Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

25 Junho 2001

Major-general. Por mais estranho que pareça, este título militar é de um bispo católico português, o bispo major-general D. Januário Torgal Ferreira. Desde há vários anos, bispo auxiliar do Patriarcado, destacado, posteriormente, para o serviço das Forças Armadas (FA), é, desde há três dias, o novo Bispo do Ordinariato Castrense. A respectiva tomada de posse decorreu em Fátima. O que, só por si, não deixa de ser simbolicamente expressivo, mas pela negativa.
A cerimónia foi pretexto para o bispo se atirar furiosamente ao actual Governo, como se os respectivos ministros fossem os culpados de tudo o que de mal ou de menos positivo está, ultimamente, a suceder no nosso país.
Contra as hábeis e obscenas manobras da alta finança e das multinacionais – os filhos das trevas, já reconheceu Jesus de Nazaré, no seu tempo histórico, são mais espertos e mais hábeis do que os filhos da luz! - que, hoje, praticamente, mandam no governo e no Estado português, como nos governos e nos Estados dos demais países do mundo, nem uma palavra.
Podem, pois, os seus protagonistas prosseguir nas suas perversas práticas de fabricação de pobreza e de pobres em massa, que os bispos católicos portugueses, pelos vistos, não só não os denunciam, como até são capazes de ainda os abençoar! Se mais não for, a partir do santuário de Fátima – a multinacional religiosa católica mais famosa da Europa – e por intermédio da sua cruel senhora cega, surda e muda, que, como é público e notório, a isso sempre se prestou e prestará às mil maravilhas.
Esta postura episcopal de D. Januário é, no mínimo, surpreendente, uma vez que, durante todos estes anos passados, não se lhe ouviu nada de semelhante. As suas palavras tiveram tanto impacto mediático, que o próprio Governo sentiu-se na obrigação de, na pessoa de um dos seus membros, sair a terreiro, para garantir que o novo Bispo das FA não tinha qualquer razão no que disse, durante o acto da sua tomada de posse.
A mim, leva-me, de imediato, a levantar uma pertinente questão: Será que D. Januário, durante todos estes longos anos em que foi bispo auxiliar do Patriarcado, não pôde ter voz nem vez, e, agora, na confortável posição de bispo titular do Ordinariato Castrense, sente-se, finalmente, como o peixe na água, para dar largas à sua, até agora, contida raiva?
Porém, esta sua raiva será mesmo contra o Governo, como aparenta ser, pelo menos, a julgar pelo teor da sua contundente intervenção, logo no acto da tomada de posse, como bispo major-general, ou, pelo contrário, será uma raiva contra os seus pares no episcopado – nomeadamente, por estes lhe terem metido um freio, quando, há algum tempo atrás, o afastaram do cargo de porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) - e que agora se manifesta deste jeito, a fazer lembrar conhecidos comportamentos de certos comerciantes, que põem o ramo num lado, mas, entretanto, vendem o vinho noutro lado?
Fiquei deveras preocupado com as imagens que a televisão mostrou sobre a tomada de posse e com as declarações do novo bispo major-general das FA portuguesas. E, se é verdade que uma imagem televisiva vale mais do que mil palavras, então a imagem com que fiquei, foi a de um bispo muito pouco sereno, algo perturbado, com notória necessidade de se afirmar, de dizer que existe, o que não condiz nada com a ideia que eu, pessoalmente, tenho de D. Januário, de quem sou amigo e antigo companheiro de Seminário, no Porto.
É então caso para eu daqui poder concluir que o cargo de major-general não assenta nada bem no bispo D. Januário. É algo forçado. E que ele terá aceitado o cargo, só para, finalmente, se poder afirmar como bispo titular. Mas, então, é também caso para eu daqui poder concluir que o bispo D. Januário está nesse cargo como a viola num enterro.
Melhor fora, por isso, que ele arrepiasse caminho e voltasse à posição, não de bispo auxiliar – uma situação, teológica e eclesialmente, insustentável – mas à de um bispo cristão jesuánico que lucidamente renuncia ao poder episcopal e aceita viver com simplicidade no meio e ao serviço duma população marginalizada, bem nos antípodas da hierarquia das FA, da qual ele, agora, é um elemento mais!
Aliás, na sua entrevista ao PÚBLICO, publicada no dia da tomada de posse, o bispo major-general apresenta-se, contraditoriamente, como um pacifista e alguém que crê na utopia dum mundo sem forças armadas, sem armas, sem academias e sem quartéis, onde se ensina a fazer a guerra e a matar. E chega a falar como quem sonha com o dia em que os quartéis e as academias militares, a existir, serão escolas de educação para a paz. Coisa que nunca foram, mesmo quando, oficialmente, assim são, demagogicamente, apresentados por certos militares de carreira, bispos castrenses incluídos.
Pelo que conheço de D. Januário, sempre estranhei que ele aceitasse deixar a cidade do Porto, onde nasceu e cresceu e em cuja Diocese foi ordenado presbítero, e a Faculdade de Letras onde era professor, para assumir as funções de bispo auxiliar do Patriarcado. E mais estranhei que ele, uma vez aí, aceitasse ser destacado pelo respectivo Patriarca, para se ocupar especialmente das FA e das forças de Segurança. Mais estranho, agora, que ele aceite ser major-general e bispo titular do Ordinariato Castrense.
Um homem como Januário Torgal Ferreira, sem dúvida o mais brilhante do seu curso, no Seminário do Porto, tem feito, como bispo, um percurso eclesial muito aquém das suas reais capacidades.
Digamos que a mediocridade e o cizentismo da generalidade dos bispos católicos portugueses, devem ter obrigado D. Januário a reduzir-se à mesma insignificância do colectivo episcopal. Ao aceitar ser bispo auxiliar do Patriarcado de Lisboa, membro duma CEP como a portuguesa, logo se viu obrigado a ter de ser medíocre com os medíocres, e a ter de ser cinzento com os cinzentos. E isto, durante anos e anos, a fio.
Até que acaba de lhe ser oferecida uma saída para bispo titular. Não fizeram dele o patriarca de Lisboa, como chegou a ventilar-se, na altura, em que acabou por ser escolhido o actual cardeal, D. José Policarpo. Oferecem-lhe, finalmente, o Ordinariato Castrense e ele, em lugar de recusar, agarrou a oportunidade com ambas as mãos.
Só que D. Januário, de modo algum, é homem para vestir a farda de major-general. Por isso, ao vesti-la, torna-se logo um palhaço. Por sinal, foi mais ou menos isso que eu percebi nas imagens que a televisão mostrou, sobre a sua tomada de posse. Um palhaço que se vê obrigado a ter de assumir um papel sério.
O resultado, é claro, só pode ser o que a televisão mostrou. Um D. Januário a falar como major-general e não como bispo da Igreja de Jesus. Ou seja, um major-general mais, a falar/reivindicar, em nome duma aristocracia militar que – desculpem os senhores que a constituem – já não deveria existir, pois, além de coisa anacrónica, ainda se faz pagar caro, a pretexto de que é preciso haver quem defenda o nosso país de hipotéticos ataques, por terra, mar e ar, realizados por um imaginário "inimigo", que ninguém sabe onde está. E como se tais ataques continuassem a ser historicamente possíveis, na nova realidade, que é, hoje, a União Europeia, da qual Portugal é Estado membro, de pleno direito!...
Mas o caso de D. Januário não é único entre os bispos católicos portugueses. Outros há que padecem enormemente, desde que aceitaram ser bispo e foram ordenados como tal.
Conheço bem o caso de um bispo auxiliar que, anteriormente, era vice-reitor de um Seminário diocesano e um invulgar educador de possíveis futuros candidatos a presbíteros da Igreja, e que, desde que fizeram dele bispo auxiliar da diocese onde, desde então, ainda hoje, se mantém, nunca mais foi ele próprio, nunca mais mostrou a jovialidade e a alegria de viver que se lhe conheciam, nunca mais teve saúde e espírito de iniciativa. O cargo de bispo auxiliar foi a sua morte antecipada. Uma morte que se arrasta no tempo, como uma sádica tortura.
Ao fazerem dele bispo auxiliar, perdeu-se um exímio educador de futuras gerações de presbíteros e não se ganhou um bispo saudavelmente interveniente. O que temos, desde então, no caso em causa, é um bispo com ar macerado, infeliz, amargurado, incompreensivelmente, fiel ao sistema eclesiástico, como se este fosse a Igreja de Jesus e não um ídolo que se alimenta de pessoas como ele, que, acriticamente, se lhe submetem, em lugar de, lúcida e corajosamente, o denunciarem, combaterem e derrubarem.
Como bispo major-general do Ordinariato Castrense, D. Januário Torgal Ferreira só pode apresentar-se como um palhaço, e tanto mais, quanto mais seriedade vier a dar ao exercício das novas responsabilidades em que acaba de ser empossado.
Ignoro qual foi a ideia que o levou a escolher Fátima, para tomar posse do cargo. Mas, se me é permitido formular uma hipótese, avanço esta: Foi a decisão própria dum palhaço. Não estou a querer dizer, com isto, que D. Januário é um palhaço. Longe de mim tal insulto. Prezo muito as pessoas, também a pessoa de D. Januário, para alguma vez ir por aí.
O que pretendo sublinhar é que a sua tomada de posse, como bispo major-general do Ordinariato Castrense, só poderia mesmo ser em Fátima, se D. Januário quis dar, efectivamente, a essa tomada de posse toda a dimensão de palhaçada que ela, inevitavelmente, tem.
(Espantam-se por eu falar em palhaçada? Parem por instantes e pensem, logo, em Jesus de Nazaré, o Cristo. Digam-me, depois, se conseguem, alguma vez, imaginar o filho de Maria e de José, que acabou crucificado às ordens do Império romano, no posto de major-general, e à frente duma instituição político-eclesiástica, que dá pelo nome de Ordinariato Castrense? Mas, então, como pode um bispo da Igreja que se reclama do nome de Jesus Cristo, ser bispo major-general?).
Bem sei que D. Januário nunca disse que ser bispo major-general do Ordinariato Castrense era uma palhaçada. Mas pode muito bem estar a dizê-lo, mesmo sem querer, ao ter sido levado pelo seu inconsciente a tomar posse do cargo, em Fátima.
Neste particular, a escolha de Fátima é por demais oportuna e eloquente. Só que, se tiver sido apenas o seu inconsciente a conduzi-lo para Fátima, o bispo D. Januário corre sério risco de se transformar, efectivamente, no bispo palhaço n.º 1 de Portugal, mesmo quando consegue dar entrevistas como a que foi divulgada pelo PÚBLICO, no dia da sua tomada de posse.
Só o não será, se ele tiver tido consciência do que estava a fazer, quando decidiu fazer de Fátima o cenário da sua tomada de posse, como bispo major-general das FA. Ou seja, se ele, conscientemente, quis fazer desse acto da tomada de posse, um gesto com algo de profético, ao jeito de certos gestos do bíblico profeta Jeremias, que, no seu tempo e país, era capaz, por exemplo, de, conscientemente, tomar atitudes de palhaço, mas para melhor anunciar às suas contemporâneas e aos seus contemporâneos, que a sociedade ia nua, assim como iam nus os seus representantes maiores - reis, sacerdotes e casas senhoriais.
E por que é que a escolha de Fátima, por parte de D. Januário, como cenário para a sua tomada de posse do cargo de bispo major-general das FA, emprestou ao acto todo o ar de verdadeira palhaçada?, perguntarão as pessoas que me lerem.
A resposta é simples e óbvia, como o ovo de Colombo. É que, se bem nos recordarmos, Fátima foi, sempre, desde a sua invenção, em 1917, pelo clero mais reaccionário, primeiro, o grande baluarte do obscurantismo religioso-católico contra a República de 1910, e, depois, o grande baluarte do fascismo social-político de Salazar e da sua famigerada Pide.
Igualmente, Fátima foi sempre, até à queda do Muro de Berlim, em 1989, o grande altar do mundo do anti-comunismo primário internacional, e ainda hoje continua a ser o grande altar do mundo do catolicismo rasca que se faz no nosso país e nos demais países do Ocidente romanizado.
Mais. Fátima foi sempre o chão de Portugal onde, desde 1961, até Abril de 1974, mais se rezou, sofreu, penou, chorou, para manter e alimentar, sacralizar e canonizar o intolerável crime que foi a guerra colonial, e convertê-lo em guerra santa contra os novos infiéis do século XX, que mais não eram, afinal, do que os povos das antigas colónias portuguesas, só porque estes exigiam que fosse respeitado e satisfeito o seu mais elementar direito à autonomia e independência.
Ora, escolher Fátima, para a tomada de posse como bispo major-general das FA, essas mesmas FA que, durante longos 13 anos, fizeram a guerra colonial em três frentes de África, sempre com a bênção da cruel senhora ou deusa lá do sítio, só pode mesmo ser uma decisão de alguém que, com esse gesto, pretende dizer, sem mais, que a simples existência, hoje, de um bispo católico major-general, à frente dessa aberração eclesial que dá pelo nome de Ordinariato Castrense (até a designação, "Ordinariato" faz logo lembrar, na multiplicidade de sentidos que tem a rica língua portuguesa, uma coisa ordinária, ordinarice, indigna, obscena!), é, só por si, uma palhaçada em quatro actos, não fosse, como efectivamente, é, uma indignidade de todo o tamanho.
É bom recordar, a este propósito, que a existência do Ordinariato Castrense – começou por se chamar "Vicariato Castrense" – foi uma criação, ao tempo da guerra colonial, em África, do regime fascista e colonialista de Salazar, aliançado com a hierarquia da Igreja católica, conduzida então pelo cardeal Cerejeira, com a finalidade de garantir a cada Batalhão que partia em "missão" para essa maldita guerra, a presença, a tempo integral, e como parte integrante desse mesmo Batalhão, de um padre-capelão católico.
Dentro da linguagem simbólica, expressivamente eloquente, sobretudo, para as camadas populares menos ilustradas e menos evangelizadas, este facto pretendia dizer, só por si, que a guerra colonial era uma cruzada, uma guerra santa, uma guerra querida por Deus. Como tal, tinha a bênção da Igreja católica e de Deus e podia contar sempre com a sua especial ajuda e bênção.
(Só que um Deus, que converte o crime que é qualquer guerra, numa cruzada ou guerra santa, só pode ser o Diabo, disfarçado de Deus. E tais são o Deus e a Deusa de Fátima que estão por trás da canonização da guerra colonial, em África. Bastaria, por isso, este crime de lesa-Paz, de lesa-África, de lesa-Nome de Deus, para se ter de concluir que a senhora de Fátima é, como tenho dito e repetido, ultimamente, um ídolo em feminino, muito útil para os poderosos e os privilegiados justificarem e manterem o seu poder e os seus nefandos privilégios. Por isso, em lugar da senhora de Fátima continuar aí a ser ingenuamente idolatrada e adorada pelo povo, nomeadamente, pelas populações mais empobrecidas e oprimidas, ela tem é de ser desmascarada e combatida com toda a determinação, até ser definitivamente derrubada. Para que a libertação das populações possa historicamente acontecer. Se a Igreja o não fizer, pelo contrário, insistir em arrastar para lá as populações, torna-se uma Igreja promotora da idolatria, com tudo de diabólico, que só poderá ser deitada fora, à medida que as populações se tornarem populações ilustradas e evangelizadas).
Porque, pessoalmente, vejo as coisas assim, podem então avaliar todo o meu espanto e, mais do que espanto, todo o meu escândalo, de padre católico, a quem, em tempos, expulsaram da guerra colonial, como capelão militar, e, por duas vezes, prenderam na Cadeia política de Caxias e levaram a outros tantos julgamentos, no Tribunal Plenário do Porto, quando tive de constatar que o 25 de Abril 74, que, em boa hora, derrubou o fascismo e pôs termo à guerra colonial, já não teve forças para dar o golpe de misericórdia na Concordata de 1940 e em tudo o que sobre ela, posteriormente, se edificou, inclusive, o Vicariato Castrense.
Mas o pior ainda é eu ter de continuar a constatar, todos estes anos depois de Abril 74, e já em pleno primeiro ano do século XXI, que tal não só não aconteceu, como até toda essa aberração política-eclesiástica de então, tem tendência a ser, hoje, progressivamente, reforçada. E a prova é que o Vicariato Castrense, em lugar de ter sido abolido, passou a Ordinariato Castrense, e a velha Concordata de 1940 prepara-se para ser revista, em ordem não só a salvaguardar os velhos privilégios da Igreja católica, mas também a actualizá-los e, provavelmente, a reforçá-los.
A sociedade civil que se cuide, se quiser. E o Estado laico também. Se continuarem, uma e outro, como até aqui, de cócoras diante da hierarquia católica; se continuarem, uma e outro, como até aqui, a dar-lhe privilégios sobre privilégios, preparem-se para serem comidos por ela. Os privilégios concedidos à Igreja católica têm sempre o condão de a transformar num monstro, ao mesmo tempo que lhe fornecem o alimento de que ele precisa para subsistir e se desenvolver.
Se dúvidas houvesse a este respeito, o exemplo de D. Januário, agora promovido ao posto de major-general das FA e bispo titular do Ordinariato Castrense, seria sobejamente expressivo do que podem fazer os bispos católicos contra o Estado e o Governo que lhes concedem tantos privilégios.
Vejam como ele, logo no primeiro acto público como bispo major-general, lança todo aquele ataque cerrado ao Governo e aos políticos em geral, a quem culpa por todos males que, no entender dele, o país presentemente padece. Não fala como bispo da Igreja. Fala como major-general. Reivindica, em nome da corporação militar, de que é, agora, segundo os hipócritas critérios do mundo vip, um dos seus membros mais ilustres.
Se D. Januário falasse como bispo da Igreja, teria de começar por olhar para a própria Igreja de que é bispo. Teria de bater no próprio peito e começar por reconhecer o crime, que é a situação de privilégio em que vive a Igreja católica, da qual ele é um dos bispos, e teria de disponibilizar-se, na parte que lhe toca, para renunciar a todos os privilégios, de que ela continua a beneficiar. Teria, concretamente, de dizer à Igreja de que é bispo, que ela tem de passar a pagar impostos ao Estado, como todas as demais instituições e empresas fazem, até para ajudar o país a vencer as dificuldades financeiras por que está, nesta altura, a passar. Em lugar de reivindicar novos privilégios, a acrescentar aos já adquiridos.
D. Januário não foi por aí. Nunca irão por aí os bispos, aos quais o Estado português e os sucessivos Governos têm concedido privilégios. Como meninos mimados, fazem birras e gritam, sempre que alguém não lhes fizer todas as vontades.
Por isso, se o Estado português, que oficialmente se assume, e bem, como Estado laico, continuar a ser uma espécie de sacristão dos bispos católicos e do bispo representante da Cúria romana, no nosso país, prepare-se para ser também rapidamente comido por eles. O poder dos bispos católicos portugueses será tão grande, que bastará eles darem um espirro, para logo caírem sucessivos governos e o Estado português deixar de ser laico, para passar a ser um defensor beato e devotado de nossa senhora de Fátima.
Aliás, já não faltará muito para isso, depois do que nos foi dado ver, há pouco mais de um ano, quando o actual Presidente da República fez questão de ir a Fátima assistir, de corpo e alma, à estúpida beatificação dos dois infelizes pastorinhos lá do sítio.
O Papa João Paulo II muito se deve ter rido por dentro, perante tamanho acto de subserviência política, para mais protagonizada por um chefe de Estado que faz gala de ser agnóstico e ateu. Igualmente, o agora cardeal de Lisboa, mai-lo Bispo de Leiria-Fátima também devem ter rido a bom rir com isso.
É que, com presidentes da República assim, laicos por fora, mas beatos por dentro, nem é preciso que haja católicos em Portugal, para os bispos terem, dentro em pouco, o país oficial a beijar-lhes o anel, num regresso à típica postura feudal e de subalternidade.
Não estou a fazer ironia com as palavras. Estou a alertar. E a pedir aos representantes do Estado, aos políticos em geral e à sociedade civil, que abram os olhos. Acabem de vez com os privilégios da Igreja católica, enquanto é tempo. Tratem-nos – aqui, falo como um dos seus presbíteros ordenados, indignado com os privilégios de que a Igreja católica tem beneficiado - em pé de igualdade com as demais Igrejas. Acabem com todos os privilégios que, indevidamente, nos concederam, a começar pelo da isenção de impostos.
Que não haja mais portugueses de primeira, de segunda e de terceira. Que haja igualdade. Acabem duma vez por todas com o medo dos míticos deuses e/ou demónios, materializado no medo dos bispos e restante clero da Igreja católica. E no medo dos chefes das diversas religiões, cada qual a mais obscurantista e mercantilista.
Cultivem a autonomia e a independência. Mantenham a equidistância entre todas as Igrejas e todas as religiões. Não deixem que regressemos à retrógrada e parola confusão entre Deus e César, entre Igreja e Estado, com que, no passado, todas as pessoas e todos os povos sofremos. E, por favor, não se cansem de repetir/gritar, a uma só voz e com a alegria própria das libertadas e dos libertados, Clericalismo, nunca mais! Clericalismo, nunca mais! Clericalismo, nunca mais!

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