Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

22 Março 2001

Já ontem o PÚBLICO dizia qualquer coisa, breve. Mas, na edição de hoje, volta à carga, com novos pormenores e até com chamada à primeira página. O título e o curto texto que lhe serve de suporte, na primeira página, dizem tudo. Aqui transcrevo um e outro, sem mais, para, de seguida, convidar as pessoas a um inadiável debate sobre o assunto. Um debate que não deverá ficar confinado às pessoas católicas, mas envolver toda a gente. Porque do que se trata, em última instância, é da existência e da manutenção, na Igreja católica ocidental, duma lei de celibato obrigatório, que tem tudo de lei lesa-Humanidade. Como tal, toda a Humanidade deve debruçar-se sobre ela, debatê-la, combatê-la e exigir a sua abolição, pura e simples. E, se a Cúria Romana persistir em fazer orelhas moucas sobre o assunto, então que seja pronunciada e julgada no Tribunal Internacional que julga Crimes contra a Humanidade.
Eis o título: "Vaticano reconhece que padres abusaram sexualmente de freiras". E o curto texto, que lhe serve de suporte: "Em pelo menos 23 países do mundo, há relatos de freiras que foram abusadas sexualmente por padres. A denúncia foi feita pela revista católica americana «National Catholic Reporter». O Vaticano confirmou."
Li a notícia e logo me recordei de um livro que, há poucos anos, foi motivo de escândalo, em Espanha e que, não muito tempo depois, foi traduzido e editado também em Portugal, com o título, "A vida sexual do clero".
É o que se pode dizer, com toda a propriedade, um livro desgraçado. E triste. Que nos deixa deprimidos, sobretudo, com os casos reais que conta. Deixa-nos também indignados. Não, evidentemente, contra o autor, o espanhol Pepe Rodríguez, reconhecido investigador da realidade social no país vizinho, que assina, aqui, um trabalho altamente meritório, mas sim contra a lei eclesiástica do celibato obrigatório, que tem levado grande número de padres católicos a viver uma vida atribulada e desgraçada, como se fossem homens sacrílegos e blasfemos, quando o que é sacrílego e blasfemo, em tudo isto, é a lei eclesiástica, enquanto tal. O livro deveria ser lido por todos os padres e bispos, não apenas em privado, mas nas assembleias dominicais a que eles presidem. Para que toda a Igreja tome consciência da realidade, deixe de viver com a cabeça enterrada na areia, se liberte de vez desta iníqua lei e do moralismo sexual que lhe está subjacente, e se abra a um saudável debate sobre a sexualidade humana, em ordem a descobrirmos, nesta área, comportamentos radicalmente libertadores que nos humanizem a todas e todos.
Mas a notícia do PÚBLICO fez-me recordar, igualmente, de que, na altura em que apareceu o livro de Pepe Rodríguez, e a propósito da inumana realidade que as suas 351 páginas tão dolorosamente retratam, escrevi uma reflexão teológica, para o Jornal FRATERNIZAR, que dirijo.
A reflexão surpreendeu, positivamente, muita gente, clero católico, incluído. Porque apontou todas as baterias contra a Lei eclesiástica do celibato obrigatório, quando muitos e muitas esperariam que eu desancasse no clero que, porventura, não cumpre aquela eclesiástica disciplina.
Agora, com esta notícia do PÚBLICO, o problema volta a ganhar alguma actualidade, embora os tempos que, hoje, vivemos já não estejam para grandes debates sobre esta problemática.
Aliás, com o clero católico em vias de extinção, pode dizer-se que é tudo uma questão de tempo. Quando já não houver mais clero, também não haverá a quem impor a lei eclesiástica do celibato obrigatório.
Mesmo assim, creio que ainda se justifica o debate generalizado sobre a lei eclesiástica do celibato, para ver se ainda vamos a tempo de ajudar a libertar dela todos os padres que a reconhecem e se lhe submetem e, por isso, vivem de consciência pesada e atormentados, sempre que, duma maneira ou de outra, não a cumprem escrupulosamente.
(Jamais conseguirei esquecer a impressão que me causou aquela confissão que, um dia, era eu padre de poucos anos, um certo pároco me fez, na sua residência. Estava a aproximar-se a hora dele ir presidir à celebração da missa e não foi capaz de avançar, sem primeiro se confessar... a mim, que era o único que ele, naquele momento, tinha ali à mão. Recordo-me bem que, da minha parte, fiz tudo para me esquivar, até pela enorme diferença de idades que havia entre nós. Mas ele insistiu. E logo se confirmou o que eu mais temia: o meu colega, padre já com muitos anos de dedicado e edificante ministério pastoral, ali estava ajoelhado a meus pés, para que eu o absolvesse duma falta sexual, que ele tinha como pecado mortal, impeditiva, por isso, de celebrar a missa, marcada para daí a minutos. Fiquei de todo. Não, evidentemente, pela acção em si, mas pela postura do meu colega. E, já então, disse-lhe a Boa Notícia de Deus, concretamente, que não continuasse mais a ver as coisas como as havia visto até então, porque não havia mal algum na acção que ele havia realizado. O que estava mal, e era pecado mortal, era haver uma lei eclesiástica que classificava de pecado mortal essa acção que ele realizara e na qual, pelos vistos, era até muito reincidente. Ele olhou-me, entre o incrédulo e o agradavelmente surpreendido. Levantou-se e caiu-me nos braços, numa exuberante manifestação alegria, com lágrimas e tudo, e que só podia ser aquele tipo de alegria que é fruto do Espírito Santo).
Entretanto, e como contribuição para o debate que proponho, fui à procura da referida reflexão que então escrevi. Reli-a, e logo concluí que ela mantém toda a sua actualidade. Por isso, aqui a transcrevo, tal como ela substancialmente saiu no Jornal FRATERNIZAR, n.º 90, Abril 1996, apenas com uma ou outra pequena adaptação, para a tornar ainda mais acutilante. A reflexão tem por antetítulo, "Os padres, as mulheres e a lei do celibato". E como título, "Libertar-se do moralismo sexual". Leiam e arregacem as mangas para o debate mais do que necessário e urgente. Eis:
Os padres e as mulheres. São muitas as histórias, mais ou menos picantes, que se contam. Inventadas ou ampliadas, umas; autênticas, outras. Defendem muitos – sem dúvida, a esmagadora maioria das pessoas, católicas e católicos incluídos – que todos os padres deveriam casar, como os outros homens. Defendem outros, em muito menor número, que não senhor, os padres devem manter-se sem casar, porque assim, sem mulher, é que estão – imagine-se! – em condições de tocar no corpo de Cristo!
Entre uma posição e outra, está a lei eclesiástica do celibato que proíbe o casamento dos padres. Mas não só. Está, sobretudo, uma certa concepção moralista do sexo e da relação homem-mulher, veiculada, ao longo dos séculos, por certas catequeses eclesiásticas anti-cristãs. Uma concepção que faz com que a cabeça de muita gente continue, ainda hoje, cheia de pornografia, e com comportamentos sexuais quotidianos próprios de machos e de fêmeas, em vez de comportamentos sexuais progressivamente humanos.
Porém, se é verdade que, nestes últimos anos, a lei eclesiástica do celibato já deixou, felizmente, de ser respeitada por dezenas e dezenas de milhar de padres que, em todo o mundo, tiveram a audácia profética de avançar para o casamento canónico, ou simplesmente civil, o mesmo já não se pode dizer da concepção moralista do sexo e da relação homem-mulher.
Contra esta concepção, de consequências muito mais perniciosas e perversas do que a lei eclesiástica do celibato, quase nada tem sido feito, mesmo por parte da chamada Teologia da Libertação. Parece assunto tabu, sobre o qual não se escreve, quando, afinal, urge abrir caminhos, neste campo, a novas práticas, muito mais humanas e também muito mais conformes ao Evangelho libertador de Jesus.
Embora tenha consciência dos riscos, decido abrir o debate sobre esta questão. Porque entendo que, também na sexualidade humana, o Evangelho de Jesus tem uma palavra a dizer. E uma palavra decisiva. Uma palavra que visa derrubar a actual Ordem Patriarcal dominante no mundo, e inspirar o aparecimento duma outra, bem à medida do ser humano integral, mulher e homem indissoluvelmente unidos, em radical igualdade.
De resto, se a lei eclesiástica do celibato é moralmente iníqua e, como tal, não deve ser acatada nem obedecida por nenhum padre católico (o celibato livre pelo Reino de Deus é outra coisa bem distinta!), muito mais a concepção moralista do sexo e da relação homem-mulher precisa de ser evangelizada, para que os seres humanos, mulheres e homens em conjunto, sejamos progressivamente mais humanos e fraternos/sororais, mais solidários e felizes, numa palavra, mais libertos, mais festivos e também mais criativos.
Durante séculos e séculos, as catequeses eclesiásticas andaram a ensinar – contra o melhor da revelação bíblica do Primeiro Testamento e, sobretudo, contra o Evangelho do Deus de Jesus – que o sexo era pecado. Ter nascido com sexo, parecia sinónimo de desgraça e o cabo dos trabalhos. Era como se Deus nos tivesse criado com sexo, só para, depois, nos atormentar com ele.
Ainda hoje, não se pode dizer que seja já frequente, por exemplo, ouvir os padres proclamar, nas homilias de Domingo, a Boa Notícia de Deus de que o sexo é graça e fonte de alegria e ocasião de festa entre as pessoas. Por norma, nas intervenções pastorais da Igreja, ou não se fala nunca do sexo, e fazemos todas e todos de conta de que ele não existe, ou fala-se, mas para dizer cobras e lagartos contra o que os clérigos celibatários entendem como aberrações e desvios ao que eles têm por uma boa conduta sexual.
Nem sequer nas celebrações dos casamentos, quando as igrejas quase se enchem de gente nova e menos nova, para acompanhar os noivos, pois nem aí o discurso eclesial dos padres tem a audácia de falar do sexo como graça e fonte de saudável prazer humano e de encontro entre pessoas.
O que continua a ser frequente, mesmo nessas alturas, são os discursos moralistas, que mais não fazem do que canonizar a Ordem Patriarcal dominante, em que o marido continua a ser olhado naturalmente como dono da mulher, uma espécie de patrão ou rei que dita as regras do jogo familiar e a quem ela, para bem da família, deve sempre submeter-se. Mesmo que ele, vítima também dessa Ordem Patriarcal dominante, venha a revelar-se agressivo e perigosamente violento, uma espécie de tirânico deus doméstico, que faz gala da sua força física e procede como quem tem o rei na barriga.
Quem ouve a generalidade das pregações dos padres, por ocasião das celebrações do Matrimónio, a conclusão a que chega é que a mulher deve ser sempre submissa ao seu marido e manter-se sexualmente fiel a ele. E há, até, quem, ao ensinar esta perversa moral, não tenha pejo em invocar, a seu favor, a autoridade de S. Paulo, esquecido, certamente, de que o grande Apóstolo dos não-judeus é o autor do mais radical grito de liberdade, quando escreve em Gálatas 5, 1, "Foi para a liberdade que Cristo nos libertou!"
Pergunto: E por que é que as coisas, apesar de perversas, continuam a ser apresentadas assim? Porque – repete até à saciedade a hierarquia eclesiástica – o casamento feito na Igreja é indissolúvel. Mesmo quando, na prática, se apresenta como o contrário do que o Sacramento do Matrimónio, como tal, revela, ou seja, mesmo quando o casamento, vivido no dia a dia, mais não é do que a negação prática do Sacramento celebrado. Mesmo aí, insiste a autoridade eclesiástica, a mulher deve aguentar tudo e sofrer tudo, pois assim se santifica!...
Se, porém, de todo em todo, a mulher não puder suportar mais a situação, começa, finalmente, a tolerar-se na Igreja católica, que ela se separe do marido, mas de modo algum poderá, seja qual for a sua idade, voltar a relacionar-se sexualmente com outro homem, ou mesmo casar civilmente com outro homem! Se o fizer, e de forma pública, incorre, no dizer da mesma autoridade eclesiástica celibatária, na situação de mulher em estado de pecado mortal, impedida, por isso, de receber os sacramentos da Igreja e de exercer aí qualquer ministério laical, por exemplo, integrar o grupo coral litúrgico ou dar catequese a crianças.
Digam-me cá: Há lá perversão maior do Evangelho libertador de Jesus, do que uma doutrina eclesiástica assim?
É manifesto, também, que, nestes últimos anos, nenhum padre e nenhum bispo chegaram a escandalizar saudavelmente os membros das assembleias litúrgicas a que presidem, por ousarem defender, como mais humana e, por isso, mais evangélica, a relação homem-mulher que assente na total gratuidade dos corpos, em vez de na propriedade dos corpos, como continua a ser tradicional e dominante ainda hoje, e que o próprio casamento canónico consagra, ao considerar sacramento o contracto matrimonial entre o homem e a mulher.
Quando digo, gratuidade dos corpos, entendo uma relação em que homens e mulheres, com casamento ou sem ele, e no pleno e legítimo uso da sua liberdade, dão-se, alegre e responsavelmente, uns aos outros, em vez de se possuírem violentamente uns aos outros. Entendo uma relação em que homens e mulheres procuram nada dever uns aos outros, a não ser o amor recíproco e, por isso, são capazes de abrir-se a um novo tipo de fidelidade uns aos outros que vai muito para além da mera fidelidade sexual-genital e se concretiza num projecto maior de transformação da sociedade e do mundo, no qual elas e eles se envolvem, juntamente com outras companheiras e outros companheiros, até ao extremo absoluto da perda da própria vida.
No entanto, terá sido nesta direcção que apontou Jesus, quando, publicamente, se pronunciou sobre a relação homem-mulher, todas as vezes que o assunto se lhe proporcionou. A fazer fé nos Evangelhos, terá até escandalizado, em várias ocasiões, os chefes religiosos da sociedade do seu tempo, interessados numa concepção moralista e opressora da relação homem-mulher, da qual tiravam dividendos pessoais e corporativos de todo o tipo.
Numa das vezes, os próprios discípulos-homens, possuídos ainda pela demoníaca mentalidade patriarcal que fazia deles donos e patrões das mulheres, reduzidas, assim, à condição de objecto, de coisa, ao mesmo nível dos bois e dos asnos domésticos (cf. Êxodo 20, 17), reagiram, também eles, contra Jesus e foram ao ponto de concluir com azedume e muito cinismo, "Se é assim a condição do homem perante a mulher, o melhor é não casar!" (Mateus 19, 10).
Mas o mais curioso é que Jesus não emendou a mão, para dizer que não era bem assim como eles haviam compreendido. Pelo contrário, radicalizou ainda mais a sua posição libertadora.
Na verdade, foi nessa ocasião e nesse contexto, que Jesus revelou esta coisa espantosa, até hoje nunca suficientemente compreendida pelas hierarquias eclesiásticas: "Há eunucos que nasceram assim do seio materno; há eunucos que se tornaram eunucos pela interferência dos homens; e há aqueles que se fizeram eunucos a si mesmos, por amor do Reino do Céu. Quem puder compreender, que compreenda" (Mateus 19, 12).
Esta última afirmação – há eunucos que a si mesmo se fizeram eunucos por amor do Reino dos Céus - ao contrário da perversa interpretação que dela têm feito, através dos séculos, as diversas hierarquias eclesiásticas, não fala de pessoas que a si mesmas sexualmente se castram, nem sequer mentalmente, por amor do Reino dos Céus, como, se alguma vez, o Reino dos Céus ou Nova Criação, tivesse que ver com castração e com auto-repressão.
Pelo contrário, é uma afirmação que aponta para um tipo novo de mulheres e de homens, menos macho e fêmea, e mais humanos, as quais/os quais, como o próprio Jesus de Nazaré, se deixam conduzir pelo Espírito criador e libertador de Deus e vivem, dentro da História, no ritmo da liberdade, mais do que no da servidão, no ritmo da graça, mais do que no da lei, no ritmo da criatividade, mais do que no do funcionário, no ritmo da entrega da vida, mais do que no do dever, no ritmo da ternura partilhada, mais do que no casamento aburguesado e egoísta, no ritmo da recíproca entrega, mais do que no da mútua posse.
É para este horizonte maior e incomum, que aponta o celibato por causa do Reino dos Céus, o mesmo é dizer, por causa da Terra como Deus a quer, uma Terra que venha a ser progressivamente liberta para a liberdade, habitada e governada por uma humanidade toda ela estruturada por uma na fraternidade/sororidade, sem deuses nem chefes, sem hierarquias de nenhum tipo, muito menos hierarquias eclesiásticas; uma terra onde seja cada vez menos possível a produção de empobrecidos e de excluídos em massa, por aí haver cada vez menos quem esteja disposto a assumir-se como explorador dos demais e solitário egoísta.
Por isso, no pensamento de Jesus, nunca esteve, nunca pode ter estado, uma lei do celibato obrigatório, como aquela que, séculos mais tarde, certos responsáveis maiores da sua Igreja, pretensamente a coberto das suas palavras, vieram a produzir e que tem a dimensão de verdadeira aberração e de verdadeira monstruosidade. O que temos de dizer é exactamente o contrário. A actual lei eclesiástica do celibato obrigatório insere-se naquela denúncia que Jesus faz, ao dizer, "Há eunucos que se tornaram eunucos por interferência dos homens". No caso, por interferência dos homens da hierarquia católica, nomeadamente, da Cúria Romana.
Não exagero então, se disser, a toda esta luz, que a lei eclesiástica do celibato, imposta pela Igreja católica do Ocidente, a todos os candidatos ao ministério presbiteral e ao ministério episcopal, e para cúmulo, imposta em nome do Evangelho de Jesus, é pecado institucionalizado. De modo que, quem permanecer no celibato, por obediência a ela, e não por convicção pessoal, também comete pecado!
Custa a compreender, hoje, como é que, durante todos estes séculos, tantos homens, muitos deles, duma generosidade admirável, aceitaram, sem protesto e, até, tentaram justificar intelectualmente esta lei. E não só. Igualmente, submeteram-se a ela, numa visão sacrificial que tem mais a ver com o teor de algumas páginas quase sacrílegas do Livro bíblico Levítico, escritas pela casta sacerdotal judaica que vivia à sombra e à custa do Templo, do que com o Espírito da Boa Notícia libertadora que foi e é, entre nós e connosco, Jesus de Nazaré, o Cristo.
Na verdade, foi este Jesus que, com a sua morte/ressurreição - e, como bem gritou o autor da Carta aos Hebreus – acabou de vez com a Antiga Lei, a Antiga Ordem mundial, assente na violência da Lei de Moisés, e inaugurou um Tempo novo e uma Nova Ordem mundial ("Nova Aliança"), fundada no "Amai-vos uns aos outros/umas às outras, como eu vos amei!". Igualmente, acabou com o sacerdócio dos sacrifícios rituais nos templos, realizado por homens condenados a viver à parte dos demais, e inaugurou o único sacerdócio que vale a pena ser vivido, porque não aliena nem escraviza, pelo contrário, liberta e salva, que é o da entrega da própria vida pela vida do mundo. Aliás, um tipo novo de sacerdócio, exemplarmente vivido pelo próprio Jesus e por muitos dos seus primeiros discípulos e discípulas.
A esta luz, não hesito em afirmar que todos aqueles padres que, ao longo dos séculos, foram condenados pela hierarquia eclesiástica, por terem, na sua vida pessoal privada, desrespeitado, até com algum escândalo, a lei do celibato obrigatório, e que, por via disso, tiveram de aguentar com o desprezo de bispos e de outros colegas, tidos como muito cumpridores neste capítulo, se calhar foram, sem disso terem consciência, homens com algo de profético.
Pode parecer sacrílego eu dizer isto, mas, se calhar, o que, a este respeito a hierarquia eclesiástica classificou e classifica de pecado, dentro dos critérios moralistas, por que gosta de reger-se, será algo de profecia em acção, saudável desobediência, realizada em nome da Natureza humana violentada e reprimida, será atitude subversiva, relativamente a uma lei que nunca por nunca, deveria ter existido no mundo, muito menos, na Igreja que se reclama do Evangelho de Jesus.
Curiosamente, as pessoas não clericalizadas da Igreja, nunca foram entusiastas defensoras da lei do celibato obrigatório. No seu sentir eclesial – o chamado sensus fidelium - esta lei sempre foi tida como demasiado eclesiástica e não eclesial, menos ainda, cristã e evangélica. E, por isso, é uma lei que nunca contou com a sua pública aprovação.
Tanto assim que os padres que publicamente desrespeitaram a lei do celibato e geraram filhas e filhos, sempre contaram com a tolerância dos respectivos paroquianos e paroquianas, mais, muito mais, do que os padres que foram farisaicamente exemplares neste campo, mas, em contrapartida, sempre se mostraram muito afeiçoados ao dinheiro.
Quase como se o povo quisesse dizer: É melhor padre, aquele que não respeita a lei eclesiástica do celibato e ama uma mulher, do que aquele que respeita escrupulosamente a lei do celibato, mas, em contrapartida, ama o dinheiro. Este, que ama o dinheiro, é um monstro. Ao passo que o outro, é um ser humano e, como tal, é respeitado e acolhido pelo povo.
Ainda hoje, o nosso povo católico vê as coisas assim. Fosse o conjunto das baptizadas e dos baptizados a decidir e, de certeza, a lei do celibato obrigatório para os presbíteros e bispos da Igreja católica ocidental não duraria nem mais uma hora.
Entretanto, é bom não esquecer que, em Igreja, sempre se repetiu, e bem, "Voz do povo, Voz de Deus". É tempo, então, de começarmos a ir por esta Voz. Sob pena de sermos instituição eclesiástica, sistema eclesiástico, mas não sermos Igreja. Por outras palavras, sermos Igreja sem o Espírito de Jesus ressuscitado dentro. O mesmo é dizer, sermos aquele sal que perdeu a força e que nem para esterco serve.
Porém, não basta denunciar e combater a lei eclesiástica do celibato obrigatório. É preciso denunciar e combater igualmente a concepção moralista do sexo e da própria relação homem-mulher que lhe subjaz, e que faz com que a cultura que ainda hoje mais respiramos nesta área, continue a ser acentuadamente moralista e pornográfica, em lugar de ser acentuadamente libertadora e respeitadora do corpo humano.
Porque a verdade é que essa lei, mais do que mil discursos, ajudou, ao longo dos tempos, a criar uma certa imagem de homem e de mulher que acabou por afectar negativamente toda a gente, inclusive, fora do campo eclesial propriamente dito.
É manifesto que, depois de todos estes séculos de império da lei eclesiástica do celibato obrigatório, parece que homem a valer, ou homem santo, homem puro, homem íntegro, homem de Deus, só mesmo os padres e os bispos, e quem com eles mais se parecer. Parece que um homem é tanto mais homem, quanto mais for capaz de viver como se não tivesse sexo, quanto mais for capaz de se auto-castrar sexualmente, pelo menos, ao nível mental, quanto mais conseguir viver longe das mulheres, sem contactos de amizade e de intimidade com mulheres. Sobretudo, sem relações sexuais com mulheres!...
Na prática, isto é desastroso, pois é o mesmo que dizer: as mulheres são o grande perigo para os homens. São tentação. São algo de demoníaco, de que é preciso acautelar-se. Por isso, se queres ser alguém e fazer carreira, foge das mulheres. Se queres ser de Deus, viver na intimidade com Deus, então não vivas na proximidade, menos ainda, na intimidade com mulheres.
Mas não só. Na prática, isto quer dizer também: o sexo é pecado, é coisa feia. Tolera-se a sua prática, mas apenas para o acto de procriar. Depois, o melhor é vivermos todas e todos longe dele (e a verdade é que, ainda hoje, a Igreja tem dificuldade em reconhecer com alegria, que o fim primário do casamento é o amor entre os que o celebram, e não a procriação, como, durante séculos e séculos, ela sempre catequizou e pregou).
Mas não só, de novo. Na prática, isto quer dizer igualmente: O prazer sexual é coisa que não santifica ninguém. É coisa de debochados. Se queres ser santo/santa, sê sexualmente abstémio, ou, pelo menos, sexualmente frígido/frígida. Não te deixes levar por fantasias eróticas, que são obra do demónio!!!
Curiosamente, neste particular, é difícil dizer mais e pior sobre a mulher do que dizem certos provérbios do livro bíblico dos ditos. Provérbios que foram lidos e relidos pelos padres das anteriores gerações e por outros devotos paraclérigos que diariamente iam às suas missas, cada qual sozinho no seu canto, numa intimidade que se pretendia com Deus, mas que mais não seria do que com a sua própria imaginação reprimida, já que Deus, o de Jesus, é Deus-Trindade, é Deus-comunidade-de-três-pessoas, numa intimidade e numa unidade que só a indissolubilidade homem-mulher, numa união de corpos gratuitamente vivida (mesmo fora do casamento, mas nunca fora do amor recíproco e do amor à Humanidade!), consegue revelar e proclamar de forma aproximada e, mesmo assim, infinitamente distante.
É por demais evidente que as coisas têm sido assim na Igreja católica, ao longo de todos estes séculos passados. Com o sexo no centro de tudo, mas infelizmente, olhado como tabu, como pecado, como coisa feia, como coisa proibida, como maldição, como realidade de que sempre haveria que fugir, se quiséssemos ser santos e alguém aos olhos de Deus.
Quando, afinal, o sexo sempre deveria ter sido olhado como graça e como coisa boa, como dom e como manifestação do Espírito de Deus criador que nos quis criadores e criadoras com Ele, mas indiscutivelmente sexuados/sexuadas e, por isso, reciprocamente atraídos, reciprocamente ligados e complementados, com condições de podermos, juntos, sonhar e realizar pequenos-grandes projectos históricos, rumo ao grande Projecto de fraternidade/sororidade humana e cósmica que o mesmo Deus tem para nós e para o próprio Universo. E para cuja realização, quis contar decisivamente connosco, a ponto de, um dia, Ele próprio nos ter feito aparecer na Terra, com a sublime missão de conduzirmos criativamente todo este processo, até à sua plena realização.
Infelizmente, desviaram-nos da rota. E, por isso, somos hoje homens e mulheres mais ou menos neuróticos, em vez de alegres, mais ou menos possessivos, em vez de gratuitos, mais ou menos exploradores, em vez de dom uns para os outros, mais ou menos autoritários, em vez de servidores, mais ou menos solitários, em vez de solidários, mais ou menos egoístas, em vez de comunitários, mais ou menos rivais, em vez de fraternos/sororais, mais ou menos competidores, em vez de cooperantes, mais ou menos individualistas, em vez de complementares, com mais ou menos pornografia na cabeça, em vez de mentalmente puros, mais ou menos ciumentos, em vez de companheiros, mais ou menos oprimidos e opressores, em vez de libertos e libertadores.
Não falta, entretanto, quem nos queira ver prosseguir, cegamente, por esta rota desviada, com o pretexto de que assim, sem vida sexual e sem feminino-masculino em radical igualdade, seremos homens e mulheres de sucesso, poderosos e temidos, ricos e dominadores, donos do mundo e dos nossos concidadãos, uma espécie de tirânicos deuses sem entranhas de misericórdia e sem coração.
Urge resistir à forte sedução desta rota desviada. E abrirmo-nos à única rota que nos pode humanizar e que tem a ver com a coragem e a lucidez de nos assumirmos todos e todas como seres sexuados, alegremente afectivos e fraternos, sem medos infantis das forças que sentimos dentro de nós.
Em vez de nos autoreprimirmos e autocastrarmos, façamo-nos, ao contrário, cada vez mais próximos uns dos outros e das outras, sem discriminação de nenhuma espécie. Cultivemos com inteligência e responsabilidade, a ternura e o carinho, a amizade e o amor. E, sobretudo, inventemos comportamentos humanos que nos façam reciprocamente felizes e nos deixem mais fraternos/sororais e solidários/solidárias.
Finalmente, à luz do Evangelho de Jesus, compreendamos, duma vez por todas, que o sexo, em si mesmo, não é uma tentação para o ser humano, mulher e homem. Pelo contrário, sempre que ele é vivido em clima de reciprocidade e de amor, de gratuidade e de entrega, olhos postos no mundo que nos rodeia e chama a criativas atitudes que o transformem num mundo mais livre e justo, mais fraterno e solidário, o sexo é graça que nos alimenta na caminhada e na militância, ao mesmo tempo que nos humaniza e ajuda a crescer em saúde e bem-estar.
De resto, se repararmos bem no relato evangélico do pleno das tentações de Jesus (o número três quer dizer todas as tentações), em Mateus 4, 1-11 e Lucas 4, 1-13, veremos que nenhuma delas tem a ver com o sexo.
Para Jesus, o que verdadeiramente tenta o ser humano e o desumaniza, o que verdadeiramente o torna impuro, pois o reduz à condição de objecto, de coisa, ou de tirano sem entranhas de misericórdia, não é o sexo, mas sim o Dinheiro, o Poder e também uma certa imagem de Deus, que tem tudo a ver com o Deus dos templos e da religião, um Deus que, ao contrário do que se nos revelou em Jesus de Nazaré, o Cristo, sempre diminui e infantiliza quem se deixa ir por ele.
Por outro lado, não deixa de ser elucidativo e, porventura, até eventualmente chocante, a revelação que, um dia, Jesus fez aos chefes religiosos do seu tempo, que se tinham na conta de muito puros e muito próximos de Deus, mas que gostavam do Dinheiro e, por isso, desprezavam os pobres.
Jesus disse-lhes, sem papas na língua, que até as prostitutas que eles tanto desprezavam e escorraçavam como impuras e indignas, estão, afinal, mais próximas de Deus do que eles, e mais próximas da Terra de fraternidade/sororidade, ou Reino dos Céus, do que eles (cf. Mateus 21, 31).
É uma revolução copernicana que teremos de realizar. Mas que ninguém fique de fora. A começar pelos padres e pelos bispos católicos, tanto os que já casaram e por isso se viram injustamente afastados do exercício público do ministério presbiteral e episcopal, como os que continuam a acatar servilmente a lei eclesiástica do celibato obrigatório, e os que permanecem no celibato, mas por convicção e por vocação.
Abramo-nos ao debate com alegria e sem medo. Porque, como já disse, foi para a liberdade que Cristo nos libertou.
Até aqui, a reflexão teológica que então escrevi. Mas não quero concluir esta minha contribuição para o debate sobre a lei eclesiástica do celibato obrigatório, em ordem à sua imediata abolição, sem sugerir uma achega mais. E não é uma achega qualquer. É uma achega fortemente autorizada, pelo menos, para as cristãs e os cristãos, católicos e não-católicos.
Trata-se, nem mais nem menos, de convidar as pessoas, não-crentes incluídas, a ler, melhor, a saborear, o Poema erótico, "Cântico dos Cânticos", que faz parte da Bíblia, no Primeiro Testamento.
Vejam só como é o seu início: "Beija-me com os teus doces lábios; que as tuas carícias são mais deliciosas que o vinho. Os teus perfumes cheiram tão bem. O som do teu nome é agradável perfume. Por isso as mulheres gostam de ti. Leva-me contigo. Vamos depressa. Leva-me para os teus aposentos, ó meu rei. Vamos alegrar-nos eu e tu, e ser felizes; celebraremos o teu amor mais suave do que o vinho. Com razão toda a gente gosta de ti".
O mais impressionante neste Poema erótico bíblico é que ele canta uma relação não matrimonial, livre, uma relação que vale por si mesma, gratuita, por isso, sem qualquer perspectiva de casamento futuro, protagonizada por duas pessoas que se querem e que responsavelmente se aproximam e se fundem uma na outra, numa comunhão e numa intimidade que, ao acontecer, torna-se sacramento do Deus Trindade, do Deus-comunidade-de-três-pessoas.
Aqui o erótico é graça, não é pecado. O prazer é graça, não é pecado. Por isso este Poema situa-se nos antípodas da Lei eclesiástica do celibato obrigatório. E faz parte da Revelação bíblica de Deus. Ao passo que a Lei eclesiástica do celibato obrigatório é o exemplo acabado da anti-Revelação bíblica de Deus, Revelação bíblica de Deus essa, que atingiu o seu clímax em Jesus de Nazaré, o Cristo, o ser humano com fama de glutão e de beberrão, amigo de publicanos e de mulheres de má fama.
Vão por mim. Corram a abrir e a saborear o Poema erótico "Cântico dos Cânticos" e, animadas e animados por ele, dêem início ao debate contra a lei eclesiástica do celibato obrigatório. Toda a Humanidade ficará a ganhar. Também aquelas mulheres e aqueles homens que, um dia casaram, mas que, nesse dia, surpreendentemente, em lugar de adquirirem a liberdade, perderam-na por completo, ao tornarem-se, ela, propriedade dele, ele, propriedade dela! Um casamento assim só pode ser o anti-Sacramento do Matrimónio.

Bom debate!

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