Textos do
Jornal Fraternizar

Edição nº 153, de Abril/Junho 2004

Destaque 1

Salutar provocação a freiras e frades

Todos os anos, pelo Carnaval, as freiras e os frades em Portugal são convocados para uns dias de retiro em Fátima. Desta vez, Jornal Fraternizar não esteve lá, mas tomou conhecimento do programa. E decidiu pegar num dos temas - "No mundo sem ser do mundo. Consagrados na verdade" - e partilhar nas suas páginas o que poderiam ser os tópicos duma conferência a desenvolver, caso o seu director tivesse sido convidado a proferi-la. Cuidado! O texto é fogo. Tomem-no como uma salutar provocação. E saibam que foi escrito com muito amor.

1. O simples enunciado do tema é um abuso. As palavras com que ele se tece são palavras que o Evangelho de João coloca na boca de Jesus (cf. Jo 17) . E de modo algum se aplicam às frei­ras ou aos frades, enquanto tais. Nunca terá passado semelhante coisa pela cabeça de Jesus, nem pela cabe­ça dos membros das comunidades cris­tãs do discípulo amado que terão es­crito o Evangelho de João. Pela sim­ples razão de que nunca passou pela cabeça de Jesus que as suas discípu­las, os seus discípulos alguma vez se fizessem freiras, frades, muito menos, tais como elas, eles o são hoje!

Estas palavras de Jesus – no mun­do sem ser do mundo; consagra-os na verdade – referem-se a todas as suas dis­cípulas, a todos os seus discípulos, mulheres e homens que hão-de ter a au­dácia e a simplicidade de serem/vi­ve­rem como ele no mundo, em guerra aberta com as minorias do poder; pri­meiro, as minorias do poder religioso-eclesiástico, superioras e superiores re­ligiosos incluídos, as quais alimentam no mundo o virus dos privilégios e da dis­criminação que impossibilita o de­sen­volvimento da fraternidade/soro­ridade.

Em nome de Jesus, jamais se po­dem criar estruturas e instituições onde a fraternidade/sororidade se torne uma ficção, uma hipocrisia, um artifício, uma mascarada, uma forma sibilina de su­bmissão e de domínio dos corpos e das consciências. E isso é o que têm feito os conventos, ao longo dos séculos.

Ler aquelas palavras de Jesus com o pensamento nas freiras, nos frades é farisaísmo crasso. Vós, as freiras, já costumais pensar que sois as esposas de Jesus (os frades o que serão? Os par­ceiros homossexuais de Jesus? Ou os esposos de nossa senhora?), por favor, não comeceis agora a pensar que sois o exemplo acabado de cristãs, de cristãos, pelo facto de terdes feito os votos de pobreza, de obediência e de castidade, pelo facto de terdes dei­xado a família e pelo facto de terdes sido levadas, levados a renunciar a cons­tituir família, pelo facto de vos teres refugiado em conventos que vos ga­rantem segurança, prestígio, posição social, ascendência sobre as outras mu­lheres, os outros homens, quando estas, estes, mães, pais de família, é que conhecem o duro da vida e ainda por cima hão-de parir filhas, filhos para depois darem aos conventos, para que estes continuem a fazer delas, deles mu­lheres, homens sexualmente esté­reis quanto vós o tendes sido até hoje!...

Tais votos são mentira, pelo menos, à luz do Evangelho. Como tal, oprimem quem os faz. Ajudam a reter a verdade cativa na injustiça. Geram seres mais ou menos infantilizados, vassalos, sub­ser­vientes, sem liberdade/responsa­bi­lidade, sem iniciativa pessoal, sem mai­o­ridade, na dependência de supe­rioras, de superiores, de confessores clericais, de bispos e de papas, todos homens sem mulher e avessos à pre­sença das mulheres lado a lado com eles, em radical igualdade, na condu­ção da Igreja. São votos que vós fazeis como se eles valessem por si mesmos, como se eles fossem tanto ou mais sa­gra­dos que a lei do descanso sabático, no tempo de Jesus, aos quais depois se sacrificam pessoas de carne e osso que um dia foram levadas a emiti-los como perpétuos! Como se o seu cum­primento material, só por si, fizesse santas, santos, fizesse mulheres mais perfeitas, homens mais perfeitos que aquelas, aqueles que os não fazem e que, pura e simplesmente, se casam, tra­balham no duro no mundo, sem quais­quer privilégios.

Não, não fazem! Fazem, isso sim, fariseus em masculino e em feminino, que se têm na conta de serem mais que as outras, os outros que vivem to­dos os dias à intempérie. O que fazem são mulheres puras, homens puros que Deus vomita, já que são manifestamente incapazes de se misturarem e de come­rem com os pecadores, as pecadoras. O que faz com que vos torneis ainda pio­res que as prostitutas, os prostitutos. Estas, estes – é o próprio Jesus quem o garante! – vão à nossa frente no Rei­no de Deus (cf. Mt 21, 31).

2. No mundo, sem ser do mundo. Eis a desgraça das freiras, dos frades. Estais no mundo, mas não sois do mun­do! Para vosso mal, tendes interpretado estas palavras de Jesus desligadas do modo como ele próprio paradigmatica­mente as viveu. Deveríeis interpretá-las à luz da prática histórico-política de Jesus. Mas interpretai-las à luz da filosofia platónica que invadiu o Cristia­nismo e a Igreja, via St.º Agostinho, a qual considera como cume da perfei­ção humana a fuga do mundo, a fuga da matéria, a fuga do corpo, a repres­são da sexualidade, o castigo do corpo, o viver de costas voltadas para a His­tória e para os acontecimentos de que ela é feita, a fuga da luta política, o de­sinteresse pela realidade, um tipo de espiritualidade sem dimensão políti­ca, até um Deus sem Reino, sem Mun­do, e uma alma sem corpo.

“Deus amou de tal modo o mundo que lhe deu o seu filho...” (cf. Jo 3, 16) Mas vós, as freiras, os frades, fugis do mundo, fugis da política, refugiais-vos na oração sem destinatário, dirigis-vos a um Deus que não tem mundo para amar. Em lugar de viverdes como en­via­­das, enviados de Deus ao mundo, tendes medo do mundo, tendes medo de perder a virgindade, de perder a pu­reza. E se aceitais mergulhar no mun­do, optais por uma inserção na linha da caridadezinha, da assistência, das ipss’s, do ensino domesticador, das actividades eclesiásticas, como cate­que­ses paroquiais invertebradas em re­dor de nossas senhoras cegas, sur­das e mudas, e de santas, santos sem espinha dorsal, ou de grupos corais para abrilhantar missas sem profecia, tudo iniciativas que servem para ali­men­tar a alienação popular, em lugar de promoverdes o aparecimento de li­berdades-em-acção, sujeitos criadores, protagonistas.

No mundo, sem ser do mundo. Com estas palavras, Jesus aponta às suas discípulas, aos seus discípulos de todos os tempos e lugares, também a vós, a sua própria via. De modo algum quis que elas, eles fugissem do mundo, ou que vivessem de costas voltadas para o mundo, de persianas sempre fe­chadas, como se Deus estivesse fora do mundo e não a agir nele ininterru­pta­mente, sábados e domingos incluí­dos, como efectivamente está. O que Jesus quis dizer com aquelas palavras é que as suas discípulas, os seus dis­cípulos estejam forte e feio no mundo como ninguém. A tempo integral. E que es­tejam com todas as suas forças, com toda a sua inteligência, com todo o seu co­ração, com todas as suas capaci­dades. Que estejam como ele historica­mente esteve. De olhos e ouvidos bem abertos. Atentos aos meandros do Po­der e a todas as suas mentiras, para nun­ca embarcarem na sua propaganda, nem na sua ideologia, nem no seu Deus, nem na sua religião idolátrica e alie­nante. Pelo contrário, lhe resistam até ao sangue. E, sobretudo, façam corpo com todas as suas vítimas.

No mundo sem ser do mudo, isto é, sem ser do Poder, de nenhum, muito menos do poder eclesiástico-clerical que teima em controlar as consciên­cias, não só no interior dos conventos e seminários, mas também nas univer­sidades e nas famílias tradicionalistas, e nos governos seus lacaios. No mundo, sem ser do Poder que tudo perverte e corrompe, inclusive, a própria nature­za. No mundo, sem jamais fazerem o jogo dos poderosos, mesmo quando estes habilmente se mostram dispostos a subsidiar grandes obras sociais, cons­­troem basílicas ou pequenos ora­tórios, ou conventos. No mundo, sem jamais perderem a consciência crítica que faz profetas em feminino e em mas­culino, tanto no interior das Igrejas, co­mo na sociedade em todas as suas fren­tes. No mundo, sem arredar pé, e sempre ao serviço do Reino de Deus, nunca ao serviço dos Bush, dos Blair, dos Portas, numa palavra, dos oportu­nistas de turno que governam o nosso país e os outros países.

3 Consagrados na verdade. Quan­do vos auto-apresentais como pessoas consagradas, estais a ser peneirentas, peneirentos. Por que hão-de ser con­sa­gradas as vossas vidas à margem do mundo, longe dos duros combates de que é feita qualquer vida vivida à in­tem­périe, e não o hão-de ser as vidas das mulheres casadas, dos homens ca­sa­dos? E se admitis que estas também o são, por que continuais a dizer-vos “consagradas”, como se as outras o não fossem? Por que vos tendes como superioras, superiores em relação às demais pessoas que não são freiras, frades, nem vivem protegidas nos con­ventos?

Consagrados na verdade. Mas como Jesus o foi. Ao olhar para as vossas vidas, fico com a sensação de que sois consagradas, consagrados na mentira, na hipocrisia. A um Deus com tudo de ídolo, que gosta de sacrifícios, de religião, de cultos nos templos e capelas, um Deus sem mundo.

Em vós, tudo é oco, falso, artificial, não tem base natural, só tem base ideo­lógica. A Graça actua na natureza. Mas se em vós a natureza não é valorizada (é pecado!), se não é a base onde as­sen­ta a vossa vida, então onde anda a graça em vós? Pode haver graça lá onde não há natureza, onde só há ar­tificialismo, construção ideológica, mo­ralismo?

“Amai a verdade, que a verdade vos fará livres.” Mas vós sois educadas desde o noviciado e pela vida fora, pa­ra terdes medo da liberdade. Viveis nu­ma redoma ideológica e moralista que vos protege como uma couraça. Amais tanto um nosso senhor imaginário, que acabais perdidas na alienação, ocupa­das em ninharias, em infantilidades, em coisas sem sentido, em sacrifícios estú­pidos e estupidificantes, bem longe dos grandes combates que fizeram a vida histórica de Jesus e que o levaram à morte na cruz. Sois, duma maneira geral, uma espécie de anti-Cristo-em-acção, mas sempre na presunção de que sois as suas esposas, as filhas/os filhos predilectos de Deus.

Consagrados na verdade. Entenda-se: marcados para morrer pelo povo, para trazer à unidade as filhas, os fi­lhos de Deus dispersos. Como aconte­ceu com o consagrado por antonomá­sia, Jesus de Nazaré.

Havemos de estar tão identificados com as causas dos povos empobrecidos e excluídos da mesa da vida; havemos de fazer de tal modo nossas as suas lutas, que acabamos como eles. Escor­ra­çadas, escorraçados como eles. Mal­ditas, malditos como eles. Pecadoras, pecadores como eles. As­sassinadas, assassinados como eles.

É claro que as consagradas, os consagrados que vemos por aí, com os três votos e com hábito ou sem ele, são praticamente o contrário das mulheres e dos homens marcados para morrer. São inocuamente santas, santos. São bacteriologicamente puras, puros. São imaculadas, imaculados. Andam de tra­jes sempre muito limpos. De mãos lim­pas e de pele macia. Passam pelo mun­do como quem passeia, não como VIVA PÁSCOA (= Passagem).

A Cruz foi para Jesus, não é para vós. Porque vós, ao contrário de Jesus, evitais andar em más companhias, evi­tais os conflitos com os poderosos, evi­tais denunciar os ricos que fabricam pobreza e pobres em massa, evitais passar por publicanos, por pecadores, por gente de má fama, por prostitutas. Sois demasiado santas, santos, para ter­des alguma coisa a ver com Jesus, o maldito, o samaritano, o que foi reite­ra­damente acusado pelas máximas au­toridades religiosas do país de ter um pacto com Belzebú e de agir a favor das pessoas, por intermédio de Belze­bú, o chefe dos demónios!

Por isso, de vós só se pode dizer que sois consagrados na mentira esta­be­lecida, que sois peças fundamentais do Sistema eclesiástico e do Estado, que estais muito pouco no mundo dos combates da libertação, mas muito no mundo do Poder e dos privilégios!

Para vós, é importante que haja cada vez mais pobres, para poderdes justificar a vossa existência como ben­feitoras dos pobres. Mas sois incapazes de levantar uma mão e de dar um pas­so para acabar com a pobreza e com as fábricas de produzir pobreza e po­bres! Sois pessoas demasiado santas e puras, para vos sujardes na política e nas práticas libertadoras, inevitavel­mente conflituosas. No dia em que o fi­zésseis, também começaríeis a vossa libertação, até saltardes o muro em que vos encurralaram e de onde não ten­des tido coragem de sair. Porque o preço a pagar pela vossa libertação para a liberdade será sempre demasia­do alto. E, a partir de certa idade, até já começais a dizer ou a pensar: Quem me comeu a carne, também me há-de comer os ossos. Sem coragem para pagar o alto preço da vossa libertação, optais então por enterrar a cabeça na areia, como o avestruz. Optais por cultivar a mentira de que sois consagradas, consa­gra­dos na verdade, de que estais no mundo, sem serdes do mundo.

Até quando continuareis a mentir a vós próprias, a vós próprios?

P. S. Peço-vos desculpa pelo tom rude com que aqui me dirijo a vós. Mas o amor tem destas coisas. Não vos zangueis comigo. Importante mesmo, é acolher a mensagem que esta minha reflexão-provocação leva até vós. É evidente que também entre vós há honrosas excepções a esta regra. Esta mensagem não é para elas.


Destaque 2

A deusa/senhora de Fátima não se contenta com menos

Da capelinha à basílica

No princípio, bastou-lhe uma capelinha. Veio depois um alto e pesado santuário com um enorme recinto descoberto a seus pés, com capacidade para muitos milhares de pessoas. E agora, oitenta e sete anos depois de ter sido posta a circular pelo mundo a mentira das aparições, a imagem da mítica deusa/senhora do rosário de Fátima irá passar a dispor duma gigantesca basílica, designada da Santíssima Trindade, com capacidade para nove mil lugares sentados. Quarenta milhões de euros, no mínimo (oito milhões de contos, na anterior moeda portuguesa) é o custo total da obra, pelo menos, na previsão oficial do orçamento, o que nos permite pensar que, no final da construção, podem ter sido gastos uns oitenta milhões de euros (dezasseis milhões de contos), o dobro, portanto. A execução da obra já está em andamento, porque dinheiro a jorros é coisa que nunca faltou em Fátima, não importa qual a sua proveniência, contanto que seja dinheiro. Se resulta de ofertas das devotas, dos devotos, em forma de moeda ou de notas, ou em forma de objectos de ouro; ou se resulta de barras de ouro, inclusive, do ouro que outrora foi extorquido aos judeus pelo nazismo; ou se resulta de hipotético branqueamento de capitais, tudo é dinheiro e todo ele isento de impostos ao Estado. A imagem da senhora de Fátima não se faz rogada, aceita tudo e tudo agradece. Melhor, não é ela que agradece, sabido como é que a senhora de Fátima nunca passou duma imagem morta, cega, surda e muda, incapaz por isso de sair do local onde a depositam, ou de qualquer protesto, ou de abraçar e de beijar alguém, ou de se compadecer, ou de rir e de chorar (de tempos a tempos, não falta quem venha dizer que a viram chorar, senão esta que vai passar a dispor desta gigantesca basílica, então algum dos seus muitos clones espalhados pelo país e pelo mundo, numa manifestação de religiosidade pagã e idolátrica sem um pingo de dignidade humana e sem um pingo de referência cristã evangélica). Quem agradece são os sacerdotes que nós ingenuamente pensamos que estão ao serviço da imagem da senhora de Fátima, quando, na verdade o que eles fazem é servir-se habilmente dela, de modo a melhor poderem continuar a levar a água ao seu moinho, numa operação de mentira tão bem conseguida e tão bem orquestrada (não é verdade que o próprio Papa de Roma está metido nesta operação?!), que faz crer/tremer até os mais incrédulos e os mais cépticos.

Jornal Fraternizar é que não se deixa impressionar nem iludir. E, mais uma vez, aqui está a denunciar o tipo de cristianismo e de igreja que subjaz a iniciativas como esta da construção de basílicas e de templos mais ou menos sumptuosos. Felizmente, desta vez, não está sozinho nesta denúncia. São muitas as vozes – os grande media é que não se têm mostrado disponíveis para lhes dar visibilidade! – que se levantam no país contra esta obra me­galómana, com tanto de desnecessário como de inoportuno, para mais, numa altura em que a população portuguesa vive momentos de grande aflição e de grandes restrições orçamentais, conhe­ce expressões de desemprego que bradam aos céus, continua privada de infra-estruturas culturais e de saúde em quantidade e em qualidade, não consegue ainda dispor de um parque habitacional digno e a preços justos para todas as famílias existentes e em vias de formação, à mistura com um índice de subdesenvolvimento humano e científico que faz de nós um dos povos mais terceiro-mundistas do velho continente.

Mas esta nossa denúncia tem raí­zes mais fundas, não é uma denúncia apenas conjuntural, nem de mera or­dem económico-financeira. Tem tudo a ver com o cerne do cristianismo de Jesus de Nazaré, com a própria natu­reza da Igreja que se diz congregada em nome de Jesus, com a missão de Evangelizar os pobres que nos está confiada, numa palavra, tem tudo a ver com o Deus vivo que se nos revelou definitivamente em Jesus, o Senhor, em oposição aos ídolos de todo o tipo, machos e fêmeas, antigos e novos, que sempre nos tentam e seduzem, nomea­damente, nos momentos de generali­za­da insegurança, geradora de des­con­trolados medos, e em momentos de grandes incertezas quanto ao futuro, como são manifestamente os momentos por que hoje estamos a passar, tanto a nível nacional como mundial.

A decisão de mandar construir ba­sílicas para a Igreja, a começar pelas mais antigas basílicas católicas que ainda hoje continuam a servir de cho­cante cenário de luxo e de pompa mun­­dana ao papa, no Estado do Vati­cano e em Roma, foi tomada no século IV, ao tempo do imperador Constantino, de má memória para a causa do Evan­gelho e para a genuína Igreja de Je­sus ao serviço do Reino de Deus. Foi ele o seu promotor e executor. É uma decisão que assinala o começo em força da paganização do Cristianismo e da Igreja.

Não se pense, então, como sempre mentirosamente nos tem sido dito, que o imperador Constantino foi o grande benfeitor da Igreja. Não foi. Quando se meteu a construir basílicas para a Igre­ja, o seu objectivo foi domesticar a Igreja  e colocá-la ao serviço das suas ambi­ções imperialistas, fazer-se passar aos olhos do povo como o grande vencedor por intervenção de todos os deuses, também e sobretudo do Deus dos cris­tãos, até então, um povo olhado como altamente subversivo e perigoso no Im­pério, o que havia justificado uma feroz perseguição por parte de alguns dos antecessores de Constantino.

Entre mais e mais perseguição, por parte do Império, ou mais e mais privi­lé­gios que este, na pessoa do impera­dor Constantino, lhe oferecia de ban­deja, a Igreja não hesitou. Passou-se incondicionalmente, pelo menos, ao ní­vel das suas cúpulas, para o lado do imperador e apoiou todos os seus pro­jectos de poder absoluto. Inclusive, ela própria fabricou, ou aceitou que fossem fabricadas e postas a circular piedosas lendas, nas quais se fazia constar que o Deus dos cristãos tinha aparecido ao imperador Constantino, para lhe asse­gurar vitória atrás de vitória contra os seus rivais, contanto que as suas tropas fossem portadoras de estandartes onde figurasse a cruz.

Toda esta propaganda enganosa levou facilmente as populações do Im­pério a concluir, entre outras coisas, que o Deus dos cristãos era, afinal, mui­to mais poderoso do que todos os deu­ses dos cultos do Paganismo, inclusive, dos mais badalados com fama de mila­greiros. Como tal, não lhes restava outra opção que não fosse deixarem os seus velhos deuses e deusas e fazerem-se cristãos, na mira de poderem vir a be­neficiar também dos favores desse Deus todo-poderoso dos cristãos, o grande vencedor das batalhas.

As adesões a este tipo de cristia­nis­mo constantiniano e paganizado e à Igreja unha e carne com o imperador e o seu império não se fizeram esperar (não esqueçam que o próprio impe­rador Constantino se assumiu como o novo pontífice da Igreja, ao ponto de convocar Concílios, de presidir a eles e de dirimir questões de natureza do­gmática e de disciplina eclesiástica). Ser cristão passou a ser sinónimo de gozar dos favores do Deus vitorioso que havia garantido o triunfo do im­perador. Passou igualmente a dar direito a usufruir dos muitos privilégios – isenção de certos impostos, por exemplo – que o imperador concedeu à Igreja e aos seus membros, especial­mente, aos seus ministros sagrados. Não é, pois, de estranhar que até os sacerdotes que anteriormente oficia­vam aos cultos em honra dos deuses do Paganismo se passassem, com armas e bagagens, para a Igreja e aparecessem, depois, a presidir aos novos cultos católicos, nas novas ba­sílicas e nos velhos templos pagãos, quando estes, depois de um tempo encerrados, foram reabertos e entre­gues à Igreja católica romana.

Podemos por isso dizer, à luz des­ta rápida incursão na história da Igreja, que a construção da descomunal basílica da Santíssima Trindade, em Fátima, por força da teimosia do reitor do respectivo santuário – a esta teimo­sia, junta-se o aval do bispo local e a cumplicidade da generalidade dos bis­pos portugueses, mais a especial bên­ção do papa João Paulo II, o grande sumo sacerdote da deusa/senhora de Fátima – insere-se nesta tradição cons­tantiniano-pagã da Igreja, que mais não é do que pura traição à genuína tradição bíblico-profética do Cristianis­mo, cujo apogeu dos apogeus aconte­ceu na pessoa de Jesus de Nazaré, o crucificado às ordens do Império e do Templo, mas a quem Deus no mesmo instante ressuscitou, isto é, reconheceu e apresentou ao mundo como o Cami­nho, a Verdade e a Vida para toda a Hu­manidade, assim como o seu defini­tivo rosto na terra (“Filipe, quem me vê, vê o Pai”, João 14, 1-11).

Ao avançar por essa tradição cons­tantiniano-pagã, contra a genuína tra­dição bíblico-profética plenamente as­sumida por Jesus, o Senhor, a nossa Igreja católica afunda-se ainda mais no paganismo idolátrico, ao mesmo tempo que faz gala, de forma altamente mediá­tica, do grande poder religioso que, para seu mal, ainda continua a ser/ter no nosso país. Deixa também claro que está cegamente apostada na via infan­tilizadora do culto religioso que oprime e aliena as pessoas e os povos, em de­trimento da via política do Evangelho da libertação das pessoas e dos povos inaugurada por Jesus, como inequívoco sinal de que a Humanidade chegou à plenitude dos tempos, isto é, passou do regime opressor da lei ao da liberdade responsável, e do regime do recurso à religião, próprio de pessoas e de povos infantilizados e amedrontados, sem coragem para se assumirem responsa­vel­mente perante o mundo e a História, ao do recurso à Política com Espírito, própria de pessoas e de povos que alcançaram já a maioridade de filhas e de filhos de Deus Criador e, por isso, actuam no mundo e na História como se Deus não existisse.

Por tudo isto, não podemos deixar de sublinhar que se, depois da basílica con­cluída e em funcionamento, fosse possível ao grande apóstolo Paulo pas­sar um dia pela cidade de Fátima, como há cerca de 20 séculos atrás pas­sou um dia pela cidade de Éfeso, certa­men­te não notaria grande diferença entre u­ma e outra. E certamente voltaria a ter hoje em Fátima a mesma reacção que teve então em Éfeso contra a im­po­nente basílica e o culto de massas que lá se realizava em honra da grande deusa Ártemis dos efésios (cf. Actos, todo o capítulo 19, em especial, a partir do versículo 23 até ao fim), só que, ago­ra, contra a basílica e o culto de mas­sas em honra da grande deusa/se­nhora do rosário dos católicos. Na ver­da­de, numa e noutra cidade, o culto ido­látrico de massas é o mesmo e, hoje, em Fátima, alcança os mesmos obje­ctivos que outrora em Éfeso: consegue manter na alienação e no medo as po­pulações que peregrinam até lá, por lá andam de joelhos, pagam promessas sem sentido, adquirem recordações de mau gosto, deixam muito do seu ouro e do seu dinheiro para o tesouro do san­tuário e da basílica e, depois, re­gres­sam às suas terras e às suas ca­sas ainda mais determinadas em man­ter-se distantes da Política com Espírito e das acções políticas que todos nós, mulheres e homens, se o quisermos ser verdadeiramente, have­remos de protagonizar ao longo de toda a nossa vida para, desse modo, ajudarmos a tornar efectivamente presente na História o Reinado de Deus.

A concluir esta nossa reflexão teo­lógica contra a construção, já em curso, da basílica de Fátima, deixamos as nossas leitoras, os nossos leitores mer­gulhados na Boa Notícia de Deus sobre o culto religioso e sobre os templos, que as comunidades cristãs jesuánicas do princípio tiveram o arrojo de teste­munhar e de anunciar ao mundo super-religioso e povoado de santuários em que se movimentavam:

Mateus 9, 13: “Ide aprender o que significa: Prefiro a misericórdia (= a Política com Espírito) ao culto (= Religião)”;

João 4, 21-24: “Jesus declarou: Mul­her, acredita em mim: chegou a ho­ra em que nem neste monte [Garizim], nem em Jerusalém, haveis de adorar o Pai. (…) Mas chega a hora – e é já – em que os verdadeiros adoradores hão-de adorar o Pai em espírito e ver­da­de, pois são assim os adoradores que o Pai pretende. Deus é espírito; por isso os que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade”;

João 2, 19-22: “Declarou-lhes Jesus em resposta: Destruí este templo e em três dias eu o levantarei! Replica­ram então os judeus: Quarenta e seis anos levou este templo a construir e tu vais levantá-lo em três dias? Ele porém falava do templo que é o seu corpo. Por isso, quando Jesus ressusci­tou dos mortos, os seus discípulos recordaram-se de que ele o tinha dito e creram na Escritura e nas palavras que tinha proferido”;

Actos 7, 46-50: “[Estêvão disse:] O rei David achou graça diante de Deus e pediu para edificar uma habitação ao Deus de Jacob. Foi porém Salomão quem lhe construiu uma casa. Mas o Al­tíssimo não habita em casas erguidas pela mão do homem, como diz o profeta: O Céu é o meu trono e a Terra estrado dos meus pés. Que casa me haveis de construir, diz o Senhor, e qual será o lugar do meu repouso? Não foi a minha mão que fez todas as coisas?”

Romanos 12, 1: “Por isso vos exor­to, irmãos, pela misericórdia de Deus, a que ofereçais os vossos corpos como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus. Seja este o vosso verdadeiro culto, o espiritual”;

Apocalipse 21, 22: Não vi templo algum na cidade, pois o Senhor Deus, o todo-poderoso e o Cordeiro são o seu templo”.


Alarme nas hostes

Diminui o número de peregrinos

Pelos vistos, em Fátima, o número dos chamados peregrinos diminuiu no ano de 2002 para 2003. Quem o ga­ran­te é o próprio Director do Serviço de Peregrinos, Pe. José Batista. A que­bra na afluência ainda não é muito si­gni­ficativa, pelo menos no que respeita à participação nas missas oficiais, mas terá sido o sufuciente para fazer accio­nar o sinal de alarme entre os que es­tão à frente do san­tuário. A redução fez-se sentir ao nível das pessoas sin­gu­lares, mais do que ao nível dos gru­pos. Estes foram sensi­velmente os mes­mos, mas cada grupo é que se apresen­tou composto por me­nos pessoas.

Para o Director do Serviço de Pe­re­grinos, esta diminuição ficará a dever-se "à situação social e económica a nível mundial". Por outras palavras, à crise. O Pe. José Batista parece não querer pensar noutros motivos, menos conjunturais, como, por exemplo, a percepção, por parte dos que alguma vez se dirigem a Fátima, de que o que lá acontece, tem pouco ou mesmo na­da a ver com a Fé cristã e com o Evan­gelho de Deus, revelado em e por Je­sus, o Senhor.

É de admitir, igualmente, que a rea­lidade de Fátima, depois da tragico­média que foi a chamada revelação do "terceiro segredo", em que até o pa­pa João Paulo II reivindicou para ele todo o protagonismo - mas que ridículo foi tudo aquilo, em directo para todo o mundo -  tenha caído em descrédito, es­pecialmente junto das franjas mais  ilustradas da população mundial. Tudo aquilo, na altura, foi uma verdadeira inde­cência e um insulto à inteligência das pessoas. E, se quiséssemos falar no âmbito da Fé cristã jesuánica, então teríamos de dizer que tudo aquilo foi um vómito.

Infelizmente, fenómenos como o que Fátima e o seu recinto exibem qua­se em permanência, à semelhança do que acontece noutros locais de peregri­nação de multidões, são fenómenos ali­cerçados em mentiras e em lendas que o inconsciente das multidões não dis­cute, nem admite que alguém discuta ou ponha em dúvida, pois cegamente os tem por verdade irrefutável que nem é preciso provar. Fazem todos parte do reino das trevas e dos medos ances­trais, por onde o incons­ciente das po­pu­lações não ilustradas e não evangeli­zadas continua a pairar, sem audácia para se abrir à luz do consciente, ou, por outras palavras mais existenciais, sem audácia para se abrir à liberdade responsável perante a História e às ta­refas que ela nos exige, enquanto seres humanos, colocados no último elo da criação.

O mais dramático é que as reli­giões alimentam-se deste humus e, por isso, quanto mais insólitos forem os fenóme­nos, mais as multidões os procu­ram. Ao contrário da Fé cristã jesuá­nica, que é iluminação da mente, cons­ciência cada vez mais crítica e olhos bem abertos, numa entrega generosa da pessoa a todas às causas da Hu­manidade. Mas desta dimensão, a úni­ca humana, as multidões continuam a fugir. Como as trevas da luz.


Fátima

O texto em forma de poema que o Jornal Fraternizar aqui dá a ler é do livro COMO FARPAS. MAS COM TERNURA, do Pe. Mário de Oliveira, editado pela Ausência ( ausencia@clix.pt ), de VN Gaia

Fátima. Quando um bispo
aceita presidir às cerimónias
de um dia 13 qualquer em Fátima
e faz tudo certinho sem jamais
chegar a desmascarar que
a senhora de Fátima é a imagem
duma mítica deusa em tudo semelhante
às imagens dos velhos cultos politeístas
do Paganismo renega da sua missão
de Evangelizar os pobres e por isso
melhor fora que lhe atassem a mó
de um moinho ao pescoço
e o lançassem ao fundo do mar.
O escândalo que dá é enorme
e tanto mais perverso quanto
é dado aos pequeninos que Deus
ama e quer ver libertos de todos
os medos a começar pelo medo
que os leva a criar deuses e deusas
e os faz correr para santuários
de senhoras de Fátima e quejandas
todas cegas surdas e mudas
cada qual a mais mentirosa
e vampiresca que só estão bem
a sugar a dignidade dos pobres
e não descansam enquanto não lhes
roubam o último cêntimo
com que engordam o tesouro
dos respectivos santuários onde
as suas imagens são idolatradas.
Não me peçam que aprove o culto
politeísta pagão que se faz em Fátima.
Tudo aquilo é mentira a começar
pela senhora de Fátima que se faz
passar por Maria mãe de Jesus.
Os bispos que aceitam ir lá presidir
ao culto e não começam
por desmascarar toda esta mentira
tornam-se mentirosos que escandalizam
os pobres. Mantêm-nos no medo
e na opressão quando deveriam
evangelizá-los até que desperte
neles os protagonistas da História
que todos estão chamados a ser.
Como tão bem cantou outrora
a jovem revolucionária Maria
de Nazaré quando como qualquer
outra jovem do seu tempo e país
acalentava a esperança de poder vir
a ser a mãe do Messias isto é
do Libertador! É por isso que nunca
choraremos bastante este crime
de lesa-Fé cristã que se comete dia
e noite em Fátima ao trocar a mãe
revolucionária de Jesus pela imagem
morta duma mítica e cruel deusa.


Espaço Aberto

Editorial

Pela Paz contra a paz

Imaginem num mesmo local um nú­mero de pessoas pobres de todas as idades e de ambos os sexos correspon­den­te a 130 vezes a população de Portugal continental, exactamente, mil e 300 milhões de pessoas. Nunca impé­rio algum do mundo juntou tamanho exército. Mas é este exército de pobres, melhor, empobrecidos, condenados a te­rem que fazer face à vida com menos de um euro por dia, que todos os dias ameaça a segurança dos países da Eu­ropa e do Ocidente em geral, a começar nos Estados Unidos da América e a aca­bar no pequeno Estado do Vaticano, em Roma. Esta é, hoje, a realidade mais real do nosso mundo, que ninguém po­de escamotear. É também a realidade mais obscena. Para cúmulo, com ten­dên­cia a agravar-se, cada ano que pas­sa. Basta conferir incontornáveis dados do PNUD: Se, em 1960, havia no mun­do um rico para trinta pobres, trinta anos depois, em 1990, já havia um rico para sessenta pobres. E apenas sete anos depois, em 1997, a proporção era já de um rico para setenta e sete pobres!

Terá de ser a partir deste dado obje­ctivo – verdadeiro pecado do mun­do, verdadeira blasfémia contra Deus, horrendo crime contra a Humanidade, cru­cifixão silenciosa duma significativa parcela da Humanidade – que have­mos de falar de terrorismo e das me­didas a tomar contra ele. O que não for assim é ainda mais terrorismo, e do pior, o terrorismo ideológico, feito de men­tira, que até consegue converter as reais vítimas do terrorismo em vir­tuais autores do terrorismo e os verda­deiros autores do terrorismo em suas vir­tuais vítimas.

O que tem valido aos países do Ocidente e às minorias ricas que os governam e manipulam ideologica­men­te com as suas economias idolátricas e sacrificialistas e com as suas políticas sem misericórdia, é que os povos em­po­brecidos do mundo nunca tiveram consciência, como um todo, de que a sua inumana pobreza é o resultado di­recto da riqueza acumulada e cada vez mais concentrada nas mãos dessas mes­mas minorias. Sempre foram leva­dos a pensar, até pelas Igrejas e pelas Religiões que nunca lhes largam o pé, que a sua pobreza é coisa natural, ou fruto da sua inabilidade, da sua incom­petência, do seu atraso cultural, ou, pior ainda, uma espécie de maldição e castigo de Deus pelos seus pecados e pelos pecados dos seus antepas­sados.

Por outro lado, os povos empobre­cidos sempre estiveram massivamente confinados aos continentes da fome e nunca conseguiram organizar-se a va­ler. Por isso, nunca tiveram consciência de que são tantos. Tão pouco tiveram cons­ciência da força revolucionária que a sua fome de comida, de justiça e de dignidade representa. Sempre foram po­tenciais revolucionários, mas ador­me­cidos, domesticados, resignados. Sem­pre foram empobrecidos não evan­ge­lizados, por isso, mergulhados em re­ligiões que os mobilizam para ritos e práticas inumanas, de costas voltadas às práticas políticas, as únicas que te­riam feito deles os grandes protagonis­tas da Mudança radical da vida e do mundo.

Porém, o mundo deste início de séc. XXI não é mais, felizmente, o mun­do do passado. Tudo mudou, ou está em vias de irreversível mudança. Pri­meiro, foi o 11 de Setembro de 2001 que no-lo revelou de forma violenta e, verda­deiramente, apocalíptica. Agora, é o 11 de Março de 2004 que no-lo confirma, de forma igualmente violenta – um verdadeiro massacre! – mas, pelos vistos, a única linguagem que as minorias ricas dos países da Europa e do Ocidente entendem e que as deixa em estado de choque e de alerta geral.

Inopinadamente, começamos a per­ceber que este nosso mundo feito de mentira não pode durar muito mais tempo, tal como está. Ou passamos (= Páscoa!) das actuais economias idolá­tri­cas e sacrificialistas para verdadeiras economias de partilha segundo as ne­ces­sidades de cada pessoa e de cada povo, e adoptamos efectivas políticas de cuidado pela natureza e pelas pes­soas e pelos povos mais débeis, ou perdemos o futuro.

As minorias ricas dos países do Oci­dente e as respectivas maiorias que as suportam, ou até aplaudem e votam nelas para que nos governem, bem po­dem estrebuchar, em momentos dramá­ticos como o 11 de Setembro e o 11 de Março, e desdobrar-se em cimeiras e em declarações televisionadas a ga­rantir que tudo está sob controlo; bem podem armar-se cada vez mais até aos dentes, aumentar os efectivos policiais, munir-se de sofisticados aparelhos, ins­talar câmaras de vídeo por todos os can­tos e esquinas. Mas quando menos contarem, tudo isso lhes explode nas mãos e atirará pelos ares tanta arro­gân­cia e mentira.

Para tanto, basta que alguns dos seus homens de mão, nos quais são obrigados a confiar, sejam ao mesmo tem­po elementos infiltrados, amigos dos empobrecidos, pessoas solidárias com as causas dos empobrecidos, militantes que aceitam trabalhar com as minorias ricas dos países do Ocidente, mas para melhor lhes conhecerem os hábitos e, com isso, ajudarem a derrubá-las mais depressa. Ou que duas mãos cheias de suicidas islâmicos – a quem os seus lí­de­res mentirosamente prometem o paraíso, tal como outrora a Igreja cató­lica de Roma prometeu o perdão de todos os pecados aos cruzados que lutassem pela libertação dos “Lugares Santos” – ocupem aviões em viagem de rotina e os lancem contra ricas e ar­ro­gantes torres ocidentais. Ou que alguns militantes islâmicos reúnam uma apreciável quantidade de explosivos, os transportem dentro de vulgares mo­chilas que depois são propositadamen­te abandonadas por eles em comboios a abarrotar de pessoas à hora de ponta e programadas, para explodirem em re­de pouco depois.

Nunca como hoje foi tão fácil e tão barato aos empobrecidos do mundo per­turbarem a segurança e a obscena os­tentação em que vivem as minorias ricas nos países do Ocidente. Estas po­dem não ser directamente atingidas pelas acções políticas violentas dos em­pobrecidos, mas já é manifesto que começam a descobrir que não há mais país ou zona do mundo onde a sua se­gurança pessoal e dos seus bens este­ja garantida.

“Havia um homem rico, a quem as terras deram uma grande colheita. E pôs-se a discorrer, dizendo consigo: «Que hei-de fazer, uma vez que não te­nho onde guardar a minha colheita?» Depois continuou: «Já sei o que vou fazer: deito abaixo os meus celeiros, cons­truo uns maiores e guardarei lá o meu trigo e todos os meus bens. De­pois, direi a mim mesmo: Tens muitos bens em depósito para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te.»

Deus, porém, disse-lhe: «Estúpido! Nesta mesma noite, vai ser reclamada a tua vida; e o que acumulaste para quem será?»” (cf. Lucas 12, 16-20).

A parábola é atribuída a Jesus, o de Nazaré, que, como sabemos pela história, acabou crucificado às ordens do Império romano e do Templo de Je­ru­salém, como um perigoso terrorista, depois de o terem prendido e julgado sumariamente, num julgamento faz de conta, já que a sentença estava deter­mi­nada, antes de o acusado começar a ser ouvido. Nessa noite, deitaram-se descansados. E, no dia seguinte, assis­tiram no Templo, em aparente seguran­ça, às ceri­mónias sempre comoventes e solenes da festa da Pás­coa judaica.

Não sabiam que, ao matarem o ter­rorista Jesus, que reclamava pão para todos os povos, justiça para todos os povos, dignidade para todos os povos, vida e vida em abundância para todos os povos, estavam, afinal, a matar o Jus­to. Para eles, não passava de um reles terrorista. Atentara contra a riqueza acu­mulada e concentrada deles, contra a segurança deles, contra a vida de lu­xo deles. E, para cúmulo, ainda se atre­vera a dizer que Deus não era com eles que estava, mas com as inúmeras vítimas que as economias e as políticas deles já então inevitavelmente produzi­am em massa.

Encontramo-nos hoje a dois mil anos sobre estes factos. Dois mil anos praticamente perdidos para as causas da vida e vida em abundância para to­dos os povos. Sobretudo, por culpa das Igrejas. Nada, porém, voltará a ser co­mo até aqui. O terceiro milénio será – já está a ser – o milénio da Luz e da Mu­dança. Se, desde Constantino, no séc. IV, as Igrejas desistiram da profecia e optaram por viver em blasfema alian­ça com o Império de turno e com as mi­norias ricas dos países onde estão implantadas, o Espírito Santo mostra agora que até das pedras pode fazer filhas, filhos de Abraão, até dos ateus pode fazer militantes revolucionários que põem em perigo e derrubam os po­de­rosos dos seus tronos e mandam de mãos a abanar as minorias ricas que empobrecem a Humanidade (cf. Lucas 1, 51-53). “Nesta mesma noite – diz Jesus – ou mesmo em pleno dia – diz a nossa Actualidade política mundial – vai ser reclamada a tua – a vossa – vi­da; e o que acumulaste(s) para quem será?”

Acordemos. Porque se, nestes nos­sos países da Europa e do Ocidente, continuarmos a ser cúmplices das mino­rias ricas que estupidamente insistem nas suas economias idolátricas e sacri­ficialistas e nas suas políticas sem mi­sericórdia, em lugar de sermos fecunda­mente solidários com os milhares de milhões de vítimas que essas mesmas economias e políticas produzem em todo o mundo, depois não nos queixe­mos. Está nas nossas mãos a decisão política. Decidamos em consciência. Pe­la paz, que nasce da Justiça e da Ri­queza partilhada segundo as neces­si­dades de cada pessoa e de cada povo. Contra a paz terrorista do impé­rio.


Nota da Direcção

O meu abraço companheiro e irmão. Depois do "Alerta" lançado na última edição do Jornal Fraternizar, começou a entrar dinheiro na Associação Padre Maximino, sua proprietária e editora. Bastante pouco, por sinal, em relação ao número de pessoas que regularmente o recebem e que, concerteza, o lêem, nem que seja para o criticar e diabolizar. Mas o suficiente, para podermos pensar na edição deste número 153 (nunca ninguém pensou que conseguíssemos ir tão longe como já fomos!), que aqui se apresenta. Chegou igualmente um veemente e entusiástico Apelo, assinado por um velho amigo e companheiro nestes combates pela vida com qualidade e com dignidade. O Prof. Dr. Manuel Sérgio leva longe o seu entusiasmo pelo Jornal Fraternizar e pelo seu director desde o primeiro número. O Apelo encontra-se na íntegra e em destaque nesta mesma página. Leiam-no, deixem-se comover e tomem decisões em consciência. Pode haver pessoas que não possam realizar o Apelo nos termos em que ele vai escrito. Mas poderão assumir idêntico compromisso, com uma contribuição mais baixa. Cada pessoa verá. E, se possível, ajudem-nos a encontrar quanto antes um(a) chefe de redacção com preparação teológica libertadora. E uma mão cheia de colaboradoras/colaboradores e/ou "correspondentes".

Apelo de Manuel Sérgio (Lisboa)

O grupo dos cem

O Jornal Fraternizar não pode acabar. Como sabemos todos nós, os que o lemos com atenção e interesse, ele desempenha um papel insubsti­tuível, na nossa Comunicação Social. Ninguém, em Portugal, põe em causa a velha e decrépita instituição eclesiástica; ninguém, em Portugal, rastreia e aponta as mais actualizadas obras teológicas; ninguém, em Portugal, nos esclarece que a Ética não se resume a um conjunto de normas impostas por um qualquer Vaticano, mas que deverá decorrer da nossa relação com Deus, tendo Jesus como mediador – ninguém, em Portugal, faz tudo isto, como o Jornal Fraternizar.

Os cristãos sabem que a vida tem sentido, mas habituaram-nos a que o sentido nos fosse dado, como se dão ordens numa prisão. E, muitas vezes, empunhando um texto da Boa Nova truncado, deturpado, trapaceado, de acordo com as conveniências da Cultura do Poder – dominação d’abord, usando as palavras dessoutro profeta que é o nosso amigo Manuel Reis. Ora, é o Jornal Fraternizar que nos chama a atenção que o Credo quia absurdum [Creio, porque não compreendo] dá, hoje, vontade de rir; não passa de uma aberração adstrita ou à ignorância ou a uma qualquer patologia mental.

Assim, porque o nosso Padre Mário está sem dinheiro para publicar os próximos números do Jornal Fraternizar; porque sofro com a possibilidade de que tal venha a suceder – proponho a fundação do Grupo dos Cem, ou seja, um grupo de cem pessoas que se comprometerão a enviar 100 euros, cada um, nos meses de Janeiro – Abril – Julho - Outubro ao Jornal Fraternizar, para que de facto apareça o dinheiro que possibilita a sua existência.

Num país de retórica sentimental, praticaríamos uma boa acção... sem muita conversa! Eu começo já e vou enviar-lhe, dentro de dias, 100 euros. Os nomes dos aderentes a esta iniciativa seriam publicados (caso assim o entendessem) no Jornal Fraternizar.

O Padre Mário levanta também a hipótese de deixar o cargo de director deste jornal. Já por diversas vezes convalidei a inconsistência e a fragilidade do topos estruturalista da “morte do homem”. Neste caso, ninguém, como o Padre Mário, dá vida, confere legitimidade e autenticidade ao Fraternizar. Este, sem o seu actual director, não tem sentido. Portanto, a sólida e rigorosa  formação teológica do Padre Mário, a sua ideologia política, a sua rijeza de ânimo (que não é coisa de somenos neste Portugal desvertebrado e mole) fazem dele o director ideal do Jornal Fraternizar. Qualquer outro nome seria um acrescento de mau gosto.

E termino, esclarecendo que faltam 99 pessoas para que o Grupo dos Cem seja uma realidade! O Jornal Fraternizar não é um luxo supérfluo, é uma necessidade indispensável, inadiável. As renúncias a rotinas fáceis e vazias têm por contraponto exigências críticas, as quais se encontram bem patentes, através do relevo e actualidade das suas propostas, na pessoa do Padre Mário e no Jornal Fraternizar.

Vamos todos lutar por eles? Trata-se, aqui, de “combater o bom combate”...


Juan José-Tamayo Acosta (Espanha)

São dois textos teológicos de leitura obrigatória. O próprio autor fez questão de os partilhar gratuitamente com as leitoras, os leitores do Jornal Fraternizar. Aparecem um depois do outro. Aos três nomes aos quais a Carta Aberta se dirige, podem acrescentar também o de Durão

1. Carta Aberta de um teólogo a Aznar, Bush e Blair

Senhores José María Aznar, George Bush e Tony Blair

Como teólogo cristão, dirijo-me a Vocês, que se dizem membros de três igrejas: Aznar, da católica; Bush, da metodista; Blair, da anglicana. E faço-o, recordando-lhes algumas cenas da história sagrada, textos do Novo Testa­mento e páginas da história da Igreja que vocês estudaram pelos mesmos anos que eu nas escolas paroquiais dos anos cinquenta e sessenta do sé­culo XX e estão gravados no imaginário colectivo dos homens e mulheres da nossa geração. Pelo que lhes são fami­liares.

O primeiro livro da Bíblia, o Géne­sis, conta a estória do assassinato de Abel pelo seu irmão Caim. Lembram-se? Não direi que Sadam Hussein seja Abel, porque tem todos os traços de Caim, porém, o povo do Iraque, sim, é Abel, e vocês são considerados por muitas pessoas a encarnação de Caim, com a agravante de que na guerra contra o Iraque mataram muitos seres humanos inocentes, que se somam aos mortos da Guerra do Golfo e aos cau­sa­dos pelo embargo económico de 12 anos. O Deus em quem vocês dizem acre­ditar faz-lhes hoje a mesma pergun­ta que fez a Caim: “Onde está o teu irmão? Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama da terra até mim. De futuro, serás amaldiçoado pela terra que por causa de ti abriu a boca para beber o sangue do teu irmão.” (Géne­sis 4, 9-11). E a sua resposta não é o arrependimento e o stop da guerra, mas a prossecução do espírito belicista.

Certamente que vocês, senhores Bush, Blair e Aznar, participam nos actos religiosos das suas respectivas igrejas, onde escutam o Sermão da Montanha: “Felizes os que trabalham pela paz, porque a esses Deus chama seus filhos”. Porém, não fazem caso e continuam a trabalhar por e para a guerra. É possível que compartilhem cada domingo o pão e o vinho da fra­ter­nidade, ao mesmo tempo que estão dispostos a espoliar o povo iraquiano das suas fontes de riqueza. Oxalá escutem a despedida dos sacerdotes e pastores, no final do culto divino: “Ide em paz”, mas quando saem do templo fazem orelhas moucas e voltam a man­dar soldados para a frente de batalha, muitos dos quais morrem como conse­quência da espiral da violência que vocês desencadearam.

O senhor Bush presume viver num país onde se define como em nenhum outro a vida, a dignidade e a integrida­de da pessoa, ao mesmo tempo que se esquece das penas de morte assi­nadas por ele, que constituem o maior atentado contra o que diz defender. Talvez seja um esquecimento freudia­no! A isso há que somar as condições infrahumanas em que se encontram os presos afegãos em Guantánamo, sem ter provas de culpabilidade contra eles e sem as mínimas garantias jurídicas. Um novo golpe a essa dignidade foi dado com a forma de apresentar Sa­dam Hussein - depois da sua prisão - denunciada pelo Vaticano como aten­tatória contra um ser humano. Contra a dignidade do ser humano declarou-se Bush ao pedir para o ex-presidente iraquiano a pena de morte. O presi­den­te dos Estados Unidos da América é uma pessoa ávida de sangue. Mesmo assim, considera-se fiel seguidor de Jesus Cristo, a quem tem pelo filósofo que mais influenciou a sua vida.

A página da história da Igreja que quero recordar-lhes é a das cruzadas da Idade Média. Então foi o próprio papa que se colocou à frente daquele movimento militar para recuperar os lugares santos nas mãos dos “infiéis”. Os historiadores coincidem em reco­nhe­cer que os conquistadores do Santo Sepulcro, ao tomar Jerusalém, derra­ma­ram sangue inocente a jorros: mu­lhe­res, crianças e velhos (J. Lortz). Ni­co­lau Chomiates, testemunha ocular da primeira cruzada, confessa que os ca­valeiros cruzados cristãos sentiam a mesma satisfação pelos assassinatos que os pagãos.

Vocês, senhores Bush, Blair e A­znar, são os novos cavaleiros cristãos que declararam a primeira cruzada do século XXI para libertar o Iraque da ci­vilização muçulmana e introduzi-lo na civilização ocidental, e fizeram-no com actos de barbárie que desmentem o alto grau de desenvolvimento cultural e eco­nómico de que presumem. A vossa cruzada visa recuperar os lugares san­tos do Iraque, não para preservar o sagrado de uma qualquer invasão ateia, mas para se apoderarem das suas riquezas. São idólatras que adoram o ouro do bezerro mais do que o bezerro de ouro. Na Idade Média, o papa tê-los-ia abençoado e condecorado. Hoje, repreende-os, ao mesmo tempo que de­clara a guerra uma ameaça contra a humanidade. A paz é o único caminho para construir uma sociedade mais justa e solidária. Porém, vocês fecharam os ouvidos às vozes da paz e preferiram avançar com os vossos planos bélicos até àquilo que chamam vitória que é, afinal, uma derrota e uma manifestação da debilidade da civilização ocidental.

Por isso, a muitos cristãos que luta­mos pela paz é-nos muito difícil con­siderá-los membros da nossa comuni­da­de e irmãos na fé. São vocês próprios os que se autoexcluíram, ao transgredir o mandamento divino “Não matarás”, que se converte em imperativo categóri­co para os crentes de todas as religi­ões. Gostaria de lhes recordar a mensa­gem dirigida pelos velhos profetas de Israel àqueles que então misturavam o sangue dos inocentes com o sangue das vítimas dos sacrifícios: “As vossas mãos estão cheias de sangue. Lavai-vos, purificai-vos, tirai da frente dos meus olhos a malícia das vossas ac­ções. Cessai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem; procurai o que é justo, socorrei os oprimidos, fazei justiça aos órfãos, defendei as viúvas.” (Isaías, 1, 15b-17)

Relendo nestes dias “A paz perpé­tua”, de Kant, encontrei um texto que se pode aplicar a vocês quase à letra: “Esta facilidade para fazer a guerra, unida à inclinação que sentem para ela os que têm a força e que parece congé­nita à natureza humana, é o mais pode­roso obstáculo para a paz perpétua”. Vocês têm a força, não a razão.

E não satisfeitos com fechar os ouvidos aos líderes religiosos e aos protestos dos cidadãos, Bush apelou a Deus para justificar a guerra. Desta maneira pensava ver-se livre das crí­ticas e estar legitimado para não ceder nos seus propósitos destrutivos. Agindo assim torna realidade o medonho testemunho do filósofo judeu Martin Buber: “Deus é a palavra mais vili­pen­diada de todas as palavras humanas. Nenhuma foi tão manchada, tão mutila­da. As gerações humanas lançaram so­bre esta palavra o peso da sua vida angustiada e esmagaram-na contra o solo. Jaz no pó e carrega o peso de todas elas. As gerações humanas, com seus patriotismos religiosos, despeda­ça­ram esta palavra. Mataram e deixa­ram-se matar por ela. Esta palavra leva as suas impressões digitais e o seu san­gue. Os seres humanos desenham um boneco e escrevem por baixo a pa­lavra «Deus». Assassinam-se uns aos outros e dizem «fazemos isto em nome de Deus». Devemos respeitar os que proíbem esta palavra, porque se re­belam contra a injustiça e contra os excessos que com tanta facilidade se cometem com uma suposta autorização de«Deus».”

2. O neoliberalismo como nova religião

A sociedade ibérica viveu durante as três últimas décadas um intenso pro­cesso de secularização, que se deixa perceber em muitas das manifestações sociais, especialmente, nas festas de Na­tal e Ano Novo. Umas festas que muitas pessoas deixaram de celebrar no seu sentido cristão, para as celebrar no marco duma nova religião, a do neo­liberalismo, que é a religião do consu­mo.

Nos anos vinte do século passado, escrevia Walter Benjamim um lúcido artigo intitulado O capitalismo como religião, no qual considerava o capita­lismo não como uma mera construção religiosamente determinada (assim o caracterizou Max Weber em Ética pro­tes­tante e espírito do capitalismo), mas como um “fenómeno essencialmente re­ligioso”.

O cristianismo da Reforma, mais do que favorecer o surgimento do capita­lismo, o que fez foi transformar-se em capitalismo, cujos traços fundamentais, no dizer de Benjamim, são os seguin­tes: a) é uma religião do culto, talvez a mais extrema devido ao seu utilita­rismo; b) a duração do culto é perma­nen­te; c) há uma autogeração do êxito, uma ébria celebração dos balanços e dos lucros e uma orgia do consumo; d) a laboriosidade cúltica não conhece fronteiras; e) longe de libertar da culpa, o culto capitalista culpabiliza por si mes­mo; f) Deus deve ser ocultado, invi­sibilizado.

O que Benjamim diz do capitalismo é aplicável hoje - e com juros - ao neo­li­be­ralismo, que se configura como um sistema inflexível de crenças e funciona como religião monoteísta de tendência rígida e desumanizadora. Nela o Mer­cado suplanta o Deus das religiões mo­no­teístas e apropria-se dos seus velhos atributos: omnipotência, omnipresença, omnisciência, providência. Aparece como um Deus único e ciumento, que não admite rival, nem divino nem hu­ma­no. Proclama que fora do Mercado não há salvação, enquanto que exclui da salvação a maioria da população do Terceiro Mundo e amplos sectores do Primeiro Mundo: no total, mais de duas terças partes da humanidade.

A religião monoteísta do Mercado tem os seus textos canónicos que ex­põem a doutrina económica ortodoxa. São as obras de Hayek e Friedman, pais do neoliberalismo, nas quais se estabe­lece uma visão do mundo de acentuado carácter dualista, já que dissocia actos e valores, ética e economia, indivíduo e sociedade, trabalho e satisfação, li­ber­dade e igualdade. Esta religião con­sidera apócrifos os textos que criticam a sua doutrina económica, e classifica-os de demagógicos.

Celebra as suas assembleias litúr­gicas nas reuniões do G-8, BM, FMI, OMC, onde se tomam as decisões sobre a economia mundial, que afectam na sua maioria os países subdesenvolvi­dos. Estes, que não intervêm nem po­dem exercer o direito de veto em tais as­sembleias, vêem-se obrigados a acei­tá-las e a pô-las em prática, sob pena de terríveis sanções que se re­per­cutem severamente nas maiorias populares, já de si marginalizadas. Re­pri­me as manifestações dos movimen­tos de resistência global por as consi­derar atentatórias contra a “sagrada” ordem estabelecida.

A religião do mercado dispõe de eficazes vias de influência na opinião pública, como são as chamadas “bíblias de investidores e especuladores de Bolsa” (Ignacio Ramonet): Wall Street Journal, The Financial Times, The Economist, que anunciam o “evangelho da felicidade” do neoliberalismo e de­fendem a privatização como solução para todos os problemas. O seus sa­cramentos são os produtos comerciais que se publicitam através duma atrac­tiva simbólica venal carregada de men­sagens subliminares orientadas a criar necessidades que a maioria da cida­dania não pode satisfazer, e a motivar o consumo de maneira compulsiva.

Os templos profanos da nova religião são hoje os bancos, de cujos quadros informativos se aproximam os clientes com o mesmo respeito e as mesmas reverências que as pessoas crentes nos seus templos, e as grandes superfícies comerciais, verdadeiros lu­gares de peregrinações massivas de consumidores de todas as ideologias e credos. A nova religião pratica sa­crifícios, não em símbolo, mas em todo o seu realismo. No altar da globaliza­ção neoliberal sacrificam-se diariamen­te vidas humanas, as dos marginaliza­dos e excluídos do sistema pelo próprio sistema, e a vida da natureza através da desflorestação dos bosques, da con­taminação do ar, dos rios, da vege­ta­ção, dos cultivos, etc. E tudo ad maiorem capitalismi gloriam (= para maior glória do capitalismo). Se na via de Jesus de Nazaré predomina a mi­sericórdia sobre os sacrifícios, na re­ligião do mercado imperam estes sobre aquela. Se ali se estabelecia o perdão das dívidas, aqui impõe-se o pagamen­to até ao último cêntimo.

Esta religião conta com um alto clero supranacional, representado por organizações como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional, a Or­ganização Mundial do Comércio, que goza de um poder não legitimado de­mo­craticamente. Um clero que prega com fervor e zelo missionários um cre­do económico único, ao qual se con­verteu a maioria dos Estados do pla­neta, inclusive, os mais pobres. Pro­cura-se convencê-los de que só a re­citação e a prática desse credo podem salvá-los do caos em que vivem mer­gu­lhados. Para entrar “no santoral da prosperidade”, o poderoso e temido clero neoliberal impõe como penitência severos ajustes estruturais.

Nenhuma religião foi capaz de es­tender de maneira tão eficaz e univer­sal o seu credo como a do Mercado, que conta com ardentes teólogos nas suas fileiras. Um dos mais destacados é Michael Novak que, depois de tentar demonstrar que o capitalismo é o me­lhor modelo económico devido às ri­quezas que gera, à excelente distribui­ção das mesmas e à obtenção dos maio­res níveis de felicidade, ousa dizer que a tradição judeo-cristã é o terreno desse sistema económico e constitui um aliciante para a “ética da produção”.

Outro ardente teólogo da religião do Mercado é Michel Camdessus, ex-secretário geral do Fundo Monetário Internacional e hoje assessor do Vati­ca­no em matéria de ética económica, que apresenta os empresários cristãos como “os administradores de uma parte em todo o caso desta graça de Deus - o alívio dos sofrimentos dos nossos irmãos - e os procuradores da expansão da sua liberdade”. E não contente com esse abuso da confiança de Deus, vai ainda mais longe e propõe a necessi­dade de celebrar as bodas entre o mer­cado mundial e o reino de Deus uni­versal como condição necessária para uma maior produção e uma melhor repartição dos bens produzidos.

Para chegar a estas conclusões, que chocam com a realidade e não re­sistem à mais elementar análise em­pírica, os teólogos da religião do mer­cado apropriam-se da linguagem dos teólogos e das teólogas da libertação - até ao ponto de comparar a Businness Corporation moderna como “uma extre­ma­mente desprezada encarnação da pre­sença de Deus no mundo” (Novak) - não sem antes a esvaziar de todo o conteúdo libertador real. Fazem sua a opção preferencial pelos pobres, mas só de forma retórica, quando na teoria e na prática legitimam o sistema que causa a pobreza. Afirmam que os prin­cípios igualitários do cristianismo se tornam realidade na economia de mer­ca­do, quando o que esta gera são desigualdades sem limites e cada vez mais profundas.

É preciso estar muito atentos a esta nova religião e aos seus teólogos, por­que deixa muitos cadáveres por toda a parte e isso é incompatível com o Deus da vida da maioria das religiões.


Frei Betto (Brasil)

Entre a cruz e o pão

A cruz é o símbolo católico do Cris­tianismo. Segundo os publicitários, a mais simples e genial logomarca ja­mais cria­da: dois pedaços de pau cru­zados, ou apenas dois riscos perpendi­culares riscados na parede, ou ainda, dois de­dos colados, um na vertical, outro na horizontal.

Pena que a confissão religiosa que celebra a vida como dom maior de Deus adopte como símbolo um instru­mento de morte. Cruzes, são adequa­das nos cemitérios, sobre tumbas. Não é o caso de Jesus, que deixou vazio o seu túmulo de pedra. A sua morte não é o facto central da fé cristã. É a sua ressurreição. Como diz Paulo, não hou­vesse Jesus ressuscitado, a nossa fé seria vã (I Coríntios 15, 14).

Como simbolizar a ressurreição? Até hoje não conheço quem se tenha mostrado suficientemente criativo para o conseguir. Há pinturas e imagens em que Jesus aparece revestido de um corpo glorioso, mas elas parecem evo­car um homem saindo do banho…

Na Igreja primitiva, era o peixe o símbolo secreto de fé cristã, em refe­rên­cia ao baptismo pela água. Assim como os peixes vivem nas profundezas do mar e dos lagos, os cristãos renas­ciam, pela água baptismal, mergulha­dos nas catacumbas, onde foram en­con­tradas várias pinturas de peixes.

Para santo Agostinho, Cristo é o peixe vivo no abismo da mortalidade, como em águas profundas (De Civitate Dei XVIII, 23). Além disso, peixe, em gre­­go - ichthys - era considerado acrós­tico de Iesous Christos Theou (H)yios Soter (Jesus Cristo, Filho de Deus Salvador).

Foi a perseguição romana que in­duziu as comunidades a adoptarem a cruz, instrumento de suplício e morte do Império. Nele, Jesus foi sacrificado. A mais antiga cruz que se conhece data do século IV e está gravada no portal da igreja de Santa Sabina, em Roma, no monte Aventino, anexa ao convento que abriga o governo geral da Ordem Dominicana.

Cessada a perseguição à Igreja, a cruz passou da clandestinidade para a centralidade nas torres das igrejas e ca­pelas. E, aos poucos, sombreou o Cris­tianismo. A ponto de a Via Sacra, antes da reforma litúrgica promovida pela Concílio Vaticano II, contar com ape­nas catorze estações. Encerrava-se com a morte no Calvário. Hoje, são quinze. A ressurreição de Jesus é o ponto culminante dessa forma de de­vocão cristã.

A predominância da cruz incutiu no catolicismo uma espiritualidade lúgubre. Padres e beatas vestiam-se de preto. O riso, a alegria, as cores, pareciam ba­nidos da liturgia. Enfatizava-se mais a morte de Jesus pela redenção de nossos pecados e, de quebra, as penas do in­ferno, que a sua ressurreição como vi­tória da vida, de Deus, sobre as forças da morte. Mais a dor que o amor.

Como simbolizar a ressurreição? Através de algo que expresse a vida. E não conheço melhor símbolo que o pão. Alimento universal, é encontrado em qua­se todos os povos ao longo da his­tória, seja feito de trigo, milho, mandio­ca, centeio, cevada ou qualquer outro grão ou tubérculo. E possui uma propri­edade especial: come-se todos os dias, sem enjoar.

”Eu sou o pão da vida”, definiu-se Jesus (João 6, 48). Porque o pão repre­senta todos os demais alimentos. E a vida, como fenómeno biológico, subsiste graças à comida e à bebida. São os únicos bens materiais que não podem faltar ao ser humano. Caso contrário, ele morre. No entanto, é vergonhoso cons­tatar que, hoje, segundo a FAO, 842 milhões de pessoas vivem, no mundo, em estado de desnutrição crónica. Isso em países ditos cristãos, muçulmanos, budistas… Para que serve uma religião cujos fiéis não se sensibilizam com a fo­me alheia? Por que tanta indife­rença diante dos povos famintos? O que significa adorar a Deus, se fica­mos de costas ao próximo que padece fome? (I João 3, 17).

Jesus fez da partilha do pão e do vinho, da comida e da bebida, o sacramento central da comunidade de seus discípulos - a eucaristia. Ensinou que repartir o pão é partilhar Deus.

Na Palestina do século I havia mi­seráveis e famintos (Mateus 25, 34-45; Lucas 6, 21). Muitos empobreciam em decorrência da perda de suas ter­ras, do peso das dívidas, dos tributos exigidos pelo poder romano, dos dízi­mos cobrados pelas autoridades reli­giosas. Diante disso, Jesus assumiu a causa dos pobres e promoveu um mo­vimento indutor da partilha dos bens essenciais à vida (Marcos 6, 30-44), onde o fio condutor é o alimento e, em especial, o pão.

Desde o início da sua militância, a partilha do pão foi a marca de Jesus (Lucas 1, 53; 6, 21). A comensalidade era a expressão vivencial mais cara­cte­rística de sua espiritualidade, para a qual havia uma íntima relação entre o Pai (o amor de Deus e a Deus) e o pão (o amor ao próximo). Pai Nosso e pão nosso. Deus só pode ser acla­mado como “Pai Nosso”, na medida em que o pão não for só meu ou teu, mas nosso, de todos. É o que explica a ausência de preconceitos por parte de Jesus quando se tratava de sentar-se à mesa com pecadores e publica­nos, ainda que isso lhe valesse a fama de “comilão e beberrão” (Lucas 7, 34; 15, 2; Mateus 11, 19).

Partilhar o pão era um gesto tão característico de Jesus que isso per­mitiu que os discípulos de Emaús o identificassem (Lucas 24, 30-31). E a ceia tornou-se o sacramento por ex­ce­lência da presença e da memória de Jesus (Marcos 14, 22-24; 1 Corín­tios 11, 23-25).

O pão - eis o símbolo (= aquilo que une) mais expressivo da prática de Jesus, a ponto de transubstanciá-lo em seu corpo. E todo pão que se oferece a um faminto tem carácter sa­cramental (Mateus 25, 34). É ao próprio Jesus que se oferece. Às vésperas de sua morte, Jesus antecipou-nos a sua ressurreição ao dividir com seus discípulos, na ceia, o pão e o vi­nho. Ele se deu a nós. No gesto de justi­ça, ao partilhar o pão (significando todos os bens da vida) nós nos damos a ele. Eis o sentido evangélico da comunhão. É o que retratam a parábola do filho pródigo, na qual o perdão é celebrado em torno da comida, o “novilho gordo” (Lu­cas 15, 1132); e os episódios do bom samaritano - o cuidado (Lucas 10, 29-37); da mulher cananéia - a cura (Mateus 15, 21-28); do óbulo da viúva - o desapego (Marcos 12, 41-44), da chi­co­tada no Templo - a indignação fren­te à injustiça (João 2, 13-22).

Pão - bem essencial à vida, dom maior de Deus, que se fez carne e se fez pão, a ponto de Jesus afirmar “o pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo” (João 6, 51). Se já não temos, entre nós, a presença visível de Jesus, ao menos adoptemos, como sinal da sua presença, isto que ele mes­mo escolheu na última ceia - o pão. Sinal de que somos também seus discí­pulos, empenhados em tornar realida­de, para todos, “o pão nosso de cada dia”, os bens que imprimem saúde, di­gni­dade e felicidade à nossa existência.


Leonardo Boff (Brasil)

Fundamentalismo mundial

Três tipos de fundamentalismo do­minam a cena mundial: o do pensa­men­to único representado pela globa­liz­ação imperante; o suicidário dos muçulmanos cujo principal represen­tan­te é Bin Laden; e o do Estado ter­rorista da guerra preventiva, corpori­ficado por Bush e por Sharon.

É sabido que o fundamentalismo não é uma doutrina, mas uma maneira excludente de ver a doutrina. O funda­mentalista está absolutamente convicto de que sua doutrina é a única verda­deira e todas as demais, falsas. Por isso elas não têm direito, podem e de­vem ser combatidas.

O fundamentalismo do pensamen­to único apresenta o modo de produ­ção capitalista com seu mercado globa­lizado e a ideologia política do neoli­be­ralismo com sua democracia eleito­ral e delegatícia como a única forma razoável de organizar o mundo. O que Bush quer impor por própria conta ao Iraque destroçado traduz esse funda­men­talismo.

O fundamentalismo suicidário mu­çulmano parte da convicção de que o Ocidente, inimigo histórico desde os tem­pos das cruzadas, é o Grande Sa­tã, porque é ateu prático, materialista, imperialista e sexista. Por isso, deve ser combatido em todas as frentes e fazer vítimas o mais que se puder com as bênçãos do Altíssimo. São os únicos tão convencidos que aceitam jovial­men­te ser homens-bomba.

O fundamentalismo do Estado ter­rorista à la Sharon é movido pela con­vicção de que os judeus têm o direito, acima de qualquer outro direito dos pa­lestinianos, de montar Israel ao tamanho que tinha nos tempos do rei David. Por isso Sharon prossegue com as colonizações e enquanto não rea­lizar esse propósito boicotará qualquer projecto de paz.

O fundamentalismo do Estado ter­rorista à la Bush possui fortes raízes re­ligiosas, ligadas a sua biografia pre­gressa. Foi por vinte anos dependente de álcool, até que em 1984, a convite de um amigo, Don Evans, actual se­cre­tário do comércio, começou a fre­quentar o círculo bíblico dos evangé­licos fundamentalistas. Após dois anos, não era mais ébrio de álcool, mas ébrio da ideologia salvacionista destes fun­da­mentalistas que se divulgava forte­mente dentro do partido republicano. Segundo ela, “o destino manifesto” dos EUA hoje é melhorar o mundo na me­dida em que o impregnar com os va­lores da cultura norte-americana: com liberdade, democracia, e livre mercado. Bush filho fazia a campanha da reelei­ção do pai, apresentando-se como “um homem que tem Jesus em seu coração”. O brasilianista Ralph della Cava e o teólogo J. Stam contam que, mais tar­de, ao postular-se candidato, Bush reu­niu os pastores da zona e comunicou-lhes: “fui chamado [por Deus]”. Em se­guida fez-se o ritual “da imposição das mãos”, sagrando-o Presidente preventi­vo. Essa pré-história é importante para se entender a fúria fundamentalista que se apossou de Bush, após os atentados de 11 de setembro de 2001. Optou com­ba­ter o mal com o mal, ameaçando com guerra preventiva a todos os países do “eixo do mal”. Deixou claro: “Quem não está connosco, está contra nós”, é terrorista. Antes do ultimato a Saddam Hussein, pediu aos assessores que “o deixassem a sós por dez minutos”. Qual Moisés foi consultar-se com Deus. E numa entrevista ao New York Times de 26/04/03 declarou: “Tenho uma missão a realizar e com os joelhos dobrados peço ao bom Senhor que me ajude a cumpri-la com sabedoria”.

Pobre Deus! Como salvaremos a humanidade desses desvairados?


Estudante duma Universidade do Porto perguntou e pe. Mário respondeu

Porque não é permitido às mulheres ascenderem ao sacerdócio?

"Porque não é permitido as mulheres ascenderem ao sacerdócio?" Esta é uma das várias perguntas que um jovem estudante duma Universidade do Porto, Vítor de seu nome, a braços com um trabalho na área da Comunicação, formulou ao pe. Mário. As respostas a esta e às outras perguntas vêm a seguir. Ao reproduzir aqui as perguntas e as respostas do seu director, Jornal Fraternizar apenas pretende oferecer às suas leitoras, aos seus leitores um momento mais de reflexão, em ordem a uma maior consciencialização, sempre oportuna e necessária. Leiam. Divulguem. E alegrem-se, porque, afinal, se a Igreja souber estar sempre em dia com o Projecto de Jesus - um projecto político que tem a ver com o planeta que habitamos e com o bem-estar das pessoas e de toda a criação - sempre haverá entre as sucessivas gerações de mulheres e de homens que vêm a este mundo quem queira fazer-se discípula, discípulo dele. Inclusive, como membro duma Igreja que mostre ter a humildade de se assumir como parteira da Humanidade. Nunca como poder eclesiástico sobre as pessoas, como acontece actualmente.

P. Considera a Igreja discrimina­tória para as mulheres?

R. Mas isso é escandalosamente manifesto. Até os cegos vêem. Reco­nheço, entretanto, que as coisas foram bem piores nos séculos anteriores, com excepção do século primeiro do Cristia­nis­mo. Então, as mulheres cristãs eram iguais aos homens cristãos. Não eram sacerdotes, porque os homens também não eram. Mas presidiam, em igualda­de com eles, às assembleias comuni­tá­rias. Infelizmente, foi sol de pouca dura. No meio de sociedades marcada­mente patriarcais, depressa foram ex­cluí­das, até em nome do proselitismo. As populações “exigiam” líderes ho­mens. E a Igreja, em lugar de mudar a mentalidade dominante, optou por se adaptar a ela. Curiosamente, hoje que a mentalidade dominante cada vez mais aceita e “exige” que as mulheres sejam tratadas em pé de igualdade com os ho­mens, a postura das cúpulas da I­gre­ja católica é ainda mais escandalo­sa. A sua resistência à mudança está a custar o futuro à Igreja católica, por­que as mulheres mais conscientes, assim como os homens, não aceitam mais integrá-la. E fazem muito bem. Por mim, só estranho que ainda sejam tan­tas as que continuam a marcar presen­ça nas missas dominicais e a colaborar nas catequeses de crianças. E pelos ventos que sopram hoje da Cúria Ro­mana, é de crer que a situação vá piorar, uma vez que lá nem se vê com bons olhos que as mulheres se aproxi­mem dos altares, a não ser como zela­doras e mulheres de limpeza, façam de acólitas e cantem. Misoginia clerical pior do que esta, só mesmo a da Idade Média, quando as mulheres eram quei­madas nas fogueiras da Inquisição co­mo bruxas e endemoninhadas!...

P. Porque razão não é permitido às mulheres ascenderem ao sacer­dócio?

R. Não há razão nenhuma de na­tureza bíblica e teológica que impeça as mulheres de aceder aos ministérios ordenados na Igreja.

(Prefiro falar em ministérios orde­na­dos, em vez de “sacerdócio”, porque na Igreja de Jesus ninguém é sacer­dote. Jesus trouxe-nos a boa notícia de que a comunhão da Humanidade com Deus e de Deus com a Humanidade é directa, não carece de intermediários! E, se quisermos falar em intermediá­rios, então só poderemos falar de Je­sus. É por isso que a Carta aos He­breus, da Bíblia cristã, proclama Jesus como o único sacerdote! Também pode­mos falar da Igreja como “povo sacer­dotal”, mas no sentido do sacramento que visibiliza e anuncia ao resto da Hu­manidade a boa notícia de que, depois de Jesus, já não tem mais sentido conti­nuar a falar em intermediários nem em sacerdotes. Somos todas, todos sim­ples­mente irmãs, irmãos uns dos outros, e quanto mais servidoras, servidores uns dos outros melhor)

A Cúria Romana, na voz do Papa João Paulo II, não entende assim. E até determinou que este assunto está definitivamente encerrado, pelo que não deverá continuar a ser debatido na Igreja, nomeadamente, por parte das teólogas e dos teólogos. Mas, mais uma vez, a Cúria Romana não tem ra­zão. E o futuro próximo – se calhar já o próximo papa! – vai dizê-lo aberta­mente. Um dos argumentos mais utili­zados pela Cúria Romana contra a or­denação de mulheres é que Jesus nun­ca chamou mulheres para o segui­rem. E ele próprio é homem, não mu­lher. Mas nada mais falso. A verdade é exactamente o contrário. Se hoje há Igreja, é porque as mulheres que se­gui­ram Jesus, desde a Galileia até à sua morte na cruz, se deram conta de que ele ressuscitou. E este Aconteci­mento teológico, experimentado antes de mais por elas, é que fez nascer a Igreja. É simplesmente irónico que, vinte séculos depois, venha a Cúria Romana, constituída só por homens e homens oficialmente sem mulher, de­cidir que as mulheres ficam de fora dos ministérios ordenados. Bem vistas as coisas, quem já estará fora deles são os homens da Cúria, porque con­tinuam a confundir ministérios ordena­dos na Igreja com poder clerical. E isso é a aberração das aberrações.

P. Sendo Portugal um país cató­lico, não considera que esta situação (discriminação) vai contra os desígnios de Deus?

R. O facto de sermos um país ca­tólico não tem nada a ver com Deus, porque Deus não se identifica com nenhuma Igreja, muito menos com a ca­tólica romana. Aliás, uma Igreja que discrimina as mulheres, e para mais em matéria tão fundamental, até para a sua sobrevivência, é uma Igreja de mentira, por isso, uma estrutura de o­pres­são e de desumanidade, que Deus vomita. Pode passar o tempo a di­rigir louvores litúrgicos a Deus, que esses louvores são interpretados por Deus como outros tantos insultos, ou­tras tantas blasfémias. Toda a discri­mi­nação, seja das mulheres, seja dos homossexuais, das lésbicas, das pes­soas com deficiência, seja dos pobres, seja dos ateus, é um insulto a Deus. A instituição que a pratica não tem futuro. E avisados andaremos, se fugirmos de­la, para que ela fique a falar sozinha!

P. Não concorda que a Igreja, ca­so não evolua, corre o risco de perder grande parte dos praticantes? Os jo­vens cada vez estão mais distantes da Igreja. Mas, não de Deus...

R. É verdade e salta já à vista. Também salta já à vista que os jovens estão cada vez mais distantes da Igreja. E fazem bem. Esta Igreja que discrimina as mulheres não interessa nem ao me­nino jesus. É como o sal que perdeu a força. Deita-se fora, uma vez que nem para a estrumeira serve. Assim a Igreja. Se discrimina, desumaniza-se. E torna-se fonte de desumanização. Não deve ter ninguém a dar-lhe corpo.

Não sei se os jovens de hoje não estão distantes de Deus, como diz. Aí, tenho as minhas dúvidas. E não posso deixar de perguntar: De que Deus é que os jovens não estão distantes? O problema, quando falamos de Deus, é de que Deus é que falamos. Porque Bush, por exemplo, e Durão Barroso e Paulo Portas também falam muito em Deus e, depois, é o que se vê! De que Deus falamos, quando falamos de Deus? Eis a questão. Quem até hoje, desde que o mundo é mundo, mais e melhor nos falou de Deus foi Jesus de Na­zaré. Mas acabou crucificado, como sabe. Sinal de que o Deus de que Jesus falou não interessou aos dirigentes de então, a começar pelos religiosos. Nem à multidão do povo que gosta de um Deus que faça milagres para colmatar a sua preguiça, mas já não gosta nada de um Deus que lhe exige esforço, tra­balho, criatividade, responsabilidade, cuidado pelo Universo, como se Ele não existisse.

P. Deveria a Igreja defender a igu­al­dade entre os cidadãos? Porque ra­zão não é ela, uma ferramenta na defe­sa das mulheres?

R. É claro que deveria. E não só defender. Deveria ser exemplo vivo dis­so, nas suas práticas eclesiais quotidia­nas. Mas a verdade é que ela não é uma ferramenta eficaz na defesa das mulheres. Porque também ela, nos seus membros, prefere instalar-se nos privi­légios, afirmar-se como uma instituição de poder, em tudo igual às demais mul­ti­nacionais. Deveria ser uma comuni­dade de comunidades, uma Igreja de igrejas, cujos membros são irmãos e irmãs entre si. Preferiu deixar-se arras­tar pela tentação e tornou-se uma gran­de empresa multinacional de religião, em tudo semelhante a outras multina­cio­nais dedicadas a outros produtos. Veja que ela até se deu ao luxo de criar um Código exclusivo, o Código de Direito Canónico, onde constam, preto no branco, os direitos do papa, dos bis­pos e dos clérigos em geral. E os deve­res dos fiéis leigos. E também a discri­mi­nação das mulheres. A minha espe­ran­ça é que neste terceiro milénio do Cristianismo, aconteça uma refundação do Cristianismo e da Igreja. O Concílio Vaticano II constitui uma referência po­si­ti­va a ter em conta.  A actual falta de can­didatos a clérigos é um sinal que aponta para um modelo novo de Igreja, sem clérigos, uma Igreja de baptizadas e de baptizados, radicalmente iguais entre si e sem poder, apenas com minis­té­rios/serviços que não substituem os outros membros, pelo contrário, os po­ten­ciam, bem como aos carismas que o Espírito Santo sempre suscita para o bem comum. É por aqui que vou. É para isso que luto dentro da Igreja. E, felizmente, não estou sozinho.


M.ª Clara Bingemer (Teóloga, Brasil)

Gandhi, ou a respiração da alma

No passado dia 30 de Janeiro de 2004, celebrou-se o aniversário da morte de Gandhi, este homem que marcou o mundo com sua proposta de não-violência. Homem de fé e oração, Gandhi levou adiante o projeto que mudou a face de seu país e influenciou a muitos outros líderes construtores da paz, movido pela inspiração de Deus, que era sua força e - segundo suas próprias palavras - a respiração de sua alma.

MOHANDAS KARANCHAND GANDHI nasceu em 2 de outubro de 1869, em Porbandar, pequena cidade à beira-mar, na Índia. Dito MAHATMA (grande alma), teve infância normal, filho caçula de família pobre. Aos 12 anos, ao tocar a mão de um amigo impuro (casta infe­ri­or), sentiu-se chamado à missão de se colocar ao lado de deserdados e opri­midos do mundo.

Em 1888, embarcou para a Ingla­terra, onde estudou na Universidade de Oxford. Lá viveu um período de di­fícil adaptação social, ferido pelo pre­conceito em relação aos estrangeiros, principalmente os orientais. Em 1891, re­tornou à sua Índia natal. Foi convi­dado para advogar na África do Sul, onde se confrontou com a lamentável si­tuação em que viviam seus compa­triotas, motivada pelo racismo britânico. Foi lá que comecou a empregar o mé­todo que nortearia sua vida: a SATYA­GRAHA - força que nasce da verdade e do amor, única arma que admitia no combate à repressão.

Em 1915 regressou à Índia, e lá or­ganizou greves e actos de desobedi­ên­cia ao Governo; desobediência civil e pacífica que, em 1921, o levou a ser con­de­nado a 6 anos de prisão. Ao ser preso novamente em 1930 e 1931, ini­ciou um período de jejum. Em 1942 fez campanha de desobediência civil em favor da autonomia da Índia. A 15 de Ju­nho de 1947, o Congresso Indiano aprovou a divisão do país em duas na­ções: Índia (Hindu) e Paquistão (Muçul­mano). A Independência hindu proces­sou-se sem armas e sem violência.

A doutrina deste grande líder mun­dial, construtor eminente da paz funda­da sobre o valor espiritual do trabalho, é a não-violência. Toda a sua prática é baseada na resistência pela verdade, a qual é uma resistência pacífica ao ser­viço da Ética e da Verdade Moral.

Gandhi tinha o dom de ver mesmo o agressor com respeito e deferência, e a graca de acreditar na possibilidade de consenso entre os seres humanos.

Estudou várias religiões, mas ade­riu ao hinduísmo, seguindo o BAGAVAD GITA, o livro sagrado hindu, onde KRIS­HNA é a encarnação do Divino. Além do SAPIAGRAHA (resistência pela ver­dade), adoptou também  a AHIMSA - não-violência (não agredir o ser vivo). Praticava a ascese e auto-disciplina inclusive em relação aos maus pensa­mentos, à mentira, ao ódio. Acreditava pro­fundamente no ser humano e na unidade da humanidade, assim como na convivência pacífica entre os indiví­duos.

Homem de profunda fé, Gandhi  recolhia-se na oração e encontrava nela os seus momentos de inspiração pelo contacto com Deus. Afirmava que a oração é a respiração da alma, di­zendo que é preciso deixar DEUS en­trar, passar entre nós, a fim de que pos­sa­mos ser verdadeiramente humanos.

Deus, para esse Mahatma (alma boa, em hindu) é, na verdade, a música do ser, e ele sente poderosamente o cha­mamento a esvaziar-se e diminuir para que Ele cresça mais e mais em seu interior, ocupando todo o espaço. A oração, para ele, é um anseio intenso do coração, podendo ser expressa pe­los lábios, em recolhimento ou em pú­bli­co. Porém, para que seja verdadeira, deve originar-se nas profundezas do coração.

Os conceitos fundamentais que nortearam a vida do Mahatma, SATYA­GRAHA e AHINSA, constituem, no seu entender, o único caminho para DEUS, não só em conceitos, mas em atitudes, posturas e posicionamentos. A não-violência que pregou e da qual se tor­nou o símbolo universal é uma resistên­cia não passiva. Consiste não apenas em não fazer mal ao próximo, mas em amar e fazer o bem, inclusive a quem nos faz o mal.

Esta foi sua vida e estes os seus prin­cipais ensinamentos. Mas o ensina­mento definitivo deu-se em Nova Delhi, quando, em 30 de Janeiro de 1948, di­ri­gia suas preces a Deus, foi assas­sinado por um fanático hinduísta, con­trário ao seu programa de tolerância religiosa. Seu corpo foi cremado e as cinzas lançadas no Rio Ganges.

Em meio à violência do mundo em que vivemos, o ensinamento de Gan­dhi, sempre actual, mais actual do que nunca, nos rememora, entre muitas outras coisas, a necessidade de orar, de deixar os espaços interiores serem alargados pela presença do Espírito de Deus.

Se o nosso mundo se torna tão irrespirável, talvez seja porque não es­te­jamos consentindo que nossa alma respire. Nós estamos a asfixiá-la por falta de oração. Que o aniversário da morte do Mahatma nos ensine a abrir os pulmões do Espírito para que o Deus da paz e da concórdia passe através de nós.


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