Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

30 Março 2001

As hierarquias das Igrejas cristãs têm por pai o Diabo, não o Espírito Santo. Como ele, mentem desde o princípio, escondem a Verdade às populações e aos povos. Pior. Retêm a Verdade cativa na injustiça, isto é, na actual Ordem Económica neoliberal das multinacionais, da qual são, aliás, o braço religioso, à frente dos diversos sistemas eclesiásticos que, habilmente, criaram, ao longo dos séculos e que, hoje, ideológica e teologicamente, as justificam e mantêm como minorias privilegiadas e intocáveis.
Esta é uma das mais contundentes afirmações que eu próprio fiz, ontem à noite, durante uma conferência-debate, sobre "Evangelizar a Igreja no novo milénio", que teve lugar nas instalações da Fundação da Juventude, na cidade do Porto. A iniciativa, promovida pelo NJAP/JU e pelo JUP-Jornal Universitário do Porto, inseriu-se numa outra mais ampla, denominada "Centros de mesa", que junta, periodicamente, numa sala daquela Fundação, estudantes e docentes da Universidade do Porto, todos, elas e eles, muito interventivos e preocupados com o estado actual e próximo futuro da sociedade em geral e da sociedade portuguesa em especial.
O encontro foi precedido dum informal e frugal jantar num dos restaurantes das proximidades da sede do Jornal, que juntou os principais responsáveis do Núcleo de Estudantes e proporcionou um saboroso convívio que, pessoalmente, muito apreciei.
A conferência-debate prolongou-se noite dentro, mesmo depois de ter sido dada como oficialmente encerrada. De modo que, quando cheguei a casa para dormir, eram já três horas da madrugada!
Muitas foram as questões que os estudantes partilharam, a revelar que Jesus de Nazaré e a sua original via libertadora e humanizadora continuam integralmente na ordem do dia das suas vidas, mesmo que alguns, elas e eles, se assumam já como ateus ou agnósticos.
A surpresa delas e deles é enorme, quando lhes digo que não é o ateísmo que me aflige, como cristão e como presbítero da Igreja católica. O que me aflige e preocupa sobremaneira é a idolatria, o culto de deuses que inventamos para suprir todo o tipo de lacunas e deficiências que padecemos, deuses-tapa-buracos, como são todos os deuses e deusas que as Religiões alimentam e cultuam, a toda a hora e momento. E de que Fátima, juntamente com a sua deusa ou senhora e o seu santuário, são o exemplo português mais acabado.
A experiência de ontem foi espiritualmente riquíssima para mim. Aos 64 anos, voltei a encontrar-me com estudantes, dos quais muito recebi, na década de sessenta, quando, durante quatro anos consecutivos, fui professor de Religião e Moral nos dois liceus masculinos do Porto, respectivamente, Alexandre Herculano e D. Manuel II, numa altura em que o fascismo era rei e senhor, a liberdade de expressão e de reunião era nenhuma, e a criminosa Guerra Colonial decorria, em três frentes de África, graças, também e sobretudo, à diabólica bênção da hierarquia católica portuguesa e vaticana.
Ontem, pude recordar junto destes estudantes essa minha experiência e, na pessoa delas e deles, agradecer todo o bem que recebi dos seus antecessores, naqueles meus anos de professor. Um professor que, felizmente, não o soube ser, segundo os cânones então vigentes e, por isso, em lugar de me impor autoritariamente, acabei sobretudo como discípulo deles. De tal modo que, muito do que sou hoje, é também a esses estudantes que o devo. Foram meus mestres de vida, graças ao Espírito de rebeldia e de dissidência que neles andava e anda.
Para este encontro-debate, tive o cuidado de, uns dias antes, andar à escuta do que o Espírito queria que eu dissesse. E, durante a tarde de ontem, sentei-me à secretária e escrevi, de jacto, umas quantas ideias-força, mais tópicos, do que discurso acabado, para provocar o saudável debate.
Os tópicos são, política e eclesiasticamente, incorrectos quanto baste. Mas correspondem ao que, neste momento, experimento no mais fundo de mim. E por isso os apresentei com serenidade, bom-humor, muita convicção, alegria, e também muita esperança. São esses tópicos que agora aqui partilho com quantas e quantos vierem a abrir esta página do meu Diário-net.
Evitem escandalizar-se, desnecessariamente. Mergulhem, de preferência, com inteligência e tempo suficiente no texto. Como quem saboreia a mensagem que por ele nos é dada.
Aqui e ali, o texto parece amargo de ouvir e de digerir, mas, depois, o efeito que produz é doce como a verdade que liberta, e deixa-nos com ganas para protagonizarmos Novos Começos. Vamos a isso, já. O início do século XXI e do terceiro milénio é uma oportuníssima ocasião para isso. Sejamos dignos deste momento e ousemos abrir caminhos ainda não andados! Eis.
Evangelizar os pobres, é a missão de qualquer Igreja. E de quem a constitui, seja leiga/leigo, ou ordenado. É este o culto que as Igrejas cristãs são chamadas a prestar a Deus, pelo menos, daquele Deus que se nos revelou definitivamente em Jesus de Nazaré, o Cristo.
Paulo – S. Paulo – no século I, viu isto com toda a clareza. E proclamou-o com solenidade e sem ambiguidades. Também com toda a frontalidade. Assim:
Aquele que constituiu Pedro como apóstolo dos judeus, também me constituiu a mim como apóstolo dos não-judeus (ou gentios). Mais: Ai de mim, se não evangelizar! E ainda: Fui enviado, não a baptizar (menos ainda, a dizer missa todos os dias e mais do que uma vez ao dia!...), mas a evangelizar!
Paulo tem consciência de que este é o culto mais importante, o único que agrada a Deus. Tem também consciência de que é um culto arriscado, ao contrario do culto feito de missas em série e de outras cerimónias religiosas. É ele quem sublinha, com saber de experiência feito: Nós pregamos Cristo, e Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus (hoje, para os católicos romanos tradicionalistas e fatimistas) e loucura para os não-judeus (hoje, todos os ricos e poderosos, que gostam de ter tanto de religiosos como de ricos e poderosos).
Evangelizar os pobres é a fundamental missão das Igrejas cristãs, pois foi também a fundamental, para não dizer, única, missão de Jesus de Nazaré. Ele não tem outra, no testemunhar, por exemplo, do Evangelho de Lucas, aquando da sua intervenção na Sinagoga de Nazaré, a aldeia onde se havia criado.
Depois de ter vencido todas as tentações (o número três, nos Evangelhos, indica uma totalidade, uma realidade completa, acabada) – curiosamente, nenhuma delas tem a ver com o sexo e a vida sexual! – Jesus foi à Sinagoga da aldeia onde se havia criado e leu – e censurou o que lá diz referente a castigos da parte de Deus! - o Profeta Isaías. E lá está, claro como água, a missão do Enviado de Deus, que ele faz sua até ao fim: Evangelizar os pobres.
O mesmo testemunha o Evangelho de Marcos, ainda que com outra linguagem, por sinal, muito mais política: Cumpriu-se o tempo, o Reino de Deus está próximo. Convertam-se e acreditem no Evangelho.
Digo que esta é uma linguagem mais política. E é. Só que, hoje, estas palavras são quase inócuas para nós, que vivemos num contexto cultural completamente diferente do de então. Na época e no país de Jesus, aquelas palavras soavam a pura subversão. É como dizer hoje: Cumpriu-se o tempo e o fim da Ordem económica neoliberal está próximo. Convertam-se (isto é, deixem de estar virados e confiantes nas multinacionais e seus gestores sem rosto e sem entranhas de misericórdia e virem-se confiantes para as suas vítimas, tanto as vítimas humanas, como as vítimas da Natureza) e creiam no Evangelho, ou seja, creiam nesta Boa Notícia que acabais de ouvir.
Evangelizar os pobres, o que é? É dizer aos pobres e a todas e a todos os que não têm lugar à mesa dos privilégios da Ordem Económica neoliberal das multinacionais, que a sua pobreza acabou, que a sua desgraça chegou ao fim. Porque Deus lhe pôs termo. Por outras palavras, é dizer às vítimas deste mundo – hoje, a esmagadora maioria da Humanidade e da Natureza – que Deus não está, nunca esteve, com a Ordem Económica neoliberal das multinacionais, nem com as Igrejas que a abençoam. Como tal, é uma Ordem que pode e deve ser derrubada, substituída.
Mas é dizer-lhes mais, aos pobres: É dizer-lhes, com a força do Espírito criador e libertador, que Deus não está longe da História, não está fora da História. Deus está metido na História, totalmente apostado na construção duma Ordem alternativa à Ordem Económica neoliberal das multinacionais. Pelo que, crer em Deus, há-de ser fazer seu o Projecto dEle e trabalhar incansavelmente, até com risco da carreira e da própria vida, para pôr fim à Ordem Económica neoliberal das multinacionais e ajudar a criar uma Ordem económica outra, alternativa àquela. Na qual os pobres sejam os primeiros, os preferidos, não no sentido paternalista de serem servidos e objecto de caridadezinha, sim no sentido de serem os primeiros no serviço, na entrega das suas vidas, os protagonistas, os primeiros e principais sujeitos na construção dessa Nova Ordem Mundial alternativa.
Quase sempre se pensou nos pobres como objecto de caridadezinha, como objecto de assistência. Não é por aqui que vai a missão de Evangelizar os pobres. Para haver caridadezinha, teria de haver ricos benfeitores. Que é exactamente o que hoje temos com a presente Ordem económica neoliberal das multinacionais. Ora, é com esta ordem assim, que Deus quer acabar. E, ontem, já era tarde.
Evangelizar os pobres – a grande missão das Igrejas cristãs – é despertar os pobres e chamá-los à acção e à luta política. É despertá-los para que se assumam como sujeitos, como protagonistas na História. Para que derrubem a Ordem económica neoliberal vigente que os fabrica em massa e os multiplica em série. Também, para que derrubem os poderosos de turno e despojem os ricos. Numa palavra, para que façam a Revolução, sempre (com os meios e a estratégia que entenderem, em cada momento).
Evangelizar as Igrejas. Não é propriamente a missão de um padre, de um presbítero, já que a missão dele é Evangelizar os pobres. Mas será a missão dos ateus, mulheres e homens, indiscriminadamente.
Quando as Igrejas cristãs se demitem da sua missão de Evangelizar os pobres e vão atrás de outros deuses/senhores e atrás de outros cultos alienadores dos pobres e dos povos, é hora dos ateus, mulheres e homens, entrarem em acção. E evangelizarem as Igrejas cristãs!
Foi o que fez, em grande parte, Marx (e os outros dois mestres da suspeita), porventura o profeta ateu que mais marcou o passado século XX.
O Concílio Vaticano II reconheceu este papel aos ateus e ao ateísmo, quando sublinhou, num dos seus documentos, que o ateísmo contemporâneo tem nos desvios, nas traições, das Igrejas à sua missão histórica, um das suas principais origens! Só não acrescentou, como eu agora o faço, para os ateus evangelizarem as Igrejas. Mas pode dizer-se que esta explicitação já está contida naquelas premissas conciliares.
Não sou ateu. Creio em Deus. Creio em Jesus Cristo. Creio no Espírito Santo. E sou igreja, na comunhão com milhões de irmãs e de irmãos. Mas sou ateu de todos os deuses que se alimentam de gente, de pobres, de órfãos, de viúvas, de crianças, de drogados, de excluídos, de escorraçados, de doentes contagiosos, de sem-abrigo, de sem-terra, de prostitutas.
Portanto, também sou ateu do deus da Religião católica (não confundir com Igreja de Jesus!), que engana os pobres, que mente aos pobres, que come os pobres, que lhes suga o dinheiro e o sangue e ainda lhes exige sacrifícios estúpidos, como, por exemplo, os do longo período da chamada quaresma. Religião católica que tem o seu máximo expoente em Fátima, no santuário/recinto da mítica deusa ou senhora de Fátima.
Mas como padre/presbítero sem ofício pastoral, até sem existência oficial na Igreja diocesana que me baptizou e ordenou, de certo modo também estou incluído no número dos ateus e de outros malditos, que hão-de evangelizar as Igrejas cristãs, a começar, evidentemente, pela Igreja católica romana a que pertenço.
É uma missão que me foi dada e que só nasce e se desenvolve nos escorraçados pelo sistema eclesiástico, nos que foram postos à margem, nos excluídos, numa palavra, em todas aquelas e em todos aqueles que resistiram às três tentações que Jesus de Nazaré também resistiu.
Evangelizar as Igrejas é uma missão de fora para dentro. E, se eu estou dentro da Igreja, estou praticamente fora do sistema eclesiástico. Por isso, estou em condições de assumir esta arriscada missão que é, não só, Evangelizar os pobres, mas também Evangelizar as Igrejas. E creiam que esta última missão – Evangelizar as Igrejas – é, porventura ainda mais arriscado que a primeira, Evangelizar os pobres (as Igrejas conhecem formas altamente sofisticadas de Santa Inquisição e de Santas Fogueiras, que só mesmo quem, como elas, tem por pai o diabo, pode concebê-las e realizá-las!).
E que Evangelho, que Boa Notícia, tenho eu a dar às Igrejas cristãs? Neste início do século XXI e do terceiro milénio do Cristianismo, ouso formular esta tese:
As Igrejas cristãs que temos, não são Igrejas cristãs jesuânicas. Não são a via ou caminho que Jesus abriu e é. São meras religiões. O Cristianismo, como via original de Jesus, continua hoje desconhecido. O que as Igrejas cristãs têm feito é religião. Com ela, ajudam a manter a Ordem económica neoliberal vigente. São Igrejas que abençoam os ricos e adormecem os pobres. Ajudam os pobres, mas não evangelizam os pobres, isto é, não os consciencializam, não os libertam, não os despertam, não os tornam sujeitos e protagonistas. Reforçam o poder dos poderosos, não os derrubam. Muito menos derrubam a sua Ordem económica mundial. Ajudam a enriquecer os ricos, com as suas bênçãos e as suas notórias amizades, a cujas mesas gostam de se sentar com frequência e de quem recebem avultadas ofertas para a construção de novos templos e de ricas basílicas, não os despojam, até os deixar de mãos vazias, prontos, finalmente, para poderem apertar as mãos, como irmãs e irmãos, dos outros homens e mulheres, também dos pobres que fabricaram e multiplicaram.
São, por isso, Igrejas em estado de pecado mortal. Quanto mais trabalham, mais desgraça semeiam. E os poderosos e os ricos agradecem-lhes. São Igrejas que não resistiram às três tentações, às quais Jesus resistiu. Caíram nelas e dão-se bem com elas.
É claro que, no conjunto da sua múltipla actividade, têm certas coisas boas, mas a cepa é má. Como tal, não prestam. São sal que perdeu a força e tem de ser lançado fora e ser pisado pelos demais seres humanos. São Igrejas que seguem o Diabo (figura mítica, mas que, na nossa simbólica, continua ainda hoje a dizer muito às pessoas), não Jesus Crucificado/Ressuscitado. Têm por pai o Diabo, que é pai de mentira e assassino/paternalista desde o princípio. Não têm por pai, Deus, o Espírito de Deus, que gosta de se apresentar como o Pai dos pobres e o Goel ou Defensor dos órfãos e das viúvas (entenda-se, dos pobres e dos excluídos de toda a espécie). Por isso, o discurso delas é moralista, não é libertador. Adormece as consciências, não as desperta. Paralisa as populações e os povos, não os convoca para a Revolução. São Igrejas que estão com os grandes e os ricos mai-la sua ordem económica neoliberal mundial, não estão com as suas vítimas. Fazem alianças ou pactos de amizade e de bom entendimento com os do vértice da pirâmide, não com os da base da pirâmide. São um povo à parte (= clero), farisaicamente puro - é só fachada, para melhor impressionar – não um povo-com-o-povo. Os seus chefes são todos machos. E poder sagrado (o pior de todos). São príncipes da Igreja, não os criados, os servidores, a exemplo dos meninos-servo que Jesus aponta para quantas e quantos se propõem seguir a sua via. Em síntese, as Igrejas cristãs, sobretudo, as suas hierarquias, são o braço religioso da Ordem económica neoliberal das multinacionais, não são a parteira junto das suas numerosas vítimas, para que estas, num assomo de dignidade, se sublevem e se assumam como protagonistas duma Ordem Mundial alternativa que Deus quer edificar e a que Jesus designou, no seu tempo e país, como o Reino de Deus.
Haverá possibilidades de conversão, por parte das Igrejas cristãs? Há! Evangelizar as Igrejas é dizer-lhes, hoje, que o Reino de Deus ou a Ordem mundial alternativa está próximo, que se convertam, isto é, que deixem de viver aliançadas com os poderosos e os ricos e se virem, com entranhas de ternura e com muita inteligência, para todas as suas vítimas. E que creiam nesta Boa Notícia de Deus.
Como chegar lá? O que eu escutei, estes dias, do Espírito Santo para vos dizer aqui, é isto: As Igrejas cristãs têm de morrer para tudo o que sabem e para tudo o que fazem. Tudo o que sabem e fazem está inquinado. Tudo o que sabem e fazem tem por pai o diabo e só serve para alienar, despojar, oprimir, matar a Humanidade.
As Igrejas cristãs têm de nascer do Alto, isto é, dos porões da Humanidade. Têm de nascer do Espírito Santo. Passar a ter por pai o Espírito Santo, como se diz, em boa teologia evangélica, que Jesus de Nazaré tem (Jesus é filho biológico de José, ou de um outro homem desconhecido, a quem a tradição consagrou com o nome de José, mas no dizer teológico do Evangelho, é filho do Espírito Santo. Como, de resto, todos nós, seres humanos, mulheres e homens, havemos de ser também, se quisermos ser verdadeiramente humanos!).
Para tanto, as Igrejas cristãs têm de passar a ler/escutar o Evangelho de Jesus, nas suas quatro versões, mas do fim para o princípio, e não mais, como até agora sempre fizeram, do princípio para o fim. Têm de passar a ler/escutar o Evangelho, da Páscoa para o natal. Dos relatos teológicos da Ressurreição, para os relatos teológicos do nascimento de Jesus. Porque a Morte/Ressurreição de Jesus é que dá sentido ao seu ser/viver. É a chave hermenêutica da História e dos acontecimentos que a fazem.
Se repararem, nos relatos evangélicos da Paixão de Jesus (o Evangelho começou por ser esses relatos!), os discípulos homens são uma vergonha. Andam atrás de Jesus, mas não com Jesus. Andam próximos dele, mas nunca o entenderam. Todos têm outros interesses e outros projectos. São o exemplo acabado, paradigmático, do que não devemos ser, mas do que são hoje as hierarquias eclesiásticas - nomeadamente, da Igreja católica romana que se reclamam de seus sucessores. E, neste aspecto, são. Como eles, também elas são uma vergonha. Uma nódoa. Sempre a sonhar com o poder. Com os privilégios. Com a carreira eclesiástica. Com alcançar o topo da pirâmide, mas sempre com aquele farisaico ar de humildes e de santos!...
Os relatos evangélicos da Paixão deixam bem claro quem são estes "doze" discípulos homens. Na hora da verdade e do aperto, todos fogem. Precisamente, quando o Evangelho está a ser vivido no seu clímax, por Jesus, eles fogem. O primeiro da lista dos Doze, Simão Pedro, nega Jesus por três vezes (o número três indica uma negação total, completa!). O último da lista dos Doze, Judas Iscariotes (o nome pode ser apenas literário e teológico, em vez de judaísmo, e não um indivíduo concreto), vende-o por dinheiro. Quer isto dizer que nenhum dos Doze se aproveita. E, por isso, se hoje ainda há cristãs e cristãos, se ainda há Cristianismo, não é aos Doze que o devemos. Todos desertaram. Todos renegaram Jesus. Todos o venderam por dinheiro. Devemo-lo às mulheres discípulas que, desde a Galileia, andam com Jesus, são companheiras de vida e de projecto (é o que quer dizer Lucas, cap. 8, quando escreve que elas partilhavam os seus bens com Jesus e os outros discípulos), acompanham-no até à Cruz e, finalmente, testemunham a sua Ressurreição dos mortos. Também o devemos a eles, mas depois que eles foram evangelizados por elas!
Os relatos da Ressurreição são eloquentes. Leiam-nos com olhos de ver e tirem as vossas conclusões. Marcos, o mais antigo dos quatro, só fala da presença de mulheres. Concretamente, do grupo de apóstolas ou enviadas, cuja líder é inquestionavelmente Maria de Magdala, ou Maria Madalena (ainda hoje, muitos católicos e católicas confundem-na com uma prostituta ou até com a mulher adúltera de que fala o Evangelho de João...). Elas são enviadas (= apóstolas) aos Onze!. Vão evangelizar os Onze. E, maravilha das maravilhas, conseguem o que Jesus nunca conseguiu até à sua morte violenta na Cruz. Conseguem que eles se abram ao Evangelho, embora, alguns fiquem sempre com dúvidas, tão ocupados estavam com projectos de poder e de riqueza, de domínio e de privilégios.
Mateus, por sua vez, também só fala de mulheres, nos relatos da Ressurreição. São elas, duas, que vêem Jesus Ressuscitado e vão anunciá-lo aos discípulos homens. Desde a Galileia que haviam dado a sua adesão a Jesus. Ao contrário deles que só depois da Ressurreição de Jesus é que o fazem. E nem todos lhe dão a sua adesão, sublinham os relatos. (Tal como hoje, a hierarquia eclesiástica que pode muito bem manter-se nos lugares que ocupam sem ter dado a sua adesão a Jesus. É sabido que para se ser funcionário-mor eclesiástico não é precisa a fé em Jesus Ressuscitado. Esta até atrapalha!...)
O Evangelho de Lucas vai pelo mesmo caminho dos outros dois Sinópticos. E o Evangelho de João é, neste particular, o mais eloquente e o mais radical de todos. Tanto que esteve em risco de não ser incluído no "Cânon" dos livros inspirados!...
Antes de concluir, deixem-me chamar a vossa atenção para dois pormenores substantivos, eloquentes quanto baste!
O primeiro tem a ver com o Evangelho de Mateus. Como é sobejamente conhecido, este Evangelho é o único que, no capítulo 16, apresenta Jesus a dizer solenemente a Pedro: Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja. (Poucos sabem, entretanto, porque isso os bispos e o papa já gostam de esconder, que, pouco depois desta solene declaração de Jesus a Pedro, o Evangelho regista outra que desfaz esta por completo. É aquela em que o mesmo Jesus chama a Pedro, satanás, quando lhe diz, taxativamente, Afasta-te de mim, satanás, porque os teus pensamentos não são de Deus, mas dos homens!).
Pois bem, é este mesmo Evangelho que, na hora da Ressurreição, não nos dá qualquer pista para visualizarmos Pedro/Pedra. Em seu lugar, quem aparece é Maria Madalena, sobre cuja Fé na Ressurreição e no Ressuscitado Jesus, a Igreja é edificada (Digam lá, se as coisas não têm andado completamente às avessas, nas Igrejas cristãs, com destaque maior para a Igreja católica romana? Que é feito das mulheres? Sem elas não haveria Igreja. E, hoje, até não lhes reconhecem o acesso aos ministérios ordenados!...).
Posso escandalizar, mas tenho de reconhecer que isto nunca foi dito, nunca foi pregado pelas Igrejas cristãs, nomeadamente, pela Igreja católica romana. As hierarquias, feitas de machos, sempre nos esconderam este Evangelho da Páscoa, da Ressurreição, sempre o mantiveram fechado ao nosso entendimento, mesmo quando, porventura, o leram nas assembleias litúrgicas. Sempre nos mentiram. Por isso, continuo a dizer: Têm por pai o Diabo, não o Espírito Santo. E o Diabo é mentiroso, pai de mentira e assassino desde o princípio. Tal como hoje são as hierarquias das Igrejas, nomeadamente, os homens solitários da hierarquia católica romana. Mentem-nos! Escondem-nos a Verdade que liberta. Pior: Retêm a verdade cativa na injustiça, na Ordem Económica neoliberal vigente, da qual gostam de ser o braço religioso, juntamente com o sistema eclesiástico que criaram ao longo dos séculos e que, hoje, justifica ideológica e teologicamente os seus privilégios.
O outro pormenor substantivo tem a ver com o Evangelho de João. Aqui o escândalo é ainda maior. Vejam. O Evangelho de João é o mais feminino e feminista dos quatro. É o que apresenta mais mulheres como protagonistas de grandes narrativas teológicas, em lugar de apresentar homens. Igualmente, nos relatos da Ressurreição, são mulheres, a primeira das quais, Maria de Magdala, as protagonistas. Maria Madalena é a primeira a crer em Jesus Ressuscitado. Bastou que ele lhe chamasse pelo nome, naquele tom que intimidade do discipulado dá, para que ela logo visse o Invisível e acreditasse, ao ponto de se tornar a apóstola dos apóstolos homens. Ela é ousada. Não tem medo. Busca. Ao contrário dos Onze, que estão metidos no cenáculo, cheios de medo, e com as portas fechadas! Jesus aparece-lhes, mas eles pensam que é um fantasma. Come com eles, mas alguns continuam a duvidar. E um deles, Tomé, chega a dizer que só acredita se meter os dedos no lugar dos cravos, como se o Ressuscitado Jesus alguma vez fosse um cadáver de volta à vida. Não é. Como não é a nossa própria ressurreição. A nossa ressurreição é uma Nova Criação de Deus, a partir do que cada um/cada uma de nós é no momento da morte. E que sucede nesse instante, não no fim dos tempos (o que é isso de fim dos tempos?!). Ora, só a Fé é capaz de ver o Invisível. Por isso se diz, Felizes os que sem verem, acreditaram. Não é, Vi e, por isso, acreditei. Mas, Acreditei e, por isso, vi (o Invisível).
Mas o escândalo vem depois e estraga por completo toda esta Boa Notícia de Deus que escolhe as mulheres como testemunhas da Ressurreição de Jesus e cuja Fé é a Pedra sobre a qual a Igreja de Jesus é edificada. (A Igreja que temos, só de homens nos postos-chave não é de Deus. Tem por pai o Diabo. Por isso, é uma Igreja que atrofia, oprime, humilha, despoja, amesquinha, infantiliza, mata). Vejam só.
O Evangelho deveria concluir no capítulo 20. Mas, quando parecia que sim, volta a abrir-se e, contra tudo o que está escrito/relatado antes, desde o primeiro capítulo ao capítulo 20, eis que deparamos com um Apêndice, em que a figura de Pedro, totalmente eclipsado desde a prisão de Jesus, ocupa agora o papel de líder da comunidade de discípulos, todos homens. E as coisas vão ao ponto de apresentar Jesus a dizer solenemente a Pedro (três vezes!), Apascenta as minhas ovelhas, apascenta os meus cordeiros, ou seja, sê o líder incontestado da comunidade, uma espécie de papa antes de tempo!
Trata-se dum apêndice ao Evangelho. Não é o Evangelho de João, tal como ele foi inicialmente escrito. Temos por isso de dizer que foi um arranjo, uma manipulação, para tentar justificar a posição hegemónica dos discípulos homens, concretamente, de Pedro, sobre as discípulas mulheres, quando estas e não aqueles, é que foram constituídas pelo Espírito Santo como fundamentais para a edificação da Igreja.
Esta mentira de quase dois mil anos tem de ser desmascarada. Trata-se de pura manipulação eclesiástica, por parte dos homens que queriam ter uma justificação evangélica para tomarem o poder na Igreja. A justificação aí está. Só que o relato que a sustenta não é autêntico, não é um relato inspirado. Tem por pai o Diabo, não o Espírito Santo!
Urge regressar aos Evangelhos, às quatro narrativas com que abre o Testamento cristão, melhor, às cinco narrativas, já que o livro conhecido por Actos dos Apóstolos faz parte do Evangelho de Lucas, é o segundo volume do Evangelho com esse nome.
Urge regressar aos Evangelhos. Mas aos Evangelhos tais quais eles foram inspirados pelo Espírito Santo. E passar a lê-los de trás para a frente. Começar a lê-los pelos relatos da Ressurreição. Não pelos apêndices, introduzidos posteriormente e à revelia do Espírito Santo.
Se o fizermos, as Igrejas cristãs do século XXI e do terceiro milénio serão, finalmente, Igrejas femininas, inclusivas, igualitárias, ministeriais, fraternas/sororais, solidárias e parteiras da Humanidade. Para que ela cresça e elas diminuam. Se vierem a fazer alianças ou Concordatas não será nunca com os poderosos de turno, mas sempre e só com as suas inúmeras vítimas. Até que Deus seja tudo em todas e todos e as Igrejas cristãs deixem de ser mais necessárias.

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