão ser úteis.

Conheço e leio o FRATERNIZAR há alguns anos (cinco). Leio, hoje como sempre, com um desassombro que me de­licia e ajuda a ter um pouco de espe­rança. Desta vez, o artigo sobre a Ve­ne­zuela elevou-me o espírito – o es­piritual e o prático. Sabe? É que nin­guém fala assim da Venezuela e eu até pensava que Chávez  era um lunático… Afinal, ainda há quem trabalhe com prazer.

Tenho pouco a dizer: sou mais uma daquelas pessoas que tentou, batalhou, acreditou em projectos de humanidade de mãos dadas, onde a distribuição da riqueza era igualitária, os “bons” aju­da­vam os “menos bons” a crescer para a autonomia e o conhecimento que contribuísse para a diminuição da po­breza. Pouco a pouco fui desistindo e sofrendo, diga-se. Hoje, não tenho ou­tra religião que não seja a das dúvidas e, embora pratique o não fazer mal, estou mais calada, mais silenciada. Por isso a minha admiração – não o consegui­ram calar. Prossiga, por favor! Com muito afecto,

Lourosa. Victor Neves: Que felici­dade senti ao ler no “nosso” Jornal n.º 157, de Abril/Junho, a reportagem de Ernesto Cardenal, VENEZUELA, A REVOLUÇÃO SILENCIADA!... É mara­vilhoso que o FRATERNIZAR tenha contributos deste nível, os quais põem a nu aquilo que o Poder económico in­ter­nacional tenta por todos os meios ao seu alcance silenciar. Que mara­vi­lha ficar a ter conhecimento que a go­vernação de Hugo Chávez tem visado os mais humildes dos cidadãos vene­zue­lanos! No campo da saúde, onde dos 25 milhões de habitantes, 17 mi­lhões estavam excluídos.

Na era Chávez, 85% da população tem acesso à saúde pública. Nos pontos mais recônditos da Venezuela, há serviços médicos com a respectiva as­sis­tência, tudo de graça para todos; nos mercados populares onde os bens es­senciais são 40% mais baixos; haver farmácias com medicamentos 85% abai­xo do preço; no campo da educação, a alfabetização para milhão e meio de analfabetos, enquanto que no anterior regime qualquer tipo de ensino estava fora do alcance dos pobres.

Na era Chávez, 13 milhões de ve­ne­zuelanos estão a estudar; a naciona­li­­zação do petróleo: que alegria me deu o que dizia aquela mulher: “o pe­tró­leo já é dos venezuelanos, nadáva­mos em petróleo e não sabíamos o preço do barril”; os militares do tempo de Chávez, tal como ele, eram pobres. É ver a sua postura na sociedade! Não há preso político na Venezuela! Que bom saber isso! Pois quando o ser hu­mano não esquece as suas origens, tem uma postura outra no seu quotidiano. E quando exerce funções públicas, ele põe em prática a justiça, sobretudo de forma a ter em conta os mais pobres! Não foi isto que Jesus nos deu como tes­temunho?

Outras considerações havia a fazer. Refiro só mais esta: A professora em Es­panha que perguntava como é que sendo ela professora universitária não sabia nada da revolução na Venezue­la? Também a mim me surpreendeu a res­posta que lhe foi dada pelo Padre Ernesto Cardenal: que era por causa das fontes de informação que ela tinha, visto que 9 transnacionais da informa­ção produzem 90% da informação mun­dial. É obra!

Logo é mais que óbvio os interes­ses que estão por trás de tudo isto, já que os filhos das trevas são mais esper­tos que os da luz. Pois os gran­des mo­nopólios internacionais não estão nada interessados que esta men­sa­gem da realidade venezuelana da era Chávez passe para a opinião públi­ca mundial, pode-se pegar!...

Daí a esperteza dos senhores dos grandes impérios que tudo fazem para sufocar todas as iniciativas que visem ter em linha de conta os sem-voz e sem-vez, dan­do-lhes condições para uma vida digna e vida em abundância, segundo ele, Jesus Cristo.

Estes senhores não podem, não con­seguem viver sem pobres à face do planeta Terra. Há todo o interesse e em­­penho da parte desses senhores em mantê-los vivos na sua maior pobre­za e na mais ínfima miséria, visto que as­sim eles conseguem reinar. Logo, eles não poupam, não perdoam a todo a­que­­le que ouse ter o atrevimento de contribuir para a sua abolição.

Mas bem-hajam todos os poucos que ousam pautar a sua conduta no quo­tidiano por esses caminhos. Já que é dele: Bem-aventurados sereis todos vós, quando por minha causa vos insul­tarem, vos caluniarem e contra vós dis­serem toda a espécie de mal. Alegrai-vos e exultai, que é grande nos céus a vossa recompensa. E também é dele: Ai de vós, quando todos disserem bem de vós.

Bem-haja quem anda por estes ca­minhos. Pessoalmente, continuo no es­forço quotidiano por lhe ser o mais fiel possível, visto que é ele quem me dá o ânimo e o alento suficientes para pros­seguir na caminhada.

Coragem, Mário. Sempre em frente. Um abraço fraterno.


DOCUMENTO

Reflexão teológica de Pablo Richard (Doutor em Bíblia e em Sociologia da Religião, director do DEI, Costa Rica)

Crise irreversível na Igreja Católica

Desde há bastantes anos que o teólogo PABLO RICHARD é amigo do Jornal Fraternizar. O "documento" que aqui se apresenta foi enviado directamente por ele para as nossas leitoras, os nossos leitores em Portugal. Leiam-no com o carinho e a atenção que só as amigas, os amigos são capazes. Verão que é uma reflexão cheia de Espírito Santo e de Fé.

Introdução:

A eleição de José Ratzinger como sucessor de João Paulo II mostrou final­mente onde está e qual é a crise que a Igreja católica realmente vive, mas ao mesmo tempo clarificou qual é a nossa proposta positiva para construir uma nova maneira de ser Igreja.

Na actualidade, há dois modelos ou duas maneiras diferentes de ser Igreja. “A Igreja” é apenas um conceito teológico que não existe na realidade; o que existe historicamente são mode­los, tendências ou maneiras diferentes de ser Igreja. De forma simples e provi­sória, poderíamos distinguir hoje uma maneira conservadora de ser Igreja e outra maneira diferente, alternativa, li­ber­tadora. Não falamos aqui de duas Igre­jas, mas de duas maneiras ou dois mo­delos no interior da mesma Igreja Católica.

A interpretação crítica que aqui proponho da eleição do Cardeal Ra­tzin­ger como Papa é que esta foi pla­neada especialmente para dar conti­nuidade aos 26 anos do pontificado do Papa João Paulo II. O teólogo Ratzin­ger, braço direito de João Paulo II para questões doutrinárias e Prefeito duran­te 23 anos da Congregação para a Doutrina da Fé, é eleito para dar con­ti­nuidade teológica e dogmática ao mo­delo construído por João Paulo II. O mais importante na minha interpretação é que esta continuidade entre João Paulo II e Bento XVI confirma e torna evidente uma crise irreversível e final do actual modelo conservador de Igreja.

Crise “irreversível” significa uma crise que já não pode ser ultrapassada com reformas parciais ou com mudan­ças puramente teológicas ou de lingua­gem. Uma crise irreversível é uma crise final. Não há marcha atrás, o seu aper­feiçoamento só consegue apressar a sua morte.

Toda a tendência conservadora ou o processo de contra-reforma na Igreja gera a longo prazo uma Igreja em es­ta­do permanente de crise. Não sabe­mos quanto tempo durará a crise. Nem é importante, pois no interior da própria Igreja podem verificar-se duas tendên­cias ou maneiras diferentes de ser Igre­ja: uma conservadora em processo permanente de crise e outro modelo alternativo e libertador de Igreja que cres­ce com a sua força espiritual e pro­fética que lhe é própria. Os dois mode­los não são paralelos, mas entrecru­zam-se. A crise irreversível de um mo­delo determinado de Igreja não impede que surja outra maneira de ser Igreja. Haverá tensões, mas não necessaria­mente divisões. Quanto mais consciên­cia temos que a crise da Igreja actual é já irreversível, tanto mais evidente se torna a necessidade de construir uma nova maneira de ser Igreja e dis­cernir qual é a força que temos para a construir.

Creio que a eleição (designação) de Ratzinger como Papa foi uma deci­são errada, motivada pela necessidade de dar continuidade ao projecto ecle­sial já existente e motivada também pelo medo ao “relativismo”. Como o pró­prio cardeal Ratzinger disse na sua homilia no início do conclave, existe o perigo que a Igreja ande à deriva, arrastada por qualquer vento de dou­trina. É já um sinal de crise que a elei­ção de um Papa tenha sido por uma necessidade de continuidade e por medo à autêntica diversidade e à plura­lidade.

A minha proposta positiva e cons­trutiva, neste momento de crise irrer­sível da Igreja católica, é a possibi­lidade real de construir outra maneira de ser Igreja, outro modelo de Igreja, alternativo e libertador, no interior da Igreja ctualmente existente. Temos a força teológica e espiritual suficiente para construir essa nova maneira de ser Igreja. Não creio que a solução seja sair da Igreja, mas criar uma nova maneira de ser Igreja no interior dela. A motivação para continuar a lutar dentro da Igreja não é o medo a a ne­ces­sidade, mas a responsabilidade pas­to­ral de caminhar com o povo pobre e excluído, para o qual muitas vezes a Igreja é a sua única esperança. Seria muito fácil abandonar agora a Igreja, quando o Povo de Deus mais do que nun­ca carece de Teólogos da liberta­ção e de Pastores comprometidos. O próprio Povo de Deus tem esta intui­ção: quando estávamos a celebrar no dia 2 de Abril o 25º aniversário de Mons. Romero, alguém disse: “Morreu um Papa, mas ressuscitou um Profeta no povo salvadorenho.”

A minha interpretação negativa da eleição de Ratzinger como Papa pode ser apelidada de radical. A minha pro­posta positiva de construir uma nova maneira de ser igreja no interior da Igreja actual, pode ser apelidada de utópica. Não importa, pois muitas vezes a radicalidade e a utopia andam juntas.

João Paulo II e Bento XVI: Crise irreversível na Igreja Católica

É uma constante na história do Cristianismo a confrontação entre mo­vimentos de reforma e contra-reforma no interior da Igreja. O Concílio Vati­cano II (1962-1965), interpretado por nós a partir das Conferências Gerais do Episcopado latino-americano em Me­dellín (1968), Puebla (1979) e Santo Domingo (1992), constitui um autêntico mo­vimento de reforma na Igreja Ca­tólica.

Com João Paulo II /1978-2005) e ago­ra com maior razão com José Ra­tzinger, chamado Bento XVI, está a con­solidar-se uma clara tendência de con­tra-reforma na Igreja. De modo se­me­lhante, no passado, deu-se uma con­tra­dição entre a reforma protestante (Lutero 1483-1546) e o Concílio de Tren­to (1545-1563), um concílio de contra-reforma, aperfeiçoado posterior­mente pelo Concílio Vaticano I (1869-1870). O Papa João XXIII, com a convo­cação do Concílio Vaticano II, rompeu com estes 400 anos de contra-reforma e propôs um novo programa de reforma da Igreja.

O que dizemos da Igreja, podemos dizê-lo também da assim chamada “ci­vilização ocidental e cristã”, confron­tada na actualidade com o oriente não-cristão. Esta situação agudizou-se com a guerra preventiva do ocidente “cris­tão” contra o Iraque islâmico e a sua ameaça constante contra todos os po­vos orientais não cristãos. Esta crise de civilização por sua vez nota-se na realidade ainda maior de um Império, cujo centro está nos Estados Unidos. O Império mais poderoso do mundo iden­tifica-se explicitamente a si próprio como um “Império cristão”. O seu presi­dente foi eleito por uma maioria cristã, tanto evangélica como católica. A his­tória ensina-nos que o triunfo de um Im­pério Cristão significou sempre o fra­casso do Cristianismo.

O que provoca a crise do modelo con­servador da Igreja na situação actu­al é, em primeiro lugar, o seu eurocen­tris­mo. Para João Paulo II, a Europa “con­verteu-se no grande centro da evan­gelização do mundo e, apesar de todas as crises, não deixou de o ser até hoje” («Memória e Identidade», p. 132). O Papa insiste no carácter cristão da Europa contra o facto evidente da sua acelerada descristianização.

É desconcertante a notícia de que o Cardeal Ratzinger se opõe à entrada da Turquia na União Europeia. A razão é simples: ele não quer que os muçul­ma­nos invadam a Europa “cristã”. É muito difícil para nós, latino-americanos, aceitar que a Europa seja, segundo João Paulo II, o centro da evange­li­za­ção do mundo, não só no passado, mas também no presente. Não podemos esquecer que o cristianismo chegou à América e Caribe com a expansão do colonialismo europeu. Não negamos os méritos da Evangelização, os seus mis­sionários e os seus profetas, mas não podemos esquecer que o colonialismo europeu saqueou os nossos recursos naturais, destruiu cruelmente os nossos povos indígenas e na actualidade con­de­na-nos à morte através do paga­men­to injusto da dívida externa e do neo-colonialismo das companhias transna­cio­nais.

Outro facto evidente é que a Igreja conservadora tem ainda como horizon­te o conflito Este-Oeste e não o conflito Norte-Sul. O Sul não existe. Sempre se diz, de forma triunfalista, que a maioria dos católicos está na América Latina, mas depois ignora-se a trágica situa­ção de pobreza e de exclusão que se vive no nosso continente “católico”.

É evidente que a Igreja na Europa, especialmente na Polónia, ficou marca­da pela experiência cruel do nazismo e do comunismo. O Papa classifica um e outro como “as ideologias do mal”, como a “força do mal”, como o “furor bes­tial” que ameaçou de morte toda a Europa. Mas entretanto não se classifi­cam como “ideologias do mal” a “Doutrina da Segurança Nacional”, que ins­pirou todas as ditaduras militares “ca­tólicas” na América Latina, nem a ideo­logia “neo-liberal” actual, que oculta e justifica a pobreza e a exclusão de 60% da nossa população. Tão pouco se toma consciência e se faz a conse­quente denúncia pro­fética do actual sis­tema de livre mercado, apesar dele ser uma “força brutal” que destrói o nosso continente “católico”.

João Paulo II e José Ratzinger nun­ca entenderam a Teologia da Liberta­ção. Para ambos e para toda a cúria va­ticana, a Teologia da Libertação fa­vo­re­ce a expansão do marxismo na A­mérica Latina. Por isso declarou-se pú­blica e oficialmente a morte do comu­nis­mo, do marxismo e também da Teo­logia da Libertação.

Com esta atitude a hierarquia ro­mana quis ver-se livre da Teologia da Libertação. A Igreja tem medo dela, por­que sabe que a Teologia da Liber­tação diz a verdade e tem razão.

Nunca o Vaticano canonizou os mi­lhares de mártires que morreram na luta pela vida e pela justiça na América Latina. O Papa nunca os canonizou, não fosse com isso legitimar uma nova concepção de evangelização e de Igre­ja e uma nova maneira de fazer teo­lo­gia. Que, por exemplo, não se tenha canonizado Mons. Romero é um escân­dalo para nós, mas é também um sinal de fraqueza da cúria romana.

José Ratzinger denunciou reite­ra­damente o que ele chama “a ditadura do relativismo” e a necessidade de ter “uma fé clara segundo o Credo da Igre­ja”. Mas o problema central é o contrá­rio: a ditadura do Dogma, da Lei e do Poder central da Igreja que impede todo o diálogo ecuménico e inter-reli­gioso.

Um claro exemplo disto é o docu­mento da Congregação para a Doutrina da Fé intitulado “Dominus Iesus”, cujo autor principal é José Ratzinger. Es­que­ce-se também que a “fé clara se­gun­do o Credo da Igreja” está nas Sa­gradas Escrituras, especialmente nos 4 Evangelhos, que são a Memória, o Cânon e o Credo da nossa fé cristã.

O medo do relativismo é no fundo o medo da pluralidade religiosa e cul­tural, o medo da diversidade de opções, o medo das teologias de género que criticam o patriarcado, o medo do res­surgimento das religiões do Terceiro Mundo.

Na sua homilia, ao iniciar o Con­clave, o cardeal Ratzinger fala do re­lativismo dos diversos modos de pen­sar: liberalismo, individualismo, va­go misticismo religioso, agnosticismo, sin­cretismo e outros. Mas este relativismo decorre sobretudo da crise da moder­nidade, da desintegração do ocidente “cristão” e da decadência espiritual e ética do mundo desenvolvido. Mais importante é o “relativismo” de valores éticos que permite a mercantilização da vida humana e cósmica.

O novo Papa está mais preocupado com as “correntes ideológicas e modos de pensar”, que com o genocídio dos pobres do mundo, onde a vida parece ter perdido todo o valor.

As viagens do Papa João Paulo II pela América Latina e Caribe foram uma manifestação impressionante do poder religioso da Igreja. Não nego mui­tos aspectos positivos destas via­gens, mas o seu efeito a médio e longo prazo não foi nem evangelizador nem libertador. A evangelização na América Latina não passa pelo exercício do poder, mas pela defesa da vida e pela construção duma sociedade onde todos e todas tenham lugar, em harmonia com a natureza. Os verdadeiros evan­ge­li­zadores na América Latina são es­ses milhares e milhares de sacerdotes, religiosas e leigos anónimos que traba­lham no mundo dos pobres.

A Igreja conservadora é autocrática e opressora, o que provoca dentro dela um espírito de medo generalizado: os leigos e leigas praticantes têm medo dos párocos, os párocos têm medo dos bispos, os bispos têm medo da cúria vaticana e este tem medo da Teologia da Libertação.

Em geral, a Igreja conservadora está mais preocupada com o aborto e o casamento dos homossexuais, que com os milhões de seres humanos que morrem de fome no Terceiro Mundo. A Igreja preocupa-se com a vida antes do nascimento ou com a vida eterna depois da morte, mas não com a vida presente da humanidade.

A Igreja não abre um espaço onde se discutam abertamente os problemas éticos da vida humana, como o aborto, as opções sexuais, os métodos anticon­ceptivos e todos os problemas da bioé­tica. Muitos destes temas não estão re­solvidos e não serão resolvidos nunca, se a Igreja impuser de modo autoritá­rio uma opinião única que não pode ser discutida.

Porque é que o povo gosta tanto de João Paulo II? E porque é que Bento XVI precisa de melhorar a sua imagem?

Poderíamos deslegitimar o nosso pensamento crítico como o pensamento típico dos pequenos grupos intelectu­ais, isolados do sentir e do pensar do povo simples. Esta é uma maneira muito tradicional de desclassificar toda a análise crítica e ocultar a utilização que se faz da exaltação de actos re­ligiosos para interesses institucionais da Igreja.

É um facto evidente que os meios de comunicação deram uma cobertura invulgar a todos os actos relativos à doença, morte e funeral de João Paulo II e à exibição magestosa dos cardeais que no conclave elegeram José Ratzin­ger como Papa. Foi uma verdadeira apoteose mediática. Isto teve necessa­riamente uma influência directa e eficaz na opinião popular.

Os meios de comunicação que exaltaram todos os actos “pontifícios” deste período foram na sua maioria os meios mais poderosos e influentes no poderoso sistema económico actual. Porquê esta exaltação desse actos?

A minha hipótese é que era neces­sário responder à carência no sistema actual de globalização de um líder es­pi­ritual forte e reconhecido universal­mente. Os grandes líderes políticos do mundo actual são profundamente corru­ptos, ambiciosos, violentos, sem valores éticos e sem nenhuma preo­cupação pela maioria pobre e excluída no sistema actual de livre mercado.

Ninguém nega a santidade pes­soal e o carisma de João Paulo II, os seus valores éticos e as suas interven­ções proféticas em momentos difíceis da história moderna. Um exemplo foi a sua oposição à guerra do Iraque, a sua visita solidária a Cuba e a sua preo­cupação pela paz no Médio Ori­ente, onde procurou destruir muros e construir pontes.

Mas outra coisa é a manipulação que fazem os meios globais de comuni­cação da figura de João Paulo II como o líder que derrotou o comunismo e o defensor dos valores éticos que a hu­manidade actual carece. Com esta manipulação pretendem construir o lí­der espiritual que o sistema actual de globalização necessita para funcionar.

Esta manipulação está contra as intenções e o ser espiritual de João Pau­lo II. Também é escandaloso como as Igrejas locais aproveitam esta apo­teose manipuladora dos meios de co­municação para os seus próprios in­teresses institucionais. Muitas Igrejas sentem-se agora importantes, ao ser incluídas nas necessidades “espirituais” da globalização e da construção de um “Império cristão”.

O impacto dos meios de comunica­ção na Igreja como Povo de Deus tam­bém se deve à falta de condução es­piritual. A geração de bispos profetas, chamada a geração do Con­cílio Vati­cano II e das Conferências epis­copais de Medellín e Puebla, que alguns tam­bém chamam “os Padres da Igreja lati­no-americana”, é uma geração que es­tá a desaparecer, simplesmente devido à idade. Esses bispos foram progra­maticamente substituídos por bispos contrários à tradição profética e re­no­va­dora da Igreja de Medellín e Puebla.

Outro factor que influuenciou na carência de condução espiritual na Igreja foi o silenciamento de mais de 140 teólogos e teólogas da Libertação, realizado pela Congregação da Dou­trina da Fé que o actual Papa José Ra­tzinger conduziu durante 23 anos.

Foi também negativo o regresso à estrutura tridentina de poder na Igreja: o Papa em Roma, o Bispo na sua dio­cese e o pároco na sua paróquia. Os leigos marginalizados para tarefas cada vez menos importantes e as leigas quase nem existem.

Bento XVI terá que fazer um esforço importante para mudar a sua imagem negativa de “guardião da ortodoxia”, para ganhar a simpatia do Povo de Deus. Nunca um inquisidor foi popular.

Por último, a atracção por João Pau­lo II, especialmente nas massas ca­tólicas, responde à necessidade de um poder espiritual e global que os repre­sente e com a qual se sentem identifica­dos. João Paulo II, pelo seu carisma pes­soal, pelas suas viagens e pelos seus gestos muito significativos gran­geou um reconhecimento universal.

Todo o povo precisa de ter um Papa, um Rei, um símbolo de poder. É paradigmático o caso bíblico no 1.º Livro de Samuel, cap. 8, em que o povo pede a Samuel um rei. Depois de 200 anos que o povo viveu feliz sem rei, sem templo, sem exército permanente, agora quer ter um rei como os outros povos. Samuel lembra-lhe tudo o que tem de negativo ter um rei, mas o povo insiste em ter um rei. Nasce assim a monarquia em Israel que durará mais de 400 anos e que será, salvo algumas poucas excepções, uma experiência ne­gativa e fortemente criticada pelos profetas.

Pressupostos para a construção duma nova maneira de ser Igreja

Já dissemos que a crise irreversí­vel da Igreja Católica e da contra-refor­ma contra a reforma realizada pelo Con­cílio Vaticano II e pelos aconteci­mentos de Medellín, Puebla e Santo Domingo não nega a possibilidade de construir uma nova maneira de ser Igre­ja, um novo modelo de Igreja ou uma nova tendência dentro da Igreja. Agora veremos os pressupostos para esta reconstrução e a força que a torna possível.

Primeiro: será muito importante a ruptura com o eurocentrismo da Igre­ja e com o mito duma Europa cristã evan­gelizadora. Isto não significa rom­per a nossa comunhão com o bispo de Roma, como centro de unidade de toda a Igreja Católica.

Segundo: O novo modelo de Igreja terá como espaço fundamental o Ter­ceiro Mundo, definido pela contradição Norte-Sul. Para nós o Sul existe e a relação Sul-Sul afirma a nossa identi­dade. O horizonte da nova maneira de ser Igreja será América Latina, Caribe, África, Ásia e Oceania.

Terceiro: o novo modelo será ra­di­­calmente ecuménico. Só com uma pro­­funda solidariedade ecuménica po­de­re­mos resistir à crise do modelo con­ser­vador de contra-reforma na Igreja católica; solidariedade com as Igrejas protestantes e outras Igrejas cristãs do Oriente e todas aquelas que têm uma dimensão ecuménica; o ecumenismo é um espaço de liberdade e de diálogo, onde se respeita a pluralidade de tradi­ções e de confissões. O ecumenismo recu­pera a pluralidade das Igrejas que os Apóstolos nos deixaram.

Quarto: o diálogo inter-religioso, especialmente com o Judaísmo e o Is­lão, as três religiões assim chamadas abraâmicas; diálogo também com ou­tras religiões importantes da Ásia, África e religiões autóctones da América Latina. O diálogo inter-religioso mais que “diálogo”, será uma profunda co­mu­nhão espiritual e solidária. Os temas do diálogo inter-religioso não serão temas dogmáticos, mas temas de vida ou de morte, como a paz, a guerra, a fome e outros. O objectivo principal da “missão” já não será a “conversão” do outro, mas juntar forças na construção da paz. “Sincretismo” não significa rela­tivismo ou confusão, mas literalmente “juntar forças” em função da paz. Por isso o diálogo inter-religioso pratica o sincretismo, a oração em comum, a so­lidariedade e o respeito mútuo.

Quinto: fidelidade sem limites ao Con­cílio Ecuménico Vaticano II (1962-1965). Recordemos aqui alguns temas teológicos mínimos, para não os esque­cer­mos, ou para os darmos a conhecer a muitos a quem eles nunca foram da­dos a conhecer. Estes temas são: a Igreja é o Povo de Deus, não só a sua estrutura hierárquica; a sua razão de ser não é ela própria, mas o Reino de Deus; a Igreja subsiste na Igreja ca­tó­lica; sacerdócio comum dos fieis, dotados de múltiplos carismas; colegi­a­li­dade episcopal (Lumen Gentium); a Sagrada Escritura é o fundamento da Igreja e a alma da teologia; o Ma­gis­tério não está por cima da Palavra de Deus, mas totalmente ao seu ser­viço; a Igreja, mais que possuir a ver­da­de, caminha para a plenitude da ver­dade (Dei Verbum); a Igreja tem o seu lugar próprio no mundo, aberta à mo­der­nidade e ao humanismo contempo­râneo; autonomia do temporal frente à Igreja (Gaudium et Spes).

Outros temas importantes no Con­cílio são: a reforma litúrgica, o ecume­nismo, a liberdade religiosa, os meios de comunicação e os Direitos Huma­nos.

Sexto: fidelidade à Segunda Con­­­fe­­rência do Episcopado latino-ame­ricano em Medellín (1968). Recor­de­mos alguns textos: “Os principais cul­­pados da dependência dos nossos países são aquelas forças que, inspi­radas no lucro sem freio, conduzem à ditadura económica e ao imperialismo internacional do dinheiro”; “situação de injustiça que pode chamar-se vio­lên­cia institucionalizada”; “educação libertadora: a que converte o educan­do em sujeito do seu próprio desenvol­vimento”; “um surdo clamor brota de milhões de homens, pedindo aos seus pastores uma libertação que não lhes chega de nenhuma parte”; “Na nossa missão pastoral, confiaremos antes de mais na força da Palavra de Deus”; “A comunidade cristã de base é o pri­meiro e fundamental núcleo eclesial... célula inicial de estruturação eclesial, e foco da evangelização, e actual­men­te factor primordial de promoção hu­ma­na e de desenvolvimento”.

Sétimo: fidelidade à Terceira Con­­fe­rência do Episcopado latino-ameri­cano em Puebla (1979). Pro-memória em alguns textos: “A situação de extre­ma pobreza generalizada adquire na vida real rostos muito con­cre­tos nos quais deveríamos reconhe­cer os tra­ços sofredores de Cristo, o Senhor, que nos questiona e interpe­la“; “está a subir até ao céu um clamor cada vez mais tumultuoso e impressio­nante. É o grito de um povo que sofre e que pe­de justiça...”; A Igreja assume “uma clara e profética opção pelos pobres”; “afirmamos a necessidade de conver­são de toda a Igreja para uma opção preferencial pelos pobres, com vistas à sua libertação integral”; “O compro­misso com os pobres e os oprimidos e o surgimento das Comuni­dades de Base ajudaram a Igreja a descobrir o poten­cial evangelizador dos pobres”; “Exi­gên­cia evangélica da pobreza como solidariedade com o pobre e como re­jei­ção da situação em que vive a maio­ria do continente”.

O Concílio Vaticano II e as Confe­rên­cias de Medellín, Puebla e Santo Do­mingo foram um momento de graça e uma oportunidade única que Deus nos deu (um kairós) para uma autêntica re­forma da Igreja católica. Esta reforma foi iniciada pelos próprios bispos que têm a responsabilidade de a manter viva e de desenvolver esta tradição na Igreja. Só a nossa fidelidade à Reforma da Igreja a tornará possível.

Onde está a nossa força para construir um novo modelo de I­gre­ja?

A nossa prática fundamental para construir um novo modelo de Igreja ou uma nova maneira de ser Igreja não se­rá a confrontação com o modelo con­ser­vador, actualmente dominante e em crise irreversível na Igreja, mas uma prá­tica positiva de crescimento, no interior da Igreja, justamente aí onde está de verdade a nossa força. Mas onde está em concreto a nossa força? Só enu­meramos:

Primeiro: na opção pelos pobres, pelos excluídos e na opção pela vida da terra e da água. Na opção por uma sociedade onde todos e todas tenham lugar em harmonia com a natureza. Na crítica radical ao actual modelo de mer­cado global de inspiração neo-liberal. Na esperança de que outro mundo é pos­sível e que é possível construir o sujeito capaz de o tornar possível.

Segundo: numa espiritualidade li­ber­tadora e numa ética da vida (“a Gló­ria de Deus é o ser humano vivo; a gló­ria do ser humano é a Visão de Deus”: St.º Ireneu).

Terceiro: na Leitura Popular da Bí­blia, chamada também leitura pasto­ral ou comunitária da Bíblia. Todo o mo­vi­mento de reforma da Igreja começou quando se devolveu a Bíblia ao Povo de Deus, quando pusemos a Bíblia nas mãos, no coração e na mente do Povo.

Quarto: na Teologia da Liberta­ção. A Teologia é uma força, sobretudo quando constatamos que o modelo con­servador de Igreja está justamente em crise por ter muito poder e pouca teologia. A Teologia da Libertação cons­truída pelos novos sujeitos: mu­lhe­res, afro-americanos, indígenas, cam­po­neses, jovens, meninos da Rua, in­digentes, os duma outra opção sexual, etc. Novos sujeitos todos unidos numa crítica radical ao sistema actual de do­minação.

Quinto: na construção de Comuni­dades Eclesiais de Base e organizações similares. Na renovação da vida reli­giosa. Nos movimentos apostólicos com um claro sentido de participação e li­bertação na Igreja.

Sexto: Na formação de agentes de pastoral dentro da Igreja e de líderes cristãos militantes nos Movimentos Soci­ais e políticos. Participação prioritária da mulher em todos os espaços, níveis e lideranças, na Igreja e na sociedade.

Sétimo: na Igreja concebida fun­da­men­talmente como Povo de Deus, com uma forte participação de homens e de mulheres em todos os níveis ecle­si­ais e pastorais. Multiplicação dos ca­ris­mas e ministérios laicais dentro da Igreja. Celibato como carisma volun­tá­rio e universal, não integrado neces­sa­riamente no ministério presbiteral ou episcopal.

Oitavo: nos profetas, tanto dentro da Igreja como fora dela. Com o desa­parecimento progressivo da geração dos bispos profetas de Medellín e Pue­bla, surgem agora também profetas lei­gos fora da Igreja, no âmbito da eco­nomia, da política e da cultura.

Terminamos, repetindo o que dis­se­mos no início: a eleição de José Ra­tzinger como sucessor de João Paulo II revelou-nos finalmente qual é a crise que a Igreja católica realmente vive, mas ao mesmo tempo clarificou qual é a nossa proposta positiva para cons­truir uma nova maneira de ser Igreja.

Com o que fica dito, é agora claro que esse outro modelo de ser Igreja é possível e que temos a força para o cons­truir. A crise do modelo conser­va­dor de Igreja, que agora se tornou irre­versível, insere-se no contexto maior de crise da civilização ocidental e cristã e de crise de um Império que se define como Cristão. É uma crise que nos en­che de perplexidade, temor, angústia e desespero. Mas a possibilidade his­tórica e real de construir um novo mo­delo ou uma nova maneira de ser Igre­ja enche-nos de esperança e de ale­gria.


SOCIEDADE/IGREJA

Carta Aberta ao Bispo Carlos Azevedo

Jamais sirvas o Sistema!

Caro Bispo Carlos Azevedo:

Não estive na tua ordenação epis­copal, dia 2 de Abril de 2005, realizada no interior da igreja da Trindade, no Porto. Sou presbítero da Igreja, tal co­mo tu agora és bispo, mas desde há muitos anos que deixei de gostar des­ses locais pretensamente sagrados e passei a gostar mais dos caminhos e das ruas, dos montes e das praias, e, sobretudo, das casas das pessoas, em cujas mesas a Palavra e o Pão podem cir­cular sem entraves nem temores, nu­ma expressão profundamente humana de intimidade e de liberdade. Templos e altares, são invenções das religiões, dos sacerdotes, das suas deusas e dos seus deuses, não de Deus, o de Jesus. Como tal, não bebem a sua inspiração em Jesus, o de Nazaré, expulso da Si­na­go­ga e destruidor, pelo menos, sim­bo­lica­mente, do Templo do seu país.

Como sabes, também Jesus preferiu as ruas e os caminhos, os montes e as praias, e, sobretudo, as casas das pessoas, nomeadamente, aquelas pes­soas que a teologia do Templo do seu país perseguia e excluía com o rótulo de pecadores públicos e de gente des­pre­zível, por isso, a ser evitada pelos “puros”.

Mas não penses que a tua ordena­ção como bispo da Igreja me passou ao lado. Nada do que é eclesial me passa ao lado. Muito menos, a tua orde­nação episcopal. Ou não fosses tu meu conterrâneo, nas terras de Santa Maria da Feira. Ainda recordo aquele encon­tro de presbíteros do concelho, em que tu também estiveste presente e até pre­sidiste à Eucaristia. Houve, na altura, conterrâneos padres que se manifes­ta­ram contra a minha presença, como se eu, padre sem templo nem altar, cons­tituísse uma profanação e uma afronta. Felizmente, foste uma das pou­cas vozes sensatas e tolerantes que lem­brou aos meus opositores a largue­za do Reino de Deus, onde quem ex­clui acaba excluído.

Bem sei que a Igreja, esta nossa Igreja tem muita dificuldade em fazer suas as fronteiras sem fronteira do Rei­no de Deus, uma postura que, se for levada às últimas consequências, pode aca­bar por a colocar fora do Reino de Deus, coisa que já terá ocorrido no pas­sado, mas que, nestes tempos pós-Con­cílio Vaticano II, é de crer que não volte a suceder nunca mais.

Surpreendeu-me, devo confessar, que Roma te chamasse ao ministério episcopal. O Papa João Paulo II estava já então muito debilitado, quando assi­nou o decreto, e isso pode ter facilitado as coisas. As malhas do crivo romano estavam menos rígidas, o que não a­con­tece agora com Bento XVI que lhe sucedeu, pelos vistos, também com sur­presa (desagradável surpresa) para ti.

Mas devo confessar também que não me surpreendeu menos que tu aceitas­ses ser ordenado bispo. E a minha sur­presa cresceu ainda mais, depois que pude ler as primeiras palavras que pro­fe­riste como Bispo acabado de ordenar, e que constituem uma espécie de pro­grama de vida episcopal. Tal como estão as coisas na nossa Igreja, é um progra­ma martirial. Descobrirás, com o passar dos meses e dos anos, que as dificulda­des maiores para se ser bispo ao servi­ço do Evangelho de Deus, revelado em Jesus de Nazaré, o Crucificado, vêm sobretudo do interior da nossa Igreja. Basta que te mantenhas fiel ao Espírito que te inspirou aquele programa de vi­da, para chegares a essa conclusão. Verdade e Justiça são conceitos muito badalados dentro da nossa Igreja, mas não passam de meros conceitos. Para que tivessem consistência, carne e san­gue, era preciso que o Estado do Va­ti­cano, a Cúria Romana e as Cúrias diocesanas implodissem todas simul­tanea­men­te. Verás – já terás começa­do a ver, ao fim destas poucas sema­nas de exercício do teu ministério epis­copal – que as “potências contrárias” à Verdade e à Justiça também integram o Sistema eclesiástico. Ele próprio é uma dessas potências, talvez a mais pe­ri­gosa, já que, mentirosamente, se faz passar por “santo” e trata os seus ges­tores maiores também como santos. Repara como todos eles vestem dife­rente, como frequentam locais diferen­tes, como falam diferente, como têm cos­tumes diferentes, numa palavra, co­mo são diferentes. Mas sempre foram assim os fariseus! Tu próprio, viste-te obri­gado a começar por aceitar as re­gras do jogo, apesar do programa que enunciaste para o teu ministério. Com­pre­endo que não poderias começar de outro modo, certamente. Só espero que depressa saltes fora do sistema e sejas bispo de todas as mulheres, de todos os homens, de preferência daquelas, da­que­les que, felizmente, já não fre­quentam os templos nem querem nada com os altares, tal como Deus, o de Je­sus que do que gosta é de Política, não de Religião.

Meu caro Bispo Carlos Azevedo: Para que nunca esqueças o programa que enunciaste diante dos teus irmãos bispos, logo após teres sido ordenado, aqui o registo e divulgo com alegria, já a seguir. Uma coisa te peço-te: Não me defraudes nunca! Não nos defrau­des, nunca! Se estás mesmo disposto a fazer frente às Potências que se opõ­em à Verdade e à Justiça e a ser soli­dá­rio como Jesus com todas as suas vítimas, então começa pelo próprio Sis­tema eclesiástico. Jamais o sirvas. E ja­mais confundas os interesses dele com as causas da Verdade e da Justiça.

E agora, aqui registo e divulgo as tuas palavras-programa, que muito me alegraram no Espírito Santo:

“Escolhi o apelo de Cristo: «Quem Me serve, siga-Me!» (Jo 12, 26), como lema da missão presbiteral e renovo-a no início desta dimensão pastoral.

Eis-me aqui para servir, seguindo o estilo do Belo Pastor, com desejo hu­milde e determinado a pautar os meus passos no seguimento de Cristo, princí­pio, centro e fim do pensar e do agir em Igreja.

Quero começar por dizer-vos que nunca como hoje entrego a Deus, Pas­tor da humanidade, a minha vida toda. Ainda não consigo dar-lhe graças, com o coração todo, pela nova missão a que a Igreja me chama..., mas pela força do seu Espírito entrego-me totalmente ao seu querer para que me faça sinal da sua bondade misericordiosa, tudo para todos, sobretudo para os atingidos pela maldade do mundo, para que me faça defensor da verdade e da justiça perante as potências contrárias, para que me faça ponte e elo de comunhão que o Espírito quer construir dentro da Igre­ja católica, entre as Igrejas, entre os crentes, na sociedade.

Desejo profundamente ser anuncia­dor do Deus de Jesus, que tanto nos a­ma. Com crescente maturidade apos­tó­lica, deixe passar pelo coração e pela vida, um Deus pobre e humilde, que nos respeita na nossa liberdade com amor criador e materno; um Deus que nos espera sempre, nos aguarda com paciência e é garantia absoluta da es­pe­rança humana; um Deus que vive na plenitude da caridade e rompe as dis­tân­cias e as seguranças aparentes por­que firme no amor verdadeiro;um Deus de uma alegria nova, que não olha do alto o sofrimento mas passa por ele, fun­dado na compaixão, porque vê os filhos passar mal, a andar perdidos e oferece-lhes saídas de metanóia e libertação.

Estou pronto para seguir Jesus, na coragem de homem livre para um amor maior, livre de si mesmo, livre dos bens, livre dos outros em obediên­cia total ao Pai. Seguir Jesus que, ser­vo incondicionado da missão, se apro­ximou de todos, não para os possuir ou instrumentalizar, mas para os servir tal como são, atento às situações de cada um, sem preconceitos ou temores, com a forte exigência e a ternura suave do amor. Servir por amor é autêntica fonte de sentido, motor da unidade e razão da força da vida pastoral na Igre­ja.

A todos imploro: não permitais que o ser constituído para estar perante vós, me dispense de ser fiel discípulo de Cristo, em confiante abandono à ac­ção interior do Espírito. Não deixeis que ao ser para vós, me desenraíze do estar convosco, de partilhar a dure­za e o encanto da realidade e de ser aí sentinela vigilante. Proporcionai formas de corresponsabilidade, que sou chamado a animar e a guiar como manifestação de sermos um povo sa­cer­dotal, sem nunca perder a circulari­dade da participação comunitária.”

Macieira da Lixa, Maio 2005

Mário, presbítero da Igreja do Porto



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