Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

14 Maio 2001

A senhora de Fátima voltou a atacar. Em força. Ontem e anteontem. Mas com fracos resultados. Que se saiba, nenhum doente, dos muitos que lá vão com a ilusória esperança de cura, foi curado. A bênção dos doentes, apesar da forte emoção colectiva que costuma provocar, não teve qualquer efeito prático. Nunca teve. Nem terá. Nem sequer foi capaz de suscitar uma sugestão colectiva bastante, que fizesse andar quem está paralítico, ou fizesse ver quem está cego, por causas que podem estar relacionadas com traumas do foro psicológico, e não causas físicas, que estas, quando existem, não há sugestão por maior que seja, que faça paralíticos andar e cegos ver. A verdade é que, mais uma vez, e como de todas as outras vezes, nenhum milagre ocorreu em Fátima. A senhora ou deusa lá do sítio não está para aí virada. Nunca esteve. Nem jamais estará. Pela simples razão de que ela não existe, é pura mentira.
Já foi assim em 1917, o ano que a lenda histórica sobre Fátima refere como das aparições. Nessa altura, a ingénua e alucinada Lúcia, de 10/11 anos, foi posta a falar para a suposta aparição que ninguém mais via nem ouvia, e os respectivos inquiridores da época registam que a suposta senhora da suposta aparição já então se mostrou insensível e cruel.
Embora o guião da dramatização teatral dissesse que era uma senhora que vinha do céu, a verdade é que ela não conseguiu fazer nada de jeito, a favor de certos doentes lá da terra, apesar da ingénua criança guardadora de rebanhos referir expressamente os nomes deles, na esperança de comover tão celestial personagem. Foi tudo em vão.
Com isso, ficou desde logo claro que, embora a suposta senhora dissesse que vinha do céu, sempre se mostrou totalmente incapaz de fazer algo de bom por nós, seres humanos, que vivemos na terra. Nem sequer pelos muitos milhares e milhões de irmãs e de irmãos nossos que vivem na terra, como se esta fosse um vale de lágrimas, onde eles têm estado condenados a gemer e a chorar.
Até hoje, ao longo destes mais de oitenta anos, a senhora de Fátima não fez pelas pessoas que lá vão, a ponta de um corno. Muito pelo contrário, desde a primeira hora, mostrou-se interessada em que as pessoas entregassem o seu dinheiro, para lá ser erguida uma capela em honra dela!...
(Com preocupações deste tipo, é bem de ver que era o clero católico que estava por trás de tudo. As capelas são, para o clero católico, locais de negócio, algumas bem rentáveis. Se, depois, à pequena capela inicial, se juntar uma basílica, e à basílica outra basílica de muitos milhões de contos, não terão mais conta os milhões e milhões de contos que o negócio passa a render ao clero católico. E tudo é feito, oficialmente, em nome de Deus e por amor de Deus. O deus Dinheiro, evidentemente!).
Felizmente, os seres humanos, nomeadamente, cientistas e investigadores, médicos e engenheiros e tantos outros especialistas, mulheres e homens, na sua condição de simples seres humanos, têm feito e continuam a fazer todos os dias muito mais pela Humanidade e pelo nosso bem-estar individual e colectivo, do que aquela senhora de Fátima, que, no dizer do guião da dramatização teatral de 1917, vinha do céu.
Aliás, se as pessoas pensarem bem, logo darão conta de que a senhora de Fátima não é senhora nenhuma. É pura mentira. Tanto assim é, que ela tem boca, mas não come, não fala, não ri. Tem ouvidos, mas não ouve. Tem olhos, mas não vê, nem chora. Tem corpo, mas não se comove, não mexe os braços, nem as mãos, e também não anda. Parece uma senhora, mas não é. É pura mentira. Não passa duma estátua de madeira. De muito mau gosto artístico. É bem a imagem acabada e tosca, da inacção, da indiferença, da ausência, da frieza, da insolidariedade. Como são todas as imagens de todos os ídolos.
Basta ver que ela nem para as crianças que, em1917, caíram na asneira de dizer que a viram e que ela lhes falou, foi boa. Aos dois irmãos, Jacinta e Francisco, deixou-os morrer, na maior das aflições e no meio dos maiores tormentos, devorados pela pneumónica. E à prima deles, Lúcia, estragou-lhe para sempre a vida, pois, desde então, nunca mais ela soube o que é ter vida própria, liberdade individual, capacidade para dispor de si. Sempre foi pau mandado de certo clero graúdo, fanático, adorador de um deus que se alimenta de criancinhas, tem inveja e ciúme da felicidade dos seres humanos adultos e, por isso, tudo faz para os depenar, para lhes extorquir o que têm e o que não têm, para os castigar, os massacrar, os torturar até à morte. E, depois de tudo, ainda os obriga a dizer, com aquele cândido ar dos tontos, de que assim, a sofrer, é que são seres humanos felizes.
Mais uma vez, ontem e anteontem, ardeu muita cera no crematório do recinto de Fátima, erguido ali mesmo ao lado da chamada capelinha das aparições. O mau gosto de quem o ergueu naquele local não podia ter sido mais requintado. O crematório é bem a imagem do mítico inferno que povoou a torturada mente das três crianças vítimas de Fátima. E que Lúcia – só a Lúcia! – diz que a cruel senhora, que supostamente lhes apareceu, lhes mostrou e as deixou, desde então, a gemer de horror.
Segundo afirmações que são atribuídas a Lúcia, nesse livro de horrores que são as suas "Memórias", o inferno é algo semelhante a este crematório de Fátima, um lago de labaredas flutuantes, com os condenados lá dentro a arder sem se consumirem (como se sabe, até o papa mais fanático de Fátima, João Paulo II, recentemente, veio ensinar que o inferno não tem chamas de fogo, é um estado em que se encontram os "condenados", o que contradiz abertamente a senhora de Fátima que ele adora! Mesmo assim, as populações sofredoras não querem saber e continuam a correr para ela, como, de resto, o próprio papa também faz, sempre que pode). E a cruel senhora de Fátima garantiu, a pés juntos e a mãos juntas – não é assim que ela se apresenta, dia e noite, aos seus desgraçados adoradores? ! - que essa era a tortura em que já se encontravam os "pobres pecadores" falecidos, precisamente a mesma que está destinada a todos os demais pecadores do mundo, que vierem a falecer, a não ser que, antes de falecerem, todos eles se metam a rezar muitos terços!...
No crematório de Fátima, ardem velas de todos os tamanhos, feitios e pesos. Ou pedaços de cera com forma humana. Pernas avulsas. Pés. Braços. Mãos. Cabeças. Corpos inteiros sem sexo. Tudo é previamente comprado e pago a pronto, como em qualquer supermercado, aos negociantes do santuário e a outros das redondezas, os quais não perdem uma peregrinação a Fátima e dizem cobras e lagartos contra aquele padre católico português, que insiste em afirmar publicamente que não acredita em nada do que se diz ter ocorrido em 1917, na Serra d’Aire.
Toda essa cera em estado sólido é atirada para aquela enorme pira, para se desfazer em cera líquida, que escorre para um reservatório, propriedade do santuário, a fim de ser de novo convertida em velas de todos os tamanhos e pesos, em cabeças, mãos e pés, etc, e ser vendida de novo às devotas e aos devotos da senhora.
Muitas foram também as pessoas que, ontem e anteontem, rastejaram ou andaram de joelhos, entre a Cruz Alta e a chamada capelinha das aparições, terço na mão, desgraçados pagadores de promessas, manifestamente possessos do demónio do medo, mas cujas aberrantes posturas, certos profissionais da comunicação social insistem em classificar como impressionantes manifestações de fé. Como se a fé (cristã) fosse sinónimo de medo, de horror, de humilhação, de autoflagelação, por parte dos seres humanos.
Alguns milhares de pessoas foram a pé, quilómetros e quilómetros, até Fátima, como já é de tradição e de rotina. Pensam que o fazem por convicção pessoal. Não fazem. Fazem-no por força da tradição e da rotina. Também por mimetismo, que é uma doença contagiosa, estilo, "O meu vizinho prometeu ir a Fátima a pé, e toda a gente acha bem e o admira? Também eu vou fazer outro tanto". E, se, depois, as televisões dão cobertura a estes gestos, sem qualquer sentido crítico, então, cada vez haverá mais gente a enveredar por esse caminho. Até para cumprir a promessa feita de ir lá a pé, nem que seja pelo seu clube de futebol ter ficado campeão!
À chegada a Fátima, estes que andaram dias e dias a pé, apresentam-se com os pés abertos, cheios de bolhas, a sangrar, e os corpos a morrer de cansaço. Mas, se pressentem um microfone duma rádio por perto, ou uma câmara de televisão, ou uma simples máquina fotográfica, logo ostentam aquele ar pateta de pessoas felizes, as mais felizes do mundo. Como se a felicidade humana fosse sinónimo de sofrimento e de comportamentos irracionais, próprios de quem ainda vive tolhido pelo medo dos deuses e das deusas, esses míticos seres criados/imaginados pelos povos primitivos, dos quais ingenuamente se diz que são terríveis na vingança, quando se lhes promete certas coisas e, depois, não se cumpre o prometido!
Os jornais de hoje referem, também, que, ontem, terão estado em Fátima quinhentas mil pessoas. Outros, mais generosos, falam em 600 mil. Ou mesmo perto de um milhão. É à vontade do freguês. Como quer que seja, tenho de reconhecer que são números gordos, de encher o olho.
Tanta gente junta e com rostos vincadamente sofridos, prestam-se a grandes planos televisivos que fazem lembrar certos filmes norte-americanos com milhares e milhares de figurantes. E os "media" não perdem pitada num espectáculo assim. Do mesmo modo que não perdem um renhido jogo de futebol entre os chamados "grandes" (são grandes em tudo, até nas dívidas ao fisco e, sobretudo, na habilidade de fazerem dinheiro, vá lá saber-se como).
E que dizer desse momento final, em que toda aquela massa humana, de rosto sofrido, saca de um lenço branco que já leva no bolso preparado para o espectáculo, se desfaz em lágrimas, e acena, acena, acena, até que o braço lhe doa?
Os fanáticos de Fátima gostam de repetir que, nesse momento, até os mais empedernidos ateus, se lá estivessem, não resistiriam a chorar de comoção. Afirmam-no, como quem pensa que está a dizer uma grande coisa.
Não se dão conta de que o espectáculo a que se referem, é simplesmente a nossa vergonha, é a degradação da pessoa humana, é o ponto mais alto da degradação humana, precisamente, aquele em que já não há mais lucidez, nem capacidade crítica, nem racionalidade humana, tudo é pura alienação, alucinação, delírio, descontrolo, loucura colectiva, por isso, uma experiência humana nos antípodas da Fé cristã, dom de Deus, que é a plenitude da lucidez pessoal, da consciência pessoal, da responsabilidade pessoal, do autocontrolo pessoal, numa palavra, do bom senso e da dignidade do ser humano que se deixa habitar/dinamizar/fazer por ela.
Não nego que tanta gente junta em Fátima, por ocasião destes dias 13, de Maio a Outubro, faz pensar. Também a mim. Mas não no sentido em que costuma fazer pensar os eclesiásticos que fazem de Fátima o nervo da sua Fé católica. Desde logo, porque é muita gente, sim senhor, mas gente que vai lá e lá permanece, por umas horas, simplesmente atraída por uma tosca imagem de madeira, em forma de mulher, que as pessoas tomam como imagem duma mítica deusa.
É notório que os eclesiásticos, que gerem o santuário desta imagem da deusa de Fátima - uma imagem que as populações carenciadas imaginam viva, mas que não passa de pura mentira – mostram-se contentes e só não esfregam as mãos de satisfação, em público, devido a um certo pudor.
Mas, se calha de serem entrevistados por algum canal de televisão, logo aproveitam para realçar, não os chorudos lucros que a senhora de Fátima lhes garante – seria obsceno demais, se o fizessem – mas sim o que eles, mentirosamente, chamam de inequívoca manifestação de fé do nosso povo.
Tanto no que, então, dizem, como no tom em que o dizem, percebe-se de imediato que, também eles, estão a pensar no tal padre católico que não acredita em Fátima nem na sua senhora. O ar deles é de vencedores, como quem diz, Esse padre que ponha aqui os olhos e reconheça o poder de Fátima e da sua senhora.
Depois, com aquele ar de hipócrita piedade, em que sempre foram peritos os religiosos fariseus de todos os tempos, quase só lhes falta pedir publicamente ao referido padre que se arrependa do que tem dito e escrito e venha, ele também, a Fátima; que eles lá estarão para o acolher, abraçar, perdoar e fazer a festa.
Mas não têm essa sorte. Nunca a terão, pelo menos, enquanto eu estiver no meu perfeito juízo (certamente, já tinham percebido que o padre católico a que me estava a referir, sou eu próprio). Porque o que se passou ontem e anteontem em Fátima, com todas essas centenas de milhar de pessoas, mais me confirma na minha convicção de que tudo aquilo é mentira. Portanto, diabólico. Tudo muito religioso, sim senhor, mas diabólico.
Como diabólica é, de resto, toda a religião que leva as pessoas a buscar um Deus fora de nós, no céu, que as substitua e lhes valha nas aflições, que as mantenha no infantilismo e na idolatria, que as dispense de ser responsáveis perante a História, ou seja, que as dispense de tudo fazerem para mudar o rumo aos acontecimentos, nomeadamente, tudo fazerem para mudarem a actual Ordem Económica Mundial das Multinacionais, que fabrica pobres e pobreza a granel, como se fosse uma inevitável fatalidade, quando é uma opção de minorias privilegiadas que não cedem um milímetro nos seus privilégios, pelo contrário, louca e perversamente, cada vez mais querem que eles cresçam até ao infinito.
Tenho dito e aqui repito. Aquilo que ontem e anteontem se passou em Fátima não tem nenhuma marca de Deus, pelo menos, do Deus revelado em Jesus de Nazaré, o Crucificado/Ressuscitado. Desafio, daqui, qualquer teólogo cristão, qualquer bispo ou papa, a desmentir-me. Tem, isso sim, todas as marcas das míticas deusas e dos míticos deuses, cujos cultos públicos proliferaram no Império romano – ídolos que escravizam e humilham e sugam as suas devotas e os seus devotos – e que, hoje, são os deuses das Multinacionais e da sua perversa Ordem Económica Mundial.
Tem, portanto, todas as marcas da segunda "Besta" ao serviço da primeira "Besta" – o anti-Deus - de que fala o livro cristão Apocalipse, ou Revelação, à qual são atribuídos, mentirosamente, milagres espectaculares, sempre com o objectivo de enganar as populações mais carenciadas e mais sofredoras e, assim, as manter, resignadas, no seu mal (cf. Apocalipse 13).
Como essa segunda "Besta", também a senhora de Fátima é pura mentira. Faz que anda, mas não sai do sítio. Faz que fala, mas não pronuncia uma palavra. Faz que ouve, mas não tem uma reacção. Faz que se compadece, mas permanece na mais completa indiferença. É bem a imagem da Mentira e da Ilusão. Uma imagem que os pobres e carentes de todo o tipo, até de afecto e de realização sexual, olham fixamente e, de repente, como numa alucinada visão, parece-lhes que ela lhes fala, lhes sorri, os consola, e, sobretudo, os incita a sofrer com paciência e por amor dela, essa mesma que eles tratam, devotamente, como Nossa Senhora, isto é, Nossa Deusa.
(Não é por acaso que, em redor da imagem da senhora de Fátima, muito próximo dela, sempre se vêem, nestes dias de pública peregrinação, centenas e centenas de eclesiásticos celibatários, que a olham com excessos de devoção quase erótica, como inconsciente compensação pelo vazio de mulher, a que estão condenados, por força duma inumana lei de celibato obrigatório, que eles, entretanto, nem sequer se atrevem a denunciar e a colocar fora de validade!).
Só que uma Deusa assim, como a senhora de Fátima, não tem nada a ver com o Deus revelado em Jesus de Nazaré e em Maria, sua mãe carnal, porque este não suporta o sofrimento de ninguém e sempre se sente honrado quando o sofrimento é combatido até desaparecer de todas as suas filhas e de todos os seus filhos.
Uma Deusa assim como a de Fátima tem tudo a ver com a imagem da segunda "Besta", denunciada pelo Apocalipse cristão, a única que é capaz de se sentir honrada com multidões e multidões de seres humanos que rastejam, que andam de joelhos, que torturam o seu próprio corpo, que se privam de alimentos, que gostam de sofrer, e arruinam a própria saúde!
Decididamente, não vou por aí. E entendo que a Igreja católica, da qual sou presbítero, também não deveria ir. Não me canso de o repetir. E que me perdoem aquelas e aqueles que dizem que eu falo demais sobre este assunto. Mas como é que falo demais, se os responsáveis maiores da Igreja continuam a fazer orelhas moucas ao que eu digo e ao que dizem as Igrejas cristãs evangélicas, e não só não desistem de Fátima, como até correm ainda mais para lá? O que é demais não é Fátima e não são todas aquelas aberrações religiosas que lá se praticam?
Se – e nisso, está toda a gente de acordo – Fátima não faz parte do Credo católico; e, se uma pessoa continua a ser católica, mesmo que não creia em nada de Fátima, então por que é que os responsáveis maiores da Igreja católica, a começar pelos párocos e a acabar nos bispos e no papa de Roma, não abrem mão de Fátima? Por que insistem em manter-se lá? Por que continuam a dar cobertura àquela desumanidade e àquela vergonha? Por que continuam a dar-lhe tanta importância? Por que fazem com que até venha lá o papa de Roma? Por que beatificaram as duas crianças que, para mal delas, têm, agora, o seu nome para sempre ligado àquela vergonha, quando o que deveriam ter feito era declarar solenemente que elas foram vítimas dum Catolicismo deísta e idolátrico, muito em voga entre nós, nos começos do século XX, e que está nos antípodas do Cristianismo e da Fé cristã jesuánica? Por que continuam a incitar as pessoas a irem lá? Por que não evangelizam a sério as populações, para que elas, progressivamente, deixem de correr para lá? Por que vão, eles próprios, para lá em tão grande número e até realizam lá os seus principais encontros de trabalho e de reflexão? Como é que podem sentir-se bem num ambiente de tão cruel paganismo, nos antípodas da liberdade e da dignidade, que a Fé cristã desperta e promove?
Tanto interesse em Fátima, quando nada daquilo faz parte do Credo católico, pelo contrário, até é a sua negação, faz-me concluir que há grandes e inconfessados interesses eclesiásticos, em jogo, de que a Igreja católica não quer abrir mão. Nomeadamente, interesses financeiros e ideológico-moralistas.
Fátima é, para os responsáveis da Igreja católica – pelo menos, para alguns, também para o Vaticano - uma mina inesgotável. Com Fátima a funcionar, a Igreja católica não precisa de possuir poços de petróleo, nem minas de diamantes. Ganha mais com ela, do que muitos Estados com os poços de petróleo ou as minas de diamantes. E tudo praticamente sem esforço. Nem sequer tem de passar recibos. Nem tem de pagar impostos ao Estado. É tudo lucro.
Mas não só. Com Fátima assim tão frequentada, a Igreja pode sempre dizer ao Estado laico, que está aí para as curvas. Que os políticos e os governos vejam bem no que se metem, quando se lhe referem, porque ela tem contra eles, sempre que for necessário, aquele altar da "Besta", mentirosamente, toda poderosa, que pode acabar por derrubá-los, se não fizerem o jogo dela.
Não é, pois, por acaso que, à frente do santuário de Fátima, está um clérigo, com o título honorífico de monsenhor, e com provas dadas de eficiente empresário. E não qualquer empresário, desses de trazer por casa. Mas um empresário bem à altura da multinacional religiosa que é hoje o santuário da senhora de Fátima.
Como tem sido eficiente, é inamovível. Pode mudar o bispo da Diocese, que ele mantém-se. Como funcionário fiel e eficaz. Provavelmente, ainda hão-de promover a sua beatificação e canonização, pouco tempo depois da sua morte. Tanto dinheiro deu a ganhar à Igreja, que bem merece essa distinção póstuma!
Termino esta página do Diário-net, com um apelo. Haja modos, senhores eclesiásticos católicos. Haja modos, meus irmãos responsáveis maiores da Igreja. Acordem. Não se deixem impressionar pelos números de "peregrinos" que afluem a Fátima. Mais, muito mais, eram os peregrinos que afluíam à cidade de Éfeso e ao santuário da respectiva deusa Ártemis, no tempo do Apóstolo Paulo, no século primeiro do Cristianismo (cf. Actos 19). E Paulo não se deixou impressionar nem subjugar. Muito menos, correu a prostrar-se diante da imagem idolatrada pelos efésios. Resistiu à idolatria e anunciou o Evangelho jesuánico da liberdade, da dignidade e da responsabilidade de cada pessoa humana. Foi perseguido, mas é graças à sua fidelidade que hoje existimos como Igreja, e com a missão de anunciar e de viver esse mesmo Evangelho.
Em lugar de se impressionarem positivamente com tão elevado número de peregrinos a Fátima, aflijam-se. Porque tão elevado número é indicador seguro de que Fátima e a sua cruel senhora são, entre nós, não o Evangelho de Deus, vivido e anunciado por Jesus de Nazaré, o Crucificado/Ressuscitado, ao qual até a sua mãe, Maria de Nazaré, acabou por aderir, mas sim a sua negação e perversão.
Reconheçam que a mítica senhora de Fátima é a anti-Maria de Nazaré, mulher histórica que Deus ressuscitou. Como tal, não anda, não pode andar, por aí a meter medo a criancinhas portuguesas ou de outras nacionalidades.
Reconheçam que a senhora de Fátima é a imagem duma mítica deusa que, como todos os deuses que as populações em aflição imaginam e criam, devora quem, nessa situação de aflição, corre para o seu santuário.
O dinheiro que lá deixam e que vós recolheis e fazeis transportar para o Banco, em carros especiais de empresas de segurança, deveria queimar-vos nas mãos. Porque é sangue de populações em aflição, como o daquela pobre viúva do Evangelho, que foi levada a deitar no tesouro do Templo de Jerusalém a última moedinha que tinha para comprar comida. O gesto dela não foi um gesto livre. Foi um gesto cruel. Ela foi levada a isso por influência da catequese feita de mentira, com que os sacerdotes do Templo e os doutores da Lei bombardeavam e tolhiam as populações. Por isso, foi um gesto que, ao contrário do que vós tendes andado a ensinar, não colheu a aprovação de Jesus. O que fez foi despertar nele a ira e a indignação, ao ponto de o levar a fazer dumas cordas chicote e correr todos aqueles comerciantes do Templo para fora, ao mesmo tempo que promovia a sua simbólica destruição.
Acordem, meus irmãos responsáveis maiores da Igreja católica. Sabem tão bem como eu, que a via de Jesus de Nazaré – a via do Evangelho - é via de porta estreita, não de porta larga. Não é via para proporcionar grandes negociatas ao chamado turismo religioso, nem mesmo para adormecer e anestesiar populações cheias de carências de toda a ordem. É via para mulheres e homens dispostos a entregar-se, como Jesus de Nazaré, aos pobres e às suas causas, contra as Multinacionais que os fabricam e contra a Ordem Económica Mundial que lhes dá cobertura e mentirosa legitimidade. É via para mulheres e homens determinados a amar o seu próximo, amar até dar a própria vida para que a vida, sobretudo, a vida consciente e esclarecida, cresça nas multidões que sofrem todo o tipo de carências.
Reconheçam, meus irmãos, que Fátima é o contrário da via de Jesus, e que Maria sua mãe, felizmente, acabou por fazer sua também. Fátima é a porta larga do Catolicismo paganizado e idolátrico, do turismo religioso, das imagens que as populações carenciadas de tudo, tomam como amuletos e como ídolos, na ilusão de que as livra dos males. Não livra. Ainda lhes traz males maiores.
Deixem, por isso, de mostrar alegria com o que se passa em Fátima. Preocupem-se com o que lá se passa e abram-se ao Espírito Santo, para, com Ele, descobrirem como havemos de pôr fim a este desastre, a esta vergonha, a este manifesto anti-Evangelho de Jesus, a este manifesto anti-Cristianismo jesuánico. É hora, meus irmãos

Voltar ao menu DIARIO

Início Livros Publicados Textos do Fraternizar Dados Biográficos

e-mail de contacto
© Página criada 24 Maio de 2001