Textos do
Jornal Fraternizar

Edição nº 156, de Janeiro/Março 2005

Destaque 1

XIII Encontro das Comunidades Cristãs Populares de Espanha decorreu em Valladolid

Manter a Igreja que temos,
Ou recriar a Igreja de Jesus?

Manter a Igreja que temos, ou recriar a Igreja de Jesus? Foi com esta pergunta de fundo que o Jornal Fraternizar deixou o Colégio Ave María, em Valladolid, no final do XIII Encontro das Comunidades Cristãs Populares de todo o Estado espanhol. Foram mais de 200 delegados de base, elas e eles, que, durante 4 dias, conviveram, reflectiram, debateram em grupos, comeram juntos e celebraram liturgicamente, com responsabilidade e alegria, a sua Fé no mesmo Deus de Jesus de Nazaré. As religiosas Carmelitas, que alugaram o Colégio Ave María, tiveram que ouvir das boas, por parte daqueles que, em Valladolid, se têm na conta de responsáveis maiores da Igreja. O incidente, sem quaisquer consequências para o andamento do Encontro, veio confirmar, ao seu jeito, que esta Igreja que temos, mais poder do que comunhão de iguais, tem que ser deitada fora urgentemente, como se faz ao sal, quando perde a força. Só assim, poderá ser recriada, em seu lugar, a Igreja de Jesus, feita de irmãs e de irmãos.

Nove, foram os grupos de trabalho que viveram intensamente o Encontro. Cada um deles debateu uma questão, previamente agendada pela Coordena­dora das CCP, eleita pelas respectivas Comuni­dades base de todo o Estado es­panhol. Não se trata, evidentemente, duma Igreja paralela à Igreja hierár­qui­ca que te­mos, mas das comunidades de base dessa mesma Igreja que orga­ni­zadamente se afir­mam no Estado espanhol, tal como o faz habitualmente a hierarquia, por sinal, quase sempre em dissidência com ela. O facto de ser da base da Igreja hierárquica e não da cúpula dá a estas Comunidades Cris­tãs Populares outra sensibilidade em relação aos problemas da Humani­dade e, por isso, também outra voz, quando decidem tomar a pala­vra. A frequente dissidência é salutar e anun­cia/revela um outro jeito de se ser Igreja católica, bem mais próximo das popula­ções, a fazer lembrar a postura do sa­ma­ritano da célebre parábola lucana.

1. Uma Igreja pelos direitos huma­nos; 2. Uma Igreja pelos excluídos; 3. A Igreja perante as guerras; 4. Liturgia da Vida; 5. Uma teologia libertadora; 6. Uma Igreja de redes e em rede; 7. U­ma Igreja para o diálogo intercultural e inter-reli­gioso; 8. Uma Igreja pela De­mocracia; 9. Uma outra voz da Igreja.

Foram estas as 9 questões concre­tas, reflecti­das ao longo do Encontro por outros tantos grupos de trabalho. O método favoreceu a proximidade, deu voz a cada delegado das Comunidades Cristãs, desenvolveu e estreitou afectos sororais e fraternais, abriu os olhos da consciência, despertou e consolidou pro­tagonismos pessoais e de grupo, nu­ma palavra, revelou uma Igreja de base muito viva, muito actuante, com voz própria, muito participante, muito de­mocrática, numa palavra, muito Igreja.

O resultado do trabalho de cada grupo seria depois partilhado com os de­mais grupos, no decorrer da cele­bra­ção da Eucaristia, sem dúvida, o mo­mento alto do Encontro. Preencheu qua­se toda a manhã do último dia. Aconte­ceu no salão de festas do Colégio, não na capela do Colégio. Por opção das CCP e da sua Coordenadora, a revelar saudável alergia pelos locais ditos sa­grados, em consonância com a letra e o espírito do Evangelho de Jesus e com a prática corrente de Jesus e das pri­meiras comunidades cristãs jesuânicas.

Quem tivesse entrado e não sou­besse de nada, dificilmente concluiria que o que os seus olhos viam e os seus ouvidos ouviam era a celebração da Eu­caristia. Nenhum sacerdote, devida­mente paramentado e destacado da assembleia, presidiaa celebração. Todo o palco estava ocupado por represen­tantes das Comunidades (de Portugal, fomos apenas três pessoas, mas a Co­ordenadora fez questão de que uma delas estivesse lá a representar os Gru­pos e Comunidades de base do nosso país). Também estava presente um pres­bítero ordenado, mas sem qual­quer insígnia exterior que o distinguisse dos demais. Nem no decorrer do Encontro se deu por ele, tamanha foi a igualdade efectiva que se viveu do princípio ao fim.

Toda a primeira parte da celebra­ção - a chamada liturgia da Palavra - foi preenchida com as contribuições orais e cénicas de cada grupo, para lá, evidentemente, da proclamação de um trecho do Evangelho de S. Mateus (20, 24-28). Deste modo, todos os delegados, elas e eles, ficaram, sucin­ta­mente, a par das conclusões/compro­missos a que cada grupo havia chega­do nas suas reflexões.

"Cantemos juntos a glória do Deus fiel à sua palavra. A sua glória é: salá­rio justo; pão para todas, todos; a mão amiga que sai ao encontro de quem se encontra sozinho; que ninguém te­nha que emigrar; que ninguém esteja desempregado; que o lavrador possa viver dos seus campos; e que todas, todos possam ter livros para ler!"

Como se vê por este exemplo, até os cantos litúrgicos não tiveram nada da habitual alienação em que são ha­bi­tualmente useiras e vezeiras as litur­gias dos domingos nas paróquias cató­licas tradicionais. Nesta liturgia das CCP, até os cantos são expressão de lu­ci­dez, de mulheres e homens com­pro­metidos, metidos até aos ossos nas lutas políticas e sociais da Humanida­de, pois já perceberam há muito tempo que a Fé cristã, se for jesuânica, não nos tira da luta social e política, bem pelo contrário, impele-nos a estar nela mais do que ninguém e duma forma outra, que tem tudo a ver com a forma como Jesus de Nazaré também esteve no seu tempo e país.

No final, toda a assembleia fez su­as as palavras proféticas de Cortés, um cristão cartoonista bem conhecido das CCP e da Igreja ibérica em geral. Na sua simplicidade, estas suas palavras anunciam que outra Igreja é possível e necessária. Éis:

"A Igreja que eu quero não tem cam­panário: as pombas encarregam-se de avisar as pessoas; não tem tem­plos: sempre haverá um parque ao ar livre, ou uma casa de família onde as cortinas não impeçam de ver a chuva a cair; não precisa de «dogmas»: não há que erguer obstáculos a quem che­ga, mas sim dizer a todas, todos que não devem sentar-se antes de se ter chegado à meta; claro que também há-de haver um papa: um igual a nós, mais santo do que «santíssimo» ou "santi­da­de", e que não queira chamar-se pio, quando muito, Pepe; os bispos, coita­dos, costumam ser boas pessoas: se não fossem bispos, creio que seriam santos; os cargos hão-de ser ocupados por pessoas com experiência nas áreas do amar e ser amado: de que vale a su­per­ortodoxia sem amor?; desculpem que lhes diga: putas, marginalizados, bêbedos, pecadores, maricas, droga­dos, e outras pessoas do mesmo estilo, hão-de ser os fundamentos da Igreja que eu quero."


Teóloga Chini Rueda entusiasmou delegados

Magistério de Jesus é pura subversão

"Geralmente, os interesses da instituição eclesiástica sobrepõem-se ao magistério de Jesus, que é pura subversão". A denúncia é da teóloga Chini Rueda, membro da Associação "Católicas pelo direito a decidir", neste momento, a residir e a leccionar nas Filipinas, em cujo país está a ponto de se tornar mãe adoptiva duma menina sem família. A denúncia, certeira, faz parte da conferência que proferiu no XIII Encontro das CCP, em Valladolid, logo a abrir o primeiro dia de trabalhos. Os aplausos de aprovação por parte dos delegados foram unânimes e prolongados.

"Os hierarcas querem conservar a todo o custo a sua posição, temem que o religioso perca espaço e fazem tudo o que todos os sistemas fazem para se manterem: neutralizar todo e qual­quer tipo de subversão. Na sua engre­na­gem, que se apoia numa mística de sub­missão, a desobediência não tem qualquer cabimento".

Rueda referiu exemplos de subver­são que constituem o cerne do Evan­gelho de Jesus e também o exemplo pro­vocador de Francisco de Assis. Mas reconheceu que, infelizmente, estes e outros exemplos semelhantes ainda não fizeram caminho no interior da I­gre­­ja, sobretudo, ainda não são "Tra­dição" frente à chamada doutrina ofi­cial, que sempre sai a terreiro para re­preender e castigar os subversivos, olha­­dos como desobedientes e pertur­badores da ordem".

Como teóloga, referiu-se às mulhe­res na Igreja e deixou uma queixa: "O alto clero dificulta, na medida em que pode, o acesso das mulheres à forma­ção teológica". E sublinhou: "tan­tos sé­culos de teologia, feita exclu­siva­mente por clérigos, só serviu para tornar turbo o que estava muito claro no Evangelho, a saber: a igualdade radical entre ho­mens e mulheres, também no acesso aos ministérios ordenados na Igreja".

Rueda acusou a postura moralista da hierarquia da Igreja católica, nomea­da­mente, no que respeita ao casamen­to civil de homossexuais e lésbicas, e ao uso do preservativo. "Os bispos che­gam ao extremo de os excluir da Igreja de Jesus, o sedioso, o amigo dos pros­ti­tutos e das prostitutas!..." E perguntou, desafiadora: "Como podem dizer o que é bem e o que é mal, aqueles que vi­vem completamente fora do mundo?"

Na sua exposição, sempre em tom arrebatado e liberto de quaisquer me­dos, a teóloga exigiu, a este propósito, "o fim da dupla moral da Igreja, que re­clama justiça fora dela e dentro dela ainda não pratica a democracia nem reconhece nenhum poder de decisão às mulheres." Exigiu, igualmente, que a Igreja "deixe de ser cúmplice com os poderosos."

Quando se debruçou mais sobre a realidade da Igreja em Espanha, foi para reclamar que de afaste de "qual­quer tipo de privilégio, fiscal ou educa­tivo, pois, enquanto continuar a depen­der dos poderes do Estado, a Igreja não será livre."

Para Chini Rueda, de pouco ou na­da valem sermões "grandiloquentes e intragáveis completamente fora da realidade", por parte duma Igreja "obce­cada pelo pecado", em lugar de em­penhada na transformação do mun­do.

Rueda teve também uma palavra para as, os jovens de hoje. Convidou-os a constituirem-se em "comunidades de resistência" ao tipo de mundo que o neo-liberalismo nos quer impor, de modo a resgatarem "a utopia empol­gante e subversiva do Evangelho de Jesus". Deu claramente a entender que lhe custa a entender uma juven­tude como a de hoje que "não se mete a mudar o mundo, apenas pensa en­con­trar e manter um trabalho seguro".

Quando olhou para a Espanha po­lí­tica de hoje, governada por Zapa­tero do PSOE, Chini Rueda não escon­deu o seu entusiasmo. No seu enten­der, as medidas que estão a ser anun­ciadas e que virão a ser tomadas, apesar do descontentamento de grande parte da hierarquia católica, repre­sen­tam um avanço para a sociedade civil, na afirmação da sua cidadania, e um bem para a Igreja católica que, assim, fica mais pobre, o mesmo é dizer, mais livre.

Depois de concluída a conferência, Jornal Fraternizar quis ouvir o parecer de José Maria Garcia, dos "Cristãos pelo Socialismo". Estava eufórico com a teóloga e deixou uma farpa: "a esta Igreja que se apoia no Direito Canónico e na Cúria romana, não há Deus que a destrua. De Jesus, o que nos veio foi um movimento de fé, nunca esta Igreja-poder que hoje se conhece".


Comunidades Cristãs dissentem dos bispos

O XIII Encontro não ignorou o escaldante braço de ferro entre a hierarquia católica e o Governo Zapatero, do PSOE. E, no final, ousou anunciar aos Povos de Espanha os seus pontos de vista, não coincidentes com os da maioria dos Bispos. Fica assim claro que o parecer dos Bispos não é o de toda a Igreja que está em Espanha. Resta esperar que quem governa tenha em conta este facto. Eis o texto.

Nós, homens e mulheres que cre­mos em Jesus de Nazaré e procuramos viver a nossa fé em pequenas comuni­da­des cristãs populares (CCP), dentro da mesma Igreja católica, queremos, no uso do mesmo direito com que o faz a hie­rar­quia - embora de maneira di­fe­rente e por vezes até contrária - con­­tribuir com a nossa voz acerca do candente deba­te Igreja-Estado que to­dos os dias i­nun­da os telejornais do Estado espa­nhol.

AFIRMAMOS, em primeiro lugar, que os bispos não representam de modo algum a situação plural da Igreja. Mais: em questões de moral sexual, esbarram com milhões de cató­licos que dissentem da doutrina oficial por eles defendida. Pressionados pelos movimentos neo-conservadores que têm no seu seio (Opus Dei, Comunhão e Libertação, Kikos, Legionários de Cristo, etc), só a estes mobilizam, já que nem os cristãos de base, nem mui­tas ordens religiosas, nem, por enqu­anto, algumas dioceses espanholas (Ca­talunha, País Basco e Navarra) com­partilham as agressivas mobilizações que eles persistem em incentivar.

LAMENTAMOS, com enorme dor, a campanha orquestrada pela hie­rar­­quia contra as últimas medidas le­gis­lativas do Governo espanhol, porque em lugar dela levantar a voz em prol do acolhimento aos imigrantes, da defe­sa dos pobres e da denúncia das injus­tiças sociais, preferem mostrar-se mais preocupados em manter inadmissíveis pri­vilégios - numa sociedade que cons­ti­tu­cio­nalmente já não é católica - e em defender um injusto e lucrativo fi­nan­cia­mento, que deveria ser suporta­do pelos seus próprios fiéis.

RECONHECEMOS que os bispos têm todo o direito a ter opinião so­­bre qualquer tema social, à seme­lhan­ça do que acontece com qualquer outro cidadão; mas já não lhes reco­nhe­­cemos o direito de imporem as suas opi­niões, muito menos que pretendam que as suas opiniões se convertam em leis para todas as pessoas; ou que se ergam contra elas. Que diríamos se os imãs nas mesquitas pretendessem que os espanhóis não comêssemos carne de porco? E se as testemunhas de Je­o­vá nos impedissem de fazer transfu­sões de sangue? Que barbaridade, não é verdade?; pois sucede a mesma coisa, quando hoje os bispos católicos pretendem, como se ainda estivessem no tempo medie­val ou na Espanha franquista, que todos os cidadãos, cren­­­tes ou não, acatemos as suas idei­as, as quais, além de não serem dog­mas, também estão muito distantes do que pensa e faz a maioria dos cris­tãos, nomeada­mente, em maté­ria de moral sexual.

CREMOS que no fundo de todos estes protestos subjaz o tema do fi­nan­ciamento da Igreja católica, o qual deveria ser conseguido com os próprios recursos e com as contribui­ções dos fiéis. É curioso que apenas 30 por cento dos declarantes de IRS colocam um x, para que 0,52% dos seus impostos sejam entregues à Igreja católica. Depois ainda dizemos que em Espanha há uma maioria sociológica católica! Em 1987 e fruto dos acordos Igreja-Estado, foi concedido à Igreja, de ma­neira transitória e por três anos, as aju­das necessárias, até ao seu com­pleto auto-financia­mento. Mas a verda­de é que, quinze anos depois, a contri­buição do Estado, devido a não ser su­ficiente a contribuição financeira dos fiéis, ultrapassou já os 450 milhões de euros. Até quando?

QUEREMOS pronunciar-nos sobre as outras medidas sociais mais polé­mi­­cas. Analisá-las em profundidade, le­varia muito tempo e não caberia no âm­bito deste documento. Mesmo as­sim, não deixamos de dizer umas pala­vras, pese o risco de perigosas sim­plifica­ções.

APOSTAMOS numa escola públi­ca e laica, inclusive para a escola sub­ven­cionada com fundos públicos. O ensino da Religião deve ficar confi­nado às catequeses, paróquias, comu­ni­dades, igrejas ou mesquitas.

ENTENDEMOS que nenhuma con­fis­são tem o direito de manipular ques­tões que dizem respeito à sociedade civil (na qual há crentes e não cren­tes); DISCORDAMOS da hierarquia católica em temas tão pessoais como a eutanásia, a investigação com cé­lu­las-mãe, sempre e quando se fa­ça só com fins terapêuticos e estritos con­trolos, a despenalização do abor­to nas 12 primeiras semanas, ou a agilização do divórcio, cuja lei já está em vigor em Espanha desde 1981.

Finalmente, RATIFICAMOS a nossa vigorosa aposta por uma Igreja livre e libertadora, capaz de se inculturar co­mo fermento numas sociedades lai­cas, plurais e democráticas; uma Igreja que não queira privilégios, nem se a­poie no poder; uma Igreja que, a partir da opção pelos pobres - que deveria ser o seu ideário permanente - promo­va nos seus fiéis a luta pela Paz, pela Justiça e pela Liberdade.


DESTAQUE 2

Um jovem que mantém um sítio satírico na net pediu uma entrevista séria ao pe. Mário. O pe. Mário aceitou. As perguntas chegaram por e-mail. As respostas seguiram por e-mail. Jornal Fraternizar divulga aqui algumas das perguntas e das respostas. Quem quiser ler a entrevista na íntegra, abra www.inepcia.com ou: www.padremariodemacieira.com.sapo.pt

Já perdoou a quem o prendeu?

P. Foi perseguido, preso, exone­ra­do, tratado como uma espécie de “anticristo” em ponto pequeno. Tendo o perdão a importân­cia que tem no cristianismo, já perdoou às pessoas responsá­veis por tudo isto?

R. Posso ter inimigos, mas não sou inimigo de ninguém. Acho também que nunca tive que perdoar a ninguém, pe­la simples razão de que nunca che­guei a ficar contra ninguém. Ao longo dos anos, fizeram-me tudo isso que diz a pergunta e muito mais, mas eu nunca fiquei contra as pessoas que assim agi­ram comigo. Sempre continuei a tratá-las como pessoas, a respeitá-las e a amá-las. Ao mal que me fazem, procu­ro responder sempre com o bem.

Re­cor­do-me, a este propósito, que, depois do 25 de Abril de 74, fui cha­mado a depor no Tribunal de Extinção da Pide/DGS, onde estava a ser jul­gado o homem que o Tribunal tinha co­mo o principal responsável pelas mi­nhas duas prisões políticas em Caxias. O colectivo de Juízes fez questão de ouvir o meu depoimento, para, com base nele, poder condená-lo. Pois bem, eu cheguei ao Tribunal, olhei fraternal­mente para o senhor Julinho (era as­sim que o povo da freguesia de Maci­eira da Lixa o tratava) e pedi de ime­diato a sua absolvição. Aos meus o­lhos, o que ele havia feito tinha sido por arrastamento de outros muito mais poderosos e influentes, que habilmente se tinham servido dele contra mim e ficaram sempre na sombra. O colectivo de Juízes ficou manifestamente perple­xo com as minhas palavras, para não dizer, em estado de choque, mas teve que mandar em paz o acusado.

Devo dizer, igualmente, que os meus braços de homem padre estão sempre abertos para abraçar todas as pessoas, inclusive, aquelas que me te­nham feito mal, ou ainda venham a fa­zer. Acontece, porém, que, muitas ve­zes, as pessoas que me fazem mal não conseguem depois aceitar o abraço que lhes quero dar. Continuam a detes­tar-me. Prefeririam, se calhar, que eu as odiasse também a elas. Creio que até me detestam ainda mais por eu, ao ódio delas, responder com respeito e amor. Mas é assim que sou. Sem ter que fazer um esforço por aí além. Sou assim por natureza e também pela graça a que procuro estar permanen­te­mente aberto. Acho que é assim que todos nós, mulheres e homens, have­re­mos de ser, se quisermos ser verda­deiramente humanos. Ao mal que nos façam, havemos de responder só com o bem. O nosso mundo será então de muito mais paz.

P. O que aconteceu em Fátima a 13 de Maio de 1917?

R. Começo por declarar que Fátima é, porventura, a maior mentira fabri­cada por um certo tipo de Catolicismo português que, estranha e escandalosa­mente, sempre contou e continua ainda hoje a contar, apesar de entretanto ter acontecido o Concílio Vaticano II, com o reconhecimento da generalidade dos Bispos, da Cúria Romana e até do Papa, nomeadamente, do actual Papa João Paulo II, que, como se sabe, é um dos fi­lhos mais idolatrados da católica Poló­nia e um fruto acabado do seu feroz anticomunismo/anti-ateísmo primário.

O que aconteceu em Fátima em 13 de Maio de 1917? Depois de muito me ter debruçado sobre o fenómeno, che­guei à conclusão de que o dia 13 de Maio de 1917 foi o início da fabricação da grande mentira que é hoje Fátima. O clero da região preparou tudo ao pormenor e fez acontecer aquela “apa­rição”. Depois, a credulidade e a crassa ignorância teológica e evangélica das populações da época, mais o obscuran­tismo e o medo em que viviam no seu dia a dia, fizeram o resto. Até fizeram acontecer o chamado “milagre do sol”, uma inventona objectivamente boba e humanamente ignóbil.

Que fique bem claro, duma vez por todas: Não há, nunca houve, nem ja­mais haverá aparições de Maria, mãe de Jesus, a ninguém, crianças ou adul­tos, mulheres ou homens.  Apareça o pri­meiro teólogo cristão que me desmin­ta de forma fundamentada. Por isso, tudo o que se disser a este respeito – e muito se tem dito e escrito, infeliz­mente – é mentira, fantasia, exploração da credulidade das pessoas simples e ingenuamente propensas ao maravi­lho­so. Não tem qualquer verdade obje­ctiva e cientificamente comprovada. E repugna ao núcleo essencial da Fé cristã jesuânica!

O que as três crianças de Fátima “viram” e “ouviram” – se é que elas vi­ram e ouviram alguma coisa no dia 13 de Maio de 1917 – foi apenas o que elas já tinham nos seus próprios cére­bros aterrorizados pelas pregações da Santa Missão e pela leitura em família do livro Missão Abreviada. Porém, pela for­ma como toda esta mentira foi inicial­mente montada e é oficialmente relata­da, o mais que pode ter acontecido foi uma dramatização teatral, em que Lú­cia, a mais velha das três crianças, fez o papel de actriz principal. Nada mais do que isso. E se dissermos que em Fá­tima houve uma manifestação do “di­vino” ou uma comunicação do “céu” com a terra, mentimos com quantos dentes temos na boca. Um tal “divino” não passaria, afinal, de demoníaco. Ali­ás, é este demoníaco que, em nós, no nosso inconsciente individual e sobre­tudo colectivo, sempre espera, pede, reclama e exige de Deus “milagres”, manifestações do “sobrenatural”.

Pelos frutos – diz Jesus no Evange­lho – se conhece a árvore. Neste caso, se conhece Fátima. Ora, os frutos de Fá­tima e da sua senhora cega, surda e muda foram e continuam a ser tão per­versos, tão inumanos, tão cruéis, tão alienadores, tão anti-Evangelho, tão anti-Jesus de Nazaré e até tão anti-Maria, sua mãe, que nada daquilo po­de ter o “selo” ou a “marca” de Deus, pelo menos, do Deus de Jesus e de Ma­ria. Tudo aquilo é idolatria, aliena­ção, exploração, culto do medo, covil de ladrões.

Por isso, digo sem hesitar: quanto mais a Igreja católica se identificar com Fátima, mais perderá em autenticidade e em credibilidade. Fátima tem sido e continuará a ser, se a Igreja teimar em manter-se lá a arrecadar todos aqueles milhões de euros por ano e todo aque­le ouro levado pelas populações ado­enta­das e maltratadas por economias e políticas sem misericórdia, o vírus que corrompe e paganiza o Cristianis­mo jesuânico. A cova dos milhões. O cemitério da Igreja.

P. Como vê a polémica recente provocada pela ida de sacerdotes não cristãos ao santuário de Fátima? O eclectismo tem limites?

R. A mim, nada disso me aquece ou arrefece. Todos os chefes das reli­gi­­ões gostam de locais onde se con­gre­guem multidões, massas humanas sem consciência crítica, grandes quan­ti­da­des de pessoas não-ilustradas e não-evangelizadas. Esses locais são terreno propício à mentira, à aldrabice, ao engodo, ao maravilhoso, à manipu­la­ção das massas populares, por parte das elites dos privilégios, nomeada­men­te, das elites religiosas, qualquer que seja a religião. Se desses locais de­saparecesse a aceitação, por parte dos responsáveis, das ofertas em di­nheiro das devotas, dos devotos e fosse também banido todo o rendoso negócio religioso que logo por ali prolifera como cogumelos, os sacerdotes e outros líde­res religiosos dificilmente passariam por lá. Mas isso ninguém, nenhum líder religioso, nenhuma Igreja faz.

Fátima é mentira. E lá, onde impera a mentira, também impera a opressão, o autoritarismo, o arbitrário, a aliena­ção popular, a idolatria. Basta ver com olhos de ver através da televisão o com­por­tamento da multidão, num qualquer dia 13 de Maio ou de Outubro. É mani­fes­tamente uma multidão triste, sofrida, cativa da injustiça que, ano após ano, geração após geração, espera infantil­mente por um “milagre” que lhe resolva magicamente os problemas. O que nun­ca aconteceu. Nem acontecerá!

En­tretanto, não há ninguém que anun­cie a essa multidão o Evangelho ou a Boa Notícia de Jesus que nos reve­la que os problemas da Humanidade só serão resolvidos se todas, todos nós fizermos por isso. Com engenho e arte. Com empenho e luta política. Como se Deus não existisse. Veja que nenhum dos responsáveis da Igreja católica que intervêm em Fátima, desde o Reitor do santuário, ao Bispo da diocese e a aca­bar no Papa de Roma, se atreve a ir por aqui. O mesmo se tem que dizer dos líderes de outras religiões que por lá passam. Uns e outros praticam o dis­curso da mentira, da alienação, do anti-Evangelho. Veja igualmente co­mo to­dos eles, aparentemente tão diferentes entre si, acabam sempre por se enten­derem uns com os outros. Tenho a cer­te­za que se Jesus viesse de novo à terra, os líderes religiosos católicos ja­mais o receberiam em Fátima, muito menos, o deixariam intervir num qual­quer dia 13 de Maio ou de Outubro. E, se, por engano, o autorizassem, não o deixariam concluir a sua intervenção e matá-lo-iam nesse dia. Ou, então, tra­tavam-no como um louco varrido diante de toda a multidão mantida proposita­da­mente por eles no infantilismo e na ingenuidade!

P. O celibato é assim tão essen­cial à prática do sacerdócio co­mo nos é dado a entender? Acha que um padre casado poderia ser um bom padre?

R. O celibato imposto como disci­plina eclesiástica católica romana é apenas isso: disciplina eclesiástica. Não tem origem nem fundamento no Evangelho, muito menos procede do pen­samento e da vontade de Jesus de Nazaré. Aliás, atenta contra a letra de algumas cartas que integram o Novo Testamento, as quais contêm recomen­dações dirigidas directamente aos bis­pos, para que sejam homens de uma só mulher, por isso, não celibatários!

Reconheço que, por causa desta prática eclesiástica, a nossa Igreja ca­tólica é hoje uma Igreja em estado de pecado. Não admira então que tenha cada vez menos membros. E que aque­les membros que ela ainda mantém, se­jam tão tristes, tão oprimidos/depri­midos, tão amargos/amargurados.

Outra coisa muito diferente é o ce­li­bato livremente assumido por amor do Reino/Reinado de Deus. Como sabe­mos, sempre tem havido, ao longo da História, algumas pessoas, mulheres e homens, que decidem entregar-se tan­to e de modo tão radical às grandes cau­sas da Humanidade, que o celibato lhes aparece como uma via mais propí­cia que o casamento. Mas é claro que um celibato assim já não terá nada a ver com auto-castração, como acontece com o celibato imposto por lei eclesiás­tica. Pelo contrário, há-de ser alimen­ta­do por muitos afectos, vividos ao mo­do de pessoa adulta e sempre na di­men­são da gratuidade, com muita entre­ga de vida e muita alegria.

P. O movimento carismático ten­tou recuperar para o catolicismo fi­éis que perdeu para confissões evangélicas, usando meios muito parecidos aos que usa, por exem­plo, a Igreja Universal do Rei­no de Deus. Será este o caminho certo? Alguma vez viu o canal ca­ris­mático “Canção Nova”?

R. Não creio que seja esse o ca­minho certo. Vi algumas vezes o canal “Canção Nova”, no tempo em que ele ainda não tinha passado a codificado, e fiquei ainda mais convencido que o caminho não é por aí. Já S. Paulo, por volta do ano 50 da nossa era, se insur­gia contra os “carismáticos” da Comuni­dade de Corinto que falavam “línguas” que ninguém entendia e mantinham ou­tros comportamentos bizarros com­ple­ta­mente estéreis e alienantes.

A prá­tica de Jesus de Nazaré tam­bém nunca foi por aí. E o Evangelho de João atreve-se a dizer que apenas a prática de Jesus é a correcta, quando no-lo apresenta a proclamar, alto e bom som: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim”. Admito que um certo sector da Igre­ja católica se converteu oportunista­mente aos métodos da Igreja Universal do Reino de Deus, certamente, com o objectivo de tentar estancar a perda de milhares de fiéis todos os anos a favor das novas Igrejas evangélicas. Mas esses métodos têm mais de demo­níaco do que de jesuânico. Alienam as pessoas. Manipulam a consciência das pes­soas. São mentira. Exploram finan­cei­ramente as pessoas até ao osso, em especial as pessoas com graves proble­mas de saúde e de droga. Para além de as aterrorizar. Por outro lado, tor­nam as pessoas confrangedoramente dependentes dos cultos periódicos e dos pastores com jeito para o comércio religioso e para o blá-blá-blá com sota­que brasileiro. Para cúmulo, retiram as pes­soas das lutas e das intervenções po­líticas. Mantêm-nas num fideísmo in­fan­til e ingénuo, e num milagrismo alie­nan­te, de bradar aos céus. Com o pas­sar dos dias, percebe-se também que esses são métodos que matam a origi­nalidade e a criatividade das pessoas, o que eu chamo verdadeiros casos de polícia e dos Tribunais.

Infelizmente, ninguém actua, certa­mente em nome da liberdade religiosa, mesmo quando esta, como é manifesto no caso destas novas Igrejas-seita, a liberdade religiosa é sobretudo liber­da­de para matar, roubar e destruir o que há de melhor e de mais genuíno em cada pessoa.

É caso para dizer que carismáticos as­sim só o podem ser, não do Deus-Es­pírito Santo, mas do Deus-Demo­níaco, melhor, do Deus-Dinheiro, que os pastores que estão à frente dessas Igrejas, assim como os padres e res­pon­sáveis leigos da “Canção Nova” fa­zem tudo para sacar a quem tem a des­graça de lhes cair nas mãos, digo, nas garras.

P. Em entrevista ao JN, o padre José Luís Borga chamou-lhe “do­ente.” Não querendo fazer disto um ajuste de contas, qual a sua o­pinião acerca do padre Borga en­quanto artista e figura mediáti­ca?

R. É verdade, o meu colega Pe. Luís Borga chamou-me “doente”. E no contexto em que o fez, só poderá en­ten­der-se doente do foro psiquiátrico. Por outras palavras, chamou-me “lou­co”. Não se pode dizer que essa sua opinião a meu respeito tenha sido ins­pirada pelo Espírito de Deus, uma vez que é uma opinião que atenta contra o que nos recomenda Jesus, no Evan­ge­lho de Mateus. Em concreto, diz Je­sus: “Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não matarás. Aquele que matar terá que responder em juízo. Eu, porém, di­go-vos: Quem se irritar contra o seu irmão será réu perante o tribunal; quem lhe chamar «imbecil» será réu di­ante do Conselho; e quem lhe cha­mar «louco» será réu da Geena do fogo” (Mt 5, 21-22).

Surpreendeu-me essa opinião ca­lu­niosa, tanto mais quanto o meu co­lega Pe. Luís Borga, até hoje, nunca se me dirigiu, nem de viva voz, nem por escrito. Se é assim que ele me vê e se, como ele próprio diz nessa entre­vista, me tem como seu irmão no pres­biterado, então já poderia ter tido comi­go alguma manifestação de cuidado e de ternura fraternal. Nunca teve.

Entre­tanto, é bom lembrar que a opi­nião caluniosa que o meu colega Pe. Luís Borga lança contra mim sempre foi lançada também contra aquelas pes­soas que, no seu tempo histórico, têm tido a audácia da dissidência, da liber­dade, da autonomia, da fidelidade à verdade que nos faz livres.

Ao chamar-me “louco”, o meu co­le­ga Pe. Luís Borga colocou-me sem querer em boas companhias. Não é ver­dade que também chamaram “lou­co” a Jesus, o de Nazaré? E possesso do demónio? E não disseram que tudo o que ele fazia de libertador e dizia de denúncia era por obra de Belzebu, chefe dos demónios? Por isso, daqui agradeço ao meu colega Pe. Borga es­sa referência que me fez e esse epíteto que me atribui.

Qual a minha opinião sobre ele? É difícil pronunciar-me porque só o co­nheço de fugida pela televisão. Apesar de tudo, acho que ele procura, ao seu jeito, ser um padre para este tempo e que é hoje, volens/nolens, o rosto mais me­diático da Igreja católica, o que lhe dá uma responsabilidade acrescida. É por isso que, se me é permitido, eu gos­tava de o sentir muito mais profundo na mensagem que canta, e muito mais profético nas intervenções que faz em público. Sobretudo, gostava de perce­ber que ele se deixa progressivamente conduzir e guiar pelo Espírito Santo, até poder chegar a ser caluniado de “lou­co”, como Jesus, pelas mi­norias dos pri­vilégios que espezi­nham o Pobre, mesmo quando prota­go­nizam mediáti­cos gestos de “carida­dezinha”.


ESPAÇO ABERTO

Editorial

O abutre

1. Os olhos de Paulo Portas, quan­do ele sorrateiramente procura os nos­sos através das câmaras de televisão, fa­zem-me lembrar os olhos de um abu­tre esfaimado sobre a sua próxima pre­sa. O mais pequeno descuido político nos­so, e é certo e sabido que logo caire­mos nas suas garras políticas.

O homem é capaz de nos esquar­te­jar politicamente, mas continuará a repetir até à exaustão que o faz por a­mor de Portugal. O abutre político é mesmo assim: mete o povo no coração, mas para melhor o controlar, dominar, infantilizar, roubar, esquartejar, até o fa­zer desaparecer. Precisamente, por­que é abutre e não é capaz de amar nin­guém, nem de se condoer de nin­guém. Pode um abutre alguma vez ter entranhas de misericórdia?

Nunca, como desde as últimas elei­ções legislativas, o nosso Paulinho das feiras tem andado tão eufórico. O que faz dele um abutre político ainda mais perigoso para o povo e para o país. So­­bretudo, se a nação onde ele exerce a sua crueldade política é assim como uma grande aldeia, e as populações que a "fazem" praticamente nunca che­garam a ter oportunidade de crescer na sua dimensão política, condenadas que foram sucessivamente, primeiro, a ter que viver durante séculos sob a di­tadura do trono e do altar, materializa­da no poder duma família dita real, em estreita e santa aliança com os clérigos da todo-poderosa e sempre temida I­gre­ja católica; depois, sob a ditadura de um indivíduo celibatário e igreijeiro, ao qual se juntou o cruel poder simbó­lico da imagem cega, surda e muda da senhora de Fátima; e, finalmente, sob a quase-tirania dos partidos políticos ditos democráticos que hoje o que mais querem é que o povo lhes dê o poder, juntamente, com privilégios e muitas outras benesses que dele decorrem, em lugar deles tudo fazerem para que o povo seja efectivamente o senhor dos seus próprios destinos.

Tão grande euforia política de Pau­lo Portas fica a dever-se ao facto de, inesperada­mente, o poder lhe ter caído nas mãos. Da noite para o dia, ele viu-se ministro de estado e da defesa e dos assuntos do mar do Governo de Por­tugal – com o que ele verdadeira­mente sonha é com o lugar, as honras e o poder de primeiro-ministro, ou de PR, e não pensem que já desistiu de chegar lá – e isto, sem que o seu par­tido tivesse um número de votos e de deputados que o justificasse. Para o conseguir, o nosso homem não hesitou em fazer-se passar por amigo do seu inimigo, a quem, por esses mesmos dias de refrega partidária, tinha tenta­do a­pu­nhalar politicamente pelas cos­tas, e os dois assinaram um acordo assassi­no: fazer maioria no Parlamento para, juntos, domesticar/subordinar Portugal.

Quando, dois anos depois e ime­dia­tamente após um desaire eleitoral de todo o tamanho, o seu inimigo/ami­go Durão Barroso, primeiro-ministro de Portugal, deitou ao caixote do lixo o acordo que os unia e deu às de vila-diogo para a Europa dos ricos, onde o aguardavam mordomias sem conta e vaidades sem fim, à mistura com via­gens políticas por conta dos europeus, eis que lhe apareceu pela frente o maior galã da política, Pedro Santana Lopes. Aquilo foi logo amor à primeira vista! Tomado por grande sobressalto político, Paulo Portas não conseguiu re­sistir a tanto charme, piscou-lhe des­ca­radamente o olho de abutre e os dois, de inimigos políticos que haviam sido até então, passaram a irmãos siameses, tão siameses, que até Jorge Sampaio, quando tardiamente decidiu utilizar o pleno dos seus poderes presidenciais, em lugar de os separar, como preten­dia, acabou por os unir ainda mais. E a verdade é que, depois de muitas da­que­las peripécias políticas em que am­bos são eminentemente hábeis, e com as quais conseguem ter toda a comu­nicação social fofoqueira e ingénua a falar deles todos os dias e a toda a ho­ra e momento, lá apareceram de novo os dois juntos, perante as câma­ras de televisão, a comunicar em dire­cto ao país que, depois da maldade que o PR lhes havia feito, eles decidiram ficar juntos para a vida e para a morte políticas, tal como é costume dizer/men­tir num casamento, quando este não re­sulta de um grande amor, mas ape­nas de um grande jogo de interesses, como é manifestamente também o caso presente. E foi assim que Paulo Portas e Santana Lopes, de irmãos siameses inseparáveis, passaram à condição de marido e marido políticos, que estas coi­sas também podem suceder em po­lítica e não apenas na vida real dos afe­ctos entre um homem e outro ho­mem, uma mulher e outra mulher.

Falta-lhes apenas uma coisa: ga­nhar as próximas eleições legislativas antecipadas, já no dia 20 de Fevereiro 2005. Se isso suceder, quem sabe se os dois não juntarão os trapinhos polí­ticos e vão ocupar, como um só homem político, o palácio de S. Bento, que ou­trora foi de muitos homens, todos celi­ba­tários por força de um voto de casti­da­de feito em honra de um Deus cruel e sádico, por isso, com tudo de ídolo, precisamente os religiosos beneditinos, também eles muito de Deus, como Paulo Portas, mas para melhor levarem a água a todos os seus muitos moinhos!

2. Não me venham dizer que esta minha hipótese é de todo impensável. Sê-lo-ia, se Paulo Portas não fosse um abutre político, capaz de tudo, até de esmagar os seus amigos e os seus fa­miliares mais próximos, se tal for neces­sário para garantir os objectivos que, fria e ferreamente traçou e se propôs alcançar. Se pensam que exagero nes­ta minha leitura teológica dos sinais dos tempos, vejam como ele, sem­pre que comunica, cobre com o seu sobran­ceiro co­municado todos os ou­tros dis­cursos. Vejam como ele exibe todo aquele ar de descontracção, quando não está oficialmente em funções de Estado (aqui, ao contrário, todo ele é hirto, autómato, robot, regra-e-esqua­dro, esfíngico, faraónico, cruel até con­sigo próprio, a revelar que o poder ma­ta, ao contrário da Política que liberta e humaniza). Vejam como ele, sempre que isso lhe pode trazer dividendos políticos, invoca o nome de Deus, mais a sua condição de católico fervoroso e o categórico imperativo de defesa da vida, e tudo isto num tom tão farisaica­mente único, que leva quem o ouve a pen­sar que todos os demais portugue­ses, incluídos os do seu Partido polí­tico, são uns pulhas, uns publicanos, uns corruptos, uns preguiçosos, uns ca­na­lhas, uns adúlteros, uns assassinos. Íntegro, impoluto, incorruptível, só mes­mo ele, Paulo Portas, e mais ninguém! Vejam como ele argumenta, uma e ou­tra vez, como nos explica uma e outra vez, até ter a certeza de que já nos pôs a concordar e a dizer com ele.

Aqui, Paulo Portas não é só abutre político. É também serpente, uma jibóia política que não descansa, enquanto não nos encantar e nos fizer entrar pelo nosso pé no seu ventre (leia-se, na sua ideologia de mentira e assassina), pa­ra depois, calmamente, nos triturar e digerir, sem deixar qualquer rasto.

3. Por favor, Companheiras, Com­pa­­nhei­­ros! O país está a ficar na situa­ção de um barco a pique em direcção ao abismo. Não podemos fazer de con­ta que a Política não é connosco. Ou que é apenas para irmos votar no pró­xi­mo dia 20 de Fevereiro. Custa reco­nhe­cê-lo em público, mas tenho que o di­zer: Todos os Partidos políticos, uns mais outros menos, roubaram-nos a voz e a vez. Cozinham nas nossas costas o seu jogo de interesses e apresentam-nos os pratos partidários já confecciona­dos,e quase sempre en­venenados, pa­ra que nós os aprovemos e apoiemos.

Não podemos continuar a avançar distraida­mente por este caminho. Fica­re­mos à mercê de líderes partidários que nos são impostos e que decidem em nos­so nome, mas sem nós. Deste modo, eles crescem e nós dimi­nuí­mos. Eles enriquecem e nós empo­bre­cemos. Eles tomam as decisões e nós batemos palmas, ou assobiamos para o ar.

Agora que estamos à beira de ba­ter no fundo, como país, mobilizemo-nos e cerremos fileiras, nestas eleições, contra Paulo Portas e Pedro Santana Lo­pes. Fechemos os ouvidos aos seus demagógicos discursos. E jamais con­sin­ta­mos que o olhar deles, sobretudo, de Paulo Portas, se cruze com o nosso. Se calha de algum deles se atravessar no nosso caminho, não levantemos os olhos para eles, mas para todas vítimas que eles já fizeram, nestes anos de acti­­­vidade político-partidária e gover­na­tiva. E exija­mos, daqui em diante, a todos os Parti­dos que trabalhem incan­sa­vel­mente, co­mo parteiras políticas, para nos faze­rem crescer em interven­ção social e política, de modo que num futuro pró­xim­o sejamos nós, cidadãs, cidadãos, a gerir o país e não eles. Só então o país será um país de iguais, com todos por um e um por todos.

Vosso, Mário, presbítero


Júlio Ribeiro (Moçambique)

O encontro nas montanhas de Arouca

Como alterei a minha visão do mundo

Foi na década dos quarenta do sé­culo passado. O meu entusiasmo foi to­tal. Era exaltante encontrar quem se pre­o­cupasse com os órfãos e com a ma­neira como eram tratados nas ins­tituições religiosas – muito “caridosas” e muito pouco humanas...

Eu próprio, da janela da minha ce­la em Vilar, via aquelas filas de unifor­me­zinhos movendo-se ao toque de si­netas, sob a vigilância de outros unifor­mes, bem maiores e apelidados de há­bi­tos. Era um asilo mesmo fronteiriço.

Eu próprio visitara, uma vez, duas pri­minhas em instituição semelhante: eram apenas órfãs de pai..., mas a mãe, a minha prima Laura, não tinha re­cursos para as sustentar.

Tudo sabia a frio, mas doentia reli­gio­sidade amornava – pior ainda – essa frieza.

Agora surgia-me quem analisava com clareza essa situação e apresenta­va alternativas – sustentáveis, diríamos hoje – com uma convicção e um entusi­as­mo que não podia deixar dúvidas, mesmo aos mais agnósticos (e eu, de cer­teza, não o era).

Uma vez, em Vila Real de Trás-os-Montes, onde tantas férias passei e onde tive o primeiro emprego e o pri­mei­ro namoro e noivado, visitei uma des­sas instituições, em que talvez umas cinco freiras protegiam não sei se uma cinquentena de órfãos. Como de costu­me, vi tudo com muita atenção, ouvi, per­guntei, ouvi, e lancei uma úl­tima per­gunta:

– Minha irmã: se, em vez das cinco freiras cuidarem das cinquenta crian­ças em conjun­to, cada uma tomasse conta de dez, à maneira de mães ado­ptivas, não as ficariam a co­nhe­cer mais por dentro e não as educariam mais ade­qua­da­mente, evitando os inconve­ni­entes de uma educação em série?

A resposta não se fez es­perar, pe­rem­ptória, legalista, quase transpare­cendo certa irritação, não, de certeza, ho­degética, nem, muito menos, profé­tica, mas toda sacerdotal, religiosa:

– Não! Temos a nossa vo­cação, os votos, a Regra, as Cons­tituições.

E despedimo-nos. Já não dava para falar nem do verda­deiro sentido dos vo­tos, nem dos fundadores, nem da a­ctu­alização dos métodos, nem de Psi­cologia, Pedagogia ou mui­to menos de uma escola nova. Saberia ela que no cha­mado mundo –  em oposição a con­vento – uma Maria Montes­so­ri fizera mais pela felicida­de das crianças do que tantas freiras de espírito inquisito­rial, e de um modo muito mais evangélico do que aquelas que se con­sidera­vam constituídas em estado de perfeição?

Também para mim, porém, tudo isto era uma novidade – um novo aspecto da Boa Nova: estava a ser evangeliza­do – dentro do seminário, é certo, mas talvez ainda mais fora dele.

Seria justo, por exemplo, que duas crianças que ficavam órfãs de pai e mãe, além da separação forçada dos pro­genitores, ainda tivessem de sepa­rar-se uma da outra, só porque não eram do mesmo sexo? E isto em nome de uma moral sacrilegamente apelida­da de cristã?

Seria humano que, a crianças pri­va­das dos pais, se não proporcionasse um ambiente familiar o mais próximo pos­sível daquele em que cresceriam se tal fatalidade não tivesse aconte­cido?

Na falta de casais que se prontifi­cassem a isso, não surgiriam jovens com vocação de mães adoptivas que aco­lhessem um certo número de crianças de ambos os sexos e de diversa idade, tal como uma família natural?

E por que não um ou outro idoso, também de ambos os sexos, que se en­contrasse sem amparo, e aceitasse ser a presença de uma geração no meio de outras gerações mais novas?

Para isso bastaria uma instituição financiadora, formadora, estruturante.

Quem assim pensava não era um es­pírito lunático, mas alguém eminente­mente lúcido e prático, sem deixar de ser, como é óbvio, sensível: uma mulher que descobri quase no cume de uma montanha, lá para os lados de Arouca, numa casa de madeira, assente em penedos que davam para um riacho – com águas noite e dia cantantes...–, uma mulher acolhedora, inteligente, delicada, cativadora, insinuante e rapidamente prática.

Ainda hoje todos os colégios, li­ceus e escolas onde trabalho o confir­mam, desde os superiores aos colegas e alunas ou alunos, e até os pais e en­ca­rre­gados de educação, ou mesmo outras pessoas que a conheceram ou ouviram falar dela.

Acerca dessa mulher não podia haver ilusões nem restarem dúvidas. Ela não sonhava: vivia.

E os tempos já estavam maduros, como se prova pelos “ninhos” surgidos em França, salvo erro nos fins dos anos quarenta ou inícios dos cinquenta do século vinte, onde cada mãe adoptiva acolhia algumas crianças e lhes pro­por­cionava um ambiente o mais familiar possível.

E como se prova, com uma ampli­tude e evidência muito maiores, pela iniciativa do Dr. Hermann Gmeiner ao conceber a SOS-KINDERDORF (Aldeia de Crianças SOS) e ao inaugurar a pri­meira, em 1949, «numa colina acima da cidadezinha de Imst, no Tirol» (1), hoje multiplicada por mais de três centenas de vezes, em quatro continentes, atin­gindo mais de uma centena de países.

Algum tempo depois, procurei essa mulher nas íngremes margens do Tâ­me­ga, mas desconsegui: só estavam duas tias, idosas, simpáticas na conver­sa, mas sem abrir as portas ao cami­nheiro que se lhes apresentava pela frente. Diferença entre trasmontanos e minhotos? Eu vinha de Vila Real, a pé...

Nos dois dias anteriores, andara, pelas montanhas que ligam Trás-os-Montes ao Minho, uns bons sessenta quilómetros, agora, mais trinta para en­contrar aquela que se me insinuara como a mulher forte e lúcida. E depois, no dia seguinte, ainda haveria de an­dar mais uns sete quilómetros: apenas sete... porque os meus dois compa­nheiros (2) desaguentaram e quiseram re­gressar a Vila Real de comboio, e já nem sequer me haviam acompanha­do de Mondim de Basto a Rebordelo – alvo recôndito da minha viagem, a maior de toda a minha vida de pedes­tria­nista.

E, mais tarde, fui procurá-la no seu ambiente habitual, na Rua de Mi­raflor, 30, em Campanhã, e aí ela me conti­nuou a evangelizar, fazendo-me sentir os ventos da história, perceber os si­nais dos tempos – muito antes do im­previsível João XXIII – sem nada de teórico ou sequer utópico, mas apenas com o seu exemplo de jovem que não temeu sair de casa para suprir o insu­fi­ciente rendimento familiar, não hesitou em renunciar à universidade (como ela de­se­java ser médica!) para permitir aos irmãos formarem-se, enfrentou lugares e horas até aí vedadas a mulheres ditas honestas, assumindo assim res­pon­sabilidades nada frequentes na­que­la idade, des­pin­do-se dos habituais preconceitos nos campos sexual e so­cial, defenden­do ideias pouco comuns, tudo com uma naturalidade desconcer­tan­te e insinuante.

E isto não era fruto da minha imagi­nação – quem sabe se já de um apai­xo­nado e não de um simples admira­dor! –, porque isso mesmo me foi e tem sido testemunhado ao longo dos anos e pelo menos já em três continentes. Não era impecável, é obvio, mas não era vulgar: era fora de série.

Foi então que, unida a uma amiga – a Maris (3) – muito diferente dela, mas com o mesmo ideal, começou a recolher tudo quanto lhe davam para os futuros lares de órfãos, que todos queríamos o deixassem de ser. Gesto insípido, tal­vez simplesmente simbólico, único pos­sível, porém, naquele momento. Mas como conseguir espaço para esses tras­tes, se no pequeno rés-do-chão onde viviam mal chegava para três irmãs, dois irmãos e os pais?

O eterno problema do espaço: era preciso alargar as tendas...

(1) LANGEWIESCHE, Wolfgang  –  Kinderdorf–a Aldeia das Crianças. Se­lecções do READER’S DIGEST, Rio de Jáneiro (Rua Teodoro da Silva, 907 - Gra­jáú), Março 1967, págs. 96-97-99-100-101.

(2) Um deles era o Eduardo Taveira da Mota, filho e sobrinho dos dois patrões que tive em Vila Real, quando trabalhava como escriturário no armazém de mercearia da Rua Direita. O outro, se não me engano, chamava-se Manuel, mas dificilmente o identificaria agora.

(3) Maris Stela Pinto Basto da Costa Rebelo.


Fernanda Cristina (Lisboa)

Um mar que nunca transborda não é seguro

Um mar que nunca transborda não é um mar seguro, e digo-o, na cer­teza aflita e aflitiva de já me ter de­parado com situações intransbordáveis e inabordáveis que me angustiavam, agrilhoavam, prendiam com dores ao sofrimento.

Um mar que nunca transborda é um aluno que tem sempre boas notas, um trabalhador que nunca falta ao tra­balho, um menino que nunca faz as­neiras, ou um patrão que nunca dá fol­gas.

Esse é o mar que nunca transbor­da, esses são os riachos desse mar. É que se o mar transbordasse, de vez em ­quando, não fazia mal a ninguém, des­de que não inundasse os espaços vizinhos - o que, às vezes, por vezes, e quase sempre, não é possível.

Ao transbordar, o mar aprende que pode voltar ao sítio inicial, que pode voltar a transbordar sem prejuízo, e tal­vez até nunca mais transborde, mas nas margens ficarão, eternamente, as ve­zes que o mar transbordou; porque é mar, compacto, uno, molecular, o mar é único, e não sai de si se não em mo­mentos de aflição.

Quando nunca transborda, o mar não é seguro. Se se mergulhar, o nosso eu afunda-se, é puxado como âncora para o fundo, como ânfora perdida. Por­que o mar intransbordável é só aquele que chama a morte, que tem a morte contida, que há séculos não tem voz.

Excuso-me a explicar a metáfora, a analogia, a imagem, que sei bem o que digo. As pessoas certinhas são ma­res intransbordáveis, as pessoas que não erram (ou dizem não errar), as pes­soas que saem da vida como entraram... Os tolos são, de facto, felizes: entram e saem, não sabem sequer de que rio falo. Melhor assim. A noção de que há em nós uma corrente que é comprimida pelas margens, ou não, chega a ser cruel.

Somos rios transbordantes. A vida não é um fim, a felicidade não é um fim, nem o conforto, nem o saber, nem o amor... tudo são meios de sermos nós, ou de nos esquecermos de nós. A ma­tu­ridade, que tanto criticam quando a não temos, e tanto elogiam quando a te­mos, não é um fim, nem meio, nem princípio.

Não somos frutos que, em ama­du­recidos, caiam das árvores, se­jam re­colhidos e comidos, sugados, tri­turados, ensumarados. As pessoas se­guem tan­tos percursos diferentes, que podem «de­samadurecer», nunca amadurecer, ou amadurecer tão cedo que se sintam um esgoto de coisas ao «entrar» na vi­da. Somos velhos quando nós mesmos o ditamos. Somos maduros quando o dizem de nós. Ou talvez nunca isto che­gue a acontecer.

   Conheço tantas pessoas que parece nem terem tido percurso que, ao conhecê-las, há vinte anos, eram como hoje são. Não há um sorriso di­ferente, um esboço de vida que tenha mudado, uma atitude mais ou menos negligente, mais ou menos inteligente, mais ou menos perversa, mais ou me­nos amorosa...

A única coisa diferente é o tempo físico: aquele que passou e enrugou as pessoas, atravessou-lhes a alma - se é que elas o sentiram - e lhes entor­peceu as pernas, lhes negligenciou os ossos, lhes tirou a vista, lhes es­bran­quiçou o cabelo, lhes enfraqueceu o coração e lhes triturou a noção das coisas.

Nestas pessoas, o tempo psicoló­gico é o de fazer a lida da casa nas horas do dia, a de trabalhar x ou y, o de preparar alguma coisa num prazo determinado. Não sentem, ou persen­tem ou percebem que o tempo psicoló­gico é a fisga maldita do Destino que lhes tirou sabores, lhes deu outros e as fez ver, um dia, o que é ter filhos, ter netos, casar, ter uma carreira, ter amigos - ou até perder alguma destas coisas.

O tempo psicológico é como nos sen­timos sobre e sob a vida: úteis, inú­teis, palhaços, acrobatas, pais, filhos, ou tudo isto, ou nada disto. E é, sobre­tudo, saber que se balizou o real e se viveu uma outra vida paralela, algures, noutros lugares, noutros tempos que o Tempo levou...


L. Boff (Brasil)

O Deus de Bush e de Bin Laden

Apesar da crítica devastadora que os mestres da suspeita, Marx, Freud, Nietzsche e Popper fizeram da religião, ela resistiu e está a regressar em força em toda a parte do mundo. Porém, re­gressa, em grande parte, fa­zendo de Deus o legitimador da guer­­ra, do ter­rorismo ou do conserva­dorismo político e religioso.

Bin Laden comenta os actos de ter­ror, com rosto crístico, acrescentando: "Alá seja louvado".

Bush antes de dar o ultimato a Sad­dan Hussein, recolhe-se, consulta Deus em oração e comunica aos seus asses­sores: "Tenho uma missão a cumprir e peço ao bom Deus de joelhos que me ajude a cumpri-la com sabedoria".

Sob o pontificado de João Paulo II ganhou força uma religiosidade caris­mática e fundamentalista que dança e canta o "Pai Nosso" sem o articular com o "Pão Nosso".

O Deus de Bin Laden e de Bush é um ídolo, porque não é possível que o Deus vivo e verdadeiro queira o que eles querem: a guerra preventiva e o terror que vitimam inocentes; ou que queira um tipo de fé que não articula a paixão por Deus com a paixão pelos que sofrem.

O ateísmo ético tem razão ao negar este tipo de religião com o Deus que a acompanha, que justificou outrora as cruzadas, a caça às bruxas, a inquisi­ção e o colonialismo, e hoje a guerra no Iraque, o terrorismo islâmico e a mo­ral sem misericórdia. É mais digno ser ateu de boa vontade, amante da jus­tiça e da paz, que um religioso fun­da­mentalista insensível à ética da vida.

É possível ainda crer em Deus num mundo que manipula Deus para atender a interesses perversos do poder? Sim, é possível, na condição de se ser ateu de muitas imagens de Deus que entram em conflito com o Deus da experiência dos místicos e da piedade dos puros de coração.

Então hoje a pergunta é: Como fa­lar de Deus sem passar pela religião? Porque falar religiosamente como Bin Laden e Bush falam é blasfemar de Deus. Porém, podemos falar secular­mente de Deus sem mencionar o seu no­me. Como bem diz Mons. Casaldá­liga: se um opressor diz Deus, eu digo-lhe Justiça, Paz, Amor, pois estes são os verdadeiros nomes de Deus que ele nega. Se o opressor diz Justiça, Paz e Amor, eu digo-lhe: Deus, pois a sua justiça, a sua paz e o seu amor são fal­sos.

Podemos falar secularmente de um fenómeno humano que, analisado, re­mete para a experiência daquilo que Deus significa. Penso no entusiasmo. Em grego, donde deriva esta palavra, entusiasmo é enthusiasmós. Compõe-se de três partes: en (en) + thu (abre­viação de theós=Deus) + mós (termina­ção de substantivos = mo). Entusiasmo significa, pois, ter um Deus dentro, ser possuído por Deus. Não é uma intuição fantástica? Não é justamente isso o en­tu­siasmo? Essa energia que nos faz viver, cantar, caminhar saltando, bailar e irradiar vitalidade? É uma força miste­riosa que está em nós, porém que tam­bém é maior do que nós. Nós não a pos­suímos, é ela quem nos possui a nós. Estamos à sua mercê. Entusiasmo é isto, o Deus interior. Vivendo o entu­si­as­mo neste sentido radical, estamos vivenciando a realidade disso que cha­mamos Deus.

Esta imagem é aceitável porque Deus está próximo e dentro de nós, porém também distante e para lá de nós. Bem dizia Rumi, o maior místico do Islão: "Quem ama a Deus não tem nenhuma religião, a não ser o próprio Deus".

Nos tempos de idolatria oficial é preciso resgatar este sentido originário e existencial de Deus. Sem pronunciar o seu nome, acolhemo-lO reveren­temente como entusiasmo que nos faz viver e nos permite a alegre celebração da vida.


Manuel Sérgio (Lisboa)

Toda a vida do Pe. Mário é poesia

Nada mais grato ao meu espírito do que “criticar” o primeiro livro de poe­mas do Padre Mário de Oliveira, intitulado Canto(S) nas Margens. É que o autor deste livro é um marginal porque é poeta e é poeta porque é marginal.

Toda a vida do Padre Mário de Oli­veira se transforma em poesia, pela força do seu amor à Verdade, ao Bem e ao Belo, que Jesus, o Cristo, corpo­rizou admiravelmente. Na vida, não há só o fulgor das palavras, há também o mérito das obras. E, por isso, muito antes do Canto(S) nas Margens, já o Padre Mário de Oliveira, mesmo sem rimar, compunha excelentes estro­fes de poesia, lutando contra a dita­dura salazarista e o conformismo da Igre­ja que o Cardeal Cerejeira lidera­va; sendo torturado nas masmorras da PIDE; não merecendo sequer a compre­ensão de D. António Ferreira Gomes que (convenhamos) sofria de algumas taras da Igreja Romana; optando decidi­damente pelos pobres, como Jesus de Nazaré, para amparar os que sofrem, para valer aos marginalizados pela so­cie­dade injusta, para esclarecer os que têm fome e sede de justiça e de liberdade. Não há uma só filosofia, nem uma só literatura. A linguagem lite­rária é plural por essência. O santo, por exemplo, no combate implacável contra a injustiça e na solidariedade ardente pelos seus irmãos mais caren­ciados – o que faz senão poesia e da mais bela e da mais enternecedora?

A poesia, hoje, não pode resumir-se a um humanismo nebuloso e abstra­cto, como se o ser humano não fosse um ser-no-mundo, embora este huma­nis­mo delico-doce, neutral e apolítico pro­cure perpetuar o passado. De facto, só se delicia unicamente com o passado quem não é capaz de viver o presente e construir o futuro.

Mas, toda a ruptura, indómita e bra­va, com o passado vertical, classista, hierárquico (onde os direitos humanos e a democracia são só para alguns!) pre­tende desinstalar a classe dominan­te, a qual reage, marginalizando os des­temidos que a tanto se atrevam.

Isto mesmo aconteceu com o Padre Mário de Oliveira que se viu cercado de malevolências e ódios, por uma ra­zão única: pretende renovar o anúncio evangélico!

O Evangelho é sempre novo, em todos os tempos e lugares. Há nele, por consequência, uma exigência de con­ver­são das mentalidades, dos comporta­mentos, das instituições. Só que os do­gmas (e os interesses) eclesiásticos e a sociedade onde o deus-lucro predo­mina temem e detestam qualquer anún­cio profético.

E não resta ao poeta Mário de Oli­veira (que escreve os poemas, com a tinta do seu próprio sangue) senão an­dar pelos caminhos que os pobres cal­correiam e onde os ricos não deslizam nos seus luxuosos carros.

É ele mesmo a dizê-lo. “É nas mar­gens que eu canto. Canto muito e a ple­nos pulmões. É por isso que os cantos que eu escuto e canto são cantos de combate, não de alienação. São cantos de libertação, não de religião. São can­tos de festa militante, não de simples passatempo. São cantos que nos incitam a percorrer os caminhos da plenitude hu­mana. São cantos que o Deus Vivo nos faz cantar como homens/mulheres livres e protagonistas no mundo e na his­tória, não de louvor e de desagravo a um Deus sádico e cruel, que os pode­rosos e as suas vítimas não se têm cansado de criar e de alimentar, nos seus ancestrais medos, ao longo dos séculos”.

E onde ressoavam os passos de Jesus senão nas margens? Com efei­to, só os excluídos pela sociedade ex­cludente poderiam entendê-lo, quan­do dizia: “Vinde a mim, vós todos os que sofreis e vos sentis oprimidos, por­que o meu jugo é suave e o meu fardo é leve”. E, no entanto, ele não en­ganava os discípulos, com literatura cor-de-rosa: “As raposas têm os seus covis e as aves os seus ninhos. O Filho do Homem, porém, não tem onde re­pou­sar a cabeça”. A poesia de Cristo é um diálogo, nas margens, com os mar­ginalizados, como a poesia do Padre Mário de Oliveira.

    No prefácio a Os Sonetos Com­pletos de Antero de Quental, editados pela Imprensa da Universidade de Coimbra (1924), escreve Oli­veira Martins: “Este homem, funda­men­­tal­mente bom, se tivesse vivido no século VI, ou no século XIII, seria um dos companheiros de S. Bento, ou de S. Francisco de Assis. No século XIX, é um excêntrico, mas desse feitio de excentricidade que é indispensá­vel, porque a todos os tempos foram indispensáveis os hereges, a que hoje se chama dissidentes”.

Mário de Oliveira é, no século XXI, um destes indispensáveis dissidentes, sem os quais o mundo não daria um passo mais, na marcha, cheia de per­cal­ços, do seu progresso. E, tenho a certeza, no século XIII, poderia ser, perfeitamente, se conhecesse o Pove­rello, um dos amigos próximos do pri­meiro dos franciscanos, que amou as criaturas de Deus até ao esqueci­men­to de si próprio.

Ao lado do poeta de Assis, o poe­ta Mário de Oliveira comporia belos poemas, com palavras e obras. Aliás, tanto num como noutro, o lirismo é o resultado inevitável da sua solidarie­dade. A fome e a guerra não são criação de Deus, mas do ser humano, alienado pelas religiões e por certas políticas. E, daí, a poesia em prosa de Mário de Oliveira: “Entretanto, é bom que se saiba que, nas margens onde vivo, já não há lugar para templos e al­tares. Só há lugares para casas e mesas cada vez mais comuns. Também já não há lugar para Eucaristias-faz-de-conta, com pão-faz-de-conta e vinho ape­nas para um. Só há lugar para Co­mi­das Partilhadas, realizadas em memó­ria de Jesus, o Crucificado/Ressuscitado, feito verdadeiro alimento, para homens-e-mulheres-de-Causas, que não hesi­tam em entregar a própria vida, se for caso disso, pela vida do mundo”.

    A poesia, a verdadeira poesia, não é apenas uma arte, é a definição, em termos de beleza, do que é para nós a vida. O acto de consagrar um poeta deve ter, hoje, um sentido mais amplo, do que o simples reconhecimento crí­tico-literário dos seus poemas. Poesia não é só literatura – é adoração e liber­dade e solidariedade e tolerância e fé. Poesia é o poder divino de criar, oposto ao instinto ditatorial de oprimir e des­truir.

Vale a pena ler e fruir o Canto(S) nas Margens, para encontrarmos um poeta cuja vida se consome, como uma chama, no culto da mensagem de Jesus de Nazaré. Vale a pena ler e fruir este livro, para recuperarmos, na companhia do Padre Mário de Oliveira “o quanto de humanidade houvermos perdido”.


Pe. Martins Júnior (Madeira)

S.O.S. Vaticano!

Aqui d’el Papa!

O Jornal PÚBLICO, de 18 de Novembro 2004, inseriu nas suas páginas um grito de "Aqui d'el Papa!", assinado pelo Pe. Martins Júnior, da Madeira. O grito, sem qualquer chamada à 1.ª página, é bem capaz de ter passado despercebido. Por isso, Jornal Fraternizar permite-se retomá-lo nas suas páginas. Com a devida vénia. Ninguém perca pitada.

Escandalizaram-se católicos do Canadá por verem o santuário de Fá­tima “invadido” pela espiritualidade do dalai-lama e pelo místico ritual hindu­ís­ta, ao ponto de exigirem do Vaticano o afastamento do bispo de Leiria e do reitor do santuário.

A “bomba” - exigir do Papa o exer­cí­cio do seu múnus específico de “epis­copus” vigilante do rebanho e, daí, o imediato saneamento de altos repre­sen­tantes da hierarquia católica portu­guesa - lançou estilhaços que atraves­sa­ram o Atlântico e chegaram também à Madeira, para uma reflexão serena sobre a verdadeira matriz da Igreja de Cristo.

Católicos do Canadá incomoda­ram-se e incomodaram o Papa com a abertura ecuménica da Igreja em Fáti­ma. Mas incomodar-se-ão uns e outro com a destruição do corpo e do espí­rito da Igreja no santuário verde de uma ilha chamada Madeira? Terão, ao menos, conhecimento do assalto ao “poder” espiritual da Igreja, por parte do poder temporal de um mini-império político-partidário?

Sob a exuberância da paisagem que faz da Madeira o seu turístico car­taz de identidade e a coberto de uma campanuda barafunda político-publici­tária de que se enche a mente e se em­bri­aga o olho do consumidor na ilha e fora dela, saberá o bispo de Roma, o “olheiro de Deus”,saberá sequer que o seu “colega” na Madeira anda a en­tre­gar “as chaves do reino” ao poder po­lítico vigente e continua a pro­fanar o santuário de Deus, fazendo su­bir ao supedâneo do altar o chefe polí­tico da ilha para encerrar a missa sole­ne da sagração de novos templos? Em vés­peras de eleições!... Nenhum bispo do antigo regime consenti-lo-ia a qualquer governante, nem mesmo o próprio car­deal Cerejeira seria capaz de permiti-lo ao todo-poderoso Sala­zar.

SOS Vaticano! - é caso para gritar, quando na Madeira se anda a rasgar toda uma história de martírio e de luta para emancipar a Igreja das garras in­sa­ciáveis do poder dominante, desde o Nero facínora até ao galicano Filipe “O Belo”.

Tanto mais sofisticada e perigosa se torna esta intencionada cedência ao poder reinante, quando numa cerimó­nia do crisma se vê um bispo abando­nar no altar o cálice eucarístico para ir beber da taça de champanhe, brin­dan­do com os governantes na inaugu­ração de uma unidade hoteleira.

São adultos, são idosos, são jovens e são crianças que no ecrã da televisão regionalizada vêem todos os dias ce­ná­rios desta deprimente dimensão.

Daí que já não se estranhe o anún­cio que nas homilias dominicais fazem os párocos, convocando os crentes pa­ra as inaugurações eleitoralistas, indi­can­do até o horário das camionetas pa­gas pelo Governo Regional para le­var o povo crente (“a força do povo e o povo à força”) ao local do festim ofi­cial. E não poderia estranhar-se, pois o bispo já lá está, no local do festim, geo­metricamente alinhado ao lado dos senhores do Governo, para lançar a á­gua benta ao alcatrão ainda quente. De batina debruada a vermelho, faixa escarlate e cruz de ouro ao peito, como man­da o uniforme dos príncipes da Igre­ja. Em véspera de eleições. Não inco­moda o Vaticano, não incomoda os ca­tó­licos do Canadá, não incomoda o mais simples cristão o facto de ser publica­mente glosado o bispo da diocese como o “sr. secretário Regional dos Assuntos Religiosos” ?

Enquanto isso, no outro lado cristão da ilha, a diocese dá todo o aval ao Go­verno para mandar 70 polícias violar uma igreja rural e ocupá-la durante 18 dias e 18 noites, sem qualquer manda­do judicial. Em 1985! Também não se lhe ouviu uma palavra, quando o Gover­no, volvidas 12 horas sobre as eleições de 17 de Outubro último, manda retirar os projectores públicos que há anos ilu­minavam o adro e a envolvente desse modesto templo.

Por tudo isto, a consciência lúcida dos cristãos interpela e denuncia a de­ge­nerescência da Igreja regional e com­para-a a certas situações sul-america­nas e terceiro-mundistas: lá como cá, vêem-se alguns sacerdotes na obriga­ção “que nos urge” de envolver-se acti­va­mente na luta sociopolítica para contraporem os usurários do poder e de­monstrarem que a Igreja de Cristo não está (nem nunca deve estar) de braço dado com o mais forte, com os deten­tores do poder político e financeiro.

Nesta conjuntura, questiona-se ain­da: por ter o Papa, bispo residente de Roma, o estatuto de Chefe de Estado (o que se repudia liminarmente) e por ine­rência dever submeter-se ao proto­colo oficial dos demais reis e soberanos do mundo, poderá o seu “colega” bispo residente do Funchal alimentar a obsessão de ombrear com os dominado­res da ilha e arrogar-se a tentação de levar o seu assento para junto do ca­dei­ral dos novos capitães donatários?

Transformou-se a ilha num estra­nho laboratório da promiscuidade entre os poderes político-religiosos, de que é paradigma esse ridículo quanto repu­gnante travesti discursivo que é o de ouvir-se publicamente o presidente do Governo mandar rezar e o bispo dioce­sano mandar votar. (Sic!)

Mas a leitura dos factos, no grande curso da história que se repete, é que neste micro-humus da ilha está a ge­rar-se (e oxalá que o mar circundante venha a afogá-lo sem demora) o mons­tro antigo da entronização da realeza e da sacralização do poder, tentando reincarnar a histeria megalómana de um Napoleão ou a vingativa omnipo­tên­cia de um Henrique VIII, chefe da Igreja Anglicana.

Perante as múltiplas transacções entre a Igreja e o poder político, ao ponto de não saber-se onde começa e onde acaba a legitimidade do braço se­cular e do braço religioso em ques­tões que só a um deles dizem respeito, não será ousado concluir que na Ma­deira pouco falta para se instalar uma das mais refinadas e subreptícias formas de Inquisição.

Servirão estes poucos (porque eles são muitos) excertos do quotidiano da ilha para lançar daqui de longe lampe­jos de inquietante reflexão não só a ca­tólicos do Canadá, mas a toda a cons­ciência cristã e perguntarmo-nos a nós próprios se não é chegada a hora de clamar “SOS Vaticano!” e bradar “Aqui d’el Papa!” Antes que seja tarde. E para que, aos que vierem depois, não seja tão doloroso o regresso às ori­gens, à verdadeira matriz da Igreja de Cristo.


Frei Betto (Brasil)

Amar o inimigo

Com certeza o mais desafiante man­damento de Jesus é amar o inimigo (Mateus 5, 44). Gustavo Gutiérrez, pai da Teologia da Libertação, costuma dizer que, para ser bom cristão, é pre­ciso ter ao menos um inimigo, sem o que não se pode cumprir o preceito de Jesus... Muitos se perguntam como é possível ter amor a uma pessoa que me tem ódio ou me provoca sentimen­tos irados? Talvez a resposta esteja neste gesto de grandeza humana que relato a seguir.

Todos se recordam do alcance mun­dial das temporadas em que tre­chos de óperas e clássicos do canto lírico reuniam três das melhores vozes do mundo: os tenores Luciano Pava­rotti, da Itália, e os espanhóis Plácido Domingo e José Carreras.

De repente, o trio se calou. E isso aconteceu muito antes de Pavarotti de­cidir se aposentar. O que teria ocorri­do?

Domingo é madrileno, Carreras, ca­talão, e quem conhece a Espanha sabe da rivalidade que existe entre os ha­bi­tantes das regiões de Madrid e Barcelona. Mas não foi isso que afas­tou os dois tenores. Em 1984, eles tive­ram uma forte desavença política. Não mais se falaram. E seus respectivos contratos passaram a exigir a ausência do desafecto nas apresentações públicas.

Em 1987, Carreras constatou que sofria de leucemia. Em Espanha, sur­gem cerca de 4.000 novos casos da doença por ano. O tenor submeteu-se ao transplante de medula óssea, a trans­fu­sões de sangue e a frequentes via­gens aos EUA, para tratamento. Sem poder cantar e cumprir os contratos, viu a sua fortuna consumida pelos cuidados de saúde.

Quase sem recursos, Carreras sou­be que havia em Madrid uma institui­ção destinada à recuperação de pesso­as com leucemia, a Fundação Her­mo­sa. Entrou em contacto, recebeu todo o apoio, curou-se e voltou a cantar. Graças aos seus altos cachês, refez as suas economias e decidiu doar parte da sua fortuna à obra da fundação, ins­cre­vendo-se como colaborador perma­nen­te. Ao receber o contrato de adesão e ler os estatutos, constatou, surpreso, que o presidente da Fundação Hermo­sa, e seu principal benfeitor, chamava-se Plácido Domingo.

Ao investigar mais a fundo, o tenor catalão descobriu que Hermosa havia sido fundada para cuidar especialmen­te de um único enfermo: José Carreras. Plácido Domingo decidira preservar seu anonimato para não constranger o co­le­ga a aceitar a solidariedade de um ini­migo.

Carreras viajou a Madrid e compa­re­ceu a um espectáculo de Domingo. Subiu ao palco, interrompeu a apresen­tação, ajoelhou-se aos pés dele e agra­deceu-lhe publicamente o seu restabe­le­cimento. Inspirado no exemplo de Do­mingo, pouco depois Carreras inaugu­rou, em Barcelona, a Fundação Interna­cional José Carreras para a Luta contra a Leucemia (info@fcarreras.es).

Mais tarde, um jornalista perguntou a Plácido Domingo por que havia criado a Fundação Hermosa para beneficiar um inimigo e concorrente nos palcos. O tenor madrileno respondeu: “Uma voz como a dele não pode ficar sem cantar”.

Penso, logo resisto!

O neo-liberalismo, que se esforça em preparar o funeral da história, in­siste em que devemos deixar de pen­sar. Devemos redizer nossas palavras e submeter o pensamento ao pragma­tis­mo tão em moda, como a arte da pros­peridade. Ou ao realismo céptico de quem se dobra ao pensamento único, delegando ao sistema o direito de pen­sar por ele.

Quem acata tão impensada suges­tão, afasta-se de Platão, que fazia do ato de pensar uma forma de dialogar. Quem se deixa dominar pelo medo de pensar, evita as contradições e opini­ões divergentes. Neste caso, assimila o pensamento de quem o proíbe de pen­sar e se alheia da busca da verda­de, confundindo esta com a autoridade. E o pior: julga que o seu pobre pensar é a verdade lapidar, olvidando que há a sua verdade, a minha verdade e a ver­da­de verdadeira, como ensinavam os antigos sábios chineses.

Toda verdade humana é relativa, e o nosso juízo crítico, dotado de bom humor, deve sempre persegui-la, penei­rando-a na dúvida. Se deixamos de lado o bom humor e o senso crítico, pisamos no alçapão dos dogmas e, lá dentro, so­mos congelados com a nossa apa­rente verdade.

Ora, prefiro a maratona de Descar­tes, submetendo o meu pensamento ao crivo da dúvida, de modo a construir, por uma sequência de operações, uma representação mental da realidade.

Pensar é calcular, dizia Hobbes, que não estava falando de sua conta bancária. Pensar é unificar representa­ções numa consciência, afirmava Kant, mestre na lapidação de conceitos. Wit­tgenstein enfatizava que pensar é ela­borar proposições dotadas de sentido.

Pensar não é abraçar o que a mi­nha mente concebe. É desmascarar o saber travestido de pensamento. Como lembrava o velho Marx, se toda essên­cia e aparência coincidissem, as ciên­cias seriam supérfluas. Quem pensa vê além das aparências. Mas as aparên­cias seduzem a ciência. Por isso, esta ten­de a rejeitar sua irmã gémea, a filosofia. Destituída de pressupostos filosóficos, a parafernália tecnocientí­fica cai na gandaia. Foge da ética como o diabo da cruz. Não é à-toa que Han­na Arendt desconfiava do juízo político dos cientistas. Não pela falta de carácter ao aceitarem fabricar armas atómicas, nem pela ingenuidade (foram os últimos a saber de que modo as armas seriam empregadas), mas porque se auto-exi­la­ram numa esfera onde “a linguagem perdeu o seu poder”.

(Ora, convém não divorciar as ciên­cias da filosofia. O que seria de Galileu sem Descartes? Caso contrário, não saberemos aprimorar o ser humano).

O sistema, entretanto, insiste: de­mi­ta-se do seu pensar. Atrofie a sua ima­ginação política. Não queira modifi­car a realidade.

Eu reajo: quero ser livre! Ele me res­ponde: liberdade não é pensar, é des­frutar. E isto não depende de sua cabeça, mas de seu bolso. Não perca tempo sendo voz discordante ou fazen­do eco às opiniões divergentes. Não vê que a filosofia e a ética foram bani­das das escolas?

A minha sina, entretanto, é pensar. Encontrar as mediações que encarnem minhas utopias em topias. Tornar pos­sí­vel o desejável - desbancar a hege­monia dos valores económicos, livrar a cultura da condição de refém do mero entretenimento, reduzir significativa­mente a exclusão social.

Estreitam-se sempre mais os víncu­los entre bens culturais e bens de con­su­mo. Um e outro passam a ser monito­rados por um princípio único: satisfa­ção ao consumidor. Portanto, nada de produções culturais críticas, proposi­tivas, emblemáticas, subversivas. Tudo deve ser muito “clean”, comportado, sen­timental, melodramático e confor­mis­ta.

Penso, logo resisto. E acho graça aos arautos do fim das ideologias. Ora, ninguém é capaz de arrancar os óculos que estão atrás dos olhos e pelos quais enxergamos a realidade. Não ignoro minhas ignorâncias. Por isso, dilato a mi­nha fome de conhecimento. Exerço a minha actividade crítica. Desmascaro o consensual. Ponho em questão as re­presentações colectivas e as ideias es­ta­belecidas. “Não sei por onde vou, mas sei que não vou por ai”, grito com José Régio.


E-mail enviado por

Carlos (Almada)

Não te deitarás com um homem

Já não me lembro de quem recebi este e-mail, mas achei que o Padre Mário também gostaria de se deliciar com este hilariante escrito:

Recentemente, uma célebre ani­ma­dora de rádio dos EUA afirmou que a homossexualidade era uma perver­são: É o que diz a Bíblia no livro do Le­vítico, capítulo 18, versículo 22: “Tu não te deitarás com um homem como te deitarias com uma mulher: seria uma abominação". A Bíblia refere assim a questão. Ponto final, afirmou ela.

Alguns dias mais tarde, um ouvinte dirigiu-lhe uma Carta Aberta que dizia:

Obrigado por colocar tanto fervor na educação das pessoas pela Lei de Deus. Aprendo muito ouvindo o seu pro­grama e procuro que as pessoas à minha volta a escutem também. No en­tanto, eu preciso de alguns conselhos quanto a outras leis bíblicas. Por exem­plo, eu gostaria de vender a minha filha como serva, tal como nos é indicado no Livro do Êxodo, capítulo 21, versí­cu­lo 7. Na sua opinião, qual seria o melhor preço?

O Levítico também, no capítulo 25, versículo 44, ensina que posso possuir escravos, homens ou mulheres, na con­dição que eles sejam comprados em nações vizinhas. Um amigo meu afirma que isto é aplicável aos mexicanos, mas não aos canadianos. Poderia a senho­ra esclarecer-me sobre este ponto? Por que é que eu não posso possuir es­cravos canadianos?

Tenho um vizinho que trabalha ao sábado. O Livro do Êxodo, capítulo 25, versículo 2, diz claramente que ele de­ve ser condenado à morte. Sou obriga­do a matá-lo eu mesmo? Poderia a senhora sossegar-me de alguma forma neste tipo de situação constrangedora?

Outra coisa: o Levítico, capítulo 21, versículo 18, diz que não podemos apro­ximar-nos do altar de Deus se ti­ver­mos problemas de visão. Eu preciso de óculos para ler. A minha acuidade visual teria de ser de 100%? Seria pos­sí­vel rever esta exigência no sentido de baixarem o limite?

Um último conselho: o meu tio não respeita o que diz o Levítico, capítulo 19, versículo 19, plantando dois tipos de culturas diferentes no mesmo cam­po, da mesma forma que a sua esposa usa roupas feitas de diferentes tecidos: algodão e polyester. Além disso, ele pas­sa os seus dias a maldizer e a blas­femar. Será necessário ir até ao fim do processo embaraçoso que é reunir to­dos os habitantes da aldeia para lapi­dar o meu tio e a minha tia, como pres­crito no Levítico, capítulo 24, versículos 10 a 16? Não se poderia antes queimá-los vivos após uma simples reunião fa­mi­liar privada, como se faz com aqueles que dormem com parentes próximos, tal como aparece indicado no livro sagrado, capítulo 20, versículo 14?

Confio plenamente na sua ajuda.

N. D.

Obrigado, Carlos, por se ter lembrado de mim. Gostei do seu gesto e do conteúdo da mensa­gem que me enviou. Desconhecia o episódio, real ou ficcionado, tan­to faz. Na sua simplicidade, este relato é um dos melhores antí­dotos contra o fundamentalis­mo bíblico que continua por aí a ser defendido por todas as cú­pu­las das Igrejas, também pelo papa João Paulo II e pela sua Cú­ria romana, como se alguma vez a Palavra de Deus pudesse ficar acorrentada à letra de um tex­to, escrito em determinada épo­ca da Humanidade e em deter­minadas circunstâncias.

Já S. Paulo, no seu tempo, ad­ver­tia com grande oportunida­de que a letra (da Bíblia) mata, ao passo que o Espírito é sempre uma explosão de vida e vida em abundância. Também uma explo­são de liberdade e de responsa­bi­li­dade. Deus, o de Jesus, só se sente a jeito com gente adulta, madura, capaz de se assumir na vida e na História, como se Ele não existisse.

No que respeita concretamen­te à homossexualidade, se quiser­mos continuar a invocar hoje o no­me de Deus Criador, só po­derá ser para proclamarmos que Ele nos criou mulheres e homens em radical igualdade e em indis­so­lúvel unidade. E que estas mu­lheres, estes homens que criou, tanto os criou heterossexuais co­mo homossexuais/lésbicas, sem qualquer discriminação. O que es­cre­ve o Levítico a este propósi­to não é o que Deus disse duma vez por todas à Humanidade, mas tão só o que a Humanidade, da­quela época, mais ou menos às apalpadelas, conseguiu captar de Deus a esse respeito. Naquela e­ta­pa histórica, a Humanidade ain­da não estava suficientemente ama­durecida para captar e perce­ber toda a verdade sobre si pró­pria. Tão pouco o estava, séculos depois, no tempo do Jesus histó­rico. E a prova é que o Evangelho de João tem o atrevimento de nos apresentar Jesus, momentos antes de ser preso e assassinado, a dizer esta coisa espantosa às discípulas e aos discípulos: “Te­nho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas vós não sois capazes de as compreender por agora. Quando Ele vier, o Espírito da Ver­dade, há-de guiar-vos para a Verdade completa” (16, 12-13).

Isto diz Jesus, o do Evan­ge­lho de João. Porém, as cúpulas das Igrejas sempre têm caído na tentação – e hoje continuam a cair – de “corrigir” Jesus e o E­van­gelho. Pior ainda, sempre têm caído na tentação – e hoje continuam a cair – de acorrentar e até de matar o Espírito da Ver­­da­de, para que Ele não ouse guiar a Humanidade para a Ver­dade/Liberdade completa. Feliz­mente, o Espírito da Verdade não se deixa acorrentar nem matar e troca-lhes sempre as voltas. Se não pode contar com as cúpulas das Igrejas para guiar a Humani­dade para a Verdade/Liberdade completa, salta fora das suas es­tru­turas e trabalha directamente com a Humanidade, nomeadamen­te, com aqueles ateus e agnósti­cos, mulheres e homens, dotados de entranhas de misericórdia para com os seus semelhantes. E às cú­pulas das Igrejas que se com­portam como essa pastora de que fala a sua mensagem, ou como o papa João Paulo II e a Cúria romana que também siste­ma­ticamente invocam a Bíblia para poderem continuar a discri­minar os homossexuais e as lés­bicas e a manter as mulheres fora dos ministérios ordenados na Igreja católica, o Espírito da Ver­dade só pode deitá-las fora para serem pisadas/ignoradas pelos seres humanos, como se faz ao sal que perdeu a força de salgar e já nem para a estru­meira serve (cf. Mateus 5, 13). Bendito seja Ele para sempre!

Deixo-lhe o meu abraço de gratidão, Mário.


Porfírio Borges (Porto)

Este parte, aquele parte…

Querida Graça Borges

Este parte, aquele parte… É verdade. Estamos sempre a chegar e a partir. A vida humana é feita de partidas e de che­gadas. Agora, é a partida definitiva do Porfírio, teu pai e meu amigo e companheiro. Há muitas dezenas de anos, foi a sua chegada. Havemos de estar inteiros no momento da chegada como no da partida. Somos testemunhas da Res­surreição, ocorrida no mesmo instante em que acontece a morte. A agência funerária começou a dar a notícia da morte do Porfírio e já nós testemunhamos a ressurreição do Porfírio. Que seja assim contigo, com a mãe, convosco em família. Que seja assim com as muitas amigas, os muitos amigos do Porfírio. É assim comigo.

Para nós que permanecemos na História, é ainda o tempo dos combates. Prossigamos neles com cabeça e com coração. Em comunhão também com o Porfírio. E com o seu Sopro/Espírito. No Sopro/Espírito de Jesus ressuscitado que está empenhado em fazer novas todas as coisas.

Amanhã, espero aparecer depois do almoço. Para vos levar o meu beijo de paz e de combate. E para comungar a Vida que um dia se fez Porfírio e agora já é Porfírio ressuscitado.

Até amanhã, querida.

Padre Mário

Caríssimo companheiro e irmão:

Desta vez, não és tu quem escreve neste espaço. Sou eu, o director deste Jornal de salutares rebeldias e fecundas dissidências, de oportunas denúncias e humildes anúncios de caminhos ainda por andar, que aqui estou a fazê-lo.  Não em tua vez, mas para ti.

Devo-te esta pública palavra de gratidão e de comunhão, pelos anos em que te mantiveste fiel a este compromisso de escrever nestas páginas, de modo totalmente gratuito, e sempre em sintonia com a nossa linha editorial de Jornal eclesial sem ser eclesiástico, sempre em busca, não duma outra Igreja, mas duma Igreja outra, bem mais conforme ao modelo de comunhão que o Concílio Vaticano II, de feliz memória, nos legou.

Daqui te saudo efusivamente na nova condição de homem definitivamente ressuscitado que agora és para todo o sempre. Acabas de mergulhar na Fonte da Vida, já que morrer é mais do que chegar ao oceano, é mergulhar definitivamente na Fonte que alimenta cada uma das vidas de todas as vidas que um dia aconteceram neste nosso mundo e que, uma vez acontecidas, nunca mais acabam, sempre se transformam.

Partiste, não para nos deixares de vez, como por aí se pensa e se diz, mas para poderes ficar ainda mais connosco, depois de teres lutado, todos estes anos, ao nosso lado, em prol das magnas causas da Justiça e da Solidariedade, particularmente no âmbito da Pastoral Operária, a que deste corpo com o teu corpo, nesse teu jeito bem humorado, atrevido e exigente.

A nossa Igreja apregoa que nunca fez opção de classe - nem mesmo quando a classe operária encarnava a miséria imerecida no mundo - e fá-lo a pretexto de que tem que ser universal, como tal, não pode tomar partido. Mas é por demais manifesto que ela sempre se sentiu mais à vontade, pelo menos, ao nível da sua hierarquia, com a classe dominante a que pertence o grande patronato, do que com a classe dominada, a que pertence a classe operária e o imenso mundo dos empobrecidos.

Tu, porém, na esteira de tantos outros companheiros cristãos, mulheres e homens, deste-te conta de semelhante escândalo e consumiste o melhor da tua vida a tentar alterar este estado das coisas. Não se pode dizer que tenhas conseguido tudo, mas muita coisa mudou na Igreja, graças também à tua intervenção, ao teu combate, à tua luta.

Mesmo assim, nenhum Bispo, dos vários bispos que a nossa Igreja do Porto dispõe, apareceu na hora da despedida, em jeito de Eucaristia, dos teus restos mortais. Em contrapartida, apareceram alguns padres amigos - também lá estive, mas fora do altar, como é meu timbre - e, sobretudo, apareceram muitos companheiros, leigas e leigos como tu, que são, afinal, a grande base da Igreja que está no Porto.

Por mim, nunca consegui entender esta discriminação na Igreja. A presença do Bispo, em momentos destes, continua a ser garantida apenas aos padres, nomeadamente quando estes deram provas de comportamento canonicamente correcto. Nunca, ou quase nunca acontece, quando se trata de mulheres e de homens baptizados, mesmo que algumas delas, alguns deles tenham sobressaído, como tu sobressaíste, em entrega e em serviço evangélico e eclesial às causas da Humanidade. Até parece que os membros efectivos da Igreja são apenas os padres, os bispos e os diáconos e não todos os baptizados. Ou até parece que fora do ministério ordenado, só existe Igreja menor!...

Neste derradeiro momento, que aproveitei para abraçar e beijar Maria Durvalina, tua companheira de toda uma vida, as tuas filhas Graça e Isabel, e o teu filho Paulo, recordei-me do nosso amigo comum, o padre operário Gaspar, com quem lidaste de perto e intensamente, enquanto ele esteve de modo visível entre nós.

Estivesse ele ainda na História e outro teria sido este momento da tua partida. A sua palavra e o seu testemunho de padre operário teriam agarrado a tua vida militante e sacudido as rotinas institucionais em que continua completamente absorvida a nossa Igreja no Ocidente, absurdamente confiada ao clero, hoje, por demais envelhecido e com provas dadas de não ter soluções à altura destes tempos que são os nossos.

O que vale à nossa Igreja é que o clero é hoje cada vez mais uma espécie em vias de extinção e por isso o modelo de Igreja-comunhão e de Igreja-povo-de-Deus por que tanto lutamos aqui no Jornal Fraternizar está inevitavelmente em vias de poder vir a acontecer.

Tenho a certeza de que, agora, na tua condição de vivente invisível aos nossos olhos, continuarás a "puxar" por nós que ainda prosseguimos no Mundo e na História, como Igreja peregrina abraçada à Humanidade, particularmente, àquela imensa Humanidade que já deixou de frequentar os templos e de alinhar nas missas sem Eucaristia, repetidas até à náusea aos domingos, por essas paróquias católicas fora.

Obrigado, Porfírio. Por toda a tua vida militante na História.



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