Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

26 Março 2001

Não era para comentar o acidente de viação que anteontem à noite vitimou 14 pessoas em Santa Comba Dão e deixou feridas muitas mais, quando o autocarro da Câmara Municipal de Viseu, que as transportava, regressava duma viagem-peregrinação ao santuário de Fátima. Não era para comentar o acidente, porque, apesar do dramático que ele tem, é isso mesmo, um acidente. E dos acidentes, de todos os acidentes, o que importa é ocuparmo-nos deles apenas o indispensável, para rapidamente partirmos para outra. Sob pena de transformarmos os acidentes num estado habitual e, então, nunca mais nos vemos livres deles. Passamos a viver como acidentados. Quando o nosso estado habitual de vida deve ser longe dos acidentes. Numa atitude de permanente vigilância e de prevenção, para que os possíveis acidentes não nos encontrem desprevenidos e, assim, nem cheguem sequer a ter oportunidade de acontecer. Também numa atitude de combate, nomeadamente, contra as causas que poderão vir a provocar os acidentes. Por sinal, duas posturas, hoje, muito pouco cultivadas, a começar pelas pessoas que todos os dias circulamos nas estradas portuguesas e do mundo – um verdadeiro campo de batalha civil que ninguém parece encarar como crime, quando ele começa a ter foros de autêntico genocídio, tamanho é o número de seres humanos que, cada ano, perdem a vida nas estradas, em todo o mundo – e a acabar naqueles que estão constituídos em autoridade, tanto local, como municipal, nacional, continental e mundial.
Ora, como, hoje, quase ninguém assume, no dia a dia, aquelas duas posturas, acabamos por viver, tanto no nosso país, como no resto do mundo, quase em estado de acidente, em lugar de vivermos em estado de saúde e de segurança, como será timbre de seres humanos verdadeiramente responsáveis e solidários.
Entretanto, os funerais das 14 vítimas do acidente de anteontem à noite, realizaram-se hoje. Precisamente, durante eles, ocorreu um pormenor que me fez mudar de ideias e, por isso, aqui estou a puxar do assunto, para o comentar. Embora se trate de um simples pormenor, é, contudo, suficientemente substantivo, para que eu decida debruçar-me sobre o acidente em causa, quando já havia decidido não o fazer.
Aliás, no sentir-dizer de muitas pessoas – não me incluo nesse número - este acidente de Santa Comba Dão está longe de ser um simples acidente, igual a tantos outros, com maior ou menor número de vítimas. E isto, pelo simples facto de que, neste acidente de Santa Comba Dão, quantas e quantos o sofreram, regressavam duma viagem-peregrinação a Fátima, onde é suposto haver uma deusa ou senhora toda poderosa que até faz milagres. Uma deusa ou senhora que as pessoas têm por todo poderosa e, por isso, lá se dirigem na esperança de que ela atenda os seus pedidos e satisfaça os seus desejos, pedidos e desejos que os políticos profissionais e os governantes, com todas as suas eleitoralistas promessas, não há maneira de alguma vez atenderem e satisfazerem.
Ora – argumentam as pessoas que assim sentem-dizem - se a deusa ou senhora de Fátima faz milagres, por que não fez mais um, anteontem à noite, concretamente, por que não impediu que aquele autocarro que regressava do santuário onde ela é cultuada/idolatrada, se despistasse, saísse da estrada e caísse daquela altura de 14 metros?
Este despropositado sentir-dizer de muitas pessoas, que eu, pessoalmente, não subscrevo, ganhou, contudo, algum sentido, hoje, à noite, quando, para surpresa minha e, certamente, para surpresa de todas essas pessoas que assim se pronuncia(ra)m, pude/pudemos ver nos telejornais o bispo de Leiria-Fátima, em pessoa, a integrar o funeral das vítimas mortais e a aproveitar a presença dos "media", para deixar uma palavra de conforto aos respectivos familiares, bem como aos feridos no acidente.
É este pormenor da presença do bispo de Leiria-Fátima nos funerais das vítimas, oriundas, todas elas, duma zona do país que não faz parte da sua diocese territorial, que me impele a reflectir sobre ele, sobretudo, para tentar desvendar o que está por trás de Fátima e da sua deusa ou senhora, que tanto atrai as pessoas para lá, mesmo depois de já terem percebido que essa deusa ou senhora não passa de um ídolo que não come nem bebe, não chora, nem sofre, é incapaz de se condoer diante das suas lágrimas de aflição e de desespero. Apenas tem goelas-cofre para receber todas as ofertas que as pessoas em aflição lá introduzirem, bem como os seus anéis e os seus cordões em ouro.
Dinheiro e ouro, sabe ela receber e tem goelas e entranhas tecnicamente preparadas para que nada se perca e tudo vá, direitinho, cair no tesouro do santuário. Dinheiro e ouro que a deusa ou senhora de Fátima, evidentemente, nunca vê nem toca, pela simples razão de que ela, como todos os ídolos, tem olhos mas não vê, tem mãos mas não as usa, tem ouvidos mas não ouve, tem boca mas não fala, tem pernas mas não anda. Quem vê, fala, ouve, anda e tudo recebe sem perder um centavo, não é ela, mas os seus sacerdotes, dos quais o bispo de Leiria-Fátima é o sumo sacerdote, pelo menos, no que a Portugal diz respeito (sabemos que, acima dele, está outro sumo, ainda mais sumo, que dá pelo nome de sumo pontífice ou papa, e de chefe de estado do Vaticano, e que não só não denuncia o rendoso negócio em curso, como até o abençoa, beatifica e canoniza!).
A presença do bispo D. Serafim Ferreira e Silva nos funerais das vítimas dá que pensar. Pelo menos, a mim. Se as vítimas fossem da sua diocese, vá que não vá. Mas não são. Mesmo assim, ele fez questão de aparecer. E sabia que a sua presença nunca poderia passar despercebida – certamente, nem ele queria que passasse! – uma vez que não é todos os dias que um bispo aparece a integrar um funeral de vítimas de acidentes na estrada.
Reconheçamos, também, em abono da verdade, que se os bispos fizessem questão de se integrar em funerais de vítimas de acidentes na estrada, quase não poderiam fazer mais nada, tantos eles são, infelizmente, quer no nosso país, quer no resto da Europa e do mundo.
Pois bem, nesta presença do bispo de Leiria-Fátima, eu vejo a presença de alguém que também terá ficado incomodado não só com o acidente em si e com o elevado número de vítimas mortais, mas sim e sobretudo com as circunstâncias especiais que os "media" de imediato lhe colaram, ao informar, que se tratava de um autocarro que regressava duma viagem-peregrinação a Fátima.
Digamos que, também no entender do bispo de Leiria-Fátima, a deusa ou senhora de Fátima, de que ele é o sacerdote-mor no respectivo recinto/santuário, não esteve suficientemente à altura das circunstâncias e deitou tudo a perder nesta tragédia.
De tal modo que ele, como seu sacerdote-mor, parece ter sentido necessidade de vir, pessoalmente, oferecer uma explicação, dar algum sentido, justificar o que aos olhos de muita gente parece injustificável, sem sentido e sem explicação.
A sua simples presença nos funerais parece querer atenuar o choque e o escândalo causados pela cruel "distracção" da deusa ou senhora de Fátima. Porque se ela tem fama de operar milagres, de operar coisas impossíveis aos simples humanos, mesmo aos políticos e aos poderosos do mundo, entre os quais se contam os bispos católicos portugueses que, habitualmente, tão bem se entendem todos entre si, como é que ela foi capaz de se descuidar e de deixar acontecer toda esta desgraça? Não sabe ela que, hoje, os "media" estão atentos e logo correm a transmitir em directo tudo o que se passa, sobretudo, o que tenha foros de escândalo e cheiro a cadáver? Não devia ela, por isso, estar bastante mais atenta e preocupada com a sua própria imagem?
(A propósito do bom entendimento que os poderosos do mundo e os bispos costumam ter entre si, não resisto a contar o que por estes dias se passou nesta freguesia e vila S. Pedro da Cova. No decorrer da inauguração dum espaço lúdico para crianças, o presidente do Município de Gondomar, Major Valentim Loureiro, fez questão de dizer alto e bom som, que é grande amigo pessoal do Bispo do Porto, D. Armindo Lopes Coelho – o nome completo foi ele quem o disse, certamente, para denotar toda a proximidade e cumplicidade que haverá entre ambos. E logo adiantou, como prova, dois casos concretos: "O Bispo D. Armindo já casou um dos meus filhos e baptizou um dos meus netos"! Mais. Tudo isto foi dito pelo poderoso Major Valentim, na presença do pároco de S. Pedro da Cova que, na ocasião, estava a seu lado, de pedra e cal, não só fisicamente, mas também ideologicamente, pois fartou-se de elogiar o trabalho do autarca laranja. É sabido, igualmente, que, durante o ano, o Padre Mendes – é este o nome do pároco - faz questão de não perder nenhuma inauguração na freguesia, que meta o poderoso Major Valentim. Em todas ele participa com o verbo mais encomiástico, ainda que totalmente aprofético, a favor do Major laranja, invariavelmente sobrevestido com a fantasmagórica batina preta e a museológica estola romana ao pescoço, e munido do agressivo hissope, mai-la bolorenta água benta!...)
Nem o discreto sorriso amarelo do Bispo D. Serafim, para as câmaras de televisão, que dele se aproximaram por uma explicação acerca da sua inusitada presença no funeral, conseguiu disfarçar todo o incómodo e o caricato da situação. Manifestamente, a deusa ou senhora de Fátima, de que ele é o sacerdote-mor, saiu-se mal, muito mal, neste desastre. Ele tinha consciência disso e tudo tentou fazer para atenuar o escândalo. Mas a verdade é que não terá conseguido grande coisa, pelo menos, aos olhos mais críticos da nossa sociedade.
Hoje, felizmente, já são muitas as pessoas em Portugal e no mundo, cujos olhos se tornaram críticos em relação à deusa ou senhora de Fátima. E, agora, depois deste desastre, mais serão com certeza. Se bem que continuarão a ser também muitas as pessoas que permanecerão fiéis àquela mítica deusa ou senhora, faça ela o que fizer, cometa os crimes que cometer, devore os pobres que devorar, humilhe e ofenda as devotas e os devotos que humilhar e ofender.
As carências de toda a ordem e os medos que as populações e os povos transportam no mais fundo das suas consciências e, sobretudo, dos seus inconscientes, são tantos e tais, que argumento algum, por melhor elaborado e fundamentado que seja, conseguirá afastá-las de Fátima, da sua deusa ou senhora, ou de outros santuários semelhantes. Para mal delas e deles. Para desgraça delas e deles.
É que, enquanto os seres humanos não nos libertarmos dos medos e não crescermos o bastante para enfrentarmos as carências de toda a ordem que nos esmagam e diminuem, jamais seremos seres humanos com dignidade, seres humanos plenamente humanos.
Neste aspecto, é fundamental uma boa dose de saudável ateísmo para se chegar a ser verdadeiramente humano. Neste aspecto todo o ateísmo que recusa todo o tipo de idolatria é sempre bem-vindo, tanto para a Humanidade, como para a Fé cristã jesuânica. Aliás, sem ele, jamais poderemos abrir-nos à Fé cristã jesuânica. Porque não chegamos a sair da Religião, essa doença infantil da Humanidade.
Ora, enquanto não sairmos da Religião, também não saímos dos medos. E quem não sai dos medos, também não se mete nos martiriais e duélicos combates a travar – a política, como arte de transformar e recriar o ser humano e a sociedade, pode atingir alturas e profundidades destas - para que a vida seja abundante em nós e à nossa volta. E seja vida de qualidade.
É preciso que se diga que, quando as Igrejas cristãs acontecem na História, não são para promover e fazer a Religião. Isso é uma confusão de todo o tamanho, em que muita gente, também das Igrejas cristãs, tem caído e em que se mantém. Ou porque tem privilégios a conservar. Ou porque está interessada no obscurantismo das pessoas e dos povos.
Quando as Igrejas cristãs acontecem na História, são para testemunhar Jesus de Nazaré, o Crucificado/Ressuscitado, e Evangelizar os pobres, do mesmo jeito e com a mesma força que ele o fez, por volta do ano 33 da nossa Era e por causa do que foi assassinado!
É claro que a deusa ou senhora de Fátima não está minimamente interessada nesta missão. E, por isso, tudo faz – na verdade, ela não faz nada, quem tudo faz são os seus sacerdotes, a começar pelo sacerdote-mor que, neste momento, é o bispo D. Serafim Ferreira e Silva – para que as pessoas a confundam com Maria Mãe de Jesus e confundam o culto idolátrico que lhe prestam, como um culto a Deus.
Nem sequer é de estranhar que assim seja. Sempre as deusas ou senhoras, os deuses ou senhores, procederam assim, ao longo da História. E Jesus de Nazaré foi o ser humano que, de forma paradigmática e definitiva, em momento algum da sua missão, se deixou ir na conversa delas e deles. Identificou esses deuses ou senhores, essas deusas ou senhoras, com os ídolos. E combateu-os ferozmente. Em nome da dignidade humana. Em nome do bom senso. Em nome da dignidade de Deus que ele conheceu como Espírito criador e libertador, mais íntimo a cada uma de nós/a cada um de nós, do que nós próprias/nós próprios. Também em nome da decência.
Para que, em lugar de crescerem os deuses e as deusas e de se multiplicarem os seus ricos santuários e basílicas, cresçam os seres humanos, tanto mulheres como homens e se multipliquem as casas com o indispensável conforto para todos eles poderem habitar com dignidade e em paz. E cresçam, como ele próprio cresceu, em idade, em estatura, em sabedoria e em graça. Até alcançarem a plenitude da liberdade e da responsabilidade, na comunhão com todos os demais seres, humanos e não-humanos, a única maneira de alguém ser verdadeiramente humano.

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