Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

2 Março 2001

Tudo quanto é órgão de comunicação social da nossa Igreja católica dá, nestes dias, grande destaque à mensagem do Papa para a Quaresma de 2001. Alguns jornais diocesanos e não só, publicam-na na íntegra, com honras de manchete principal.
(Curiosamente, os órgãos de comunicação social não confessionais, pura e simplesmente, ignoraram-na. Um facto que, só por si, é deveras eloquente e que deveria fazer-nos pensar muito. Porque, se as mensagens da nossa Igreja católica romana não "mordem" a realidade quotidiana da Humanidade, ao ponto de os grandes "media" não poderem deixar de fazer delas notícia, então são mensagens-aborto, mensagens nado-mortas que não interessam nem ao menino jesus!)
Porém, nenhum daqueles órgãos de comunicação social da Igreja, que dão grande destaque à mensagem do Papa para a Quaresma, já em curso, nesta data, ousa ler a mensagem de João Paulo II com um mínimo de sentido crítico. Nenhum ousa apontar ao papa as notórias deficiências de que a sua mensagem quaresmal enferma, inclusive, a incorrecta utilização e a incorrecta exegese que faz de certas palavras do Evangelho de Jesus, só para assim poder levar mais facilmente a água ao seu moinho, concretamente, conseguir que o Evangelho apareça a corroborar e a reforçar as suas posições doutrinais e pastorais, quando essas palavras do Evangelho, correctamente situadas no seu contexto e correctamente interpretadas, põem seriamente em causa essas e muitas outras posições doutrinais e pastorais do papa e da sua Cúria vaticana.
Igualmente, nenhum daqueles órgão se comunicação social da Igreja, ousa apontar alternativas ao que o papa diz, para mais, quando o diz, como neste caso, com pretensões a ser lido/escutado por todos os crentes, mulheres e homens, de todo o mundo, e também por todos aqueles que, desde João XXIII, a Cúria do Vaticano gosta de chamar "homens de boa vontade" (uma expressão manifestamente redutora, uma vez que, à partida, exclui todas as mulheres, incluídas as de boa vontade, e também todos os homens e todas as mulheres de má vontade; o que é de lamentar, porque toda e qualquer prática de exclusão de pessoas não tem, não pode ter, a marca do Espírito Santo, a marca de Deus, desse Deus que, em Jesus de Nazaré, se nos revelou universalmente integrador).
É como se o papa fosse deus na terra, não um simples homem, limitado e condicionado como todos os outros seres humanos, mulheres e homens, se calhar, até, muito mais limitado e condicionado do que todos os outros seres humanos, dado o ambiente de fanatismo anticomunista católico em que decorreu a sua infância/juventude/idade madura, na Polónia, e, sobretudo, dadas as circunstâncias de poder monárquico absoluto e de farisaica santidade oficial em que ele próprio aceita viver, todos os dias, desde que é papa e, ao mesmo tempo, chefe de Estado do Vaticano.
É como se todas as palavras do papa fossem, automaticamente, Palavra de Deus, urbi et orbi. Ou como se o papa fosse sempre infalível. E, por isso, às cristãs e aos cristãos católicos de todo o mundo, nada mais restasse do que acatar, como definitiva verdade e para todo o sempre, todas e cada uma das suas palavras, todos e cada um dos seus gestos, todas e cada uma das suas decisões.
Até os bispos que, em comunhão com todas as outras Igrejas locais irmãs, presidem à concreta Igreja local que lhes foi confiada, têm-se limitado, ultimamente, quase todos, a fazer-se eco das palavras do papa. Nenhum deles, ou quase nenhum deles, se atreve a contestá-las, a aperfeiçoá-las, muito menos, a ir mais além e a sugerir, à Igreja local a que preside, orientações doutrinais e pastorais outras.
E, no entanto, é isso que os Bispos sempre deverão fazer, enquanto Bispos da Igreja. Porque o papa é o Bispo de Roma, não é o Bispo de cada Igreja local. E assim como ele fala para a Igreja que está em Roma, e, a partir dela e com ela, fala para o mundo, onde vivem as outras Igrejas locais irmãs, também cada bispo deverá falar para a sua Igreja local e, a partir dela e com ela, falar para o mundo, onde vivem as outras Igrejas locais irmãs, incluída a Igreja irmã que está em Roma.
Mas os Bispos, a começar pelo de Roma, não só devem falar. Devem também ouvir a Igreja, toda a Igreja, em cada uma das Igrejas locais em que ela se realiza e às quais eles presidem na caridade e no serviço libertador, incluídos, evidentemente, também todos aqueles membros mais críticos e incómodos, tanto mulheres como homens que sempre os há, felizmente, em cada Igreja local.
Mais ainda. Devem, sobretudo, juntamente com toda a Igreja a que presidem, escutar o que o Espírito Santo está continuamente a dizer a todas as Igrejas, de modo especial, através dos sinais dos tempos e dos múltiplos acontecimentos económicos, sociais e políticos, que têm repercussões no quotidiano do povo de Deus que está sacramentalmente congregado na Igreja universal, e também no resto da Humanidade, mesmo lá onde ainda não há, ou já não há, Igreja local alguma, mas há empobrecidos e maltratados, oprimidos e excluídos, em massa, e que, só por isso, são o povo que Deus mais ama e também muito mais povo de Deus do que todos nós, católicos tradicionais, que temos tanto de mesa farta e de comodidades, como de missas aos domingos e dias de festa de guarda, às quais vamos, muitas vezes, mostrar efémeras vaidades e o carro novo último modelo.
A não ser assim, então, não temos Bispos, nem Igrejas locais. Nem temos um correcto e evangélico "Serviço de Pedro", sempre fundamental para dar visibilidade à Igreja universal, que está toda em cada Igreja local, mas de modo algum se esgota em cada Igreja local. Tão pouco teremos Igreja, ao jeito do Espírito de Jesus Ressuscitado.
O que teremos é um super-bispo-de-Roma-e-chefe-de-Estado-do-Vaticano e um super-Sistema-eclesiástico-católico, estilo gigantesca empresa multinacional, no caso, uma gigantesca multinacional da religião católica, com sucursais em cada país do mundo, à frente das quais estão bispos que não o chegam a ser verdadeiramente, pois limitam-se a ser, por um lado, simples caixa de ressonância do que diz o super-Bispo que está na sede da multinacional em Roma, e, por outro lado, uma espécie de capatazes eclesiásticos-mor, postos à frente, pelo super-Bispo de Roma, das referidas sucursais de cada país, para aí fazerem cumprir todas as ordens que ele entender por bem e por mal dar e todas as decisões que ele entender por bem e por mal tomar!
Só que uma empresa multinacional assim, por mais religião católica que promova e realize, e por mais Igreja católica que se diga, não passa de um monstruoso polvo que asfixia quem se lhe submeter. Como tal, tem de ser continuamente denunciada, doa a quem doer. E, antes de mais, por aqueles seus membros, mulheres e homens, que, apesar da sua fragilidade humana e do ostracismo a que possam ser votados, não desistem de ter, como referência última das suas vidas, não o que diz e faz o papa, mas sim o próprio Evangelho de Jesus e a perigosa e feliz Memória vivente, que é Jesus Crucificado/Ressuscitado, o único ser humano – humano assim, só mesmo Deus-connosco! - acerca de quem Deus, solenemente, proclamou, quando o apresentou transfigurado ao mundo, "Este é o meu Filho muito amado: escutai-o!" (cf. Lucas 9, 35).
Mas olhemos, mais de perto, a referida mensagem do papa, para a Quaresma 2001, nomeadamente, os seus primeiros parágrafos. A mensagem abre com uma solene afirmação atribuída a Jesus, e extraída do Evangelho de Marcos 10, 33. A afirmação diz assim: "Olhai que subimos a Jerusalém".
(Este começo, com uma citação do Evangelho, logo à cabeça, faz lembrar, e já vamos ver porquê, os antigos padres pregadores que, dos púlpitos, erguidos a meio dos templos paroquiais, quase sempre aterrorizavam as pessoas com sermões, que elas eram obrigadas a ir ouvir, sob pena de pecado mortal.
De harmonia com as regras da oratória sacro-eclesiástica, o sermão deveria abrir sempre, ou com uma alusão a algum caso bíblico, ou com uma citação bíblica, dita em latim. No caso da citação, o que verdadeiramente interessava era a pura citação, não o contexto, em que ela naturalmente se inseria no relato bíblico.
De modo que o pregador tinha toda a liberdade para pegar na frase bíblica, autonomizá-la do respectivo contexto e, depois, dissertar sobre o tema que pretendia abordar, sem nunca mais se preocupar se a referida frase, no seu contexto bíblico, tinha alguma coisa a ver, ou não, com o tema sobre o qual ele dissertava, sem qualquer contestação, por parte da assembleia, obrigada a manter-se muda e queda, até com medo de tossir!
A verdade é que a citação bíblica quase nunca tinha nada a ver com a temática em causa! Casos houve, verdadeiramente caricatos e anedóticos, como, por exemplo, o daquele pregador que terá sido convidado para pregar na festa de S. José operário – uma festa litúrgica que a nossa Igreja instituiu, não há muitos anos, para o 1º de Maio, numa tentativa de esvaziar ideologicamente o Dia dos Trabalhadores, que, desde há mais de um século, tem lugar, todos os anos, precisamente nesse dia! Porém, como o pregador pretendia dissertar, não sobre o santo em si, nem sobre o trabalho e os trabalhadores, mas sim sobre o Sacramento da Confissão, iniciou o sermão, mais ou menos, nestes termos: "Meus irmãos – as mulheres nunca eram nomeadas pelos clérigos celibatários e, por isso, nesses tenebrosos tempos da Idade Média que se estenderam até ao século XX, eles nunca foram capazes de acrescentar, "E minhas irmãs" – hoje é o dia de S. José operário. Ora, como sabemos pelo Evangelho, S. José era carpinteiro, como tal, também deveria fazer confessionários. Por isso, vamos falar da Confissão").
Também o papa, a partir da referida citação de S. Marcos, entra de imediato no tema central da sua mensagem-sermão, sem querer saber para nada do contexto em que essa afirmação evangélica é proferida por Jesus. Transcrevo o começo da mensagem, tal e qual:
"Olhai que subimos a Jerusalém. Com estas palavras, o Senhor convida os discípulos a percorrerem com Ele o caminho que, partindo da Galileia, conduz ao lugar onde se consumará a Sua missão redentora. Esta subida a Jerusalém, que os evangelistas apresentam como o culminar do itinerário terreno de Jesus, constitui o modelo de vida do cristão, comprometido a seguir o Mestre no caminho da Cruz".
Acrescenta, logo depois, a mensagem do papa:
"Cristo dirige também este mesmo convite para «subir a Jerusalém» aos homens e mulheres de hoje. E fá-lo com especial ênfase neste tempo de Quaresma, tempo favorável para a conversão e para encontrar a plena comunhão com Ele, participando intimamente no mistério da Sua morte e ressurreição. Por isso, a Quaresma representa para os crentes a ocasião propícia para uma profunda revisão de vida."
O papa dá, depois, e de imediato, o salto para o concreto da nossa actualidade, nestes termos:
"Nos nossos dias, ao lado de testemunhas generosas do Evangelho, não faltam baptizados que, perante o exigente convite para empreender a «subida para Jerusalém», adoptam uma posição de surda resistência e, às vezes, até de aberta rebelião. São situações em que a experiência da oração se vive de modo bastante superficial, de modo que a palavra de Deus não incide sobre a existência. Muitos consideram insignificante o próprio Sacramento da Penitência, e a Celebração eucarística do Domingo é vista simplesmente como um dever a cumprir."
E vai, assim, por aí adiante, no seu blá-blá papal, vincadamente moralista e intimista.
Ora, quem se limitar a ler, sem mais, a mensagem do papa, tal como ela se apresenta tecida, dificilmente se aperceberá das tremendas incongruências evangélicas, de que ela enferma. Mas se nos dermos ao trabalho de abrir o Evangelho de Marcos, na citação que o papa faz, logo veremos como essa afirmação, posta na boca de Jesus, tem em mente uma realidade muito distinta daquela que, a partir dela e com base nela, a mensagem do papa nos transmite.
Mais. De modo algum, poderemos compreender como é que o papa, com toda a responsabilidade eclesial que simboliza e, efectivamente, detém, na nossa Igreja, foi capaz dum comportamento como o que ele aqui tem, na redacção desta mensagem, nomeadamente, atrever-se a recorrer a esta afirmação de Jesus, para, logo a seguir, tentar convencer as pessoas baptizadas (supõe-se que as pessoas católicas) a regressar à prática da confissão frequente e à prática da missa aos Domingos. Como se o apelo à conversão – "Convertei-vos!" – de que fala o Jesus do Evangelho de Marcos (1, 15), logo na abertura da sua missão na Galileia, tivesse alguma vez um sentido moralista e, concretamente, pretendesse que as pessoas passassem a fazer coisas como essas que o papa expressamente refere na sua mensagem!
Pela minha parte, dei atenção à mensagem do papa, mas dei também atenção ao Evangelho de Marcos, precisamente ao extracto com que João Paulo II a inicia. Dei-me, por isso, ao trabalho de abrir o Evangelho e ver o contexto em que é proferida aquela afirmação atribuída a Jesus. E logo tive de concluir que o papa (ou quem, em seu nome, redigiu esta mensagem para ele assinar como se tivesse sido escrita por ele próprio) agiu, nesta sua mensagem, como os antigos pregadores da Idade Média, de má memória, da nossa Igreja católica. E por quê?
Antes de mais, porque o papa, ao citar as palavras de Jesus, nem sequer nos dá a frase completa. Apenas cita o início da frase, para poder, depois, utilizar a afirmação como muito bem entender, sem querer saber do que Jesus quis dizer, quando se dirigiu, expressa e solenemente, ao grupo dos Doze e, neles, se nos dirige também a nós, suas discípulas e seus discípulos, hoje, neste início do século XXI e do terceiro milénio. O papa, na citação que faz, atreve-se a colocar um ponto final, lá, onde, no texto, está uma vírgula e, com isso, desvirtua por completo o sentido da afirmação de Jesus, "Olhai que subimos a Jerusalém".
Ora, um procedimento destes tem um nome: é pura manipulação das palavras atribuídas a Jesus. É obrigar Jesus a caucionar o discurso moralista e sacrificialista, em que o papa e a generalidade dos bispos e dos párocos católicos são useiros e vezeiros.
Quem pode, então, dizer que um procedimento destes tem o dedo ou a inspiração do Espírito Santo? O que temos de dizer é que, com procedimentos destes, o papa atenta contra o Espírito Santo. E, consequentemente, poderá sempre justificar, em nome da Palavra de Deus e da Bíblia, qualquer das suas decisões, mesmo as mais inumanas, como, por exemplo, a decisão que, recentemente, tomou, de proibir o simples debate teológico no interior da Igreja católica, acerca da possibilidade do acesso das mulheres ao exercício do ministério ordenado.
Abramos, então, o Evangelho de Marcos e oiçamos a afirmação integral que aí é atribuída a Jesus e que o papa João Paulo II, abusivamente, censurou. Basta lermos/ouvirmos as palavras integrais atribuídas a Jesus e atentar no contexto em que ele as profere, para termos de concluir que aquele, "Olhai que subimos a Jerusalém", com que abre a mensagem do papa para a quaresma 2001, é uma flagrante traição à mensagem libertadora de Jesus e uma gravíssima manipulação da Palavra de Deus, a fazer lembrar a manipulação da Escritura em que, hoje, são hábeis e famosos as Testemunhas de Jeová e os pastores da Igreja Universal do Reino de Deus. Marcos diz assim, no capítulo 10, 32-34:
"Iam a caminho, subindo para Jerusalém, e Jesus seguia à frente deles. Estavam assombrados e seguiam-no temerosos. Tomando de novo os Doze consigo, começou a dizer-lhes o que lhe ia acontecer: Olhai que subimos a Jerusalém, e o Filho do Homem vai ser entregue aos sumos sacerdotes e aos doutores da Lei, e eles vão condená-lo à morte e entregá-lo aos gentios. E hão-de escarnecê-lo, cuspir sobre ele, açoitá-lo e matá-lo. Mas, três dias depois, ressuscitará."
Não dá para compreender como é que o papa foi capaz de ir ao Evangelho de Marcos retirar a afirmação, "Olhai que subimos a Jerusalém", do respectivo contexto e, a partir dela, passar a dizer o que pretendia dizer, na sua mensagem para a quaresma de 2001, concretamente, que os dias de quaresma são propícios à conversão (como se todos os dias do ano e da nossa vida não fossem igualmente propícios, assim nós, os seres humanos todos - padres, bispos e papa incluídos - estejamos dispostos a ser e a viver todos os dias, duma maneira outra, bem ao jeito de Jesus de Nazaré), e que as pessoas católicas têm de voltar a dar mais atenção e mais tempo à oração, dar mais valor ao sacramento da Penitência ou Confissão e deixar de encarar a ida à missa ao Domingo, como um fardo ou um simples dever a cumprir. Onde é que, nesta afirmação atribuída a Jesus, e no contexto em que Marcos a situa, o papa viu fundamento para uma tal mensagem moralista e intimista?
Por isso, digo: a manipulação das palavras do Evangelho, por parte do papa, não pode ser maior. O que perfaz um verdadeiro atentado contra o Espírito Santo. Melhor fora, então, que o papa esquecesse o Evangelho nesta sua mensagem. Utilizá-lo, como o faz aqui, é um inqualificável abuso. E o papa acaba por escrever uma mensagem com um conteúdo totalmente ao contrário do que sugerem as palavras atribuídas a Jesus.
Como é que nenhum dos milhares de bispos católicos que presidem a cada uma das Igrejas locais espalhadas pelo mundo, foi capaz de ficar calado e não advertir, pessoal e publicamente, o papa? Como é que os teólogos e as teólogas católicos, oficialmente investidos nesse ministério (todos os cristãos, mulheres e homens, podemos e devemos ser teólogos, mas há, também, na Igreja, o ministério de teólogo, por sinal arriscado, se assumido em comunhão com o Espírito Santo, e que não pode ser abafado por ninguém, nem mesmo pelo papa ou por algum dos bispos), não reagem a esta forma de proceder do papa? E os exegetas e hermeneutas católicos, a quem cabe o ministério da correcta interpretação dos textos bíblicos – outro ministério também arriscado, se realizado na fidelidade ao Espírito Santo que inspirou a Bíblia - por que ficam calados, perante um comportamento pastoral destes do papa?
Com tanta capitulação e tanta cumplicidade, por parte de tanta gente responsável, ainda podemos dizer que somos Igreja viva, e Igreja que dá toda a oportunidade ao Espírito Santo? Não estamos, pelo contrário, a silenciar o Espírito Santo e, com isso, a ser uma mera instituição eclesiástica cega, surda e muda, que leva para o abismo a Humanidade que ainda nos dá ouvidos, que tem os olhos postos em nós e confia em nós?
Não sou exegeta nem teólogo, por dever de ofício eclesial, nem por determinação de uma das múltiplas Universidades católicas do mundo. Por vocação, sou um simples presbítero da Igreja, especialmente chamado ao ministério litúrgico e eucarístico de Evangelizar os Pobres. E, por profissão, sou jornalista, de modo que vivo do meu trabalho profissional e posso, com toda a liberdade que o Evangelho nos dá, anunciá-lo de graça aos pobres, meus irmãos, e, a partir deles e com eles, anunciá-lo a todas as outras pessoas, também aos meus irmãos ricos e poderosos.
Nunca quis frequentar a Universidade católica, para, depois, poder ostentar um ou mais doutoramentos académicos. Não é desse tipo de sabedoria meramente académico que vivo, nem é esse tipo de sabedoria que procuro. Tão pouco Jesus de Nazaré foi por aí. E Paulo de Tarso que, antes de nascer do Espírito Santo e se tornar cristão, havia ido por aí, depois que se fez cristão e Apóstolo dos gentios, considerou esterco tudo isso que, anteriormente, tanto tinha valorizado.
No que me diz respeito, nunca quis frequentar a Universidade católica e tirar um ou mais doutoramentos – em determinada altura da minha vida, precisamente, depois do meu primeiro julgamento no Tribunal Plenário do Porto, em 1971, o Bispo do Porto acenou-me com essa possibilidade, numa Universidade lá fora, que eu, prontamente, recusei – pela simples razão de que nunca quis sair do lado dos pobres, nunca quis fazer carreira eclesiástica.
Entretanto, sempre tenho feito e continuo a fazer, do estudo pessoal da Teologia e da Exegese bíblica, uma das minhas prioridades, mas para mais e melhor poder viver e realizar o meu ministério presbiteral de Evangelizar os pobres, e também para mais e melhor poder alimentar a espiritualidade que dá sentido último ao meu quotidiano viver, por sinal, um viver que, contra a minha vontade, está posto aí como um pequeno sinal de contradição.
Só que é um estudo feito, como quem reza, como quem se abre ao Espírito Santo e O escuta. Por isso, é um estudo realizado sempre a partir dos mais pobres e oprimidos, o mesmo é dizer, a partir de fora do sistema dominante e do próprio sistema eclesiástico e dos interesses corporativos de um e de outro.
Aliás, tenho para mim que o que não for assim, não chega a ser Teologia cristã, nem Exegese cristã, mas Teologia e Exegese idolátricas!..., no género da teologia e da exegese dos amigos de Job (cf. todo o Livro bíblico com este nome), e da teologia sobre os deuses dos cultos pagãos, anteriores ao Cristianismo.
É, certamente, por isso que, ao olhar para este comportamento do papa, logo alguma coisa saltou no íntimo da minha consciência e me faz vir a terreiro dizer, na comunhão da Fé cristã e do amor fraternal que me une a ele e a toda a Igreja, que este é um comportamento papal que não pode estar conforme ao jeito do Espírito Santo. E, se não está conforme ao jeito do Espírito Santo, quer dizer que é um comportamento que, apesar de vir do papa, mata espiritualmente as pessoas, quando deveria libertar e fazer viver a muitas e muitos.
Por mim, não tenho a menor dúvida em reconhecer que aquilo que o papa mais quis, quando escreveu, ou simplesmente assinou esta mensagem para a quaresma 2001, foi contribuir para libertar e fazer viver a muitas e muitos. Só que, com um comportamento assim, o papa não só não chega lá, como até desvia da verdade que liberta, as pessoas que constituem a Igreja, bem como outras pessoas de boa e de má vontade que ainda prestam alguma atenção ao que a nossa Igreja católica diz e faz.
Outra, muito outra, é a Boa Notícia – o Evangelho! – que o relato de Marcos nos dá, com o extracto em causa. E, por isso, outro muito outro há-de ser o sentido e o conteúdo da conversão a que faz apelo.
O texto começa por dizer que Jesus seguia à frente dos discípulos. Não se refere explicitamente, às discípulas, porque estas, provavelmente, já iam, não atrás-de-Jesus, mas sim com-Jesus, uma vez que elas, desde muito cedo, entenderam Jesus e deram-lhe a sua entusiástica adesão, ao contrário deles, sempre a sonhar, como ainda hoje sucede com muitos de nós católicos, com grandezas, com primeiros lugares no Reino de Deus (que eles pensavam um reino à maneira dos reinos dos poderosos deste mundo, e nunca imaginaram que era um Reino a viver, desde já e aqui, mas em que o respectivo rei, Jesus Cristo, é um crucificado. Também ressuscitado, evidentemente. Mas, primeiro, crucificado!)
A expressão evangélica, "ir à frente", não há-de entender-se, por isso, em sentido físico, porque o relato não é uma reportagem jornalística, como tal, não tem preocupações desse estilo. Deve entender-se, sim, no sentido teológico. Pretende revelar que Jesus, apesar de rejeitado pelas autoridades religiosas do seu tempo e país, é o Mestre definitivo em quem toda a Humanidade há-de pôr os olhos, para aprender, com ele, a ser e a viver como Humanidade outra, tal como Deus Criador a projectou no seu coração de Mãe/Pai universal e está aí apostado em criá-la, mediante uma actividade que nunca pára, nem mesmo aos sábados e domingos!
Curiosamente, o relato avança um pormenor sobre o estado de alma dos discípulos homens que iam após Jesus: - "Estavam assombrados e seguiam-no temerosos". Ou seja, está visto que Jesus não é um arranjista, um populista, um demagogo, como tantos outros líderes, através dos tempos. Não é mais um pastor, um líder, com propósitos de viver à custa das pessoas e dos povos. E que, como escreve o Evangelho de João (cf. capítulo 10), aparecem de tempos a tempos, para roubar, matar e destruir as pessoas e os povos. Jesus não tem sonhos e projectos de dominar, de enriquecer, de fazer-se obedecer, como um deus-déspota, perante as pessoas e os povos. Quer ser simplesmente – imagine-se! - um Ser Humano-com-os-outros-seres-humanos-e-ao-serviço-da-libertação-de-todos-os-seres-humanos, numa comunhão que é incapaz de excluir seja quem for, pelo contrário, a todas e a todos integra, a começar pelos mais excluídos, mais desgraçados, mais diminuídos, mais deficientes, mais desprezíveis e mais desprezados, pecadores públicos que sejam!
Evidentemente, um Mestre-líder assim perturba, deixa os seguidores, sobretudo, homens, de boca aberta, espantados, assombrados e assustados. Nunca antes dele se vira coisa assim. Nem depois dele se viu. Daí a perplexidade, o temor, a ansiedade, a dúvida dos discípulos homens: - Será que vale a pena ser discípulo de um mestre-líder assim? Que benefícios nos vêm daí? Que lucros? Que resultados? Que dividendos? Que privilégios? Valerá a pena prosseguir com ele? Não será melhor regressar a casa, à rotina do dia a dia? Ou então, optar por outra via e por outro mestre-líder, com reais ambições de poder e de enriquecer e de controlar o país, a partir, por exemplo, da ocupação do Templo de Jerusalém? Um mestre-líder que tivesse a estratégia de ocupar e controlar o Templo de Jerusalém, não garantia mais lucros, mais prestígio, mais lugares cimeiros, mais privilégios aos seus seguidores?
Porém, os discípulos homens seguiam Jesus assombrados e temerosos, também por uma outra razão. É que, já em outras duas ocasiões anteriores, Jesus havia-os advertido, como aqui o faz, agora de modo ainda mais explícito, de que iam a caminho de Jerusalém, e, tanto duma vez como da outra, havia deixado a impressão de que esta sua subida, em sentido físico – Jerusalém fica no alto e, para lá chegar, tem-se mesmo de subir – mais não era do que uma real descida em sentido existencial. Porque de ambas as vezes, Jesus falara em desastre e não em vitória. (Também falara em vitória, mas dum tipo de vitória, a Ressurreição, que eles nem sequer conseguiam entender, pois situa-se numa dimensão só perceptível àquelas e àqueles que, primeiro, crêem e, por isso, vêem o Invisível!).
Quer dizer que eles ali iam, sim senhor, atrás de Jesus para Jerusalém, mas, provavelmente, não seria para o ver lá triunfar, não seria para o ver tomar o poder, não seria para o ver apoderar-se do templo (o Templo de Jerusalém, então, era a maior empresa do país e até fazia de banco nacional, para lá de controlar ideologicamente toda a sociedade judaica, não só a que residia na Palestina, mas também a que resida na diáspora! Pelo que, apoderar-se do Templo, era igual a tornar-se rico, controlar o país e a sociedade, tornar-se rei no sentido davídico, de poder absoluto sobre todo o povo, não no sentido jesuânico, de servir e de dar a vida pelo povo). É por tudo isto que eles iam assombrados e temerosos. E iam apenas após-Jesus, ainda não iam com-Jesus.
Pois bem, é com os seus discípulos neste estado interior e exterior, que Jesus, mestre-líder perspicaz como nenhum outro, toma à parte o grupo dos Doze e, pela terceira vez, vai dizer-lhes a Boa Notícia, o Evangelho, que eles continuavam a não suportar ouvir, muito menos, estavam dispostos a ser e a viver, tão alienados e iludidos que andavam com outras formas de ser e de viver em sociedade.
(Ao constituir o grupo do Doze, em ruptura com o Israel histórico, Jesus sonhou fazer deles e com eles, simbolicamente, as colunas do verdadeiro povo de Deus, concebido não mais como um povo sem os outros povos, mas sim como um povo-com-todos-os-outros-povos, em radical igualdade, o que, ainda hoje, é visto como um projecto político libertador e integrador altamente subversivo e, por isso, fortemente contrariado por todos os nacionalismos, e pelos próprios católicos homens, que sempre se pensam mais povo de Deus do que as mulheres católicas – os clérigos nem sequer admitem que as mulheres baptizadas como eles possam ser ordenadas! - e do que os ateus e os agnósticos, mulheres e homens, e do que as e os fiéis das outras Igrejas cristãs, depreciativamente, referidas por eles como "Igrejas protestantes"!).
Jesus vai dizer-lhes, pela terceira vez, isto é, duma vez por todas e de forma inequívoca e absoluta (três, terceira vez, no Evangelho, quer dizer exactamente isto) que, como eles próprios, certamente, já se tinham apercebido, iam todos a caminho de Jerusalém, mas era preciso que ficasse bem claro na cabeça de todos eles que ele, Jesus, seu mestre e senhor, não ia lá para tomar o poder – coisa com que todos eles sonhavam! - mas ia lá para enfrentar o poder. E ia fazê-lo da única forma que o poder não suporta nunca ser enfrentado, porque é a única forma verdadeiramente eficaz para o desmascarar e fazê-lo mostrar toda a iniquidade de que ele é constituído e de que é capaz. Ele, o mestre e o senhor, ia a Jerusalém enfrentar o poder, mas ia totalmente desarmado. Porque, de modo algum, pretendia tomar o poder e ocupar os lugares dos poderosos derrubados pela força violenta. O que ele pretendia era desmascarar e, pelo menos, simbolicamente, destruir o poder, que, qual deus-Diabo, faz de uns poucos seres humanos, monstros, e de outros – a maioria – oprimidos, súbditos, escravos que têm de trabalhar toda a vida para ele e, ainda por cima, têm de financiar todos os sonhos dele e todos os seus megalómanos projectos.
(Não, Jesus não lhes diz que vai subir a Jerusalém para aí ser sacrificado como vítima pelos nossos pecados, como, mais uma vez, sugere o papa, nesta sua mensagem para a quaresma 2001. Não lhes diz que vai lá redimir a humanidade, através do seu atroz sofrimento. Não lhes diz que vai sofrer em lugar de nós, seres humanos. Não lhes diz que, com o sangue que vai derramar e da morte que vai sofrer, vai pagar a Deus o resgate da Humanidade. Tudo isso são interpretações religiosas que certas teologias pagãs, posteriormente infiltradas na Igreja, acabaram por fazer desta decisão e desta postura exemplar de Jesus. O que, no meu modo de ver, representa, não uma mais-valia para o Cristianismo, mas sim a paganização do Cristianismo, porventura, o pior vírus que, alguma vez, o atingiu e desvirtuou até hoje!).
Pelas palavras que o Evangelho de Marcos coloca na boca de Jesus, ele deixa bem claro ao Grupo dos Doze que vai a Jerusalém, apenas para ser entregue aos sumos sacerdotes e aos doutores da Lei (os teólogos oficiais do Templo) e que eles vão condená-lo à morte e entregá-lo aos gentios, que, por sua vez, hão-de escarnecê-lo, cuspir sobre ele, açoitá-lo e matá-lo. Esta é a realidade nua e crua. Jesus não diz que vai ser entregue aos sumos sacerdotes, para que eles o imolem sobre o altar do templo como sacrifício agradável a Deus, que era uma das funções específicas dos sumos sacerdotes, mas com animais perfeitos, não com seres humanos. O que Jesus diz – e com uma clareza tal, que este anúncio só poder ter sido escrito assim com tanto pormenor, depois dos factos terem ocorrido e não antes - é que vai ser entregue aos sumos sacerdotes e aos doutores da Lei, e que estes vão condená-lo à morte e entregá-lo aos gentios.
(Esta é, sem dúvida, a Boa Notícia mais tremenda, que Jesus revela aos Doze, e que há-de ser anunciada aos pobres, de todos os tempos e lugares, para que estes abram os olhos, se acautelem e se guardem: Afinal, quer os sumos sacerdotes, quer os doutores da Lei - tal como todas as hierarquias ou poder sagrado de todos os tempos e lugares - para além das funções em que estavam oficialmente investidos, eram também capazes de crimes contra a Humanidade, os mais horrendos. E isto sempre havia permanecido escondido, sob a pala ideológica da invocação do santo Nome de Deus, dos santos e sagrados interesses de Deus, da honra e da glória de Deus. Porém, este comportamento criminoso vai ser, agora, paradigmaticamente e duma vez por todas, desmascarado por Jesus, o que faz dele, para sempre o libertador e o salvador da Humanidade, ou seja, o Cristo!).
Mas, para um judeu, como Jesus, ser entregue aos pagãos pelos chefes máximos do seu povo, a fim de ser crucificado às mãos deles, constituía a pior ignomínia que alguma vez podia cair sobre o seu nome e sobre o nome da sua família, pois transformava-o automaticamente num maldito (Maldito o que morre na Cruz, diz o Deuteronómio, um dos livros da Bíblia hebraica!).
O choque desta revelação que Jesus faz aos Doze, teria sido terrível e insuportável, se eles tivessem minimamente entendido o que Jesus lhes confidenciou. Mas a verdade é que eles não estavam nada para aí virados e, por isso, também não entenderam nada do Evangelho, da Boa Notícia, que Jesus lhes disse à parte. O mundo de valores deles continuava a ser o dos sumos sacerdotes e dos doutores da Lei, isto é, o mundo do poder, do deus-Diabo, não o de Jesus e do seu Deus Mãe/Pai universal. Tinham sido pessoalmente escolhidos por Jesus, mas, nesta altura, a poucas semanas da Páscoa, durante a qual todo este Evangelho ia ser revelado/proclamado por Jesus, ainda não foram capazes de estar à altura de Jesus. Não foram camaradas de Jesus. Não se uniram em torno dele. Não passaram da postura de ir após ele, para a de ir com ele. Pelo contrário.
Quem se der ao trabalho de ver o que o Evangelho de Marcos relata imediatamente a seguir, não pode deixar de ficar tremendamente chocado. Então não é que eles, depois desta confidência de Jesus – Vamos a Jerusalém e eu vou lá, não tomar o poder, mas enfrentar/desmascarar o poder e mostrar quanto ele é perverso, quanto ele é iníquo, quanto ele é Mentira, Diabo, Pai de mentira, Assassino, Homicida, por isso, quanto ele não é, não pode ser, via para ninguém, quanto ele é desgraça e morte para toda a Humanidade – ainda se atrevem, na pessoa de dois deles, exactamente, Tiago e João, filhos de Zebedeu (por isso, ainda a viver segundo os valores da Tradição, representada pelo pai, e do poder, e não já segundo os valores de Deus, da Vida, como Jesus!), pedir a Jesus que lhes conceda os dois melhores lugares no seu Reino, um à direita dele e outro à sua esquerda?!... Ou seja, ainda era com o poder que sonhavam. Ainda era o poder que desejavam. Ainda não se haviam convertido.
E aqui vem a tão falada conversão, ou o "Convertei-vos!", com que o Evangelho de Marcos abre a missão evangelizadora de Jesus. Uma temática que a nossa Igreja e todas as Igrejas cristãs gostam de abordar, ao longo de cada ano, mas com especial incidência no longo tempo da Quaresma. Como se a conversão fosse mudar umas quantas coisas, deixar de cometer uns quantos pecados, como por exemplo, deixar de falar mal, deixar de faltar à missa aos domingos, pagar os direitos aos párocos, etc, mas deixar as nossas vidas na mesma, no que respeita às opções de fundo.
Nada disso é assim. Jesus não é um moralista, um fariseu que se preocupa com o exterior do copo e do prato, com as mãos por lavar e que têm de passar a ser lavadas, antes de comer. Jesus não é como o papa, nesta sua mensagem para a quaresma de 2001. Nem como os bispos e os párocos que se limitam, preguiçosamente, a reproduzi-la nas respectivas Igrejas locais que lhes estão confiadas.
Quando Jesus fala de conversão é de mudança radical - que vai à raiz – de cada pessoa humana e das estruturas que, com o tempo, criamos e mantemos, nomeadamente, os sistemas económicos, políticos e religiosos que, depois, enformam as sociedades e fazem o mundo ser como é, quando poderia e deveria ser outra coisa totalmente distinta.
Aquele "Convertei-vos" que aparece na boca de Jesus, na primeira frase que o Evangelho de Marcos coloca nos seus lábios e que é uma síntese de toda a Boa Notícia que ele traz à humanidade, a partir da mais excluída e empobrecida, não tem qualquer conteúdo moralista. Tem todo o conteúdo revolucionariamente libertador. É essencialmente político e não moralista. Não apela às pessoas para que corrijam o que está menos bem nas suas vidas individuais e particulares. Apela às pessoas para que mudem radicalmente de ser e de viver. Para que nasçam do Alto, do Espírito Santo, exactamente, como Jesus de Nazaré nasceu. Para que deixem de ser filhas do deus-Diabo, pai da mentira e do Crime, por isso assassino desde o princípio – hoje, a Ordem económica, política e religiosa das multinacionais que dominam o mundo e das suas Religiões sanguessugas - e aceitem tornar-se filhas e filhos de Deus-Amor, de Deus-Vida, de Deus Criador de fraternidade/sororidade universal. Numa palavra, que deixem de ser moralistas, sempre a tentar corrigir-se dos pecadilhos pessoais e sempre a cometer os mesmos pecadilhos. Que deixem de viver prisioneiras desse moralismo dominante, que o Templo de Jerusalém representava e impunha. Sobretudo, que experimentem Deus como alguém que vive dentro das pessoas, no mais íntimo de cada uma e de cada um de nós. E que se abram continuamente a Ele e ao seu Espírito, e se deixem conduzir por Ele, sempre. Que, em lugar de passarem a vida a chorar pelos pecadilhos que, inevitavelmente, cometem dia a dia, vivam ininterruptamente a alegria de se saberem perdoados e amados a todos os instantes por Deus. E, mergulhados nessa alegria eucarística sem fim, gastem todas as suas energias a cooperar com o Espírito Criador de Deus, para, todos juntos, levarmos cada vez mais adiante a Criação da Humanidade e do Mundo, ainda e sempre em curso, criação que só estará completa, quando Deus, o Amor e a Liberdade, for tudo em todas e em todos.
Convertei-vos, é, pois, a mesma coisa que: Deixai a Ordem dominante do deus-Diabo, feita de mentira, de desigualdade, de privilégio, de roubalheira, de assassinatos em série. E vivei intensamente sob a inspiração/condução do Espírito Santo, que faz novas todas as coisas, aqui e agora.
Se o fizerdes, vereis como tudo é diferente, cada dia. E em lugar de andardes a passar, ciclicamente – e patologicamente! - de advento a natal, de natal a quaresma, de quaresma a páscoa/pentecostes, vivereis sempre em páscoa/pentecostes permanente, melhor, sereis páscoa/pentecostes ao vivo, a corroer, discreta, mas eficazmente, na sua raiz, a Ordem mundial do deus-Diabo, a começar pelo sistema eclesiástico que a integra e que vós, ingenuamente, tendes considerado como Igreja, quando ele não passa da actualização da Sinagoga e do Templo de Jerusalém do tempo de Jesus. Com uma diferença substancial, para pior: É que, agora, em lugar de perseguir e matar abertamente Jesus de Nazaré e boicotar e destruir abertamente a realização histórica do seu libertador e alternativo Projecto do Reinado de Deus, habilmente, transformou Jesus no deus-mor da Ordem mundial dominante, com cujos representantes sempre se tem entendido e até faz concordatas, ao mesmo tempo que remeteu para o após-morte das pessoas e o após-morte do universo, o Reinado de Deus anunciado por Jesus, quando ele é para instaurar, desde já e aqui, como real alternativa libertadora à Ordem mundial dominante!
(Aliás, foi por trabalhar, aberta e resolutamente, na instauração do Reinado de Deus, no seu aqui e agora, que Jesus foi perseguido, preso, condenado à morte e crucificado. Os representantes da Ordem dominante de então, com os sumos sacerdotes e os doutores da Lei, à cabeça, não lhe perdoaram tamanha ousadia! Outro tanto espera a Igreja, que se reclama do nome e da memória de Jesus, se for capaz de prática igual. Converter-se é, afinal, ousar ser mulher e homem do mesmo jeito de Jesus e fazer nossa a mesma via martirial e duélica de Jesus. Até à Ressurreição!).
E por que havemos de crer em Jesus e ir por ele, em lugar de crermos no deus-Diabo e na sua Ordem mundial dominante, toda poderosa, na qual se integra, como peça fundamental, o próprio sistema eclesiástico, com a cúria do Vaticano à frente?
Pela simples razão que o próprio Jesus adianta ao grupo dos Doze, depois de lhes ter dito o que ia fazer a Jerusalém e o que, por via disso, lhe iria acontecer lá. Esta: "Mas, três dias depois, [o Filho do Homem] ressuscitará"! Ou seja, havemos de crer em Jesus e ir por ele, porque a Ordem mundial dominante, que tem por pai o deus-Diabo, é uma ordem que mente, engana e, finalmente, mata as pessoas e os povos e a própria Natureza (hoje, isto salta à vista de toda a gente!). Porque a Ordem mundial dominante é uma Ordem absolutamente incapaz de erguer as pessoas, de as tornar livres e felizes, alegres e comunitárias/solidárias, irmãs umas das outras. É absolutamente incapaz de as ressuscitar/criar de novo! Só é absolutamente capaz de assassinar as pessoas, como fez com Jesus e continua a fazer com milhões de outras pessoas. Se não com armas, com a fome e com o proliferar de doenças evitáveis e curáveis, que dizimam populações inteiras, continentes inteiros.
Ressuscitar dos mortos, fazer nascer do Alto, do Espírito Criador, é obra exclusiva de Deus-Amor, esse Deus que nos deu Jesus, como o maior Dom, a maior graça. E que, ao apresentá-lo transfigurado/ressuscitado ao mundo, proclamou: "Este é o meu Filho bem amado. Escutai-o!". Isto é, acolhei-o, ide por ele, sede mulheres e homens como ele, tornai-vos em tudo iguais a ele. Numa palavra, Convertei-vos! Saí da Ordem mundial dominante e dos seus privilégios, conseguidos e mantidos a preço de sangue humano, e erguei com simplicidade e alegria a vossa tenda/o vosso viver, entre as suas maiores vítimas humanas. Fazei vosso o Projecto de Jesus. Melhor: Sede, hoje e aqui, outros Jesus! Sempre.

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