Textos do
Jornal Fraternizar

Edição nº 149, de Abril/Junho 2003

Destaque 1

É viúva e com três filhos, mas deu um CAMPO para um Barracão de CULTURA

E se o Jornal Fraternizar lhes disser que uma mulher viúva de Macieira da Lixa, mãe de três filhos, todos de maioridade, acaba de doar, em escritura lavrada no Cartório Notarial da Comarca de Felgueiras, à Associação local "As Formigas de Macieira", um campo, o melhor que ela possui, para que nele venha a ser erguido um Barracão de Cultura, ao serviço da população da freguesia e do concelho – qual será a reacção de vocês? Será uma reacção de alegria e de acção de graças? Ou de espanto e de escândalo? Ou, pior ainda, será uma reacção de crítica insultuosa, estilo "Essa mulher só pode estar louca varrida", à mistura com um total repúdio pelo seu inesperado gesto? Mas o caso é real. A escritura foi efectivamente lavrada na tarde do dia 29 de Janeiro de 2003. A mulher viúva que fez a doação é Maria Laura, a mesma que há já vários anos preside como presbítera não-ordenada à Comunidade Cristã de base de Macieira da Lixa. Os filhos são Alberto, casado com Andreia e ambos pai e mãe de dois filhos, um adolescente e uma menina que ainda não consegue pronunciar as palavras inteiras, mais o Rodrigo Filipe e Andreia Cristina, ambos ainda solteiros e estudantes.

A iniciativa da doação partiu exclusivamente da própria Maria Laura, mas contou com o rasgado acordo dos seus três filhos e nora que, nessa mesma tarde, deixaram tudo para irem assinar com ela a escritura. Por parte da Associação "As Formigas de Macieira" e em seu nome, Quina e Miné, respectivamente, a presidente da direcção e o tesoureiro, assinaram a escritura e receberam a doação.

No final, ao sair do Cartório Notarial, o pe. Mário, que acompanhou todo o acto solene, sacou do pão/regueifa que havia previamente adquirido a caminho de Felgueiras, partiu-o mesmo ali, na rua, e todas e todos pudemos comer daquele Pão-Corpo-de-Cristo, como quem de repente anuncia/revela ao mundo que a salvação da Humanidade está no Partir/Partilhar os bens ao serviço do Ser e do Viver de todas as pessoas e de todos os povos, e não no Reter/Acumular os bens ao serviço dos privilégios de alguns poucos, sem que, entretanto, estes poucos alguma vez se cheguem a importar com a morte lenta das pessoas e dos povos, em consequência da falta do Ter para poderem Ser.

O acto da doação do campo, pequenino em si, mas invulgar em sacramento, ficará a fazer história naquela freguesia e naquele concelho. Também no nosso país e no nosso mundo. Prova disso é que até a própria Notária, que a tudo presidiu, não conseguiu esconder todo o seu assombro e todo o seu entusiasmo. E deixou claro que nunca antes, em todos os anos que já leva de serviço no Cartório, viveu um momento tão extraordinário como este.

Se você que nos está a ler é do número daquelas e daqueles que se alegram e ficam em Eucaristia, ao saberem desta Boa Notícia ou Evangelho, então cante e dance este gesto. E prepare-se para alegremente se juntar à Associação "As Formigas de Macieira", a fim de a ajudar a erguer o Barracão de Cultura, quanto mais depressa melhor.

O Jornal Fraternizar, porém, não pode deixar de sublinhar que este invulgar gesto de Maria Laura e dos seus três filhos não é um gesto totalmente inédito. Insere-se na linha daqueloutro gesto que o segundo volume do Evangelho de Lucas, mais conhecido entre nós por Livro dos Actos dos Apóstolos, conta, no final do capítulo 4. Vejam só o que diz o texto:

"A multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma. Ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, mas entre eles tudo era comum. Com grande dinamismo, os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e uma grande graça operava em todos eles. Entre eles não havia ninguém necessitado, pois todos os que possuíam terras ou casas vendiam-nas, traziam o produto da venda e depositavam-no aos pés dos apóstolos. Distribuía-se então a cada um conforme a necessidade que tivesse. Assim, um levita cipriota, de nome José, a quem os apóstolos chamaram Barnabé, isto é, "filho da consolação", possuía uma terra; vendeu-a e trouxe a importância que depositou aos pés dos apóstolos."

Trata-se, pois, de um gesto-sinal ou sacramento que fica a apontar às pessoas e aos povos a via libertadora e salvadora, paradigmaticamente protagonizada por Jesus de Nazaré, o Cristo, e que não é outra senão a via da Graça, do Dom, da Partilha, da Entrega das nossas coisas e de nós, numa palavra, a via da Eucaristia, por isso, totalmente nos antípodas da via do Mercado Total, segundo o qual só vale o que for mercadoria em bom estado e só tem direito a ser e a viver quem tiver poder de compra e de venda.

Trata-se então de um gesto com força e dimensão fundante/fundador duma real alternativa à estúpida via do Ter acumulado e concentrado, hoje tão em voga, e que não aproveita a ninguém, nem sequer a quem se tem por seu directo beneficiário.

Na sua simplicidade e no seu silêncio, este gesto é porventura o maior grito que fica a dizer ao mundo que, se ele quiser ser um mundo em estado de salvação, tem que mudar radicalmente de rumo, antes de mais, ao nível da economia: tem que passar da actual economia do Ter acumulado e concentrado nas mãos de alguns privilegiados, para a economia do Ter Partilhado e Repartido por todas as pessoas e por todos os povos, de modo que todas elas e todos eles sejam pessoas e povos em plenitude.

Não se pense, então, que o gesto de Maria Laura e dos seus três filhos, bem como o gesto de José/Barnabé, no princípio do Cristianismo, são gestos ditados pela simples Natureza, o mesmo é dizer, são gestos fáceis de realizar e de compreender. Não são. Há, é verdade, quem protagonize aí hoje gestos parecidos com estes de José/Barnabé e de Maria Laura, mas para satisfazer a sua vaidade e, ainda por cima, poder passar por boa pessoa aos olhos dos seus concidadãos e concidadãs.

Não é manifestamente o caso nem de José/Barnabé, no princípio do Cristianismo, nem de Maria Laura e dos seus três filhos, hoje, neste início do Terceiro Milénio. E por isso dizemos que estes não são gestos simplesmente naturais. Só podem ser gestos soprados, fecundados e gerados pela força do Espírito Santo, esse mesmo que se apoderou de Jesus de Nazaré, quando ele saía das águas do Jordão, logo após ter sido baptizado por João e fez dele um Homem-para-os-demais, ou – dito em linguagem evangélica – conduziu-o para o deserto, isto é, colocou-o a viver no meio da sociedade do seu tempo, não mais segundo os estúpidos critérios do Ter acumulado e concentrado que toda a gente já então tinha e ainda hoje naturalmente tem como bons, mas segundo os fecundos critérios do Ter Partilhado e Repartido, a começar pela sua própria vida e pelas suas invulgares capacidades pessoais, e que ele foi capaz de colocar, como ninguém antes dele nem depois dele, ininterruptamente ao serviço da consciencialização/libertação/reabilitação/promoção/salvação/humanização de todas as pessoas e de todos os povos, sem excepção.

Do gesto de José/Barnabé, regista o 2.º volume do Evangelho de Lucas que ele vendeu o campo e foi colocar o produto da venda aos pés dos apóstolos. Para que eles, por sua vez, utilizassem esse produto em prol do ser/viver dos membros da comunidade cristã de Jerusalém.

Vai ainda mais longe em radicalidade e em sacramento o gesto de Maria Laura e dos seus três filhos. Ela não vendeu o campo. Deu-o. E deu-o não apenas aos companheiros e às companheiras da Comunidade cristã de base, para proveito exclusivo deles e delas, mas a uma Associação de cidadãs e de cidadãos. Em concreto, deu-o à Associação "As Formigas de Macieira", com o objectivo expresso de que nele venha a ser erguido um Barracão de cultura, ao serviço do ser/viver libertador de toda a população, tanto da freguesia de Macieira da Lixa, como das freguesias em redor, independentemente, de serem cristãs ou agnósticas ou mesmo ateias.

A novidade e a radicalidade deste gesto são tão grandes, que a própria Comunidade Cristã de Base ficou como que petrificada, quando ouviu da boca da própria Maria Laura a sua inabalável determinação de dar o campo para um Barracão de cultura em prol do seu povo. Nem a esfuziante alegria com que ela comunicou às companheiras e aos companheiros a decisão que havia tomado, no mais íntimo da sua consciência e em comunhão com o Espírito Santo, atenuou o impacto da notícia.

Não faltaram vozes, na altura, a tentar demovê-la de tal "loucura". Que ela se lembrasse da sua condição de mulher viúva e das dificuldades financeiras que essa condição lhe acarreta. Que ela se lembrasse dos seus três filhos e do futuro deles. Que ela se lembrasse que aquele campo era o melhor situado, para que qualquer dos três filhos nele pudesse vir a construir um dia a sua própria casa. Que ela se lembrasse que, como boa mãe que procura ser, deveria deixar esse campo aos filhos como herança. E tantas outras coisas que lhe disseram nesse dia e nos dias/meses/anos que depois se lhe seguiram até ao dia da escritura, e muitos foram, dado que a prévia legalização do terreno acabou por se arrastar ao longo de muito tempo, tantas foram as burocracias a ter de superar e de vencer!...

A tudo, porém, Maria Laura resistiu, como quem vê o Invisível. E mesmo agora que a escritura foi finalmente assinada e o campo já é propriedade da Associação "As Formigas de Macieira", as vozes dissonantes ainda se não calaram de todo, à mistura com soezes insinuações e estúpidos ataques que põem a nu o tipo de mente e de coração de quem profere umas e outros. Mas a tudo ela continua a resistir, e com uma surpreendente e constante alegria que só pode ser fruto do Espírito Santo que a habita.

Jornal Fraternizar tem acompanhado todos estes passos dela e da Comunidade. E só pode associar-se à alegria de Maria Laura e dos seus três filhos. Ao mesmo tempo que não pode deixar de reconhecer o "dedo" de Deus em tudo isto.

Infelizmente, até muitas das mulheres e muitos dos homens que tradicionalmente se dizem cristãs e cristãos não chegam a entender gestos desta envergadura. Porque são cristãs e cristãos por tradição, mais do que por obra e graça do Espírito Santo. São cristãs e cristãos, apenas por terem nascido de mães e de pais que também o eram, mais do que por terem nascido do Alto, do Espírito Santo. São cristãs e cristãos, mas como podiam ser pagãs e pagãos, já que nunca passaram por uma real conversão ao Evangelho de Deus que é Jesus de Nazaré, o Cristo, muito menos deram a sua entusiástica adesão às Causas e ao Projecto de vida que foram a sua razão de ser e de viver, ao ponto de o Evangelho de Mateus dizer que ele nem sequer tinha onde reclinar a cabeça e, quando o mataram, ele não teve outra herança para deixar que não fosse o exemplo da sua vida totalmente entregue/doada aos demais. E a verdade é que, na véspera da sua morte, e na ceia derradeira que fez com as suas discípulas e os seus discípulos, ele atingiu o extremo do amor, e fez-se Pão/Corpo que se dá a comer e Vinho/Sangue que se derrama/entrega e se dá a beber pela vida do mundo. E mandou que, se, através dos tempos e lugares, quisermos ser reconhecidos como seus discípulos e suas discípulas, havemos de viver/fazer o mesmo que ele viveu/fez, em memória dele!

Resta, agora, esperar que todo o vendaval que este gesto de Maria Laura e dos seus três filhos provocou, também no interior da Comunidade Cristã de Base de Macieira da Lixa e da Associação "As Formigas de Macieira", passe quanto antes. E que, finalmente, a doação do campo seja reconhecida e acolhida com alegria por todas e todos. De modo que o Barracão de cultura possa começar a ser projectado e construído, quanto antes, também como obra de todas e de todos.

É claro que estamos perante um gesto com muito de violento e de provocador. Mas só daquela violência e daquela provocação próprias do Espírito Santo, que nos desinstalam, nos soltam, nos empurram como o vento forte, e nos impelem a sermos mulheres e homens de outra estirpe, de outro ser, de outra qualidade, radicalmente libertos e fraternais/sororais, interiormente disponíveis para colocarmos os nossos bens – casa, campos, tempo, dinheiro – e a nossa própria vida ao serviço do ser/viver dos demais, a começar pelos que mais carenciados de ser/viver hoje aí estão.

Aceitemos, pois, nascer do Alto, do Espírito Santo. Em lugar de lhe resistirmos, aceitemos nascer por obra e graça do Espírito Santo. Como sucedeu com Jesus de Nazaré, a quem por isso muito justamente chamamos o Cristo, isto é, o Libertador, o Filho de Deus, o Filho do homem, o Homem por antonomásia, com quem todas e todos havemos de nos parecer.

Se assim acontecer, o Barracão de cultura de Macieira da Lixa será realidade muito em breve. Porque todas e todos nós, mesmo de outras terras, ao sabermos desta iniciativa, havemos de correr a dar-lhe todo o nosso apoio, com pequenos/grandes gestos idênticos aos de Maria Laura e dos seus três filhos


DESTAQUE 2

A fabricação do medo

Nos finais de Janeiro último, o pe. Mário foi convidado a participar numa reflexão-debate, realizada no Pinguim Café, Porto, sobre "A fabricação do medo". O convite partiu de gente quase toda assumidamente anarquista e ateia. Os promotores do encontro fizeram questão de que o pe. Mário estivesse com elas e com eles (por sinal, muito mais eles do que elas e de idades bastante inferiores à sua! O encontro começou com uma ceia frugal num restaurante da cidade. Depois da comunicação inicial, o pe. Mário foi bombardeado com múltiplas perguntas, cada qual a mais pertinente. Foi bonito de se ver e ouvir. A Boa Notícia então proclamada pelo pe. Mário mexeu com toda a gente. Ninguém ficou como antes. Jornal Fraternizar tem a alegria de partilhar de seguida o texto integral da comunicação inicial do pe. Mário. Com o voto de que ninguém, depois de a ler, fique como antes.

"Por que tendes medo, homens de pouca fé?" O Homem que faz esta pergunta a outros homens está manifestamente mais preocupado em libertar as pessoas e os povos do medo, do que em explicar às pessoas e aos povos a fabricação do medo. Não quero com isto dizer que não seja também importante reflectir sobre a fabricação do medo, ver onde se escondem as fábricas que produzem o medo, descobrir e denunciar as multinacionais que se dedicam a este perverso ramo de actividade, quem são em concreto os mais perigosos fabricantes de medo...

Todas estas questões são importantes e será oportuno debruçarmo-nos sobre elas. Mas sem nunca esquecermos que o mais importante de tudo será sempre encontrar os eficazes antídotos contra o medo e, melhor ainda, o(s) processo(s) de libertar as pessoas e os povos do medo.

O Homem que pergunta: "Por que tendes medo, homens de pouca fé?" é Jesus de Nazaré, a quem eu e outros e outras como eu chamamos "o Cristo", que outra coisa não quer dizer que "o Libertador". Ao contrário de todos os outros homens e mulheres, Jesus de Nazaré tem uma urgência na vida. Uma só! A única que ele considera necessária e da qual jamais abdica, jamais consente que o desviem dela. Qual é? Nada mais, nada menos que libertar as pessoas e os povos. Do medo e da opressão. De todos os tipos de medo e de todos os tipos de opressão. A começar, indubitavelmente, pelo medo de Deus. E dos homens que se dizem representantes de Deus na terra, com destaque para os homens do Poder, seja do poder económico-financeiro, seja do poder político, seja do poder religioso-eclesiástico.

Jesus de Nazaré não é um filósofo. Não é um professor. Não é um sacerdote. Não é um líder partidário. Não é um monge. Não é um catedrático. Não é um contador de estórias, para ajudar a preencher os tempos livres das pessoas. Não é um escritor de novelas. Não é um empresário. Não busca interesses próprios. Não é um proprietário. Não tem nada a defender. Não tem onde reclinar a cabeça. Nem sequer tem vida para si. Jesus de Nazaré é um homem-para-os-demais. E neste seu ser/viver-para-os-demais é conduzido, puxado, impelido por uma única urgência que dá pleno sentido à sua vida: – libertar as pessoas e os povos. Do medo e da opressão. De todos os tipos de medo. De todos os tipos de opressão.

Jesus é essencialmente acção. Ele é a Acção! Dele podemos dizer, parafraseando o Evangelho de João, logo a abrir: "No princípio era a Acção. A Acção estava em Deus e a Acção era Deus". Jesus percebeu, como nunca ninguém antes dele tinha percebido e depois dele perceberá, que todas as pessoas e todos os povos estão oprimidos, tolhidos, atados, esmagados pelo medo. Como tal, são pessoas e povos ainda muito aquém daquele patamar mínimo que caracteriza a Humanidade, enquanto tal, por isso são ainda mais Natureza, mais vegetais e animais, que seres humanos.

Jesus percebeu que as pessoas e os povos vivem oprimidos, tolhidos e atados por ancestrais medos, o primeiro e o maior dos quais é o medo de Deus e dos homens que se dizem e se comportam como representantes de Deus na terra. Percebeu também que o medo de Deus e dos homens que se têm como representantes oficiais de Deus (= os homens do poder) é o medo gerador de todos os medos. Percebeu que este medo pode estar presente e activo, inclusive nos homens e nas mulheres que se dizem ateus (mas há ateus de verdade? Ou são todos ateus graças a Deus?), já que deuses haverá tantos quantos os seres humanos. Ou nós, os seres humanos, não fôssemos criadores/inventores de deuses.

Então, se todas as pessoas e todos os povos estão oprimidos, tolhidos, dominados pelo medo, o que há a fazer de imediato é agir, é libertar as pessoas e os povos do medo. Tudo o mais, inclusive, o saber porque é que as coisas estão assim, tem a sua importância, tem o seu lugar, mas Jesus é que não vai nunca por aí. Ele não se ocupa nem preocupa com mais nada. Nem sequer concebe um projecto pessoal. Não tem interesses próprios a salvaguardar. Tão pouco constitui família. Nada mais lhe interessa que não seja libertar as pessoas e os povos. Do medo e da opressão. De todos os tipos de medo e de todos os tipos de opressão.

Para Jesus é assim: Ou as pessoas e os povos se libertam do medo e da opressão e são verdadeiramente elas próprias/eles próprios, em toda a força da sua dignidade, ou são pessoas e povos perdidos, por mais bonitas e úteis que sejam as coisas que realizam. E por isso Jesus é constante presença/intervenção libertadora das pessoas e dos povos. Não tem outra urgência na vida. Não se reparte por outras actividades e iniciativas. É o Libertador. O Cristo.

Na verdade, que importa, por exemplo, a arte, se ela não contribuir para libertar do medo e da opressão as pessoas e os povos que a fazem e a apreciam? Que importam os estudos académicos, se não libertarem do medo e da opressão as pessoas que os frequentam e as que os dinamizam? Que importa casar e constituir família, se com esse passo as pessoas não se libertam do medo e apenas conseguem multiplicar, nos filhos e nas filhas, o número de pessoas oprimidas e tolhidas pelo medo? E que importa reflectir sobre o medo, como estamos aqui a fazer esta noite, se à medida que reflectimos, não nos tornamos mulheres e homens libertos do medo?

Jesus de Nazaré tem uma única urgência e vive-a. Com determinação. Até ao fim. Não se divide por várias. Quem aceita ser seu discípulo/sua discípula e vai com ele na via que ele é, nunca mais quer outro mestre de vida, pois acaba por se dar conta de que nunca ninguém falou como este homem, nunca ninguém agiu como este homem, nunca ninguém amou como este homem, nunca ninguém libertou como este homem, nunca ninguém foi tão verdade/liberdade como este homem!

Num primeiro momento, ao experimentá-lo tão único, temos a tentação de fazer dele Deus. Mas se cairmos nesta tentação, é porque não percebemos nada de Jesus. Permanecemos ainda no medo. O medo sempre foi e será criador de deuses.

Felizmente, Jesus é o primeiro a tirar-nos o tapete. Deus, é coisa que ele nunca quis ser e por isso nunca reivindicou. Ele sempre quis ser apenas Homem. O filho do Homem. É como ele sempre se apresenta nos três Evangelhos Sinópticos. Homem integral. Essa é a sua grandeza. É claro que, mais adiante, com o crescer da convivência dele connosco e de nós com ele, acabamos por concluir que Homem assim como ele, só mesmo Deus. Deus entre nós e connosco. Mas aí já não há perigo de idolatria, nem há lugar para o medo. Porque Deus entre nós e connosco não é nunca Deus todo poderoso. É Deus Homem. O Homem. É o ser humano integral, como todo o ser humano se há-de tornar, pelo menos, no momento da ressurreição que é simultaneamente o momento da nossa morte. Deus entre nós e connosco não é Poder. É Potência. Não é gerador de medo. É Espírito ou Sopro que nos sacode, nos desperta, nos desinstala, nos solta, nos liberta e põe a caminho do Ser, até chegarmos à estatura de Filho do homem, outros Cristo.

"Por que tendes medo, homens de pouca fé?" Estas palavras são ditas no desenrolar duma estória muito conhecida e que fala dos discípulos judeus que seguiam numa barca para o outro lado do mar. De repente, vêem-se no meio duma tempestade, batidos por ventos ciclónicos e no centro do mar encapelado. Diz a estória que Jesus também ia no barco, mas a dormir!...

Conhecem, certamente, esta estória da catequese infantil. Até já terão visto alguns quadros de famosos pintores que dão realismo a esta estória. E sempre nos levaram a pensar que a coisa foi mesmo assim. Mas não foi. A estória é literária e teológica. E pretende revelar (= tirar o véu) a verdadeira causa do medo e mostrar como nos podemos libertar do medo. Ora vejam.

A estória conta-nos que aqueles homens, judeus fanáticos e moralistas ferrenhos, foram intimados por Jesus a passar para a outra margem do mar, isto é, a ir relacionar-se com os povos não-judeus ou pagãos, os povos estrangeiros. Por outras palavras, foram intimados a ir relacionar-se, a fazer-se família com os estranhos, os não-família-sua, os inimigos, os "cães" (era com este termo que os judeus fanáticos então tratavam os não-judeus).

Pois bem, é aqui que nasce/rebenta o medo. O outro, para nós, é o estranho. O inimigo. O não-minha-família. A tempestade e o mar alterado acontecem dentro de nós. Perante o outro, o estranho, temos medo. Armamo-nos. Defendemo-nos. Atacamos.

(Não é o que está a acontecer hoje, no nosso mundo? A Europa não se fecha e não se defende dos não-europeus? Os EUA, com a demente condução política de Bush, não são hoje a nação mais tolhida, a mais possuída de medo e, por isso, também a mais armada do mundo? E os mil milhões de cidadãos que hoje estão bem na vida não têm medo dos outros cinco mil milhões que têm que sobreviver com dois euros por dia ou menos? Não se defendem deles? Não concebem e não geram políticas armadas até aos dentes, para assim se defenderem deles, em lugar de mudarem radicalmente de economia e de política, para que ninguém do mundo seja excluído da riqueza produzida?)

Na estória, quando Jesus entra em acção, os ventos amainam e o mar acalma-se. E os discípulos judeus perguntam-se: "Quem é este a quem até o vento e o mar obedecem?" O que isto significa é que, com o Espírito de Jesus presente nas nossas vidas, nós aprendemos a ver no outro ou no estranho, um irmão/uma irmã que urge acolher e amar. Aprendemos a ver no inimigo, um amigo. No desconhecido, um companheiro. No não-nossa-família, nossa família. E aprendemos a ver o Mundo como nossa casa comum. E nos seis mil milhões de seres humanos que constituem actualmente a Humanidade, uma só família, cujo destino é chegar a sentarmo-nos à mesma mesa, sem a exclusão de ninguém.

Quando formos mulheres e homens assim, também em atitudes, não há tempestades sociais e políticas que não se amainem, nem mares sociais encapelados que não serenem. Mas, é claro, com políticos e chefes de Estado com posturas políticas dementes como as de Bush e as de Durão Barroso/Paulo Portas, os mares sociais serão hoje mais encapelados do que nunca, e os ventos contrários não se calarão tão cedo.

Mas tenham esperança. Isto não está tão mal assim. O 11 de Setembro de 2001 mostrou que há uma possibilidade. Foi o grande Apocalipse (= Revelação) do nosso tempo: mostrou que os impérios, por mais arrogantes e armados que sejam, como hoje o império de Bush, têm todos pés de barro. E é por aí que todos eles serão abatidos, para alegria de todo o povo, também do povo que, antes, se tinha na conta de ser protegido pelo império de turno, quando, afinal, não passava de simples carne para canhão e de lacaio e de súbdito da besta imperial.

"Por que tendes medo, homens de pouca fé?" A fé, de que aqui se fala, é o caminho para sairmos do medo. Que fé? Antes de mais, a fé de Jesus de Nazaré, o Cristo. Antes de ser fé em Deus, é fé no outro, em cada mulher e em cada homem, em cada povo distinto do povo que somos.

Fé no outro é igual a relação recíproca, apoiada na fidelidade. Fé é pacto de amizade. É confiança. É aliança que nos leva a sonhar e a realizar projectos em conjunto para bem de todos os seres humanos e de todos os povos. Fé é confiança no estranho. No estrangeiro. No inimigo. Quando todas e todos, ao levantarmos os olhos, virmos no outro que não é a nossa família e que não é o nosso povo, irmãs e irmãos que havemos de amar e acolher, o medo sai de nós como o Demoníaco que nos tolhia e oprimia. Então, em lugar de corrermos a fabricar armas e a fomentar ódios, correremos a dar/receber abraços e a conceber/realizar projectos comuns, para bem de toda a Humanidade.

Fé no outro. Mas não só. Pelo menos, para algumas e alguns de nós, também fé em Deus! Mas, atenção! Apenas o Deus completamente outro, nunca o Deus que nós, nos nossos medos, fomos e seremos capazes de criar, de inventar, para nos proteger a nós e meter medo aos que não pertencem ao nosso clã ou à nossa nação. Apenas o Deus completamente outro, sempre transcendente e inimaginável e imanipulável, o Deus que me cria, que respira em mim, que é mais íntimo a mim que eu próprio, que confia em mim, que tem fé em mim, que me leva ao colo, que vai sempre à minha frente, que me chama, que me desinstala, que me potencia, que me faz ser em humanidade até profundidades e alturas que dão verdadeiras vertigens... Enfim, o Deus de Jesus de Nazaré, o Cristo, vítima com as vítimas, crucificado com os crucificados da História e ressurrecto/insurrecto com os ressurrectos/insurrectos da História, Deus mãe/pai, gerador não de medo, como são todos os deuses criados por nós, mas gerador de liberdade e de sororidade/fraternidade, Deus entre nós e connosco, companheira/companheiro que continuamente nos lança para a única coisa necessária: libertar do medo as pessoas e os povos. Todas as pessoas. Todos os povos!


EDITORIAL

Mené, Tequel, Parsin

Conta o livro bíblico de Daniel que Baltasar, rei dos caldeus, deu um grande banquete a mil dos seus conselheiros. Excitado pela bebida, mandou trazer os vasos de ouro e prata que o seu pai Nabucodonosor tinha tirado do templo de Jerusalém. Por eles bebeu, e beberam todos os seus grandes, as concubinas e as bailarinas. E ainda fizeram libações aos deuses de ouro, de prata, de bronze, de ferro, de madeira e de pedra.

De repente, apareceram na sala onde decorria o banquete uns dedos de mão humana que escreviam na parede do palácio, mesmo defronte do candelabro. Ninguém soube ler as palavras escritas. Muito menos, soube alguém decifrá-las. Nem mesmo nenhum dos adivinhos do império e nenhum dos conselheiros do rei.

A mulher do rei recordou-se então de Daniel, um hebreu que vivia em exílio forçado na Babilónia, juntamente com muitos outros hebreus, e que tinha fama de leitor e de intérprete dos sonhos, uma actividade então muito em voga e muito credibilizada.

O rei mandou que o trouxessem à sua presença. E Daniel leu a mensagem, composta de apenas três palavras. Segundo ele, a misteriosa mão havia escrito na parede: Mené, Tequel, Parsin. Depois, imperturbável, Daniel avançou com a interpretação. Assim: Mené: Deus mediu o teu reino e pôs-lhe um termo; Tequel: foste pesado na balança e encontrado muito leve; Parsin: o teu reino foi dividido e entregue aos medos e aos persas.

Reza esta estória bíblica que, nessa mesma noite, Baltasar, rei dos caldeus, foi assassinado.

Era eu ainda menino de escola primária, quando pela primeira vez li esta estória, num daqueles serões de inverno que a minha mãe sabia improvisar junto à lareira do casebre esburacado onde vivíamos. Vinham estar connosco algumas vizinhas, já o meu pai era emigrante em Moçambique, meus irmãos estavam a estudar em internatos frequentados por crianças e adolescentes pobres, ele, no Porto, ela em Lisboa, e eu vivia sozinho com a minha mãe na aldeia. As vizinhas eram todas analfabetas. E mesmo a minha mãe, embora lesse alguma coisa, era manifestamente pouco. Não dava para ela ser ouvida e entendida pelas outras pessoas. Tudo lhe saía demasiado soletrado. De modo que, de todas aquelas pessoas adultas que regularmente vinham participar nos nossos improvisados serões, só eu, embora menino de escola primária, é que podia assumir o serviço ou o ministério de leitor.

Esta estória bíblica foi uma das que então li, que nunca mais esqueci e que marcou para sempre a minha formação humanista. Talvez por isso ela me ocorreu agora, no momento em que estou aqui sentado diante do computador, para ouvir/escrever este Editorial, precisamente, no mesmo dia em que se esgotará o prazo de quarenta e oito horas que o imperador norte-americano, George W. Bush, deu ao ditador Saddam do Iraque, para abandonar o país, se quiser evitar os bombardeamentos e a guerra preventiva que ele, qual senhor do mundo, unilateralmente decidiu levar a cabo contra aquele país, a fim de se apoderar dos poços de petróleo, sem os quais as grandes empresas norte-americanas dificilmente poderão continuar a laborar e a gerar incontáveis lucros, desmedido poder económico e influência política global sem limites.

(Se Saddam fizesse a vontade do imperador norte-americano e retirasse para o exílio com os seus filhos, os americanos entrariam por lá dentro com os seus exércitos, mas sem previamente despejarem as toneladas de bombas que estão ansiosos por despejar sobre aquele país e sobre todos os países que se atreverem a pensar e a agir diferente deles. Mas se ele decidir não retirar, as bombas serão então despejadas e os soldados norte-americanos avançarão sobre as ruínas do país e sobre os milhares de cadáveres de crianças, mulheres e homens, velhos e novos)

Mas este é também o dia em que o presidente da República de Portugal irá reunir, mais uma vez, o Conselho de Estado e falar ao país, para se demarcar pessoalmente da postura seguidista e de pura vassalagem que o primeiro ministro, qual adolescente vaidoso e ingénuo, tem revelado relativamente às posições homicidas e genocidas do imperador Bush, um presidente politicamente demente e sádico, sem dúvida o dirigente mundial mais poderoso e também o mais perigoso que, infelizmente, ainda ninguém conseguiu deter/destituir, mas que é urgente fazê-lo, antes que seja tarde demais.

Levado pelo Espírito Santo, acabo de voltar a ler/escutar esta velha estória bíblica. E é à luz politicamente libertadora que ela projecta, que procuro escutar a Boa Notícia que esse mesmo Espírito está, hoje e aqui, a dizer às Igrejas e à Humanidade em geral. Escrevi "Boa Notícia" e escrevi bem. Porque mesmo nos momentos de dor e de desastre, em pequena ou em grande escala, sempre havemos de permanecer à escuta da Boa Notícia que o Espírito Santo está a dizer às Igrejas e à Humanidade em geral. Porque os momentos de dor e de desastre nunca são obra do Espírito de Deus. A especialidade do Espírito de Deus é fazer novas todas as coisas e criar novos céus e nova terra. Mesmo quando nós, seres humanos, sobretudo os que estão constituídos em poder, nos metemos em loucas e criminosas aventuras de destruição e de morte, como é hoje toda e qualquer guerra.

Por isso é determinante que ao menos as Igrejas vivam permanentemente à escuta do que o Espírito lhes diz e à Humanidade em geral. Que a Humanidade em geral se distraia e não escute o que o Espírito está continuamente a dizer, é até admissível e compreensível. Mas que as Igrejas se comportem do mesmo jeito, será a perversão das perversões, já que as Igrejas são aquela parcela da Humanidade especialmente convocada pelo Espírito, não para se meter nos templos em demoradas e alienantes liturgias e em estéreis cultos sem profecia – isso costumam fazer as Religiões – mas para que seja/viva no mundo como destemida sentinela e como presença lúcida que sempre resiste com coragem martirial aos discursos e aos argumentos interesseiristas dos poderosos e os desmascara diante de todas e cada uma das populações e diante de todos e cada um dos povos do mundo.

Basta de pessoas e de instituições peritas em carpir e em maldizer estes tempos que são os nossos. Tais pessoas e instituições mais não fazem do que engrossar o caudal de más notícias com que hoje, somos, a todo o momento, bombardeados pelos media das minorias ricas e poderosas, os quais mais parecem metralhadoras em posição de tiro contínuo, exclusivamente apostados em destruir nas populações e nos povos qualquer réstia de esperança e de alegria de viver, a fim de nos fazerem mergulhar num estado de depressão colectiva, de modo que nunca mais ousemos ser gente de cabeça erguida, apenas mulheres e homens consumidores desenfreados, massas humanas acríticas e dóceis.

Mené, Tequel, Parsin. Estas são as três palavras-chave que havemos de ouvir, mas sem ceder a quaisquer fundamentalismos, por isso, devidamente actualizadas pelo Espírito de Deus para o nosso aqui e agora nacional, europeu e mundial, precisamente, quando o império de turno e o seu líder politicamente demente estão dispostos, qual Baltasar, rei dos caldeus, a profanar e a arrasar a humanidade e o mundo, se ela e ele os não reconhecerem, os não adorarem, lhes não obedecerem.

E a prova é que tanto o império norte-americano como o seu líder de turno acabam de inventar um novo conceito, o de guerra preventiva, em nome do qual se permitem fazer a guerra seja a quem for e seja onde for. Quem não estiver com eles, já está contra eles. E antes que pense em atacá-los a eles, já eles se acham com legitimidade para o atacar primeiro e arrasar tudo à sua passagem. E só não arrasarão o mundo inteiro, se, entretanto, as populações e os povos se submeterem ao seu poder imperial e absoluto, reconhecerem como indiscutível a sua supremacia, aceitarem ser seus humildes vassalos, pagarem os tributos que eles lhes impuserem, seguirem à risca as suas orientações ideológicas e religiosas, numa palavra, acatarem todas as suas ordens e todas as suas decisões. Concretamente, fizerem como acaba de fazer o primeiro-ministro de Portugal, dr. José Manuel Durão Barroso, assessorado pelo seu ministro de estado e da defesa, dr. Paulo Portas, e como acabam de fazer outros líderes de outros tantos países da Europa e do mundo, autênticos cães de fila que logo metem o rabo entre as pernas, quando o dono lhes fala mais grosso e os ameaça com sanções.

Mas não tenhamos medo. É certo que o momento que vivemos é um momento muito difícil. Digo mesmo que é um momento de fim. De fim de um certo tipo de mundo. Não de fim do mundo. Mas de fim deste tipo de mundo, dominado pelo império norte-americano e seus cães de fila, cada qual o mais arrogante e o mais bem falante.

É verdade que iremos conhecer muitas dores. Como as da morte. Mas também como as do parto. É todo um tipo de mundo que está a morrer. E um novo tipo de mundo que já está a nascer. Está a morrer esta Ordem Económica e Política mundial, totalmente dominada e controlada pelo Império e seu sistema neoliberal de mercado total. Já está a nascer uma Nova Ordem Económica e Política mundial fundada na justiça. E na paz que brota da justiça.

Este é, pois, o tempo em que a Humanidade, com o Espírito de Deus dentro dela, terá que olhar para este mundo e para esta Ordem imperialista mundial e dizer com firmeza: Mené, Tequel, Parsin.

Tequel: Medi o alcance das tuas decisões económicas e políticas e decidi pôr-lhe termo. São decisões que geram tanta pobreza e tantos pobres, e dão tão cabo do Planeta e do ambiente, que não podem ter futuro.

Tequel: Pesei-te na balança do bom senso e da ética mais elementar e tu revelaste-te demasiado light, demasiado leve, sem consistência, sem fiabilidade.

Parsin: Dividi-te entre as nações e os povos, para que todas elas e todos eles sejam, finalmente, protagonistas, sujeitos, num concerto de vozes e numa sinfonia de decisões como nunca houve desde o princípio do mundo, rumo à fraternidade/sororidade universal que, como humanidade, ainda havemos de chegar a ser e no seio da qual já não haverá mais lugar para impérios de nenhuma espécie.

Ouvimos esta Boa Notícia? Tomemo-la a sério. E deixemo-nos de lamúrias, duma vez por todas. Ou, no vigoroso dizer de Jesus, o Cristo, deixemos que os mortos sepultem os seus mortos. Sigamos com audácia e alegria o Espírito de Deus, esse Sopro ou Vento que sempre se confunde com o clamor de todos os empobrecidos e oprimidos do mundo e, por isso, sempre se apresenta carregado de fecundidade e de futuro. Deixemo-nos conduzir/empurrar por Ele. E seremos mulheres e homens novos, espirituais (= com Espírito), sem religião, sem templos, intrinsecamente políticos, comprometidos até ao sangue com o Mundo e com a Terra, alegres e criativos, bem à altura das responsabilidades do Momento histórico que nos é dado viver.

Bush e o seu império cairão, porque nós, povos do mundo, os vamos fazer cair. A velha Ordem mundial cairá, porque nós, povos do mundo, a vamos fazer cair. Apuremos o ouvido, que já se ouve o som da alvorada de um Dia novo. Ele traz no bojo uma Nova Ordem Económica e Política mundial, sem templos nem altares, mas com mulheres e homens politicamente criativos, intervenientes, cheios do Espírito de Deus, esse mesmo que faz novas todas as coisas e está apostado em criar novos céus e uma nova terra. Aleluia! Aleluia! Aleluia!

Vosso irmão e companheiro, que vos abraça e beija, na dor e na esperança, e também na acção,

Mário, presbítero.


Espaço Aberto

Religião ou Política?

Por Manuel Sérgio

Parece indubitável que o cristianismo é um dos pilares onde assenta a civilização ocidental. O insuspeito Renan via, no nascimento de Cristo, "o acontecimento mais notável da história do mundo". Com ele, nasce o ser humano como ser moral. Na Grécia, florescera antes a Filosofia; a Roma Imperial criara o Direito – com Jesus Cristo, a política resulta da perfeição interior. Da crise da moral deriva, em grande parte, a profunda crise hodierna da política. No entanto, o cristianismo só é um facto único , porque traz consigo uma doutrina que esclarece o sentido da vida, que revela mistérios que a inteligência, por si só, não poderia sequer suspeitar, que vem gerando "as melhores almas do mundo", voltando a Renan. A fecundidade santificadora do cristianismo é o testemunho perpétuo da divindade do seu fundador. Mas uma questão se levanta, de pronto: e seria possível conhecermos Jesus Cristo, sem o contributo da Igreja Católica? Os santos em que acredito (noutros não acredito francamente), tais como Francisco de Assis, João de Deus, João da Cruz, João XXIII, etc. diriam, neste momento, que encontraram em Jesus a fonte de água viva, através de Igreja Católica. No meu caso pessoal, sem a Igreja, não desceria sobre mim o dom da Fé. E a nossa vida de cristãos há-de ser a irradiação exterior da nossa vida interior. Quem não vive, profunda e energicamente, a sua Fé não tem força para amar a Deus e amar as mulheres e os homens, suas irmãs e seus irmãos. Acção para nós os que pretendemos sintonizar a nossa razão com a Razão Eterna, há-de querer dizer fé vivida e que começa a ser vivida, precisamente em igreja, em união com todos os que, pela Fé, constituem o Corpo de Cristo. Pensem eles como pensarem, pois há muitas mansões na casa do Pai.

Ocorre-me esta introdução, ao tentar uma crítica ao último livro do Padre Mário de Oliveira, E Deus disse: do que eu gosto é de política, não de religião. Salomon Reinach, no seu livro Cultes, Mythes et Religions (Robert Laffont, Paris, l996) logo na Introdução escreve que "o homem é um animal religioso. A religiosidade é mesmo um dos seus principais atributos". Por outro lado, Roger Trigg, no livro Racionalidade e Religião (Instituto Piaget, Lisboa, 2OO1, p.41) ensina que "a religião, seja ela qual for, corporiza claramente práticas sociais e um conjunto de crenças expressas em formas particulares de vida". Roger Garaudy recorda a interrogação do pastor Bonhoeffer, antes executado pelos esbirros de Hitler: "Como falar de fé a homens sem religião?". E Roger Garaudy acrescenta: "Pode existir um cristianismo sem religião?" (Religiões em Guerra? O debate do século, Editorial Notícias, 1996, p.79).

No meu modesto entender, a religião apresenta três grandes momentos: a fé, a elaboração teológica dessa fé, a qual se concretiza por fim numa instituição social e política. Portanto, não é de estranhar que o título (e o conteúdo) deste livro possa provocar notório escândalo. Dir-se-á que é esse o destino dos livros do Padre Mário de Oliveira, sacerdote e profeta. É que se é evidente que são muitos os erros que descobrimos no poder religioso e naquelas "estruturas que ao longo dos séculos criámos e com as quais sacrilegamente temos perpetuado intoleráveis privilégios de casta"(p.21) – é possível evangelizar a política e os políticos, sem uma adesão pessoal à Igreja? E viver em igreja não integra comportamentos rituais em que pretendemos significar que vemos em Deus um Ser com um lugar à parte e acima dos restantes seres? E esses comportamentos não supõem uma estrutura noético-emocional da experiência religiosa? O título do livro não poderia ser este: E Deus disse: do que eu gosto é de política e de religião?

A estrutura do viver humano, tocado pela contingência e pela morte, empurra-nos a uma abertura à Transcendência. Nasce aqui a religião! Marcel Gauchet, no seu livro Le Désanchantement du Monde salienta que a religião «foi historicamente a condição de possibilidade do Estado» e que «o fundamento do Estado é o mesmo que o da religião". Ou seja, a homologia do religioso e do político fundamenta-se na necessidade de coabitarmos com Alguém, com alguma Instituição, que dêem sentido à nossa contingência e esperança à nossa morte inevitável. É verdade que "uma das originalidades mais chocantes da vida de Jesus é precisamente ela não constituir uma nova religião, nem tão pouco ter canonizado nenhuma das muitas religiões que proliferavam no seu tempo. Nem mesmo a religião judaica, com seu templo e o seu culto em Jerusalém. Em vez disso, Jesus de Nazaré faz até questão de viver longe dos chamados lugares sagrados" (p. 84). Mas quando Ele diz a Simão: "de agora em diante, serás pescador de homens"; quando sustenta que há um "Pai Nosso"; quando pronuncia estas palavras : "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus" – não é evidente que Ele reconhece a existência de um poder civil e de um poder religioso? Não é verdade que César é o homem que se fez Estado e Cristo é o Deus que se fez homem e que portanto política e religião são duas realidades que se complementam? Não precisará a política da religião, para se humanizar, e a religião da política para transformar e transformar-se? Ao longo da História da Igreja Católica até parece que, por vezes, Il Principe de Nicolau Maquiavel foi lido com mais atenção pelo Papa e pelos Bispos, do que o Evangelho. Seja como for, não se disseram católicos, apostólicos, romanos muitos heróis e santos que proclamaram, em palavras e obras, que "todos os homens são iguais"?

As estruturas eclesiásticas (como as demais) são declaradamente estáticas e conservadoras. O pavor da situação nova e a segurança da situação conhecida, o medo do imprevisto, a sacralidade da lei, a a-historicidade dos dogmas desencadeia mecanismos, tanto de inércia, como de repressão. E por consequência "uma prática fecundamente política e não uma prática esterilmente religiosa eis o que deveriam realizar as igrejas que se reclamam da memória de Jesus"(p.107). Mas, para a realização de "uma acção politicamente subversiva"(p.113), criticando e amando, desconstruindo o que aí está e construindo, à luz do Evangelho, a sociedade nova, bem distante (concordo) de algumas figuras do hagiológio católico, verdadeiros exemplos de psicopatologias várias, será imperioso erradicar da face da terra o fenómeno religioso? Esta a grande interrogação que eu levanto, após a leitura do último livro do Padre Mário. É que o fenómeno religioso parece-me fundante do próprio viver humano. Sem esquecer que, nas religiões, torna-se urgente repensar o problema da autoridade, para centrar a sua essência no serviço e não no poder. Ao lavar os pés aos apóstolos, Jesus quer dizer que a autoridade é um serviço e não um poder. E é porque a autoridade é serviço, que o Papa e os Bispos deveriam ler (e meditar sobre) o livro de que me venho ocupando. Fazendo política e abdicando da religião? No meu pensar, politizando a experiência original da religião.

Não é por lamentável conspiração que aos profetas se nega uma fama que se concede a uma boa dúzia de medíocres. É que eles não representam o seu tempo. De facto, um profeta, como o Padre Mário de Oliveira não é representativo das estruturas que constituem a trama da vida social que o rodeia. Só que quem não escuta os profetas não sentirá nunca a saudade do Futuro, a saudade de Deus. Relembro Teixeira de Pascoaes, na Arte de Ser Português: "a saudade é a ideia de infinito (...) ou o infinito humanizado(...)".

O livro E Deus disse: do que eu gosto é de política, não de religião, porque é obra de um profeta, levanta dúvidas, inquieta as nossas seguranças, questiona as promessas da Igreja Católica, mas apela para a criação de uma comunidade de pessoas de boa vontade, capazes de viver o Evangelho. Ora, a passagem de um cristianismo, cheio de privilégios e de certezas, fechado dentro dos templos e dos palácios episcopais, a um cristianismo que "jamais se coligou com os poderosos, muito menos com o seu sistema dominante"(p.241), que não forma pobrezinhos acríticos, submissos e respeitadores, mas pobres de espírito, abertos à inovação, renovação, transformação e ainda sedentos e famintos de justiça – para tudo isto, bem necessários se tornam os limpos de coração, que vêem a Deus ... que nos ajudam a ver a Deus!

Obrigado, Padre Mário!


Um problema de consciência

Por Porfírio Borges

Durante muitos anos passei diariamente pelo Hospital de Santo António, no Porto, sem me aperceber que dentro daquelas paredes há um outro "mundo" que a sociedade desconhece e que é bom que dele tome consciência. No seu interior, não há o sossego e a tranquilidade que se poderia imaginar. Chocam-se dentro da imponência daquele edifício os interesses do Governo, do pessoal e dos doentes.

Aos doentes só interessa serem tratados com competência técnica e humanidade. Todavia nem todos assim pensam: a Administração, de acordo com as instruções recebidas, preocupa-se demasiado com os aspectos económicos, pelo que gere o hospital como uma mera empresa comercial; os funcionários, como trabalhadores que são, pensam nos seus direitos, não só os que se referem às relações patrão/trabalhador, mas entre si, procurando vincar demasiado as suas categorias. Não admitem confusões entre as funções dos médicos, enfermeiros, auxiliares e os mensageiros. Não raro acontece que os doentes desconhecedores desta hierarquia, ao pedirem qualquer serviço, ouvem como resposta "Não é comigo".

Não me alongarei neste pormenor, porque a razão deste texto não é para censurar, mas uma oportunidade para reflectir sobre este lado do mundo que agora descobri. Não se trata de um caso pessoal, pois que durante pouco mais de um mês que estive internado, bem como na assistência que me continua a ser prestada no "hospital de dia", só tenho encontrado gente boa e aplicada. Acredito que muitos/muitas destes funcionários/as, para não carregarem mais as nossas angústias, escondem as suas próprias.

Com efeito, para além dos cuidados técnicos, muitas vezes me ouviram com atenção falar de mim, da minha família e das minhas preocupações, sobretudo quando no princípio das noites a solidão mais me apertava. Devo um obrigado a todos quantos comigo lidaram, ou ainda lidam, nomeadamente a algumas das auxiliares que com tanto carinho me dispensaram os cuidados primários.

Contudo, todos sabemos que há lacunas que prejudicam os utentes e que não devem ser só imputadas ao Estado. Para assumirmos em consciência a nossa quota parte, deveríamos conhecer a "Carta dos Direitos e Deveres dos Doentes". Saberíamos por ela que temos deveres, mas também direitos, como por exemplo, ser atendidos com delicadeza, não ter que aguardar anos em listas de espera e ser atendidos nas horas que nos marcam para as consultas. Saberíamos também que há razões que nos devem levar a ter alguma compreensão para com os servidores de saúde.

De facto, como exigir-lhes uma maior humanização que tanta falta faz ao doente, quando eles próprios vivem permanentemente intranquilos em relação à garantia dos seus empregos? Como podem estar disponíveis para humanizarem as suas relações, se estão atormentados por não saberem o que lhes vai acontecer, após o termo do contrato?

Claro que considerando este lado até compreendemos que façam as suas lutas, incluindo, se necessário, a própria greve. Mas e o outro lado da questão? Não será que os doentes são a razão dos seus postos de trabalho? O problema está em como conciliar os direitos de uns e de outros. O leitor por acaso tem respostas para estas dúvidas? Eu não. A única coisa sobre qual as não tenho é de que com a saúde não se brinca.

Por isso afirmo que os interesses dos doentes têm que estar sempre em primeiro lugar. As divergências entre os profissionais da saúde e o Estado têm que ser resolvidas pelo diálogo. Não pode por isso o Governo considerar o trabalhador o "elo mais fraco", decidindo unilateralmente e de forma arrogante, nem o trabalhador bater o pé e tornar-se irredutível.

Como se vê, estamos mesmo perante um problema de consciência. Se cada um respeitar a sua própria, as divergências passam a ser resolvidas sem que os doentes sofram, mesmo que indirectamente, um ambiente de menos carinho e atenção.


Uma experiência-vivência alternativa

Por Carlos Palma

Retomo as interrogações-interpelações que deixei expressas no meu artigo do Fraternizar de Janeiro/Março últimos, para tentar responder e testemunhar à problemática dos desvios da Revelação cristã confiada à Igreja primitiva = eclesia = assembleia, e que por via de Pedro e Paulo passou a ser confiada à Igreja católica, apostólica romana versus Estado do Vaticano.

Igrejas cristãs sem Cristo, ou Evangelização sem Evangelho? Cristianismo humanista, ou Cristianismo de Estado(s)? Todos conhecemos as respostas, mas poucos as assumimos com medo e vergonha das consequências!

O termo Igreja que no início queria dizer assembleia dos crentes e onde não havia elites, excluídos, iluminados infalíveis, mas diversidade de dons e funções, como nos diz S. Paulo, mostra bem a diferença de organização, método e funcionamento entre a Igreja primitiva e as actuais Igrejas cristãs (incluindo as ortodoxas, protestantes e as novas seitas cristãs pentecostais que já foram tentativas de correcção ou protesto dos desvios doutrinais e dogmáticos da Igreja católica, mas que hoje já não são "sinais dos tempos" e luz para um povo que continua nas trevas do medo, da exclusão, da pobreza, da exploração e da alienação religiosa).

Não admira portanto que se procurem novos horizontes, novas filosofias morais e religiosas que humanizem a Fé e a vida, quando a cultura e civilização ocidental e cristã apenas tem para nos oferecer violência, competição desleal, egoísmo, materialismo e sexo-droga.

É neste contexto social, humano e religioso que surgem as velhas religiões orientais, cujas doutrinas e dogmas estão mais centradas na valorização da pessoa humana, mediante práticas de meditação transcendental, através da autovalorização, da autoestima, da sacralização do corpo como indispensável ao desempenho das virtudes da alma e da ligação à fonte da Paz, Harmonia e Amor (ioga), permitindo o autodomínio da mente, a higiene mental que selecciona e valoriza os bons pensamentos e as virtudes em detrimento dos maus julgamentos e defeitos do ser humano.

Passo a relatar-testemunhar a minha experiência de Deus e os efeitos ao nível da paz interior que obtive ao frequentar os cursos de iniciação, complementar, de bom relacionamento humano de pensamento positivo e sobretudo de prática frequente do "Raja Yoga", na sua versão Brahmista, na Universidade Brahma Kumaris Academia para um Mundo Melhor, que é membro consultivo das Nações Unidas, devido aos serviços prestados na difusão da paz, através dos seus cursos, pedagogia e iniciativas de utilidade pública.

Há já algum tempo que desejava praticar yoga, porque achava que isso me traria benefícios ao nível da paz interior e da melhoria das minhas doenças psicossomáticas. Mas tinha algum receio, pois sei que são extremamente perigosos e arriscados os processos de manipulação da mente (especialmente por charlatães), até que um dia vi no jornal um pequeno artigo de apresentação da Brahma Kumaris, com o respectivo contacto e ao saber que ela era credenciada pela ONU, decidi conhecê-la e frequentá-la.

Ao me dirigir às suas instalações, foi-me proposto um pequeno questionário sobre as motivações pessoais: o que procurava, as minhas ideias sobre Deus e a religião que professava. Ao me inscrever e frequentar o curso de iniciação (realizam-se à média de dois por mês), fiquei surpreendido por não deitarem abaixo as outras (e a minha) religiões e Igrejas, e se apresentarem sempre como uma filosofia e não como uma religião, embora verificasse posteriormente que o conteúdo do curso era uma nova catequese (o que me deixou à defesa e com problemas de objecção de consciência) e que a meditação era semelhante à prática cristã de oração contemplativa que se pode ver-conhecer no relato da vida de alguns santos católicos.

Fui por isso falar com um monitor que me parecia mais coerente no seu modo de ser e falar com aquilo que ensinava e disse-lhe do meu problema em não querer ser convertido, pretendendo ser fiel ao meu Deus, aos ensinamentos dos meus pais e à cultura ancestral do meu país.

Ao contrário do padre a quem recorri num momento de desespero do meu divórcio em que via a família desmembrada e os filhos na droga e que apenas me deu uma cassete do Ignacio Larrañaga para escutar e não me acolheu ou tranquilizou, o meu "guru" = director espiritual disse-me que não tinha de aceitar essa nova filosofia e prática, mas que elas me ajudariam a ser melhor cristão (o que hoje sei ser verdade) e me deixou mais descansado e interessado em aprofundá-las. Até porque verifiquei haver total concordância entre o Evangelho e a filosofia induísta em que o Raja Yoga se inspirou.

Exemplifico: nos exercícios de meditação, cuja prática nos foi ensinada numa das aulas do curso de iniciação, começamos por aprender que a alma é um ponto de luz = energia positiva, e partimos daí para a relaxação do corpo canalizando as suas energias para esse ponto de luz situado entre as sobrancelhas pensando: "Eu sou um ser de paz, eu sou um ser de luz, eu sou um ser espiritual", eu acrescento as frases evangélicas "eu sou filho da luz, eu sou bendito do Pai, eu sou a luz do mundo".

Numa segunda etapa ascendendo ao mundo subtil ou das almas, mergulhamos num mundo de luz branca de paz e harmonia, que eu gosto de situar no monte Tabor e na transfiguração de Jesus, fazendo a mesma experiência de Deus de Pedro, Tiago e João: "Que bom é estarmos aqui, Senhor!", e é mesmo, acreditem! Então podemos partir ao encontro do Ente supremo = Deus Pai = Abbá = Papá = Mamã = Babá e aí nós = alma mergulhamos num oceano de paz e amor, inundados pela luz vermelho-dourada da fonte da paz e do amor que sentimos em nós. Estamos no útero da mãe, no nosso paraíso perdido, nos braços poderosos e protectores do Pai, essa experiência que pode durar apenas poucos minutos, até ao tempo de que dispusermos é maravilhosa.

Neste estádio da mente em que permanecemos ligados ao Pai, podemos canalizar através da nossa mente a paz, a felicidade, o amor e os bons sentimentos para uma pessoa, uma situação, um local, etc e assim ajudar os outros a melhorar sua maneira de ser e sentir através do envio dessa energia = luz = pensamento positivo = força que ligados à fonte = Deus, nós canalizamos e deixamos fluir.

É-nos recomendado que pratiquemos este exercício pelo menos duas vezes ao dia, antes de adormecer (para se conseguir uma noite descansada) e ao acordar, para ficarmos bem dispostos e aptos para um agradável dia de trabalho.

Existem músicas e vozes gravadas que nos ajudam na concentração dos exercícios, de modo a não dispersarmos as ideias ou desviarmos a atenção para pensamentos negativos, facilitando a meditação transcendental.

A prática frequente destes exercícios acaba por nos educar a mente, substituindo os maus pelos bons pensamentos, subindo a nossa autoestima, valorizando o nosso corpo e melhorando as nossas relações sociais e humanas pela exclusão dos defeitos e pela procura das virtudes que todos temos, já que todos somos seres espirituais = semelhantes a Deus.

Pessoalmente, descobri que excluindo a teoria da reencarnação, incompatível com a Ressurreição dos mortos (núcleo central da Fé cristã) e a visão horizontal e circular = cíclica da História, ao contrário da versão triangular, irrepetível e ascendente da Fé cristã, todo o conteúdo da filosofia aprendida na Brahma Kumarís era não só compatível com a História da salvação cristã e bíblica, como até explicava (pela experimentação) os chavões bíblico-evangélicos que aprendemos na catequese e nos cursos bíblico-teológicos. Mais: ao contrário da nossa Igreja, existe um programa, um método, uma sequência e uma conclusão, que permite não só entender como vivenciar = experienciar o que se aprende e pratica, apesar de os métodos usados serem directivos e orais, mas tendo uma linguagem e pedagogia acessíveis que ajudam a reter a mensagem.

Fico por aqui nesta partilha duma experiência muito positiva e que espero mude a minha vida, como aconteceu com a descoberta da Palavra de Deus.

N. D.

Quem sou eu para duvidar desta tua experiência, meu caro Carlos Palma? E que poderei dizer dela, à guisa de breve comentário evangélico e teológico-cristão? Afinal, mostras-te tão entusiasmado com ela, que qualquer coisa que eu diga com sentido crítico, pode funcionar como um balde de água fria. Mas nem por isso deixo de o fazer.

A paz interior que, pelos vistos, passaste a experimentar e que estará em crescendo, à medida que multiplicas diariamente os tais exercícios ao deitar e ao levantar, não irá certamente fugir de ti com estas minhas palavras de distanciamento em relação a essa tua experiência. Eis, pois, o meu (breve) comentário:

1. O Cristianismo não é uma filosofia de paz. Muito menos, de paz interior, individualista, narcísica. É uma via ou caminho de libertação, de insurreição, de revolução. "Não penseis que vim trazer a paz à terra. Não vim trazer a paz, mas a espada" (Mt 10, 34). "No mundo tereis aflições/tribulações; mas, tende confiança, eu venci o mundo" (Jo 16, 33). É certo que as primeiras comunidades cristãs proclamam Jesus como a nossa Paz, mas Jesus é a Paz crucificada em pessoa, sinal inequívoco de que não veio simplesmente para organizar cursos de iniciação que nos retirem do mundo e nos levem a viver em paz de costas voltadas para os combates sociais e políticos, tantas vezes duélicos, e que é imperioso travar para que o mundo seja, finalmente, a casa comum de todos os povos, que está chamado a ser. Jesus enfrentou, desarmado, o mundo, todos os Poderes opressores, para os derrubar com a força da Paz que brota da justiça e da riqueza partilhada.

2. O mais central da Fé cristã não é a ressurreição dos mortos, simplesmente. Afirmar isso, assim, sem mais, pode até funcionar como uma consolação mais, contra a angústia que os instalados e aburguesados experimentam, quando têm de encarar a inevitabilidade da morte. E pode, por isso, converter-se numa requintada forma de alienação, porque nos dispensará de denunciar e combater no mundo contra todas as fábricas de morte que estão por aí montadas e que mais parecem uma fatalidade inevitável. O mais central do Cristianismo de Jesus de Nazaré (não é, infelizmente, o Cristianismo das Igrejas que levianamente se dizem cristãs) é o anúncio do Reino/Reinado de Deus, como realidade próxima e já presente e actuante na História. Foi esta incrível Boa Notícia que Jesus nos trouxe e por causa da qual foi assassinado, uma vez que ele não se limitou a dar cursos de iniciação como esse em que acabas de participar, para anestesiar/sossegar consciências, mas desfez-se em contactos directos com o povo empobrecido e oprimido, para o consciencializar/libertar, até que ele se torne o sujeito e o protagonista da Política de Deus neste mundo: "Bem-aventurados vós os pobres, porque é vosso o Reino de Deus" (Lc 6, 20). A ressurreição dos mortos só se tornou central na Fé cristã, pelo facto de Jesus, o militante maior do Reino de Deus, ter sido crucificado pelos Poderes, todos os Poderes, incluído o Poder religioso. Com esta Fé, as comunidades cristãs primitivas proclamam que, afinal, Jesus é quem tem razão, é quem está certo. E não os Poderes que o condenaram e mataram como maldito. Neste sentido, a Fé na Ressurreição de Jesus é sempre a subversão total do Sistema vigente, em cada tempo e lugar, e a garantia de que o Reino de Deus é que tem futuro. E, com ele, têm futuro todas aquelas mulheres e todos aqueles homens que nascem do Alto (= do Espírito) e logo se tornam mulheres e homens do mesmo jeito de Jesus, subversivos como ele, incómodos como ele, militantes libertadores como ele, revolucionários como ele, dissidentes como ele, irmãos universais como ele.

3. Cuidado com essa interpretação que fazes do relato da Transfiguração de Jesus. E com essa teoria da luz branca e avermelhada. Com ela te podem cegar, em vez de te ajudarem a ver a realidade. Sabes que a luz intensa contra os olhos cega-nos. Foi o que aconteceu em Fátima, a 13 de Outubro de 1917. As beatas e os beatos católicos de então instigaram as pessoas sequiosas de milagres a olharem para o sol e elas, de cegas que ficaram, disseram que o viram bailar, em tons avermelhados e outros. É a cegueira das cegueiras! A única luz que ilumina e nos faz ver a realidade que os Poderes habilmente escondem aos nossos olhos, inclusive com recurso a "visões" com muita luz, é a que rebenta dentro de nós, da nossa consciência. Essa é a única luz que nos faz ver, até o Invisível. É a única que nos humaniza e faz de nós protagonistas, como aconteceu com o homem que nasceu cego e a quem Jesus, mediante um longo diálogo maiêutico, fez ver. Mas, por causa de ter passado a ver, o homem nunca mais teve paz! (cf. Jo 9). O relato da Transfiguração é apenas isso: relato. Não é uma reportagem jornalística, nem um facto histórico. É um relato teológico. Aliás, os três discípulos que protagonizam o relato não viram Moisés nem Elias. Nem ouviram uma voz do céu. Nem se entusiasmaram com o que viram e ouviram. Pelo contrário, ficaram aterrados, ao ponto de não saberem o que diziam. Os três eram os mais influentes no grupo dos Doze e também os mais resistentes ao Projecto de Jesus. Igualmente, os que mais dificuldade tiveram em dar-lhe a sua adesão. Jesus tentou revelar-se-lhes em particular tal qual é, mas eles resistiram, de tal modo tinham a cabeça feita por outras ideologias nos antípodas do Projecto de Jesus e do seu Reino de Deus. De modo que a "Transfiguração" foi um fiasco!

4. Eu sei que as biografias de certos santos e, sobretudo, de certas santas, estão cheias de relatos de visões onde a luz branca e avermelhada é abundante. E alguns e algumas até caem em êxtase e parecem sair deste mundo. O próprio Paulo conta coisas dessas aos Coríntios. Mas não te deixes iludir. Tudo isso não passa de literatura mais ou menos mítica, para impressionar ignorantes e ingénuos. E não prova nada quanto ao extraordinário das suas vidas. Pode até provar algo sobre a falta de sanidade mental e psíquica dos respectivos protagonistas. Repara que os Evangelhos canónicos nunca nos apresentam Jesus em experiências dessas. Por alguma coisa é. E, no entanto, são eles que não se inibem de proclamar que Jesus é a Luz do mundo. Uma luz que não nos cega. Que não vem de fora contra os nossos olhos. É a luz que acontece dentro de nós, que rebenta dentro de nós, da nossa consciência. E nos faz ver. Tudo o que não for assim, meu caro, é cegueira. E nessa arte de cegar as pessoas e os povos, as religiões sempre foram das mais peritas. Hoje, elas começam a cair em desuso. Felizmente. Lamentável é que apareçam outras "religiões seculares", geradas pelos Poderes opressores das grandes multinacionais sem rosto, sobretudo, os "media", que as substituem nesse papel de ópio e de obscurantismo, e com grande êxito. Alerta, pois.

OUTRAS CARTAS

Caldas de S. Jorge. José Pinto da Silva (por E-mail): Não estranharás que eu diga que leio tudo o que vens escrevendo no Fraternizar, não querendo dizer que mastigue a leitura como se de catecismo se tratasse.

No número 148 (Jan/Março) chamou-me a atenção o título da capa. Conhecendo (mais ou menos) o teu percurso político, gargalhei ao ler o "Salazar, de Novo". Não tenho nada que me identifique com o governo actual e particularmente com alguns dos seus membros, mas, santa paciência, estabelecer paralelo com Salazar é um brado aos céus.

Não esquecerás nunca, porquanto o sentiste na pele e no âmago, que durante a primavera de 68/74, quando a corda da intolerância se tornou bastante mais lassa, durante esse período passaste pelas masmorras da polícia política, por tomares atitudes e posições bem menos rudes do que o que fazes e dizes agora. Acho que tendes agora a esquecer que o bem primeiro do cidadão é a liberdade. Que não havia. E que agora, em muitos aspectos, que não os ideológicos e de pensamento, até poderá ser entendida como em excesso. Porque há muito quem queira ter a sua liberdade mesmo que tal implique calcamento da de outrém.

Aceitarás ou não, mas naquele tempo havia menos pão para todos. Tínhamos uma guerra a impor a submissão de povos africanos. Tínhamos uma necessidade extrema de deixar sair milhares dos nossos à procura de algo melhor (mais do que os que agora recebemos à procura do mesmo pão). Há comparação?

Os de agora dizem mentiras? É verdade. Prometem e não cumprem? É verdade. Penalizam os mais fracos? É verdade. Mas ao menos não têm poder (nem ousariam) para impedir movimentações de protesto, discursos contestadores e quiçá insultadores do governo e dos governantes. E mesmo que o teu discurso faça parecer diferente, não temos polícia para as ideias e para a sua postura em prática. Politicamente, tu ou eu fazemos o que nos der na real veneta.

Posso até tolerar as diatribes contra o governo do Portas/Durão/Félix/Manuela. Mas soou-me a insulto teres comparado a actuação do actual Presidente da República com o estilo de Américo Tomás. Tens a obrigação de saber, e eu sei que sabes, que o Presidente tem uma moldura constitucional que jurou respeitar e fazer respeitar. Quererias uma golpada constitucional, violando porventura a lei fundamental que também votaste? Tem sido aceite por todos e, quando convém, todos a invocam. Eventualmente tu também.

Vemos agora certas cabeças, onde também te inspirarás, muito universitários e muito catedráticos a comparar tudo e todos os que lhes não caíram no goto com Hitler, numa clara caiação da tragédia que foi o holocausto e as dezenas de milhões de mortos.

Bom! Se Deus disse que gosta de política e não de religião! De que política ou de que religião? Que seja, ao menos, de uma política que nos deixe pensar livremente.

N. D.

Só para dizer ao meu querido amigo e condiscípulo, Pinto da Silva, que o Editorial a que ele se refere mereceu a atenção entusiasta do jornal "24 horas", que lhe dedicou uma página inteira, com transcrições substanciais do texto. Em consequência dessa divulgação nacional, foram muitas as pessoas, de diversos pontos do país, que se nos dirigiram a solicitar não só o envio desse número do Fraternizar, mas também que as inscrevêssemos como novos assinantes. De resto, pode ser pretensão nossa, mas é manifesto que até o presidente da República já mudou substancialmente de postura política em relação a este governo PP/PSD, precisamente depois que terá tomado conhecimento da crítica que lhe fizemos e que o jornal "24 horas" tão oportunamente destacou e sublinhou.

Ansião. António Marques: Acabo de receber o n.º 148 do Jornal Fraternizar que estou lendo com muito interesse, a começar logo pelo grande título de primeira página, "Salazar, de novo!" que remete para o seu Editorial. Dava-me vontade de policopiar e mandar a todos os visados, incluindo, claro, tal "presidente da república estilo Américo Tomás reciclado"... Continuo a admirar a sua coragem cívica, sem papas na língua, e que na sua perspectiva é verdadeiramente "profética". É claro que, também na minha, embora talvez com uma acepção semântica algo diferente...

Na linha da sua crítica "profética", lembrei-me de que se poderia perguntar ao mais alto dignitário da Igreja Católica em Portugal, que autoridade moral tem ele para vir dizer aos portugueses que os que se eximem ao pagamento de impostos cometem pecado mortal, porque estão a roubar os outros, os que pagam. Sua Eminência que vive mais do que desafogadamente, rodeado de ambiente sumptuário, dentro e fora das liturgias, e tudo, no individual e no colectivo, escandalosamente isento de impostos!!!

Fotocopiei o n.º todo para mandar a uma colega amiga a quem falei no seu jornal pelo telefone e mostrou interesse em lê-lo. Pode ser que solicite a assinatura...

Braga. Margarida Maria: Envio o cheque, mas mais importante, ou simultaneamente, quero dizer-lhe que o Fraternizar, embora escandalize "boas consciências" dos católicos, continua a ser fermento importante na vida política do país. Era bom que os nossos governantes que na sua maioria se assumem publicamente como católicos, como crentes, ouvissem a voz de Deus no seu chamamento aos homens de boa vontade na construção da paz, sem hipocrisias, e evitassem a ameaça que paira sobre a vida de milhões de inocentes.

Mais do que nunca, o mundo de hoje precisa de vozes como a sua, que proclamem sem medo a verdade e o valor da vida. Não desista. Muitos estão consigo por esse Portugal fora. O meu apreço e carinho. Um abraço.

Por E-mail. António Magalhães: Um abraço. Venho de depositar na vossa conta do BES de Chaves a minha quota de ... para pagamento do fraternizar. Foi pena cair de mensal para trimestral. Mesmo assim esperamos não o deixeis cair totalmente.

Li e achei bem uma sugestão de o tornar um pouco mais popular.

Está de facto muito intelectualizado e de pouco acesso ao povo.

Tentai de lhe introduzir uma secção mais acessível.

Quando cairá este capitalismo selvagem, factor de guerras e este religiosismo bolorento que nada e ninguém salva??? Será preciso um Holocausto nuclear??? Que nunca te falte a coragem do Espírito para continuares a DENUNCIAR...

Vila Verde
. António A Machado: Sou um homem de setenta e três anos de idade e frequentei (sem nunca compreender nada) a Igreja católica. A sede de saber mais qualquer coisa, levou-me a comprar uma Bíblia e comecei a compreender que estava tudo errado. Tinha eu nessa altura à volta de trinta e cinco, quarenta anos. Desde então, tenho lido diversos livros extra-bíblicos, mas que falam todos de Deus, assim como: A Igreja católica ainda tem futuro?; Será que precisamos de Deus?; Janela do (In)visível; Jesus contra Jesus, etc. Mas desde que li os seus livros, como Fátima nunca mais; Nem Adão e Eva, nem pecado original; Que fazer com esta Igreja?; Em memória delas. Livro de mulheres, e outros que encontrei num alfarrabista, fiquei cada vez mais convicto de que Jesus não veio ao mundo fundar nenhuma igreja, nem nenhuma religião. Ele veio anunciar o amor. Que nos amemos uns aos outros como ele nos amou e ama. Para mim, tudo o resto é paisagem.

Eu gostava imenso de conversar com o senhor pessoalmente. Embora esteja um pouco distante, por mim não há problema. Eu sei que o senhor tem o tempo muito ocupado com outras coisas para me poder dar esse prazer de conversar consigo de viva voz, pois tenho ainda algumas hesitações sobre certas coisas e só um teólogo como o sr. Pe. Mário me pode esclarecer.

Junto envio cheque para pagar a minha assinatura do jornal que muito aprecio. Um grande abraço.

Ciladas. Armando Quintas: Mais uma vez lhe escrevo e o felicito pelo esforço que tem feito para mostrar a verdade ao nosso povo e pela sua evangelização dos pobres. Considero muito interessante e importante o artigo sobre as heranças, da edição de Janeiro/Março. Concordo plenamente com tudo o que é descrito e na minha opinião esse é um dos grandes problemas da nossa sociedade. O pe. Mário focou em especial as heranças, mas todos sabemos (ou devemos saber) que o problema é ainda mais vasto. É uma patologia social que se pode apelidar de excesso de infantilismo e ausência de autocrítica.

Os jovens de hoje são cada vez menos auto-críticos, a educação que recebem é por vezes medíocre ou deficitária em aspectos sociais, pouco há que os motive a seguirem o bom caminho e a sociedade está a tornar-se capitalista e tirânica.

Os pais criam os filhos infantis, dando-lhes mimos em demasia e oferecendo-lhes tudo o que eles querem, só porque os amigos têm, ou passou na tv; não os tornam homens e mulheres, não lhes mostram as dificuldades da vida e não os educam para que lutem por aquilo que tanto desejam. Estes jovens que podem ter tudo sem esforço algum, com nada se preocupam e não terão consciência autocrítica, mas eles vão ser os futuros homens e mulheres do país. E sem consciência crítica, o terreno será favorável a governos corruptos e salazaristas como o nosso governo actual do PSD/PP.

Tudo isto é muito ambíguo, pois se por um lado os jovens não vão à igreja (católica) por desinteresse (parece ser bom, pois não serão vítimas de catequeses terroristas nem de rituais vazios e inúteis) é também mau, pois os jovens, ao se desinteressarem da religião, tornam-se mais materialistas e menos espiritualistas, contribuindo para que as suas liberdades desapareçam aos poucos, tornado-os escravos e submissos das grandes multinacionais. Vive-se com tanta liberdade que os jovens já não pensam nela, só o farão quando sentirem que a sua liberdade é ameaçada.

Outra coisa que gostaria de falar é sobre os novos sintomas de declínio da Igreja católica. Um desses sintomas é o regresso em força do Paganismo, apesar de Portugal ser o último em quase tudo. Basta dar uma olhadela. As publicações mais recentes das editoras portuguesas, dos grandes editores, poucos são aqueles que ainda não comercializam livros sobre paganismo, no caso europeu, paganismo na esmagadora maioria celta. Além das tendências vindas do Oriente, como o Budismo e correntes como o I-Ching, reflecte-se já uma absorção quase mórbida da sociedade pela cultura, religião e magia celta. Não se trata de dizer que o Paganismo é bom ou mau, pois é uma escolha de cada um de nós. Trata-se sim de exemplificar através destes factos que a Igreja católica está em decadência (o que toda a gente já sabia) e que o paganismo que tanto sofreu nas suas mãos está de volta e em força.

Quem se fartou da Igreja católica, mas não da religião, procura alternativas e é especialmente entre os jovens que o paganismo é mais aceite. Razões para tal sucesso são fáceis de encontrar: desinteresse e fartos da religião tradicional, fartos dos seus rituais vazios e inúteis, da sua moralidade e da sua deliberada ignorância por tudo o que é intimamente humano. Fartos da corrupção e dos sucessivos pedidos de dinheiro e de escândalos como o de Fátima. O paganismo não pede dinheiro (excepto as seitas) e os jovens que se convertem acham-no mais natural e mais respeitador pelos direitos humanos que a Igreja. Não me cabe a mim defender o paganismo, nem o estou fazendo, somos livres e cada um escolha o que quiser e ache melhor para si.

Sobre o tema "Que futuro para o futuro?", devo dizer que a humanidade ainda não aprendeu com os seus erros e infelizmente talvez sejam necessárias mais guerras para que tal aconteça. Guerras bélicas ou não, é preciso acabar com o eixo do mal: Estados Unidos e Grã Bretanha, pois são esses os verdadeiros terroristas, é necessário acabar também com o sistema capitalista, com economias inflacionadas como as bolsistas que são a grande mentira em que se vende e compra algo que não existe, acções de empresas que não valem tanto, nem conseguem produzir tanto quanto as suas acções chegam a valer, e isto com o risco de os mais pobres se tornarem verdadeiros escravos das grandes multinacionais que serão mais poderosas que os próprios governos ou até os controlarão, se necessário.

A Igreja católica, se não mudar de rumo, desaparecerá e a religião será vivida de uma maneira mais intimista, as grandes seitas crescerão e ganharão prestígio. Se o mundo continuar por este caminho, ele será destruído devido à demência de alguns, ou a humanidade viverá escravizada pela lei do lucro fácil.

Cabe-nos a nós que conhecemos os males, arranjar soluções e salvar o futuro. E engana-se quem diz que um homem apenas não pode fazer a diferença. Agora e já, nós seres humanos e portugueses, também temos que começar a educar bem os nossos filhos, a desligar mais vezes o televisor à hora dos Big Brothers e afins, ou virar as costas ao futebol e dirigentes actuais, a unirmo-nos e protestar contra as medidas salazaristas que o governo nos quer impor, que nos chateemos menos e dialoguemos mais, ousemos ganhar mais conhecimentos, ousemos fazer o que queremos e olhemos melhor para nós mesmos, independentemente do que diga o povo ou das críticas dos outros.

Ousemos construir um futuro melhor, de que as gerações vindouras se orgulhem. Espero que o Jornal Fraternizar tenha um futuro brilhante e que chegue a mais e mais pessoas que estão oprimidas e necessitam de liberdade espiritual e física.

Pico (Açores). M.ª Ascensão: O meu silêncio, nesta Ilha Montanha, quase é do seu tamanho... Porém, esse silêncio não é sinónimo de esquecimento. Confesso que quando vou à caixa do correio e vislumbro o Fraternizar sinto uma alegria, mas ao mesmo tempo um misto de ânsia. Leio-o e medito na mensagem desestabilizadora de consciências acomodadas, roídas e castradas por preconceitos herdados duma instituição que não nos deu caminhos de libertação, mas que é urgente limpar e caminhar. É difícil construir o Reino, quando é fonte de lei cumprir mandamentos, esquecendo que o Reino tem um patrão – Deus – que se rege por leis de amor e de justiça, numa dinâmica libertadora. Segue um contributo para a continuação do jornal.

Coz. Samuel Neto: Em primeiro lugar, quero agradecer o esforço e dedicação que tem demonstrado nestes anos, no sentido de desempoeirar as nossas mentes e revelar verdades que, como se pode constatar, não são bem aceites por aqueles que se consideram detentores da verdade.

Ainda jovem, tomei conhecimento do seu trabalho, através do livro Chicote no Templo e, desde então, passou a representar para mim uma referência – alguém que participou decisivamente no meu crescimento e orientação espirituais.

Neste contexto, gostaria de solicitar-lhe um comentário, na linha do tema em debate – Que futuro para o futuro? – onde se perspective a fé dos homens em Jesus, sem que – como defende – as pessoas sejam iniciadas ou participem em Assembleias de culto cristão. Efectivamente, o padre Mário apresenta-se-nos hoje como um homem de fé. Fé nesse Jesus, nosso irmão, criatura de um Pai criador – isso é porque havia na altura (em que cresceu) instituições como a Igreja católica onde se formou e através da qual pôde evoluir para o homem que é hoje. Ou seja, a Igreja com todos os seus erros e foram muitos e alguns imperdoáveis, deixou em si e em mim a semente que hoje brota e provoca evolução ao nível espiritual.

Há ou não ainda um papel a desempenhar pelas Igrejas junto de todos os nossos irmãos mais novos, mais velhos, com mais formação e com menos, enfim... A minha Igreja – presbiteriana – onde cresci, tem ainda uma função a desempenhar junto dos meus filhos?

No nosso mundo egoísta, não fará sentido existirem irmãos que partilhando a mesma fé possam reunir-se com frequência, iniciar aí os seus filhos, por forma a que a palavra seja sempre semeada? Se no futuro, rompermos com a Igreja, será que a Fé e os princípios pelos quais nos regemos passarão para os nossos descendentes? Será preferível um mundo de ateus a um mundo onde a Igreja, apesar dos seus erros – porque de homens construída – não tenha existência?

As suas revelações, e as que lemos e ouvimos de tantos outros teólogos esclarecidos que nos transformam, da mesma forma que Lutero foi transformado ao ler – o justo viverá pela Fé, sem ter que fazer qualquer sacrifício para obter a Salvação – não poderá servir para que a Igreja se reforme de novo e busque de uma vez o verdadeiro significado de ser cristão?

Pergunto, como Abraão, a propósito de Sodoma e de Gomorra – E se houver 50... 10... justos, destruirás do mesmo modo as cidades? Haverá ou não espaço para a Igreja transformada? Aos nossos filhos, quem anunciará a mensagem de Jesus? Será preferível desconhecerem-na?

Padre Mário, muito agradeço a sua análise e profecia.

N. D.

Meu caro Samuel Neto: Quase nem seria preciso avançar qualquer achega às suas interrogações. A sua carta já é deveras esclarecedora, dado que as suas perguntas são sobretudo perguntas socráticas que levam implícitas as respostas. Ainda assim, aqui ficam alguns tópicos telegráficos:

1. Assim como todas e todos crescemos em idade, estatura, sabedoria e graça, também as Igrejas deverão crescer. Se, em vez disso, elas, na pessoa dos seus responsáveis maiores, ficam a repetir, geração após geração, as mesmas palavras, os mesmos cultos, os mesmos ritos, os mesmos infantilismos, os mesmos sermões, as mesmas homilias, as mesmas catequeses, as mesmas orientações moralistas, e a reivindicar apenas mais e mais privilégios do poder de turno, o desfasamento entre elas e nós é inevitável e é natural que muitos dos seus membros sem vez nem voz as deixem de lado nas suas vidas pessoais, do mesmo modo que deixamos os calções ou as saias e os sapatos que já não nos servem.

2. Por mim, embora compreenda quem assim procede, não é por aí que vou. Prefiro tudo fazer para que as Igrejas (a começar pelos seus dirigentes maiores) mudem, estejam em dia, se deixem "fazer" pelo Espírito Santo e sejam companheiras-parteiras da Humanidade, em cada tempo e lugar. Como sabe, nunca saí da Igreja católica, para me integrar noutra. Muito menos, fui a correr fundar outra Igreja paralela. Bato-me para que a Igreja em que despertei para a Fé em Jesus, o Cristo, seja outra, muito mais conforme ao Espírito de Jesus Crucificado/Ressuscitado que continuamente a convoca. O meu livro Que fazer com esta Igreja? é por aqui que vai. E deixa pistas que, se forem trabalhadas, ajudarão todas as Igrejas que actualmente por aí proliferam, a serem mais Igreja de Jesus, hoje e aqui.

3. Ficar sem Igreja é uma hipótese que nunca me passou pela cabeça. Embora reconheça que, em muitos casos, é melhor ficar, momentaneamente ou mesmo por muito tempo, sem "esta" Igreja, mas apenas para podermos ser mais e melhor Igreja. Ficar sem Igreja, não é bom. Até porque, como sabemos, a Fé cristã não é uma ilha. É relação/comunhão/confronto/conflito/combate libertador sem tréguas, e tantas vezes duélico. A Fé cristã tem que ser vivida e alimentada na comunhão e no confronto salutar com os demais irmãos e irmãs. Mas não esqueça que já há Igreja de Jesus, lá, onde dois ou três se reúnem em seu Nome (cf. Mt 18, 20), mesmo que não haja um Pastor, um Pároco ou um Bispo a dirigir e a dominar.

4. Por isso, quando criticamente nos relacionamos com "esta" Igreja que temos, havemos também, como Jesus, o Cristo, de nos deixarmos conduzir pelo Espírito ao deserto, e, como ele, havemos de resistir a todas as tentações do Demoníaco e vencê-las, a fim de darmos corpo nos nossos corpos a novos modelos de Igreja, dentro da única Igreja convocada pelo Espírito de Jesus.

5. Este esforço de fidelidade ao Espírito, mesmo que pareça inglório e se desenvolva no meio de generalizada incompreensão das irmãs e dos irmãos mais tradicionais, que confundem "esta" Igreja e a "sua" Igreja com a única Igreja de Jesus, é, por si só, um forte testemunho de Jesus, o Cristo, que não deixará de despertar nas novas gerações um inusitado interesse por ele e, consequentemente, entusiasmo e adesão ao seu Evangelho, pelo menos, por parte de algumas mulheres e de alguns homens que sempre se constituirão em Igreja no mundo.

6. É claro que, neste terceiro milénio, deixaremos de ter Igrejas de massas. Felizmente. A Cristandade morreu (já só falta sepultá-la ou cremá-la). E o mal foi ter durado tantos séculos. Mas a Igreja de Jesus sempre acontecerá, como obra do Espírito Santo e da nossa cooperação com Ele. Em moldes totalmente novos.

7. As próximas gerações poderão experimentar alguma dificuldade em ouvir falar de Jesus e do seu Evangelho. Mas isso não é mal. A Fé cristã não será coisa de massas. Será fermento na(s) massa(s). Por isso muito mais fecunda e actuante do que a Fé das Igrejas de massas e de Cristandade que foram as que conhecemos nos séculos passados e que foram mais pedra de tropeço para a Humanidade, do que parteira. A regra será: poucas cristãs/poucos cristãos para proveito de todos – mulheres, homens, povos e até Natureza.

8. Voltaremos como Igreja à situação de catacumba, não necessariamente porque haja perseguição contra a Igreja, mas porque a Igreja será tão minoritária, que (quase) não se vê. Porém, nunca como então ela será tão serva e tão parteira do Reino de Deus no mundo e na História.

Amadora.
Luís Marques: A carta está para ser escrita há vários meses, e surge de um período complicado que tenho vindo a testemunhar. Todas as reflexões que aqui relato se me colocaram com mais frequência após o meu pai ter saído de coma, em que se encontrava há vários dias, e logo de seguida ter sido diagnosticado à minha mãe um cancro maligno, o que levou a abater-se sobre mim uma carga enorme, que me fez questionar do porquê, como também da própria existência e como as pessoas a interpretam de forma diversa.

Pela sua frontalidade e coragem, parece-me a pessoa indicada para colocar algumas questões, e ao ler o seu livro Fátima nunca mais, tentar fazer uma leitura da religião e questioná-la em analogia com o que fez com "Fátima".

Analisando a religião católica, as restantes tenho um conhecimento muito superficial, faço uma certa analogia da religião católica com o que o sr. Pe. faz com "Fátima", ou seja, tudo o que é transmitido como transcendente/divino tem um único objectivo, dar um certo misticismo à religião, como qualquer coisa inatingível para o comum dos mortais e por isso se deve venerar, e com o passar dos séculos vai-se lapidando melhor esse misticismo.

Acredito plenamente em Jesus Cristo, como pessoa de bem que tentou transmitir o melhor que existe nos homens e dar a todos os homens uma conduta de vida que tinha como princípio a prática do bem. Porém, toda a evocação ao transcendente/divino, tal como a ressurreição e os milagres que lhe foram associados em vida, não são mais, tal como em "Fátima", os fundamentos transcendentes/divinos que dão à religião católica o reconhecimento de uma verdade inquestionável, e inquestionável porque não tem justificação científica nem outra qualquer, é-nos inatingível, temos que a assumir como verdadeira.

A grande questão que se me coloca é se será a religião a resposta para dar sentido à vida e responder a todas as nossas questões, e quanto mais alto a elevarmos mais sentido faz a nossa vida? Será "Fátima" um local, como poderia ser "Joana", "Rita" ou "Antónia", caso não houvesse "Fátima", o local onde as pessoas vão porque querem agradecer a algo que chamam "Fátima"?

Também já fui a "Fátima", apesar de ser pouco crente, mas precisava de ir a algum lado para me questionar, talvez pudesse ter ido a uma igreja, mas quis ir lá porque é o local de culto da maioria dos portugueses, não me deu nada, não devolveu a saúde aos meus pais, mas precisava de ir... Será criticável as pessoas "irem" a "Fátima"?

É condenável concerteza todo o negócio e a manipulação/criação das aparições, mas sem dúvida que as pessoas são mais "felizes" quando têm algo em que acreditar. É muito mais difícil andarmos "cá", quando não acreditamos em algo que justifique a nossa existência... eu dificilmente acredito. Um leitor que se revê nas suas palavras.

N. D.

Meu caro Luís: Se, para si, é condenável, e bem, todo o negócio que se faz em Fátima e é condenável a manipulação/criação das aparições, o que resta de Fátima que seja aproveitável? Essa é a questão! E a resposta é: Não resta nada. Porque para lá do negócio e da manipulação/criação das aparições, não há mais nada em Fátima. Tire o negócio, tire a mentira das aparições e verá o que fica de Fátima. Provavelmente, nem o turismo, uma vez que este, sem a mentira das aparições, não tem qualquer outro suporte que o aguente. Mesmo essa necessidade, de que fala na sua carta, de acreditar em algo, só resulta em quem permanece com uma consciência ingénua, mítica, religiosa, isto é, assustada. Uma consciência crítica, ilustrada e evangelizada, isto é, libertada pelo Espírito de Jesus, o Cristo, faz de quem a possui um protagonista, um criador, um sujeito, um homem/uma mulher, como Jesus. Em lugar de fé em algo que nos domine, importa ter fé em si própria/em si próprio e fé nos demais, importa ter em quem confiar e com quem nos unirmos nos grandes e pequenos combates em torno das grandes Causas da Humanidade. Entretanto, pode acontecer que, à força de tanto crermos em nós próprios/em nós próprias e nos demais, inesperadamente, sejamos surpreendidos/as também pelo completamente Outro que nos sai ao caminho como um ladrão, não para nos roubar/alienar/assustar, mas para nos libertar de todos os medos e desafiar a irmos além de nós próprios/as e a confiarmos até naquele misterioso Sopro ou Espírito que nos fez ser e nos mantém no ser, sem que saibamos bem como. A felicidade que resulta de crermos em algo que, entretanto, nos dispensa de crermos em nós próprios/as e nos demais é pura alienação. É por aí que vão todas as religiões. Mas não é por aí que vai a via ou o caminho de Jesus de Nazaré, o Cristo. Com Jesus, a felicidade humana nunca se faz à custa de nós próprios/as, mas connosco. É uma felicidade que resulta de crescermos até à estatura de filhas e de filhos de Deus.

Brasil. Normandia: Fraternizar lembra-me um pensamento do Prof. Agostinho da Silva, quando pedia que não nos conformássemos (e foi pelo Professor que conheci Fraternizar). O senhor defende o seu ponto de vista com tanta convicção, segurança e ardor, que nos convida a reflectir e considerar tantos pontos a partir do Evangelho e de outras fontes. Degusto Fraternizar e o gosto é maior ainda porque nele encontro os admiráveis Leonardo Boff e Frei Betto. Alongar-me-ia sobremaneira, se fosse citar os momentos de ressurreição que o n.º 148 me proporcionou.

Gaeiras. José Jacinto: Permita-me tratá-lo sem muitos salamaleques, eu sei que é uma pessoa do povo, simples, nada vocacionada para essas coisas, mas é bom que se diga, merece-me um imenso respeito, não só por aquilo que é como pessoa com toda a frontalidade que o caracteriza, como ainda pelos escritos que publica e com os quais comungo inteiramente. Há imenso tempo que lhe devia ter enviado estas linhas, mas os afazeres profissionais por um lado, talvez uma certa inércia por outro, fizeram com que fosse como pode constatar. Longe de o esquecer, antes o tenho como referência, um profeta, como já alguém lhe chamou, que põe as verdades a nu, procurando com os seus chamamentos à razão e ao bom senso levar as pessoas a perceber que a vida é feita de pequenos nadas que são no fundo as grandes coisas, aquilo que dá de facto sabor, vale a pena viver quando a nossa sensibilidade é estimulada por valores tão altos quanto aqueles que o padre Mário procura transmitir-nos. Sem favor lhe peço, ousadamente em nome dos fracos, dos oprimidos, dos espoliados de tudo ou quase tudo, que não desista, continue a bem fazer, Deus estará sempre do seu lado, porque é fácil perceber o tão perto o padre Mário está da sua Palavra. Se a minha presença como ser humano lhe puder ser útil em qualquer circunstância, disponha sem reservas. Um abraço.

Algés. Gabriela Valério: Conforme já lhe comuniquei ao telefone, pertenço ao grupo de pessoas que o apoia, encoraja e confia que existem ainda em Portugal pessoas íntegras como o senhor que buscam a verdade. Só um pequeno reparo da minha parte, se me permite – não creio que seja necessária uma Igreja, nem sacerdotes, sejam eles homens ou mulheres. Necessitamos de pessoas corajosas, espiritualizadas e conscientes que vejam o ser humano como um todo no seu "eu" divino interiorizado e no seu "euzinho" do seu dia a dia no planeta Terra e que ponham em acção o seu ideal de solidariedade e de fraternidade, como muito bem fazem os que praticam a teologia da libertação reclamando a distribuição da riqueza e a igualdade de oportunidades. Com fome ninguém pensa na alma.

Necessitamos também que essas pessoas íntegras sejam portadoras da palavra divina, suficientemente humildes para entenderem que são simples canais transmissores e não intermediárias/os ou mandatárias/os de um Deus/Deusa. E que sejam tolerantes com as diversas formas com que nós interiorizamos a nossa origem divina e que se ouvimos vozes ou vemos coisas que os outros não vêem, não somos necessariamente loucos, mas talvez tenhamos acesso a outros estados de consciência ou planos/dimensões que são totalmente naturais e que a física quântica já interpreta. E que sejam também abertos à realidade de que o nosso planeta Terra não abriga as únicas formas de seres em todo o universo ou todos os universos e que a nossa relação com o tempo e o espaço poderá ser totalmente diversa por esse universo fora. E que quem sabe poder ser o nosso corpo simplesmente filho/a de um deus/deusa menor – resultado de experiências genéticas de outros seres – e estarmos presos numa gaiola virtual num laboratório de uma dimensão que nos escapa. Já estou a divagar, porque como explicar esta alma que nos habita e que nos diz que um dia voltamos para casa de que temos uma saudade louca?!

Que este período de inverno seja propício à interiorização, à escuta do divino e que possamos dar calor àqueles que nesta altura mais sós se sentem perante a celebração do consumo e perante a decadência do país e do mundo. Um abraço confiante.

Porto. Manuel Pinheiro: Todos devíamos ser solidários. Se o fôssemos, este nosso Portugal que tem 3.500 irmãos sem abrigo, segundo a RTP, seria cristão. O que falta é a verdadeira solidariedade, quer da parte governamental, quer da parte de todas as confissões religiosas. Quantas disponibilizaram as suas instalações (não digo onde se celebra o culto), mas tantas outras que poderiam acolher o mais infeliz, porque é com este que Jesus Cristo se identifica. E quantas casas devolutas, mesmo em bairros sociais, e milhares delas pertencentes a pessoas que andam a bater com a mão no peito, mas sem um mínimo de compaixão!. E Jesus Cristo continua a gritar bem alto: "Tudo o que fizestes ao mais pequenino, foi a mim que o fizestes". O cristão é conhecido pelo amor. Nunca pela missa, terço, cantar ou orar.

Atenção a esta estória: Havia uma senhora muito católica e que dizia ser muito amiga de Jesus. Um dia deslocou-se à igreja e convidou Jesus a vir almoçar a casa dela. Ele disse que sim. A hora foi fixada – 13 horas. Quando já passavam alguns minutos, a dita senhora, indignada, voltou à igreja e, em tom autoritário, protestou com Jesus, pela falta de comparência. Mas o mestre Jesus disse-lhe: "Já lá fui a tua casa três vezes e tu escorraçaste-me". Tinham sido três a pedir esmola.

O senhor Jesus Cristo, as imagens, os pregadores, os mortos, de nada precisam. Nem flores, nem velas, nem promessas, nem orações, nem missas. Somente os desfavorecidos necessitam da nossa solidariedade. E todos devemos ser solidários.

Lisboa (por E-mail). Arnaldo Pata: Estou a escrever esta mensagem para lhe dizer que gostei muito de ler o seu último livro, E Deus disse: Do que eu gosto é de política, não de religião. Não sou um acompanhante do que se faz no mundo da religião, digo, da fé, mas confesso que já há muito não lia nada que se identificasse tanto com algumas das minhas ideias acerca da religião. A religião, da forma como me é mostrada, facilmente me leva a pensar de forma ateia dessas cosias de Deus. Tal e qual como o companheiro pensa, nunca identifiquei Deus com a procissão de beatices que há neste país, de que Fátima é o apogeu desse clericalismo obscurantista. Uma das coisas que sempre me fez impressão foi ver Jesus nos Templos: crucificado, morto, a arrastar a cruz, enfim, um calvário de sofrimento e tristeza. Tudo oposto ao Jesus subversivo, diferente, humano e vivo. Enfim, o seu pensamento é de um verdadeiro cristão, que fala nos oprimidos pelo sistema.

Por hoje é tudo, espero que continue sempre a defender o verdadeiro cristianismo: o de Jesus de Nazaré, defensor dos pobres, oprimidos, excluídos do sistema capitalista e da globalização. Que o homem se liberte das amarras do sistema!!! Um grande abraço!

Por E-mail. Branco Baptista: Caro amigo: não me conhece mas perdoe-me falar-lhe assim e tratá-lo como amigo.

Acabei de ler o seu mais recente livro, E Deus disse: Do que eu gosto é de política, não de religião. Nunca em toda a minha vida - 35 anos já contados - me senti tão livre e identificado com o caminho de Cristo! Bem haja por tais palavras e que siga por muito tempo nesse caminho de liberdade.

Um abraço e disponha sempre.


ESPECIAL

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O Vaticano volta a atacar

O Vaticano volta a atacar. Desta vez, a vítima da caça às bruxas foi o teólogo ibérico, Juan José Tamayo-Acosta (foto), secretário da Associação de Teólogos e Teólogas João XXIII. Durante mais de três anos, andou a ser investigado, sem o saber. A Congregação vaticana do cardeal Ratzinger passou a pente fino os seus escritos - livros e artigos de jornais, ao todo mais de duas mil peças - e no dia 7 de Janeiro último ditou a setença, através do seu braço espanhol, a Comissão para a Doutrina da Fé (ex- Inquisição), da Conferência Episcopal de Espanha. O reputado teólogo fica fora da comunhão católica e não pode ensinar nas instituições oficiais da Igreja!

Nota da Comissão Episcopal para a Doutrina da Fé

Conferência Episcopal Espanhola

A propósito do livro de Juan José Tamayo Acosta, Deus e Jesus, Ed. Trotta, Madrid 2000


1. A Comissão Episcopal para a Doutrina da Fé, encarregada de acompanhar os bispos na sua tarefa de tutelar e promover a doutrina cristã, considera necessário dar alguns esclarecimentos sobre a doutrina do livro do senhor Juan José Tamayo Acosta, Deus e Jesus.

2. Com o propósito de mostrar "a especificidade do horizonte religioso de Jesus", o autor desenvolve o seu estudo segundo pressupostos metodológicos insuficientes: contradição frontal da Tradição da Igreja nas suas definições cristológicas, selecção arbitrária – não justificada – de passagens do Novo Testamento abandonando expressamente outras e interpretação das mesmas segundo critérios confusos que não se explicitam. A contribuição do autor não é mais do que uma versão renovada do antigo erro ariano: negação da divindade de Jesus Cristo, apresentação de Jesus como um simples homem, negação do carácter e real da ressurreição, e desta como dado fundamental da fé cristã. As conclusões a que chega o senhor Juan José Tamayo Acosta são incompatíveis com a fé católica.

3. Perante a repetida presença do senhor Juan José Tamayo Acosta nos Meios de Comunicação, mediante artigos nos jornais, entrevistas e publicações, a Comissão Episcopal para a Doutrina da Fé considera ser também necessário informar que, presentemente, o mencionado autor carece de missão canónica para ensinar teologia e não exerce a docência em nenhum Centro Superior da Igreja. Chamamos a atenção para o facto de, nos últimos anos, o autor ter seguido, nas suas publicações teológicas e manifestações públicas, uma trajectória que o afasta da comunhão eclesial, o que é incompatível com a condição de teólogo católico.

4. Por último, é igualmente motivo de preocupação a "Associação de Teólogos e Teólogas João XXIII", da qual o senhor Juan José Tamayo Acosta é secretário. Recordamos que esta Associação carece de aprovação canónica e não é, portanto, uma associação da Igreja católica.

Madrid, 7 de Janeiro de 2003.


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