Textos do
Jornal Fraternizar

Edição nº 157, de Abril/Junho 2005

DESTAQUE

“DETESTO AS VOSSAS MISSAS”, DIZ DEUS

É claro que o Jornal Fraternizar não foi entrevistar Deus, para ouvir dEle a afirmação, altamente chocante e a raiar o escândalo, que serve de título ao DESTAQUE desta edição n.º 157. Nem era preciso. Para ficarmos a conhecer o seu sentir, basta-nos ler com olhos de ver o Livro bíblico do Profeta Isaías, logo no primeiro capítulo, e aplicar depois, com alguma audácia teológico-pastoral-jornalística, às missas católicas que acontecem todos os dias e em especial aos domingos por essas igrejas paroquiais e catedrais fora, o que o profeta lá põe Deus a dizer sobre as missas, perdão, sobre os cultos oficiais que os sacerdotes seus contemporâneos faziam acontecer com regularidade no templo de Jerusalém. E foi o que humildemente fizemos, ao elaborar este DESTAQUE, no Ano da Eucaristia que está a decorrer no interior da nossa Igreja católica, por determinação do Papa João Paulo II e da sua Cúria. Perante tal mensagem de Deus, o que vamos fazer? Em lugar de nos erguermos contra o mensageiro, ousemos, como Igreja, a conversão mais radical. Afinal, se pensarmos bem e com verdade, temos que reconhecer que o que a Eucaristia reclama das cristãs, dos cristãos é que sejamos no mundo e na História, seres humanos outros, bem ao jeito de Jesus, o de Nazaré, e não que façamos missas a toda a hora, juntamente com práticas católicas de pura idolatria, como lausperenes, adorações da Hóstia e folclóricas procissões do Corpo de Deus.

Escutemos então a mensagem do Profeta Isaías, 1, 11-17, tal como ela se apresenta traduzida na Nova Bíblia dos Ca­pu­chinhos:

"De que me serve a mim a multidão das vossas vítimas? - pergunta o Se­nhor. E acrescenta: Estou farto de holo­caustos de carneiros, de gordura de bezerros. Não me agrada o sangue de vitelos, de cordeiros, nem de bodes. Quando me viestes prestar culto, quem reclamou de vós semelhantes dons, ao pisardes o meu santuário? Não me ofe­reçais mais dons inúteis: o incenso é-me abominável; as celebrações luna­res, os sábados [os domingos] as reuni­ões de culto [as missas], as festas e as solenidades são-me insuportáveis. Detesto as vossas celebrações lunares, as vossas festas; estou cansado delas, não as suporto mais. Quando levantais as vossas mãos, afasto de vós os meus olhos; podeis multiplicar as vossas pre­ces, que eu não as atendo. É que as vos­sas mãos estão cheias de sangue. Lavai-vos, purificai-vos, tirai da frente dos meus olhos a malícia das vossas acções. Cessai de fazer o mal, apren­dei a fazer o bem; procurai o que é jus­to, socorrei os oprimidos, fazei justiça aos órfãos, defendei as viúvas".

As catequeses tradicionais da Igre­ja, nomeadamente, as dos últimos sé­cu­los da Cristandade, têm-nos levado  a pensar que Deus do que gosta é de missas, quantas mais melhor, de ritos nos templos, de liturgias mais ou menos inebriantes e alienantes, abrilhantadas por coros especialmente preparados para o efeito, realizadas com regulari­dade em dias, horas e lo­cais certos. Não paramos sequer para pensar que nem nós, os seres humanos, alguma vez suportaríamos, se outros seres hu­manos, a pretexto de nos quererem hon­rar, passassem a vida a dizer-nos, em dias, horas e locais certos, as mes­mas palavras de louvor e de petição, e tudo isso com palavras que nem se­quer podem ser nossas, pois têm que ser lidas no Missal Romano!!!

Preferimos ignorar o que, a este propósito, Deus nos revelou através dos Profetas bíblicos, em particular, do Profeta Isaías, que acabámos de trans­crever e do Profeta Jeremias. Preferi­mos ignorar também toda a prática eu­ca­rística de Jesus, que jamais foi capaz de se meter no templo do seu país a presidir ou a assistir a rotineiros actos de culto em honra de Deus, seu Pai/Mãe. Preferimos ignorar que Jesus até destruiu simbolicamente o Templo e der­rubou as mesas dos que lá dentro vendiam animais para os sacrifícios cruentos, que os sacerdotes ofereciam dia e noite sobre o altar em honra de Deus. Preferimos ignorar igualmente o que Jesus com toda a soleni­dade reve­lou, em contexto de missão aos sa­ma­­ri­­ta­­nos do século I: que Deus é espírito e que só em espírito e verdade é que gosta de ser adorado, por isso, não gos­ta de ser adorado nem em Garizim nem em Jerusalém, isto é, em lugar ne­nhum especial. Preferimos ignorar, fi­nal­mente, a espantosa catequese que, uns 50-60 anos depois da Morte/Res­surreição de Jesus, a Carta aos He­breus dirige, a este respeito, às comu­ni­dades cristãs que integravam o Movi­mento dele, de cariz eminentemente mes­siâ­nico, por isso, eminentemente po­lítico, não religioso. São estes os pre­cisos termos dessa catequese:

"Por isso, ao entrar no mundo, Cristo diz: Tu não quiseste sacrifício nem oferenda, mas preparaste-me um corpo. Não te agradaram holocaustos nem sacrifícios pelos pecados. Então eu disse: Eis que venho - como está es­crito no livro a meu respeito - para fazer, ó Deus, a tua vontade. [Vede!] Disse primeiro: «Não quiseste nem te agradaram sacrifícios, oferendas e ho­lo­caustos pelos pecados» - e no entan­to eram oferecidos segundo a Lei. Disse em seguida: «Eis que venho para fazer a tua vontade». Suprime assim o pri­mei­ro culto, para instaurar o segundo. E foi por essa vontade - conclui - que nós fomos santificados, pela oferta do corpo de Je­sus Cristo, feita uma vez para sem­pre" (Hebreus 10, 5-10).

É verdade que a Carta aos Hebreus ainda fala de culto, de um segundo cul­to que veio substituir o primeiro. Não fa­la de política. Mas tem o cuidado de dizer em que consiste este segundo cul­to que substitui o primeiro. É um culto que historicamente aconteceu uma só vez. E que culto é esse? "Eis que vim, ó Deus, para fazer a tua vontade!" Ora, a vontade de Deus, tal como Jesus, o de Nazaré, a percebeu e realizou inte­gralmente, tem tudo a ver com garantir vida, e vida em abundância, a todas as pessoas e a todos os povos. Tem tu­do a ver com a realização integral de todas as pesso­as e de todos os povos. Por isso, tem tudo a ver com a Po­lítica, com aquelas sábias e fecundas acções que ousem mudar as economi­as e as políticas concretas que, em ca­da mo­mento histórico, informam as nos­sas so­cieda­des, de modo a garantirmos vida, saúde, educação, bem-estar, nu­ma pa­la­vra, a felicidade a todas as pes­soas e a todos os povos. Não tem nada a ver com a Religião, com ritos nos tem­plos, realizados regularmente sob a presidência de um corpo de sa­cer­­dotes ou funcionários sagrados que Je­sus nunca quis integrar, nem nunca quis que as suas seguidoras, os seus segui­do­res alguma vez integrassem.

A Carta aos Hebreus fala expressa­mente no corpo de Jesus, esse corpo que se entregou por inteiro e incondi­cio­nal­mente às causas do Reino de Deus, o mesmo é dizer, às causas da Humanidade, sem sequer recuar pe­ran­te os poderes estabelecidos que, no seu tempo e país, se tinham na conta de poderes sagrados, provenientes di­re­ctamente de Deus.

Foi por levar até ao limite esta sua forma de ser e de intervir com o seu cor­po, que Jesus acabou violentamente crucificado e morto. Contudo, não é a morte dele enquanto tal que havemos de va­lorizar. O que havemos de valori­zar é a fidelidade de Jesus à vontade do Pai/Mãe Deus - eis que vim, ó Deus, para fazer a tua vontade - e esta nunca foi que ele morresse, muito menos, que fos­se morto, mas que vivesse e fizesse viver a muitas, muitos e, por isso, logo o res­­­sus­citou, no mesmo instante em que esses poderes o mataram.

Sublinhe-se então que as Igrejas cristãs, que resultam do movimento mes­siânico (= político) inspirado e inici­a­do por Je­sus, não têm que falar em "sacrifício" de Jesus, nem em "sacrifício da missa", como aberrantemente todas elas mais ou menos fazem, com desta­que maior para a nossa Igreja católica, em tudo o que seja documentos ema­na­dos da Cúria Romana e do próprio papa. "Tu não quiseste sacrifício nem oferenda", diz inequivocamente a Carta aos He­breus, como quem se faz eco do que Deus já havia dito pelos Profe­tas bíbli­cos, Isaías e Jeremias, sobre­tudo.

Ora, se Deus não quis nem quer sa­crifício nem oferenda, porque have­mos de lhe oferecer a toda a hora, e a pretexto de tudo e de nada, o "santo sa­crifício da missa"? Não percebemos que Deus, o de Jesus, do que gosta, do que espera de nós, suas filhas, seus filhos, é que nós, com o corpo que Ele nos deu, nos entreguemos até ao limite, como Jesus se entregou, às grandes e às pequenas causas da Humanidade? Em concreto, que dêmos o melhor do nos­so sentir, do nosso entender, do nos­so querer, do nosso saber, do nos­so agir, para termos economias e polí­ticas que garantam vida e vida em abun­dância a todas as pes­soas e a todos os povos, num grande respeito pela Na­tureza e pelo meio ambiente! Portan­to, tudo posturas es­sencialmente políti­cas, não religio­sas, realizadas no mun­do e na socie­dade. Posturas que pres­su­põem pessoas e povos pro­gressiva­mente desenvolvidos, sujei­tos, protago­nis­tas, vertebrados, lúcidos, audazes, corajosos, exactamente como Jesus, o de Nazaré, que, pelos 12 anos, deixou o Templo de Jerusalém e passou a viver em Nazaré entre os seus e com os seus, a crescer em idade, estatura, sabedoria e graça, ao ponto de, pelos 30 anos, ini­ciar uma missão política ain­da hoje inultrapassada, pois não se limitou a fazer mais do mesmo, dentro desta Or­dem, feita de Mentira e por isso opres­so­ra e assassina, mas foi à raiz dos problemas e fez acontecer um Novo Começo, por força do Sopro ou Espí­rito de Deus que o possuiu por inteiro e o conduziu ininterruptamente, e que ainda hoje prossegue aí empenhado, através de nós, em fa­zer novas todas as coisas, queiram ou não queiram os senhores do mundo, os Herodes e os Pilatos, os Caifás e os Sinédrios de cada tempo e lugar.

"Tudo o que fizestes ao mais pe­que­nino dos meus irmãos, foi a mim que o fizestes. E tudo o que deixastes de fazer ao mais pequenino dos meus irmãos, foi a mim que deixastes de o fazer" (Mateus 25, 31-46). Trata-se, pois, de fazer, de agir, de realizar. Não de se meter nos templos a pedir, a men­digar, a dizer palavras mais ou me­nos bobas a Deus (na verdade, tudo o que possamos dizer a Deus, por mais sublime que nos pareça, é sempre bo­bo, e é apenas para nós próprios que o dizemos e para os que nos rodeiam. A Deus, o que podemos fazer é escutar-acolher o que Ele nos está continua­men­te a dizer e, sobretudo, fazer o que Ele nos diz, de modo que a Criação que Ele iniciou prossiga com a nossa intervenção e chegue à sua plena reali­zação. Meter-se nos templos a fazer missas em série, a dizer frases mais ou menos bobas a Deus, a pedir-lhe que faça por nós e pelo mundo o que Ele ininterruptamente nos pede que façamos, é cair na tentação da Religião e renunciar a sermos mulheres, ho­mens ao jeito de Jesus, à sua medida, com a sua estatura. É recusarmo-nos a prosse­guir a sua prática messiânica, politicamente libertadora, não religiosa, a única que nos fará crescer na liber­dade e na responsabilidade.

Não foi só a Carta aos Hebreus que captou o que de especifica­men­te "Novo" e de "Salvador" Jesus, o de Na­zaré, trouxe à Humanidade. Também o apóstolo Paulo, na sua inexcedível Car­ta aos Romanos (12, 1-2), proclama que o único culto (em contexto religio­so, como o do século I, teria que recorrer a esta linguagem, em lugar da lingua­gem política, como hoje se nos exige!) que podemos prestar a Deus é  este:

"Exor­to-vos irmãos a que ofereçais os vossos corpos como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus. Seja este o vosso verdadeiro culto, o espiritual. Não vos acomodeis a este mundo. Pelo contrário, deixai-vos transformar, adquirindo uma nova mentalidade, para poderdes discernir qual é a vontade de Deus: o que é bom e lhe é agradável e perfeito." O que não for assim, só pode dar vómitos a Deus! Missas que sejam.


Um caso concreto no concelho de Felgueiras

MISSAS QUANTAS QUEIRAS,

DESDE QUE PAGUES, EVIDENTEMENTE!

Jornal FRATERNIZAR visitou a página do padre Mário, na internet (www.padremariodemacieira.com.sapo.pt). Consultou o seu "Diário Aberto". E deparou com esta notícia entremeada de oportuna reflexão teológica. Porque "encaixa" perfeitamente no Destaque desta edição, aqui segue na íntegra.

Deixem-se supreender. E tirem a vossas conclusões.

“O Pároco tem direito à sua subsis­tência, que consiste na oferta de um dia de salário de cada família. Podeis fa­zê-lo no fim das eucaristias, na sa­cris­tia. Estará alguém da Fábrica da Igre­ja. Recordo que quem não o fizer não tem o direito de exigir o que quer que seja do trabalho do pároco.”

O reca­do está dado. Por escrito. Vem na folha paroquial que é distribuí­da aos domingos, no final das missas, em várias paróquias católicas do con­ce­lho de Felgueiras. As famílias que residem nessas paróquias, ou pagam, ou ficam a ver navios, no que respeita à disponibilidade do “seu” pároco.

Alguém me fez chegar às mãos um exemplar da folha em que este recado está escrito. Limitei-me a transcrever. Não me acusem de dizer mal da Igreja. É a Igreja, nestas paróquias concretas, quem diz mal de si própria, ao escrever recados destes numa folha destinada a ser posta nas mãos das pessoas que frequentam o templo e a missa domini­cal.

Recados assim são sobejamente elu­cidativos. Nem sei como é que os pá­rocos que assim entendem o seu mi­nistério pastoral e assim se comportam no seu exercício, ainda se não lembra­ram de colocar à entrada do templo paroquial vários ficais privativos com o livro paroquial dos pagamentos na mão, para conferirem se quem vai en­trar para a missa efectivamente satisfez o pagamento. A ser verdade o que diz esta folha, a entrada na missa deveria ser condicionada a quem paga. A missa é um trabalho do pároco. Não é só dele, mas a verdade é que sem ele já não há missa. E sem o trabalho das outras pes­soas pode haver missa. Menos “so­lenizada”, mas há missa. Sem ele é que não há.

É sabido que todas as outras pes­soas que aceitam ajudar a “fazer” a mis­sa não exigem qualquer pagamento pelos serviços prestados. Ainda se não terão lembrado disso! Mas pela lógica dos párocos que assim procedem, po­de­riam e deveriam fazê-lo, sejam as me­ninas, os meninos de coro, sejam os membros do grupo coral, sejam os mi­nistros extraordinários da comunhão, sejam os portadores das cestas que re­colhem as ofertas dos “fiéis”, no mo­mento do Ofertório. É sabido que nin­guém o faz. Só certos párocos o fazem! Quase todos. O Evangelho bem diz que dêem de graça o que de graça recebe­ram. Mas os párocos que assim se com­portam fazem orelhas moucas ao E­van­gelho. O que querem é dinheiro e mais dinheiro. A instituição que ser­vem não lhes permite que constituam famí­lia e que gerem filhas e filhos, mas eles, mes­mo assim, com o que sonham é com dinheiro e mais dinheiro. Talvez para compensar a carência de não te­rem constituído família. Assim, podem ver o dinheiro a crescer, em lugar de ve­rem crescer as suas próprias filhas e os seus próprios filhos. Além disso, estes párocos entendem que têm um status social elevado a salvaguardar e fazem questão de o manter. Se possí­vel, até elevá-lo ainda mais. Esse status exige-lhes que mudem de carro de mar­ca todos os anos, o mais tardar, de dois em dois anos; que façam férias repar­tidas no estrangeiro, em boas es­tân­cias balneares, nada deste provin­cia­nismo das praias portuguesas; que não deixem de frequentar grandes jan­ta­radas e de dar os seus passeios ao es­trangeiro; que construam uma ou duas moradias com piscina privativa. Depois, como o seguro morreu de ve­lho, estes párocos ainda têm que fazer tudo, quando estão no activo, para ga­rantirem um bom pé de meia, para o tempo em que já não puderem estar à frente das várias paróquias em que presentemente estão, e, consequente­mente, já não receberem, todos os a­nos, como agora recebem, “um dia de salário de cada família”.

Aos pobres e remediados que se escandalizam com comportamentos assim, estes párocos defendem-se com argumentos rasca, como, por exem­plo, que andaram 12 anos a estu­dar, para além dos primeiros 4 anos do ensino básico; que estão habilita­dos por um curso superior; que não são menos que os médicos e os enge­nheiros, por exemplo; e que são funcio­nários eclesi­ásticos credenciados, logo abaixo dos bispos! Como quem diz: Quem quer os bons empregos, faz por isso. E eles fi­zeram. Assim como os pais deles, quan­do consentiram que eles fossem para padre. Agora, que já são padres, são os primeiros a exigir que quem pretende “o que quer que seja do tra­balho do pároco”, tem que se chegar à frente. Ou assim, ou não há nada para ninguém!...

Mas a folha paroquial que traz este recado não se fica por aqui. Também traz um rol de “intenções” de missa para toda a semana nas mesmas paró­quias onde a folha foi distribuída. Dei-me ao trabalho de contar essas “inten­ções”. São quase 60 por semana só para um dos párocos! Ora, se quem manda celebrar a missa pagar no mí­nimo, 7 euros e 50 cêntimos, por cada “inten­ção”, o referido pároco celebran­te junta, no final da semana, a “módi­ca” quantia de cerca de 450 euros! O que dá, em média, no final de cada mês, só por esse “trabalho”, cerca de 1.800 euros!!!

Mas em que consiste o “trabalho” de rezar cada uma destas missas de rotina? Pois simplesmente deslocar-se até à igreja onde ela está anunciada, vestir os paramentos da praxe, que são propriedade da paróquia, avançar para o altar e ai, durante cerca de 20/25 mi­nutos, ler o que está no missal, num tom de voz sem qualquer esforço espe­cial. De resto – e segundo o que oficial­mente ensinam as próprias cate­queses paroquiais – o efeito da missa a favor das “intenções” está sempre garantido, pois é automático, quer o pároco esteja bem disposto ou mal disposto, ponha em­penho no que faz ou esteja comple­ta­mente alheio ao que faz, pronuncie com nitidez as palavras, ou coma gran­de parte delas, ponha alguma dignidade no acto, ou o realize no registo da inér­cia e da rotina!

Sei que estou a caricaturar, mas in­felizmente há muitos casos por essas paróquias católicas além, em que a rea­lidade é ainda mais caricata que a ca­ricatura que aqui estou a fazer. Mas o que me deixa mais triste é constatar que, apesar de já estarmos no início do terceiro milénio, ainda con­tinua a haver por aí bastantes pes­soas que, na sua boa fé, na sua inge­nuidade e nos seus ancestrais medos do além, não dei­xam de ali­mentar toda esta engrena­gem eclesi­ás­tica de mentira e de ne­gócio. Duma maneira geral, são as pes­soas menos escola­rizadas, menos ilustradas e, sobretudo, nada evangeli­zadas, que, assim, se mantêm escravas de todo um tra­dicionalismo católico-pagão, na conti­nuação do que, para seu mal, já fize­ram os seus antepassa­dos. E não são só católicos praticantes que o fazem. Também muitos católicos, que hoje se dizem não praticantes, con­ti­nuam aí a não dispensar as “missi­nhas” pelas “almas” dos seus familiares falecidos! Deste modo, o negócio das missas continua de vento em popa. Para mal das pessoas que assim con­tinuam sem se libertar dos muitos me­dos ances­trais que as habitam. E tam­bém para mal da nossa Igreja católica que, com esta prática simoníaca, deixa de ser sacramento do Deus de Jesus no mundo onde está implantada, ao mesmo tempo que progressivamente se auto-corrompe e auto-descredibi­liza.

É manifesto que os párocos que adoptam este tipo de comportamento pastoral nas paróquias onde são reis e senhores (há uma “Fábrica da Igre­ja”, eu sei, mas também sei que o páro­co é obrigatoriamente o seu presidente e é ele quem escolhe os outros mem­bros, ou, pelo menos, todos têm a con­fi­an­ça dele, o que transforma este or­ganismo numa espécie de claque de apoio!) não estão nada interessados em evangelizar as pessoas e as famí­lias. Aliás, como poderão fazê-lo, se eles próprios ainda não estão evange­lizados? Se eles próprios ainda se com­portam como meros funcionários ecle­si­ás­ticos, tal como outros homens po­dem ser funcionários públicos ou da administração local? A única diferença entre uns e outros tem apenas a ver com o tipo de “trabalho” que executam, com a empresa a que pertencem e com a entidade patronal que os nomeia pa­ra a função. Em tudo o mais, é idên­tico. E creiam que, numa Igreja assim, tipo empresa, tudo pode funcionar, mesmo que o pároco não seja crente no Deus de Jesus, nem seja verda­dei­ro discípulo de Jesus, o Cristo.

Aliás, para se ser funcionário ecle­siástico assim, a Fé cristã jesuânica só atrapalha, o Espírito Santo só atra­palha, o Evangelho de Jesus só atrapa­lha. A única coisa que não atrapalha é que haja muito dinheiro em jogo e um mecanismo de funcionamento tal, que esse muito dinheiro reverta, na sua maior fatia, para o respectivo funcio­ná­rio, o pároco de turno!

Não se escandalizem com o que escrevo. Escandalizem-se com a rea­lidade dos factos. E fujam dela, se qui­serem, se forem capazes, se tiverem coragem para assumir a diferença, para dissentir, mesmo que o meio social em que estão a viver, seja um daqueles meios pequenos, como a freguesia de Macieira da Lixa em que presentemente vivo, nos quais toda a gente se conhe­ce, tudo se sabe e é de imediato comen­tado, criticado e apontado a dedo. Infe­liz­mente, uma coragem assim é coisa rara, muito rara, nestes tempos cama­leó­nicos que vivemos. E dignidade pes­soal e verticalidade humana nem se fala. Custa-me ter de o reconhecer, mas não posso deixar de confessar que, no tipo de Igreja católica que hoje somos, mais pagã do que cristã jesuânica, e no meio de toda a simonia em curso, sancionada como coisa boa até pelo Código de Direito Canónico, dignidade e verticalidade são coisas que não se vêem em abundância, a começar nos funcionários mais responsáveis e a aca­bar nos “leigos” anónimos, mulhe­res ou homens, os quais, o mais a que po­dem aspirar é poder andar na órbita do pároco, ou do bispo a aplaudi-los, a fazer-lhes reverências, a fazer de conta que tudo aquilo que tanto um como outro dizem e fazem é importante, é decisivo para a salvação do mundo, quando a verdade é que não vale a ponta dum corno, causa vómitos a Deus, enoja as pessoas com um mínimo de bom senso e de empenha­mento no mundo, embora continue a dar muito jeito a certos políticos corru­ptos que nun­ca dispensam esses ambientes, sobretudo, em tempo de cam­panha eleitoral (similes cum similibus = os cor­ruptos e hipócritas dão-se bem uns com os outros).

Entretanto, não sei se repararam num pormenor chocante que a frase que transcrevi da folha paroquial e com a qual abri esta minha reflexão, con­tém, e que é revelador de que os páro­cos que assim actuam não olham a meios para obterem os seus fins. E os seus fins é juntar dinheiro e mais di­nhei­ro. Eu reparei e por isso faço aqui o devido destaque. O pormenor é este: Os párocos que assim actuam, afirmam, por um lado, que têm “direito à sua subsistência”; e que esta será garan­tida com “a oferta de um dia de salário de cada família”. Por outro lado, esses mesmos párocos cobram dinheiro - e que dinheiro! - por cada “intenção” de missa que as pessoas que já lhe dão um dia de salário lhe encomendarem! Quer dizer: para lá da “oferta de um dia de salário”, feita anualmente, para a “subsistência” do pároco, as pessoas que quiserem ter uma ou mais missas pelas suas “intenções”, têm que lhe pa­gar esse “trabalho” por fora, que, su­postamente, já não será para a sua “subsistência”, mas para o seu esbanja­mento, para os seus excessos, para os seus luxos!

Mas há mais: Se os párocos que assim actuam, exigem que lhes paguem por cada “intenção” de missa a verba que a própria Diocese impõe como “e­mo­lumentos”, é também de supor que eles exijam outros pagamentos por ou­tros “trabalhos” que alguém lhes peça, como por exemplo, por cada baptismo, por cada casamento, por cada funeral. E, se assim for, é mesmo um ver se te avias!... E um tal fartar, vilanagem!...

O que mais me dói, no meio de tu­do isto, é que continue a haver pes­soas que aceitam, como uma fatali­dade, toda esta pouca vergonha e não gritem com palavras e com a própria vida: Basta! Na verdade, se a Igreja, nas paróquias católicas, não é capaz de se deixar conduzir pelo Evangelho de Jesus e pelo seu Espírito; se a Igre­ja, nas paróquias católicas, se compor­ta como uma empresa de serviços mais, entre as outras empresas de ser­viços que estão aí no mercado, então que sejam as pessoas a tomar uma po­sição radical: afastem-se desses espa­ços duma vez por todas. Não continuem a confundir Deus e Fé em Deus com esta pouca vergonha, com este negócio eclesiástico. E saibam que para pode­rem viver e alimentar a sua Fé em Igre­ja, as pessoas não precisam para nada das paróquias católicas transformadas em empresas de serviços religiosos, nem dos párocos-funcionários que, à frente delas, descaradamente as sugam e enganam. A Igreja de Jesus é muito mais simples e gratuita. Basta, como diz o próprio Jesus, no Evangelho de Mateus, que dois ou três nos reunamos em seu nome, seja onde for, até num café, em plena natureza ou na casa de alguma, algum de nós, e ele sempre estará no nosso meio. Sem nos exigir qualquer dinheiro em troca. A peque­nina Comunidade cristã de base que assim se congrega pode e deve escu­tar a Palavra de Deus, Partir/Comer o Pão e Derramar/Beber o Vinho em me­mó­ria de Jesus e impulsionar-se a si mesma e a todos e cada um dos seus membros, para se fazerem próximos das pessoas que mais sofrem e que mais são excluídas e marginalizadas, até que elas se levantem e andem! Experimen­tem e verão.

Por mim, é assim que vivo como padre/presbítero da Igreja do Porto. Longe das paróquias católicas. Longe dos seus templos e dos seus altares. Bem próximo das pessoas, sobretudo, das mais fragilizadas e marginalizadas. E tudo o que faço como tal é de graça, evidentemente, como nos recomenda o Evangelho: “Dai de graça o que de graça recebestes”. Tenho para mim que tudo o que não for assim, é pecado. Como tal, não pode ter a marca, o selo, do Espírito Santo!


ESPAÇO ABERTO

Editorial  COM ESPERANÇA

É grande a minha esperança. Nas recentes eleições legislativas antecipa­das para a Assembleia da República, mobilizámo-nos co­mo país e, com o nosso voto de­positado nas urnas, cor­re­mos politicamente com o desgover­nado governo de Paulo Portas e de Santana Lopes. Pelo caminho, ainda de­mos mais força e mais voz aos Par­tidos po­líticos que defendem os valores da Esquerda, indubitavelmente, mais próximos dos valores do Reino/Reinado de Deus, e já empossámos o novo Go­ver­no, encabeçado por José Sócrates, do PS, o qual, felizmente, resistiu à tentação de acolher no seu seio certos ví­cios políticos do aparelho partidário, de onde emana, ao mes­mo tempo que teve a audácia de se abrir à sociedade civil, da qual o seu Governo também ema­na, e ainda mais do que do apa­relho partidário.

Estas mudanças, só por si, são fon­te de esperança, porque um Governo pio­r do que o imedi­a­tamente ante­rior seria de todo impossível. É verdade que as mulheres estão muito pouco pre­sentes no novo Go­verno. E as poucas que estão, aparecem colocadas à frente de ministérios de menor peso polí­tico.

Este facto, que aqui registo com desagrado e bastante perple­xi­da­de, cons­titui uma falha subs­tan­cial que po­de vir a revelar-se irreparável, ao lon­go do man­da­to.

Mesmo assim, prefiro subli­nhar, nesta hora, o óbvio, isto é, que nin­guém, mulher ou homem, foi ou está a ser im­­pedido de participar politica­men­te no processo de recuperação do país. Para este processo, todas, todos, podemos e deve­mos continuar mobili­za­­dos, tanto ou mais que os deputa­dos no novo Parlamento e que os mi­nistros e os secretários de Estado no novo Governo.

O que quero dizer com isto é que a mo­bilização a que fomos capazes de dar corpo nestas elei­ções legislativas antecipadas de modo nenhum é para suspender agora. Pelo contrário, tem que prosseguir, sem desfalecimentos. Com muita imaginação. Muita inteligên­cia. Muita vigilância. E também com muita con­fi­an­ça. Muita alegria. Muita de­termi­na­ção.

Não basta termos mudado o Parla­mento e o Governo. Foi bom, muito bom, mas é insufici­ente. É impe­rioso que mudemos também o país. Digo mais: É imperioso que nos mude­mos também a nós próprias, a nós pró­prios, como povo portu­guês.

E aqui é que as mulheres que fo­ram perigosamente subal­terni­zadas pelo primeiro-ministro na formação do XVII Governo cons­titucional, têm um in­substi­tuível papel a desempenhar, pro­vavelmente, ainda mais decisivo do que o dos membros do Par­lamento e do Governo.

Se tal vier a acontecer – e tem que a­con­tecer, sob pena de falharmos co­mo país, e não apenas como Par­la­men­to e como Governo – então acabare­mos por reconhecer que até terá sido bom as mulhe­res terem ficado tão pou­co pre­sentes no Governo e no Parla­mento, embora, neste, as mulheres te­nham sido tidas mais em conta por parte dos partidos de Esquerda, do que pelos partidos da Direita.

Tenho para mim que é a Polí­tica, não o Poder, que muda o mun­do e que salva a Humanida­de. Embora, desde que existe mundo, os poderosos sem­pre nos tenham querido convencer - e com êxito, reconheça-se - que é o Poder que muda o mundo e que salva a Huma­nidade. Não é. Che­gou-se inclusive ao cúmulo do des­caramento de ensinar – e nisso as Igrejas ajudaram os podero­sos com ambas as mãos e com uma teo­­lo­gia feita de mentira e de idola­tria!... – que todo o Poder vem de Deus. Uma completa barbaridade teoló­gica, pelo menos, no âmbito da teologia je­suâ­nica, de consequên­cias tremendas na História da Humanidade, a pior das quais, é, porventura, a reiterada sacra­lização dos sempre cruéis e perversos Impérios de turno, sem esquecer o Im­pé­rio eclesiástico católico romano.

Com essa sua men­tirosa pro­pa­gan­da, ensinada até nas Uni­ver­si­da­des católicas como Evangelho de Deus, os podero­sos têm conseguido assegu­rar e até aumentar sem grandes custos os seus inúmeros privilégios e justificar todos os seus crimes.

Aliás, na boca deles, nunca são cri­mes. São sempre acções/interven­ções necessárias e oportunas, destina­das a manter a Ordem estabelecida e a paz de cada Império de turno, a qual, como é manifesto, nunca co­incide, nem nunca poderá coin­cidir com aquela paz por que aspira a Humanidade e que só pode ser a Paz que vive casada e aos beijos com a Justi­ça, com o Pão em todos os lares e com a Liberdade a ser protagonizada por todas as pes­soas e por todos os povos.

O Poder corrompe. Perverte. Men­te. Exclui. Tudo compra, até consciên­cias. Tudo vende, até a honra e a pala­vra dada. Submete. In­fantiliza. Humilha. Opri­me. A­ter­ro­riza. E, no limite, ma­ta. Nunca olha a meios para atingir os seus fins, os quais nun­ca andam dissociados dos pri­vilégios dos poderosos.

Não é assim a Política, no­mea­da­mente, quando ela vive desca­sa­da do Poder e recusa liminar­mente andar de mão dada com o Poder. A Política, só por si, diz com poesia e profecia. E com cui­dado. E com vida. E com ter­nura. E com afectos. E com bem-estar. E com fe­licidade das pes­soas e dos povos.

Lá, onde o Po­der exclui, a Política in­tegra. Onde o Poder oprime, aterro­riza e infantiliza pessoas e povos, a Po­lítica liberta, desperta potenci­a­li­da­des e faz nascer sujeitos. Lá, onde o Poder faz caridadezinha social, para melhor se perpetuar, a Política faz nas­cer protagonis­mos pessoais e comuni­tá­rios que podem, um dia – oxalá não seja muito distante – chegar a dispen­sar o Poder que hoje, disparata­da­mente, ainda temos como insu­bstituível, porque ele, habil­men­te, sempre se tem feito passar por Política, quando, efecti­va­men­te, é a sua sibilina negação.

Se a Política vem de Deus, me­lhor, se a Política é o próprio Deus-em-acção-no-mundo-e-na-História, o Po­der vem do Demoníaco, melhor, é o De­moníaco ou o anti-Deus, ou a anti-frater­nidade/sororidade-em-acção-no-mundo.

A Política é Força cria­dora e liber­tadora na História, cujo Sopro vem sem­pre de fora dos circuitos do Poder e, por isso, é sempre fecun­do, é gerador de Frater­ni­da­de/sororidade universal. O Poder é uma criação dos seres hu­ma­­nos, nomeadamente, daqueles que vêem nos demais seres humanos, não ir­mãs e irmãos a quem amar, mas ri­vais, concor­ren­tes, inimigos a neutra­lizar, dominar ou mesmo abater. É uma criação, não do Espírito do Deus vivo nos seres humanos, como a Polí­tica, mas da dimensão cainí­tica dos seres humanos e das instituições por eles cria­das e mantidas ao longo dos sécu­los (a mais antiga de todas é, sem dú­vida, a religião!), co­mo pesos mortos, nem que, para as defender e conservar, eles tenham que roubar, matar e des­truir sem dó nem piedade não só os seus opositores, mas o próprio planeta que nos serve de casa a todas, todos.

De Jesus, o de Nazaré, sabe­mos que sempre recusou o Po­der, não a Po­lítica, evidentemente. Na sua perce­pção do Real, Jesus sempre colo­cou o Poder no âmbito do Demo­nía­­co, por isso, no âmbito da Ten­tação, melhor, do Tentador que sempre está interes­sa­do em tornar inumanos os seres hu­ma­nos. Em consequência, Jesus nunca aceitou ir pelo Poder. Nem fez jamais qual­quer pacto com ele. “A César o que é de Cé­sar, e a Deus o que é de Deus”. Isto é: Ao Poder o que é do Poder, e à Política o que é da Política.

Enquanto durar a História, sempre teremos Poder e Política. O Poder puro mata tudo o que tocar. O que o torna suportável e tolerável é que ele sem­pre pro­cura actuar vestido de Política. Mas só até ao ponto em que nunca nin­guém ouse provocá-lo até ao limite, ou desmascará-lo por completo. Jesus, o de Na­zaré, atreveu-se a fazê-lo e logo foi morto na cruz, como o maldito por antonomásia.

Do novo Governo, espero que te­nha a sabedoria e a coragem de ser mais político do que po­der. Que tome de­cisões lúcidas e corajosas destinadas a cuidar da vida das pessoas, das popu­la­ções e da Natureza. Que enfrente o Poder, lá onde ele está alojado e não suporta sequer a ideia de vir a perder pri­vilégios adquiridos.

Mas para que o Governo pos­sa rea­lizar esta ingente Acção Po­lítica, nas múltiplas frentes em que essa Acção tem que rea­lizar-se para dar fruto, é de todo necessário que o país que se mo­bilizou para votar, agora não des­mobilize politicamente nunca mais. A come­çar pelas mulheres. As poucas que estão no Governo e a quase totalidade das outras que estão fora do Governo, mas não estão fora do País. Nem po­dem estar de fora da Política. É hora!

Deixemo-nos de lamúrias, de cren­dices, de beatices, de fatimices, de mi­­­la­­grices. Recusemos o Poder e os privilégios com que ele sempre tenta comprar as pessoas e as suas almas. Mas vivamos em cheio a Política, ao jei­to de Jesus. Veremos o país a passar (Pás­coa) da depressão para a festa da vida. Vosso companheiro e irmão

Mário, presbítero da Igreja do Porto.


Outras Cartas

O GAIATO E OUTROS TEMAS

E-mail. Victor Sismeiro : É curioso: acabe-se com a Casa do Gaiato porque ela faz com que haja crianças para a fazer crescer. Desculpa Mário, mas isto é muito cinismo.

Tenho para mim que as instituições como a Casa do Gaiato são um produto da sociedade que, como ela, não evo­luiu. Só se deve lamentar a existência da Casa do Gaiato porque há crianças abandonadas pelos familiares que não têm emprego, que passam fome, que não têm habitação, que não têm verda­deiro acesso à educação e à saúde ou que morreram.

Porra, estou farto de moralismos politicamente correctos a propósito e a despropósito. Tenho suficiente res­pei­to pelo trabalho e dedicação de al­guns - cada vez menos - espíritos so­li­dários para os julgar e os condenar na praça pública e, ainda por ci­ma, tendo como pretexto um relatório feito por senhoras - digo bem, senhoras - sen­tadas no conforto dos seus empre­gos tipo champô-para-cabelos-pretos e champô-para-cabelos-castanhos.

Concordo que na Casa do Gaiato possa haver comportamentos condená­veis e que esses, e apenas esses, de­vem ser revistos. Pergunta às senhoras donas do relatório para onde é que elas pensam mandar as crianças que, entretanto, lhes aparecerem a precisar de apoio!?

Sabes que mais? Estou farto de ouvir críticas de quem nada faz, OBJE­CTIVAMENTE, para minorar os males desta sociedade.

Mais respeito por quem é solidário, exige-se. Depois, tratemos todos de fa­zer alguma coisa por esta sociedade, nomeadamente começando a deixar de ter o olhar fixo no nosso próprio um­bi­go.

Um abraço fraterno,

N.D.

Caríssimo Victor: Compreen­do a tua indignação. A curta No­ta Editorial sobre a Casa do Gaiato, inserida na anterior edi­ção do FRATERNIZAR, está escri­ta de maneira a não deixar nin­guém indiferente. Nem mesmo as pedras! Aliás, assinantes hou­ve – não passou da meia dúzia – que cortaram de imediato com o Jornal, por causa desta mesma Nota Editorial. Compreendo a tua in­dignação, mas nem assim ado­pto o teu ponto de vista. Conti­nuo a achar mais saudável o pon­to de vista expresso na Nota Editorial. Creio que tu próprio, hoje, mais a frio, te identificarás mais com o que nela se escreve. Com a tua reacção indignada, aca­bas, sem querer, por dar ain­da mais força a todas aquelas pes­soas – e muitas são – que a­cham muito bem que haja casas do gaiato para acolher meninos e rapazes que não têm onde cair mortos e, por isso, nunca chegam a indignar-se com a sua perpetua­ção no tempo. O pesadelo que se­ria para essas pessoas a exis­tência de meninos e rapazes que não têm onde cair mortos trans­for­ma-se em sentimento de satis­fa­ção, pelas esmolas que regular­mente enviam para as diferentes casas do gaiato, que proliferam tanto mais quanto maior é o nú­mero de crianças e rapazes que não têm onde cair mortos. O cri­me já não é continuarmos inde­finidamente a produzir meninos e rapazes que não têm onde cair mortos. O crime é a denúncia, como a que faz a Nota Editorial, de soluções concretas que, de pontuais e de emergência, depois se arrastam no tempo como de­fi­nitivas e acabam até por ser apresentadas como exemplares e eticamente virtuosas, cujos men­tores são achados dignos de beatificação e de canonização por parte da Cúria romana e de todos os fabricantes de pobreza em mas­sa e de pobres. Sabes bem, caríssimo Victor, que não vou por aí. Em nome do Evangelho libertador de Jesus. Em nome da dignidade humana. E também em nome dos meninos e rapazes que não têm onde cair mortos e que, mais dia menos dia, acabam por cair numa dessas casas e carregar com esse ferrete para o resto da vida.

Sabes tão bem como eu que a caridadezinha, quando substi­tui a justiça e nos dispensa da lu­ta martirial e duélica pela justi­ça, é um insulto. Pode não se con­verter em causa da existência de cada vez maior número de meninos e rapazes que não têm onde cair mortos, mas ninguém pode dizer com verdade que não dá um jeito do caraças à perpetu­a­ção do Sistema de iniquidade. A verdade que liberta é muito mais radical. E neste caso pode ser formulada assim: a aplicação duma má solução para um grave problema social é sempre pior que a não-existência duma boa solução. Porque com a má solu­ção, indefinidamente arrastada no tempo, nunca mais a existência de meninos e rapazes que não têm onde cair mortos nos tira o sono. Para tanto, lá estão as ca­sas do gaiato como soporí­feros. E lá está a caridadezinha institucionalizada, com o seu nu­me­roso exército de benfeitores, para nos desmobilizar das mar­tiriais e duélicas lutas pela jus­tiça, essas mesmas em que Jesus, o de Nazaré, por se ter metido até ao extremo, acabou por per­der/dar a própria vida. É por es­tas (impopulares) águas que procuro navegar e ser solidário. Ou nelas não continue hoje a soprar forte e fecundo o Espírito de Jesus. E o Espírito do nosso querido Pe. Américo, definitiva­mente ressuscitado.

Lisboa. Flávio: Ao remeter um cheque para pagamento da assinatura do Jornal, relativa ao ano de 2005, aproveito para lhe enviar um abraço amigo e para lhe significar quanto aprecio os seus escritos e a expectativa com que fico aguardando o “advento” dos mesmos.

Conduzidos como carneiros de Panurgo, somos mais de 99% do povo de Deus a quem não é concedido o direito à palavra e à expressão, en­carregando-se os menos de 1% – a Igreja clerical – de falar e pensar por nós, de tudo decidir, regulamentar e controlar, com a pretensão de apri­sionar nos muros do Vaticano até o Espírito que dá vida, num sistema con­centracionário e absolutista como não há outro no mundo – um único homem concentra em si o poder legislativo, executivo e judicial!...

Por isso, quando leio os seus textos, sinto-me como um cachorro a quem, no jardim, tiram por momentos a trela, ou como quando, num ambiente abafadiço, se abre uma fresta para que entre o ar.

Precisamos de muitos proféticos padres Mários entre nós. Não desista, não nos prive desse tónico de alma, desse suplemento de inteligência e de intrepidez. Que aquela “Presença que continuamente o desafia e desinstala” lhe dê força para que o Pe. Mário nos ajude também a desinstalar-nos. Per­mita que, com muita amizade, partilhe consigo dois momentos natalícios que gratamente lhe dedico. Com muita es­tima.

EH! NATAL

Nasceu em Belém,

E por Deus nos foi dado,

Mas foi feito refém

Das leis do mercado.

E já nem sequer choca

Os cristãos corações

Usá-lO como troca

Nas suas transacções.

Enquanto vão cantando

A Deus nas alturas,

Vão na terra aumentando

O total das facturas.

E a festa do Natal

Não é mais, em resumo,

Que um grande festival

De comércio e consumo.

Tal é o encandeamento

Pela febre do ganho,

Que neste nascimento

Nem sequer há Menino,

Só a água do banho.

ENCARNAÇÃO

Divino senhorio

Em tal humilhação

É o maior desafio

À humana compreensão!

Que o nosso Criador

Se torne criatura

É um gesto de amor

Ou de loucura?

Mas mesmo no meio

Da dúvida mais densa,

Meu Deus, eu creio

Contra a minha descrença.

Lisboa. A. Costa: Cumpre-me feli­citá-lo pela vossa continuada acção positiva. No entanto, considerando que nas circunstâncias da vida existe sem­pre um “mas”, permita-me a liberdade de expor o seguinte:

1. É importante procurar-se uma maneira de apresentar as verdades da nossa fé. E o caro pe. Mário tem tido essa preocupação. Qual profeta de apro­ximar Deus das gentes, possui o dom de convencimento através duma corajosa liberdade de expressão, onde contra o fanatismo supersticioso e de­voto tem apelado para a sensatez.

2. O n.º 155, de Outubro/Dezembro de 2004, publicou um e-mail da leitora e nossa irmã no Senhor, Lena Gon­çal­ves, que expõe incertezas acerca do polémico assunto da vida após a morte. Responde V. também com dúvidas!

3. Ora, comparando a vossa actual resposta com o escrito no seu livro “Chicote no templo” – Morte: o fim da vida humana, ou o parto mais difícil?, pgs. 207-212, 2.ª edição 1971 – nota-se uma discrepância relativamente ao controverso tema.

4. Considero que a matéria em ques­tão é sempre actual e que racio­nal­mente devemos seguir o caminho mais lógico. A carta do leitor e nosso irmão no Senhor, Manuel da Natividade, da Brandoa, também publicada no ci­tado n.º de Fraternizar, além de expres­sar assuntos que me parecem merecer essencial reflexão, aponta como subli­me a ideia da reencarnação. Também eu considero como racionalmente ló­gico e sublime o conceito da reencar­nação. Lamento que V. não tenha ex­pressado um comentário àquela refe­renciada carta.

5. Possui o pe. Mário as suas opi­niões teológicas com as quais sou livre de concordar ou não. Vivemos no pe­ríodo da racionalidade; no tempo das grandes transformações, aonde os “porquês” têm que fazer parte do nosso dia a dia. A dúvida é um alimento da alma. Cada um de nós deve examinar e explicar o que se passa, reflectindo com base no que pensa e nos dados de que dispõe. Quem tem razão? Todos terão alguma razão. Nenhum terá toda a razão.

6. Pena é que a Comunidade onde o pe. Mário se insere seja local e não nacional. Estamos a assistir à queda do sector eclesial e inerente avanço do seu descrédito. Os tempos mudaram e hoje a Igreja sente o muito que in­felizmente perdeu e continua a perder. É oportuno um exame de consciência: onde é que nos encontramos? Aonde nos trouxe Cristo? Onde é que desvia­mos do Evangelho?

7. A organização eclesial insiste na defesa da sua “autoridade” e das suas “verdades”. Continue, pe. Mário, a co­la­borar na difusão de um caminho ló­gico e racional para a credibilidade de uma Igreja livre, consciente e respon­sável.

N. D.

Caro A. Costa: Se ler com atenção a resposta que partilhei com a leitora Lena Gonçalves, ve­­rificará que não lhe expus dú­vidas. Disse-lhe – e digo a si e a todas, todos – coisas muito sé­rias e profundas. Difíceis de realizar, aqui e agora. Não adiei para depois da morte. Nem para uma nova encarnação. Convidei-a a viver radicalmente o aqui e agora. Em cada dia, como se fos­se o último. Porque, efectiva­mente, só temos esta vida como oportunidade. Pelo menos, é as­sim que vejo e vivo. E testemu­nho. O que vem a seguir, sei, pela Fé que partilho com Jesus de Nazaré, que será infinitamente mais belo, mas não sei como. Nin­guém sabe. Sei que não re­gresso nunca mais ao aqui e ago­ra. Que a partida, quando acon­tecer, é um parto para dian­te. Irreversível. Único. Para a ple­nitude. Não por méritos meus. Mas por pura Graça de Deus que, como testemunha Jesus, é Deus de vivos e não de mortos. Nem de reencarnados!

E-mail. Graça Borges : Olá Pe. Mário! Recebemos o Fraternizar e gos­tamos da homenagem que prestou ao meu pai. Realmente não esteve pre­sente na missa do funeral do meu pai nenhum bispo da nossa Igreja. Esta­vam em Fátima, na Conferência Episco­pal. Na missa do 7º dia não sei onde estavam...

É de referir que na missa do fu­neral esteve presente o D. Fernando Soares, Bispo Anglicano. Talvez nessa Igreja se dê mais importância às pes­soas do que às instituições...

Se me pergunta se penso que de­veria ter estado um bispo da minha (nos­sa) Igreja, numa dessas cerimó­nias de “despedida” do meu pai, res­pondo-lhe que sim. O meu pai gastou a sua vida ao serviço da Igreja, na dio­cese do Porto, mas também ao nível nacional. Dedicou-se à catequese das crianças da Sé durante a sua juventude e passou os últimos anos catequizando adultos num colégio salesiano. E, neste espaço de tempo que mediou a sua ju­ventude e a entrada na terceira idade, dedicou-se de corpo e alma à Acção Católica, na JOC e LOC. “Saiu” da igre­ja, da protecção divina que existe den­tro dos templos e desceu às ruas, bateu a portas fechadas, sujou as suas mãos na construção de um mundo mais justo para todos. Compreendeu que não po­deriam existir “bons” (verdadei­ros) cris­tãos, sem se cuidar primeiro da digni­dade humana. A Igreja não precisa de homens dependentes de Deus, mas de homens livres com capacidade de A­mar. Não teve tempo para enriquecer, o emprego servia apenas para sobre­viver. Não teve tempo para acompa­nhar passo a passo o crescimento dos filhos, pois passava longas horas fora de casa.

Tenho pena de nenhum bispo ter estado lá... não pelo meu pai, pois não lhe faltaram amigos (padres e leigos), que o acompanharam naquele e em tantos outros momentos da sua vida. Tenho pena por eles terem perdido um momento único de fé, de comunhão, de eternidade...

O meu pai tinha um sonho e eu her­dei-o. Que a hierarquia desse as mãos aos leigos e todos fossem apenas (o mesmo) Povo de Deus. E aqueles que fossem escolhidos para pastores, conhecessem pelo nome cada ser do seu rebanho e os acompanhassem no seu desenvolvimento humano e espi­ritual. Talvez um dia o sonho do meu pai se torne realidade e o Espírito de Deus seja acolhido por todos nós! Um beijo.

Amarante. António Augusto: Com a presente, tomo a liberdade de juntar um cheque de… euros, sendo… euros destinados ao pagamento da assinatura do Jornal para 2005, e… euros para adquirir (e custear os portes de cor­reio) um exemplar do n.º 155, de Out/Dez 2004 que acabo de ler na íntegra, mas cujo original tenho de devolver ao Amigo que fez o favor de mo emprestar.

O seu jornal é incómodo, incómodo e perturbador, fica a ecoar dentro de nós. Se bem entendi (ou assim o en­tendi!); espicaça-nos, responsabiliza-nos; não desculpa o marasmo a que nos devotamos, exige que, como seres humanos, nos interroguemos e, como co-responsáveis do que se passa nesta aldeia global, interroguemos o papel das instituições (nomeadamente, o Esta­do e a Igreja). Ser cristão, ser, enfim, qualquer coisa (seja ateu, seja cidadão, seja passante desta vida…) não é fácil depois de o lermos!

Com os melhores cumprimentos e obrigado por tudo quanto tem feito de genuíno ao longo da sua vida.

Macieira de Cambra. M.ª Emília: Faço votos para que esteja de boa saú­de, pois em relação a boa disposição sei que não lhe falta, e espero que con­tinue sempre assim. Só agora dou sinal de mim. Não que me tenha esque­cido daquela tarde que passámos a conversar numa confeitaria do Porto, mas entretanto surgiram alguns proble­mas de saúde a um familiar meu, e o tempo foi passando. Tenho recebido o Jornal, de que gosto muito. Continue. Um abraço, até à próxima.

Lisboa. Jorge: Sou o Jorge que lhe enviou a morada para a assinatura do Jornal. Lamentavelmente, perdi o meu pai para sempre, no dia 9 de Ja­neiro 2005. O meu pai era um alfarra­bista da zona de S. Domingos de Benfica, um amante dos livros, um ami­go de Abril e um admirador seu. Gosta­ria de lhe transmitir que todas as leitu­ras que fiz dos seus textos foram im­portantes para mim, na altura da morte do meu pai. Os seus artigos publicados em livros como QUE FAZER COM ESTA IGREJA? foram úteis e deram-me força e coragem para resistir a momentos tão difíceis como estes que eu ainda estou a atravessar. Afinal, posso ter perdido o meu pai, de uma maneira física, mas a sua imagem e memória permanecem no meu interior.

Um grande bem-haja para si e que continue a escrever por muitos e bons longos anos. Um abraço.

N.D.

Caro Jorge: Porque há-de di­zer que perdeu o seu pai? Quan­do a minha mãe, primeiro, e o meu pai, depois, morreram/res­sus­citaram, eu nunca disse que os perdi. Em comunhão e em sin­tonia com a mesma Fé de Jesus, que me leva a experimen­tar, como o levou a ele, que a vida nunca acaba, sempre se trans­forma, procurei, nesses ins­tantes, abrir-me de imediato à vida transformada da minha mãe e do meu pai. Por isso, nunca me senti órfão. Senti-me perma­nen­temente acompanhado. Nem a mãe, nem o pai me deixaram. Nem eu deixei a mãe e o pai. Vi­vemos, desde então, uma co­mu­nhão de outra ordem de gran­de­za que me alimenta e me faz ser o homem que sou, comprome­tido com este mundo e aberto ao mundo em que este já se está a transformar. Experimente também. Olhe que seu pai vive para sempre, e não apenas como imagem e como memória. O Jorge não o vê, como também não vê a Deus. Deixe-se surpreender pe­la sua presença e verá que nunca mais estará sozinho. A comu­nhão é intensa e fecunda.

Fiães. Mário Malheiro: Junto envio cheque para pagar a minha assinatura do Fraternizar e desejar que a força do Espírito de Deus continue a aben­çoar o teu trabalho-militância, para que a mensagem de Jesus seja melhor assi­milada e vivida.

Fico desejando que Deus te dê muita vida e saúde para que pelo me­nos o Fraternizar não se extinga, pois ele é como um farol que ilumina a minha vivência cristã. Aceita um fraternal abraço deste que muito te estima e admi­ra a tua obra.

Cacém. Olívia: Recebo há alguns meses o vosso Jornal. Um cunhado deu-mo a conhecer e, embora católica, não concordando com algumas posi­ções da Igreja, “ouvi” a voz que falta­va.

Tenho uma formação académica que me dá possibilidade de ver em to­das as religiões universais os mesmos princípios e os mesmos fins: servir o poder sócio-económico-religioso-po­lítico instituído. É uma leitura fácil de fazer e fácil de perceber: basta estar atento e ver os sinais.

Li, recentemente, “Maria Madalena e o Santo Graal”, de Margaret Starbird e… explica porque a mulher é despre­zada na Igreja! Faz sentido. À luz da Antropologia, faz sentido. À luz da razão, também.

Não quero alongar-me mais. O vosso tempo é precioso. Junto che­que… que só lamento não ter podido enviar há mais tempo. Obrigada.

Massamá. Leitor devidamente identificado: Tornei-me leitor assíduo tanto do Jornal Fraternizar como dos livros que amiúde publica por um aca­so do destino. Foi um colega de tra­balho e amigo, agora aposentado com quem partilhava afinidades políticas, que me fez tomar conhecimento das suas ideias. Confesso que nunca pude imaginar até então que as denúncias que sempre considerei pertinentes e urgentes para desmascarar todas as hipocrisias perpetradas pela Igreja ca­tó­lica (bem como por outras que proli­fe­ram por aí) pudessem justamente ser divulgadas por um presbítero da mes­ma Igreja católica.

Desta forma, continuo a ler avida­mente todos os seus comentários, que considero verdadeiramente portadores de mensagens de esperança e sérias tentativas de levar as mentalidades a combater o “ostracismo intelectual” e os lugares comuns impostos pelo “sta­tus quo”, passando efectivamente a pen­sar por si próprias.

Não queria no entanto acabar esta carta (junto envio o meu contributo para mais uma assinatura do Jornal) sem colocar uma série de dúvidas so­bre as quais reflicto com alguma recor­rência e que me deixam a maior parte das vezes com um sentimento de que é quase impossível ou extremamente difícil algum dia a Humanidade ser re­almente consciente/madura/dona do seu destino.

Eis as dúvidas e receios que tenho e vou agora partilhar consigo:

1. Como conseguir que a mensa­gem duma sociedade igualitária passe e informe todos os homens, quando até no seio do meu partido que se supõe uma força progressista e de emanci­pação dos homens e de liberdade, são violentamente atacadas todas as ten­tativas de democratizar a sua estrutura interna, em nome de dogmas inquestio­náveis (no que são muito parecidos com a Igreja católica) na opinião dos seus dirigentes, que resultam sempre na de­cisão “superior” de um comité de “ilu­mi­nados” ter de ser acatada pela maio­ria apenas com simples emendas e ra­suras superficiais?

2. O que dizer das forças de es­querda em geral que, no seu actuar, tomam decisões a favor ou contra qual­quer medida, não tendo em vista o seu real mérito ou oportunidade, nem tão pouco os ideais que tais forças defen­dem, mas apenas numa perspectiva ver­dadeiramente maquiavélica de con­quista do poder e sua manutenção a qualquer preço?

3. Como conseguir que os jovens acordem para realidades diferentes do capitalismo selvagem, se desde que co­meçam a falar, a sociedade os informa que o ideal de vida e a medida pela qual o seu sucesso será avaliado será a quantidade de bens que possuem, independentemente de quantos crimes contra o seu semelhante ou contra o próprio planeta cometam?

4. Como conseguir criar consciên­cia política/interventiva nas pessoas, se já ouvi a muitos homens e mulheres, gen­te trabalhadora e humilde, quando confrontada com a corrupção gritante dos nossos governantes, afirmar perem­ptoriamente: “Deixe lá, eu se lá estives­se faria a mesma coisa”; ou: “O homem está a orientar o seu futuro e você não faria o mesmo no lugar dele?”

5. Será mesmo possível transfor­mar esta sociedade? O que será preci­so? A que níveis de degradação tere­mos de chegar, até finalmente se come­çar a ouvir: BASTA!?

Teria mais coisas para lhe per­guntar, mas deixo aqui apenas estes “tópicos de debate” que penso já não serem poucos. Despeço-me com um abra­ço fraterno, pedindo-lhe que em ca­so de publicação desta carta, man­tenha o anonimato sobre a minha iden­tidade.

N.D.

Todas as questões que me co­loca são manifestamente opor­tu­nas. Não tenho respostas na manga. Mas posso contribuir com algumas achegas, para que nos saibamos situar de forma mais cor­recta e mais esperançada na História. Eis:

1. A História é um processo aberto. Dialéctico, diria o nosso compa­nheiro e irmão mais velho, Karl Marx. Por isso, todos os con­servadores e privilegiados des­te mundo detestam tanto a História. E não se cansam de repetir que já estamos no fim da História, na esperança de que as maiorias empobrecidas e ex­cluídas da mesa da vida se convençam e desmobilizem das lutas libertadoras e transfor­ma­doras que a História como proces­so aberto que é sempre propicia e reclama. A sociedade igualitária ainda não está aí? Nem no seu partido? Mais uma razão para não alinhar nunca na mentira re­petida pelas minorias dos pri­vi­légios de que estamos no fim da História. Não estamos. E muito mal avisados andaremos, se des­mo­bilizamos das lutas e nos con­vertemos em meros consumido­res dentro do Sistema. A socie­dade igualitária só existe como utopia no nosso horizonte, a ilu­minar os nossos olhares de com­ba­tentes e a aquecer os nossos corações de militantes. Os pe­que­nos passos que damos nessa direcção, em cada geração que vem a este mundo, são os únicos que garantem futuro ao nosso presente. Quando fazemos da vida um combate sem tréguas por uma sociedade igualitária, esta torna-se realidade nos nos­sos corpos militantes. Por isso, o que é decisivo em cada geração que vem a este mundo são pos­turas de combate político, cada vez mais inteligentes e cada vez mais fecundas, a médio e a longo prazo. A desmobilização geral que hoje está na ordem do dia, sobretudo, no mundo ocidental, é um fenómeno meramente episó­dico e circunstancial. Aproximam-se tempos de combate nunca antes protagonizados, e que Império al­gum conseguirá deter e desmo­bilizar. Não será o fim da Histó­ria, mas um Novo Começo, de mui­tos outros novos começos. Ar­memo-nos de paciência e de esperança. E de muita ternura. Porque os combates a travar no próximo futuro já não serão mar­ca­dos pela violência do Sistema. Serão combates que vestem ternura e respiram afectos.

2. As forças de esquerda, tal como hoje as conhecemos, têm os dias contados. Foram todas ge­radas pelo Império. Para o be­ne­ficiar e viabilizar. Por isso, estão inquinadas e feridas de mor­te. O discurso delas soa a al­ternativo, mas são palavras sem Sopro, sem Espírito. Reforçam o Império que as pariu, quando mais parece que o combatem. Alimentam-se do Império e dos privilégios que ele distribui entre os seus servidores. Nascerão ou­tras forças de Esquerda. Sopra­das pelos clamores das vítimas do Império. Protagonizadas pelas próprias maiorias empobrecidas e excluídas. Pela Humanidade, con­tra o Império.

3. Os nossos jovens, quando deixam de ter sonhos e projectos, en­ve­lhecem precocemente. À pre­sente geração de jovens, o Im­pério meteu-lhes o bichinho do consumo e eles adormeceram. São conduzidos, quando deveri­am ser condutores. Há momentos assim na História. Não duram sem­pre. Confiemos. Já está aí a surgir outra geração de jovens que resistirão ao vírus do Impé­rio. Exigirão ser criadores, em lugar de consumidores. Serão poe­tas e profetas. Ao jeito de Je­sus de Nazaré. Jovens no mun­do, sem serem do mundo, por isso, irmãs, irmãos univer­sais. Animados de projectos e de so­nhos. Com eles, o Império será obrigado a ceder mais protago­nismo à Humanidade. A luta será duélica. Mas empolgante. Já se vêem aí alguns sinais anuncia­do­res deste Tempo Novo. Não os vemos? Será que o Império nos fez cegos?

4. Consciência política e in­ter­ventiva? Um pouco mais de tempo, e ela será o pão de cada dia da Humanidade. Basta recor­dar que Deus, o de Jesus, do que verdadeiramente gosta é de Política, não de Religião. Até aqui, foi o tempo das religiões que nos alienaram e domestica­ram. As pessoas metiam-se nos templos, em lugar de se meterem no mundo. Cuidavam das deusas e dos deuses, em lugar de cui­darem da Terra. Mas esse tempo está a passar. Vem aí o tempo da Política feita pela Humanidade contra o Império. A Política como o que os seres humanos, todos os seres humanos, temos de melhor. Por isso, sem espaço nem oportunidade para a corru­pção que o Império desperta e alimenta.

5. Mas então não vê que os seus anseios de mudança já são sinal de que o mundo está a mu­dar? A transformação está em curso. Não se deixe cegar pelo Im­pério. É ele que não quer que as pessoas vejam, para não se mobilizarem. Veja. Confie. Que­bre as suas rotinas. Liberte-se do pessimismo. Deixe as trevas do Império. Venha para a luz. Na luz, tudo é diferente. O Im­pério ainda está lá, mas já sabe­mos que é o Inimigo da Humani­dade e, em lugar de seguirmos o seu discurso, resistimos-lhe e desmascaramo-lo. Não espere pelo momento de dizer BASTA! Este é o momento. Viva-o. Viva­mo-lo.

Penafirme. Manuel Nunes: Junto envio cheque relativo à minha assi­natura do Fraternizar. Espero e desejo que esteja bem e que continue a lutar por que o ano 2005 seja bom.

A leitura do Fraternizar é para mim sempre refrescante, revigorante e es­timuladora das minhas próprias lutas. Contribui para que eu avive a minha consciência de que, afinal, não estou só na coragem de dizer “não” e na ou­sadia de tentar desbravar outros ca­minhos e de acender outras luzes que propiciem e favoreçam que Aquele que é para nós o Caminho e a Luz o possa ser para outros.

Ultimamente, tem havido alguns sinais animadores que mostram que, afinal, não estamos sós. Saliento dois: 1. A última Semana Bíblica Nacional (dos Capuchinhos: o Frei Herculano Alves, o Frei Fernando Ventura e o Frei Francolino Gonçalves foram corajosos na denúncia de graves males que atin­gem as estruturas exteriores da Igreja que amamos). 2. O último encontro de jovens, promovido pela Comunidade de Taizé (o irmão Roger foi corajoso na denúncia dos obstáculos que al­guns teimam em erigir para dificultar a urgente tarefa da reconciliação entre os cristãos). Com um abraço amigo.

Alcochete. Miguel: Sendo desti­tuído de fé cristã e agnóstico militante, gostaria todavia de continuar a receber o Fraternizar, por ele constituir um exemplo de coragem e de dedicação fundamentais para o desenvolvimento da consciência cívica dos cidadãos. Julgo, aliás, que o debate desassom­brado e franco e a dialéctica são im­pres­cindíveis à evolução da Humani­dade no seu duplo aspecto: moral e intelectual.

Junto envio cheque de… euros, para assinatura respeitante a dois anos. Votos de ânimo e de boa saúde para o prosseguimento da sua meritória actividade.

Porto. Joaquim Moreno: Nem sempre estou de acordo com o pe. Mário, mas isso é saudável e só vem aumentar a ideia que sempre tive de que o Fraternizar é uma voz necessária para alertar e dar a conhecer o que se passa em áreas que a outra comuni­cação social não toca, nem dá a co­nhecer notícias e posições que vão surgindo neste cantinho e noutras partes do globo.

Felicito o grande obreiro e mentor desta viagem trimestral que é o pe. Mário. O meu pensamento leva-me a pensar nesse jovem de ontem com toda aquela garra que tinha e se tem manti­do até hoje, sem esquecer todos os “aci­dentes” que lhe foram surgindo (= impostos) por pessoas que tinham a obrigação de ter outra postura na vida e na Igreja.

Com o sabor dos anos passados e o “estatuto” de reformados, posso ex­pressar o meu desejo de que o Frater­nizar não termine. Será que na geração mais jovem não existem outros MÁ­RIOS?

Junto cheque para pagamento da minha assinatura. Votos de que o grito lançado pela Direcção do Jornal não caia em saco roto.

Ao sempre jovem Mário-presbítero vai o meu fraterno e velho abraço de parabéns por essa constante frescura e lucidez de pensamento e que se vai manifestando em muitos actos do dia a dia, concretamente no penúltimo Editorial: Alerta! O inimigo do país dis­far­çou-se de Governo! Parabéns, padre Mário e força para encontrares uma forma de participação na continuidade – digna – do Jornal Fraternizar.

Malveira. António Grilo: Habituei-me, ainda antes de acontecer Abril, na época que imediatamente o antecedeu, a ler, com uma certa avidez, tudo quan­to escreveu, ou sobre si se escrevia. O 25 de Abril, as grandes transforma­ções a que deu lugar e as muitas tare­fas que então a todos se impunham, levou-me a interromper de alguma ma­neira o contacto com os seus livros. Um feliz acaso, porém, voltou a recolocá-lo ante mim. “Ouvistes o que foi dito aos antigos. Eu, porém, digo-vos”. Este foi o acaso.

Serei breve. Não queria, porém, começar sem que, primeiro, o felicite pela forma digna e corajosa como en­frentou, por um lado, os beleguins do regime fascista e, por outro, a sua pró­pria hierarquia, na sua qualidade de presbítero, também. Daqueles, tudo era de esperar; desta, custa-me bastante imaginar que o D. António, ele próprio vítima do ditador, o tenha tratado a si da forma como o fez. Atrevo-me a acre­ditar que o seu Jesus terá discordado, também, do D. António. Afrontar o dita­dor, sim, mas solidarizar-se com o seu presbítero em todas as circunstâncias, também. Infelizmente assim não foi, para si. Acontece, porém, que ganhá­mos um aliado, mas que aliado… para continuar, livre de quaisquer peias, a lutar e a combater todos os Bush’s que tentam subjugar pela força todos quan­tos se lhes opõem.

Creio que todos os seus escritos foram e continuam a ser um farol a que todos os náufragos se agarram para não soçobrarem e se libertarem das grilhetas a que a Igreja católica teima em manietá-los, através das mais vari­adas formas: sermões, retiros espiritu­ais, missas, confissões, etc., formas es­sas destinadas a mantê-los alheados, in­diferentes, mesmo afastados dos reais problemas, uma vez que a sua palavra (da Igreja) é, na maioria dos casos, inó­cua, senão mesmo reaccionária. Não é por esta via que a liberdade física e moral se obtém.

Se os presbíteros da Igreja cató­lica agissem da mesma forma que o pe. Mário age, Portugal seria totalmente diferente. Imagino o que seria, 10% que fosse dos padres, ao domingo, dialo­gan­do nas igrejas, do modo como o sr. o faz na sua comunidade de base. Outro, e bem diferente para melhor, seria Portugal.

Antes de terminar, junto a minha voz à daquelas que lhe pedem para que não desfaleça em proclamar bem alto a palavra pela liberdade, quer ci­vil, que, sobretudo no seu caso, re­li­giosa. Os seus conhecimentos na ma­téria são extremamente valiosos na ajuda ao combate e erradicação dos fantasmas e dos preconceitos que a hierarquia católica teima em manter uma parte considerável do povo por­tuguês. Não desista. Um abraço frater­nal.

Algés. Benedita: Como eu, há mui­tos que se atrasam. Peço desculpa. O tempo passa e não está certo receber e nada dizer, não colaborar.

Há muito no Fraternizar de que gosto. Há também algo de que não gosto, não concordo. Leio. Penso. Formo opinião. Mas gosto de ler. Leio desde o n.º 0, anunciado no EXPRES­SO.

Aqui vai a minha colaboração. Espero que outros o façam para que continuem. Os leitores continuarão a gostar ou a rejeitar.

Aveiro. Eng.º José de Sousa: Após o 25 de Abril, os partidos de es­querda, ou ditos como tais, passaram a ser, mais do que os de direita, culpa­dos pela despolitização do eleitorado e consequente aumento da abstenção devido ao crescente e fomentado de­sin­te­resse pela política, assim dificul­tando o lançamento da alternativa que dará "sentido à vida", saindo-se desta modorra do "ora agora comes tu, ora agora como eu, ora agora comes tu mais eu"! Tais partidos, man­tendo em­bo­ra a estratégia (conjunto de objecti­vos), não têm actualizado a táctica (for­ma de alcançar os objectivos).

Mas, pior ainda, nenhum deles tem mostrado interesse pelo projecto de alternativa que lhes tem sido proposto desde há mais de sete anos e que é verdadeiramente empolgante, revolu­cio­nário, pacífico e sui generis, com ideo­logia axiomática por certo aceitá­vel pela maioria da população. Aqueles partidos, assim, passaram a assumir maior responsabilidade do que os de direita pela "castração" política do Po­vo, iludindo os próprios militantes e não só, o que é verdadeiramente con­de­nável.

Está documentado para comprovar tão escandaloso procedimento que, por este meio, denuncia publicamente, o leitor ecoudemocrata, José de Sousa ( sousa_ramos@sapo.pt ).


Manuel Sérgio (Lisboa)

DEMOCRACIA E SOCIALISMO

No ensaio “Le philosophe et le so­ciologie”, Maurice Merleau-Ponty referia os riscos da rivalidade existente entre os filósofos e os sociólogos: aqueles, con­siderando-se próximos da verdade, porque possuidores e criadores de idei­as; estes, reivindicando a verdade, por­que partem dos factos às ideias ou, como recomendava Malraux, pretendem transformar a experiência em consciên­cia. Trata-se de uma emulação ridícula, já que o filósofo não pode teorizar des­co­nhecendo o mundo-da-vida, nem o sociólogo pode ordenar os factos, sem um paradigma e um programa de in­ves­tigação.

O tema “Democracia e Socialismo” é para filósofos, sociólogos e afinal para todos os inconformistas insubor­náveis, de espírito alerta e vigilante. Alguém tem dúvidas que as relações entre a Democracia e o Socialismo exi­gem a reflexão atenta do homem do nosso tempo? E uma questão se levanta imediatamente: é possível ser-se socia­lista e anti-marxista? É verdade que os vários marxismos, quando se fizeram poder, nada trouxeram de novo aos ex­cluídos pela sociedade injusta, eterni­zando um Estado ditatorial – quando Marx, em muitos dos seus textos, sus­tentou a abolição do Estado, nas so­ciedades socialistas.

Mas não é verdade também que o capitalismo, que Marx sabiamente criti­cou, permanece nos governos europeus ditos socialistas, onde a alta competição do mercado e as políticas públicas con­vivem em permanente e amiga relação dialéctica? E na alta competição não é certo que há sempre vencedores e ven­cidos? Na Europa e na América (exce­ptuando Cuba, onde não há nem de­mo­cracia, nem socialismo, embora a coragem admirável de Fidel Castro, diante do Golias norte-americano), a Democracia distingue-se pela defesa e preservação do sistema capitalista. E os movimentos sociais e os partidos de esquerda, mesmo quando apare­cem sob a forma de democracia dire­cta ou de base, não põem em causa, ha­bitualmente, o capitalismo, pois que este farisaicamente vai incorporando uma ou outra prática social que eles reivindicam.

Os próprios sindicatos, de facto, não apresentam qualquer pro­jecto de transformação do para­di­gma político dominante e ao acei­tarem a democra­cia representativa, sem o aprofunda­mento da democracia participativa, contribuem também à morte do socia­lismo, no sentido forte do termo, pois que tudo se passa co­mo se a igual­dade não integrasse a matriz unifica­do­ra da sua prática po­lítica.

Não se vê, à vista desarmada, qual a relação, no Ocidente, entre De­mocracia e Socialismo. Evidentes, sim, são os vínculos estreitos entre Demo­cracia e Capitalismo. E assim é caso para perguntar-se: ainda há socia­lis­mo, na Europa? Não convencem os discursos anti-neoliberalismo-selva­gem, quando se aceita esse mesmo neoliberalismo, incensado e mas­ca­rado pelos ícones do “socialismo de­mo­crático”.

O Partido Socialista chegou ao poder, dispondo hoje de maioria abso­luta, ao mesmo tempo que os par­tidos da esquerda parlamentar somaram 59 por cento dos votos expres­sos. Será de esperar que os portu­gue­ses, designa­da­­mente os mais frágeis e desvalidos, as crianças e as mulheres aban­donadas, os dissidentes, os margi­nais, os refugia­dos, os idosos, as mino­rias sintam que a solidariedade não é uma dimensão esquecida, no nosso país.

Com um novo poder, Portugal foi chamado à mudança! Ou melhor, todos os portugueses foram chamados à mu­dança! Não basta a liberdade, importa que se implementem também políticas eco­nómicas e sociais que, através da transparência e do rigor, aperfeiçoem a solidariedade. É que é na solidarie­dade que a esquerda deverá afirmar-se, dado que não há exterioridade, sem a interioridade que lhe dê sentido.

Os drs. Durão Barroso e Santana Lopes e os seus governos pretenderam fazer uma “irrevolução” (P. Ricoeur), ten­tando cloroformizar os portugueses, face às verdadeiras e profundas ques­tões que atormentam os nossos irmãos mais pobres. Vivemos, com o PPD/PSD e o CDS/PP, na ditadura do efémero.

Se a abstenção foi a mais baixa desde 1987, tal se deve ao facto de os portugueses necessitarem de dizer “basta!” à hipocrisia e a incompetência – à hipocrisia e à incompetência que é preciso erradicar da vida política naci­onal!


Júlio Ribeiro (Maputo)

UM ROMANCE NAS FRALDAS DO MARÃO

Como alterei a visão legalista

A altitudes um tanto semelhantes, a longitudes bem diferentes, a latitu­des quase opostas, e cada qual com panorâmicas características, a verdade é que, naqueles primeiros dias do ano capicua do século vinte e um, as mon­ta­nhas de Mankele, a mil metros acima do nível do mar, e, aproximadamente, a uma Longitude Este de 30º 69' 00" e Latitude Sul de 25º 37' 00", fizeram-me recordar o romance dos meus vinte anos com uma trasmontana dos seus quinze, mas já bem mulher.

Desde a mais tenra idade, passa­va, nas quintas de Vila Real, longas férias, e não só, porque, até iniciar o li­ceu, as minhas sucessivas professo­ras (com excepção da de piano) viviam em nossa casa: era o ensino domés­tico, de meninos ricos, para serem pro­tegidos dos perigos do mundo, quer dizer, das classes menos favorecidas ou das classes em degenerescência...

Também, por vezes, mas por pe­río­dos muito mais reduzidos, íamos para San tiago de Lobão, e aí ganhei o gosto pelos pinhais e pela vida de aldeia; mas o convívio com feitores e ca­seiros não ganhou as proporções – nem de longe – das que se foram es­tabelecendo em Folhadela, e que duraram até a minha vinda para África.

  Um feitor e caseiro – se bem me recordo: feitor na parte vinícola e flo­restal, caseiro na parte agrícola –, adivinhando (e não era nada difícil) as minhas tendências poéticas e mís­ticas, construiu-me, com uns troncos, no recôndito do pinhal maior e mais elevado da Quinta de Vilalva, um ora­tório aberto. Eram apenas uns quatro paus debaixo de dois pinheiros: um para apoiar os joelhos, outro para apoi­ar os braços  e dois para lembrar a cruz. A luz era coada pela popa dos pinheiros, a música era executada pela aragem a atravessar a imensidade de agulhas verdes dos seus ramos, e por um ou outro pássaro, e o chão era ata­pe­tado pela caruma seca de um cas­tanho inigualável.

Como eu gostava de passear na­quele pinhal, subir a rampa das acáci­as que dava para a casa do cuco, sair por um pequeno portão que dava para o santuário incompleto da Senhora de Lurdes, ajoelhar aos pés dela, contem­plar lá ao longe a cidade – símbolo de Civilização – e voltar a embrenhar-me na mata – símbolo da Natureza  – e por lá vaguear, sentar-me a ler, tal­vez a escrever, saboreando as varian­tes das cores em constante mutação, e da música nunca repetitiva e sempre e simultaneamente calmante e excitan­te!

Também o olival me atraía, e os la­meiros, na margem esquerda do ri­beiro (de nome Tourinhas), e a corte do gado, sobretudo na hora de tirar o espumoso leite, que eu bebia ali mes­mo, ainda morno, e reconfortante.

As vindimas e o lagar, onde até eu (pequeno e devido a atraso no an­dar) parece que pisei as uvas com os jornaleiros, abraçados, e a tocar con­cer­tina e a cantar – eram momentos altos na vida campestre, juntamente com as esfolhadas e a alegria de en­con­trar o milho rei – a espiga vermelha – que dava direito a abraçar todas as mu­lheres da roda e cumprimentar os homens.

A quinta, porém, era limitada, na parte baixa, pelo ribeiro, e, dos outros lados, por altos muros. Mas os portões, embora fechados à chave, se propor­cio­navam entradas, também convidavam a saídas, alargar tendas...  

Na parte alta do olival, havia um sobretudo convidativo para chegar na Quinta de Cima – assim lhe chamavam. Tínhamos lá dois quartos de reserva, mas o senhorio, meu pai, cedera-os aos caseiros e aos filhos.

Na sala, ao almoço, lá pelo meio da manhã, sentar-me com eles à volta da mesa, com o prato das batatas cozi­das e um outro com azeite e vinagre, no meio, equidistante de cada um de nós, e empunhando o garfo, estenden­do-o para apanhar, à vez, um pedaço de batata e demolhando-o e logo em seguida saboreando-o... ou sentarmo-nos à volta da lareira, cada um com a sua tigela de sopa bem quente e suave­mente mastigada – se não era o cúmulo da felicidade, muito se aproximava dis­so.

Todos – mulheres e homens, adul­tos e crianças – conversando alegre­mente e partilhando o mesmo alimento à volta de uma mesa ou de uma lareira – tudo fruto do trabalho de todos – era mesmo, além de enorme prazer, um ideal de vida a acenar-me.

Talvez só o tenha percebido na lu­ta pela união de camponeses e operá­rios com que iniciámos a independência de Moçambique, e nas celebrações eu­ca­rísticas, às tardes,  depois dos traba­lhos revolucionários, no convento dos Ca­puchinhos de Bari, em Quelimane, ou em qualquer outro recanto do país ou do estrangeiro, onde nos encontrás­semos.

A maior parte daqueles campone­ses não conhecia o mar, e meu pai, quando no verão nos levava para a praia, convidava os filhos desses casei­ros, e era eu que, espontaneamente, me encarregava deles. Em Espinho era notório, como mais tarde me apercebi, este jovenzinho que eu era, entretido com um grupo crescente de crianças (aos pequenos camponeses que viviam na casa alugada para a época de prai­a, juntavam-se filhos de um ou outro vizinho).

Os meus passeios em Vila Real, po­rém, não se limitavam às duas quin­tas (nas duas havia matas para alimen­tar os vinhedos). Toda a freguesia de Fo­lhadela, desde Vila Nova de Baixo até Vila Nova de Cima – com a sua er­mi­da de Santa Luzia e a respectiva ro­ma­ria em 13 de Dezembro – era percor­rida por mim, e gostava de falar com os aldeãos e brincar com as crianças. Aquele introvertido nos meios formalísti­cos da burguesia, onde me sentia den­tro de uma camisa de forças, surgia como um extrovertido nos ambientes cam­pesinos (mais tarde também nos operários), onde me podia expandir sem constrangimentos.

 E não tardou a formar-se um gru­po de crianças que me seguia nas pas­seatas por toda a freguesia de Folha­dela – com o beneplácito, simpatia e até a gratidão dos adultos.

Isto deve ter despertado a curiosi­dade de uma jovem liceal que vivia, em abastada casa de Vila Nova de Bai­xo, com uma irmã mais nova, a Anita, uma tia e a avó (o pai havia-se separa­do ou divorciado da mãe e vivia na ci­dade de Vila Real com outra compa­nheira).

De momento, ia-me constrangen­do: elemento burguês no grupo, pare­cia-me uma infiltração nada agradável. Mas eu não podia ser homem de pre-juí­zos: como iria, na prática, trair os meus princípios filosóficos? Julgar a priori uma dádiva destas?

...E a posteriori fui vendo que era a companheira que me faltava não só em Folhadela e nas férias, mas para todas as andanças da minha vida e em qualquer parte do mundo.

 A solidão já não existia ao con­tem­plar as ondulações montanhosas, os planaltos, os vales, os rios e os ri­beiros, as noites de luar. Encontrara a quem eu poderia fazer feliz sem re­nun­ciar a ser eu mesmo.

Já não era aquela menininha, filha de ricaço brasileiro, com quem preco­ce­mente primos meus mais velhos me quereriam entusiasmar. Também não era a priminha rica, minhota, que talvez também fosse um bom partido. Tudo isso me desagradava por falta de au­ten­ticidade e por intromissão nos meus sentimentos profundos, que não dava para exteriorizar em ambientes mor­nos.

Agora era uma mulher que surgia, vinha ao meu encontro, começou por me admirar, passou a sentir ternura por mim, a verter, às escondidas, lágri­mas de saudade, quando eu regressa­va ao Porto, e começou a amar, talvez a primeira vez, mas já com bastante ma­turidade.

Não era a simples amiga por parti­lhar os mesmos ideais, ou os mesmos sentimentos artísticos, sociais ou polí­ticos, ou os mesmos estudos, ou o mes­mo trabalho, ou a mesma casa, ou as mes­mas férias ou as mesmas brinca­deiras.

Era a mulher que integrava a pai­sa­gem – não apenas geográfica ou tran­sitória, mas a paisagem global, cós­mica, qualquer que ela fosse e sob que prisma fosse – de um modo total e definitivo.

 Eu queria evangelizar, sim, mas por que me haveriam de impor o celi­bato para o fazer? Em termos teológi­cos, por que se haveria de estabelecer no Ocidente uma incompatibilidade ju­rídica entre os sacramentos do Matri­mónio e da Ordem? Se, por natureza, nenhuma incompatibilidade existe, se, algures, no Oriente, até Roma aceita, por que exigir entre nós a coincidência, na mesma pessoa, da vocação presbi­te­rial e celibatária? 

Tentar dessa forma a Deus, impe­dir a autenticidade e felicidade a tantas pessoas, fomentar tanto escândalo e tan­ta hipocrisia, e, por cima, ainda pro­clamar a falta de vocações e a necessi­dade de pedir a Deus que faça surgir mais! Cinismo revoltante. Segundas in­ten­ções criminosas.

Eu não concordaria com Papini, se nessa altura já o conhecesse. Mas já conhecia Herculano, e concordava com ele. Eu não quereria ser um Eurico, sem­pre triste. Outros e outras há que, por vocação, e, portanto, com alegria, abraçam o celibato. Esses, porém, não têm o exclusivo da vocação presbiterial, assim como também não são só os ho­mens. As mulheres – casadas ou não – nunca foram discriminadas por Cristo, nem naquela época, quanto mais agora.                                       

***

Que peninha perder-se, na crise da juventude uma vocação que se re­ve­lara promissora na crise da adoles­cência! Aos quinze, abalara a opinião fa­miliar a entrada num seminário frio e austero de quem vivia num ambiente morno e abastado de um grande casa­rão. Aos vinte, volta a abalar a mesma opinião familiar com a saída do célebre Seminário dos Grilos – aparentemente causada pela paixão por uma mocinha de aldeia perdida em Trás-os-Montes!

Mas não tinha ainda vinte e um anos (lembrou-se o zeloso Reitor, já de­pois de me ter exigido a passagem pelo quarto do Director Espiritual), e foi preciso autorização paterna para deixar o Porto e seguir para Coimbra a fim de me candidatar a aluno da Fa­cul­dade de Histórico-Filosóficas.

A autorização não se fez esperar... mas apenas para regressar à casa paterna, e assim tive de regressar a Vila Real, e não pude seguir para Coim­bra como era minha intenção.

Os meus devaneios eram muitos. Primeiro, queria ir para Cucujães, a fim de ser missionário em África. Depois, aceitei um meio termo, fingindo que me preparava para padre diocesano, qu­an­do, na verdade, a ideia de África não me saía. Logo a seguir, no meio de pré­mios de bom comportamento, mas com notas horríveis em latim, quero me fazer contemplativo em Espanha, em alguma Cartuxa ou Trapa. Relaciono-me com Ir. M.ª Buenaventura Ramos, O.C.S.O., Abade de S. Isidro, apesar do «zelo se­minarístico» de um contínuo – o Sr. Armando , salvo erro – me interceptar uma carta, para agradar ao «zelo mater­nal» de irmãzinha mais velha, que me quereria proteger das garras de frades castelhanos. E agora, em vez de África, ou de Espanha, ou mesmo de Vila Real, onde vivia a apaixonada, quero ir para a Universidade de Coimbra!

De facto, era preciso, aos vinte anos, ir para o pé do paizinho, para este me encaminhar, me proteger dos maus caminhos e más companhias, não fosse eu ainda me lembrar de pegar num saco e me fazer mendicante, na esteia de Francisco de Assis...

De facto, a preocupação do dote que ao menos certas ordens religiosas exigiam dos seus candidatos bem co­mo dos golpes de baú não deviam ser-lhe estranhos, embora não fossem as únicas.

Um dia ainda havia tentado, sem o menor resultado, a emancipação. Tive de começar a contar os anos, os me­ses, os dias, ao contrário. Até que chegou o dia zero – a desejada maior ida­de – para começar a aventura da vida sob a minha total responsabilida­de. Consultei um advogado e coloquei-me sob a sua defesa, para o caso de qualquer acção policial numa última ten­tativa de prolongamento da tutela paternal (o que, felizmente, não acon­te­ceu: meu pai respeitava muito a lega­lidade).

No dia seguinte, 9 de Janeiro de 1946, dirigi-me, logo de manhã, para a estação de S. Bento, e tomei o com­boio para Vila Real (linha do Douro até a Régua, e a panorâmica linha do Corgo, depois). Ao meio dia, uma amiga minha entregava em casa de meu pai uma carta, delicada e talvez patética, que eu previamente escrevera. Não queria ferir, mas não podia renunciar à responsabilidade de traçar a minha vida. E nesse mesmo dia encontrava-me com a minha noiva.

Compreendeu (todos compreende­ram) a quanto renunciara por causa de­la, e amorosamente me acolheu, e o romance continuou, não em sonho, mas na realidade quotidiana.

Uns tios, que viviam em casa contí­gua (até havia uma janela de comunica­ção) hospedaram-me com a mesma afa­bilidade de sempre. E eu gostava das suas três pequeninas filhas, como se minhas fossem. Era uma ternura espontânea.

A avó admirava-me muito e favo­receu o noivado, apenas com os habi­tuais cuidados da moral tradicional. A Tia Zélia, embora muito nossa amiga (bem como o marido, Rogério), era tão escrupulosa que até nos repreendeu, uma vez, quando estudávamos filosofia juntos, por, em vez de nos sentarmos à mesa um de cada lado, nos termos sen­tado do mesmo lado, talvez tocando levemente os braços... – aliás bem aga­sa­lha­dos, porque o frio de Janeiro não é brincadeira naquele clima continen­tal. 

O Tio Rogério aceitou que fosse tra­balhar para o seu Armazém de Mer­ce­aria, na Rua Direita. Descontava ca­ma, mesa e roupa lavada, e assim esta­va assegurada a minha subsistência e independência. Com o que restava, mais tar­de, aluguei casa (no recém-construí­do Bairro de Nossa Senhora dos Pra­zeres, na Estrada do Circuito) e mo­bi­lei-a, e esperava os dezasseis anos da minha noiva para nos casarmos.

José, o pai, sócio capitalista e ir­mão do Rogério, gostava muito de mim: também a actual mulher dele. A Anita, a irmã mais nova, muito linda, talvez fos­se um pequeno senão, porque gosta­va muito de nos espionar e não devia ser nada discreta. Pelo contrário, o ir­mão mais velho, Eduardo, foi sempre ca­maradão, tanto no serviço (como não era muito dado aos estudos, também trabalhava no armazém de mercearia) como fora do serviço. (Ainda lá pelos anos oitenta ou pouco antes, me em­pres­tou um apartamento em Lausanne para eu esperar pelo avião que me fa­ria regressar a África de uma viagem ao hemisfério norte.)

Todos sabiam da oposição da mi­nha família, mas todos respeitavam a opção bem livre e consciente de nós dois nos unirmos conjugalmente na ida­de legal da parte mais nova. Ela estu­dava, eu trabalhava, e, nas horas vagas – que não eram muitas – íamos vivendo o presente e projectando o futuro.

Este relacionamento era bem di­ferente das amizades que cada um de nós mantinha. Não fora, também, um amor à primeira vista: era um amor con­jugal que ia amadurecendo à medida que nos revelávamos e conhecíamos.

A avó era uma pessoa maravilhosa quando do nosso lado, mas temível se contra nós: o próprio filho a temia e na­da fazia contra ela. Eu estava radi­ante porque até por escrito me testemu­nhara o seu apreço e a sua alegria por me ir casar com a neta.

No armazém de mercearia eu tam­bém dera provas de competência e de­di­ca­ção, muito embora, evidente­mente, não pudesse estar de acordo com cer­tos procedimentos da entidade patro­nal, tanto no relacionamento com o pes­soal como, talvez sobretudo, com os cli­entes, os merceeiros a retalho das di­ver­sas aldeolas de serras e vales cir­cun­vizinhos. Um ou outro choque logo era ultrapassado pela nossa mútua admi­ração e reconhecimento.

Meu pai, por outro lado, rendera-se, dolorosamente, estou certo, à evi­dência dos factos, aos direitos que me assistiam, sem, no entanto, deixar de me considerar um filho pródigo, como, muito mais tarde, já eu estava em África e ele me voltara a admirar, comprovou com um recorte de jornal em que uma minibanda desenhada ilustrava a céle­bre parábola  evangélica.

Além disso, logo se apressou  a en­tre­gar-me a administração do pe­que­no espólio que meu avô materno, Ernesto Abílio Rodrigues, e meu tio pa­terno, Fernando Caetano Ribeiro, me haviam deixado. Era um certo alívio nas minhas finanças, permitindo-me, assim, enveredar pelo matrimónio com uma jovem liceal sem alterar o nosso bem estar diário. E eu, esporadicamente,  quan­do ele estava na Quinta de Vilal­va, visitava-o.

Um dia, porém,  o vulcão que pare­cia inactivo na avó entra em convulsão: alguém, quase certo da aldeia, a espi­ca­çara, o seu orgulho ferve, e coloca-se ferozmente contra o nosso noivado. O pai, desgostoso, intercede, mas des­consegue. Se a minha família está con­tra o casamento da sua neta comigo, então também ela vai opor-se termi­nante­mente.

O pai redobrou a amizade comigo, os tios colocam-se a meu lado, a ado­ra­ção mútua entre nós crescia, mas era um inferno em casa dela, e nova táctica tinha de ser tomada. Já não podia ir, evi­dentemente, a casa dela, e às vezes até eram impedidos os encontros em casa dos tios, onde continuava a viver e me davam todo o apoio nesta nova e desesperante situação. Em casa do pai, no entanto, à hora do almoço, na ci­dade, continuávamos a encontrar-nos livremente.

Entretanto, como parecia lógico, uma vez que já alugara casa no recen­te Bairro de Nossa Senhora dos Praze­res, na estrada do circuito, no troço que dava para a Casa de Mateus, dos Con­des de Vila Real e agora do Conde de Mangualde, e como já a tinha mobila­da para o grande dia do casamento, eu deveria deixar a casa dos tios e pas­sar a residir na nossa casa. Ela temia que essa mudança agravasse a situa­ção, no sentido de nos vermos menos ve­zes e de se descartarem mais facil­mente de mim. Por outro lado, porém, ga­nhava outra independência e passa­ria a ganhar o vencimento por inteiro. Foram tempos difíceis, e não há dúvida de que o isolamento foi terrível.

Perante a irredutibilidade da avó e a fraqueza do pai, que nunca levaria a cabo uma acção legal contra o pare­cer dela – melhor, contra a vontade omni­potente dela –, tínhamos de cortar o mal pela raiz.

Foi então que concebemos um pla­no ao abrigo da Concordata. Quando os dezasseis anos fossem atingidos, apre­sentar-nos-íamos, os dois, ao bispo diocesano e, sob a invocação de perigo moral, pediríamos que ele nos testemu­nhasse o casamento canónico, que, nes­sas circunstâncias, teria imediatos efei­tos civis.

E assim íamos vivendo, nesta espe­rança de que tudo correria conforme planejado. Era dura a espera, mas um grande amor tudo faria suportar. Mais uma vez tive de contar o tempo a de­cres­cer.

Só que, ao aproximar-se a data, ela vacila – com medo da avó – e des­combina o combinado. Seria preciso esperar mais cinco anos... e eu não tinha o arcaboiço de um santo.

Sempre percebi e percebo que ela não tivesse a heroicidade de enfrentar a fera que era a avó quando ferida no seu orgulho, nunca lhe tive raiva, foi uma falta à palavra bem compreensível, mas eu ainda era e sou mais fraco, e desfaleci.

E procurei novos rumos...

O pai procurou-me para recome­çar, mas eu já não tinha esperança, já não acreditava, e como seria o amor sem confiança e sem fé?

Lembro-me bem de uma dessas con­versas, um pouco depois da pas­sagem de nível e antes de entrar no pa­tamar superior da célebre ponte me­tálica sobre o Rio Corgo – obra do mesmo  construtor da Torre Eiffel.

Mas todos continuámos amigos e, evidentemente, o ocorrido em nada afe­ctou o meu trabalho no armazém de mer­cearia:  só o deixei quando resolvi con­tinuar Filosofia na Universidade Gregoriana.

Embora com um final fracassado, este foi dos mais belos romances que vivi. Desaguentei uma falta de palavra bem compreensível, e, afinal, acabei por suportar – sabe Deus com que raiva – tantas outras faltas de palavra de quem menos poderia esperar, e sem­pre sem a mínima justificação ou se­quer posterior reconhecimento... como se tudo fosse muito normal e muito cor­recto, e até nem pudesse ser de outro modo.

Este romance, porém, mais uma vez me indignou contra os pais e tutores que se opõem à vocação dos filhos, e  le­vou-me a efectuar uma intervenção escrita no I CONGRESO INTERIBERO­AMERICANO DE EDUCATION, realizado em Madrid, de 16 a 25 de Outubro de 1949, no sentido de se exigir das auto­ri­dades estaduais a protecção dos me­nores desrespeitados nos seus direitos de opção, quer no campo profissional, quer no campo matrimonial.

***

Esta foi a segunda mulher que, depois de adulto, me evangelizou, não só pela ternura, intimidade e amor com que vivemos um noivado, cuja interru­pção se deve mais à minha fraqueza do que à dela, não só pelo apoio que me deu a lidar com o grupo de crianças de Folhadela, mas ainda por me ter li­ber­tado de uma visão legalista do rela­cionamento humano, influenciado que eu ainda vinha por certas normas do Direito Canónico referentes aos ca­sos ditos de mancebia.

Não é muito melhor que um homem separado da mulher (apelidada de legí­tima) viva estavelmente com outra, em vez de se perder com esta, aquela e aqueloutra?

Hoje até é ridículo ser preciso dizer isto, mas, naquele tempo, não era o ú­ni­co católico a ter assomos de escrú­pulo por frequentar casas dos ditos aman­tizados (para minha vergonha, que já me considerava razoavelmente despreconcebido e evoluído...).

Hoje, que penso já ter aprofunda­do mais a essência do matrimónio – que não pode existir (ver válido, muito menos legítimo) apenas com um amor universal ou com uma amizade (sólida que seja), mas exige também, e cumula­tivamente, um autêntico amor conjugal –, hoje penso já não ser tão leviano co­mo outrora ao tentar discernir os fal­sos dos verdadeiros casamentos.

Cada vez mais nos damos conta de que a sua autenticidade e legiti­mi­dade pouco tem a ver com os registos civis ou religiosos, ou  mesmo com os ri­tuais, quaisquer que eles sejam, tan­tos são, de facto, os casos de invali­dade, que  ninguém ou quase ninguém se dá ao trabalho de esclarecer.

Tanto se condenam divórcios, se­pa­rações, uniões de facto, adultérios (que muitas vezes nem o são, porque nunca o casamento existiu senão no papel ou nos rituais) e quase não se fa­la dos casamentos viciados de nu­lidade por ausência de qualquer ele­mento essencial, nem se promovem es­tatísticas, que sem dúvida seriam não só surpreendentemente reveladoras co­mo sobretudo sadiamente desmasca­ra­doras!

Será que a sociedade, ao descrer dos formalismos legais, está assim tão corrupta que já não liga aos valores do matrimónio e da família, ou será que de­sesperadamente (ou lucidamente?) procura repor a verdade onde afinal só existe falsidade, erro e/ou mentira?

 Em vez de temermos divórcios, não será de temermos que matrimónios nulos continuem a infernizar pais e fil­hos? Em vez de temermos a desagre­gação da actual instituição familiar, não será muito mais sadio reestruturar a família em moldes libertadores? O que há a temer, isso sim, não será que a fa­mí­lia continue, das formas mais refi­nadas (desde as selváticas às subtis e mistificadoras), a frustrar, às vezes irre­mediavelmente, o futuro de cada um dos seus membros?

O que é preciso salvar a todo o custo? O matrimónio, a família, as insti­tuições? Ou a felicidade de cada um?

E para nós, cristãos, o que é evan­gelizar? Pôr o ser humano ao serviço das instituições, por mais respeitáveis ou até sagradas que sejam, ou estas ao serviço do ser humano? Proclamar uma notícia atemorizante ou uma not­ícia jubilosa?

Quando é que o sermão da mon­tanha e o cântico de Maria da Nazaré serão incorporados na doutrina oficial das igrejas e não apenas nas suas lei­turas rituais (e tantas vezes apenas como enfeite)?

Quando ajudaremos as hierar­qui­as a libertarem-se e a libertar-nos de sucedâneos dos Estados Pontifícios e do Direito Romano, e conquistaremos o direito de viver plenamente o Evan­gelho?

Obrigado por me teres evange­lizado, libertando-me de pre-juízos tão desumanos e ensinando-me a amar. Não ouso pronunciar ou escrever o teu nome, mas o vocativo está-me sempre presente.


Maria Clara Bingemer, teóloga (Brasil)

SEIS BALAS

Seis tiros soaram no calor da ma­nhã ensolarada de Anapu, estado do Pará. Seis balas penetraram a cabeça, o coração e as entranhas de uma mu­lher idosa em anos e jovem de coração. Seis vezes a irmã Dorothy Stang teve seu corpo perfurado e sua vida liquida­da por aqueles a quem incomodavam seu compromisso e sua ação em favor dos camponeses da Amazónia.

As 600 famílias que compunham a comunidade de Ir. Dorothy encon­tram-se neste momento órfãs da mater­nidade espiritual e pastoral dessa cora­josa mulher. Aquela que não temia coi­sa alguma e diante de nada recuava para defendê-los jazia agora no chão e seu sangue era bebido pela terra bra­sileira, tão amada, que ela escolhera como sua e pela qual dera a vida.

Irmã Dorothy Stang, 74 anos, nor­te-americana de nascimento e cidadã bra­sileira por opção, membro da Con­gre­gação das Irmãs de Notre Dame de Namur, viveu quase metade de sua vi­da na Amazónia.

Durante esse tempo, tudo o que fez foi dar voz às comunidades rurais, defendendo o direito à terra e lutando por um modelo de desenvolvimento sem destruição da floresta. Lutava para que o Estado se fizesse presente na Ama­zónia, denunciando inclusive o en­vol­vimento de policiais com fazendeiros e grileiros da região.

Defendia a Amazónia e seus habi­tantes da ação destruidora dos madei­rei­ros ávidos de lucro, que não hesita­vam em derrubar a mata e privar as fa­mílias que dela viviam de seu sus­tento e segurança.

Ao longo destes mais de vinte anos, Ir. Dorothy foi ameaçada de morte inú­meras vezes. Aconselhada a afastar-se de Anapu para proteger sua vida, repetia sem cessar: “Eu não corro risco de vida, mas os colonos sim. Eles têm família para sustentar”.

Sua firmeza inabalável provinha da beleza e da grandeza da causa à qual se dedicava: a vida dos agricultores po­bres e explorados e a defesa do meio ambiente na cobiçada Amazónia, pul­mão do mundo e sempre sob a mira cú­pida das grandes potências. Na es­teira de homens como Chico Mendes e ao lado de pessoas e grupos idealis­tas, Ir. Dorothy e sua comunidade eram semente e símbolo de resistência na lu­ta por um modelo de desenvolvimento econômico sustentável, pautado em cri­térios éticos de cuidado com a natureza e com a vida das pessoas.

Em corajosa e emocionante nota, a Conferência dos Religiosos do Brasil assim interpretou o bárbaro assassi­na­to da religiosa norte-americana: “Ir­mã Dorothy foi assassinada com seis tiros, dos quais três fatais e simbólicos. Uma bala atingiu seu cérebro, outra seu coração e outra suas vísceras. Quise­ram eliminar o pensar, o sentir e o ge­rar desta pequena, simples, humilde e ido­sa mulher. Seu cérebro, seu coração e seu útero eram uma ameaça para o modelo de desenvolvimento económico implantado neste país, especialmente na Amazónia.”

A fragilidade e simplicidade de Ir. Dorothy dão ainda maior força e elo­quência ao seu testemunho. Era uma mulher frágil e indefesa diante da força bruta dos jagunços. Religiosa, era al­guém que, respondendo a um chama­mento de Deus, escolheu não casar-se nem constituir família. Na Amazónia, longe da proteção das casas onde vi­vem as outras irmãs de sua congrega­ção, encontrava-se totalmente sozinha e exposta, tendo como companheiros e porta-vozes apenas os agricultores e camponeses, tão pobres e indefesos como ela. Tinha 74 anos. Portanto, uma pessoa de idade, que normalmente, a esta altura da vida, deveria encontrar-se confortavelmente repousando dos muitos anos de trabalho e atividade.

As reportagens que nos chegam relatam que aos seus assassinos Ir. Dorothy leu trechos da Bíblia que leva­va consigo para a reunião comunitária à qual se dirigia. Mas nem a Palavra de Deus deteve o ímpeto assassino das balas fatais.

No seio da terra que tanto amou e pela qual deu a vida, o corpo de Ir. Dorothy descansa, velado pela dor dos compa­nheiros. Seu martírio, no entan­to, é força viva que, como grão de trigo enterrado e morto, dará abundantes e fecundos frutos em prol de maior justiça para o povo brasileiro.


Frei Betto (Brasil)

WOJTYLA E DOROTHI STANG

Há muito em comum entre o papa João Paulo II e a irmã Dorothy Stang, assassinada pelo latifúndio no Pará: ca­tólicos, consagrados a Deus, discípu­los de Jesus. A diferença é que ele se depara com o espectro da morte, en­quanto ela agora vive na esfera do a­mor divino. E ao contrário da missio­nária, Karol Wojtyla chegou à mais alta hierarquia de poder, não só na Igreja católica, mas também estatutariamente comparada às demais instâncias de governo na Europa: o papa é o único mo­narca absoluto do Velho Continente.

Certa vez Fidel confessou nutrir o sonho de ver os comunistas seguirem o exemplo das religiosas que, em Ha­vana, trabalham em hospitais. Diante da mi­nha perplexidade, explicou que elas cuidam dos enfermos com dedica­ção, tratam a todos por igual, não se pautam pelo horário de serviço e nem se queixam diante das dificuldades.

Fidel percebeu algo que Péguy já havia assinalado em 1914, ao afirmar que o futuro da política é a mística. Mal­raux faria eco ao seu conterrâneo pou­co antes de morrer, ao declarar que o século XXI seria místico ou estaria fa­dado à barbárie.

O que significa isso? Devem os po­líticos ser religiosos? Longe de mim a confessionalização da política! Não se trata de religiosidade, mas de espi­ri­tualidade. Embora ateus, os budistas, por exemplo, são profundamente espi­ri­tualizados. É esse mergulho no Ser, nominado Deus por quem crê, que faz o místico. Nele o inconsciente trans­bor­da no consciente, como diagnosticou Jung. E as “coisas deste mundo” pas­sam a ser relativizadas quando se vive a paixão pelo Transcendente.

Irmã Dorothy desapegou-se das três tentações que direitizam militantes de esquerda: o poder, o ter e o prazer. Eis os ingredientes que, juntos, fazem um corrupto. O poder da freira de Ana­pu espelhava-se no de Jesus, explici­tado no capitulo 22 de Lucas: servir aos mais pobres. Abriu mão do ter para ser, imbuída de valores éticos, subje­ctivos, normatizadores de sua prática solidária às vítimas da opressão. Seu prazer: a conquista da dignidade e da terra por agricultores excluídos da ci­da­dania.

Karol Wojtyla abriu mão do ter e do prazer, mas os caminhos de Deus o levaram ao poder. Agora, doente, afectado pelo mal de Parkinson, é vítima da papolatria vaticana. Por que não te­ria ele o direito de terminar seus dias em paz, livre do peso de governar uma instituição tão vasta e complexa como a Igreja católica? Por que não aplicar ao bispo de Roma a lei 401 do Código de Direito Canônico, que obriga todos os bispos a renunciarem ao completar 75 anos? Talvez convenha à Cúria Ro­ma­na essa acefalia que lhe permite di­rigir a Igreja sem intromissão papal.

Queira Deus que não se repita com Wojtyla o que fizeram com o genera­líssimo Fran­co, ditador da Espanha por 36 anos e, enfermo, submetido a uma sequência de transplantes para que se lhe prolon­gasse a vida ao máximo. Ou com Tan­cre­do Neves, rendido a cirur­gi­as quase diárias, como se a vontade política pudesse vencer a inexorabili­dade da morte.

Em 1294, o papa Celestino V re­nun­ciou. Mas, quantos renunciam ao poder? Ou quantos fazem do poder ser­viço?


DOCUMENTO

VENEZUELA: A REVOLUÇÃO SILENCIADA

Reportagem do Padre-Poeta ERNESTO CARDENAL

Pepe, um amigo do Jornal Fraternizar, residente em Madrid, fez-nos chegar esta Reportagem assinada pelo Padre-Poeta maior da América Latina, Ernesto Cardenal, no Jornal Rebelón (10-01-05), intitulada: "Venezuela: a Revolução silenciada". Afinal, tudo neste texto é agradavelmente surpreendente. Até a entusiástica referência do autor ao pensamento teológico do nosso director.

Nas ruas de Caracas, as paredes continuam cheias de pichagens do re­cente referendo, muitas dizendo VOTA NÃO (isto é, que Chávez não saia) e outras VOTA SIM (que saia), e muitas di­zendo simplesmente NÃO, ou SIM, em letras de todo o tamanho. Gostei espe­cial­mente duma que dizia: DIZ NÃO AO SIM. Chamou-me muito a atenção uma que dizia: BÓLÍVAR VIVE, A LUTA CONTI­NUA, porque me fez lembrar uma picha­gem que foi muito frequente na revolu­ção de Nicarágua, e que era: SANDINO VIVE, A LUTA CONTINUA. Sandino tinha sido assassinado há 50 anos e tinha fi­ca­do sepultado na memória do povo, porém, com a revolução sandinista ti­nha ressuscitado e era ele quem enca­be­çava a luta. Também aqui Bolívar foi resgatado dos livros de história e trazi­do para a rua, posto a caminhar.

Pareceu-me que agora havia mais pichagens a favor de Chávez e menos contra, do que há seis meses atrás, quando estive aqui num festival mundial de poesia. Desta vez, vim convidado pelo Congresso de Intelectuais e Artistas em Defesa da Humanidade. Os 350 participantes foram divididos em numerosos grupos e enviados a ver as obras da revolução por toda a Vene­zuela até ao Orinoco.

A mim, coube-me visitar os morros de Caracas, que são os que noutras partes são chamados favelas ou cha­bolas ou vilas-miséria, e que estão pe­las escarpas dominando toda a cidade. São os mesmos morros que inspiram a famosa canção “As casas de cartão”, do venezuelano Ali Primera.

Eu sempre os tinha visto de longe, quando visitava Caracas, e uma vez es­crevi sobre eles: Aquelas luzes sobre Ca­racas, como um céu estrelado, são as luzinhas tristes dos pobres, o seu cor­dão de miséria virado para o céu. Noutras partes do mundo, estão ocul­tos, aqui não. Vêem-se de toda a parte, e em pleno céu.

No nosso grupo houve um profes­sor universitário que, embora viva em Caracas, disse-nos depois que nunca antes tinha estado nos morros e que tinha ido com algum medo. A pobreza que vimos é a que haverá em todo o lado onde há bairros pobres, embora as pessoas não os vejam.

Porém, aqui deparamo-nos com uma enorme sur­pre­sa. Lá muito no in­terior desse bairro de 1 milhão de ha­bi­tantes, que é um dos vários núcleos populacionais po­bres de Caracas, havia um modernís­simo hospital, como costu­mam ser os hospitais para ricos, porém, era gratuito para toda a gente; e um cen­tro dentário e um oftalmologista.

Per­to, uma farmá­cia com os medi­ca­mentos 85% abaixo do seu preço. (Os receitados no hospital são gratui­tos).

Mais adiante, havia uma fábrica de calçado e outra têxtil, dirigidas por co­ope­rativas e construídas para propor­cio­nar trabalho aos desempregados. Vimos uma rua com dois ou três con­juntos de casas com murais de um e de outro lado, de bela pintura popular realizada pelos moradores.

No Centro Comunal pedi que me indicassem os sanitários e deparei com uns serviços sanitários brilhantes e luxuosos, melhores que os do hotel Ca­racas Hilton, onde estávamos hospe­dados. Soubemos que naquele Centro Comunal distribuíam alimentação gra­tui­ta a 90.000 pessoas e que esse pro­grama existia em toda a Venezuela.

Visitámos uma Casa de Alimenta­ção, que era casa particular onde uma senhora preparava diariamente comi­da para umas 200 pessoas. Vimos um Mercado Popular, onde os preços são 40% mais baixos, e desses há em toda a Venezuela, e também há Mercaditos e supermercados.

Soubemos que 8 milhões de pes­so­as beneficiam desses alimentos mais baratos ou gratuitos, dependendo do grau de pobreza em que se encontrem, e que são mais de meio milhão os que são atendidos pelos Refeitórios Popula­res. Soubemos também que agora o povo pode comer frango e outra carne todos os dias.

Tudo isto da alimentação é parte do programa de saúde, que lá é cha­mado “Saúde Integral”, isto é, saúde re­lacionada com educação, desporto, cultura e alimentação.

Na Venezuela o direito à saúde é considerado como parte do direito à vida. Há no país cerca de 25 milhões de habitantes, e desses, 17 milhões es­ta­vam excluídos dos serviços de saúde. Agora, 85% da população têm cobertu­ra de saúde pública. Os outros 15% re­correm ao sistema privado. Agora, des­con­gestionaram-se os serviços de e­mer­gência.

Anteriormente, as pessoas já não iam aos consultórios para ser atendi­das, devido aos descuidos que os ou­tros governos tinham nesta área da saú­de. Agora nos bairros pobres, selvas, planícies e montanhas há serviços mé­di­cos para todos os que estavam excluí­dos, com modernos centros de dia­gnóstico com raios X e electrocardio­gramas e endoscopias e ultra-sons, tudo de graça para todos.

Há 20 mil médicos para os pobres, quase todos cubanos, que atendem em média 250 famílias cada um. Estes são alojados pela comunidade e vivem nas mesmas condições que as outras pes­soas. Os médicos venezuelanos não foram formados para isto, e por isso há poucos venezuelanos entre eles. E esta é a diferença entre ter havido uma revolução ou não.

Nos morros de Caracas onde esti­vemos, os médicos cubanos alojam-se nas casas do bairro, e uma mulher que hospedava um deles disse-me: “A mim pa­gam-me uma renda, mas mesmo que não pagassem, eu hospedava-o, pelo sacrifício que eles fazem por nós”.

Esses médicos atendiam durante a manhã na sua clínica e durante a tar­de visitavam os doentes nas suas casas. E não posso esquecer uma mé­dica cubana que irradiava tanto amor para todos, que parecia uma Madre Teresa jovem.

Estavam a concluir por esses dias o programa de alfabetizar milhão e meio de pessoas analfabetas que exis­tiam na Venezuela. Antes, qualquer tipo de educação estava fora do alcance dos pobres, porém, agora 13 milhões de venezuelanos estavam a estudar.

Há aulas até nos mais afastados rincões da Venezuela e até os índios da selva são ensinados nas suas lín­guas e a partir de textos impressos para eles. Também há as Escolas Bolivaria­nas para os pobres, nas quais não se paga nem sequer a inscrição, e servem pe­queno almoço, almoço e merenda.

Deste género de escolas, há mais de mil na Venezuela. Estas escolas têm também desportos, computadores, in­ternet, psicólogos, acompanhamento médico. Logicamente, ninguém falta.

Muitas famílias de classe média e média baixa começam já a retirar os seus filhos dos colégios privados – é o que me dizem – porque estas escolas são melhores e não tem que se pagar nada.

As universidades eram gratuitas, porém com um filtro de entrada por onde não passavam os pobres, e hoje os jovens estão a optar mais pela Uni­versidade Bolivariana do que pelas pri­vadas.

Existem também nos municípios uns “Núcleos Universitários” para aqueles que não podem frequentar as sedes das universidades. A isto chama-se “municipalização da Universidade”.

Cuba contribui também para a edu­cação com assessores e com vídeos e folhetos. Também foi uma surpresa para mim ver uma colecção de livritos de bolso, dos quais se publicam 1 milhão de exemplares cada um, e são distri­buídos de graça à população. Há já 20 títulos publicados.

Também soube que estavam para abrir 6 mil Infocentros de Internet e com­putadores gratuitos para o povo.

Conto tudo isto, porque sei que é desconhecido no estrangeiro. O pro­gra­ma desportivo tem vários milhares de Professores Desportivos Comuni­tários. Agora são coisa vulgar nos bair­ros as actividades que antes eram ex­clusivas duma minoria que podia pagar um luxuoso ginásio.

Há educação física e desporto nas escolas, e também ginástica básica para a mulher, ginástica musical aeró­bica e baile-terapia, actividades físicas para pessoas obesas, para hiperten­sos, para grávidas, e também para os do Clube de Avós (os da terceira ida­de). Diziam-nos que nesses morros os vizinhos não se conheciam, nem se­quer se saudavam, e agora têm um gran­de espírito comunitário.

A aquisição de títulos de pro­pri­e­da­de estava a ser feita comunita­ria­mente, porque era impensável que o fi­zessem apenas um a um, quando eram milhões os que estavam sem título de propriedade. Todos esses morros esta­vam ilegais e ninguém tinha esperança de alguma vez adquirir o registo de pro­priedade da sua casa.

Nos morros, há um transporte de táxis locais, servido por jipes, porque só os jipes podem percorrer aqueles la­birintos de ruas estreitas, muito a su­bir e muito a descer. Estes transporta­dores fazem o serviço de graça, quando é necessário, por exemplo, em casos de emergência. Contribuíram para a li­bertação de Chávez, quando todos de­ci­diram descer os morros. “Desceram dos morros, os bravos”, diz-se, e liberta­ram o presidente. Ao mesmo tempo que toda a Venezuela transbordava.

É preciso ver o brilho dos olhos de rapazes e de raparigas, quando fa­lam dos seus projectos comunitários; e também os olhos dos homens e das mulheres de idade madura e os velhos.

Existem Círculos Bolivarianos para se envolver em qualquer espécie de tarefa comunitária, como por exemplo responder às necessidades do bairro, formar uma cooperativa, obter um em­préstimo. Basta fazer um telefonema para que um destes Círculos fique cons­tituído. E há destes Círculos por toda a Venezuela.

Há os que criticam isto como ex­cesso de espontaneísmo, porém, é uma maneira de contrariar a imobilidade bu­rocrática do Estado.

Está a criar-se um Estado paralelo. Ouve-se falar muito mal do governo; dos ministérios que trabalham pouco. O governo está cheio de burocratas de administrações ultrapassadas, e segun­do as actuais leis não podem ser remo­vi­dos. Então a revolução está a fazer-se paralelamente, por vias populares. E o que Chávez quer é a plena partici­pa­ção popular. Há os que vêem a revo­lução como um estado dentro do Esta­do, mas, dadas as circunstâncias da Ve­nezuela, não podia ser de outro modo.

Existem "bolsas" de 100 dó­lares/mês, uma verba próxima do sa­lário mí­nimo. Há umas 400 mil em toda a Vene­zuela. Todos os pobres que trabalham em projectos comunitários recebem essas bolsas, assim como todos os pobres que ensinam ou estudam ou es­tão a ter alguma capacitação. Perguntei quem pagava isso e disseram-me que o petróleo. É uma socialização do ren­di­mento do petróleo. Estudar agora é uma forma de emprego, e paga-se a quem aprende.

Os ministérios que incidam nos pro­gramas sociais contribuem, mas com obstáculos burocráticos. A maior parte do trabalho é feito pelo próprio povo com infinitas organizações. Na rea­lidade, Chávez “nacionalizou” o pe­tróleo. Uma mulher disse-me: “O pe­tróleo já é dos venezuelanos. Nadá­va­mos em petróleo, e não sabíamos nada do preço do barril de petróleo”.

Chávez é o único presidente, dizem eles, que está com os pobres. E outra mulher disse-me: “Amor com amor se paga, por isso gostamos tanto dele”

Por duas vezes, estive nesses mor­ros, em sítios diferentes.

O Exército de Venezuela tem uma par­ticularidade especial: é o exército de Bolívar e chama-se Exército Liber­tad­or. É um exército marcado por Simão Bolívar, e os militares de todas as cate­gorias sempre souberam que para Bo­lívar a democracia era um sistema para dar a máxima felicidade ao povo. Tem outra particularidade esse exército: nun­ca passou pela Escola das Améri­cas. Tiveram a formação na Venezuela. Uma formação humanista. Estudaram ciências políticas, graduaram-se em universidades e ali relacionaram-se com universitários.

A revolução de Chávez não é uma revolução improvisada, e não é só dele. É uma revolução que esteve em gesta­ção, desde há anos, nos quartéis. Estes militares estudavam Marx e muitos ou­tros autores, entre eles Mao Tse Tung. Aí tomaram consciência que existem para garantir a felicidade do povo, e que um exército deve ser agente de mu­dança social.

Os do tempo de Chávez gradua­ram-se e passaram a instrutores de no­vos oficiais. Enviados a enfrentar as guer­rilhas, encontraram-se com a po­breza da população, mais do que com os guerrilheiros, que já eram poucos. Eles mesmos eram pobres, como Chá­vez que foi uma criança descalça que vendia doces nas ruas.

Ao contrário de outros exércitos latino-americanos, o de Venezuela nun­ca foi uma casta, e foi deste exército do povo pobre irmanado com os ex-guerrilheiros que nasceu a revolução bolivariana.

Na Venezuela, ouve-se a cada instante a palavra “bolivariano”. Porém, não é uma palavra vazia, como nos dis­cursos oficiais dos outros governos.

Trata-se nada mais nada menos do que de regressar ao sonho de Bolí­var. Bolívar sonhou a unificação dos po­vos da América Latina e empreendeu uma cruzada para o conseguir. Foi o primeiro homem do nosso continente que se deu conta do perigo que os Esta­dos Unidos representam para nós.

Sem um governo americano unifi­cado, dizia, os nossos povos ver-se-ão envolvidos em guerras civis e à mer­cê de bandidos; foi o que aconteceu.

Chávez retomou o sonho de Bolí­var. O que ele pretende não é apenas venerar uma figura que todos os seus predecessores veneraram, mas conti­nuar com a obra histórica e política que ele não acabou, e fazer com que o Li­ber­tador não seja apenas um mito, mas uma realidade actual.

Chávez lutou arduamente na As­sem­bleia Nacional, perante uma forte oposição, até conseguir mudar o nome ao país, fazendo com que se chamasse República Bolivariana. Não foi um ca­pricho, nem uma extravagância, como se divulgou, muito menos uma banali­da­de.

Essa mudança tem uma intenção oculta. Em linguagem cifrada diz que na Venezuela se volta a sonhar com a reunificação da América Latina. Esse no­me foi apagado durante as poucas horas que durou o golpe contra Chá­vez, o que é muito revelador.

Falhou o golpe e Bolívar continua a ser um projecto político e um progra­ma de governo. O Plano Bolívar é um vasto plano de participação do Exército nas obras sociais.

Os militares estiveram em todo o lado, limpando ruas, pintando escolas, reparando clínicas, construindo casas, fazendo parques, desinfectando as es­colas. O Plano Bolívar uniu as Forças Armadas com os pobres. É preciso ver a familiaridade que hoje existe entre os civis e os fardados (que antes eram obrigados a usar balas de chumbo pa­ra reprimir os manifestantes).

Esta união de civis e militares sem­pre foi uma meta de Chávez. A opo­sição ataca Chávez, porque é militar, e pelo que chamam de “militarização” do governo. Deve recordar-se que a re­volução peruana foi de militares e que o general Torrijos foi militar, como o foi o coronel Jacobo Arbens de Gua­temala; e que tanto o tenente Báez Boné, de Nicarágua, como o general Se­regni, de Uruguai provinham dos quartéis. Em realidade, a revolução da Venezuela apoia-se em dois pilares: o povo e o exército.

Uma rara característica da revo­lução da Venezuela é que é uma revo­lução sem partido. Chávez quis criar um partido de governo, porém, parece que depois dos dois grandes partidos que antes se revezavam no governo e que agora estão liquidados, o povo já não gosta de partido nenhum.

Também é uma revolução que não se define senão como bolivariana. É uma revolução “sem teorias”, como nos disse o alcaide de Caracas, um militar que tinha sido chefe da contra-insur­reição e que foi atraído pelos insurre­ctos e passou à clandestinidade com eles. É uma revolução com elementos he­terogéneos, pois vimos Hugo Chávez inaugurar o congresso “Em Defesa da Humanidade”, tendo ao seu lado o mi­nis­tro das Relações Exteriores que antes foi um guerrilheiro no estado de Falcon.

Chávez é acusado de ser um chefe antidemocrático, embora não tenha um único preso político e não tenha fe­cha­do nenhum meio de comunicação, rá­dio, jornais ou televisão. E apesar dele ter o recorde de ter ganho 8 eleições e do seu governo ser o único no mundo em que o povo pode destituir o seu líder, graças a uma lei que ele próprio impulsionou.

Se eu devesse classificar este governo, deveria ser de governo consti­tucional. Chávez está sempre a citar a Constituição e a mostrá-la numa edição miniatura que leva sempre com ele, e o povo que também anda com ela, faz o mesmo.

“Democracia com justiça” é um le­ma que Chávez muitas vezes repete. E também insiste que a Democracia deve ser representativa: que é o que ago­ra se vê todos os dias na Vene­zuela; e não na antiga Venezuela, que era só votar por um dos dois partidos.

O governo é acusado de corrupção e é verdade, porém o Executivo enviou aos tribunais grandes quantidades de casos para serem investigados ou san­cionados, mas a Fiscalização e o Con­trolo - que também são corruptos - não fazem caso. São vícios duma buro­cracia herdada que ainda não foi pos­sível erradicar.

Segundo as leis ainda em vigor, os burocratas nomeados pelos gover­nos anteriores não podem ser desti­tuídos, mesmo que sejam corruptos ou incompetentes.

Por isso a revolução avança por outros caminhos. Esta revolução está a ser uma verdadeira alternativa ao neo-liberalismo.

Os micro-créditos estão a criar uma nova classe de empresários e a eco­nomia cresceu 12%. Venezuela teve no passado lucros parecidos com os da Ará­bia Saudita, porém 80% da popu­lação continuou a ser pobre; pela pri­meira vez, os lucros do petróleo são para o povo. Chávez não assinou nun­ca nenhum acordo com o FMI, pelo con­trário, as cimeiras latino-americanas propuseram aos outros governos criar um Fundo Monetário Latino-americano, para que os nossos países emprestem a si próprios. Não fizeram caso do que ele disse, e Chávez diz que essas Ci­meiras não servem para nada. Diz que uma vez disse aos outros presidentes: “Nós de cimeira em cimeira e os nossos povos de abismo em abismo”.

Conta também que a primeira vez que assistiu a uma cimeira latino-ame­ricana ameaçou zangar-se com os ou­tros presidentes. Fidel de Castro fez-lhe chegar um papelito: “Antes, eu era o único diabo, agora somos dois”.

O maior aliado que Cuba agora tem é a Venezuela, e o maior aliado da Ve­nezuela é Cuba. “Bolívar e Martí são um só país unificado”, disse Chávez. Embora uma vez tenha havido uma pe­ga entre os dois. Explico: Todos sabem da paixão que Fidel tem pelo beisebol. E a primeira ambição que Chávez teve foi ser guarda redes das grandes ligas e por isso entrou no exército, porque sendo um adolescente pobre não tinha outra maneira de brilhar no beisebol.

A verdade é que depressa mudou de ambição. Ora, uma vez, estando Chá­vez de visita a Cuba, realizou-se um jogo de beisebol entre Venezuela e Cuba, com Chávez de 43 anos à frente da sua equipa e Fidel de 73 anos à frente da de Cuba. Foi acordado que todos os jogadores deviam ter mais de 40 anos, mas Fidel anunciou que ia haver uma surpresa.

Ganhou Cuba, porém no final des­cobriu-se que uns jogadores da equipa cubana eram famosos profissionais jo­vens que se disfarçaram para parecerem velhos. Chávez disse que a ele não o enganaram, mas a verdade é que nin­guém o tomou a sério.

Chávez conta que Fidel lhe disse que era cristão, mas no social: e acres­centa que ele próprio é cristão no so­cial e no religioso, embora menos no religioso.

Por mim, poderia dizer a ambos o que diz o P. Mário de Oliveira, de Por­tugal: que Deus, do que gosta não é de religião, mas de política (e nisto não faz mais do que copiar os profe­tas). Quanto à religião, a hierarquia católica está contra o processo revo­lucionário, juntamente com os empre­sários e a oligarquia, e é tão má como a da Nicarágua ou, melhor dito, é até pior.

De acordo com a sua origem po­pular, Chávez mantém a fé simples das classes humildes venezuelanas. Diz que a Constituição é quase sagrada, porque o único livro sagrado é a Bíblia. E cita muito a Bíblia nos seus discur­sos, porém com bastante liberdade, como quando diz que Cristo disse: “Dai a César o que é de César, e ao povo o que é do povo”. O que Cristo efecti­va­mente não disse, mas está no es­pírito do que disse.

Os seus discursos são tão longos como os de Fidel, uma conferência de imprensa pode demorar duas horas e o seu programa dominical, “Alô, Pre­sidente” pode durar 6 ou 7 horas.

Cativa o auditório como Fidel, em­bora o seu estilo seja diferente: muito terra-a-terra e bem-humorado, con­tando anedotas e fazendo à partes com os quais, entretanto, não perde o fio à meada. Canta e recita versos, cita Bolívar e outros libertadores, tudo à mistura com frequentes risos tanto dele mesmo como do público, com in­tervenções que o público lhe faz por vezes em gritos e às quais ele respon­de com grande rapidez. Por vezes, che­ga até a entrar em diálogo com quem o interrompeu. (Disseram-me que “Alô, Presidente” pode ser captado pela internet ou pela rádio).

Em Chávez há um sorriso perma­nente que torna radiante o seu rosto meio mestiço e meio mulato, com o qual as classes populares devem sen­tir-se muito identificadas. Tem também uma maneira muito peculiar de olhar nos olhos, fixamente, como quem obser­va algo especial.

Porém, a revolução venezuelana não é só um líder carismático, mas todo um povo. Os inimigos fizeram a cari­ca­tura do seu carisma como coisa có­mica, e da sua popularidade como um to­ta­talitarismo. Mas a verdade é que, para muita gente na Venezuela a vida está a mudar. Em 1999, Chávez na Chi­na, diante do túmulo de Mao, declarou que Venezuela se tinha levantado como a China dos anos 50 com Mao Tse Tung. Assim é, embora os meios de co­mu­nicação social da Venezuela e do estrangeiro façam por ignorar este facto.

A revolução cubana foi caluniada até hoje, assim como a da Nicarágua. Com a da Venezuela a táctica foi silen­ciá-la.

Uma professora em Espanha per­gun­tou-me como é que ela, que é pro­fessora universitária, não sabia nada da revolução na Venezuela. Eu disse-lhe que era por causa das fontes de informação que ela tinha. Porque 9 transn­acionais da informação produzem 90% da informação mundial, e esta é feita de acordo com os interesses dos seus donos. Ora, a revolução da Vene­zuela não faz parte dos interesses dos donos dessas 9 transnacionais.

Quando me perguntavam naqueles morros o que se dizia no estrangeiro sobre o que os seus habitantes fazem, a mim custou muito ter que lhes dizer que não dizem nada. Os revolucionários venezuelanos ignoram que a sua revo­lução é uma revolução ignorada no mundo. “A revolução bonita”, como Chá­vez lhe chama, é, na verdade, uma revo­lução silenciada. Apesar de tudo, Bolí­var vive e a luta continua.

Estejamos certos que ela vai continuar. “Graças a Deus e ao meu Comandante Jesus Cristo”, como gosta de repetir o presidente Chávez.


Pe. Martins Júnior (Madeira)

S.O.S. Vaticano!

Aqui d’el Papa!

O Jornal PÚBLICO, de 18 de Novembro 2004, inseriu nas suas páginas um grito de "Aqui d'el Papa!", assinado pelo Pe. Martins Júnior, da Madeira. O grito, sem qualquer chamada à 1.ª página, é bem capaz de ter passado despercebido. Por isso, Jornal Fraternizar permite-se retomá-lo nas suas páginas. Com a devida vénia. Ninguém perca pitada.

Escandalizaram-se católicos do Canadá por verem o santuário de Fá­tima “invadido” pela espiritualidade do dalai-lama e pelo místico ritual hindu­ís­ta, ao ponto de exigirem do Vaticano o afastamento do bispo de Leiria e do reitor do santuário.

A “bomba” - exigir do Papa o exer­cí­cio do seu múnus específico de “epis­copus” vigilante do rebanho e, daí, o imediato saneamento de altos repre­sen­tantes da hierarquia católica portu­guesa - lançou estilhaços que atraves­sa­ram o Atlântico e chegaram também à Madeira, para uma reflexão serena sobre a verdadeira matriz da Igreja de Cristo.

Católicos do Canadá incomoda­ram-se e incomodaram o Papa com a abertura ecuménica da Igreja em Fáti­ma. Mas incomodar-se-ão uns e outro com a destruição do corpo e do espí­rito da Igreja no santuário verde de uma ilha chamada Madeira? Terão, ao menos, conhecimento do assalto ao “poder” espiritual da Igreja, por parte do poder temporal de um mini-império político-partidário?

Sob a exuberância da paisagem que faz da Madeira o seu turístico car­taz de identidade e a coberto de uma campanuda barafunda político-publici­tária de que se enche a mente e se em­bri­aga o olho do consumidor na ilha e fora dela, saberá o bispo de Roma, o “olheiro de Deus”,saberá sequer que o seu “colega” na Madeira anda a en­tre­gar “as chaves do reino” ao poder po­lítico vigente e continua a pro­fanar o santuário de Deus, fazendo su­bir ao supedâneo do altar o chefe polí­tico da ilha para encerrar a missa sole­ne da sagração de novos templos? Em vés­peras de eleições!... Nenhum bispo do antigo regime consenti-lo-ia a qualquer governante, nem mesmo o próprio car­deal Cerejeira seria capaz de permiti-lo ao todo-poderoso Sala­zar.

SOS Vaticano! - é caso para gritar, quando na Madeira se anda a rasgar toda uma história de martírio e de luta para emancipar a Igreja das garras in­sa­ciáveis do poder dominante, desde o Nero facínora até ao galicano Filipe “O Belo”.

Tanto mais sofisticada e perigosa se torna esta intencionada cedência ao poder reinante, quando numa cerimó­nia do crisma se vê um bispo abando­nar no altar o cálice eucarístico para ir beber da taça de champanhe, brin­dan­do com os governantes na inaugu­ração de uma unidade hoteleira.

São adultos, são idosos, são jovens e são crianças que no ecrã da televisão regionalizada vêem todos os dias ce­ná­rios desta deprimente dimensão.

Daí que já não se estranhe o anún­cio que nas homilias dominicais fazem os párocos, convocando os crentes pa­ra as inaugurações eleitoralistas, indi­can­do até o horário das camionetas pa­gas pelo Governo Regional para le­var o povo crente (“a força do povo e o povo à força”) ao local do festim ofi­cial. E não poderia estranhar-se, pois o bispo já lá está, no local do festim, geo­metricamente alinhado ao lado dos senhores do Governo, para lançar a á­gua benta ao alcatrão ainda quente. De batina debruada a vermelho, faixa escarlate e cruz de ouro ao peito, como man­da o uniforme dos príncipes da Igre­ja. Em véspera de eleições. Não inco­moda o Vaticano, não incomoda os ca­tó­licos do Canadá, não incomoda o mais simples cristão o facto de ser publica­mente glosado o bispo da diocese como o “sr. secretário Regional dos Assuntos Religiosos” ?

Enquanto isso, no outro lado cristão da ilha, a diocese dá todo o aval ao Go­verno para mandar 70 polícias violar uma igreja rural e ocupá-la durante 18 dias e 18 noites, sem qualquer manda­do judicial. Em 1985! Também não se lhe ouviu uma palavra, quando o Gover­no, volvidas 12 horas sobre as eleições de 17 de Outubro último, manda retirar os projectores públicos que há anos ilu­minavam o adro e a envolvente desse modesto templo.

Por tudo isto, a consciência lúcida dos cristãos interpela e denuncia a de­ge­nerescência da Igreja regional e com­para-a a certas situações sul-america­nas e terceiro-mundistas: lá como cá, vêem-se alguns sacerdotes na obriga­ção “que nos urge” de envolver-se acti­va­mente na luta sociopolítica para contraporem os usurários do poder e de­monstrarem que a Igreja de Cristo não está (nem nunca deve estar) de braço dado com o mais forte, com os deten­tores do poder político e financeiro.

Nesta conjuntura, questiona-se ain­da: por ter o Papa, bispo residente de Roma, o estatuto de Chefe de Estado (o que se repudia liminarmente) e por ine­rência dever submeter-se ao proto­colo oficial dos demais reis e soberanos do mundo, poderá o seu “colega” bispo residente do Funchal alimentar a obsessão de ombrear com os dominado­res da ilha e arrogar-se a tentação de levar o seu assento para junto do ca­dei­ral dos novos capitães donatários?

Transformou-se a ilha num estra­nho laboratório da promiscuidade entre os poderes político-religiosos, de que é paradigma esse ridículo quanto repu­gnante travesti discursivo que é o de ouvir-se publicamente o presidente do Governo mandar rezar e o bispo dioce­sano mandar votar. (Sic!)

Mas a leitura dos factos, no grande curso da história que se repete, é que neste micro-humus da ilha está a ge­rar-se (e oxalá que o mar circundante venha a afogá-lo sem demora) o mons­tro antigo da entronização da realeza e da sacralização do poder, tentando reincarnar a histeria megalómana de um Napoleão ou a vingativa omnipo­tên­cia de um Henrique VIII, chefe da Igreja Anglicana.

Perante as múltiplas transacções entre a Igreja e o poder político, ao ponto de não saber-se onde começa e onde acaba a legitimidade do braço se­cular e do braço religioso em ques­tões que só a um deles dizem respeito, não será ousado concluir que na Ma­deira pouco falta para se instalar uma das mais refinadas e subreptícias formas de Inquisição.

Servirão estes poucos (porque eles são muitos) excertos do quotidiano da ilha para lançar daqui de longe lampe­jos de inquietante reflexão não só a ca­tólicos do Canadá, mas a toda a cons­ciência cristã e perguntarmo-nos a nós próprios se não é chegada a hora de clamar “SOS Vaticano!” e bradar “Aqui d’el Papa!” Antes que seja tarde. E para que, aos que vierem depois, não seja tão doloroso o regresso às ori­gens, à verdadeira matriz da Igreja de Cristo.


IGREJA / SOCIEDADE

José Manuel Vidal, in diário El Mundo

AS DUAS FACES DE FÁTIMA

Por ocasião do funeral da irmã Lúcia, o jornalista do diário El Mundo, de Madrid, José Manuel Vidal, elaborou e publicou a reportagem "Las dos caras de Fátima". Jornal Fraternizar traduziu-a e aqui a divulga na íntegra. Com vénia. E com feliz espanto! Logo a seguir, divulga também mais um extracto do "Diário Aberto" do pe. Mário, na net

Faleceu a santa em vida, irmã Lú­cia, a última vidente das aparições de Fátima. Porém, deixa atrás dela o mila­gre mais polémico, controverso e influ­ente de todos os tempos. Fátima mar­cou a Igreja e a História do mundo. Com seus símbolos, os seus medos e os seus segredos. E com os seus pro­ta­gonistas: Rússia, fim do mundo, Guer­ra Fria, Salazar, Ratzinger ou João Pau­lo II. Com os seus apaixonados de­fen­sores, que vêem em Fátima “a rocha da fé contra as artimanhas do Mali­gno”, e os seus radicais opositores, que a classificam de “fraude, montagem e negócio”.

Fátima levanta paixões. Desde o prin­cípio até hoje. Fátima fez correr rios de tinta a favor e contra. Nenhuma ou­tra aparição mariana (Lourdes ou Gua­da­lupe incluídas) suscitou tanto inte­resse. Os livros escritos em todo o mun­do sobre o fenómeno de Fátima con­tam-se por milhares. Só na biblioteca do santuário contam-se mais de 10 mil volumes. Todos louvando a “senhora mais brilhante que o sol”. Lá não en­tram os críticos nem os iconoclastas.

Porém, também os há. E muitos. Por­que Fátima tem duas faces. A mais co­nhecida, feita de anjos, aparições, vi­sões apocalípticas e culto a Maria Ra­inha. É a versão que defende com pai­xão Juan Clá, 66 anos, fundador e pre­si­dente dos Arautos do Evangelho, uma associação internacional de direito pon­tifício, cujo escudo é a Virgem de Fá­tima, a eucaristia e as chaves de Pe­dro, símbolo do papado. São 3 mil lei­gos e estão presentes em 55 países. O fundador é também o director do coro e da orquestra da associação, com que já gravou 15 CDs de música religiosa, uma das suas especialidades.

Com um cerimonial aristocrático, os arautos, vestidos meio monges, meio sol­dados, apetrechados de pendões e estandartes, com coro e orquestra, cos­tu­mam interpretar o drama sagrado da coroação de Nossa Senhora de Fátima, cujo coração, rodeado de espinhos e dar­dejando chamas pelos seus aurí­culos, “triunfará sobre a Babilónia mo­derna”.

A outra face de Fátima é menos co­nhecida e fala de “paganismo e utiliza­ção enviesada da religiosidade popular com fins políticos e crematísticos”. [cre­matística: ciência da produção das riquezas. Arte de adquirir e conservar riquezas, in Artur Bivar, Dicionário Ge­ral e Analítico da Língua Portuguesa, Edições Ouro, Porto]. O padre Mário de Oliveira, presbítero português, tem 68 anos e é um dos opositores mais co­nhe­cidos das aparições de Fátima. Os dois, Juan e Mário, são homens da Igreja. Porém, com sensibilidades ecle­siais diferentes, para não dizer, opos­tas.

O padre Mário é presbítero da Igre­ja [do Porto] desde 1962. Foi pároco de Macieira da Lixa e enviado como ca­pelão militar a Guiné-Bissau, quando esta antiga colónia portuguesa se en­contrava em plena guerra pela inde­pen­dência. Esteve lá apenas 4 meses. Os chefes do Exército do regime fascis­ta de Salazar expulsaram-no por ele pe­dir a paz e defender o direito à inde­pendência dos povos colonizados. Mar­cado, no seu regresso ao país, acabou por ser detido pela PIDE, a polícia polí­tica do regime, e preso. Participou da re­volução dos cravos e dedica a sua atenção pastoral às comunidades cris­tãs de base. Claro expoente da Teolo­gia da Libertação, defensor dos pobres e das causas perdidas, é muito conhe­cido em Portugal, onde participa com assiduidade em debates televisivos. Al­guns chamam-lhe o Casaldáliga portu­guês (em referência ao rebelde cla­retiano espanhol e bispo dos pobres do Mato Grosso brasileiro). Outros, o padre Apeles [de Espanha]. Publicou mais de 25 livros. Mas o que o proje­ctou para a fama foi FÁTIMA NUNCA MAIS, publicado em 1999 pela Editorial Campo das Letras [Porto], com 11 ree­di­ções (está no prelo a 12.ª) e mais de 30 mil exemplares vendidos, o que num país como Portugal, é um verda­deiro recorde.

Nem em livros, nem em êxito edi­torial lhe fica atrás Juan Clá. O presi­dente geral dos Arautos do Evangelho tem 14 obras publicadas, com uma ti­ragem total de mais de 8 milhões de exemplares. A maioria delas centradas nas aparições de Fátima, como “Meu Imaculado Coração triunfará”, “Fátima, aurora do terceiro milénio”, “O Rosário, a oração da paz”, ou “Jacinta e Fran­cis­co, predilectos de Maria”.

No seu entender, “as aparições  es­tão de tal modo marcadas por sinais de autenticidade, que receberam uma atenção particular da Igreja cató­lica”, com bênçãos especiais dos últi­mos Pa­pas, especialmente João Paulo II.

Se Juan Clá mitifica, o padre Mário des­mitifica e questiona um dos pilares da religiosidade conservadora. O pri­meiro crê a pés juntos nas aparições de Fátima, tal como as descreveu irmã Lúcia nas suas Memórias. O segundo re­bate ponto por ponto as Memórias da irmã Lúcia, as aparições e os se­gre­dos. Por exemplo, garante que Lúcia “não escreveu as Memórias, porque ela mal sabia ler e escrever. Por isso, al­guém as escreveu por ela”.

O padre iconoclasta português vai mais longe. Garante que todas as apari­ções são “uma montagem e uma frau­de”. Segundo ele, “é uma invenção do cle­ro português da época que nunca suportou a revolução da República que pôs fim a quase oito séculos de mance­bia [política] entre a Monarquia e a Igre­ja. O que as crianças dizem ver não são mais do que as imagens das prega­ções das Santas Missões populares, nas quais os pregadores ameaçavam as pes­­-soas com o fogo eterno. Não há dedo de Deus, mas dedo humano. Qu­an­do muito, há um delírio ou alguma alu­cinação provocada pelo medo”.

Juan Clá defende, ao contrário, que os três pastorinhos de Fátima não in­ventaram nada. Apareceu-lhes, como conta Lúcia, “uma senhora vestida de branco, mais brilhante que o sol”. E con­taram o sucedido. Até os seus pais lhes bateram para que se desdis­ses­sem. E as autoridades ameaçam-nos com deitá-los em azeite a ferver. Tão pressionados se viram, que Lúcia pe­diu à Virgem um milagre.

O famoso milagre do sol que baila no dia 13 de Outubro de 1917. Se­gundo Clá, “a Virgem havia prometido um sinal para que todos pudessem crer e, de facto, a multidão pôde testemu­nhar o milagre do sol: o astro-rei bailou no céu e parecia cair sobre a terra.

“Era uma aurora boreal”, replica o padre Mário. “Tudo falso, como as men­sa­gens, que foram reescritas a partir de 1935 e nas quais fazem as crianças falar da URSS já em 1917, quando a U­nião Soviética ainda não existia e em Portugal nunca se tinha ouvido falar em semelhante nome. Menos ainda, três crianças analfabetas funcionais”. Na sua opinião, os três pastorinhos são “vítimas inocentes do terrorismo eclesi­ás­tico. À Jacinta e ao Francisco, os clé­rigos mataram-nos de fome, de sede e de medo. E a peste [pneumónica] fez o resto. Restava-lhes Lúcia, uma ado­les­cente de escasso entendimento, fa­cil­mente manipulável”.

DEMÊNCIA E DELÍRIO

O padre português defende que Lú­cia, “sequestrada desde então, foi con­denada a viver em estado de de­mên­cia e delírio, com visões e apari­ções a toda a hora”. E garante: “São crimes que deveriam ser levados aos tribunais”. Culpa o Papa de sacraliza­ção  do “paganismo de Fátima, um dos maiores fatimistas”. Wojtyla atribuiu à Virgem de Fátima tê-lo salvo da bala disparada pelo turco Ali Agca. De facto, a bala e o anel papal estão na coroa da Virgem.

“E não só isso, mas que se apro­priou do terceiro segredo, atribuiu-o a si e, para isso, fabricaram-no mesmo à medida”, denuncia o padre Mário.

Durante décadas julgou-se que o terceiro segredo predizia o fim do mun­do. No dia 13 de Maio de 2000, devido ao Jubileu, o número dois do Vaticano, cardeal Ângelo Sodano, tornou públi­co o temido mistério. Que não é o Apo­calipse, mas a visão de um “bispo vesti­d­o de branco” que caminha para a cruz entre cadáveres de mártires e cai morto por disparos de arma de fogo. Esse bispo vestido de branco era João Paulo II. Embora, como sublinha Juan Clá, “a Igreja deixa livre a interpreta­ção do complexo texto, admitindo que poderia referir-se a acontecimentos futuros”.

O padre Mário conclui: “Fátima é uma fraude e um imenso negócio”. Com 4 milhões e meio de visitantes por ano e mais de 500 casas de co­mér­cio. Para Juan Clá, tem “uma su­prema importância, porque foi a pró­pria Virgem a embaixadora do Céu”.

Em geral, os teólogos sérios sen­tem-se incomodados com as aparições de Fátima. Mas só alguns se atrevem a declará-lo. Como o já falecido jesuíta Carlos Maria Staehlin, cujo livro sobre as aparições, publicado em 1954, as desautorizava e foi proibido por Roma. Como também foram silenciados os 22 volumes do padre Alonso e quase toda a obra do padre Gruner sobre o mes­mo tema.

QUESTÃO DE FÉ

Também o teólogo jesuíta José Ignacio González Faus é taxativo: “Não acredito nas aparições de Fátima. Como cristão, não estou obrigado a crer nelas”. Juan Clá, ao contrário, crê que se pode dizer “sem medo de exa­gerar que Fátima constitui o principal acontecimento do século XX. A mensa­gem transmitida por Maria toca em cheio nos principais problemas dos últimos 100 anos, tais como as duas guerras mun­diais, o avanço do comu­nismo, os conflitos religiosos e a avas­saladora crise de moral em curso; apon­ta as suas causas básicas e contribui com remé­dios”.

Como diz o catedrático da Complu­tense Rafael Navarro-Valls, “Fátima acres­centa às chaves geopolíticas cri­térios teológicos para explicar as gran­des quebras morais do século”. Um século como o XX que “foi o mais san­grento de toda a História da Humani­dade”. No dizer de Paul Claudel, “Fáti­ma é uma irrupção violenta e escanda­losa do mundo sobrenatural neste agi­tado mundo material”.

Uma irrupção sempre envolta na polémica. A morte da irmã Lúcia reavi­vou-a. Juan Clá pensa que se pode ver no seu falecimento “um sinal de que tra­gédias apocalípticas podem a todo o momento abater-se sobre a Humani­dade”. E conclui: “Aconteça o que acon­tecer, não tenhamos medo: a Virgem cui­dará de nós como filhos muito que­ridos”.

Ao contrário, o padre Mário consi­de­ra que “as aparições são contrárias ao Evangelho. A minha maior alegria seria que acabássemos com elas e que a apocalíptica Nossa Senhora de Fáti­ma, que mete medo com as chamas do inferno, se converta em Maria de Naza­ré, passando de fonte de alienação po­pular a companheira do povo empo­bre­cido”.

As duas faces de Fátima persistiram durante quase um século e a chama da polémica reavivou-se. Manter-se-á indefinidamente?


Jornal Fraternizar voltou a espreitar o “Diário Aberto” (02 Março 05) do pe. Mário

RENUNCIAIS À SENHORA DE FÁTIMA,

ÀS SUAS MENTIRAS E AOS SEUS CULTOS?

As línguas religiosas e mais ou menos fanáticas da senhora de Fátima gostam de dizer que Portugal está livre de desgraças, de catástrofes e de guer­ras, porque tem a senhora de Fátima. Mentem com quantos dentes têm na boca. Mesmo em 1917, em plenas “a­pa­ri­ções”, milhares de soldados portu­gueses estavam envolvidos na I Guerra Mundial. Milhares deles morreram lá. Poucos meses depois das “aparições” serem dadas oficialmente como con­cluídas, veio a peste pneumónica que matou muitas pessoas no país. E nem sequer as duas crianças que disseram ter visto nossa senhora escaparam e lá morreram antes de tempo! Com a fun­dação do Estado Novo, tivemos que suportar o fascismo salazarista durante longos e pesados 48 anos. Fomos obri­ga­dos a fazer a guerra colonial em três frentes de África, com milhares de mor­tos e mais ainda de mutilados. Desde há anos a esta parte, morrem nas es­tra­das de Portugal, cada ano, largas centenas de pessoas, a maior parte, ainda na força da vida, em acidentes de viação, e ficam milhares de outras feridas com maior ou menor gravida­de. Ainda ontem, foram mais quatro jo­vens mortos, apenas num único aci­den­te! A juntar aos quatro bombeiros de Coimbra que morreram, quando an­da­vam em arriscado serviço em prol de todas, todos nós. Há ainda poucos anos, foi a tragédia da Ponte de Entre-os-Rios, no concelho de Castelo de Paiva, com todo aquele cortejo de mor­tos e de desaparecidos. Por outro lado, como país, não há maneira de desco­lar­mos da cauda da Europa. E é notório que hoje sofremos duma depressão na­cional, com desemprego em massa e pobreza imerecida, que ainda ninguém sabe como poderá ser superada com êxito.

Tudo isto e muito mais, sem que a senhora de Fátima, saloiamente, canta­da como “rainha de Portugal”, valha aos seus devotos “súbditos”. Aliás, diga-se em abono da verdade que foi sem­pre timbre das rainhas e dos reis, quan­do e lá onde os houve, viverem à custa dos respectivos súbditos. Exactamente, como acontece, desde 1917, em Portu­gal com a senhora de Fátima que leva aos seus devotos e devotas o que elas e eles têm e o que não têm! Para lá da sua dignidade de pessoas humanas.

É minha convicção que muita da nos­sa desgraça nacional vem precisa­mente da senhora de Fátima. O seu cul­to em público e em privado é manifesta­mente causa de alienação e de depres­são generalizadas. O cheiro a cera quei­mada que emana daquele recinto de horrores e de humilhação da pes­soa humana empesta, física e simbolica­mente, o ar que respiramos e faz de nós um povo persistentemente adoen­ta­do, triste, deprimido, resignado, alie­nado, sempre à espera de milagres que nunca acontecem nem nunca acon­tecerão, a não ser que nós os façamos com o nosso engenho e arte, com a nossa inteligência e o nosso esforço individual e colectivo.

Por isso, digo e sublinho com todo o vigor da minha Fé cristã jesuânica: Se queremos ser alguém na vida, co­mo pessoas e como país, fujamos de Fá­tima e da sua senhora cega, surda e muda. Evitemos até aproximar-nos da­quela serra cada vez mais contami­nada por semelhante peste religiosa nos antípodas do Evangelho de Jesus e da Fé de Jesus. Visitar aqueles lo­cais, mesmo por curiosidade, ou morar lá, é correr o risco de ficarmos seme­lhan­tes à imagem que lá é idolatrada: cegos para o essencial, surdos uns para os outros e mudos. Numa palavra, mortos. Paralisados. Inactivos. Um povo infantilizado, amedrontado e eterna­men­te adiado.

Antigamente, a nossa Igreja cató­li­ca perguntava, aos baptizandos e nos actos públicos de Profissão de Fé: “Re­nunciais a Satanás, a todas as suas pom­pas e vaidades?” Pois bem: Hoje, esta pergunta poderá e deverá ser actua­lizada e formulada assim: Renun­ciais à senhora de Fátima, a todas as suas mentiras e a todos os seus cultos idolátricos?

Felizes de nós, se, como pessoas e como povo, respondermos: Sim, re­nun­ciamos! Porque, uma vez libertas, libertos de Fátima e da sua cruel senho­ra, pode­remos, finalmente, ousar ser nós pró­prias, nós próprios, mulheres e homens ao jeito de Jesus. Também ao jeito de Maria de Nazaré, na medida em que ela soube passar de sua mãe car­nal, a sua exemplar discípula! O res­to virá por acréscimo.


L. Boff (Brasil)

RICOS EPULÕES E POBRES LÁZAROS

O Forum Económico Mundial de Da­vos e o Forum Social Mundial de Porto Alegre actualizam, de certa forma, a parábola evangélica do rico epulão e do pobre lázaro.

Em Davos predominam o económi­co, os bens materiais e o dinheiro. Até recente data, lá se reuniam os epulões do mundo para discutir moedas, juros, mercados, inflação e principalmente ga­nhos. Eram cegos e surdos ao clamor que subia da Terra por causa do destino trágico dos pobres e da devastação da natureza.

Em Porto Alegre predominam o so­cial, os bens não materiais e a aposta de que outro mundo é possível. Aí se reú­nem os representantes dos pobres lázaros do mundo inteiro. Em sua agen­da estão bens espirituais e humanitá­rios como a solidariedade, o respeito à diversidade, a compaixão, o cuidado para com a natureza, a rejeição a todo tipo de violência e à guerra, o empenho pela paz duradoura, o ecumenismo en­tre as religiões e a democracia social sem fim.

Davos e Porto Alegre mostram a humanidade sob a ameaça de bifurca­ção: de um lado, aquele um terço com acesso a todos os meios de vida, so­nhando viver até 130 anos que é a ida­de das células; e de outro, aqueles dois terços, sobrevivendo como podem com os parcos recursos que lhes so­bram, atingindo, quem sabe, os ses­sen­ta anos.

Como manter a humanidade unida, como espécie e como família, morando na mesma Casa Comum, pois não te­mos outra para habitar? Esse constitui um desafio ético e humanístico para to­do o poder político, para as religiões e Igrejas, para os intelectuais, para os militantes por um mundo melhor e para todos humanos que se conscientizaram desta tragédia que pode se abater so­bre a humanidade.

O significado maior do Presidente Lula ao participar nos dois Forums re­side neste significado transcendente: estabelecer pontes, criar as condições de um diálogo necessário sobre o futu­ro da Terra e da Humanidade, partindo das demandas do Forum Social Mundial e destarte impedir a bifurcação. Ele in­tro­duziu em Davos o escândalo da fo­me e da exclusão. A porta de entrada não pode ser a economia capitalista, orientada pela acumulação sem limites dentro da lógica da competição. Nesta só o mais forte ganha a preço de altís­si­ma taxa de iniquidade social e ambi­en­tal.

Se entrarmos por aí legitimamos os ricos epulões, apenas sensíveis às ci­fras e ao brilho do vil metal. Devemos entrar pela porta do social, porque ai, de imediato, encontramos os milhões de outros com seus rostos marcados e a natureza depredada. E diante do ou­tro surge a questão ética: como tratar hu­ma­namente os humanos e com cui­dado a natureza?

Ao responder a estas questões que nos queimam por dentro, somos urgidos a hierarquizar as instâncias: a econo­mia deve servir à política que, por sua vez, deve-se submeter à ética que, por sua vez, deve-se inspirar numa compre­ensão integradora e espiritual do ser humano.

Quer dizer, os meios de vida eco­nómicos servem para garantir uma boa convivência social e política que se rege por valores éticos de justiça, equidade, participação e respeito aos direitos no con­texto de uma aura espiritual que fornece as motivações maiores que dão sentido transcendente à vida.

Davos e Porto Alegre exigem-se mu­tuamente. Chegará o dia em que se abra­çarão?

Basta sermos razoáveis. Então não haverá mais ricos epulões e pobres lá­za­ros, mas cidadãos que descobriram a alegria de conviverem fraternalmente e em paz, também com a natureza.



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