Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

11 Março 2001

Foi já há três dias, mais propriamente, em 11 deste mês, que o actual Bispo do Porto, Armindo Lopes Coelho, presidiu à missa, nos templos das paróquias de Sardoura e da Raiva, em Castelo de Paiva, pelas vítimas mortais do acidente de Entre-os-Rios (umas sessenta pessoas, e não setenta como inicialmente se pensou e se divulgou). O acto foi super-mediatizado, até porque contava com a presença ao vivo do Presidente da República, Jorge Sampaio, e do Primeiro Ministro, António Guterres.
Por mera coincidência, na véspera, à noite, a pequenina Comunidade cristã de base de Macieira da Lixa, reunia também, mas na casa da Miquinhas e do senhor Pires, um casal de reformados que vive no lugar da Maçorra. Fê-lo com a maior das discrições, quase sem ninguém dar por isso. Tal como, há dois mil anos, pelo menos no dizer teológico dos Evangelhos de Mateus e de Lucas, também quase ninguém deu pelo nascimento de Jesus na cidade de Belém (historicamente, não temos quaisquer certezas sobre como foi o nascimento de Jesus, mas, para todas as comunidades cristãs que, depois da morte/ressurreição de Jesus, passaram a reunir-se em nome dele, por misteriosa convocação do Espírito Santo, o relato teológico dos Evangelhos é bem mais importante do que o relato histórico, e é, até, paradigmático).
Com este encontro, a Comunidade cristã de base de Macieira da Lixa quis partilhar, de viva voz e na voz de cada um dos presentes, mulheres e homens de diferentes idades e em radical igualdade, a vida, as dores e as angústias, também as alegrias e as esperanças, tanto das pessoas ali congregadas, como de toda a Humanidade, especialmente a Humanidade mais empobrecida e oprimida.
Quis, igualmente, criar condições objectivas e subjectivas, para melhor poder ouvir-interpretar, no nosso hoje e aqui e para o nosso hoje e aqui, o Evangelho de Deus, que sempre anda escondido - e, inopinadamente, se nos pode revelar - nos acontecimentos e nos sinais dos tempos. E que – é essa também a minha mais profunda convicção/experiência pessoal - nos foi definitivamente revelado/proclamado, e de modo paradigmático, na pessoa e na vida histórica de Jesus de Nazaré, hoje Ressuscitado, o que, já então, lhe valeu, da parte dos chefes máximos da religião oficial do Templo de Jerusalém e dos respectivos teólogos ou doutores da Lei, a condenação à morte e a morte efectiva na cruz do Calvário.
Tanto numa celebração como noutra - a de Castelo de Paiva, presidida pelo Bispo da Diocese, a da Comunidade cristã de base de Macieira da Lixa, presidida pela companheira-presbítera Laura, - a inominável tragédia da Ponte de Entre-os-Rios acabou por ocupar, na máxima medida, a consciência das pessoas que nelas participaram.
Mas, provavelmente, pouco ou nada mais do que isso terá havido em comum entre uma celebração e outra. Pelo menos, é o que pessoalmente concluo, a partir do que vi nas televisões e do que li nos jornais. E do que pessoalmente vi/ouvi/experimentei, na discreta e superparticipada celebração da Comunidade cristã de base de Macieira da Lixa.
Nesta Comunidade, o encontro-celebração não foi em memória e em sufrágio das vítimas, como nas referidas paróquias de Castelo de Paiva. Foi de misteriosa e feliz comunhão eucarística com toda a Humanidade, também e especialmente, com as mulheres e os homens que pereceram nessa inominável catástrofe, e que, por pura graça de Deus, que é Deus de vivos e não de mortos, estão já, desde o instante em que pereceram, ressuscitados no Ressuscitado Jesus, o Cristo.
Também não foi para ouvir palavras duras e pesadas, como aquelas que, pelos vistos, D. Armindo Lopes Coelho previamente preparou e depois leu/proferiu, em tom severo, como homilia da missa (a Voz Portucalense, semanário oficioso da Diocese, acaba de sair hoje e traz o texto na íntegra), sem que ninguém dos presentes tivesse direito a retorquir e a dissentir do seu pessoalíssimo ponto de vista sobre esta inominável tragédia que enlutou o país, e que as televisões portuguesas, durante dias, numa feroz competição por audiências, não olharam a meios e tudo fizeram para ver se nos condenavam a todas e todos a uma colectiva depressão, tão doentio, perverso, cruel e agressivo foi o obsessivo tratamento mediático que lhe deram!
(Os meus camaradas de profissão que me perdoem, mas a verdade é que, nestes longos e pesados dias pós-tragédia, não houve Código deontológico que se visse, valeu tudo, até invadir a privacidade das famílias desfeitas em dor e lágrimas, colocar-lhes um microfone e uma câmara na frente, sob potentes holofotes, e bombardeá-las com perguntas, cada qual a mais inoportuna, a mais insensata e a mais sádica. Assim não, camaradas. Jornalismo assim, nunca mais, por favor!).
E por quê tantas e tão acentuadas discrepâncias, entre uma celebração e outra?, perguntarão as pessoas menos informadas sobre questões eclesiais e pastorais. Não são ambas celebrações da mesma Igreja católica?
A verdade é que são. Mas a Comunidade cristã de base de Macieira da Lixa reclama-se de um novo modelo de Igreja, praticamente, nos antípodas do modelo piramidal e hierárquico de Igreja, que é aquele que, infelizmente, ainda hoje continua aí em vigor, em todas as paróquias e em todas as dioceses territoriais.
Aliás, foi um modelo de Igreja assim, que esteve em plena acção na celebração presidida pelo Bispo da Diocese do Porto, em Castelo de Paiva. E, no entanto, trata-se de um modelo de Igreja totalmente herético, que teima em perpetuar-se na nossa Igreja católica romana, totalmente à revelia daquilo que o Espírito Santo fez acontecer e apontou no revolucionário Concílio Ecuménico Vaticano II.
Infelizmente, aqueles que se têm por responsáveis maiores na nossa Igreja católica – por sinal, nenhum deles foi escolhido pelas respectivas Igrejas locais e paroquiais, mas, uma vez postos à frente das dioceses e das paróquias, têm, quase sempre, comportamentos mais próprios de patrões duma mega-empresa, do que de bispos e de presbíteros da Igreja de Jesus! – continuam a reconhecer, como único modelo válido de Igreja, o modelo hierárquico e piramidal. E fogem do modelo das comunidades cristãs de base, como, vulgarmente, se diz que o diabo foge da cruz. Fazem-no, certamente, em nome duma tradição de séculos, só que, por se tratar duma tradição tecida de privilégios clericais e eclesiásticos, é uma tradição intrinsecamente perversa. Como tal, não tem, não pode ter, a marca do Espírito Santo.
O encontro da Comunidade cristã de base de Macieira da Lixa também não foi para chorar os mortos e confortar, com vagas e míticas referências ao Além (onde ficará? Os bispos e os padres que tanto falam nele, sabem dizer-nos?!), os vivos, nomeadamente, os familiares dos que pereceram na tragédia, como parece que o Bispo da Diocese, a dada altura da sua homilia, quis fazer. Foi sim para nos deixarmos interiormente interpelar pelo brutal acontecimento e para tentarmos captar o que ele - além de dor, muita dor, de sofrimento, muito sofrimento, e de morte, muita(s) morte(s) - nos traz também de desafio, de graça, de provocação, de chamamento a sermos/vivermos na História duma maneira nova e – por que não dizê-lo? – o que ele nos traz de boa notícia, ou Evangelho.
Ao contrário da celebração presidida pelo Bispo da Diocese, em Castelo de Paiva, o encontro-celebração da comunidade cristã de base de Macieira da Lixa decorreu, como já disse, na casa de um casal que se identifica com muitas das posições da Comunidade, ainda que nem sempre participe a cem por cento nos encontros e na missão de Evangelizar os pobres, que cabe por inteiro à Igreja que se reclama do nome de Jesus, o Cristo.
Não decorreu no templo da paróquia de Macieira da Lixa. O templo existe, por sinal, relativamente perto da casa deste casal amigo da Comunidade, mas esta, embora se reclame e seja da mesma Igreja católica, já não se revê naquele espaço em tudo idêntico aos espaços ditos sagrados dos velhos templos politeístas, cujos cultos proliferavam no Império romano, ao tempo em que Jesus foi crucificado e em que a Igreja, que se reclama do seu nome, se constituiu Acontecimento ou Sacramento de salvação para o resto da Humanidade.
Na verdade, é convicção profunda da Comunidade cristã de base de Macieira da Lixa, e minha, que espaços assim são para fazer desaparecer, quanto antes. Felizes, por isso, desde já, aquelas e aqueles que lá não entram e não participam nos cultos que lá continuam a ter lugar. Porque espaços assim são uma espécie de anti-sacramento, ou seja, são uma materialização simbólica e arquitectónica dum modelo de sociedade organizada em forma de pirâmide, por isso, uma sociedade que está nos antípodas do que há-de ser a comunidade cristã, ou Igreja, que se reúne em nome de Jesus.
A leitura bíblica que a Comunidade cristã de base de Macieira da Lixa escolheu para ser proclamada, no decorrer do encontro-celebração, é um extracto do Evangelho de Lucas (17, 20-37). Deste modo, a Comunidade não fez como o Bispo da Diocese, em Castelo de Paiva, que se sujeitou aos textos que o Missal Romano determina para o 2º Domingo da Quaresma deste ano 2001. E que são textos escolhidos duma vez por todas, independentemente, dos acontecimentos da semana, que afectam, positiva ou negativamente, as pessoas, também as católicas e os católicos.
(É o que, com toda a propriedade, se poderá chamar a ditadura do Missal Romano na Igreja. As leituras bíblicas são, ciclicamente, as mesmas, durante cada período de três anos, tanto nos países do Norte enriquecido e opressor, como nos países do Sul empobrecido e oprimido. Tanto para uma assembleia que está a viver momentos de festa e de intenso contentamento, como para uma assembleia que, como a de Castelo de Paiva, nestes dias, está completamente prostrada pela dor e esmagada pela crueldade duma inominável tragédia que, inopinadamente, se abateu sobre ela).
O extracto do Evangelho de Lucas, escolhido propositadamente para este encontro-celebração, foi lido e proclamado com certa ênfase, para que melhor impressionasse todos os nossos sentidos (é com todos os sentidos que ouvimos, não apenas com os ouvidos!). E, assim, acabou por funcionar para nós, como uma espécie de parteira, à medida que, no desenrolar do encontro, nos deixamos conduzir e guiar pelo mesmo Espírito Santo que inspirou a redacção do Evangelho.
Por outras palavras, a proclamação do Evangelho fez saltar, no mais dentro da nossa consciência pessoal e comunitária – uma operação espiritual desta profundidade só é possível, quando dois ou três estão reunidos em nome de Jesus, ou seja, no ambiente fraterno/sororal duma pequena comunidade de base, não num ajuntamento de centenas de pessoas mudas e quedas, sem nada que ver entre elas, e totalmente subjugadas (pelo menos, simbolicamente) por um presidente todo poderoso que está lá em cima e é o único que está canonicamente autorizado a usar da palavra – aquela faísca que, até então, ainda não se havia produzido em nós e com a qual, a inominável tragédia de Entre-os-Rios, pôde, de repente, ser algo mais do que isso, concretamente, pôde ser portadora de misteriosa força criadora/ressuscitadora, pôde ser portadora de Boa Notícia, e boa notícia tal, que, agora, há-de ser vivida nas nossas vidas, e há-de ser anunciada, comunicada, partilhada, a tempo e fora de tempo, com o resto da Humanidade. Porque, tal como uma luz que se acende no interior duma casa, não é para ficar escondida debaixo dum alqueire, mas sim para ser colocada num candelabro, a fim de alumiar quantas e quantos lá estão, assim a Boa Notícia escutada/acolhida na Comunidade cristã é para ser proclamada a toda a Humanidade.
O extracto do Evangelho que escutamos e que, qual parteira, nos ajudou a ver a inominável tragédia de Entre-os-Rios, com outros olhos - os olhos da graça e não apenas os da pura desgraça - foi este que aqui passo a transcrever, na tradução da Nova Bíblia dos Capuchinhos:
Interrogado pelos fariseus sobre quando chegaria o Reino de Deus, Jesus respondeu-lhes: «O Reino de Deus não vem de maneira ostensiva. Ninguém poderá afirmar: Ei-lo aqui; ou, Ei-lo ali; pois o Reino de Deus está entre vós.» Depois, Jesus disse aos discípulos: «Tempo virá em que desejareis ver um dos dias do Filho do Homem e não o vereis. Vão dizer-vos: Ei-lo ali; ou, Ei-lo aqui. Não queirais ir lá nem os sigais. Porque, como o relâmpago, ao faiscar, brilha de um extremo ao outro do céu, assim será o Filho do Homem no seu dia. Mas, primeiramente, ele tem de sofrer muito e ser rejeitado por esta geração. Como sucedeu nos dias de Noé, assim sucederá também nos dias do Filho do Homem: comiam bebiam, os homens casavam-se e as mulheres eram dadas em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca e veio o dilúvio que os fez perecer a todos. O mesmo sucedeu nos dias de Lot: comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam, construíam; mas, no dia em que Lot saiu de Sodoma, Deus fez cair do céu uma chuva de fogo e de enxofre, que os matou a todos. Assim será no dia em que o Filho do Homem se revelar. Nesse dia, quem estiver no terraço e tiver as suas coisas em casa, não desça para as tirar; e, do mesmo modo, quem estiver no campo não volte atrás. Lembrai-vos da mulher de Lot. Quem procurar salvar a vida, há-de perdê-la; e quem a perder, há-de conservá-la. Digo-vos que, nessa noite, estarão dois numa cama: um será tomado e o outro será deixado. Duas mulheres estarão juntas a moer: uma será tomada e a outra será deixada. Dois homens estarão no campo: um será tomado e o outro será deixado». Tomando a palavra, os discípulos disseram-lhe: «Senhor, onde sucederá isso?» Respondeu-lhes: «Onde estiver o corpo, lá se juntarão também os abutres.»
Tenho de reconhecer que este extracto do Evangelho de Lucas mais parece um relato pensado e escrito para desencadear o terror nos ouvintes. Apresenta-se numa linguagem e num estilo mais ou menos apocalíptico e, até, mítico. Mas, como todo o texto apocalíptico, também este não é tecido para assustar e aterrorizar as pessoas. É sim para lhes revelar a realidade mais real da História humana que, geralmente, passa despercebida aos olhos e permanece escondida, pior ainda, retida, nas malhas da ideologia moralista dominante, em que costumam ser especialistas todas as hierarquias ou poderes sagrados, a começar, evidentemente, pelas hierarquias religiosas e eclesiásticas.
Por outro lado, este extracto é uma pequena parte do Evangelho de Lucas. Como tal, só pode conter/revelar/proclamar a Boa Notícia de Deus para a Humanidade, a começar pela mais empobrecida e oprimida. O que é preciso é dar por ela, captá-la, acolhê-la, mesmo que ela seja boa notícia exigente, provocadora e, por isso, nos desinstale, nos tire da rotina, da alienação, nos erga, nos ponha de pé, de mãos livres e activas, com a cabeça e a consciência a funcionar, de modo a mudarmos o nosso ser/viver para mais humano, bem como mudarmos o rumo aos acontecimentos e, até, a face da terra. É que, como diz e testemunha Jesus de Nazaré, com a sua libertadora prática, tudo é possível àquela/àquele que crê. Até dar ordens a uma montanha que saia de onde está e passe para outro lado, ou, pura e simplesmente, desapareça e se torne uma planície.
Pois bem, com esta chave interpretativa, o extracto do Evangelho de Lucas começou logo a ser-nos familiar. Descontraiu-nos. E nós passamos a experimentá-lo como uma palavra libertadora dos medos, não geradora de medos.
(Aqui, não posso deixar de reconhecer – e com aflição e tristeza o faço - que, muitas vezes, as hierarquias das diversas Igrejas, tanto da católica romana, como das protestantes, apoderam-se do Evangelho para, com ele, aterrorizar ainda mais as pessoas que têm o azar de entrar nos seus templos e, depois, por vergonha ou falso respeito, aguentam até ao fim a pregação sem profecia e sem boa notícia que eles aí produzem, em lugar de se levantarem com determinação do lugar em que estão e saírem para a rua, com toda a dignidade. No caso concreto deste extracto de Lucas - o mesmo sucede com as passagens paralelas nos outros dois Sinópticos, Mateus e Marcos - tenho de reconhecer que se têm dito e escrito enormidades e barbaridades de caixão à cova. Como se Jesus estivesse, aqui, a lançar o pânico entre aquelas e aqueles que o seguem e confiam nele. Ou como se, no sentir/entender de Jesus, o mundo estivesse na iminência de acabar e já andassem no ar os pestilentos cheiros da morte e dos cadáveres insepultos, manjar preferido dos abutres, aos quais o relato faz, até, explícita referência. Tudo mentira e da grossa. Tudo diabólico, ou seja, tudo contrário ao desígnio e ao projecto de Deus, que quer que todas as pessoas vivam e vivam em abundância. E que, por isso, pauta a sua contínua intervenção na História, pela incontornável preocupação de fazer viver as pessoas, e fazê-las viver em abundância).
Fique dito duma vez por todas. Evangelizar os pobres – a missão maior, para não dizer, exclusiva, da Igreja de Jesus, em qualquer das suas concretizações históricas - é sempre, há-de ser sempre, anunciar a Boa notícia de Deus. Portanto, nunca pode ser meter medo às pessoas, aterrorizá-las.
Medo e terror, são coisas que os poderosos sabem fazer e em que costumam ser peritos, até ao extremo. Hiroshima e Nagasaki, Auschwitz e Goulag, não são, nunca foram, criação de Deus. Foram criação e execução dos poderosos (e das suas organizações), esses seres humanos que, uma vez possessos de poder, se tornam loucos e monstros. Ou o poder como tal, não fosse sempre um outro nome para dizer Diabo. E se o nome Diabo é mítico, o Poder, como tal, não tem nada de mítico, é uma realidade tremendamente histórica. Quem diz Diabo, diz Mentira, diz Opressão, diz Exploração, diz Assassínio. E tudo isso fazem os poderosos. E a prova é que as multinacionais que hoje controlam o mundo, não fazem outra coisa! Que o digam os milhares de milhões de vítimas humanas. E o próprio Planeta Terra que está em riscos de se tornar inabitável.
Evangelizar os pobres – e, neles, por eles e com eles, evangelizar todas as pessoas, ricos e poderosos incluídos – é a grande operação do Espírito de Deus, mediatizada na História pelas Igrejas cristãs e não só, e que se destina a libertar as pessoas do medo. Nunca é para lhes incutir medo. Sempre é para as libertar do medo. "Não tenham medo!", está sempre a repetir Jesus aos discípulos homens, que sonhavam tornar-se ricos e poderosos, em lugar de tudo fazerem para serem humanos e fraternos, amigos e companheiros, como, depressa, as discípulas de Jesus se fizeram, logo que perceberam, com Jesus, que o ser humano é tanto mais ser humano, quanto mais servir libertadoramente e amar gratuitamente os outros seres humanos, dos quais, por isso, sempre se há-de fazer próximo, com entranhas de misericórdia; nunca tirano, ditador, opressor, numa palavra, Poder!
Por serem assim as coisas, é que também este extracto do Evangelho de Lucas, que a Comunidade cristã de base de Macieira da Lixa, inspiradamente escolheu para ser proclamado, neste encontro-celebração, o primeiro que ela realizou, após o tremendo acontecimento destes últimos dias, em Portugal, que foi a inominável tragédia de Entre-os-Rios, em lugar de desencadear em nós, que o escutamos e acolhemos, medo, muito medo, ao contrário, depressa nos libertou do medo, também daquele medo que a inominável tragédia de Entre-os-Rios, num primeiro momento, começou naturalmente por desencadear em todas as pessoas, que dela tiveram conhecimento.
De repente, começamos a dar-nos conta de que, até uma tragédia como a de Entre-os-Rios, pode vir carregada de graça, de Reino de Deus a crescer continuamente entre nós. É claro que, como diz Jesus, também neste acontecimento, o Reino de Deus não vem de maneira ostensiva. Vem discretamente. À vista desarmada, apenas vemos desgraça, dor, destruição, desespero, sem-sentido, absurdo, morte. Mas a realidade tem mais dimensões do que aquela que se mostra à vista desarmada. Só a Fé, como a que teve Jesus e que ele sempre desperta em quantas e quantos se deixam tocar pelo seu Espírito, é capaz de ver o Invisível e, por isso, encontrar sentido no sem-sentido, racionalidade no absurdo, esperança no desespero, nova criação na destruição, felicidade na dor, graça na desgraça, vida na própria morte!
Só que Fé assim, não é coisa que se compre e se venda. Não é comercializável. É um Dom que misteriosamente desperta e floresce em nós, como uma fonte de água límpida que nunca mais se extingue. E que nem o Poder pode dar, nem o Dinheiro pode comprar. É um Dom que vem sempre de fora do mundo do Dinheiro e do Poder. Em linguagem teológica, dizemos que vem de Deus. E é verdade. Só que do Deus que não tem nada a ver com o deus-Dinheiro, nem com o deus-Poder. Tem tudo a ver com o Deus-dos-pobres, com o Deus-das-vítimas, que o deus-Dinheiro e o deus-Poder sempre fabricam. Numa palavra, tem tudo a ver com o Deus crucificado/ressuscitado em Jesus de Nazaré, o Cristo.
Fé assim é o que Jesus de Nazaré sempre quer suscitar nas pessoas, a começar pelas mais empobrecidas e oprimidas. Por isso, quando elas passam de submissas a protagonistas, de pessoas de olhos fechados a pessoas de olhos abertos, de ingénuas a conscientes, de paralisadas a activas, de alienadas a intervenientes, de mortas a vivas, Jesus sempre diz, "A tua Fé te salvou!". Nunca diz, "Eu te salvei!", porque, se o fizesse, era igual aos representantes do deus-Dinheiro e do deus-Poder, que gostam de ser benfeitores dos pobres, dão coisas aos pobres, mas para melhor os ter na mão, como súbditos e, ainda por cima, agradecidos!
Foi muito de tudo isto que a leitura do extracto do Evangelho de Lucas desencadeou em nós, neste encontro-celebração. Graças ao Espírito Santo que vem até nós nas palavras do Evangelho, não na simples letra do Evangelho, começamos a ver o que até então ainda não tínhamos visto. E logo nos experimentamos libertos do medo, possuídos pela graça ou Presença/Acção de Deus em nós. Vimos o Invisível no demasiado Visível que é a inominável tragédia de Entre-os-Rios. Ao mesmo tempo que experimentamos no mais fundo da nossa consciência aquela força libertadora, que o Poder não dá, e o Dinheiro não compra, pelo contrário, até nos tiram. E, com ela nos erguemos, dispostos a prosseguir a vida, quer ela seja feita de catástrofes e de tragédias, quer seja feita de festa e de alegre convívio. Afinal, tudo é graça. Tudo é Reino de Deus a crescer entre nós. Não que a dor e a catástrofe sejam graça e reino de Deus. Não são. São realidades inomináveis. Mas sim que até a dor e a catástrofe podem vir carregadas de graça e de reino de Deus, já a crescer entre nós, não de forma ostensiva, mas discretamente. Assim tenhamos olhos e sentidos – os olhos e os sentidos da Fé – para ver/sentir o Invisível e palpar o impalpável. Não é esta dimensão integralmente humana, que o Espírito Santo que ressuscitou Jesus crucificado e o constituiu, para sempre, como o senhor (entenda-se, o ser humano por antonomásia), continua a querer despertar/criar/consumar em cada uma e cada um de nós? Não foi isso que, paradigmaticamente, conseguiu realizar, vai para dois mil anos, em Maria Madalena e nas outras discípulas de Jesus de Nazaré, após a ressurreição dele? Não foi isso que conseguiu realizar naquele casal de Emaús que já regressava a casa, completamente destroçado e desiludido, depois do tremendo desastre e da inominável tragédia que tinha sido o assassinato do próprio Jesus de Nazaré na cruz? E não foi também isso que Ele conseguiu realizar, finalmente, em Pedro e nos outros apóstolos, Tomé incluído? Não será isso que o mesmo Espírito Santo quer conseguir realizar também em nós, quando, hoje e aqui, nos convoca e congrega em pequenas comunidades cristãs de base, em Igreja de Jesus? Aliás, a Palavra de Deus que escutamos e que se fez carne, isto é, ser humano, em Jesus de Nazaré, não é essencialmente Espírito criador e libertador? Não são apenas os fundamentalistas de todos os quadrantes que pensam e procedem como se a Palavra de Deus fosse essencialmente letra, quando ela é essencialmente Espírito? Mas não é também verdade o que diz S. Paulo, a este propósito, que a letra mata e que só o Espírito é que dá vida e vida em abundância?
"Onde estiver o corpo/cadáver, lá se juntarão também os abutres". Não foi o que vimos até à saciedade nestes dias, após a inominável tragédia de Entre-os-Rios? Não andaram todos, como abutres, à procura dos cadáveres? E para quê? Para mais depressa sossegarem os familiares das vítimas? Ou para mais depressa se verem livres dos embaraços e fazerem silêncio sobre a tragédia e as causas que a terão provocado? Ou para garantirem mais audiências nas televisões? Não é verdade que a morte vende? Não é verdade que a desgraça alheia vende? Não é verdade que lá, onde cheirar a cadáver, logo aparece uma câmara de televisão? E isso não é sinal de que o cadáver vende? E não é verdade que, lá, onde o Reino de Deus está a crescer, discretamente e de forma não ostensiva, a televisão já não aparece, pela simples razão de que o Reino ou Reinado de Deus a crescer, já não vende?
Não faltaram abutres nesta inominável tragédia. Foram mais do que muitos. Faltaram, e muito, profetas e, sobretudo, evangelizadores. Ninguém os quis ouvir. Porque a Profecia e a Boa notícia não vende.
Ora, os representantes do deus-Dinheiro e do deus-Poder só querem vender e comprar. Não querem que as pessoas sejam gratuitamente as criadoras. Só querem oprimir e dominar. Não querem as pessoas sejam livres e libertadoramente servidoras. São abutres que sempre correm, lá, nem que seja no fim do mundo, onde houver cadáveres. Por isso não lhes interessa para nada informar e mostrar que, mesmo no meio da mais inominável das tragédias, o Reino de Deus está sempre a crescer. E estará, até que, um dia, os seres humanos hão-de ser tão integralmente humanos, como Jesus de Nazaré, que então não haverá mais tragédias, nem dor, nem lágrimas, nem morte.
Esta é, sem dúvida, uma boa notícia – utopia? – que não agrada nada aos abutres. Por isso, não é de estranhar que eles tudo façam para que ela nunca se concretize. Mas não adianta. É um combate que os abutres já perderam! Quem ainda duvida?!

P.S.
Graças a ter pessoalmente vivido por inteiro o encontro-celebração da pequenina Comunidade cristã de base de Macieira da Lixa, quando cheguei à redacção do Jornal FRATERNIZAR, escrevi um pequeno apontamento sobre a inominável tragédia de Entre-os-Rios, para o próximo número (141), de Abril-Junho. A nota tem por título, "E as águas do Rio Douro tornaram-se sacramento". Não resisto a transcrevê-la aqui. Eis:
Depois da queda da velha ponte de Entre-os-Rios, e da morte, por afogamento, de todas as pessoas - umas seis dezenas, pelo menos - que viajavam de autocarro e em carros ligeiros sobre ela, no momento em que um dos pilares ruiu, o Rio Douro nunca mais voltará a poder ser olhado por nós, como antes. Desde essa noite de Março, o Rio Douro é como que um Sacramento vivo e perene.
Sempre que, agora, olharmos para ele, havemos de lembrar as mulheres e os homens de Castelo de Paiva que, inopinadamente, morreram/ressuscitaram nas suas águas, como num colectivo Baptismo. (Sabíamos, já, que é sempre de morte/ressurreição que fala o Sacramento do Baptismo, que as Igrejas, para mal delas e da Humanidade, reduziram a pouco mais de mero rito religioso, sem quaisquer consequências para quem o celebra e o recebe?)
A partir dessa noite de Páscoa, as águas do Rio Douro passaram a andar ainda mais carregadas do Espírito de Deus e, por isso, são permanente convite e desafio a sermos todos, lá onde quer que vivamos e actuemos, mulheres e homens politicamente alertados, cuidadosos, co-responsáveis uns pelos outros e também pelo chão que pisamos. Empenhados, sem dúvida, em saber das causas que estão por trás de desastres como este, não para logo fazermos de alguns bodes expiatórios, como se apenas esses, e só esses, fossem os culpados, mas sim para todas e todos nos tornarmos ainda mais lucidamente cuidadosos e co-responsáveis.

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