Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

4 Junho 2001

Agora, até o cadáver de um papa serve para ajudar a fazer fortuna no Vaticano. Vi anteontem na televisão e leio hoje no PÚBLICO. É claro que nem a televisão nem o PÚBLICO se referem ao facto, assim, com toda esta crueza. Limitam-se a dar a notícia da embalsamação do cadáver do papa João XXIII. E acrescentam que o cadáver poderá ser visto, a partir de agora, na basílica de S. Pedro, em Roma.
O resto subentende-se. A menos que sejamos parvos, que é coisa que não convém sermos. Seres humanos e parvos são duas coisas incompatíveis. Pelo menos, na perspectiva de Deus, criador de filhas e de filhos à sua imagem e semelhança. E, se os seres humanos, forem simultaneamente cristãos, mulheres e homens, é ainda mais incompatível que sejamos parvos. Porque ser cristã/ser cristão, é ser outro Cristo, é ser outro libertador/salvador da Humanidade. O que pressupõe muita lucidez, muita audácia e é totalmente incompatível com sermos parvos.
Ninguém nasce parvo. Podem fazer-nos parvos. Têm-nos feito. A Ordem mundial dominante em que nascemos e vivemos, está animada de um espírito que visa tornar parvas, infantilizadas, as pessoas. Mas é uma Ordem criada pelos poderosos e pelos ricos. E por mais alguns seres humanos que se deixam seduzir por eles e colocam todas as suas capacidades e todas as suas potencialidades ao serviço deles e da sua (des)Ordem. Quando deveriam resistir-lhes até ao sangue. E colocar-se ao serviço de todas as suas vítimas. Para que ganhe corpo uma Ordem mundial alternativa, dinamizada por outro espírito, o da vida livre e digna, autónoma e lúcida, para todas as pessoas que vêm a este mundo.
A Cúria do Vaticano pensa que somos todos parvos. E actua como tal. Pensa que aceitamos como verdade todas as suas patranhas. E que embarcamos nos seus delírios. Não embarcamos. Mas como ela fala muito em Deus e em santidade, ainda há muitas pessoas do mundo que são facilmente enganadas por ela. Não são parvas. São pessoas de boa fé. E tomam tudo a sério, desde que venha da Cúria romana e de outras instâncias que elas têm como instâncias acima de toda a suspeita.
Pessoas assim são incapazes de pensar mal dos cardeais que estão por trás de decisões como esta sobre o cadáver do papa João XXIII. Eles dizem, ou deixam que se diga, que se trata de um cadáver incorrupto e as pessoas mais simples e crédulas, logo vão pelo que eles dizem ou deixam que se diga. Porque os acham incapazes de mentir e de enganar, seja quem for, muito menos, as pessoas menos escolarizadas, menos esclarecidas, menos ilustradas.
Mas, atenção, mulheres, minhas contemporâneas, atenção, homens, meus contemporâneos, porque o que os cardeais da Cúria Romana mais sabem fazer é isso. É enganar. É abusar da credulidade das pessoas simples. É mentir. É dominar as consciências das pessoas e dos povos. É fazer negócio à custa do nome de Jesus, de Deus e da Igreja. É fazer fortuna com os nomes e os símbolos mais sagrados. São até capazes de proclamar solenemente a santidade duma criatura humana, só para, com isso, ganharem mais e mais dinheiro. Não isso que fizeram com as duas crianças portuguesas, vítimas da chamada senhora ou deusa de Fátima?
Os cardeais sabem que, enquanto grande parte das populações do mundo forem simples e crédulas, boas e bem intencionadas, propensas a acreditar em tudo o que lhes dizem, sobretudo, no que lhes dizem os clérigos mais importantes da Igreja católica, eles podem continuar à vontade com as suas patranhas, porque terão sempre clientes aos milhões.
Só que este procedimento dos cardeais da Cúria Romana tem um nome: é um imperdoável pecado contra o Espírito Santo, porque é contradizer a verdade conhecida como tal. É também um crime sem nome. Um crime de lesa-Humanidade. Precisamente, na pessoa daqueles seus membros mais inocentes, mais bem intencionados, mais fragilizados, mais propensos a aceitar como verdade o que figuras tão gradas da Igreja, como são os cardeais da Cúria romana, dizem e fazem.
No caso presente, os cardeais começaram por fazer constar, ou deixar fazer constar, que o cadáver do papa João XXIII apareceu incorrupto. A notícia espalhou-se. Correu mundo. Ora, junto das populações menos escolarizadas, menos ilustradas e, sobretudo, menos evangelizadas por Jesus de Nazaré, o Cristo, esta notícia é de imediato relacionada com santidade.
As populações sempre foram levadas a ver na incorruptibilidade de um cadáver, um irrefutável sinal de santidade, por parte da pessoa a quem esse cadáver pertenceu. Não é. Mas as populações estão assim informadas e logo reagem em consequência.
Trata-se de um fenómeno mais ou menos invulgar, mas sempre explicável cientificamente. Para as populações menos esclarecidas e desprovidas de ciência, é que não há dúvida de que estão perante alguém que foi santa ou santo. E é difícil desfazer este equívoco. Tanto mais, quanto os responsáveis maiores das Igrejas não fazem nada por isso. Pelo contrário, são até capazes de explorar esse fenómeno e insinuar que de facto a incorruptibilidade de um cadáver é sinal de santidade, por parte da pessoa a quem esse cadáver pertenceu.
É que, quando cheira a santidade, também cheira a negócio. E do graúdo. Ou não fosse verdade que as populações, na sua boa fé e na sua ignorância, logo são capazes de organizar excursões e peregrinações ao local onde se encontra o cadáver incorrupto. Na esperança – melhor, na ilusão - de obterem, através dele, curas para os males de que padecem.
Os cardeais da Cúria romana, primeiro, deixaram que constasse que o cadáver de João XXIII foi encontrado incorrupto, depois de todos estes anos após a sua morte. Não se apressaram a fornecer uma explicação científica para o fenómeno. Pelo contrário. O silêncio é a alma do negócio.
Em vez disso, aceleraram ainda mais o processo de beatificação do referido papa, já em curso, nessa altura. O que reforçava ainda mais a ideia, junto das populações, de que estamos perante um santo de facto. Pouco tempo depois, o processo de beatificação foi dado como concluído e o papa João Paulo II lá presidiu à cerimónia de beatificação de João XXIII, juntamente, com a beatificação de outro papa, Pio IX, de seu nome, e que é a completa negação de João XXIII. Houve quem – e muitas foram as pessoas - reagisse a esta beatificação conjunta de Pio IX e de João XXIII, mas depressa as vozes contrárias calaram-se, satisfeitas com a beatificação de João XXIII, que era o que pretendiam.
A Cúria romana sabe muito bem o que faz. Não dá ponto sem nó. E para fazer passar a beatificação de João XXIII – polémica, para a ala mais conservadora da Igreja - associou-lhe, no mesmo dia e na mesma cerimónia, a beatificação de Pio IX, que é uma espécie de antipapa João XXIII. Com esta decisão, agradou aos opostos.
Só que, no meio de toda esta diplomacia, a Cúria romana deixou cair a máscara. E ficou-se a saber que, afinal, esta história de beatificar e canonizar alguém, tem a ver com tudo, menos com a santidade da pessoa em questão.
Na verdade, se tanto João XXIII como o seu contrário, Pio IX, são santos, então o critério de santidade é de tal modo lato, que lá cabem todas as pessoas.
Mas, então, se as coisas são assim, não vale a pena andar com tanto trabalho e gastar tanto dinheiro (o processo de beatificação e de canonização de alguém, é um processo moroso e inacessível à maior parte das bolsas das pessoas interessadas!). Bastará reconhecer que todas as pessoas são santas, independentemente da vida que viveram na História.
E até é verdade que são. Sobretudo, se pensarmos que a santidade de uma pessoa não é mérito dela, mas pura Graça de Deus. Se pensarmos que não nos fazemos santos a pulso. Se pensarmos que somos santas e santos por graça de Deus. Se pensarmos que é a graça de Deus quem nos faz santas e santos. A todas e a todos. Mesmo aos que temos por os mais mafiosos dos seres humanos.
Eu sei que escrever isto, aqui, é um escândalo. Mas faz parte da Boa Notícia de Deus, revelada em Jesus de Nazaré, o Cristo. Todas e todos somos chamados à santidade. Todas e todos seremos santos. Não a pulso, mas por pura graça de Deus. Deus – o Senhor dos impossíveis - sempre encontrará maneira de nos fazer à sua imagem e semelhança. Por mais que a gente se desvie do caminho. O amor criador que Deus é, sempre há-de encontrar maneira de fazer dos que temos por maiores depravados, santos.
Por outro lado, sabemos lá se, até aqueles e aquelas que nós classificamos como depravados, Deus já os vê como santos. Quem me diz que Deus não gosta dos que nós chamamos depravados? "Os meus caminhos não são os vossos caminhos", diz Deus pela boca do profeta Jeremias.
Ora, o Deus que isto diz, também pode dizer, "Os meus critérios (de santidade) não são os vossos critérios". Aos olhos de Deus, até aqueles que as Igrejas têm como depravados, segundo os seus critérios moralistas, podem ser santos segundo os critérios de Deus. Só que, se as coisas forem apresentadas assim, dizem muito bem de Deus, mas não dão dinheiro a ganhar à Igreja católica romana, a única que insiste em beatificar e em canonizar certas pessoas e, consequentemente, em condenar outras, com as quais ela não simpatiza.
Apresentar as coisas assim, como acabo de as apresentar aqui, não é financeiramente rentável para a Igreja católica romana. Nem promove o vedetismo de alguns e de algumas, nomeadamente, dos clérigos - papa, bispos, padres - dos frades e das freiras, as três franjas da Igreja católica de onde têm saído o maior número de santas e de santos beatificados/canonizados!
Mas o comportamento dos cardeais da Cúria romana não se ficou por aqui, relativamente à pessoa do antigo papa João XXIII. Depois de fazerem constar que o seu cadáver foi encontrado incorrupto e deixar nas populações a impressão de que estamos em presença de um santo; depois de o beatificarem em cerimónia solene e bem mediatizada para todo o mundo - eis que aparecem agora com o referido cadáver vestido de papa, tal como as fotografias da época no-lo recordam. E vão depositá-lo à veneração/adoração das e dos fiéis na basílica de S. Pedro, em Roma.
Com tudo isto, é de crer que a canonização de João XXIII esteja por semanas ou meses, para que o novo santo católico passe a receber o culto a que tem direito e renda aos cofres do Vaticano muito dinheiro.
Tudo isto é repelente. Mas são factos, que não acontecem por acaso. São pensados e programados para acontecerem assim. De modo que resulte em cheio. E os cofres do Vaticano se encham de ofertas, de promessas, à sombra de pretensos milagres que João XXIII vai passar a fazer a torto e a direito, conforme os delírios das suas múltiplas devotas/dos seus múltiplos devotos.
Acabo de afirmar que tudo isto é repelente. E é. Já o sabia. Porque a Cúria romana não dá ponto sem nó. Só que hoje, o PÚBLICO adianta mais um dado que vem confirmar isto que eu já sabia, embora não tivesse provas factuais em que me apoiar.
Diz o jornal que o "milagre" da incorruptibilidade do cadáver de João XXIII foi conseguido graças à intervenção de um famoso médico italiano, Gennaro Goglia, de seu nome, hoje com 78 anos de idade e o único sobrevivente do grupo que, em devido tempo, o concebeu e cozinhou.
Conta o médico, nas suas memórias, que, poucas horas depois de João XXIII ter morrido, foram à pressa por ele, a sua casa, para que viesse injectar nas veias do cadáver papal um preparado que impedisse a sua corrupção, de modo a mantê-lo apresentável, durante as demoradas cerimónias fúnebres devidas a um papa, servo dos servos de Deus (de que Deus? Do de Jesus, não é, de certeza! Só mesmo o deus-Poder, o deus-Vaidade, o deus-Império).
Goglia, especialista de anatomia na Universidade católica de Roma, não se fez rogado e lá correu, sem dizer à família aonde ia e ao que ia. Fez simplesmente o que lhe ordenaram, ainda que com alguma repugnância. "Fazer aquele trabalho –confessa ele agora – foi um pouco macabro. Eu estava dividido entre duas emoções conflituosas. Sentia-me honrado por ter sido chamado para o fazer, mas também sentia o peso da responsabilidade".
A verdade é que o médico injectou cinco litros do líquido que preparara com nove compostos, entre os quais, álcool etílico, sulfato de sódio e nitrato de potássio. O trabalho durou cinco horas. Mas foi realizado com êxito.
Eis o milagre da incorruptibilidade do cadáver de João XXIII! Os cardeais querem fazer de nós parvos e não olham a meios. Mas a verdade vem sempre ao de cima. Nem que seja, muitos anos depois. Está, finalmente, explicada a incorruptibilidade do cadáver de João XXIII.
A mesma sorte não teve, por exemplo, o cadáver do papa Pio XII, o imediato antecessor de João XXIII. Como não foi submetido a um tão refinado tratamento de conservação, o cadáver cheirava tão mal, durante as demoradas exéquias papais, que os quatro homens que mantinham a guarda de honra, tinham de ser substituídos, cada quinze minutos, por não suportarem o mau cheiro, durante mais tempo.
Mesmo assim, o cadáver do papa João XXIII não se conservou intacto, na sua totalidade. Ao fim destes anos todos, a exumação mostrou-o desfigurado e maltratado. E a verdade é que, para agora o colocarem à veneração/adoração das devotas e dos devotos, na basílica de S. Pedro, tiveram de o retocar.
Concretamente, o rosto que se mostra, não é o do cadáver de João XXIII. É um rosto de cera, a imitar carne. Quem se der ao trabalho de olhar com atenção, verificará isso mesmo. O rosto está muito longe do que foi o rosto do bom papa João, aquele que revolucionou a Igreja católica, com a inesperada convocação do Concílio Vaticano II.
Estou a escrever tudo isto e todo eu sinto repulsa. Os métodos de que é capaz a Cúria romana, só para fazer dinheiro! E para alimentar, junto das populações menos ilustradas e menos evangelizadas, toda uma áurea de poder, de santidade, de incorruptibilidade, por parte dos principais da Igreja.
O poder sempre quis ser divino. Sempre quis ser Deus. Sempre quis permanecer distante dos seres humanos. E o poder religioso ainda mais. Até nos quiseram convencer que o poder vem directamente de Deus. Os reis, por exemplo – a fazer fé nas catequeses eclesiásticas católicas - eram escolhidos por Deus. Assim como o papa, a fazer fé nas mesmas catequeses, é escolhido pelo Espírito Santo. O Consistório dos cardeais mais não faz do que obedecer às ordens do Espírito Santo!!!
Isto mesmo dizem, com aparente candura, os cardeais que o integram. E, ao dizerem-no assim, mentem-nos. Até o nosso cardeal de Lisboa, que foi reitor, durante muitos anos, na Universidade católica, atreve-se a dizer uma coisa destas aos jornalistas. Como se todos nós, mulheres e homens, que não fazemos parte do Consistório, fôssemos parvos. E não soubéssemos todos que o poder é pura invenção dos humanos que não se auto-aceitam como simples humanos e que querem ser tratados como deus. Como se nós não soubéssemos do jogo de interesses de todo o tipo que uma eleição papal desencadeia. E das manobras de que são capazes os representantes de cada um desses interesses em jogo.
Só que com comportamentos destes, os cardeais tornam-se monstros. Podem ser divinos, mas então, são divinos monstros. Não são humanos. Como todo o divino que não vai na linha de Jesus de Nazaré. Na linha de Jesus de Nazaré, alguém é tanto mais de Deus, quanto mais humano for, quanto mais frágil for, quanto mais companheiro for dos demais.
Estar sobre os demais, é um divino demoníaco. Não é jesuánico. E é o que os papas de Roma são. Juntamente com os cardeais. Quando aceitam subir, distanciar-se dos demais seres humanos, particularmente, dos mais empobrecidos e excluídos, mais monstros são, mais diabólicos são.
Em Jesus de Nazaré, ficamos a saber duma vez por todas que Deus, o verdadeiro Deus, é aquele que vem ao nosso encontro, que se faz próximo, que se faz Emanuel, Deus-connosco, Deus-companheira/Deus-companheiro. Nunca deus-Poder.
Pobre papa João XXIII! O que lhe haviam de fazer, depois de todos estes anos, após a sua morte/ressurreição!... Nem a sua memória foram capazes de respeitar. Do que são capazes os cardeais da Cúria romana, só para se perpetuarem nos privilégios e angariarem fundos que paguem todo aquele fausto!
Aliás, o próprio processo de beatificação de João XXIII já foi um escândalo. A Cúria romana nunca pôde com ele. Nunca lhe perdoou que ele convocasse o Concílio Vaticano II, à revelia dela, sem previamente a consultar. Nunca lhe perdoou que ele desse tamanha importância aos teólogos proscritos, que a Cúria romana antes maltratava e perseguia. Nunca lhe perdoou que ele os aceitasse como acompanhantes e assessores dos bispos, durante o Concílio. Nunca lhe perdoou que ele mandasse deitar ao caixote do lixo o texto que ela própria preparou como texto-base sobre a Igreja, para vir a ser debatido e aprovado no Concílio. Nunca lhe perdoou que ele aceitasse que fosse redigido, de raiz, um novo texto, sobre a Igreja, durante o concílio, em substituição do texto que a cúria havia previamente preparado e que pretendia manter tudo como até então. Nunca lhe perdoou que ele deixasse o Concílio seguir por onde o Espírito Santo quis conduzi-lo, em lugar de se lhe opor, com a sua autoridade e com a sua infalibilidade, como ela sempre costuma fazer, na convicção de que é preciso ter mão no Espírito Santo, não vá Ela/Ele dar cabo de tudo, até da Cúria romana.
Pois bem, chegou a hora da vingança da Cúria romana. Esta é a sua hora da desforra. Agora que o papa João XXIII já não pode fazer nada na Cúria e que o papa João Paulo II é um pau mandado dela e da Opus Dei que faz na Cúria romana o que bem entende, a vingança sobre João XXIII serve-se fria. Como toda a vingança.
Dirão algumas e alguns, menos atentos e menos conhecedores do maquiavelismo dos cardeais da Cúria romana: Mas como se pode falar de vingança, quando os cardeais estão a promover, como nunca o fizeram com outro papa, o nome de João XXIII?
Para poder ver tudo isso, é precisa muita sabedoria, não daquela que se vende e se compra nas universidades católicas. É precisa muita daquela sabedoria que é Dom do Espírito Santo e que está nos antípodas do saber dos poderosos, cardeais da Cúria romana incluídos, e outros.
A vingança dos cardeais da Cúria romana reside na própria beatificação de João XXIII e na canonização que já se adivinha para breve. É que o João XXIII que a Cúria romana beatificou e se prepara para canonizar, não é mais o João XXIII que tanto a criticou a ela, que lhe resistiu, que se lhe opôs e que a driblou com humor e sabedoria. É um João XXIII à imagem e semelhança da Cúria romana, o mesmo é dizer, é um João XXIII que ela fabricou e que, agora, serve às mil maravilhas para a solidificar ainda mais no poder eclesiástico absoluto, de que ela desfruta na Igreja católica.
Basta ver que, para o processo de beatificação de João XXIII poder ir por diante, a Cúria romana mandou escrever e fez publicar uma biografia oficial do papa em causa. Saiu então um João XXIII totalmente mascarado, desfigurado, um papa sem sorriso, sem humor, sem Espírito Santo, sem rebeldia, sem dissidência, um pobre funcionário eclesiástico-mor, um pau mandado do poder eclesiástico. Um beato, no sentido pejorativo do termo. Um pobre diabo, sem alma, sem espinha dorsal, pronto para todo o serviço.
Acham que exagero? Pois metam pés a caminho até uma livraria católica, dessas que vendem tudo o que a hierarquia eclesiástica quer e não vendem nada do que ela não quer, e peçam a biografia oficial do Papa João XXIII. Leiam-na com atenção, comparem-na com o que sabem de memória sobre o papa João XXIII do Concílio Vaticano II e tirem as vossas conclusões.
Mas faltava ainda esta ofensa maior à sua memória, que agora acaba de ser consumada. Faltava armar todo este "milagre" da incorruptibilidade do seu cadáver. Para, agora, depois de o terem devidamente retocado com cera, o colocarem, vestido, em lugar de destaque na basílica de S. Pedro, em Roma, à veneração/adoração das pessoas, turistas do religioso, sobretudo. Eles sabem que, com isso, podem vir a recolher muito dinheiro. E que o seu prestígio de cardeais da Cúria romana sai muito mais fortalecido.
Digam lá se a vingança da Cúria romana podia ser melhor conseguida do que acaba de ser! O papa João XXIII, que mudou a Igreja por dentro, é agora, poucos anos depois da sua morte, um cadáver metade carne, metade cera, exposto à curiosidade doentia dos turistas do religioso, é objecto de veneração/adoração e fonte de receitas para o Vaticano. Sobretudo, é o canonizador da Cúria romana que está por trás a comandar os cordelinhos, para que tudo saia afinado e resulte em cheio.
O médico que, logo a seguir à morte de João XXIII se prestou a fazer aquele serviço, certamente, não lhe passava pela cabeça do que viria a suceder depois, todos estes anos. Felizmente, ainda está vivo e acaba de testemunhar tudo para a comunicação social. Mas quem o ouve? Quando as populações carenciadas de sentido para a vida e carenciadas de qualidade de vida, buscam milagres que as tirem dos apuros em que andam mergulhadas, não ouvem nem vêem nada do que se lhes diga e mostre, se o que se lhes diz e mostra vai contra o milagre que elas a toda a força exigem. A mentira pode, assim, seguir o seu percurso. E, como mentira que é, matar, roubar, destruir as pessoas que vão por ela, que a tomam por verdade.
Ó querido papa João XXIII: agora que és corpo espiritual, ressuscitado, vê se arranjas maneira de desencadear um pé de vento, um verdadeiro tornado, ainda mais avassalador do que o Concílio Vaticano II, que derrube de vez a Cúria romana que acaba de matar, até, a tua memória de Bom Papa João, ao servir-se do teu nome e do teu cadáver para se solidificar ainda mais. E que esse pé de vento, esse tornado, pelo caminho, derrube também o Estado do Vaticano. Para que a Igreja de Jesus, finalmente, apareça, ao resto da Humanidade, em toda a sua beleza, na koinonia ou comunhão que o Espírito Santo sabe realizar, e que, se for dEle, só pode ser uma comunhão feita de tensões e de conflitos, sempre saudáveis e libertadores.

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