Textos do
Jornal Fraternizar

Edição nº 145, de Abril/junho 2002

Destaque 1:

A vaidade do Papa João Paulo II não tem limites!!!

A vaidade do papa João Paulo II não tem limites. Assim como não tem limites a bajulação papal, por parte dos cardeais da Cúria Romana. Poucas pessoas saberão, pelo menos, entre aquelas que habitualmente não lêem jornais, que, com a entrada do euro, como moeda única em doze países da União Europeia, também o Estado do Vaticano foi convidado a aderir. O respectivo chefe de Estado, que é, como sabemos, o papa João Paulo II, não se fez rogado. E cunhou moeda própria. Podia ter simplesmente adoptado o euro de Itália, mas fez questão de cunhar moeda própria. E lá temos nós, na face nacional do euro do Estado do Vaticano, a efígie do actual papa. Digam lá se isto não é o cúmulo da vaidade. Era como se Portugal cunhasse a face nacional do euro com o actual presidente da república! Mas aquilo que, felizmente, nem sequer terá passado pela cabeça do actual chefe de Estado português, pelos vistos, passou pela cabeça do actual chefe de Estado do Vaticano. E lá temos nós a efígie do papa, na respectiva face nacional do euro do Vaticano. Talvez, para que os devotos do papa (admiram-se que o papa tenha devotos? Mas a verdade é que tem, mesmo em vida. O que não é de estranhar, uma vez que ele próprio se faz chamar e gosta que o chamem de "Sua Santidade", de "Santo Padre"...) não tenham que esperar pela morte dele e comecem, desde já, a comprar e a coleccionar euros do Vaticano, não tanto como moedas ou notas, mas como relíquias ou como recordação, uma espécie de "santinhos" em moedas ou notas.

É por estas e por outras que o Jornal Fraternizar é levado a concluir que uma generalizada demência eclesiástica assentou arraiais na Cúria do Vaticano e já não tem mais remédio, enquanto esta estiver activada. E nem sequer é de estranhar, uma vez que o poder absoluto anda por lá à rédea solta e sempre faz das suas. Ou não fosse verdade que o poder absoluto corrompe absolutamente. A prova está aí bem à vista: Nem o papa resiste. Nem os cardeais da Cúria romana. E os outros cardeais do resto do mundo. Todos se mostram possessos do poder sagrado. Sem se darem conta do ridículo em que caem.

O papa deveria ser exemplo de humildade, servo dos servos de Deus, e é ver para o que lhe deu. Tornou-se papa-euro, o rosto identificativo do euro do Estado do Vaticano. Como quem diz: O Estado do Vaticano sou eu, papa João Paulo II!...

O saudável, em tudo isto, era que nem sequer existisse Estado do Vaticano. Consequentemente, que não pudesse sequer haver euro com face nacional do Vaticano. Mas o que não faz mesmo qualquer sentido, inclusive, aos olhos dos mais fervorosos papistas, é que o rosto mais representativo da Igreja católica, a mesma que reiteradamente se reclama do nome de Jesus de Nazaré, o Cristo Crucificado/Ressuscitado, se apresente ao mundo como o chefe de Estado do Vaticano. E menos sentido faz que, agora, se tenha convertido em rosto identificativo da moeda do Estado do Vaticano. A que propósito? Onde já se viu tamanha desfaçatez?

O facto, de todo insólito e chocante, remete-nos, de imediato, para aquele episódio relatado pelos três Evangelhos Sinópticos, referente ao pagamento ou não do tributo a César. Fariseus e herodianos (homens do partido político de Herodes) coligaram-se contra Jesus e, em certa ocasião, foram ter com ele para lhe perguntar se era lícito ou não pagar o tributo a César. O relato assegura que o que eles pretendiam não era um esclarecimento, mas colocar uma armadilha a Jesus, para terem de que o acusar perante o representante do Império, em Jerusalém, no caso de Jesus responder que não, ou perante todo o povo judeu, no caso de Jesus responder que sim. E como reage Jesus?

A verdade é que ele tem uma reacção muito original e, à partida, absolutamente impensável, por parte dos seus inimigos. Ao contrário do papa João Paulo II e da sua Cúria Romana, toda infestada de altos graduados do Opus Dei, a sonharem com riqueza e poder desmedidos, que lhes permitam voltar a dominar o mundo, Jesus de Nazaré dá mostras de nem sequer conhecer a moeda com que se pagava o tributo a César! E, por isso, começa por pedir que lhe seja apresentada uma moeda, para ele a observar com todo o cuidado.

Ao ver que a moeda ostentava uma efígie, logo pergunta aos hipócritas que o interrogavam, de quem era aquela efígie e a quem se referia a respectiva inscrição. "De César", tiveram eles de reconhecer.

Com as coisas neste pé, a resposta de Jesus só podia ser a que ele lhes deu e que, ainda hoje, continua a fazer história: "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus" (Marcos 12, 17).

A cena de há dois mil anos, transplantada para o nosso hoje e aqui europeus, leva-nos a termos de perguntar, quando um dia nos caírem nas mãos moedas de euro cunhadas no Estado do Vaticano, de quem é aquela efígie que lá vem. E a resposta só pode ser: é do papa João Paulo II, o chefe máximo e absoluto do Estado do Vaticano, o mais recente sucessor de César imperador de Roma, esse mesmo que, em seu tempo, também se pensava um deus, com direito a culto público nas ruas e nas praças do Império e, por isso, fez cunhar a sua efígie nas moedas, para que nenhum dos seus milhões de súbditos tivesse dúvidas de que ele era o senhor de Roma e do mundo então conhecido!

Porém, depois, será também muito difícil que não nos lembremos da resposta que Jesus deu aos fariseus e herodianos, quando eles lhe mostraram uma moeda do tributo em concreto. E só poderemos reagir como Jesus então reagiu: Dai ao papa João Paulo II o que é do papa João Paulo II e a Deus o que é de Deus!

Bem sabemos que esta conclusão/resposta tem foros de escândalo. Duma só penada, diz que papa é papa, e Deus é Deus. Deixa claro que entre papa e Deus não há identidade. Por isso, pode-se estar com Deus e não estar com o papa. Como se pode estar com o papa e não estar com Deus! Pode-se prestar culto ao papa, e, com isso, ofender gravemente a Deus. Como se pode dissentir do papa e com isso dar glória a Deus!...

Dirão certas pessoas, que tiverem lido esta reflexão-denúncia até aqui, que o Jornal Fraternizar. nomeadamente, o seu director, está a blasfemar e a ridicularizar o papa. E que, com esta sua postura, está a faltar gravemente ao respeito ao papa, que o merece todo, por parte de toda a gente, muito mais por parte dos católicos e, muito mais ainda, por parte de uma publicação eclesial, se bem que não eclesiástica, para mais dirigida por um padre católico.

Não estranhamos. E creiam que não nos zangamos com essas acusações. São pessoas papistas, se não mesmo, papólatras, que receberam uma falsa catequese, mais eclesiástica do que eclesial, mais católica-romana, do que cristã-evangélica. São pessoas que ainda pensam que o papa é uma espécie de Deus na terra. Ou que é o vigário de Cristo, isto é, que faz as vezes de Cristo, aqui entre nós. Desconhecem alguns dados fundamentais da Fé cristã, os quais têm sido propositadamente escondidos às pessoas. Em concreto, desconhecem:

1. que Jesus de Nazaré, o Cristo, não precisa de quem o represente, muito menos, de quem lhe faça as vezes. Porque não é um morto com dois mil anos, nem um desaparecido. É o Vivente por antonomásia, o Ressuscitado que ressuscita o mundo, e que o que mais deseja é ter discípulas e discípulos que o sigam, em todos os momentos das suas vidas, não pessoas que se aproveitam do seu nome, para poderem alcandorar-se a lugares de poder absoluto, coisa que nem Deus alguma vez fez ou fará, apenas o Diabo. Aliás, dizer Diabo e dizer Poder absoluto, é dizer a mesma coisa, pelo menos, no testemunhar do Evangelho e do próprio Jesus de Nazaré;

2. que, se alguma vez quisermos falar de alguém como "vigário de Cristo" e, sobretudo, se quisermos atribuir esse título a alguém, nunca há-de ser ao papa, aos outros bispos, ou ao clero em geral. Esse título apenas pode ser dado aos pobres, aos empobrecidos do mundo, aqueles que todos os dias se queixam - "Tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber, estava nu e não me vestistes, vivia sem casa e não me acolhestes, estava doente e não me visitastes, estava na prisão e não fostes ter comigo". E porquê assim? Porque todas as vezes que deixamos de conceber/criar/realizar economias e políticas de partilha e de comunhão dos bens, foi ao próprio Cristo vivo, que deixamos de o fazer. Ele mesmo no-lo revela, numa impressionante e inesquecível parábola, em Mateus 25, 31-45;

3. que o próprio Jesus de Nazaré, depois que disse ao apóstolo Simão, um dos Doze, "Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja" (Mateus 16, 18), apressou-se a dizer-lhe, pouco depois, "Afasta-te de mim, Satanás! Tu és para mim um estorvo, porque os teus pensamentos não são os de Deus, mas os dos homens com sede e sonhos de poder!" (Mt 16, 23). Na verdade, nessa altura, Pedro ainda sonhava com o poder absoluto e, por isso, tentava desviar Jesus de Nazaré da confrontação com os representantes desse mesmo Poder absoluto instaurado no seu país;

4. finalmente, que a Igreja é uma comunidade de comunidades, constitutivamente sororais/fraternas, nas quais não há lugar para o poder, muito menos, para o poder absoluto, pois entre o Poder absoluto e Deus a incompatibilidade é total. Como é total a incompatibilidade entre Deus e o Dinheiro, concretamente, quando ele, nas suas moedas, se faz cunhar com a efígie de César de Roma, ou com a efígie do papa João Paulo II, o mais recente sucessor de César de Roma.

É por isso que a resposta do Jornal Fraternizar àqueles que o acusam (e ao seu director) de faltar ao respeito ao papa, só pode ser esta: o que nos move é o amor à Igreja em que nos integramos. E, se escrevemos estas coisas, ainda é para ver se conseguimos que o papa João Paulo II se respeite a si próprio. Que seja simplesmente um homem. E jamais assuma posturas de Deus na terra, que isso é idolatria, o pecado que mais nega Deus, pelo menos, aquele Deus que se nos revelou em Jesus de Nazaré, o Cristo Crucificado/Ressuscitado!


Destaque 2:

Eucaristia, ou sacrílego negócio?


A chamada Eucaristia ou Missa, que a Igreja católica continua a repetir a torto e a direito e a propósito de tudo e de nada, em tudo quanto é santuário, igreja ou capela, e noutros locais de tradicionais romarias em honra de míticas imagens de deusas e de deuses, hoje, travestidos de nossas senhoras, de santas e de santos católicos, assim como em tradicionais locais de descarado turismo religioso e de notória prática de bruxaria, ainda é a actualização/Memória da verdadeira Eucaristia, celebrada pelo próprio Jesus de Nazaré, no decorrer da última ceia e logo consumada por ele na sua Morte/Ressurreição, ou é sobretudo a repetição até à náusea de um rito mágico, a que nem sequer faltam também as indispensáveis palavras mágicas? Ainda é a actualização/Memória da verdadeira Eucaristia que foi, é, a totalidade da vida de Jesus, o Libertador/o Cristo, ou, com o tempo, acabou por se converter num sacrílego e blasfemo negócio clerical e eclesiástico, realizado à pala do santo nome de Jesus, e à pala da sua morte na cruz e da sua perigosa e subversiva memória? E a chamada adoração eucarística, ainda hoje em voga – por sinal, bastante menos do que num passado recente, anterior ao Vaticano II – terá alguma coisa a ver com a perigosa e subversiva memória de Jesus Crucificado/Ressuscitado que a Eucaristia, quando é celebrada a sério, sempre actualiza e faz misteriosamente presente na História, ou não passa duma mal disfarçada forma de idolatria católica que até dispensa quem, regularmente, se entrega a essa prática litúrgica, de se fazer próximo do Cristo de carne e osso que sempre nos espera aí nos que têm fome, sede, estão nus, sem casa, na prisão, sofrem injustiças, são imigrantes, vítimas de discriminação, de maus tratos, de doenças curáveis e incuráveis, de solidão e de abandono (cf. Mateus 25, 31-46)?

Estas perguntas não são feitas com a intenção de achincalhar a Fé cristã católica na Eucaristia. Muito pelo contrário. Ao formulá-las, Jornal Fraternizar está já a sugerir que, se calhar, a prática eucarística que, desde há séculos, a generalidade do clero católico sustenta e promove, e da qual ainda hoje tira não pouco proveito, tanto ao nível financeiro, como ao nível da influência e do poder sobre o pleno da massa dos fiéis católicos, mulheres e homens, é que pode estar a ser, afinal, a mais eloquente prova provada de que nem mesmo aqueles que a ela presidem – padres, bispos e o próprio papa – acreditam a sério no que reiteradamente dizem e fazem.

Na verdade, se a Hóstia consagrada por eles é realmente o Corpo de Cristo e o vinho do Cálice é realmente o Sangue de Cristo, então como é que se explica que a generalidade dos padres e dos bispos trate uma e outro da maneira que se sabe, inclusive, se atreva a fazer negócio com a respectiva celebração da Eucaristia/missa, no decorrer da qual seria suposto acontecer – se calhar, já só acontece um rito mais ou menos mágico e vazio! – o Sacramento Maior das palavras e dos gestos de Jesus? E como se explica que a generalidade dos padres e dos bispos, bem como dos chamados fiéis católicos, mulheres e homens, mais mulheres do que homens, coma/comungue a Hóstia e beba o Cálice (este é quase só para consumo privativo dos padres e dos bispos!), com a descontracção e a sem-cerimónia de quem entra num café e toma uma torrada com meia de leite, ou umas "sandes" com um copo de cerveja? Afinal, foi para "isto" que Jesus, na noite em que ia ser entregue, tomou o pão, deu graças, o partiu e deu aos discípulos e disse: Tomai e comei, Isto é meu corpo; e, igualmente, tomou o Cálice com vinho e disse: Tomai e bebei, este é o Cálice do meu sangue, derramado por vós e por todos, mulheres e homens? E foi também para este tipo de liturgia eclesiástica que Jesus terá acrescentado, com solenidade: Fazei isto em memória de mim? Certamente, foi para outra coisa muito distinta. E é o que o Jornal Fraternizar vai tentar apontar nesta reflexão, sem contudo pretender ser exaustivo.

Para já, ao ver o estado a que as coisas chegaram, na nossa Igreja católica, é caso para exclamar: Ao que a Igreja católica acabou por reduzir a Eucaristia! Ao que a Igreja católica acabou por reduzir a perigosa e subversiva Memória de Jesus de Nazaré, o Cristo. Ao que a Igreja católica acabou por reduzir a última Ceia de Jesus e aquele seu provocador e desafiador mandamento – "Fazei isto em memória de mim"!...

Sabiam, por exemplo, que antes do século XII – portanto, quando tudo estava bem mais próximo das fontes do Cristianismo – não havia culto público à Hóstia consagrada? Sabiam que foi só no século XIII, mais propriamente, no ano de 1215, que o IV Concílio de Latrão introduziu, pela primeira vez, a palavra "transubstanciação", a propósito da Eucaristia? E sabiam que foi só a partir daí que se abriram as portas para a prática da elevação da Hóstia nas missas e para o generalizado culto público da Hóstia, independente da celebração da Eucaristia? Sabiam que a devoção à Hóstia consagrada acabou por se tornar, pelo menos, para as populações menos ilustradas e nada evangelizadas – então, era a esmagadora maioria, e hoje a situação também não andará muito longe da de então, pelo menos, no que toca a populações por evangelizar! – bem mais importante do que a Eucaristia, e do que a comunhão do Pão/Corpo de Cristo e do Vinho/Sangue de Cristo? Sabiam que o culto público ou privado da Hóstia acabou por ir ao encontro das tendências idolátricas das populações não ilustradas e não evangelizadas e, em muitos casos, acabou por se tornar mesmo idolatria efectiva, com tudo o que a idolatria tem de nefasto e de perverso para os seres humanos que a praticam? Sabiam que, a partir do século XIII, com o culto da Hóstia, as pessoas deixaram de falar da Eucaristia na sua misteriosa dimensão de Corpo místico de Cristo, e de Comida/Bebida, e passaram a falar dela como um mais ou menos alucinado "ver a Deus"? E não é que, na sequência desta mudança de acento tónico doutrinal e pastoral, algumas pessoas chegaram a afirmar que viam mesmo a Deus, ao olharem, fixa e demoradamente, para a Hóstia? (Mas como podem ter falado verdade, se nunca ninguém viu a Deus, nem alguma vez poderá ver?!) E não é que não faltou, até, quem, a este propósito, inventasse estúpidas (de piedoso, não tinham nada!) estórias/anedotas, pregadas depois como se fossem factos verídicos, através das quais se dizia que houve Hóstias consagradas que chegaram a verter sangue, e outras Hóstias das quais saíram gemidos de dor e/ou intensíssima luz? E sabiam também que, ainda na sequência desta mudança de acento tónico doutrinal e pastoral, o momento da elevação da Hóstia nas missas passou a ser o mais importante da celebração da Eucaristia, por sinal, um momento ainda hoje assinalado com um toque de campainha, pelo menos, em algumas igrejas? Sabiam que só a partir dessa altura – século XIII – é que se desenvolveram as ainda hoje conhecidas devoções à chamada "reserva eucarística", como procissões, tempos de adoração e outras? E sabiam que a festa do Corpus Christi (Corpo de Deus, na expressão popular) só teve início em meados do século XIII? Sabiam que, pela alta Idade Média, não faltou, até, quem inventasse o chamado "Purgatório", por onde tinham obrigatoriamente de passar todas as almas dos que morriam, para aí se "purificarem" antes de "subirem" para o céu, e, correlativamente, também garantisse que a celebração de trinta missas seguidas (um "trintário" bem pago) pela alma de um morto, em outros tantos dias seguidos, dava acesso automático dessa mesma alma ao céu? E sabiam que, com esta sacrílega mentira, muitos conventos de frades governaram financeiramente as suas vidas e ainda hoje a generalidade do clero católico continua a governar também a sua, quando se atreve a celebrar uma única missa (Eucaristia, aquilo?!) por dez, vinte, trinta ou mais "almas" de pessoas falecidas e cobra, pelo menos, os dez euros da praxe por cada uma dessas almas nomeadas?

Mas será que foi para coisas destas e de outras semelhantes que Jesus fez o que fez na última ceia, horas antes de ser preso, julgado, condenado à morte e executado na cruz? Ou a Eucaristia é outra coisa que nem os padres, nem os bispos, nem o próprio papa, muito menos os fiéis leigos/as fiéis leigas imaginam o que é, e tão-pouco querem saber o que é, não vá terem de abandonar de vez as suas rotinas pastorais e as suas esteriotipadas celebrações eucarísticas ou missas, com tudo o que elas têm de anti-evangélico e de perverso?

Estranharão muitos e muitas o que aqui acaba de ser dito e escrito. Mas acreditem que o Jornal Fraternizar, ao fazê-lo, nem sequer está a ser original. Isto mesmo – com outras palavras, evidentemente – já o apóstolo Paulo o disse, na sua primeira Carta aos Coríntios (11, 17-34), a propósito da Eucaristia.

Diga-se, a este respeito, que o texto em causa é a referência mais antiga de que dispomos sobre a Eucaristia, tal como ela era celebrada na e pela primitiva Igreja, enquanto Memória actualizada e sempre nova da "Ceia do Senhor". Diga-se igualmente que os relatos da "última Ceia" de cada um dos três Evangelhos sinópticos são todos posteriores a esta Carta de Paulo. E diga-se também que o quarto Evangelho, erradamente atribuído a João, é ainda mais posterior, pois surge apenas lá para os finais do século primeiro. Curiosamente, este último Evangelho, embora dedique vários capítulos à "última ceia" de Jesus, não nos dá uma única palavra sobre a "instituição" da Eucaristia! No lugar em que seria de se lhe referir, o Evangelista preferiu colocar os conhecidos relatos do "lava-pés" e do Mandamento Novo de Jesus (por sinal, ambos exclusivos dele); o que, só por si, ajuda a entender o que é que, segundo este Evangelho, Jesus pretendia das discípulas e dos discípulos, quando lhes "exigiu" que "comessem a sua carne e bebessem o seu sangue", para, assim, poderem saborear/conhecer "a vida que não perece", e que o seu Espírito garante a todas as mulheres e a todos os homens que, como Dom seu/Graça sua, se identifiquem verdadeiramente com ele e com o seu viver histórico (cf. todo o capítulo 6 de João).

"Quando vos reunis – vejam só o que escreve Paulo na referida Carta!... – não é a ceia do Senhor que comeis, pois cada um se apressa a tomar a sua própria ceia; e enquanto um passa fome, outro fica embriagado." Relata depois o essencial do Acontecimento Eucaristia, tal como ele próprio o terá recebido do Senhor: "Com efeito, eu recebi do Senhor o que também vos transmiti: na noite em que foi entregue, o Senhor Jesus tomou o pão e, depois de dar graças, partiu-o e disse: Isto é o meu corpo que é entregue por vós; fazei isto em memória de mim. Do mesmo modo, depois da ceia, tomou o cálice e disse: Este cálice é a nova Aliança no meu sangue; todas as vezes que dele beberdes, fazei-o em memória de mim. Porque todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, anunciais a morte do Senhor até que ele venha."

Atentem, entretanto, no que o mesmo Paulo acrescenta de imediato, à guisa de primeira conclusão prática: "Assim, todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor." E, não satisfeito com esta primeira conclusão, prossegue ainda mais incisivo: "Portanto, examine-se cada um a si próprio e só então coma deste pão e beba deste vinho; pois aquele que come e bebe, sem distinguir o corpo do Senhor, come e bebe a própria condenação." Para logo rematar, ainda mais cáustico: "Por isso há entre vós muitos débeis e enfermos e muitos morrem. (...) Por isso, meus irmãos, quando vos reunirdes para comer [a ceia do Senhor], esperai uns pelos outros. Se algum tem fome, coma em casa, a fim de não vos reunirdes para vossa condenação."

Pode-se dizer que, ainda hoje, quase toda a gente católica continua a desconhecer – os exegetas bíblicos e os teólogos têm obrigação de saber, mas acabam por alinhar, preguiçosamente, com as rotinas estabelecidas, até para não virem a conhecer a exclusão e a consequente perda da prestigiante cátedra que detêm nas universidades católicas – que o termo Eucaristia ou Acção de graças, assim como o verbo "abençoar", referido em todos os relatos de acções/intervenções de Jesus relacionadas com o Partir/Repartir o Pão (e os Peixes) e com o Pão e o Vinho, na última ceia, são sinónimos e teologicamente significam "expropriar", retirar o título de propriedade, resgatar, libertar do dono – uma acção prévia absolutamente indispensável, para que o Pão (e, no Pão, todos os bens essenciais à vida de todos e de cada um dos seres humanos) possa finalmente ser Partido, Repartido e Comido.

Abençoar é, por isso, mais, muito mais, do que traçar uma mágica cruz sobre o Pão e sobre o Vinho. Traçar uma cruz com a mão, seja do padre, do bispo ou do papa, não passa de um gesto meramente ritual/mágico, totalmente inócuo e inofensivo, tanto do ponto de vista económico, como social e político. Como tal, pode ser repetido até a saciedade e até à náusea, aos domingos e dias de semana, nas igrejas e capelas, sem que nada de politicamente subversivo e perigoso e de fecundamente existencial aconteça na vida e na sociedade em que se inserem as Igrejas cristãs que celebram regularmente a Eucaristia ou a Ceia do Senhor.

Mas abençoar o Pão ou dar graças (Eucaristia) no forte e revolucionário sentido teológico de o expropriar e, nele, expropriar todos os bens indispensáveis à vida de todas as pessoas, para que esses mesmos bens possam ser Partidos, Repartidos e Comidos, segundo a necessidade de cada uma delas, será sempre um gesto subversivo e perigoso, tanto no campo económico, como no campo social e político, pois é um gesto que abre caminho a uma Nova Ordem Económica, Social e Política, diametralmente oposta à que presentemente conhecemos, e que serve de base de sustentação às multinacionais e ao seu abominável deus, o Dinheiro.

Ora, é para aqui que teologicamente aponta a Eucaristia. É uma Nova Criação, constituída por homens/mulheres novos, totalmente libertos e criadores duma Nova Ordem Económica, Social e Política Mundial, feita de verdade e de comunhão de bens e de vida, que a Eucaristia pretende fazer acontecer na História. Tanto assim é, que as primeiras comunidades cristãs, alimentadas com a carne do Filho do Homem e "embriagadas" com o seu sangue, isto é, alimentadas e "embriagadas" com aquele mesmo Espírito ou Sopro que fez de Jesus um homem-para-os-demais ("É o Espírito quem dá a vida; a carne não serve de nada: as palavras que vos disse – esclareceu Jesus aos que se escandalizaram quando ele disse que tinham que comer a sua carne e beber o seu sangue – são espírito e são vida. Mas há alguns de vós que não crêem"), entenderam, e bem, que os bens dos respectivos membros eram para ser Partidos, Repartidos e Comidos por todos, segundo as necessidades de cada um. A isso levava a Eucaristia, ou seja, o Sopro ou o Espírito que dela saía ou emanava, se, evidentemente, não se fazia dela um rito mais ou menos mágico, que foi o que acabou por acontecer, nomeadamente, depois que, no século IV, a Igreja se transformou em Religião católica do Império romano e o Cristianismo se transformou em Catolicismo, uma mistura de Paganismo, de religião politeísta e de citações bíblicas, com deusas e deuses travestidos de imagens de nossas senhoras, de santas e de santos. E porque é que a Eucaristia levava e leva a isso? Precisamente, porque Jesus deu ao Pão a misteriosa dimensão do seu próprio Corpo entregue e ao Vinho a misteriosa dimensão do seu próprio Sangue derramado pela vida do mundo. Isto é, o Pão e o Vinho abençoados (= expropriados), são o sacramento/mistério (= revelam a viva/ressuscitada Presença) do Homem-para-os-demais, que foi e é Jesus de Nazaré, o Cristo, do homem que, livre e voluntariamente, se auto-expropriou, isto é, se fez Dom, se entregou, se deu por inteiro, a começar pelos últimos dos últimos. E, por isso, outra coisa não espera, agora, das suas discípulas e dos seus discípulos, senão que sejam mulheres e homens como ele. E, para que o possam ser, deu-se/dá-se a comer e a beber a elas e a eles, o mesmo é dizer, comunica-lhes o seu Espírito ou o seu Sopro e a sua vida. Porque, para Jesus – e esta é a Revelação maior que ele nos fez e que, ainda hoje mais nos custa acolher e viver – não há outra maneira de se ser homem/mulher integral, realizado, completo, perfeito, feliz, senão sermos, como ele, Pão/corpo abençoado/Expropriado/Partido/Repartido, Vinho/sangue Derramado, isto é, Homens e mulheres em quem o Sopro ou o Espírito de Deus Criador habita e nos torna Dom, seres-para-os-demais, numa comunhão de vida e de bens sem limites e numa fraternidade/sororidade sem reservas e universal.

E que terá querido Jesus dizer, quando nos deu o célebre mandamento eucarístico: "Fazei isto em memória de mim"? (muita gente católica ainda nem sequer se deu conta de que este mandamento não aparece no relato da última ceia de Jesus do Evangelho de Marcos, nem no relato da última ceia de Jesus do Evangelho de Mateus; aparece uma única vez no relato da última ceia de Jesus do Evangelho de Lucas e duas vezes, uma depois do Pão, e outra depois do Vinho, no relato da última ceia de Jesus da Primeira Carta de Paulo aos Coríntios; tão-pouco já se deu conta de que os relatos de Marcos e de Mateus não dizem que os que estavam à mesa comeram efectivamente do Pão/corpo de Cristo!...)

O que Jesus terá querido dizer com esse seu mandamento não pode ser simplesmente a repetição do rito mais ou menos mágico e inócuo que a Igreja católica tem andado a fazer, durante todos estes séculos. Terá sido, até, por a Eucaristia se ter limitado, todos estes séculos, a um rito litúrgico assim, sem chegar a distinguir o corpo do Senhor, que o nosso mundo está como está – luxo e riqueza acumulada no viver de poucos, e lixo e pobreza/miséria no viver da esmagadora maioria da Humanidade. Um mundo onde há, fatalmente, "muitos débeis e enfermos e muitos morrem" antes de tempo, como o apóstolo Paulo já reconheceu que era assim entre os coríntios, cuja Eucaristia ou Ceia do Senhor servia para que uns passassem fome e outros bebessem até se embriagar.

É preciso que se diga: O mandamento de Jesus: "Fazei isto em memória de mim", remete-nos para uma mudança de ser, nos que celebramos a Eucaristia, e não apenas para a repetição de um rito. A transubstanciação de que se fala, na Eucaristia, tem de acontecer não apenas ao nível do Pão/Corpo de Cristo e do Vinho/Sangue de Cristo. Tem de acontecer também ao nível de quantas e de quantos comem a carne de Filho do Homem – Jesus, o Cristo – e bebem o seu sangue. Para que de homens e mulheres egoístas e solitários que naturalmente somos, passemos a ser homens e mulheres comunitários e solidários, pessoas que não se pertencem, que se dão, que amam até dar todos os dias a própria vida pela vida do mundo. Numa palavra, homens e mulheres como Jesus, possuídos e conduzidos pelo mesmo Espírito ou Sopro. Porque não podemos comer a carne do Filho do Homem e beber o seu sangue, e continuarmos a ser carne e sangue nos antípodas do Pão Expropriado/Partido/Repartido e do Vinho Derramado. Temos de ousar ser carne e sangue para a vida do mundo, vidas humanas que vivem na História para fazer viver a muitas e muitos.

Avançar por esta via, que é o próprio Jesus Crucificado/Ressuscitado, é uma revolução! Acabarão de vez as missas-negócio e que mais parecem uma mera repetição dos ritos religiosos com pão e vinho, típicos dos Mistérios do deus Mitra, por sinal, muito em voga no tempo de Jesus entre os pagãos politeístas do Império romano (ou por outra: elas até podem continuar, mas que então não se diga que são a actualização da Memória de Jesus!). Em seu lugar, voltaremos a descobrir a comunhão efectiva com o corpo e o sangue (= todo o ser/viver) de Jesus, nomeadamente, com o seu Espírito ou Sopro e, graças a esta comunhão, no Pão Partido/Repartido/Comido e no Vinho Derramado/Bebido em sua memória, acabaremos por ser com ele, por ele e nele, homens/mulheres-para-os-demais, vidas que se dão para a vida do mundo. O que faz da Igreja-comunidade-de-comunidades, sacramento vivo ou revelação viva dessa Nova Criação que o Espírito de Deus está ininterruptamente a erguer/edificar connosco na História. E que substituirá a presente Ordem mundial que, graças ao ser/viver/morrer/ressuscitar de Jesus, tem já os dias contados, ou não fosse ela uma Ordem anti-vida e anti-humana, que mantém a verdade cativa na injustiça.


Editorial

Quem livrará o mundo da demência política de Bush?

Quem livrará o mundo – Estados Unidos da América incluídos – da demência política do presidente Georges W. Bush? A pergunta pode parecer injuriosa, mas não é. Trata-se duma pergunta estritamente teológica, ou seja, uma pergunta que se situa no amplo contexto da libertação/salvação da Humanidade e do próprio Universo que lhe serve de berço, o qual, como a Humanidade que o habita, está em risco de explodir ou de implodir, devido, sobretudo, à demência política do presidente norte-americano que, de repente, passou de presidente incompetente e inconsciente (pelo menos, assim o considerava, desde o primeiro momento em que ele tomou posse, a generalidade dos outros líderes mundiais e dos "media"), a presidente sábio e carismático, a quem todos os outros chefes de Estado do mundo se sentem no dever de apoiar e seguir. Bastou, para tanto, ter havido o 11 de Setembro de 2001.

É então que o presidente norte-americano, depois de se ter sentido subitamente acossado de todos os lados pelo medo, como se fosse o mais indefeso presidente do mais pequeno Estado do mundo, logo emergiu com a arrogância e a violência típicas de todos os acossados e assustados, a esgrimir palavras e ameaças de bombardeamentos aéreos contra tudo e contra todos. Em lugar de imediatamente se recolher, depois dos ataques do 11 de Setembro de 2001 (o dia em que verdadeiramente começou o século XXI e o terceiro milénio!), num fecundo retiro de vários dias, para, assim, melhor poder analisar, com humildade, o que tinha acabado de acontecer ao seu país, eis que o presidente Bush se apressou a correr à televisão, para daí declarar, urbi et orbi, guerra a todos os povos (o que já fez e continua a fazer, por exemplo, no empobrecido e oprimido Afeganistão é demoniacamente exemplar). Só mesmo um chefe de Estado, vítima de súbita demência política, seria e será capaz de agir assim.

Quando era de esperar que, depois do ataque às torres gémeas de Nova Iorque e ao Pentágono, o presidente Georges W. Bush tivesse a humildade de aparecer, nas televisões do mundo, a bater no peito e a pedir perdão, urbi et orbi, com verdadeira contrição e firme propósito de emenda, por todos os crimes sem conta nem medida que os Estados Unidos da América têm sistematicamente cometido, anos e anos a fio, contra o resto do mundo, sem que ninguém, até 11 de Setembro de 2001, lhes fosse à mão e os sentasse no banco dos réus – e, com esse seu corajoso e lúcido gesto, inaugurasse um surpreendente Hoje de paz em toda a terra – eis que, em vez disso, ele se apresentou no máximo da sua arrogância, aquela mesma que o mundo sempre conheceu nos presidentes que o precederam à frente dos destinos dos Estados Unidos da América, e, sem mais, declarou guerra a tudo e a todos, no bom estilo de qualquer império – "Quem não é por nós, Casa Branca e administração norte-americana, é contra nós".

Surpreendentemente, ou talvez não, os restantes líderes mundiais, em lugar de se unirem para exigir imediata retractação desta militarista decisão de Bush e convencerem o presidente norte-americano a enveredar por outro caminho, concretamente, o caminho da reconciliação e da paz, correram todos a solidarizar-se com ele e com a sua despropositada declaração de guerra ao mundo. Certamente com medo de que também os seus respectivos países pudessem vir a ser alvo da súbita demência política do presidente do mais poderoso e temido império da actualidade, os Estados Unidos da América.

Pode, pois, dizer-se que, desde esse dia, se deu início oficial a uma nova Guerra mundial. E, desde então, vivemos formalmente mergulhados em plena Guerra Mundial. Uma guerra que sabemos como começou, não sabemos como se desenvolverá, muito menos como irá acabar. Mas que já estamos mergulhados numa nova guerra mundial, ninguém tenha mais dúvidas. E uma guerra com uma dinâmica que a Humanidade nunca antes conheceu. E por isso também ninguém sabe como irá desenrolar-se e quanto tempo irá durar.

Provavelmente será uma guerra para múltiplas gerações, até que da face da terra tenham sido erradicadas a miséria imerecida e a pobreza imposta; a injustiça social e a arbitrariedade económico-política das multinacionais e dos Estados que as acolhem e lhes dão cobertura; a cruel desigualdade entre uma minoria rica e as imensas maiorias pobres, melhor, empobrecidas; a discriminação entre Ocidente e Oriente, entre Europa e África, entre Europa e Ásia, entre Europa e Oceânia. E até que a presente Ordem Económica e Política Mundial, que tanto favorece as minorias ricas e poderosas em todo o mundo e tanto desfavorece as maiorias empobrecidas e humilhadas do planeta, seja definitivamente substituída por uma outra Ordem Económica e Política Mundial, integralmente pensada e realizada para garantir vida e vida em abundância, para sempre, a todos os indivíduos e a todos os povos, sem excepção de nenhum.

Os Estados Unidos da América podem dizer, em sua defesa – e é o que efectivamente dizem! – que não foram eles quem deu início à guerra. Que se limitaram a entrar na guerra que outros lhe declararam. Sob a forma do mais infame e cruel "terrorismo" (a expressão é do presidente Bush e de todos os que dizem amen com ele e partilham da sua demência política). Mas a verdade é que os Estados Unidos da América, também aqui, não têm razão. Só a demência política do presidente Georges W Bush e de toda a sua administração poderá fazer uma leitura dessas acerca de tudo o que se passou no dia 11 de Setembro de 2001.

A verdade é que o ataque sem precedentes que destruiu as torres gémeas de Nova Iorque e grande parte do Pentágono, com todo o seu rol de vítimas humanas e de inenarrável sofrimento, a que a mediatização do acontecimento emprestou inevitável impacto planetário, não foi uma declaração de guerra contra os Estados Unidos da América. Foi – custa reconhecê-lo, mas tem que ser dito sem tergiversar – uma inesperada e violentíssima reacção, da parte dos milhões e milhões e milhões de humilhados e ofendidos de todo o mundo, contra os sucessivos crimes de lesa-Humanidade, de que todos eles têm sido vítimas, por parte dos Estados Unidos da América e por parte de todos os ricos e poderosos do mundo que, como eles, gostam de se abrigar sob a presente Ordem Económica e Política mundial, como se ela fosse uma Ordem feita de verdade e de justiça, de liberdade e de amor, quando não passa duma Ordem perversa e genocida, que mantém a verdade cativa na injustiça. Por sinal, uma reacção concebida e consumada com surpreendente criatividade, incrível imaginação, sem uma única bomba e sem um único tiro, apenas com algumas, poucas, vidas de homens que se auto-imolaram naquela operação/intervenção guerrilheira de libertação (os impérios, desde o império dos faraós, no Egipto, e os poderes ditatoriais que se lhes assemelham, sempre rotularam de "terrorismo" todas as operações/intervenções guerrilheiras de libertação!... E o império de Bush – o novo faraó – não foge à regra).

Este é por isso um momento de grande esperança e também de enorme inquietação. E porquê? É que num mundo como o nosso, enquadrado por uma Ordem Económica e Política mundial intrinsecamente perversa e genocida como a presente, que fabrica minorias privilegiadas com tanto de opulento como de cruel e de monstruoso, e maiorias desfavorecidas com tudo de sub-humano e de sofrimento sem-sentido, uma guerra mundial como a que está presentemente em curso, e destinada a erradicar da face da terra tudo o que, hoje, a desfigura e a desumaniza, e a substituir por uma outra, bem mais justa e humana, a presente Ordem Económica e Política mundial, só pode ser uma guerra de libertação/salvação, na qual o próprio Espírito de Deus está misteriosamente metido e actuante, para a levar a bom termo.

O nosso Hoje é por isso um Hoje de muita esperança para toda a Humanidade. Mas não deixa de ser igualmente um Hoje de muita inquietação, de muitas dores, de muitas mortes anunciadas, de muitos desastres, de muito sangue derramado, de muitas lágrimas. Mas, mesmo assim, um Hoje de muita esperança.

Apressemo-nos então a reconhecer, à semelhança do apóstolo Paulo, na sua Carta aos Romanos, que o nosso Hoje é um Hoje que geme e sofre as dores de parto, até alcançar a liberdade das filhas e dos filhos de Deus. O que só será plena realidade, quando a presente Ordem Económica e Política mundial der lugar a uma outra, com dinâmica libertadora e salvadora de todos os seres humanos e de todos os demais seres não-humanos que nos precederam, na cadeia da evolução, e sem os quais o Universo seria um imenso deserto sem poesia e sem música, sem fontes e sem rios de águas límpidas, sem mar e sem estrelas, sem praias e sem amores, sem festa e sem coitos em liberdade, sem prazeres e sem cheiros, sem sabores e sem exotismo. Um estúpido degredo sem sentido. Uma estúpida prisão sem grades. Uma alienada vida sem sal.

Quem, pois, nos livrará da demência política do presidente Geroges W Bush e da demência política de todos os outros chefes de Estado que se lhe assemelham e dizem amen com ele, a começar pelo presidente Sharon, do Estado de Israel?

Humilhados e ofendidos do mundo, unam-se e avancem! Esta é a hora de todas as acções de libertação. Por uma nova Ordem Económica e Política mundial. Por novas lideranças económicas e políticas locais, nacionais, continentais e mundiais, que sejam capazes de ouvir e atender os clamores dos humilhados e ofendidos do planeta e da própria Natureza em agonia.

Em vez de, ano após ano, nos metermos nos templos a repetir até à exaustão os estéreis ritos da Páscoa, façamos finalmente a Páscoa! Com alegria. E sem medo! Em comunhão com o Espírito de Jesus, o Crucificado a quem Deus ressuscitou!

Vosso irmão e companheiro,

Mário, Presbítero

Espaço Aberto

Cartas ao Director

Lisboa. Francisco Monteiro (Obra Nacional da Pastoral dos Ciganos): Agradecemos que o Jornal Fraternizar deixe de ser enviado para o jornal A CARAVANA, como vinha a ser, em regime de permuta, pelo que solicitamos que o nome e morada d’A CARAVANA sejam retirados da vossa lista de endereços. Entretanto, até nos ser dada indicação em contrário, temos muito gosto em continuar a enviar A CARAVANA gratuitamente ao Jornal Fraternizar.

A razão deste pedido é que não pretendemos continuar a receber um jornal que ataca, para nós chocantemente, João 6 e o dogma católico da Eucaristia (Fraternizar n.º 144, p. 2), além de pretender substituir-se a Deus no juízo de um homem, o nosso Bispo D. José Policarpo, atribuindo-lhe um pecado, ainda por cima contra o Espírito Santo. Como se em toda a história da Igreja, sobretudo nas épocas de maior espiritualidade como esperamos que a nossa esteja a ser, não tenha havido locais de peregrinação onde o reencontro entre o homem e Deus se faz com particular intensidade.

Lisboa. António Costa: Tem sido o caro Pe. Mário de Oliveira um paladino em defesa de uma acção que tem denunciado uma sociedade teimosa em criar marginalidades e de uma figura de Igreja que para não ser ambígua deve estar empenhada em resolver as suas questões internas mais graves. Também não se tem poupado em despertar uma dinâmica nas pessoas no sentido de que não devem ficar caladas, resignadas e contentarem-se com o que têm. A frontalidade dos seus argumentos gera reflexão e a racionalidade origina sempre polémica, considerando que quem julgar possuir verdades absolutas está profundamente desfasado do mundo de hoje. Parecendo existir um contraste nas suas opiniões, passo a expor o seguinte:

1. No último número (144, Jan.º/Março 2002) do Jornal Fraternizar, no artigo "Sem perdão! – O pecado do cardeal patriarca de Lisboa", p. 2, 4.ª coluna, está escrito: "Foi ainda mais longe o patriarca de Lisboa, no seu pecado contra o Espírito Santo. Prestou-se, inclusivamente, ao papel de ingénuo palhaço e de promotor público de idolatria, ao aceitar andar, de custódia de ouro em punho, no interior da qual foi, previamente, colocada uma hóstia branca de farinha de trigo sem fermento – quem, senhores eclesiásticos-mor, se atreve hoje a dizer que "aquilo" é o Corpo de Cristo tão real e perfeitamente como está no céu?!"

Ora, o "Prefácio-Apresentação, p. 5/7", do seu livro Encontro – Alguns aspectos da religião tradicional discutidos pelo povo de Macieira da Lixa, 2.ª edição, não se encontra em contradição com o escrito acima? Ainda do mesmo livro, p. 19/20, Páscoa – Como vamos responder?: "Comungar não há-de ser somente «receber a Hóstia». Há-de querer significar que descobrimos não poder continuar a viver isolados, separados, para nós! E por isso somos dos que decidiram viver em comum união (comunhão) com todos, para, assim, transformarmos este mundo de selvagem em humano, de humano em divino, onde tudo esteja orientado para a Pessoa Humana." Ainda do mesmo livro, p. 59 – Ponto 4. "Conclusões obtidas": "Achámos que era desonesto e até heresia manter o Povo na convicção de que a Imagem do Crucificado era presença de Cristo igual à do Pão Eucarístico." E por último, no que se refere à mesma edição, p. 102: "Como podemos pensar que repartimos entre nós o Corpo de Cristo, se depois não repartimos o pão material? Fazer a Eucaristia é muito mais do que repetir um rito sacramental: é viver em regime de partilha. Só vivendo assim é que o Povo dos Pobres e pequenos conseguirá viver também. De contrário, morre! E é escandaloso que os cristãos que fazem tantas missas deixem morrer à fome dois homens em cada três, no mundo." (Da homilia, por ocasião da Festa do Corpo de Deus).

2. Também, meu caro Pe. Mário de Oliveira, no seu livro Chicote no Templo – 2.ª edição, 1971, referindo-se e muito bem aos Faraós do nosso tempo, afirma: P. 197: "Fazer Eucaristia é muito mais do que repetir um rito sacramental: é viver em regime de partilha." P. 199: "Quando hoje os cristãos se reúnem para fazer a Eucaristia, são poucos os que têm consciência de que estão a celebrar o memorial da Morte e Ressurreição de J. Cristo." P. 203: "Comungar é muito mais do que ir à Comunhão. Será que o poder constituído se converteu a J. Cristo, o reconhece já como Senhor absoluto, ou será que foram as assembleias eucarísticas que perderam a força do princípio e, hoje, são mais um entretenimento do que «uma comunhão com o Sangue de Cristo e uma comunhão com o Corpo de Cristo?» (1ª Cor 10, 16). P. 205: "A comunhão que fazemos na Missa não é, pois, um acto que, como crentes em J. Cristo, possamos dispensar, nem um acto apenas para mulheres e crianças. Também não é um acto que produza efeitos magicamente. A comunhão que fazemos na Missa é um acto pelo qual J. Cristo vivo, ressuscitado, misteriosamente, vem até àqueles que o comungam." Portanto, entre as afirmações insertas nos livros referenciados e aquela expressa no último número de Fraternizar parece existir contradição.

3. Em Outubro de 1969, passou o caro Pe. Mário de Oliveira a fazer parte do Povo que vive em Macieira da Lixa. Quanto a mim, leigo, pertenço à "velha guarda" porque anos antes de 1969 iniciei militância na Acção Católica e, assim como leigos que também foram perseguidos pelos poderes político e religioso, conheci eclesiásticos, lutadores: Pe. Américo Monteiro de Aguiar; Pe. Dr. Abel Varzim; Pe. Dr. António Narciso Rodrigues; Mons. Adriano Pereira da Silva Botelho; Pe. José da Felicidade Alves; D. António Ferreira Gomes; Pe. Luís França; Pe. Luís Moita; Pe. Alberto Neto. D. Manuel Martins. Infelizmente, não tive oportunidade de pessoalmente conhecer e falar com o Pe. Maximino. Embora pelas mais variadas razões de incompatibilidade com os superiores e com os colegas e desencanto dos ideais face às realidades vividas, nunca os ouvi opinar ou li qualquer dos seus escritos em tom depreciativo sobre o Pão Eucarístico – a Hóstia! Acompanho a luta e partilho da dinâmica do caro Pe. Mário de Oliveira! Mas, de harmonia com a liberdade de pensamento, de expressão e de consciência que Deus nos concedeu, não digo AMEN a tudo o que o Pe. Mário de Oliveira faça ou afirme! E, desta feita, manifesto-lhe a minha discordância total pela sua opinião! Ambos sabemos que é um facto reconhecido que para a crise religiosa e política que se atravessa não se vislumbram soluções fáceis, pois ainda existem muitas mentalidades fechadas, bastante comodismo e egocentrismo! Em união com outros irmãos, clérigos e leigos, continuaremos a trabalhar por uma Igreja livre, consciente e responsável em prol de um mundo melhor, pelo qual também tanto pugnou D. Manuel Vieira Pinto; de uma sociedade mais humana e fraterna! Prosseguiremos a lançar a semente! Que as Forças Divinas o ajudem continuamente, caro Pe. Mário de Oliveira, e aceite com respeitosa consideração um abraço amigo.

Portela. A. Fronteira e Silva: (...) A propósito do artigo sobre o Dr. José Policarpo, acho pouco própria a chacota que faz sobre a custódia em Fátima e lembro-lhe dos escritos de Charles Foucauld que me iniciaram na espiritualidade cristã, uma carta ao Pe. Caron, director do seminário de Versailles, em 11 de Março de 1909:

"Após o meu último retiro, passei a escrito o projecto de uma associação católica, com a tripla finalidade de levar os cristãos a uma vida conforme com o Evangelho, apresentando-lhes como modelo O que é o modelo único; aprofundar entre eles o amor pela Santa Eucaristia que é o bem infinito e o nosso todo, e dos levar... a desempenhar o dever próprio de cada membro do povo cristão de ser educador cristão".

Sobre o seu artigo sobre o Alcorão e seguindo o mesmo pensador, profundo conhecedor do Islamismo, noutra carta de 9 de Junho de 1908, de Tamanrasset, onde foi morto em 1 de Dezembro de 1916:

A obra aqui, como com todos os muçulmanos, é um trabalho de educação moral e intelectual; ... ensinar-lhes, num contacto diário, aberto, o que se aprende em família; passarmos a ser sua família".

Há muitas dezenas de anos que lido com o Alcorão, em francês e acho estranha a tradução que apresentou, do início das sunas, pois "Em nome de Deus clemente e misericordioso!", exprime melhor o louvor a Deus que "beneficente (caritativo) e misericordioso". "Clemente", traz consigo as ideias de justiça e perdão.

Sobre o inquérito do reitor do santuário de Fátima, antes do mais quero-lhe exprimir o meu desagrado por ter fornecido os nomes e moradas dos assinantes do Jornal Fraternizar, sem previamente nos ter consultado, o que para os seus irmãos religiosos pode significar uma operação de delação incómoda, se a Igreja é como diz. Conto responder-lhe, atempadamente e pormenorizadamente, como anónimo, dentro do respeito que todos os inquéritos me merecem.

Volto a exprimir a minha estranheza pelo Jornal Fraternizar ter passado a tetra-anual. Pelo menos devia ser hexa-anual. A evolução do Mundo obrigá-lo-ia com a periodicidade actual, a ter artigos de fundo com outra profundidade.

A propósito de sanidade mental, outro dia para satisfazer a curiosidade de um primo do belga Joseph Grégoire Lemercier, falecido em Cuercanavaca-México, em 29/12/1987, coligi alguns dados sobre a sua experiência psicanalítica com 60 monges beneditinos, no Mosteiro de Mount Angel, em 1962. Este Mosteiro foi mandado encerrar por Paulo VI, em 1973. Assunto interessante para analisar.

Por hoje, não abordo mais nenhum tema, mas recordo-lhe que com as suas dúvidas poderia seguir a minha via de actualizar as noções de teologia dogmática. Com um abraço de amizade e desejos de felicidades para 2002, com obras mais pela positiva.

Lisboa. Manuel Sérgio: Foi o Padre Mário de Oliveira um resistente ao salazarismo. Hoje, é adversário de muitas outras formas de hipocrisia que abundam na Igreja Católica e Romana, designadamente quando, ela através de Fátima, procura manter obscurecida e passiva a consciência dos crentes. Os condicionamentos que pressupõem a incapacidade de uma comunidade exercer o seu direito de escolha e de crítica, de repúdio e de aplauso representam um insulto à dignidade da pessoa humana. Ora, o milagre de Fátima, numa sociedade superinformada como é a nossa, só como fortim de conservadorismo renitente a quaisquer mudanças e arejamentos (isto é, só alienando) se poderá manter.

Falta a Fátima a negação que precede dialecticamente a síntese – a síntese que a sabedoria (a aliança do saber e da vida) proporciona. Não me refiro à negação impulsiva e dogmática, mas àquela que nasce da tolerância, da convivência, do diálogo. Por isso, faço minhas as palavras do Padre Mário de Oliveira, no último Jornal Fraternizar: "Como é que D. José Policarpo pode, como bispo da Igreja que está em Portugal, demarcar-se da Canção Nova e da respectiva programação televisiva que ela fornece, 24 horas sobre 24, e ao mesmo tempo não se inibe de aparecer a presidir às mediáticas cerimónias de 13 de Outubro, em honra da senhora de Fátima?". D. José Policarpo, intelectual e universitário, não deve deixar de interrogar-se sobre o milagre de Fátima, que se fundamenta em inúmeros contra-sensos. Mais: Fátima é mesmo um palco de contra-sensos. Será possível acreditar na mensagem que dela se desprende, com o anúncio, a simples crianças, de um inferno de horrores sem conta? Será que Nossa Senhora desconhece os mais elementares princípios de Pedagogia? E é verdade que só haverá paz no mundo, quando todos se converterem ao Imaculado Coração de Maria? Também aqui impera o pensamento único?

No entanto, admitamos que, por uma questão de fé acrisolada, vizinhando o saber místico, o Senhor Cardeal Patriarca acredita, sem sombra de dúvida, no milagre de Fátima. Não seria, porém, de lhe exigir, como intelectual que é, um certo distanciamento em relação a um espectáculo multitudinário onde a fé se mistura com o comércio e a ilusão? Ele não deverá confundir nunca a fidelidade a objectivos sacrossantos a que, por vocação, se devotou, com a cumplicidade aos seus desvios e adulterações. E Fátima, se não laboro em erro grave, parece-me ser uma adulteração, um desvio do cristianismo. Avultam sinais premonitórios de que a Igreja de Cristo deixará de ser demasiado dogmática e demagógica e dará mais atenção ao espírito do que à letra do próprio Evangelho. O Padre Mário de Oliveira, Leonardo Boff e Frei Betto estão entre esses sinais anunciadores. E porquê? Porque nunca ninguém os viu marchar nos esquadrões do poder e, daí, a vigilância hostil que os rodeia e... a certeza que são estes "heréticos" (tenazes, corajosos, que não vergam) os que mais se assemelham ao Cristo de Nazaré, afinal, ele também um "herético" insuportável para os poderosos de há dois mil anos atrás.

É urgente mudar a Igreja, não mudar de Igreja, conforme o Padre Mário no-lo aconselha, no seu último e oportuníssimo livro – palavras que têm por detrás um sólido húmus cultural, uma vivência profunda, um cultivo sem pausas. Nenhum movimento social libertador esteve ou poderá estar isento de erros. Cristãos, como o Padre Mário, ou Leonardo Boff, ou Frei Betto, têm a missão indeclinável de apontá-los. Não pode levantar-se entre eles e a Igreja uma situação de oprimido-opressor. A Igreja não tem justificações válidas para critérios que imponham "normas" às críticas fundamentadas no amor, na lucidez, na determinação. Entre cristãos, não há favoritos e réprobos. A parábola do filho pródigo acabou com essa distinção, por mais que obstinadamente a procurem perpetuar. Diante de Deus-Pai, todos somos filhos. Muitas vezes, ao findar de ler o Jornal Fraternizar, agradeço a Deus o facto da existência deste órgão da Comunicação Social. Com ele, consciencializador e contestatário, a Igreja de Cristo fica, sem dúvida, mais cristã.

Não, não visto uniforme. Quero eu dizer: não sou contestatário de uns, para sacralizar outros, pacoviamente. O que eu pretendo afirmar é que, na Igreja de Cristo, não podem contar os marginalizados, principalmente entre aqueles que, como Jesus Cristo, nunca aceitaram os benefícios de uma integração nos valores estabelecidos. Toda a realidade é sempre ela e o seu contrário. Que a Igreja o não esqueça – a Igreja de que sou filho, pela graça de Deus!

N. D.

1. Como se acaba de ver, o "Destaque 2", da edição anterior do Jornal Fraternizar, que denunciava como Pecado sem Perdão, um certo comportamento público do Cardeal Patriarca de Lisboa, não deixou as pessoas indiferentes. Para lá das quatro reacções, aqui expressas, outras houve, via telefone, ou pessoalmente. A verdade é que o directamente visado, D. José Policarpo, não só não disse nada, como também não mandou suspender o envio do Jornal Fraternizar que, regularmente, segue para o Patriarcado. O que, evidentemente, só me pode alegrar. Interpreto, quer o seu silêncio, quer a decisão de não-suspensão do envio do Jornal, como uma postura positiva. A denúncia foi feita, em termos – há que reconhecê-lo – duros e violentos (daquela violência que caracteriza as denúncias dos profetas bíblicos que habitualmente admiramos, mas que, depois, não ousamos quase nunca actualizar nos nossos hoje e aqui) e, pelos vistos, o directamente visado por ela acolheu-a e guardou-a no seu coração. Em silêncio. E com humildade. O que não deixa de ser reconfortante para quem se sentiu no dever de denunciar, em nome da verdade do Evangelho de Jesus (ver denúncia semelhante feita por Paulo e contada pelo próprio em Gálatas 2, 11-14).

2. Ao caro Amigo e Companheiro António Costa, que vê contradição entre o que aí escrevi sobre a Hóstia dentro da custódia que D. José Policarpo ostentou em Fátima, e antigas afirmações minhas sobre a Eucaristia, só me resta agradecer-lhe essa viagem que fez e nos levou a fazer com ele a alguns dos meus primeiros livros. É que se ele próprio ler com atenção as citações que compilou, facilmente concluirá que não há qualquer contradição entre o hoje e o ontem. Pelo contrário, só há uma surpreendente coincidência. E digo "surpreendente", porque na altura em que pronunciei as palavras que ele se deu ao trabalho de transcrever dos meus livros, eu era um padre na casa dos 30 anos, portanto, com pouco mais de seis anos de ministério presbiteral. E já então pensava como pensava! Veja, meu caro António Costa: Eu não nego a Presença de Jesus Cristo no Pão Eucarístico. Pelo contrário. É porque creio nesse Mistério, sem contudo jamais o transformar em idolatria, que perguntei: "Quem, senhores eclesiásticos-mor, se atreve hoje a dizer que «aquilo» é o Corpo de Cristo»? Ao fazê-lo, estou a referir-me precisamente "àquilo" que, impunemente, se continua a fazer em Fátima, puro paganismo e pura idolatria, em que o santo Nome de Jesus Cristo, com Hóstia ou sem ela, é invocado para manter na opressão e na miséria e na resignação multidões de mulheres e de homens que esse mesmo Jesus, no seu arriscado ministério messiânico de Evangelizar os pobres, libertou, consciencializou, abriu os olhos, fez andar, ressuscitou, numa palavra, arrancou da submissão, da resignação, da doença, do medo, da morte e constituiu em real dignidade humana. Acha, meu caro António Costa, que o Corpo eucarístico de Cristo pode ser "aquilo", que se mostra/exibe em Fátima e noutros santuários erguidos em honra de imagens de míticas deusas virgens e mães (ao contrário do que se diz por aí, tais imagens não têm nada a ver com Maria de Nazaré, mãe de Jesus!), quando, com tudo isso, missas incluídas, os resultados que se obtêm estão precisamente nos antípodas dos que esse mesmo corpo produziu outrora, entre e com os pobres do seu povo e país?

Cacém. António Dias: Os meus cumprimentos. Já conheço V. pela TV, há muito tempo e, voltando a vê-lo, recentemente, ainda apanhei que dirige o Jornal Fraternizar. Da Lixa, isso ficou sempre no meu ouvido e no de muita gente, sem dúvida. Não captando de onde remete o Jornal, nem o local de residência, não foi muito fácil descobri-los. Passando junto a livraria desta cidade, vejo na montra o seu Que fazer com esta Igreja?. Entrei e, folheando-o, encontrei Macieira da Lixa e S. Pedro da Cova (que só pode ser o S. Pedro da Cova, de que ouvia canções populares bem alegres!). Só não o adquiri, porque usufruo de reforma inferior a 30.000$00. Depois não conseguindo localizar o Fraternizar na lista das páginas amarelas, nem nas páginas brancas que já tinham sido roubadas dos CTT-Cacém, desloquei-me à vizinha freguesia de Rio de Mouro, tentando melhor sorte. E lá estava ela, bem escondida adentro dos balcões, porque também as roubam naquela estação. Ladrões para tudo, por tudo e por nada! Sabendo da sua vida de sacerdote pela TV, principalmente, e de como vê as coisas pós-pároco, agradou-me o título do seu jornal, que gostava de conhecer, para eventual assinatura. É esse grande favor que lhe peço e que desde já muito agradeço: o envio de um exemplar e as respectivas condições de assinatura.

Lourosa. Arménio/Lurdes: Antes de mais, peço desculpa por te tutear sem o teu consentimento, mas sei que concordas comigo, porque, afinal, somos bons amigos, andámos na escola juntos, somos da mesma idade e, o mais importante ainda, foste tu quem presidiu, em nome da Igreja, ao nosso casamento, que foi no dia 15 de Setembro 1962, quando tinhas celebrado Missa Nova apenas um mês atrás. Já lá vão 39 anos, mas parece que foi ainda ontem. Mas tanto eu como a Lurdes podemos garantir-te que, com a ajuda de Deus, sempre fomos muito felizes e continuamos a sê-lo, sempre conscientes do juramento que fizemos a Deus e com a tua bênção.

Agora, voltando ao assunto que me levou a escrever esta carta: é que já não pago a assinatura do Fraternizar há já não sei quanto tempo, do qual peço desculpa pelo meu desleixo. Junto envio cheque no valor de..., que será para regularizar, e o restante para as tuas outras prioridades.

Sobre o Fraternizar, apenas uma palavrinha de regozijo. Gosto muito de o ler, mas confesso que algumas vezes me deixa confuso, sobretudo com alguns temas, e que inicialmente nem sempre sou totalmente de acordo, mas que ao fim de muita reflexão, as dúvidas dissipam-se e acabo sempre por te dar razão. Sabes padre Mário, é que o Jornal Fraternizar é um grande jornal, frenético, e, embora pareça um jornal autoritário, é, isso sim, um jornal obediente, humilde, submisso, expondo o seu director-autor às piores humilhações, mas que com a tua tolerância, aceitação, disponibilidade, que só é possível a pessoas como tu, cheio do Espírito Santo, de certeza é capaz de sobreviver com a mesma alegria com que sempre nos habituaste. Obrigado, pois, e segue sempre em frente, porque tens muita, mas muita boa gente que te apoia.

Também acabei de receber um convite para a apresentação do teu livro – mais um – Que fazer com esta Igreja?, e que me deixou muito honrado, mas talvez vás notar a minha ausência, porque me encontro ainda em convalescença duma operação que fiz ao nariz. Só espero que seja um grande sucesso, como tem acontecido com tantos outros que já escreveste. Sobre o livro, falaremos mais tarde.

Sem mais outro assunto de momento, um grande abraço deste teu amigo, igual da Lurdes e meus familiares.

Cova da Piedade. Domingos Dias: Junto com esta, envio cheque para pagamento da revista, no valor de..., e referente à assinatura do corrente ano. Agradeço que aceite o excedente para ajuda das despesas que concerteza são muitas e as receitas poucas. Aprecio muito quem tem a coragem de se opor frontalmente ao triste Sistema que nos devora. Cumprimentos.

Stª Maria da Feira. Victor: Ninguém deve pedir desculpa por ser como é e por fazer determinado tipo de opções; compete-lhe, simplesmente, assumir a responsabilidade pelo que fez. Por conseguinte, não devo nenhum pedido de desculpas por ter decidido, a dado tempo, não contribuir para a sustentabilidade do projecto Jornal Fraternizar, pagando o custo da sua assinatura – apesar disso, foi-me sempre enviado sem nenhum protesto ou reclamação – mas como o trabalho dos outros me tem que merecer muito respeito, decidi mudar agora de atitude.

Não faço promessa "para cumprir religiosamente" de passar a pagar a assinatura anual, dado que os deuses não me interessam. Preocupa-me, no entanto, o mal que a sua suposta existência faz à humanidade.

O deus de que tu falas é ainda o mesmo de que falam as hierarquias contra as quais te insurges. Queixas-te da forma como elas o anunciam, revelas as doenças da sua igreja, mas elas, afinal, mais não fazem do que dar novo alento aos deuses do testamento mais antigo – autoritários, cruéis, vingativos, pidescos, racistas e pouco respeitadores da palavra dada – ao que tu pretendes contrapor o do testamento mais recente – ainda conservador, desumano, moralizador, alienante, pouco inteligente e racista. As pequenas diferenças que os caracterizam não são assim tão fundamentais; que diferença faz à humanidade acreditar nos deuses dos "profetas" – porque não tiveram todos o mesmo – ou no deus dos "apóstolos"? Todos padeceriam, se existissem, de um mesmo mal: um umbigo incomensurável.

Os mitos e mentiras bíblicos não foram (são) mais perniciosos do que as fábulas e alucinações evangélicas; Fátima não é assim tão diferente das comunidades religiosas de base; a bom ver, distingue-se apenas a "preocupação" de, nas segundas, se não fundamentar a fé (crença) na exploração da mais básica e degradante ignorância que caracteriza a primeira. Mas se quem acredita nas alucinações de Fátima padece, entre outras coisas, de falta de dignidade como ser humano, quem discute os "ensinamentos" dos evangelhos nas comunidades de base ganhou essa dignidade apenas na aparência, porque a promoção da dependência psicológica mantém-se.

Nasci numa aldeia – hoje colonizada culturalmente, como o resto do país, por este norte-litoral mesquinho, obscurantista e ignorante, como a "religiosidade" o fez – onde, apesar da profunda pobreza, nunca vira alguém pedir esmola de porta em porta. O que se ouvia pedir de porta em porta era trabalho. Quando, em 1958, cheguei a esta região, a primeira imagem que retive foi a de dois homens a pedir esmola no local onde desci do autocarro. Esta falta de dignidade que descobri quando aqui cheguei aos oito anos de idade tinha equivalência na "religiosidade" aqui vivida e que contrastava com a indiferença religiosa da aldeia onde nasci – mas lá, como cá, as pessoas iam (vão) à bruxa, também é verdade.

Sabes(?!), cada vez compreendo melhor por que se suicidam com tanta frequência os alentejanos mais velhos e cada vez é maior a minha admiração por esse último reduto geográfico da dignidade humana neste país culturalmente miserável; por outro lado, cada vez tenho mais dificuldade em compreender a crescente demonstração de falta de amor próprio dos "idosos" mais cá de cima.

E ao que virá este "regresso às origens"? A isso mesmo: à dignidade, ou à falta dela. A existência de um qualquer deus seria, por si só, uma indignidade; a crença na sua existência é, em última análise, a inconsciência dessa indignidade e, por conseguinte, um estado de ignorância da humilhação.

Mas, tanto ou mais grave do que isso, é a mentira geral em que se baseia a crença nos mitos de Deus, de Jesus Cristo e do Espírito Santo – este, que até fazia filhos a "virgens" e a "estéreis" – : duma ponta à outra, a Bíblia – velho e novo testamentos – não é mais do que uma carreirada de falsidades e de tradições copiadas de outras civilizações, desde 6.500 anos a.c.

É por isso que o maior cinismo é o de vender a ideia da existência do deus, qualquer que ele seja e qualquer que seja o processo utilizado para a venda. Acredito que a espiritualidade não tem nada a ver com essa ideia da existência de deuses porque acredito que o ser supremo será o Homem e, para ser sincero, também sou daqueles que dizem – como o Miguel Torga – que, a haver, o diabo seria sempre melhor do que o deus – a fábula do Adão e da Eva é suficientemente eloquente. Aos homens livres cumpre apenas uma obrigação: a de acabar com os deuses e libertar os homens da humilhação suprema de ter um deus porque.

P. S. Li "As Memórias da Irmã Lúcia" e respondi ao "Inquérito". As primeiras metem dó; o segundo teve a resposta que imaginas.

N. D. Meu caro Victor: Bem-vindo a esta Ca(u)sa! Surpreendo-te, se te disser que subscrevo praticamente todas estas "blasfémias" que aqui escreves sobre deus e os deuses? E, no entanto, eu creio em Deus!... Sabes, Victor? Não é o ateísmo que me preocupa e aflige. Aliás, é até a Fé cristã (como sabes, diz-se "cristã", porque tem a sua fonte em Jesus de Nazaré, o Cristo/o Libertador) quem me faz ateu de todos os deuses inventados/criados/imaginados por nós e pelas nossas debilidades e pelos nossos medos. O que verdadeiramente me preocupa e aflige, caro Victor, é a idolatria, o culto dos deuses que inventamos/criamos/imaginamos e com os quais depois criamos, alimentamos e abençoamos sistemas cruéis e desumanos como são os actuais sistemas económicos e políticos que "fazem" a presente Ordem Económica e Política Mundial Neoliberal, fabricadora de crueldades e de desumanidades sem conta, com milhares de milhões de vítimas humanas, e destruidora da própria Natureza. É por isso que procuro fazer da minha vida um combate de libertação, aliás, na esteira do martirial combate já protagonizado outrora por todos profetas bíblicos e por muitos outros, de outras culturas e outros povos, e, sobretudo, na esteira de Jesus de Nazaré, cuja missão maior ele próprio anunciou assim, na Sinagoga da aldeia onde se havia criado: "O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa Notícia aos pobres (= Evangelizar os pobres); enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, e a proclamar um ano (= um Tempo) favorável da parte do Senhor" (Lc 4, 18-19). No meu entender, as religiões, todas as religiões, são idolátricas, por isso, perversas, na medida em que alimentam nas pessoas o medo dos deuses, ao mesmo tempo que lhes fornecem alguns meios simbólicos, mais ou menos ritualizados, com que elas os hão-de neutralizar, sem contudo jamais as libertar de raiz. Porque, no dia em que, por hipótese, as religiões libertassem de raiz as pessoas, elas próprias desapareceriam, como desnecessárias. Porque só pessoas possessas de medos dos deuses inventados/criados/imaginados é que continuam a frequentar templos e santuários, num frenesim religioso que dura a vida inteira mas é manifestamente ineficaz, pois jamais as liberta e cura. Ou, se as liberta e cura, é só de forma virtual e por um período de tempo muito curto, uma vez que no dia seguinte, ou na semana seguinte, ou no mês seguinte, as pessoas lá têm de voltar a novas sessões de religião, a novas overdoses de ritos religiosos, que têm tanto de estéril como de dispendioso para as suas carteiras. Poderia, por isso, meu caro Victor, subscrever quase completamente todas estas tuas "blasfémias". E, se em alguma coisa me distancio de ti (perdoa esta des-sintonia, mas não te preocupes, porque nem por isso deixo de ser teu irmão na plenitude e o importante é isso, é que nos experimentemos irmãos e nos reconheçamos seres humanos, da mesma família humana, simplesmente) ainda é por ir mais além de ti, em radicalidade. Por um lado, de bom grado sou capaz de escrever, como tu escreves, a concluir o teu testemunho: "Aos homens livres cumpre apenas uma obrigação: a de acabar com os deuses e libertar os homens da humilhação suprema de ter um deus porque."; mas, por outro lado, acrescentarei: Aos homens/às mulheres livres compete igualmente a obrigação de testemunhar a contínua Presença, entre nós e connosco, de um Deus Pura Graça, Puro Dom, que reiteradamente nos bate à porta, nos salta ao caminho e nos pergunta, Onde está o teu irmão?/ a tua irmã? Que fizeste do teu irmão?/da tua irmã? (Gn 4); ou, Tive fome, Tive sede, Era um sem-abrigo, Estava nu, Estava preso, Estava doente e tu como te comportaste comigo? (Mt 25); ou, Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, Eu entrarei na sua casa e cearei com ele e ele comigo (Ap 3, 20). A este propósito, não resisto a contar-te um pequeno episódio recente. Uma companheira das Comunidades partilhou comigo uma preocupação sobre uma sua sobrinha de seis/sete anitos, mas que já frequenta a tradicional catequese paroquial. Contou-me ela que, um destes dias, a Sarita (é este o nome da menina) a fulminou com esta pergunta. "Ó tia, para que serve Deus?". E que é que tu lhe respondeste?, perguntei eu de imediato. E logo acrescentei, com algum escândalo para ela: Deverias ter-lhe respondido: Olha, Sarita, Deus não serve para nada! Creio que tu próprio, caro Victor, te poderás rever nesta minha resposta. Mas só em parte. Porque, para mim que creio em Deus, Deus não serve para nada, mas não porque não exista; não serve para nada, porque não é necessário e, por isso, a vida das pessoas pode muito bem organizar-se e prosseguir sem Ele. Como parece ser o teu caso. Mas não é o meu. Deus não serve para nada, porque não é necessário, não faz parte dos nossos Sistemas, mas também não é supérfluo. Deus é pura Graça, puro Dom, é um Luxo. Mas uma Graça, um Dom, um Luxo que me faz ser, que me acompanha, que me alegra, que me entusiasma, que me levanta, que me liberta para a liberdade. (Podemos viver dias e anos sem flores, mas a vida é muito mais bela com flores! Podemos viver sem Poesia e sem Música, mas a vida é muito mais bela com Poesia e com Música!). Não sou eu quem leva Deus. É Deus quem me leva. Não sou eu quem ama Deus. É Deus quem me ama. Não sou eu quem faz viver Deus. É Deus quem me faz viver. Não sou eu quem inventa/cria Deus. É Deus quem me inventa/cria. Eu não pensaria Deus, se Deus primeiro me não batesse à porta. As pessoas podem viver sem Deus. Mas Deus não pode viver sem as pessoas. E é por isso que inventa mil e uma maneiras de lhes sair ao caminho, de lhes bater à porta da consciência, até que elas, depois de se terem finalmente libertado "da humilhação suprema de ter um deus porque", decidam, como máxima expressão da sua liberdade, abrir-lhe a porta das suas vidas e passarem a ser pessoas-com-Deus-dentro, melhor, pessoas-dentro-de-Deus, numa comunhão viva, a que nem a Morte consegue pôr termo!

Chaves. Um padre católico devidamente identificado: Um forte abraço do teu Irmão, Amigo, Discípulo. Ontem mesmo depositei ... euros para assinatura/apoio do Jornal Fraternizar. Pena é que não possa voltar a ser mensal, pois é um apoio espiritual fantástico. Pena é também que continues a bradar no deserto, mas como "nada se perde, nada se cria, tudo se transforma", a seu tempo dará os seus frutos. O que fazer com esta Igreja? é de facto um tema fantástico e livro a adquirir sem demora. Conta sempre com o meu incondicional apoio. Isto de facto tem que mudar. O mundo está num pântano, porque abandonado pela Igreja. Evangelho substituído pelo "maldito" direito canónico. Impossível continuar. Eu não posso estar em Comunhão interior com esta igreja; só com a externa e pelo cordão umbilical... Talvez por cobardia minha. Que Deus me perdoe. Vou morrer no entanto em objecção de consciência. Que nunca te falte a inspiração do Espírito e que Ela se propague rapidamente. Com mais um abraço, o Irmão ao dispor em Cristo.

Condeixa-A-Nova. António Cerca: Tomei conhecimento do seu pensamento pela primeira vez, através da sua obra Maria de Nazaré, no já longínquo ano de 1972. Posteriormente, fui lendo algumas coisas soltas e tenho recebido há algum tempo o Jornal Fraternizar. Já li o Fátima nunca mais, Nem Adão e Eva nem pecado original e, ultimamente, adquiri Que fazer com esta Igreja? Oportunamente, poderei entrar em discussão de algumas questões que me preocupam, ou pelo menos confrontá-las com a sua opinião.

Penso que o Jornal Fraternizar poderia evoluir no aspecto gráfico e também num maior leque de colaboradores. Só teria a ganhar com essa abertura. Não sei se será possível, mas gostaria de conhecer ou ter o contacto de outras pessoas da zona de Coimbra que assinem o Jornal, com o objectivo eventualmente de nos encontrarmos para construirmos um grupo de reflexão ou eu integrar-me nele, caso exista. Junto remeto cheque para pagamento da minha assinatura.

Avanca. Maria Júlia: Com os meus sinceros cumprimentos, junto envio cheque de... para pagamento da assinatura. Ao mesmo tempo, uma palavra de reconhecimento e admiração por quanto tem lutado – e terá que lutar – para desmistificar o mito Fátima. É realmente incompreensível que o próprio Papa seja o principal incentivador do culto da senhora de Fátima, quando na Santa Bíblia Jesus Cristo afirma que ninguém vai ao Pai senão por ele. Pergunto: Quais as verdades que se ensinam? Com a máxima consideração...

Viseu. Augusto de Almeida: Desde alguns anos a esta parte, tenho-o escutado na TV e ouvido pessoas opinar – da maneira mais diversa e contraditória – acerca da sua caminhada para a Ressurreição. Tal facto levou-me a adquirir "obras" suas – fruto da sua constante procura da "arte de viver" do Cristo crucificado/ressuscitado – que espelham à evidência o quanto, por tal, tem sofrido e é (e será) incompreendido por aqueles que – intencionalmente – se servem do Cristianismo para atingirem fins inconfessáveis.

Mais acrescento que o seu pensamento e a acção, por vezes radicalmente inovador, mas nunca deixando de ser teologicamente pura Boa-Nova – à parte um salutar "azedume", muito compreensível – me tem dado ânimo para continuar a procurar já viver a eternidade. Por tal, solicito-lhe que me considere assinante do Jornal Fraternizar, já a partir do 1.º número deste ano 2002. Saudações fraternas.

Mindelo. Ricardo Amorim: Venho por este meio enviar-lhe o dinheiro da assinatura do Jornal. Já agora, gostava de lhe dizer que sempre o admirei, mas neste momento sinto-me um pouco triste e desiludido consigo, porque há tempos vi-o na TV, dando apoio a uma manifestação "gay", em Lisboa. Depois, no seu Jornal, começou por criticar a cobrança dos dízimos, enfim, quem não se sente não é filho de boa gente. Eu sou filho de Deus, membro de uma Igreja Evangélica, não "seita", nada de meter tudo no mesmo saco, porque é falta de conhecimento. Tenho filhas e genros formados, e todos fazendo parte da mesma Congregação; convidamos o senhor padre a ler a Bíblia, em 2ª João 10-11 e em Malaquias 3, 10.

N. D. Meu caro Ricardo: Como sabe, os homossexuais e as lésbicas têm sido olhados, até pelas Igrejas cristãs, como "depravados". Não alinho nessa visão moralista. E fui dizê-lo com a minha presença nessa manifestação. Dízimos às Igrejas e aos pastores?! É um fartar, vilanagem! E tudo em nome de Deus!


Três textos de L. Boff)

1. A idade tiranossáurica da globalização

Há milhões de anos, surgiu na África, a partir de um primata superior, o homem sapiens-demens. Milhares e milhares de anos após, começou sua dispersão, primeiro pela Eurásia, depois pelas Américas e, por fim, pela Polinésia e Oceânia. No final do paleolítico superior, há quarenta mil anos, já ocupava todo o Planeta e chegava a um milhão de pessoas. Criou civilizações e estados-nações.

A partir do século XVI, começou a volta da diáspora. Nomeadamente a partir de 1492 começou um imenso processo de expansão do Ocidente e de intercâmbio global. Colombo (1492) traz ao conhecimento dos europeus a existência de outras terras habitadas. Fernão de Magalhães (1521) comprova que a Terra é efectivamente redonda e qualquer lugar pode ser alcançado a partir de qualquer lugar. As potências hegemónicas do século XVI, Espanha e Portugal, elaboram, pela primeira vez, o projecto-mundo. Expandem-se por África, América e Ásia. Ocidentalizam o mundo.

Esse processo se prolongou no século XIX com o imperialismo ocidental que, a ferro e fogo, submeteu aos seus interesses culturais, religiosos e especialmente comerciais, todo o mundo conhecido. A carabina e o canhão falaram mais alto que a razão e a religião. O Ocidente europeu revelou-se a hiena dos povos. Nós, do extremo-Ocidente, já nascemos globalizados e, por experiência, sabemos o que significa a globalização sentida e sofrida como globocolonização.

Esse processo culmina a partir da segunda metade do século XX com a nova expansão ocidental, sob a hegemonia dos EUA, mediante a tecno-ciência, como instrumento de opulência e arma de dominação, mediante as corporações multilaterais e globais que controlam os mercados, mediante uma cultura ocidental, homogeneizadora e desfibradora das culturas regionais, mediante um único modo de produção, capitalista, assentado sobre a concorrência que destrói os laços de sociabilidade e cooperação, mediante um pensamento único, neoliberal, que se entende como a única forma racional de organizar a sociedade.

O mais grave, entretanto, é o facto de se ter feito da Terra uma banca de negócios, onde tudo é mercantilizado e feito objecto de lucro. Não se respeita a sua autonomia e a sua subjectividade enquanto Gaia. Desconhecem-se as nossas raízes telúricas e a nossa origem, pois, como seres humanos viemos da Terra. As palavras homem e Adão já o dizem. Homem vem de húmus, (terra fértil) e Adão vem de Adamah (terra fecunda), significando o filho da terra fecunda.

Seja como for, começou o processo de globalização que está ainda em curso. Na nossa visão, ele possui três idades que iremos analisar: a globalização tiranossáurica, a globalização humana e a globalização ecozóica.

Vamos considerar hoje a primeira idade, hegemónica nos dias actuais. Chamamo-la tiranossáurica, porque a sua virulência guarda analogia com os tiranossauros, os mais vorazes de todos os dinossauros. Com efeito, a lógica da competição, sem qualquer laivo de cooperação, confere traços de impiedade à globalização imperante. Exclui cerca de metade da humanidade. Suga o sangue das economias dos países fracos e retardatários, lançando cruelmente milhões e milhões na fome e na inanição. Cobra custos ecológicos de tal monta que põe em risco a biosfera, pois polui os ares, envenena os solos, contamina as águas e quimicaliza os alimentos. Não freia sua voracidade tiranossáurica nem face à possibilidade real de impossibilitar o projecto planetário humano. Prefere o risco da morte à redução dos seus ganhos materiais.

Esse modelo de globalização excludente pode bifurcar a família humana: por um lado, um pequeno grupo de nações opulentas se enchafurdando no consumo material com uma pobreza espiritual e humana espantosa e, por outro lado, as multidões barbarizadas, entregues à sua própria sorte, carvão para o funcionamento da máquina produtivista e condenadas a morrer antes do tempo, vítimas da fome, das doenças dos pobres e da degradação geral da Terra. Há mil razões para se opor a esse tipo de globalização. Ela não se pode eternizar, sob pena de destruirmos o futuro da espécie.

Não obstante as contradições, ela tem muito de positivo: criou as pre-condições da idade humana e ecozóica da globalização, coisa que consideraremos na próxima crónica.

2. A idade humana da globalização

A globalização tiranossáurica, não obstante as suas contradições internas, cria as condições infra-estruturais e materiais para as outras formas de globalização: projectou as grandes avenidas de comunicação global, construiu a rede de trocas comerciais e financeiras, incentivou o intercâmbio entre todos os povos, continentes e nações. Sem essas pre-condições seria impossível sonhar com globalizações de outra ordem.

Agora, estabelecida a globalização material, a globalização humana deve resgatar seus ganhos num quadro maior e mais includente e buscar a hegemonia. Ela se processa, simultaneamente, em várias frentes, na antropológica, na política, na ética e na espiritual. Vejamos.

Impõe-se mais e mais na consciência colectiva a unidade da espécie humana, sapiens e demens. Por maiores que sejam as diferenças culturais, vigora uma unidade genética básica, temos a mesma constituição anatómica, os mesmos mecanismos psicológicos, os mesmos impulsos espirituais, os mesmos desejos arquetípicos. Embora mudem os códigos de expressão, todos são portadores de cuidado, de emoção, de inteligência, de liberdade, de amorosidade, de expressão artística e de experiência espiritual. Simultaneamente se manifesta também a nossa capacidade de mesquinharia, de exclusão do outro, de violência contra a natureza e de destruição. Somos a unidade complexa desses contrários.

Mais e mais se difunde a convicção de que cada pessoa é sagrada e sujeito de dignidade. Ela é um fim em si mesmo, um projecto infinito, a face visível do Mistério do mundo, um filho e filha de Deus. Em nome desta dignidade se codificaram os direitos humanos fundamentais, pessoais, sociais e dos povos. Por fim, elaborou-se a dignitas Terrae, traduzida nos direitos da Terra como superorganismo vivo, dos ecossistemas, dos animais e de tudo o que existe e vive.

A democracia como valor universal a ser vivido em todas as instâncias humanas penetra lentamente nas visões políticas mundiais. Vale dizer, cada ser humano tem direito de participar do mundo social que ajuda a criar com sua presença e trabalho. O poder deve ser controlado para não se transformar em tirânico. A violência não é o caminho para soluções duradouras. O caminho é o diálogo, a tolerância e a busca permanente de convergências na diversidade. A paz é simultaneamente método e meta, como fruto da justiça societária irrenunciável e do cuidado de todos por todos. As instituições devem ser minimamente justas e equitativas.

Um consenso mínimo para uma ética global concentra-se na humanitas da qual todos e cada um são portadores. Mais que um conceito, a humanitas é um sentimento profundo de que somos, finalmente, irmãos e irmãs, viemos de uma mesma origem, possuímos a mesma natureza físico-química-bio-sócio-cultural-espiritual e participamos de um mesmo destino. Devemos tratar todos humanamente segundo a lei áurea: "não faças ao outro o que não queres que te façam a ti".

A reverência face à vida, o respeito inviolável aos inocentes, a preservação da integridade física e psíquica das pessoas e de todo o criado, o reconhecimento do direito do outro de existir, constituem pilastras básicas sobre as quais se constroem a sociabilidade humana, os valores e o sentido de nossa curta passagem por esse Planeta.

Experiências espirituais dos povos originários e das culturas contemporâneas encontram-se e intercambiam visões. Por elas o ser humano se re-liga à Fonte originária de todo o ser, identifica um laço misterioso que perpassa todo o universo e re-unifica todas as coisas inter-retro-conectadas num todo dinâmico e aberto para cima e para frente. São essas experiências espirituais que estruturam nossa subjectividade e nos abrem para horizontes que transcendem o universo. Só nessa dimensão de extrapolação e de superação de toda medida, de todo espaço/tempo e de todo o desejo é que o ser humano se sente realmente humano. Essa lição já nos ensinaram os gregos.

A era humana da globalização não ganhou ainda a hegemonia. Mas os seus ingredientes são identificáveis e estão fermentando a massa da história e as consciências. Ela vai irromper, gloriosa, um dia. Inaugurará a nova história da família humana que caminhou por tanto tempo em busca das suas origens comuns e da sua Casa materna.

3. A idade ecozóica da globalização

A expressão "ecozóico" foi criada por dois americanos, um cosmólogo, Brian Swimme, e por um antropólogo das culturas, Thomas Berry, co-autores da mais abalizada História do Universo. É a era que segue o cenozóico, há 65 milhões de anos, quando após a catástrofe que dizimou os dinossauros, os mamíferos conheceram um desenvolvimento nunca antes havido. Nós viemos deles.

A idade ecozóica representa a culminação da idade humana da globalização. A característica básica reside no novo acordo de respeito, veneração e mútua colaboração entre Terra e Humanidade. É a idade da ecologia integral, daí o nome ecozóica. Mais e mais conscientizamos o facto de sermos um momento de um processo de milhares e milhares de milhões de anos. Encontramo-nos agora numa teia de relações vitais, das quais somos co-responsáveis. Depois de tantas intervenções nos ritmos da natureza, sem cuidarmos das consequências prejudiciais, damo-nos conta de que a revolução agora consiste em preservar o mais que podemos o legado da natureza e usá-lo com responsabilidade.

Está nascendo uma nova benevolência para com a Terra. Ela é como uma nave espacial com recursos abundantes mas limitados. Só com a solidariedade entre todos podemos fazer que esses recursos sejam suficientes para toda a comunidade de vida. Ou cuidamos uns dos outros e juntos cuidamos da Terra, ou a nave espacial cairá e desaparecemos.

Desta óptica surge uma nova ética. Por todos os lados surgem grupos que se orientam pelo novo padrão de comportamento. Representa aquilo que Pierre Teilhard de Chardin chamou de noosfera, aquela esfera na qual as mentes e os corações (sentido grego de noos) entrariam numa sintonia fina, caracterizada pela mutualidade entre todos, pela amorização e pela espiritualização das intencionalidades colectivas. Estas se coordenariam para garantir a paz, a integridade da criação e o substracto material suficiente para todos. Livres e desafogados, podemos então viver a nossa dimensão específica de con-viver humanamente, de conjugar trabalho com poesia, eficiência com gratuidade, e de poder brincar e louvar como irmãos e irmãs, em casa.

Essa consciência de mútua pertença Terra-Humanidade vem reforçada poderosamente pela visão que os astronautas nos possibilitaram. Sigmund Jähn, ao regressar à Terra, expressou assim a modificação da sua consciência: "Já são ultrapassadas as fronteiras políticas, ultrapassadas também as fronteiras das nações. Somos um único povo e cada um é responsável pela manutenção do frágil equilíbrio da Terra. Somos seus guardiães e devemos cuidar de nosso futuro comum".

Essa percepção da Terra vista fora da Terra dá origem a uma nova sacralidade. Talvez o sentido secreto das viagens ao espaço exterior tenham esse significado profundo, bem expresso por outro astronauta J. P. Allen: "Discutiu-se muito, os prós e os contra, com referência às viagens à Lua; não ouvi ninguém argumentar que deveríamos ir à Lua para poder ver a Terra de lá. Depois de tudo, esta foi seguramente a verdadeira razão de termos ido à Lua".

E de lá, da Lua, não há distinção entre Terra e Humanidade. Ambas formam uma única entidade. A Humanidade não está apenas sobre a Terra, ela é a própria Terra que se comove, se volta sobre si mesma, ama, cuida e venera.

Transformar essa consciência num estado permanente, sem que precisemos pensar, significa viver já dentro da era ecozóica. A Carta da Terra, pensada para ter o mesmo valor que a Carta dos Direitos Humanos, vem perpassada pela visão ecozóica. Na sua introdução diz: "A humanidade é parte de um vasto universo em evolução. A Terra, nosso lar, está viva com uma comunidade de vida única…O espírito de solidariedade humana e de parentesco com toda a vida é fortalecido, quando vivemos com reverência o mistério da existência, com gratidão pelo presente da vida, e com humildade considerando o lugar que ocupa o ser humano na natureza…A escolha é nossa: formar uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros, ou arriscar a nossa destruição e a da diversidade da vida". Essas mudanças, não obstante os obstáculos que a era tiranossáurica cria, estão penetrando na consciência colectiva e irradiando sobre todo o curso da sociedade.

A realização da globalização humana e ecozóica representará o fim do exílio. As tribos todas da Terra, a partir de agora se encontrarão na grande taba [habitação de índios na América do Sul] comum, no ilhéu comunitário, no seio da grande e generosa Mãe Terra. Em fim…


Texto de Manuel Pedro Cardoso


A lição fundamental a tirar dos trágicos acontecimentos que têm causado tanto sofrimento nos últimos tempos – lutas entre israelitas e palestinianos, ataques às Torres Gémeas, invasão do Afeganistão – é a do total malogro da violência, quer da exercida pelos poderes instituídos em nome da salvaguarda de segurança, como da violência dos grupos interessados em pôr fim a injustiças. No Médio-Oriente, os radicais palestinianos, tanto como os radicais israelitas, ao darem preferência ao assassínio dos seus adversários, incluindo como tais crianças e civis adultos não envolvidos na luta, estão a tornar impossível uma solução política que permita a coexistência de dois Estados naquela área. E os terroristas autores dos ataques suicidas às Torres Gémeas do WTC, de Nova Iorque, sacrificaram as suas vidas e as de 5.000 pessoas inocentes sem benefício para qualquer causa, dando aos falcões dos Estados Unidos pretexto, com esse acto, para a invasão e bombardeamento do Afeganistão, com todo o rol de sofrimento que isso significou. O mundo mudou com o 11 de Setembro de 2001 – mas mudou para muito pior e com um número desesperante de cadáveres, deficientes e feridos; com muitos milhões de euros desperdiçados em armamentos; com cidades e aldeias feitas em pó, campos agrícolas destruídos, um futuro de miséria, próximo e a médio prazo, pelo menos. As forças mais retrógradas dos Estados Unidos aparentemente saem de todo este drama ainda mais fortes, ameaçando já violências contra outros Estados. A agora única potência mundial tem argumentos esmagadores para implantar o seu escudo de defesa anti-mísseis que lhe permitirá atacar em toda a terra, sem o risco de represálias. Além de tudo o mais, como os vários analistas têm observado, a pretexto de prevenir a acção terrorista, muitos Estados estão a reforçar as leis de segurança e a ameaçar seriamente as liberdades dos cidadãos. Toda a violência exercida pelos inimigos dos Estados Unidos e pelos próprios Estados Unidos terá como consequência apenas o aumento da violência.

Tem sido assim ao longo da história e só a loucura da humanidade é que não nos tem permitido perceber a verdade simples mas certíssima do velho aforismo popular que diz: "Quem com ferros mata, com ferros morre". Não me parece ser um dito ingénuo de bem intencionados mas sabedoria retirada da observação sensata de gerações. A violência não resolve nenhum problema. O recurso a ela é, em geral, produto do desespero que não é bom conselheiro, ou de uma visão maximalista que é, por sua vez, fruto da simplificação exagerada dos problemas. Mesmo as melhores causas, quando se deixam cair na tentação da violência, acabam por falhar redondamente – como se viu nas mais do que justas manifestações contra a globalização. Por imprudência ou insensatez, deixaram misturar-se às manifestações pacíficas dos que denunciam os resultados caóticos de uma globalização feita para beneficiar os já beneficiados – e os resultados foram a justificação para o aumento de maior repressão por parte das forças da ordem e o pretexto para os senhores do mundo avançarem com formas não democráticas de decisão. Pode ser até que os manifestantes violentos sejam agentes disfarçados das forças repressivas, mas nesse caso impõe-se aos opositores deste tipo de globalização rejeitar com veemência essa violência.

É hora de perceber que o Rabi Jesus de Nazaré, prático-idealista, atento à vida, tem razão contra os teóricos da violência: é preciso adoptar o seu método pacífico e profético radical. Não se trata de adoptar um pacifismo incondicional, mole e sentimental, que se confunda com cobardia e justifique a abstenção e a indiferença. Um tal pacifismo também não resolve os problemas. Trata-se, sim, de um pacifismo "profético" em três sentidos: Em primeiro lugar, porque é de denúncia das mentiras, das injustiças e dos métodos sofisticados de manipular os homens; em segundo lugar, porque é um pacifismo inconformista, de rejeição da paz de cemitério, um pacifismo que, como o dos profetas do Antigo Testamento, não se deixa enganar pela falsa paz; em terceiro lugar, o pacifismo de Jesus é profético no sentido de ser inspirado por uma vitoriosa e dinâmica visão do Reino de Deus que se começa a edificar aqui e agora.

Não se pode excluir a luta – porque o próprio Cristo disse: "Não cuideis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada" (Mt 10, 34). Desde que ele iniciou a sua luta, desde que iniciou a construção do Reino de Deus entre nós, quem quiser estar com ele não pode aspirar a uma paz bolorenta. Não se defende também um anti-militarismo superficial e ingénuo, mas há que reconhecer a ineficácia da violência nascida do ódio, e o erro de se crer que se pode criar uma nova ordem de justiça e fraternidade com métodos que não procurem acima de tudo a mudança das mentalidades. Roger Garaudy, nos anos 70, apelou a essa mudança das mentalidades, única alternativa à catástrofe que progressiva e estupidamente se está a preparar, e Maria de Lourdes Pintasilgo apelou pouco depois, também, à criação de uma rede de homens e mulheres de boa vontade, unidos nessa luta por um mundo novo de justiça e de paz. Esse apelo continua válido, ou é-o agora ainda mais, a merecer a resposta empenhada de todos os que rejeitam o mundo infeliz que a violência oferece.

Crer implica comprometer-se com aquilo em que se crê; e por isso, como um povo de profetas, nós, cristãos, devemos dar à Palavra toda a oportunidade para que ela crie um mundo novo, de irmãos e de irmãs, onde a justiça e a paz se beijarão (Salmo 85, 10). Precisamos menos de guerrilheiros do que de mulheres e homens que ajudem, desde logo pelo exemplo, os seus irmãos e irmãs a mudarem de mentalidade. Dar oportunidade à Palavra é servi-la, é encarná-la, no seguimento de Jesus de Nazaré, chamado o Cristo. O pacifismo profético de Jesus é radical porque vai até às últimas consequências. Enquanto a violência é praticada por aqueles que querem preservar a sua vida (salvar a sua vida), o pacifismo profético de Jesus está pronto a ir até à dádiva da sua vida (Mc 10, 45). Dar a sua vida generosamente, não como um "kamikase", como um fanático suicida, que morre arrastando o "inimigo" consigo, mas dando-se sem ódio, para que o mundo viva.

Em 1958, em plena "Guerra Fria", um pequeno grupo de cristãos da então Checoslováquia fundou em Praga uma organização que recebeu o nome de Conselho Cristão para a Paz (CCP), com o objectivo de reflectirem em conjunto sobre a responsabilidade dos cristãos em relação à paz. Nesse Conselho vieram a filiar-se cristãos ortodoxos e protestantes de todo o mundo, além de vários católicos a título individual. Infelizmente, o CCP, por ter a sua sede num país socialista, foi acusado, parece que com alguma razão, de se ter deixado instrumentalizar pelos poderes políticos da região e desacreditou-se, vindo a desaparecer na implosão do mundo comunista. O projecto original, no entanto, era legítimo, e merece ser retomado por cristãos apostados em dar, sem sujeição a poderes políticos nem estreiteza de vista em relação a ideologias, o seu contributo para a construção de uma nova mentalidade. Seria da maior utilidade o ressurgimento desse projecto nos nossos dias, como força de pressão e espaço de reflexão e acção a favor não da paz em abstracto, mas da paz com justiça e verdade.

É tempo de acordarmos, tempo de mudança (metanoia), tempo de voltarmos a esta proposta libertadora de Jesus Cristo. "Bem-aventurados os que trabalham para que haja paz, porque eles serão chamados filhos de Deus" (Mt 5, 9).

O pacifismo profético de Jesus é a única saída. A alternativa é o caos.

(Pastor da Igreja Evangélica Presbiteriana. Figueira da Foz)

Texto de Porfírio Borges (Porto)

"Educar para uma cidadania activa numa sociedade em mudança", foi ao que a LOC se comprometeu desenvolver ao longo do ano, para aprofundar o papel dos cristãos no reforço dos valores em que acreditam, independentemente das respectivas opções, mesmo partidárias, de cada um. Como militante deste Movimento operário/cristão, achei por bem partilhar as razões que nos levaram a assumir este programa.

São imperativos de fé que nos tornam sensíveis aos apelos do Evangelho que, por exemplo, em Lucas, nos dá a perceber as motivações do compromisso de Jesus Cristo com a humanidade. Não se trata de uma ideologia ou de uma "doutrina" desencarnada. Pelo contrário, é uma "prática" que leva Jesus a recuperar a vista aos cegos, a aliviar os que sofrem, resgatar os excluídos e restituir a liberdade aos cativos.

Só na fidelidade a estes princípios a Igreja se pode realizar. Outro tanto deve pensar o D. Armindo, para se dirigir deste modo aos Militantes da LOC: "A Igreja tem anunciado uma doutrina, tem feito passar uma mensagem através de vós que sois e continuais a ser presença da Igreja, num Mundo que é vosso, no Mundo de trabalho".

Reconhece, portanto, o Bispo do Porto que a "mensagem" da Igreja para o mundo do trabalho só passará por um Evangelho que seja encarnado e testemunhado na vida.

Analisado o problema por esta perspectiva, verificamos estar em sintonia com a doutrina oficial da Igreja e de igual modo com Leonardo Boff, quando este diz que: "O homem deve ser o senhor do Mundo, irmão do homem e filho de Deus".

Para praticarmos e desenvolvermos estes objectivos, recorremos por norma à Doutrina Social da Igreja, a qual numa linguagem actualizada nos incentiva, mesmo sem desprezar outros valores, a dar prioridade aos da Justiça.

Compromisso com a sociedade em mudança

Acabei de referir algumas motivações cristãs para o nosso compromisso. É chegada a ocasião para afirmarmos que são exactamente estas motivações que justificam a nossa colaboração com todos os de boa vontade. Aliás, estamos convictos que ao procedermos desta maneira estamos em sintonia com o Papa Leão XIII, quando afirma que a Igreja defende a dignidade do trabalho e do trabalhador e que a sua mensagem, sobretudo social, só encontrará credibilidade no testemunho das suas obras.

Se calhar, desculpem a ironia, foi mesmo por isso que Deus nos criou só com uma boca mais dois braços e duas pernas, para nos dizer que estamos mais programados para agir do que para falar.

Porque consideramos que é assim que deve ser, assumimos a nossa "cidadania activa" nos clubes de bairro, nos domínios da saúde, ambiente, imigração/emigração, transportes, sindicatos, centros paroquiais e no apoio às vítimas das reformas antecipadas e até aos casais que entenderam solucionar as suas divergências através do divórcio.

Ao solidarizarmo-nos de forma activa com estas realidades da vida, sentimos estar a pôr em prática não só as conclusões do nosso Congresso, mas a viver a promessa de Jesus que nos garante que "onde duas pessoas se tenham juntado em meu nome, aí estarei eu no meio delas".

Como agir?

Antes de mais, terá de ser de acordo com as nossas convicções sociais, políticas e religiosas. No entanto, não somos insensíveis aos estímulos recebidos, como por exemplo este de D. Júlio: "A Igreja não olha o mundo do trabalho, onde tantos interesses estão em jogo, como um mundo perdido, nem como um campo que não lhe diz respeito", ou ainda o seguinte: "A Igreja denuncia as injustiças, anuncia as justiças e tem palavras que não agradam a uns e a outros".

Estas afirmações, aliadas à Doutrina Social da Igreja, são suficientes para nos convencerem de que a vontade de Deus é a de que a sua Igreja se torne presente neste mundo em mudança, decidindo-se actuar no sentido de fazer com que os homens possam ter cada vez mais uma cidadania activa.

Assim, apesar de não ignorarmos que a organização de uma sociedade justa e fraterna é tarefa do Estado, não olvidamos as nossas responsabilidades, convictos de que a Igreja e esta mesma sociedade também somos nós.

Nesta conformidade, por imperativos da nossa condição de cidadãos e da vivência da nossa fé, temos o dever de participar aos diversos níveis nas instituições sociais, em que se joguem os destinos da humanidade.

Ser Igreja, com efeito, não é só praticar actos litúrgicos. Por isso nós, como movimento operário/cristão, sentimos acrescidas as nossas responsabilidades com a evolução desta sociedade em mudança e a aplicação da Doutrina Social da Igreja. Isto é, devemos rezar como se tudo dependa de Deus, mas trabalhar como se tudo dependa de nós.

Texto de Manuel Sérgio (Lisboa)

A obra de Manuel Reis foi enriquecida com o livro "Sócrates e Jesus – esses desconhecidos". Este filósofo português que nunca se furtou à evolução, à dúvida, ao reacerto, tenta provar agora, não só que Jesus não é Deus, mas também que o diálogo maiêutico e dialéctico de Sócrates continua em Jesus. "Sócrates instituiu implicitamente, mas in actu exercito, a Ética enquanto Filosofia Primeira e, cinco séculos depois, Jesus instaura expressamente, por ditos e obras, e pela prova real da própria vida, a Ética como Filosofia Primeira" (p. 93). Outros pontos podíamos sinalizar entre os demais neste livro, tais como: "Na história do autêntico Israel nunca se poderá esquecer essa verdadeira instituição de crítica social e de contra-Poder que são os profetas" (p. 95). Ou ainda: a ideia da Autoridade como serviço, bem expressa em Mt 20, 28: "Pois o Filho do Homem não veio para ser servido. Ele veio para servir e dar a sua vida como resgate, em favor de muitos" (p. 213).

Mas voltemos aos dois temas que eu diferenciei neste livro: Jesus tem em Sócrates um dos seus predecessores; e Jesus não é Deus. No meu modesto entender, há uma nítida incomensurabilidade (T. Kuhn) entre Jesus e qualquer outro filósofo da Grécia ou de Roma. Se escutarmos atentamente as palavras "Amai-vos uns aos outros", ou "Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a vós mesmos", compreenderemos que não é um Rabi que fala aos judeus, nem um filósofo que dialoga com os atenienses, mas o Mestre que ensina a humanidade toda. Se repete várias vezes "Ai de vós, ricos", nada nos leva a crer que respondia tão-só ao desdém dos abastados do seu tempo que se fundamentavam no mais estreme individualismo (não era o indivíduo, para os sofistas, a medida de todas as coisas?), mas aos detentores de gorda fortuna, em todos os tempos e lugares.

O clássico Fustel de Coulanges, em La Cité Antique, opina: "Os antigos não conheciam nem a liberdade da vida particular, nem a da educação, nem a religiosa. A pessoa humana tinha muito pouco valor, perante essa autoridade quase divina, que se chamava Pátria ou Estado" (p. 265). E se nos adentrarmos na obra platónica, designadamente na República ou nas Leis, veremos que a solidariedade, mormente pelos pobres, pelos humildes, pelos fracos, não existia no vocabulário dos filósofos. No entanto, são de Jesus estas palavras: "Quem se fizer pequeno como uma destas crianças será o primeiro no reino dos céus". E ainda estas: "Se alguém quiser ser o primeiro que seja o último e o servo de todos". E o Sermão da Montanha? Alguém fez um sermão semelhante? Diante de um número incontável de gente do povo, ele proclama: Felizes os pobres de espírito; felizes os que têm fome e sede de justiça: felizes os que têm misericórdia pelo próximo; felizes os perseguidos por amor da justiça; ai de vós ricos, porque já recebestes a vossa recompensa; ai de vós saciados, porque um dia tereis fome.

Jesus nunca olhou para os mais humildes com sanha inquisidora. Considerou-os irmãos, filhos do mesmo Pai. Entretanto, a escravatura entre os gregos existia desde os tempos de Homero. Em Esparta, para 32 mil espartanos, contavam-se 140 mil escravos e 20 mil ilotas. Platão informa-nos que um grande número de atenienses possuía 50 ou mais escravos. Em Roma, de um pobre dizia-se: "este não tem bolsa nem escravo" (Catulo). Os próprios judeus praticaram a escravatura, se bem que para eles o escravo fosse uma criatura de Deus: "Se tens um escravo, cuida dele como de um irmão, assim o prenderás à tua alma" (Ecles. 33, 29-30). Um egípcio, um persa e um romano podiam matar o seu escravo; tal crime era formalmente proibido em Israel. Todavia, tudo isto não evitou que a escravatura se perpetuasse entre os judeus e inclino-me a supor que, aqui e além, com monstruosa iniquidade. E quem fez do escravo um homem livre? Quem operou esta transformação? Jesus, indiscutivelmente. "Amarás a Deus e amarás ao próximo como a ti mesmo" (Mt 22, 37-40); "Pai nosso que estais nos céus" (Mt 6, 9); "Vinde a mim todos os que estais fatigados e vos curvais sob o peso da vida e eu vos aliviarei""(Mt 11, 28); "O que de entre vós quiser ser grande far-se-á o servo de todos" (Mc 10, 43-44); "Ai de vós ricos, porque tendes a vossa consolação" (Lc 6, 24). Estas palavras, condenação formal da escravatura, não têm par em toda a antiguidade clássica, Sócrates incluído. Também aqui se encontra uma situação de ruptura operada por Jesus.

No que respeita ao facto de Jesus ser leigo e não sacerdote, e ser evidente nele a "Mensagem revolucionária (...),expressa no que se pode chamar o sacerdócio universal de todos os fiéis, de todos os seres humanos" (p. 153), eu, que não me sinto tutelado a nada nem a ninguém (se não me desagradassem os rótulos e os espartilhos, ainda andaria pela política), estou inteiramente ao lado de Manuel Reis. As religiões hierarquizam, separam, mitificam, conformizam e cloroformizam, um projecto radical de democracia será sempre olhado por elas numa atmosfera de vigilância hostil. Philosophia ancilla theologiae, axioma imposto pela religião medieval (e não só), reflecte bem como o catolicismo, para além das suas indiscutíveis qualidades, vem sendo também um instrumento mutilador do trabalho intelectual, um espaço que mantém obscurecida e passiva a consciência do povo. A doutrina do pecado original e a sua sexualização permitem que esta pergunta prevaleça: "haverá mesmo santidade cristã sem sado-masoquismo e principalmente sem masoquismo, o qual precisa de se alimentar de sacrifícios e mortificações corporais?" (p. 216), O celibato e a castidade impostos aos sacerdotes são de uma rudeza e brutalidade sem qualquer ponta de justificação... a não ser no Poder-dominação-d’abord, de que nos fala Manuel Reis. Em Verdade e Método, Gadamer observa: "a crítica do iluminismo levanta-se em primeiro lugar contra a tradição religiosa cristã". Manuel Reis, para quem escrever é viver, afirmar, resistir, faz outro tanto. Que o mesmo é dizer: Manuel Reis é um racionalista, filho dilecto do iluminismo e, portanto, que se distingue pela seriedade e acuidade da crítica. Devemos felicitá-lo por isso. Ele tem lugar relevante numa literatura de ideias, avessa a dogmatismos, crestada de desencantos, mas depositária de esperanças e certezas profundas.

Aflorar a problemática da divindade de Jesus é questão que entro nela com fé irresistível. Estou entre os que acreditam piamente na existência de Deus. "Mas não é verdade que Deus é uma criação dos homens?", perguntar-me-ão alguns, com escaldante sinceridade. Para mim, se os homens criam Deus é porque têm necessidade dEle. Posso fazer minhas as palavras do soneto de José Régio: "Vejo enfim que sem Ti nada me presta". Embora Deus seja sempre, para nós, simples mortais, o Deus absconditus e só pela fé O possamos conhecer melhor. E Jesus é Deus? Para mim, Jesus é Deus, na medida em que Deus está nele como não está em mais ninguém. "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida": só um Deus amorosamente atento às nossas limitações o poderia dizer. Na Vida de Jesus, o insuspeito Renan escreveu: "Jesus não poderia pertencer unicamente aos que se apelidam seus discípulos. É a honra comum a todos os que têm coração humano. A sua glória não consiste em estar retirado da História. Presta-se-lhe mais verdadeiro culto, mostrando que toda a História é incompreensível sem ele". E mais adiante: "Arrancar o seu nome deste mundo seria abalá-lo até aos alicerces". Sem Jesus, o Filho de Deus, eu não tenho qualquer relação com o sagrado e o infinito. Recordo Pascal, nos Pensamentos: "Nós não conhecemos nem a vida nem a morte, nem quem é Deus nem quem somos nós".

Um abraço ao Manuel Reis, que me obriga sempre a pensar, ou melhor: que obriga sempre a pensar os que o lêem, com o respeito grande que ele merece.


Texto de Ana Vicente e M.ª João Sande Lemos (Lisboa)

Vimos, por este meio, proporcionar alguma informação acerca da Conferência Ecuménica Mundial sobre a Ordenação das Mulheres, que se realizou em Dublin, na Irlanda, entre 19 de Junho e 1 de Julho de 2001, promovida pela Organização Mundial pela Ordenação das Mulheres, que integra uma série de movimentos a favor da reforma da Igreja Católica. O tema era: Chegou a hora - celebrando o chamamento das mulheres a um sacerdócio renovado na Igreja Católica. Os participantes totalizaram 370, vindos de 26 países, dos quais 15% eram do sexo masculino. Havia cerca de 30 religiosas e alguns sacerdotes. Estiveram presentes duas portuguesas do Movimento Internacional Nós Somos Igreja, Maria João Sande Lemos e Ana Vicente.

As conferências principais, seguidas de debate, foram pronunciadas por Mairéad Corrigan-Maguire, católica de Belfast, Irlanda do Norte, Prémio Nobel da Paz; Rose Hudson-Wilkin, inglesa, pastora anglicana em duas paróquias de Londres; Joan Chittister, norte-americana, teóloga e religiosa beneditina; e John Wijngaards, holandês, padre, teólogo e organizador do sítio da internet sobre a ordenação das mulheres na Igreja Católica (www.womenpriests.org). Realizou-se também uma mesa-redonda com participantes da África do Sul, México, Colômbia, Uganda, Japão e Hungria. No final da Conferência foram aprovadas as Resoluções (ver texto na página seguinte).

Mairéad Corrigan-Maguire afirmou que a posição do Vaticano sobre a ordenação das mulheres "é desumanizante, desmoralizante e uma forma de violência espiritual." Acrescentou que "muitos católicos entendem agora que uma argumentação teológica baseada na «biologia» torna-se ridícula." Rose Hudson-Wilkin, casada e mãe de três filhos, deu um testemunho eloquente sobre a sua caminhada e a sua experiência de vida. Esta oradora substituiu a teóloga indiana protestante Aruna Gnanadason, do Conselho Mundial das Igrejas, que foi obrigada a desistir de falar na Conferência, devido a pressões do Vaticano sobre esse Conselho Mundial, ameaçando que deixaria de integrar alguns grupos de trabalho, se ela participasse. Seguiu-se uma excelente intervenção de Joan Chittister, beneditina há 50 anos, autora de mais de vinte livros, a qual também tinha sido intimada pela Congregação dos Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica a não participar. Contudo, 127 das 128 religiosas da sua comunidade e também a respectiva Madre Superiora a apoiaram na decisão. Numa declaração pública, a Madre Superiora afirmou: "A minha decisão (de apoiar a participação da Irmã Joan Chittister) não deverá ser entendida como uma falta de comunhão com a Igreja. Procuro ser fiel ao papel desempenhado na Igreja no seu todo por uma tradição monástica com 1.500 anos de história. A nossa tradição remonta aos Padres e às Madres do Deserto no século IV, os quais viviam à margem da sociedade a fim de se constituírem como presença de oração e de quetionamento tanto dentro da Igreja como na sociedade. As comunidades beneditinas de homens e de mulheres nunca quiseram fazer parte integrante da estrutura hierárquica e clerical da Igreja, mas colocar-se à margem desta estrutura a fim de oferecer uma voz diferente."

A conferência da Irmã Joan Chittister incidiu sobre "Um ministério ordenado para um povo sacerdotal". Afirmou que "uma religião que prega a igualdade das mulheres mas nada faz para a concretizar nas suas estruturas corre o risco de repetir os erros teológicos que durante séculos fizeram com que a Igreja não condenasse a escravatura." Acrescentou que a Igreja não só tinha que pregar o Evangelho mas também "não o obstruir". John Wijngaards, que publicou recentemente um livro intitulado "A Ordenação das Mulhares na Igreja", afirmou que o "desejo da ordenação das mulheres nasce no âmago da nossa fé católica enquadrada na igualdade dos homens e das mulheres no sacerdócio universal de Cristo adquirido pelo baptismo."

Por sua vez, a religiosa católica inglesa, Myra Poole, da Congregação das Irmãs de Notre-Dame, de 68 anos de idade e 42 ao serviço da sua Ordem, que tinha presidido à comissão organizadora durante três anos, foi também intimada, uns dias antes da Conferência a não estar presente, tendo sido ameaçada pelo Vaticano de ser expulsa da Ordem. Com grande coragem e depois de muita oração e reflexão, resolveu, contudo, estar presente, de acordo com a sua consciência.

Uma semana após o final da Conferência, um porta-voz do Vaticano anunciou que nenhuma das participantes seria castigada!

Realizaram-se várias cerimónias litúrgicas durante a Conferência, sempre muito participadas. Por coincidência, uma relíquia de Santa Teresa de Lisieux, que sempre desejou ser ordenada para o ministério presbiteral, esteve a percorrer a Irlanda durante o mês anterior à Conferência e a sua partida coincidiu com o encerramento da Conferência.

Toda a documentação da Conferência, alguma da qual se encontra traduzida para diversas línguas, pode ser encontrada no seguinte "sítio": www.wow2001.org

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