Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

6 Maio 2001

Enquanto o papa João Paulo II anda, nestes dias, em mais uma das suas múltiplas viagens mediáticas pelo mundo, desta vez, pelas terras da Grécia, que Paulo de Tarso, em seu tempo, tão bem conheceu, e que marcaram para sempre a sua vida (entre os países a visitar pelo papa, está Damasco, cujo caminho Paulo percorreu e onde, teologicamente, se situa a sua conversão do farisaísmo ao Cristianismo), a pequenina Comunidade cristã de base de Macieira da Lixa voltou a reunir-se ontem, em duas casas daquela freguesia do Concelho de Felgueiras.
Durante a tarde, na casa da Fatinha, no esquecido e abandonado lugar das Passarias. À noite, em casa da senhora Guida e do seu filho Dino, uma das famílias mais marginalizadas do lugar da Maçorra. Duas casas que, de tão pequenas e pobres que são, fazem logo lembrar a humilde casa de Nazaré, onde Jesus se criou e de onde saiu para a pública missão de Evangelizar os pobres, missão que, na altura, como é público e notório, se limitou ao interior do seu pequeno país – não andou a viajar, nem sequer entre os judeus da Diáspora! - mas que, ainda hoje, continua a revolucionar o mundo e a dar um sentido outro à História.
Os "media" não estiveram presentes nestes dois encontros da Comunidade cristã de base, ao contrário do que sucede com as viagens do papa. Não são encontros que lhes interessem, de tão pequenos e, aparentemente, insignificantes. E, no entanto, um e outro foram encontros cheios de Espírito Santo, a fazer lembrar os encontros de Jesus de Nazaré, no seu pequeno país, e sobre os quais as primitivas comunidades cristãs vieram, mais tarde, a escrever, sob a forma de Boa Notícia ou Evangelho, vários relatos completos, quatro dos quais fazem parte das nossas Bíblias cristãs, a saber, Evangelho de Mateus, Evangelho de Marcos, Evangelho de Lucas e Evangelho de João.
O dramático é que, volvidos todos estes séculos, os quatro relatos evangélicos continuam ainda, praticamente, por decifrar e, consequentemente, também por acolher, pela Humanidade, pelo menos, no que respeita a toda a sua força libertadora.
O que, hoje, deles se conhece, são leituras/interpretações mais ou menos fundamentalistas/moralistas, que distorcem por completo a Boa Notícia neles contida. Pelo que os relatos acabam por funcionar como um instrumento mais, de opressão das pessoas e dos povos, quando deveriam ser geradores da libertação mais radical e universal.
Mas o mais dramático, em tudo isto, ainda é constatarmos que as viagens do papa, apesar de tão mediatizadas e tão dispendiosas, em lugar de contribuírem para fazer a Humanidade perceber/acolher toda a Boa Notícia que se esconde/revela nesses quatro relatos, e que tem tudo a ver com a libertação/salvação dela e com a sua felicidade, só têm servido para dificultar ainda mais esta operação do Espírito Santo.
Porque, como Boa Notícia de Deus que é, sempre permanece escondida aos poderosos e aos hábeis do mundo, incluídos os poderosos e hábeis da Cúria do Vaticano. E só se dá a conhecer aos humilhados e excluídos por todos aqueles, quando estes, por sua vez, se abrem directamente a ela, enquanto protagonistas de pequenas comunidades reunidas em nome de Jesus. O que, até hoje, quase não tem acontecido, já que os humilhados e excluídos sempre têm sido levados a ver a sua condição de humilhação e de exclusão, como resultado da vontade de Deus, e não como resultado da vontade dos poderosos e dos hábeis do mundo, grandes eclesiásticos incluídos.
É por isso que as viagens do papa, a mim, não me dizem nada, não me edificam, nem me deixam com mais ganas de ser homem ao jeito de Jesus. Pelo contrário, até me deixam mais esmagado, como toda e qualquer manifestação do Poder, seja, nos arrogantes e obscenos desfiles de carros de combate, os mais sofisticados na tecnologia de matar rápido e eficaz, seja nos discursos carregados de ideologia dominante e obscurantista dos eclesiásticos e outras minorias privilegiadas, com o deus ou o rei na barriga, seja, como é aqui o caso, nas mediáticas viagens do papa, concebidas como manifestação, urbi et orbi, do poder monárquico e absoluto do Estado do Vaticano e do seu chefe, sistematicamente apresentado e olhado como se fosse o representante de Cristo na terra, quando, na verdade, não passa de um homem em tudo igual aos demais.
Aliás, pelas funções de poder absoluto e pretensamente infalível em que aceita estar investido, o papa tem tudo a ver, não com Jesus, o Cristo, sim com o seu contrário, uma espécie de anti-Cristo, de anti-Jesus, género, Querem saber como é Jesus, o Cristo?, então recolham-se por uns instantes e pensem num ser humano nos antípodas do papa e já estarão muito próximos dele.
Ao falar assim, não estou a inventar nada. Limito-me a ir por onde vai, por exemplo, o Evangelho de Mateus 25, 31-46, quando, depois de apontar diversas situações de grave carência, suportadas por pessoas de carne e osso, logo revela, Sempre que saístes libertadoramente ao encontro das pessoas caídas nessas situações, ou não saístes, foi a mim que o fizestes, ou deixastes de fazer!...
Ou seja, se quisermos falar em certas pessoas como representantes, na terra, de Jesus, o Cristo, logo havemos de pensar nos pobres e nas vítimas dos ricos e poderosos, nunca nos ricos e poderosos, como o papa, chefe do mais poderoso Estado do mundo, o Estado do Vaticano.
É verdade. Não me revejo nas viagens do papa. Não as aplaudo. Muito menos as aprovo. Se a Cúria do Vaticano, alguma vez, quisesse saber o que pensam os católicos do mundo sobre estas viagens, eu sempre responderia que são viagens anti-pastorais, por mais que ela nos tente convencer de que são viagens pastorais.
Este tipo de viagens do papa não ajudam nada a Causa do Evangelho de Jesus. Só a dificultam. Não edificam as pessoas e os povos. São obscena manifestação do poder eclesiástico romano. Contribuem para distrair as pessoas e os povos. Não interpelam as pessoas e os povos. Têm algo de exótico e tudo de espectacular. Não edificam espiritualmente ninguém. Muito menos a Cúria Romana que as promove e se promove com elas. São uma espécie de parábola ao vivo do Poder eclesiástico, por isso, de sinal contrario às parábolas que Jesus contou. São muito imperialistas, promovem o papa e o poder eclesiástico católico. Não nos remetem para Jesus de Nazaré, o Cristo. São uma operação anti-Cristo, por isso, nos antípodas das acções libertadoras de Jesus de Nazaré.
Mas a Cúria Romana não tem preocupações de ouvir a Igreja. O poder nunca ouve, muito menos, o poder eclesiástico. Só discursa. É autista. E o poder eclesiástico ainda mais do que o outro. É incapaz de gerar pessoas autónomas, livres e responsáveis. Só súbditos.
Por isso, falo daqui, protesto daqui, digo daqui que não me revejo nesta forma de ser Igreja e reconheço que ela tem tudo de anti-Evangelho de Jesus. Como tal, não evangeliza, não consciencializa, não desperta, não liberta. Distrai, esmaga, dissipa, gera frustrações. Sobretudo, deixa ainda mais sozinhas as pessoas e os povos. Como sempre sucede, quando o poder mostra toda a sua raça. Toda a luz que faz acontecer é de fora para dentro, estilo holofote contra os olhos. Destina-se a cegar os nossos olhos e a deixá-los ainda mais às escuras, depois de encerrado o espectáculo.
O Espírito Santo de Deus não anda nunca nestas obscenas manifestações de arrogância e de poder da Cúria Romana. Como não anda em nenhum poder, por maior que ele seja. Poder e Espírito Santo são realidades incompatíveis. Um exclui sempre o outro. Onde estiver um, não pode estar o outro.
A Cúria Romana deveria saber isto, já que é da mais elementar teologia cristã. Mas, se sabe, não vai por aí. Porque, no dia em que for por aí, morre como Cúria Romana, como sede do poder eclesiástico. Os monstros que são os mediadores históricos deste poder converter-se-iam em simples seres humanos. E aí, sim, o mundo seria edificado. Veria, de novo, a Boa Notícia de Deus feita acontecimento.
As viagens do papa são sinal de recusa desta conversão. São a persistência no poder, como meio de levar a Boa Notícia de Deus ao mundo. Como se, alguma vez, Deus fosse por aí. Não vai. E, se chegar a ir, é apenas na condição de vítima, de crucificado. Como sucedeu com Jesus de Nazaré.
Com o Poder, mesmo com o poder eclesiástico, Deus só pode estar crucificado, morto e sepultado. E, quando ressuscita é para de novo enfrentar o poder e dizer-lhe que ele não tem futuro, que ele não tem lugar num mundo plenamente humanizado, como é aquele para onde avançamos, apesar dele.
Desde que me conheço, tenho vivido longe do poder. Prefiro fazer-me próximo de todas as suas vítimas. Por isso vivo nas periferias, não nos centros. Dou-me bem com os últimos lugares. Entro nas casas dos pobres. É com eles que reparto do meu Pão e da minha Alegria. É deles que procuro fazer-me discípulo. Também falo e escrevo, mas procuro falar e escrever com língua de discípulo, não de mestre. O que falo e escrevo é o que oiço das vítimas do poder. Em vez de autista, procuro ser todo ouvidos, para poder ser todo palavra. Por isso, a palavra sai tão perturbadora e incómoda. Tão politicamente incorrecta. Tão eclesiasticamente incorrecta. A única forma de ser palavra humana. A palavra politicamente correcta é sempre a voz do dono, é discurso do poder, é palavra que domestica, aliena, distrai, dissipa, entretém, adormece e, em última instância, mata.
Por isso, os discursos do papa, as suas viagens mediatizadas, os seus gestos, até os seus sucessivos pedidos de perdão, os seus apelos à paz e as suas anunciadas orações pela paz, não mudam a realidade. Deixam-na como está.
Depois que o papa regressa ao Vaticano, tudo volta ao antes. Há muita agitação, durante as visitas, muita gente mobilizada, fazem-se missas com a presença de muitos milhares de pessoas, as televisões mostram e transmitem.
Porém, acabada a viagem, o mundo fica ainda mais às escuras, como depois de um relâmpago. As consciências das pessoas e dos povos não são atingidas. Apenas os olhos e os ouvidos. E, mesmo estes, são atingidos, mas para ficarem mais cegos e surdos, mais incapazes de ver a realidade e de ouvir os clamores das vítimas. Porque o poder tem sempre esse condão. Até os seus discursos matam. E os seus gestos, aparentemente mais altruístas, são assassinos. As pessoas e os povos aplaudem, a mãos ambas. Mas logo ficam sem mãos para os combates que têm de ser travados, se quisermos que a História continue aí como um processo de libertação para a liberdade. As mãos que aplaudem o poder são incapazes, depois, de ser mãos que fazem os combates de libertação.
Só entre as vítimas do poder, também do poder eclesiástico, é que podemos passar pela espantosa experiência dos nossos olhos e dos nossos ouvidos se abrirem e passarem a ver e a ouvir o que até então sempre nos era escondido e silenciado ou deturpado.
Foi uma experiência destas que Saulo de Tarso - depois, Paulo de Tarso - conheceu, quando, no auge do seu farisaísmo, tomou os caminhos de Damasco, munido de documentos dos chefes da Religião oficial de Jerusalém, que o autorizavam a perseguir e a prender as cristãs e os cristãos, que, lá, tinham já passado (páscoa) do farisaísmo para o Cristianismo, tinham já passado da Lei de Moisés, para o Evangelho libertador de Jesus, o Cristo, e da via do Poder que oprime e mata, para a via da Graça que liberta e ressuscita.
Esta experiência ficou teologicamente conhecida como "o caminho ou a estrada de Damasco". A generalidade das pessoas ainda hoje pensa que se tratou do caminho ou estrada, entendidos no sentido físico e geográfico. Não sabem que é uma experiência no mais íntimo da consciência de Saulo, que acabou por fazer dele Paulo e o maior apóstolo dos não-judeus de todos os tempos.
A viagem é interior. É no mais fundo da consciência que acontece. Assim como é na sua consciência, que Saulo, depois, Paulo, ouve a grande pergunta da Graça, não da Lei de Moisés, "Saulo, Saulo, por que me persegues?", a mesma pergunta que, por outras palavras, o mítico Caim do livro do Génesis ouviu, depois que matou o irmão Abel, "Onde está o teu irmão? Que fizeste do teu irmão?"
Graças a esta interpelação, escutada e acolhida por ele, Saulo/Paulo nasceu do Alto, isto é, dos perseguidos, das vítimas, em cujos corpos e em cujas dores sempre está presente o Espírito Santo de Deus, para testificar a favor delas, para as levantar contra a indignidade e a humilhação e a morte que o Poder sempre causa, numa palavra, para as ressuscitar e lhes dar razão.
Paulo passou, portanto, da Lei de Moisés à Graça de Cristo, do fanatismo à liberdade, da postura de cegueira e de obscurantismo à postura de olhos abertos e de Modernidade, numa palavra, da morte à vida.
A mudança foi de tal profundidade, que Paulo dirá mais tarde: O que até então eu tinha como valor, passei a considerar como esterco. E, entre aquelas realidades que ele tinha como valor, e que passaram a esterco, estão o Poder, a Lei (de Moisés), o privilégio, a arrogância, o considerar-se mais puro e mais santo do que todas as outras pessoas judias e não judias.
Foi também assim que Saulo/Paulo passou de perseguidor, a perseguido, aliás, a única forma de se ser verdadeiramente humano, enquanto durar um tipo de sociedade como a actual, em que o Poder e o Dinheiro continuam a ser os valores maiores, os deuses mais cultuados, mais idolatrados. E os ricos e os poderosos, os seus mediadores e representantes máximos.
Ao recordar todas estas coisas neste dia, pode parecer que elas não vêm nada a propósito. Se eu estou, aqui, a comentar a viagem do papa à Grécia e aos locais por onde Saulo/Paulo andou, numa espécie de réplica do que este apóstolo protagonizou, vai para dois mil anos, a que propósito vem este aparente desvio?
Para mim, vem tudo a propósito e não se trata de um desvio da rota que me propus. Pelo contrário, é a melhor rota. Porque, a esta luz, tenho de dizer que a viagem do papa, embora possa coincidir com a de Saulo/Paulo, outrora, tem ainda tudo a ver com a viagem do fariseu Saulo, e nada a ver com a misteriosa viagem interior que fez esse mesmo Saulo passar do farisaísmo ao Cristianismo, da Lei à Graça, do Poder à Liberdade, de Moisés a Cristo.
Porque é como poder que o papa saiu do Estado do Vaticano, meteu-se no avião e foi aterrar naquelas paragens. É como chefe de Estado do Vaticano, que ele é recebido com honras militares e passa revista à guarda de honra que o aguarda nos aeroportos. É como chefe e porta-voz da tenebrosa Cúria romana que ele se dirige às pessoas e aos povos.
A sua presença causa admiração e medo. Não desperta liberdade e responsabilidade. Faz súbditos e adoradores, não faz nascer cidadãos. Durante a visita, assume gestos mais ou menos espectaculares e mediáticos, que causam assombro, não desperta mudanças de vida, não abre processos pessoais e colectivos de libertação.
Acabado o espectáculo – nem que se lhe chame missa, é sempre um espectáculo de massas, como o futebol e até costuma realizar-se no mesmo estádio onde, dias antes e dias depois, têm lugar os espectáculos de futebol – as pessoas e as populações regressam as suas casas, sem que os seus olhos e os seus ouvidos se tenham aberto, sem que se tenham tornado cidadãos de corpo inteiro, que logo dispensam as minorias que, hoje, as dirigem e orientam, as governam e dominam.
Pelo contrário, quando regressam a casa, as pessoas e as populações vão ainda mais convencidas de que são nada e que o papa é que é tudo, de que o poder do Estado do Vaticano é muito grande, tão grande, que consegue vergar toda a gente, vencer todas as resistências ao seu aparecimento e à sua passagem, e impor a sua presença a todos os povos, mesmo àqueles que não têm nada ou quase nada a ver com o catolicismo romano.
Paulo de Tarso andou, vai para dois mil anos, por aquelas terras que o papa visita nestes dias. Damasco, por exemplo, foi o lugar teológico onde Paulo "caiu" do cavalo do poder, ficou "cego" para executar as ordens do Poder, nomeadamente, para perseguir, prender e matar cristãs e cristãos. Foi o lugar onde Paulo "viu" e "ouviu" Jesus, o Cristo, na pessoa daquelas e daqueles que ele furiosamente perseguia. Os clamores e as aflições das perseguidas e dos perseguidos, finalmente, fizeram-se ouvir por Saulo/Paulo. E ele deixou-se abalar nas suas entranhas, converteu-se, nasceu do Alto, nasceu de novo.
O papa percorre, nestes dias, os mesmos caminhos de Paulo, mas, que se saiba, ainda não caiu do cavalo do poder, não renunciou ao poder. É como chefe de Estado do Vaticano, é como papa infalível, é como detentor da Verdade, é como chefe da Igreja que se tem na conta de ser a única verdadeira, que ele anda por lá. Tal como Saulo que, antes da sua metanoia, da sua conversão, era o chefe do fanatismo fariseu, também o papa é, hoje, o chefe do fanatismo católico, do farisaísmo católico, e é, neste estatuto, que ele se mostra por aquelas paragens. Não é o discípulo-mor de Jesus Crucificado/Ressuscitado, investido no serviço de Pedro, que há-de confirmar as suas irmãs e os seus irmãos na Fé!
Os "media", propriedade dos grandes potentados ou multinacionais que hoje dominam o mundo, fazem a cobertura destas viagens do papa. Gostam delas. Não gostaram, no tempo de Paulo, das viagens apostólicas que ele fazia, porque ele ia, sem guarda costas, Evangelizar os pobres, não ia ostentar o Poder eclesiástico católico. E a prova é que o prenderam várias vezes e acabaram por o condenar e matar à espada, enquanto o papa é recebido com todas as honras militares devidas a um chefe de Estado.
Destas viagens do papa, os "media" gostam. E todos os dias no-lo mostram com iniciativas, objectivamente, ingénuas, mas que eles classificam de "históricas". Convém-lhes uma Igreja católica assim, à imagem e semelhança da Cúria Romana, à imagem e semelhança das multinacionais.
Afinal, que diferença há entre estas mediatizadas viagens do papa e as viagens dos outros chefes de Estado ou de Governo, seja dos EUA, seja da Inglaterra, seja da França, da Alemanha, ou da China? Todas são escabrosas manifestações do Poder, para que os indivíduos e os povos se sintam cada vez mais pequeninos, indefesos, ninguém.
Uma das iniciativas, classificada como "histórica" pelos "media", foi o ingresso que o papa acaba de fazer numa mesquita, dum dos países que está a visitar, nestes dias. Dizem que o papa foi lá rezar. E que é a primeira vez que um papa entra numa mesquita.
O episódio não tem nada para ser classificado de histórico. Tem tudo de espectacular. E até de infantil. É como se o papa fosse uma criança grande, que gosta de ser fotografado, filmado, teledifundido em directo para todo o mundo. É o papa que interessa aos "media". É a sua figura. É o culto à sua pessoa. À sua função. Porque, na pessoa dele, é o Poder, todo o Poder, que é filmado, fotografado, teledifundido para todo o mundo.
Para o papa visitar uma mesquita e rezar no seu interior (mas que Deus é este, que precisa que as criaturas se lhe dirijam e o convençam a intervir a seu favor? E que ouve melhor as preces do papa, se ele as fizer no interior duma mesquita, longe da sua residência habitual e com as televisões do mundo a captar e a difundir em directo?), era preciso sair de Roma, fazer todo este espectáculo, gastar todo este dinheiro (por quanto fica cada viagem papal?!), obrigar a mobilizar milhares de polícias, em cada país, que garantam a sua segurança, sobretudo, quando ele sai do papamóvel, fabricado à prova de bala? O papa não podia fazer isso, ali ao pé da porta, em Roma? E não podia fazê-lo com toda a simplicidade, longe dos holofotes das televisões do mundo?
Quem é capaz de imaginar Jesus de Nazaré, neste papel do papa? É verdade que Jesus de Nazaré também esteve, no final da sua vida histórica, nos palácios dos poderosos – do sumo sacerdote Caifás, do rei Herodes e do governador romano, Pôncio Pilatos - mas é também verdade que esteve apenas na condição de preso, para ser julgado e condenado por todos eles, como blasfemo, louco e malfeitor/subversivo!...
Há, então, alguma semelhança entre Jesus de Nazaré, o Crucificado/Ressuscitado e o papa, chefe de Estado do Vaticano? A diferença entre ambos não é total? Os dois não estão nos antípodas um do outro?
Por isso, a quem interessa um papa assim? Aos pobres e aos excluídos do mundo? Não interessa apenas aos ricos e poderosos do mundo, que assim se sentem não só apoiados, na sua condição de riqueza e de poder, mas até, simbolicamente, justificados e abençoados?
Por outro lado, que resultados práticos se alcançam com estas espectaculares viagens do papa? Pode dizer-se que vem daí mais paz ao mundo? Mas quem faz caso dos patéticos apelos à paz do papa? E pode o papa, enquanto chefe de Estado do Vaticano, fazer coerentes e eficazes apelos à paz? Não foi o Vaticano que mais guerras fez no passado? E não está, ainda hoje, estruturalmente contra a paz? Não é verdade que é um dos poucos Estados que ainda não foi capaz de assinar, por exemplo, a Declaração Universal dos Direitos Humanos? Não é um Estado, cujo chefe não é eleito por sufrágio directo e universal, e que a si próprio se considera infalível? Não é um Estado que faz todo o tipo de guerra ideológica contra a Modernidade, contra a liberdade de consciência individual, contra a investigação científica e teológica? Não é um Estado que persegue até à excomunhão, os seus opositores, os seus críticos, quando estes, em nome duma teologia libertadora, o contestam e muito justamente reclamam o seu fim? Não é um Estado que persiste em perpetuar-se, mas à total revelia do Evangelho, o qual o seu chefe invoca vezes sem conta, para os outros, mas que ele próprio não é capaz de viver até às últimas consequências?
Mais. Ao rezar pela paz, nestas viagens cheias de espectáculo, o papa não está a deixar nas pessoas e nos povos a falsa convicção de que ela resulta dessas orações, quando a paz, a verdadeira paz, é apenas fruto da justiça e, como tal, fruto duma outra economia, duma outra política e duma outra cultura? Se a paz dependesse de Deus, não é verdade que sempre viveríamos em paz?
Mas como pode haver paz, se os ricos e poderosos, entre os quais também se inclui o Estado do Vaticano, para o poderem ser, precisam das guerras como do pão para a boca? Rezar pela paz, não é deixar a impressão nas pessoas e nos povos de que ela depende de Deus e não dos Estados? Não é desresponsabilizar os Estados beligerantes e fortalecê-los ainda mais nas suas posições belicistas?
Comecei por dizer, na abertura desta crónica/diário, que, enquanto o papa anda perdido em mais uma das suas múltiplas viagens mediáticas, a pequenina Comunidade cristã de base de Macieira da Lixa realizou ontem dois encontros em outras tantas casas pobres daquela freguesia, uma do lugar das Passarias e outra do lugar da Maçorra.
Os "media" não estiveram lá. Mas, felizmente, esteve lá o Espírito Santo, essa misteriosa Força criadora e libertadora de Deus, que levanta os humilhados e enche de bens os famintos, ao mesmo tempo que derruba os poderosos dos seus tronos e despede de mãos vazias os ricos. Para que, finalmente, possamos viver numa terra de fraternidade/sororidade universal, onde as pessoas, todas as pessoas, são tratadas como tal e a sua vida se desenvolve, segundo as capacidades de cada uma, para proveito de toda a Humanidade.
Também estive presente, num e noutro destes encontros. Na minha qualidade de presbítero sem ofício pastoral oficial, mas, mesmo assim, ungido/consagrado para Evangelizar os pobres.
Na casa da Fatinha, começa a ganhar forma uma nova Comunidade cristã de base local. Curiosamente, é uma Comunidade quase só de mulheres. Onde as crianças também têm importância. Não como protagonistas, evidentemente, mas como desafio.
Por muitos anos que ainda viva, nunca mais esquecerei o Pedro desta Comunidade incipiente, nos seus três anitos, olhos vivos e desafiadores, corpo carregado de futuro, ainda que vestido de quase andrajos, sorriso acolhedor e interpelativo.
No Pedro, a Comunidade começa a ver todas as crianças do lugar que vivem por lá em regime de semi-abandono, sempre na rua, sem nada nem ninguém que as congregue, as eduque, puxe por elas, as desperte, faça sair de dentro delas todas as capacidades que lá estão como em semente.
Quando lá cheguei, a Comunidade já estava congregada. Constituída quase só de mulheres e de crianças, é uma Comunidade como Jesus gosta. Precisamente, aquelas pessoas que não contam para nada, nos tradicionais esquemas dos sistemas de poder.
Os próprios Evangelhos sinópticos sublinham, numa clara denúncia do ambiente sócio-cultural em que viviam as Comunidades que os escreveram, que, nas vezes que Jesus expropriou os pães e os peixes (é o que significa a expressão "abençoar os pães e os peixes"), os partiu e repartiu pela multidão, as mulheres e crianças não eram sequer contadas! Porque, nesse ambiente, não valiam como gente! Só os homens valiam e contavam!
Entretanto, são esses mesmos relatos evangélicos que, depois, não se inibem de dizer que as mulheres são as primeiras a testemunhar Jesus Ressuscitado, como apóstolas dos apóstolas, portanto, aquelas sobre cuja Fé se edifica a Igreja de Jesus. É o que está a acontecer no lugar das Passarias da freguesia de Macieira da Lixa, com esta nova Comunidade cristã de base nascente.
Logo que cheguei, integrei-me na conversa que já decorria. Fiz algumas perguntas. Lancei algumas questões. Formulei desafios. E, depois de colocar o Pão, em forma de regueifa, sobre a mesa, abri o Evangelho de Lucas e passei a ler:
"Num daqueles dias, Jesus entrou no barco com seus discípulos e disse-lhes: Vamos para a outra margem do lago! E partiram. Enquanto navegavam, Jesus dormiu. Abateu-se então uma ventania tão forte sobre o lago, que o barco ia-se enchendo de água e eles corriam perigo. Eles dirigiram-se a Jesus e acordaram-no, dizendo: Mestre! Mestre! Estamos perdidos! Ele acordou e deu ordens ao vento e à fúria das águas. E a tempestade parou e veio a calmaria. Então disse aos discípulos: Onde está a vossa fé? Cheios de temor e admirados, eles diziam uns para os outros: Quem é este que dá ordens aos ventos e à água e obedecem-lhe?" (8,22-25).
Depressa, o relato abriu as inteligências das pessoas congregadas em nome de Jesus. O barco, lá, é a própria comunidade que está a nascer. Desde início, está desafiada a passar para o outro lado. Para o lado dos mais pobres, dos Ninguéns. No meio, como obstáculo, há um mar de dificuldades. Ou não fosse verdade que os pobres não costumam ser aposta de ninguém que queira mudar o mundo e a vida. Quando muito, são objecto de caridadezinha. Para ajudar os donos de certas instituições a enriquecer à custa da pobreza deles. Com a agravante de esses tais ainda ficarem com a fama e o proveito de benfeitores.
Passar para o lado dos pobres e olhá-los como sujeitos, como protagonistas da própria libertação, é muito complicado. Começa por dar medo. Muito medo. Para o vencer, é preciso muita fé. Essa fé que faz ver o invisível. E remove montanhas. Uma Fé que Jesus de Nazaré e o seu Espírito despertam nos próprios pobres e que os torna, social e politicamente, incómodos, subversivos, criadores de alternativas à Ordem estabelecida, que, impunemente, os fabrica.
O debate alarga-se a todas as pessoas presentes. Mesmo àquelas que estavam ali pela primeira vez. São apontadas situações de carência que nos desafiam. É um mar delas. Tantas, que apetece desanimar. Ficar do lado de cá. Não meter pés a caminho. Deixar tudo como está. Ou ir a correr por subsídios à Segurança Social, como agora está na moda, no nosso país.
Entre as múltiplas situações que exigem intervenção, sobressai a situação das crianças semi-abandonadas do lugar. Com destaque para o Pedro, ali presente, como figura central do encontro. Somos convidados a olhar bem para ele, olhos nos olhos. Ele sente-se intrigado. Nunca antes tinha sido objecto de tamanha atenção e de tamanho carinho.
Da conversa, salta uma resolução: as pessoas não descansarão, enquanto não encontrarem um espaço, no lugar, para congregarem as primeiras crianças e criar com elas actividades que as promovam, as soltem, as façam crescer em idade, estatura, sabedoria e graça. Tal como aconteceu com Jesus. Para que, amanhã, sejam mulheres e homens do mesmo jeito dele. O único jeito de alguém ser verdadeiramente humano.
É então que as pessoas da comunidade que está a nascer neste lugar das Passarias, percebem que o mar e a tempestade de que fala o Evangelho de Lucas, assim como os ventos contrários, eram realidades em tudo idênticas às que elas encontram ali.
O relato de Lucas é, então, uma parábola teológica, não é um relato jornalístico, para ser tomado à letra. Não é um relato sensacionalista, espectacular, daqueles que os "media" tanto gostam e que o papa protagoniza nas suas viagens, totalmente estéreis, em termos de libertação da Humanidade.
Perceberam também que a Fé, de que fala o relato, é a Força criadora e libertadora que vem directamente de Deus, e que, nas pessoas onde se manifestar, as leva a fazer frente ao mar de obstáculos e a derrotar os ventos contrários à libertação. É esta Fé que se espera ver despertar/crescer nas pessoas que estão agora a criar a Comunidade cristã de base do lugar das Passarias. Assim elas se abram ao Espírito Santo, como Jesus se abriu, em lugar de se deixarem intimidar pelas dificuldades, enormes, e pelos ditos (ventos) contrários que vizinhos e familiares vão certamente proferir (soprar) contra qualquer iniciativa que tenha as populações pobres e marginalizadas como protagonistas. A Fé vence o medo. Ao contrário da Religião que se alimenta do medo. A Fé cristã espanta o medo. Espanta os deuses que o medo cria e alimenta.
Por isso, com a Comunidade cristã de base, que está a nascer em casa da Fatinha, o lugar das Passarias nunca mais será o mesmo. Deus está a passar (Páscoa) por lá. Como passou na Palestina, em Jesus de Nazaré. Os olhos das pessoas em situação de aflitiva carência e de desprezo, vão-se abrir. Os ouvidos também. As bocas caladas e mudas vão falar. Os pés parados vão andar. As mãos vão agir. Até os mortos vão ressuscitar.
Tudo ao contrário do que acontece com as viagens do papa. Porque, enquanto nestas é o Poder eclesiástico que se afirma, na Comunidade cristã de base que está a nascer, em casa da Fatinha, são os pobres que ouvem e acolhem o Evangelho de Jesus e, com ele, o Espírito Santo. E vão assumir-se como sujeitos, para fazerem novas todas as coisas.
Quando, no culminar do encontro, a Fatinha, a Laura e eu, em conjunto, tomámos o Pão e o Partimos, em memória de Jesus, para ser comido por todas as pessoas participantes, também pelo menino Pedro, não só alimentámos os nossos corpos, cujos membros são chamados a combates de libertação e de transformação, mas também nos constituímos num só corpo. Disposto a dar a cara, a dar os passos que forem necessários, até que as crianças comecem a ser sujeito de actividades que hão-de ser para elas como a parteira que as ajudará a ser cada vez mais elas próprias, num crescimento que há-de ser também para a liberdade e para a alegre entrega das suas vidas, amanhã.
Quando, a finalizar o encontro, cantámos/dançámos, "Nossa alegria é saber que um dia / todo este povo se libertará / pois Jesus Cristo é o senhor do mundo / nossa esperança realizará", quase já nem era preciso. Porque a música e a dança já nos possuíam por dentro. Por isso o cântico saiu-nos com tanta naturalidade e alegria. Numa comunhão eucarística que não tem nada a ver com a hóstia das missas dominicais, que os párocos pousam na língua das pessoas que dele se aproximam, em fila indiana, como escravos diante do seu senhor todo poderoso. E que, em lugar de ser Pão que ressuscita as pessoas para os combates a travar para mudarem o mundo e a História, as paralisa no conformismo reinante e até as mata. Como já, no seu tempo, reconheceu o próprio Paulo, numa das cartas que endereçou às cristãs e aos cristãos de Corinto (cf. 1 Cor 11, 25-34).
Em casa da senhora Guida e do seu filho Dino, no lugar da Maçorra, o encontro foi também inesquecível, mas de teor bastante diferente, dado que aqui, ainda se não põe sequer a hipótese de nascer uma nova Comunidade. Para já, o encontro surge mais na linha da missão de Evangelizar os pobres, que cabe à Comunidade cristã de base, enquanto tal.
Surpreendentemente, a Fatinha e uma outra companheira da Comunidade que está a nascer nas Passarias, fizeram questão de também ir lá participar. Como quem já sente o chamamento à missão de Evangelizar os pobres e começa a responder afirmativamente.
A pedido delas, fui, na carrinha, buscá-las ao lugar. E elas juntaram-se a outros elementos da Comunidade cristã de base-mãe, coordenada pela Laura, constituída no ministério de presbítera, ainda que não canonicamente ordenada pelo Bispo para esse serviço. Coisa absolutamente impossível, hoje, mas não amanhã, quando a Igreja do Vaticano II tiver verdadeiramente erradicado a Igreja Cristandade que vem desde o século IV.
Desta vez, duas das três filhas da Guida, as mais velhas, não puderam estar presentes. Era sábado e tinham compromissos com os respectivos namorados. Quem sabe se, um dia, por acção delas, até eles vão querer também ficar com elas e entrar nesta via de libertação para a liberdade que é a Comunidade cristã de base e a Fé cristã jesuânica. Esteve e participou a mais nova.
Também esteve a Rita, uma adolescente/jovem da cidade da Lixa, amiga da Cristina, filha da Laura. Passou a tarde com ela e acabou por a acompanhar ao encontro e participar. Creio que nunca mais irá esquecer o que viu e ouviu.
Quisemos saber e partilhar notícias do Dino e do evoluir da sua doença. Desde o último encontro, lá, há menos de uma semana, houve passos que já foram dados. Estará, por isso, mais próxima a indispensável intervenção cirúrgica, o que nos alegra a todas e todos.
Mas o mais decisivo do encontro, foi, como não podia deixar de ser, a proclamação da Palavra criadora e libertadora de Deus, sob a forma de Evangelho. E a compreensão que tivemos dela, no decorrer da celebração informal.
"Num dia de Sábado – comecei eu por proclamar/actualizar o relato que vem no primeiro volume do Evangelho de Lucas (14, 1-14) – Jesus foi comer a casa de um dos chefes dos fariseus. Estes observavam-no. Havia ali um homem hidrópico diante de Jesus. Tomando a palavra, Jesus falou aos especialistas na Lei (de Moisés) e aos fariseus: A Lei permite ou não curar em dia de sábado? Mas eles ficaram em silêncio. Então Jesus tomou o homem pela mão, curou-o e mandou-o para casa. Depois disse-lhes: Se a alguém de vós, um filho ou um boi cair num poço, não o irá logo retirar, mesmo em dia de sábado? E eles não foram capazes de responder a isto.
Jesus notou como os convidados escolhiam os primeiros lugares. Então contou-lhes uma parábola: Se alguém te convidar para uma boda, não ocupes o primeiro lugar. Pode ser que tenha sido convidado alguém mais importante do que tu; e o dono da casa, que convidou os dois, venha dizer-te: Dá o lugar a este. Então, ficarás envergonhado e irás ocupar o último lugar. Pelo contrário, quando fores convidado, vai sentar-te no último lugar. Assim, quando chegar quem te convidou, dir-te-á. Amigo, vem mais para cima. E isso vai ser uma honra para ti, na presença de todos os convidados. De facto, quem se eleva será humilhado e quem é humilhado será elevado.
Jesus disse também ao fariseu que o tinha convidado: Quando deres um banquete, não convides amigos, nem irmãos, nem parentes, nem vizinhos ricos. Porque eles irão, por sua vez, convidar-te. E isso será para ti uma recompensa. Pelo contrário, quando deres um banquete, convida pobres, aleijados, coxos e cegos. Então serás feliz, porque eles não te podem retribuir".

No contexto eclesial da viagem do papa, em curso nestes dias, este relato de Lucas é deveras surpreendente e revela quanto as viagens do papa são anti-Evangelho de Jesus. Aqui, tudo é diferente do que o papa insiste em fazer, nessas viagens, e não só, também no seu dia a dia papal.
As pessoas da Comunidade que escutaram o relato, em casa da Guida e do seu filho Dino, também se deram conta disso. Embora não nos tenhamos perdido a fazer comparações e confrontos. Faço-o eu, aqui e agora, porque me parece mais oportuno e fecundo, como anúncio da Boa Notícia aos pobres.
Desde logo, um reparo. As traduções em português, mais frequentemente utilizadas pela nossa Igreja católica, traem com gravidade o texto original. Falam, logo a abrir, que Jesus entrou em dia de sábado em casa de um dos chefes dos fariseus "para comer uma refeição". E não é verdade.
O original refere que Jesus foi "comer pão" a casa de um dos chefes dos fariseus. Não diz que foi comer uma refeição. Se a expressão "comer pão", aparecesse nas nossas traduções, certamente que estranharíamos o pormenor, e logo nos interrogaríamos sobre o significado de tão inusitada expressão, atribuída a uma acção protagonizada por Jesus. Com isso, poderíamos sair a investigar e concluiríamos que, afinal, a expressão "comer pão" é o mesmo que "ensinar doutrina", e não necessariamente comer uma refeição.
Com este pormenor, tudo muda de figura na compreensão do relato e no conteúdo da Boa Notícia que ele esconde/revela. E faz dela uma Boa notícia que interessa, antes de mais, aos pobres, certamente, representados no homem hidrópico (= inchado de água = da letra da Lei), que está ali diante de Jesus e que logo se torna o centro das atenções de todos, devido à palavra/doutrina de Jesus, a qual, ao contrário da fundamentalista e moralista palavra/doutrina dos fariseus, sempre se apresenta carregada da força do Espírito que liberta/cura as pessoas, nem que seja em dia de sábado.
Atentemos, pois, na Boa Notícia que Jesus é para os pobres e, neles e por eles, para toda a Humanidade. Ao contrário dos fariseus, sobretudo, dos seus chefes, Jesus é portador duma doutrina ("comer pão") que liberta e cura as pessoas, tornadas doentes, inchadas, estéreis, oprimidas, à medida que frequentam a sinagoga, onde é ensinada a doutrina dos chefes dos fariseus.
Por outras palavras: Deixar-se guiar pela doutrina dos fariseus, é ficar doente, oprimido, inchado, considerar-se superior aos demais, é tornar-se uma espécie de monstro, a desumanidade em pessoa. Deixar-se guiar pela doutrina de Jesus, é experimentar a libertação mais radical, é tornar-se autónomo (= ir para sua casa, diz o relato), é ficar em condições de dispensar os chefes e as suas orientações, é tornar-se sujeito, protagonista, senhor dos próprios destinos.
O relato contém um outro pormenor, extremamente eloquente, e que nunca nos têm ajudado a descobrir, embora seja um pormenor que faz parte da Boa Notícia que Jesus de Nazaré é para os pobres e, neles, para toda a Humanidade.
Apresenta-nos Jesus a ir à casa de um dos chefes dos fariseus. Não vai, pura e simplesmente, para comer uma refeição, como parece deduzir-se da tradução portuguesa do original grego. Vai lá discutir teologia, vai confrontar a teologia ou doutrina dos fariseus com a realidade mais real, que é a vida dos pobres e que eles, em lugar de libertarem e aliviarem, ainda sobrecarregavam cada vez mais com todo o tipo de leis e preceitos, um nunca mais acabar, e que tornava a vida dos pobres, da sociedade judaica do tempo de Jesus, um pesadelo e um inferno.
Jesus não foge à polémica. Provoca-a. Por amor dos pobres. E para a libertação dos pobres. Para Jesus, a teologia ou é de libertação dos pobres e dos oprimidos, ou não é teologia. É ideologia, é ideolatria, culto duma ideologia moralista de dominação que se disfarça de teologia.
O espantoso é que Jesus entra no reduto de um dos chefes dos fariseus que, por sua vez, se fez rodear de outras sumidades na Lei de Moisés, e argumenta, com invulgar inteligência libertadora, contra o dogmatismo e o fundamentalismo de todos eles. Deixa-os sem pio!
Depois, vai ainda mais longe e desafia-os a mudar radicalmente de vida, para poderem mudar também radicalmente de pensar e de doutrina teológica. Convida-os, então, a buscar os últimos lugares, na sociedade, em vez de buscarem os primeiros lugares, que era o que eles sempre faziam e, ainda hoje, os seus sucessores continuam a fazer, seja nas Igrejas, seja nos partidos políticos, seja nas estruturas do Estado, ou em qualquer instituição. Sempre criamos hierarquias e corremos a ocupar os primeiros lugares. Quando, o que as sociedades precisam é de quem se faça irmã e irmão universal e, por isso, corra a ocupar os últimos lugares; do que as sociedades precisam é de quem compreenda que ser grande é fazer-se pequeno com os pequenos, e que ser o primeiro, é fazer-se último com os últimos.
Mas como é que esta Boa Notícia de Deus sobre a Humanidade verdadeiramente humana há-de passar para a economia e para a política, para a sociedade e para a cultura, se as próprias Igrejas cristãs, com destaque para a católica romana, procedem, hoje, como os fariseus e não como Jesus?
Pensemos um pouco. Afinal, não anda o papa, estes dias, em mais uma das suas mediáticas viagens, a exigir que o tratem em toda a parte, como o primeiro e não como o último? Não é ele recebido como o chefe de Estado do Vaticano? Alguma vez, em todos estes anos, o papa foi capaz de renunciar ao poder e fazer-se o último com os últimos deste mundo? Não se tem até na conta de alguém especialmente protegido por uma misteriosa mão divina que, em caso de atentados, desvia a bala, para que esta sadicamente o fira e o deixe em risco de vida, mas não o mate?!
O relato evangélico de Lucas vai ainda mais longe e mais fundo. Diz aos fariseus de todos os tempos e lugares, também aos eclesiásticos de hoje, que morram para o fundamentalismo/moralismo que os mata e faz deles assassinos das pessoas que vivem sob a sua perversa e nefasta influência anti-Modernidade. Diz-lhes que morram para os privilégios que uma opção pelos ricos e poderosos sempre garante, neste mundo, e ousem fazer uma consequente opção pelos pobres, aleijados, coxos e cegos, as únicas categorias de pessoas que Jesus explicitamente refere que hão ser convidadas por eles para a sua mesa, isto é, as únicas categorias de pessoas com quem eles haverão de manter proximidade, intimidade, comunhão efectiva e afectiva de vida, tudo isso que o sentar-se à mesma mesa, significava então na cultura judaica.
A Comunidade cristã de base de Macieira da Lixa ouviu esta Boa Notícia no interior da pequena casa da Guida e do seu filho Dino, uma das famílias mais marginalizadas no lugar da Maçorra, daquela freguesia do concelho de Felgueiras. À mesma hora em que o papa João Paulo II andava de viagem por diversos países que, há quase dois mil anos, foram evangelizados por Paulo, depois que ele "caiu" abaixo do cavalo do Poder, concretamente, do cavalo do farisaísmo/moralismo e se converteu em outro Cristo, ao jeito de Jesus de Nazaré, o último dos últimos, o maldito por antonomásia, que tal era a condição de quem acabava crucificado, como ele acabou.
Ouviu-a e quantas e quantos a acolhemos, dissemo-nos dispostos a ser/viver em conformidade. Somos comunidade cristã de base na Igreja católica. Mas não renunciamos a fazer de Jesus de Nazaré o nosso único mestre. E só desejamos que o papa, quer o actual, quer os que lhe sucederem, em lugar de pretenderem ser os mestres da Humanidade, ousem ser discípulos deste único mestre que liberta/cura quem frequenta a sua "escola" e vive a sua teologia de libertação.
Se o forem, viverão até às últimas consequências a opção pelos pobres, ou seja, abandonarão, duma vez por todas, os palácios da Cúria Romana, renunciarão a ser chefes do Estado do Vaticano, e viverão, como últimos entre os últimos do mundo de hoje. Provavelmente, os grandes "media" não quererão saber deles nunca mais. E, se alguma vez os focarem, é para os mostrar na condição de presos, de réus, de condenados à morte, e de executados pelos ricos e poderosos do mundo, de quem eles deliberadamente se afastaram, para partilharem todo o seu tempo e todas as suas capacidades com as inúmeras vítimas desses mesmos ricos e poderosos, entre as quais ergueram a sua tenda e vivem na máxima proximidade, na máxima intimidade, na máxima comunhão. Incrivelmente felizes, porque também incrivelmente libertos para a liberdade.

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