Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

5 Março 2001

1. O dia de ontem, 4 de Março de 2001, fica na História de Portugal, como o dia em que morreram setenta pessoas ou mais, em resultado da queda da velha Ponte de ferro de Entre-os-Rios, concelho de Castelo de Paiva, e Diocese católica do Porto.
Entretanto, por mera coincidência - mas se há coincidências que parecem proféticas, esta é uma delas! - iniciou-se, hoje, no Porto, portanto, o dia imediatamente a seguir ao daquela inominável tragédia, a habitual Semana de Teologia, há muito programada, e que é promovida, todos os anos, por esta altura, pela Universidade Católica Portuguesa.
Acontece que a Semana de Teologia teve, da parte da manhã, como conferencista de fundo, o cardeal Ratzinger. E da parte da tarde, outro cardeal, o novíssimo cardeal patriarca de Lisboa, José Policarpo.
O espantoso é que nenhuma destas duas sumidades da inteligência católica, a que alguns gostam de chamar, estupidamente, "príncipes da Igreja"(!), nem nenhum dos promotores da Semana de Teologia, foram capazes de fazer a mais pequena referência à tragédia do dia anterior, uma tragédia que deixa Portugal de luto, mesmo luto oficial de dois dias, e que jamais sairá da nossa memória colectiva.
A razão do meu espanto reside nisto: Como é possível fazer teologia, isto é, reflectir e falar sobre Deus e a sua misteriosa Presença/Acção no mundo e na História, e não ser sensível a uma tragédia destas que deixa o país interiormente esfrangalhado, numa comunhão de dor humana, uma tragédia sobre a qual só a palavra libertadora e salvadora de Deus poderá ajudar a descortinar algum sentido?
Uma teologia assim, que é capaz de passar ao lado da dor humana, como fizeram o sacerdote e o levita da parábola lucana, relativamente, ao homem assaltado pelos ladrões e deixado meio morto na berma da estrada, ainda pode ser verdadeira teologia? Não é, pelo contrário, puro discurso, totalmente fora do nosso tempo e do nosso espaço, pura ideologia, pura ideolatria?
Mais. O Deus, sobre o qual uma teologia deste jeito, reflecte e discursa, ainda pode ser aquele mesmo Deus que se nos revelou, definitivamente, em Jesus de Nazaré, o Cristo, que nasceu duma mulher chamada Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi morto e sepultado e, ao terceiro dia, ressuscitou dos mortos? Não é, pelo contrário, um Deus sem História e sem Mundo? Não é um Deus sem Humanidade, pura abstracção, que só existe como peça fundamental do Sistema e da Ordem dominantes, bem no topo da pirâmide social, frequentemente invocado pelas classes privilegiadas, mas para justificar esse mesmo Sistema e essa mesma Ordem dominantes? Não é um Deus que tem tudo a ver com o deísmo, e nada, absolutamente nada, a ver com Jesus de Nazaré, com o Cristianismo e com a Fé cristã?
É preciso ser cruel e sem entranhas de misericórdia, para se atrever a falar sobre Deus, no Porto, sem dizer uma palavra sequer sobre a tragédia que, no dia imediatamente anterior, se havia abatido sobre o povo português, precisamente, a menos de 50 kms do local onde se está a falar.
Não quero com isto dizer que as pessoas que promoveram esta Semana e que estão à frente da Universidade católica, no Porto, ou que os dois cardeais que intervieram com conferências de fundo, neste primeiro dia da Semana, sejam pessoas moralmente más. São pessoas boas, institucionalmente, acima de qualquer suspeita, só que dum tipo de bondade que não é bem o tipo de bondade de Jesus de Nazaré. E isso é que me dói. Porque são pessoas e instituições que levam o nome de cristão e estão postas aí como referências, não só na Igreja, como também na sociedade em geral, mas, depois, na prática de todos os dias, acabam por ser e agir ao contrário de Jesus de Nazaré, o Cristo, de quem se confessam discípulos!...
Ora, não basta sermos boas pessoas, para automaticamente sermos cristãs e cristãos. É preciso que sejamos pessoas do mesmo jeito de Jesus, o qual, no seu tempo e país, até teve fama de ser má pessoa, de ser possesso do demónio, de ser samaritano, herege, blasfemo.
Sabemos muito bem que, no tempo e no país de Jesus, as pessoas boas que estavam à frente das instituições religiosas de então, nunca lhe perdoaram por ele ser um dissidente, por andar sempre com más companhias, por ser um fora de lei, por desrespeitar as normas atribuídas a Moisés, por comer em público com publicanos e outras pessoas de má fama, por ser amigo de prostitutas e fazer-se acompanhar por mulheres discípulas!
Só que Jesus, com toda esta má fama de que goza perante os chefes das instituições religiosas do seu tempo e país, é, na prática de todos os dias, o ser humano integral e paradigmático, o modelo de todos os seres humanos, um ser humano cheio de misericórdia e de ternura, que sempre se faz próximo de quem está abatido e esmagado, que é incansável, quando sabe de pessoas em aflição e em luto. Ou seja, é um ser humano nos antípodas do que ontem mostraram ser as boas pessoas católicas que promoveram a Semana de Teologia e, particularmente, os dois cardeais que nela intervieram, cada um com a sua conferência de fundo, mas que não foram capazes, nenhum deles, duma palavra de simpatia para com as pessoas directamente atingidas pela tragédia do dia anterior, não foram capazes da manifestação de um sentimento de dor, de solidariedade, de comunhão, com o povo português, de que quase todos eles também fazem parte, e que, nesse dia e nessa hora, em que se iniciava a Semana de Teologia, se encontrava em completo estado de choque.
Tenho, por isso, que dizer aqui que uma Teologia assim, é uma teologia diabólica, que faz monstros de colarinho branco, ainda mais insensíveis aos dramas humanos, do que as próprias pedras. Estão sempre prontos a servir a Igreja eclesiástica, que os promove a seus príncipes ou a simples cónegos, e com a qual, a partir daí, passam a ser aflitivamente cúmplices, mas já são totalmente incapazes de atirar ao lixo todos esses títulos eclesiásticos que sempre desumanizam quem alguma vez os recebe e os toma a sério.
2. Mas o meu espanto não se fica por aqui. A tragédia de ontem fez também cair o ministro do Equipamento Social. Ele próprio apressou-se a apresentar a sua demissão ao chefe do Governo do país. O gesto foi objecto de grandes encómios públicos, por parte dos líderes da Oposição, do chefe do Governo e, também do Presidente da República.
Por mim, que não entendo muito destas manobras políticas, não vejo onde está a nobreza de gestos como este do ministro do Equipamento Social. Na verdade, o próprio ministro reconhece, perante as câmaras de televisão, que tem a responsabilidade política por esta inominável tragédia. Di-lo sem papas na língua. Sem uma tremura na voz. A olhar-nos nos olhos, através das câmaras. E com aquele ar de compunção e pesar que convém em ocasiões como esta. Mas, depois, logo adianta que se vai embora do Governo.
O meu espanto reside aqui: O ministro vai-se embora e não só não lhe acontece nada – espera-o, na pior das hipóteses, o lugar de deputado que tem cativo na Assembleia da República, isto, se, entretanto, não vier a ser nomeado para gestor duma grande empresa, que lhe pagará bem todos os meses para ele não aparecer muito por lá – como até é elogiado, à esquerda e à direita, pelos outros políticos, como um governante de rara coragem e exemplar, protagonista de um gesto de tamanha nobreza.
Não entendo esta visão política dos políticos profissionais. Mas, se calhar, sou eu que sou analfabeto em política profissional. E em actos de honradez e de nobreza, próprios da elite que nos governa e nos toma a todos nós/a todas nós, por parvos e incultos.
A verdade é que gostava de ver um comportamento outro, verdadeiramente responsável, por parte do ministro em causa. E por parte de todos os outros políticos profissionais que comentaram, como positiva, a decisão que ele, prontamente, tomou e no mesmo instante anunciou ao país.
É que assim, aquele que reconhece que é o responsável político pela tragédia da Ponte de Entre-os-Rios, que ruiu e causou a morte a setenta pessoas ou mais, ainda acaba por ser elogiado e apontado como cidadão exemplar.
Mas se o ministro é o responsável político pela tragédia, não deveria, em lugar de bater com a porta e deixar a "batata quente" nas mãos de um sucessor que tem de ser encontrado à pressa, permanecer no cargo e dar garantias ao país de que tudo fará, a partir de agora, para reparar os danos da sua não cabal prestação política? Não deveria pedir desculpa pública ao país, fazer propósito firme de emenda e emendar-se mesmo? Não deveria impor-se a si próprio alguma penalização, pelo menos, simbólica, em favor das vítimas e dos seus familiares mais directos, por exemplo, dispor-se a viver, durante um ou mais anos, apenas com o salário mínimo nacional – as populações pobres entenderiam bem uma decisão ministerial destas - e entregar todo o restante para uma iniciativa a criar, no concelho de Castelo de Paiva, que beneficiasse directamente os familiares das vítimas? Optar por ir-se embora, sem mais, e ainda ser publicamente elogiado, não é levar a irresponsabilidade política às últimas consequências?
Por outro lado, não seria muito melhor para o próprio ministro e para o país, que aquele, depois desta tragédia e com ela continuamente diante dos seus olhos, prosseguisse em funções, não já como até aqui, com descuidos e rotinas, mas com redobrada atenção, redobrado zelo, redobrada dedicação? Não teríamos, a partir desta tragédia, um ministro a valer, como nunca antes? A consciência da tragédia não faria dele um ministro outro? Ir-se embora, sem mais, não é reconhecer que se foi responsável político pela tragédia, logo a seguir, lavar as mãos como Pilatos, e, ainda por cima, acabar por ser socialmente recompensado? Mas, então, é caso para dizer que, até vale a pena e compensa, ser responsável político por uma tragédia desta natureza e desta dimensão. Porque não só não acontece nada ao ministro, responsável político pela tragédia, como ainda ele recebe elogios de toda a gente que está nos "poleiros" políticos ou aspira a chegar lá. Quem me diz então o que é irresponsabilidade política? Quem?
3. Quero ainda dizer, a propósito desta tragédia de ontem, que, ao tomar conhecimento dela pelos "media", logo me vi transportado a outras tragédias recentes e mesmo actuais, ocorridas noutras partes do planeta, em que centenas e mesmo milhares de pessoas têm sido vítimas, de múltiplas maneiras, inclusive, vítimas mortais. Nomeadamente, vi-me transportado para a tragédia das cheias em Moçambique, ano passado e, outra vez, este ano, precisamente, por estes mesmos dias. E para a tragédia que, recentemente, atingiu o povo de El Salvador, na América Latina, com um abalo sísmico de invulgar intensidade, cujas temidas réplicas parece que ainda não pararam.
Foi aí que me recordei da reflexão teológica que fiz, a propósito das cheias de Moçambique do ano passado, as quais tiveram invulgar repercussão entre nós. Recordei-me, inclusive, dos problemas que essas mesmas cheias levantaram à consciência de muitas pessoas, ao nível da Fé cristã em Deus.
A reflexão foi escrita para o Jornal FRATERNIZAR, nessa altura, ainda mensal. Penso que ela mantém toda a sua actualidade, também aqui, nesta tragédia, que acaba de se abater sobre o nosso país, concretamente, aqui perto de S. Pedro da Cova, no Concelho de Castelo de Paiva.
Por isso, tomo a liberdade de regressar a ela e aqui a transcrevo, tal e qual. Quem sabe se a sua leitura pode ajudar a despertar nas pessoas a Fé no Deus vivo e criador que nos ama e, por isso, jamais nos substitui, porque nos quer ver crescer em capacidade, em responsabilidade, nos antípodas da preguiça, também ao nível da investigação científica e ao nível político.
A reflexão é um pouco longa, mas valerá a pena lê-la como quem a mastiga e saboreia. Eis:
Mas, afinal, onde é que estava Deus, quando, dia e noite, durante semanas a fio, chuvas torrenciais caíram sobre Moçambique, as águas galgaram as margens dos rios, subiram pelas povoações, arrasaram casas baixas e de débil construção, obrigaram populações inteiras a fugir para as copas das árvores e para os telhados das casas mais altas e de construção mais segura, afogaram e mataram, sem dó nem piedade, velhos, mulheres e crianças, juntamente com centenas e centenas de cabeças de gado, numa orgia sacrificialista medonha, só comparável à dos míticos dilúvios, de que nos falam alguns livros sagrados dos povos antigos, com destaque, entre os países do Ocidente, para o livro bíblico do Génesis? (cf. capítulos 6 a 9)
A pergunta pode parecer blasfema e sacrílega, aos olhos e ouvidos das mulheres e dos homens que professam sincera fé em Deus, mas terá aflorado, nestas últimas semanas, aos lábios, ou, pelo menos, ao pensamento de muita gente, de consciência ilustrada, agnósticos e ateus, incluídos.
De modo que as Igrejas, com incidência maior para a nossa Igreja católica, não poderão continuar a esconder, impunemente, a cabeça na areia, e a fazer de conta que não é nada com elas.
Ou elas são capazes de ver e ouvir Deus na sua interpelativa ausência e no seu gritante silêncio da catástrofe de Moçambique e de outras catástrofes semelhantes, por sinal, hoje, cada vez mais frequentes, no planeta, e conseguem trazer ao diálogo, com os seus concidadãos e concidadãs, renovadas e credíveis teologias cristãs, muito para lá das estafadas e desacreditadas teologias deístas que os relatos bíblicos do dilúvio, por exemplo, proclamam, ou a Fé cristã que professamos e pela qual somos responsáveis, corre o risco de desaparecer do mundo, com todas as nefastas consequências que daí advêm para a Humanidade.
Na verdade, lá, onde desaparece a Fé cristã, logo medram as velhas ou novas religiões do Paganismo, com todo o seu cortejo de deusas e de deuses, de medos, de alienações, de submissões, de cultos exotéricos, de economias refinadamente egoístas, de políticas sem misericórdia, de violência de todo o tipo, de fanatismos, de fundamentalismos, numa palavra, uma espécie de selva onde, por isso, nem chega a sobrar espaço para o ser humano, nomeadamente, para o ser humano mais débil e menos dotado.
Oração indignada
Não deixa de ser sintomático, a este propósito, que até o conceituado jornal PÚBLICO, na sua edição do dia 3 de Março último, tivesse inserido, com o destaque que só a manchete inevitavelmente garante, uma foto das cheias de Moçambique, mas à qual, sintomaticamente, fez acoplar uma "Oração indignada", assinada por Maria João Seixas, e que vale a pena reproduzir integralmente aqui, pelo muito que ela consegue explicitar do que continuará a ser, ainda hoje, o inconsciente colectivo da humanidade, mesmo daquela parcela que se tem por mais ilustrada e moderna, quando, como se sabe, levamos já dois mil anos de Cristianismo, por isso, dois mil anos de Evangelho ou Boa Notícia de Deus, entre nós e connosco, o mesmo é dizer, dois mil anos de presença influente de Jesus de Nazaré Crucificado/Ressuscitado, o Cristo de Deus.
Eis o texto: "Raymond Queneau disse: 'Deus, por pudor, não existe!' Perante a impiedosa catástrofe que há semanas devasta Moçambique, apetece-me invocar o Deus da minha fé para que seja impudico, por esta vez. E se manifeste, também Ele, com algum sinal de uma atenção generosa e solidária.
Não Lhe peço só misericórdia, esse atributo que os crentes crêem ser o Seu modo de contemplar os homens. Peço-lhe que siga o impulso, imperativo, da solidariedade humana. Peço-Lhe que se associe à corrente da ajuda humanitária. Peço-lhe que desperte do Seu sono, que parece cúmplice da outra corrente em fúria, a das águas e dos ventos. E peço-Lhe que ouça e atenda esta minha oração indignada."
Felizmente, para todas e todos nós, Humanidade do ano 2000, o Deus ao qual esta oração indignada se dirige, não deu, até agora, qualquer sinal de ter ouvido o lancinante apelo que nela lhe é dirigido, a favor de Moçambique, muito menos, de o ter atendido. Tão pouco se ergueu estremunhado do seu sono, para, desesperadamente, ir a correr tentar salvar a própria face, mediante um espectacular milagre de última hora, para o qual a oração indignada parece apelar, milagre esse que neutralizasse de vez a fúria das águas e demais forças da Natureza, que ele próprio, supostamente, terá, antes, desencadeado, ou, pelo menos, permitido.
E dizemos felizmente, porque, se Ele o tivesse feito, não passaria, afinal, de um Deus criado à nossa imagem e semelhança, nomeadamente, à imagem e semelhança dos poderosos do mundo contemporâneo, os quais, como é hoje cada vez mais manifesto, primeiro, fazem milhões e biliões de vítimas humanas e na Natureza, mediante as suas homicidas economias de rapina e as suas demoníacas políticas de mentira e de exclusão activa e, depois, ainda conseguem que alguns dos sobreviventes dessas suas economias e políticas, se lhes dirijam, por piedade e ajuda.
É então que eles descem dos seus inacessíveis tronos, e permitem-se dar um ar de hipócrita graça e bondade, ao fazerem anunciar, em grandes parangonas e por entre lágrimas de crocodilo, que, sim senhor, estão dispostos a ajudar com abundantes auxílios materiais e outros.
Deste modo, os poderosos do mundo, depois dos nefandos crimes que, estruturalmente, cometem, ainda acabam por ficar com a fama de benfeitores e de boas pessoas, ao mesmo tempo que ficam de mãos muito mais livres para poderem prosseguir com as suas homicidas economias de rapina e as suas demoníacas políticas de mentira, ao mesmo tempo que deixam a impressão em toda a gente de que tanto umas como outras não passam de um dado da natureza, uma fatalidade, uma inevitabilidade, que ninguém consegue alterar.
Não é de admirar, por isso, que, com esquemas ideológicos/teológicos destes, a situação do nosso mundo se mantenha inalterada e saia, até, mais reforçada, de cada crise ou catástrofe, como a que se abateu sobre Moçambique e outras partes do planeta. Porque, graças a esses esquemas, os poderosos, em lugar de passarem a ser vistos como criminosos e de serem julgados e condenados pelas suas vítimas, como tais, passam a ser olhados, inclusive, como benfeitores e salvadores das vítimas que eles próprios fabricam. O que faz com que a sua posição no mundo e o seu poder saiam cada vez mais reforçados.
Deus, o poderoso?
Ora, Deus não é, nunca foi nem nunca será o mais poderoso dos poderosos do mundo, como parece sugerir a referida oração indignada. Ainda que essa continue a ser a imagem de Deus que a maioria dos cristãos e cristãs, das diferentes Igrejas, tem, bem como a generalidade dos ateus e agnósticos, dos filósofos e cientistas, e outros intelectuais, mulheres e homens, indistintamente.
A própria Bíblia, em muitas das suas páginas, é ainda por esta imagem de Deus que se fica. Mesmo os Evangelhos Sinópticos nem sempre conseguem ir além dela. E não são só os fariseus e doutores da Lei, do tempo de Jesus, os portadores desta imagem de Deus. Os próprios discípulos de Jesus também se incluem neste número. E, nalguns relatos, até Jesus parece ser portador duma imagem de Deus assim.
Basta ver, por exemplo, como o Evangelho de Lucas apresenta Jesus a argumentar contra a teologia deísta dos fariseus e doutores da Lei, a propósito daqueles galileus, "cujo sangue Pilatos havia misturado com o sangue dos sacrifícios que eles ofereciam". Na mentalidade teológica e religiosa da época, essas mortes e outras do género, eram consequência dos pecados que tais galileus teriam cometido.
Ora, Jesus, surpreendentemente, não parece ir muito além desta teologia, quando é apresentado a argumentar nestes termos: "Julgais que esses galileus eram mais pecadores que todos os outros galileus, por terem assim sofrido? Não, Eu vo-lo digo; mas, se não vos converterdes, perecereis todos igualmente. E aqueles dezoito sobre os quais caiu a torre de Siloé, matando-os, eram mais culpados que todos os outros habitantes de Jerusalém? Não, Eu vo-lo digo; mas, se não vos converterdes, perecereis todos da mesma forma" (Lc 13, 1-5).
Ilustrado antes do tempo
É só no Evangelho de João, que Jesus nos é apresentado como um ilustrado antes do tempo, e um ilustrado mais radical do que todos os nossos ilustrados do ano 2000. O episódio mais revelador vem minuciosamente relatado no capítulo 9 e ficou conhecido, por sinal, muito incorrectamente, como "A cura do cego de nascença" (É também assim que, por exemplo, a Nova Bíblia dos Capuchinhos, apresentada como o que há de melhor em traduções de língua portuguesa do texto sagrado, titula a negro esse capítulo).
Aí, quando interpelado pelos próprios discípulos, que quase tropeçam num homem que havia nascido cego, e logo perguntam, "Rabi, quem foi que pecou, para este homem ter nascido cego? Ele, ou os seus pais?", Jesus responde com uma teologia radicalmente ilustrada e que é válida para todos os tempos e lugares, também para o nosso hoje e aqui: "Nem ele pecou, nem os seus pais, mas isto aconteceu para nele se manifestarem as obras de Deus. Temos de realizar as obras daquele que me enviou, enquanto é dia. Vem aí a noite, em que ninguém pode actuar. Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo".
Com esta resposta, Jesus arrumou todo o tipo de teologia deísta, por sinal, muito presente nas páginas bíblicas do Antigo Testamento, desde os dois relatos teológicos do Dilúvio, ao relato teológico de Job e, por influência desses relatos, também muito presente ainda nas consciências dos nossos contemporâneos e contemporâneas.
(É um tipo de teologia destas que está presente, por exemplo, em toda a argumentação dos três amigos de Job, os quais foram até junto dele com a intenção declarada de o ajudar, mas mais não fizeram do que agredi-lo, ao interpretarem a sua situação de máxima desgraça, à luz da teologia oficial - a teologia deísta dos sacerdotes do Templo e dos doutores da Lei - e à luz da qual até o sofrimento das oprimidas e subjugadas populações era visto e justificado como castigo e maldição de Deus!).
Nem o que causa, nem o que permite
Ora, para Jesus, pelo menos no captar das comunidades cristãs que escreveram o Evangelho de João, Deus nem é o que causa o mal, nem sequer é o que permite todo esse cortejo de males que, porventura, se abatam sobre a Humanidade em geral, ou sobre certos indivíduos, em particular, seja o mal materializado em catástrofes, como as que se abateram sobre Moçambique, seja o mal materializado em doenças, ainda hoje, incuráveis, como a sida ou o cancro. Para Jesus, Deus tão pouco pode ser pensado como a explicação última dos males que sobrevêm aos indivíduos ou aos povos.
Para Jesus, Deus só pode ser pensado e invocado como o anti-mal-em-acção, como aquele que está, misteriosa e continuamente, envolvido no esforço e na luta contra o mal que afecta os indivíduos e os povos, quaisquer que sejam as causas, conhecidas ou desconhecidas, que o provocam.
De modo que a glória de Deus consiste, não na aceitação conformada e resignada do mal, dos males, por parte das respectivas vítimas, mas no combate inteligente e sem tréguas contra o mal, os males, e as suas causas. Nem que estas causas sejam, como no caso do homem que nasceu cego, do relato do Evangelho de João, a teologia deísta e demoníaca que era ensinada oficialmente no Templo de Jerusalém, sob a autoridade do nome de Moisés e do próprio Deus!...
(Só que, por Jesus ter agido assim, por ter desmascarado essa teologia, em nome da qual as populações eram mantidas na mais feroz opressão e no mais impiedoso obscurantismo - uma e outro causa duma generalizada situação de infantilismo, de medo, de menoridade, de incapacidade, traduzida na existência de grande número de cegos, coxos, surdos, mudos, marginalizados, excluídos, tudo gente considerada "maldita", pecadora, impura - é que os teólogos oficiais e os chefes dos sacerdotes e os homens fortes do Sinédrio decidiram dar-lhe a morte. E mataram-no, de facto, com a cumplicidade, facilmente obtida, do representante do Império romano, também ele interessado na eliminação física de Jesus, não fosse o exemplo dele pegar e a sua teologia radicalmente libertadora passar a ser a teologia dos povos, nomeadamente, dos povos empobrecidos e oprimidos, subjugados e excluídos).
Revolução Francesa
Foi com a Revolução Francesa e com a Ilustração e a Modernidade, que lhe estão conectadas, que a Humanidade pôde, finalmente, compreender que Deus não faz parte do Mundo, não é uma peça da engrenagem do Sistema, sem dúvida, a mais ilustre, mas sempre uma peça da engrenagem do Sistema.
É claro que a formulação desta evidência não foi pacífica. Começou, até, por constituir uma proclamação de ateísmo, pior, de anti-teísmo. E com inegável justificação, diga-se, devido a séculos e séculos de obscurantismo eclesiástico e clerical e de domínio absoluto da teologia deísta da Igreja católica imperial, a chamada Cristandade Ocidental.
A Filosofia e os filósofos, finalmente, libertos dos eclesiásticos maiores - viviam estes atolados de privilégios e, até então, tinham mantido o controlo completo, em forma de monopólio, de tudo e de todos, sobretudo, das consciências - ousaram proclamar, e bem, que Deus não fazia parte do Sistema e, por isso, o nosso Planeta Terra podia e pode muito bem continuar a girar sem ser sequer necessária a hipótese Deus.
Logo depois, ou ao mesmo tempo, proclamaram, também, que Deus não existe. Aliás, se Deus existisse - acrescentavam - teria de ser responsabilizado por todo o sofrimento que tem afectado toda a humanidade, indiscriminadamente, desde o princípio, mas, sobretudo, as populações mais empobrecidas, mais ignorantes, mais subdesenvolvidas, entre as quais se contam também as crianças, todas inocentes, obviamente.
Pecado dos pecados
Infelizmente, a nossa Igreja católica, em lugar de ver Evangelho ou Boa Notícia nesta proclamação da Ilustração e da Modernidade, saltou logo a terreiro e anatematizou uma e outra, assim como os seus representantes.
Deus, no entender dos eclesiásticos católicos maiores, não podia ser expulso do Sistema que rege e informa o nosso mundo. Deus era necessário. Não era gratuito, puro Dom, pura Graça. Expulsar Deus do Mundo, colocá-lo fora do Sistema, era, para eles, o crime dos crimes.
Por isso, o ateísmo, e não a idolatria, sempre foi considerado pelos eclesiásticos católicos maiores, pelo menos, até ao Concílio Vaticano II, como o pecado dos pecados, o mal dos males, a blasfémia das blasfémias. Contra o qual a voz oficial da nossa Igreja católica sempre se levantou, até com ferocidade, sem olhar aos meios de que lançava mão.
Parece até que o combate contra o ateísmo (e os ateus), justificava o recurso a todo o tipo de meios, inclusive, o recurso às guerras mais sangrentas, logo concebidas como cruzadas, de que as guerras coloniais portuguesas em África são um dos mais flagrantes exemplos, e daí serem oficialmente apresentadas e assumidas como uma cruzada contra o ateísmo apregoado pelo Comunismo internacional. Por isso, não um mal, um crime, mas um bem, o maior dos bens!
Tanto esta reacção intempestiva da nossa Igreja católica à Ilustração e à Modernidade, nomeadamente, à sua nuclear proclamação de que Deus não faz parte do Sistema do mundo, de que Deus não é preciso para nada e, por isso, o mundo pode muito bem girar sem que tenhamos de recorrer sequer à hipótese Deus, bem como a reacção dos ilustrados e modernos à intempestiva reacção da nossa Igreja católica, nomeadamente, dos papas até ao Concílio Vaticano II, de tão extremadas que foram, acabaram por ser prejudiciais para toda a humanidade.
Por isso, hoje, os ateus são quase sempre anti-teístas primários e os católicos tradicionalistas, deístas primários, que vivem de costas voltadas. Quando, afinal, o ateísmo da Ilustração e da Modernidade que proclama que Deus não faz parte do Sistema e não é necessário como explicação do que sucede no mundo e na História, é o primeiro passo a dar pela humanidade, para poder abrir-se à Fé cristã e ao Deus definitivamente revelado em Jesus de Nazaré, o Crucificado/Ressuscitado.
Na Cruz
Foi sobretudo graças ao ainda hoje incompreensível e, praticamente, insuportável silêncio de Deus, à Oração indignada de Jesus, na Cruz, "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?", e perante a surpreendente e humanamente inexplicável decisão, da parte de Jesus crucificado de, mesmo assim, se entregar, confiadamente, e sem reservas, nas suas mãos, "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito", isto é, o meu sopro, a minha vida, o meu eu, que ficou para sempre revelado à Humanidade que Deus, efectivamente, é puro Dom, é pura Graça, é assim como um luxo para a Humanidade, embora não seja indiferente para ela que ela O acolha ou rejeite. Deus, efectivamente, não faz parte do mundo, não é a peça principal da engrenagem do Sistema. É imanente ao mundo, mas na exacta medida em que lhe é transcendente.
Para as cristãs e os cristãos - que o são em fidelidade criadora a Jesus de Nazaré, o Cristo de Deus, e ao seu Espírito - o mundo está inteiramente confiado aos seres humanos, a todos os seres humanos. É, por isso, tarefa nossa, da nossa exclusiva responsabilidade, não é responsabilidade de Deus.
É por isso que a política, enquanto arte de organizar as economias e todas as outras forças da sociedade, para que promovam e garantam condições de vida de qualidade e em abundância para todos os indivíduos e povos, sem excepção, e não apenas para os mais inteligentes, os mais fortes e os mais espertos, é, porventura, a actividade mais importante dos seres humanos.
Pode até dizer-se que é a liturgia que mais agrada a Deus. A qual, logo se torna anti-liturgia, sempre que é concebida e realizada como a arte de enganar, ludibriar, mentir, oprimir, subjugar, menorizar, dispensar os indivíduos e os povos, sobretudo, sempre que concebe e organiza as economias e as outras forças da sociedade, com o intuito de favorecer os interesses corporativos das minorias detentoras de privilégios.
Ainda faz sentido?
Mas, então, num mundo assim, totalmente entregue nas mãos dos seres humanos, ainda faz sentido falar de Deus? E como, concretamente?
Se Deus não faz parte do Sistema do mundo, também não pode nunca ser invocado como responsável pelo que nele acontece. Essa responsabilidade é exclusivamente nossa, dos seres humanos. É por isso que temos de crescer mais e mais, em sabedoria e em graça, em autonomia e em liberdade, em responsabilidade e em solidariedade, para estarmos cada vez mais à altura de fazermos um mundo bem à nossa medida, bem à medida dos nossos legítimos anseios e utopias, ou seja, um mundo pujante de vida, de paz, de fraternidade/sororidade, numa palavra, um mundo sem males, um mundo de felicidade global.
A responsabilidade é exclusivamente nossa. Contudo, não estamos sozinhos nesta tarefa. Connosco, mas sempre e só como pura Graça, como puro Dom, está também a Ruah ou Espírito de Deus, hoje cada vez menos percebido como pai/mãe, e cada vez mais percebido como nossa companheira/nosso companheiro (Lc 24). Não para nos substituir, não para nos manter em estado de menoridade, não para nos intimidar, não para nos castigar, se falhamos, não para nos exigir actos de culto em certos locais e a certas horas. A Ruah ou Espírito de Deus está connosco, no mais fundo de cada um de nós/de cada uma de nós, como pura Graça, como puro Dom, para nos potenciar, de dentro para fora, a fim de sermos progressivamente nós próprios, até atingirmos a mesma estatura humana integral e completa de Jesus de Nazaré, o Homem por antonomásia, ou o Cristo de Deus! E, também, como inconfundível Voz, gratuitamente amiga e criadoramente interpelativa, estilo, Onde está o teu irmão/Onde está a tua irmã? Que fizeste da tua irmã/Que fizeste do teu irmão? (Génesis 4), nomeadamente, quando nós nos perdemos dos outros homens e mulheres, sobretudo, dos mais desprezados e oprimidos, e confundimos liturgia-acção-de-transformação-do-mundo-e-da-vida, com alienação religiosa nos templos e/ou com idolatria de qualquer tipo, a começar pela idolatria do Dinheiro, que é a raiz de todos os males.
Entretanto, sempre que ouvimos essa Voz e nos deixamos fazer por ela, nesse momento, nesse dia, nascemos de novo, nascemos do Alto (Jo 3, 7-8). E, por isso, em vez de nos limitarmos a engrossar, ciclicamente, campanhas humanitárias, sempre aviltantes, quer para quem as faz, quer para quem as recebe, ousaremos sobretudo tomar a decisão de fazer da nossa vida de todos os dias um combate inteligente e sem tréguas contra o Sistema que, despudorada e idolatricamente, continua a invocar Deus como seu fundamento e sua cúpula, mas só para melhor poder continuar a fabricar empobrecidos e excluídos em massa, sem que ninguém lhe vá à mão.
Paralelamente a este combate, ousaremos dar forma e corpo, sempre a partir de nós, a uma terra de justiça e de fraternidade/sororidade universal.. Para que, em breve, de um extremo ao outro da terra, haja, finalmente, um só Mundo, uma só Humanidade, uma só Mesa. De maneira que nunca mais sejam precisas campanhas humanitárias, como as que, nestes últimos tempos, têm estado em curso a favor dos povos empobrecidos e oprimidos de África, os quais, depois de roubados e espoliados pelos países ricos e exploradores, ainda têm, agora, de lhes ficar para sempre agradecidos e olhá-los, como os seus benfeitores!
Há lá cinismo maior?!

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