Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

31 Janeiro 2001

O Rui morreu. Com 29 anos. De sida. E de tuberculose. E de hepatite C. Tudo, em consequência da droga que todos os dias o levaram a injectar nas próprias veias.
"O seu corpo está em câmara ardente, na capela do Cemitério de S. Martinho de Campo", diz-me pelo telefone, uma voz amiga e companheira, vizinha e amiga do Rui e da sua mãe e avó, em casa das quais, uma vez por mês (à segunda terça-feira), depois do jantar, costuma reunir a pequena Comunidade cristã de base daquela freguesia do concelho de Valongo, e na qual, a pedido das pessoas que a constituem, também eu participo, na minha qualidade de presbítero da Igreja católica, ao serviço do Evangelho que devo anunciar aos pobres.
Não sou o pároco, nem nisso estou minimamente interessado. Mas nada impede que eu faça uso da liberdade das filhas e dos filhos de Deus, e vá lá reunir com aquela pequena Comunidade cristã de base.
É a vantagem do novo modelo de Igreja, saído do Concílio Vaticano II. Não precisa de templo, nem de altar. Tão pouco precisa da nomeação episcopal de um clérigo hierarquicamente dependente do bispo da diocese, para poder acontecer. Acontece, quando dois ou três se reúnem em nome de Jesus Cristo Crucificado/Ressuscitado. No caso em questão, acontece com toda a simplicidade, na casa da mãe e da avó do Rui, à volta da mesa, onde habitualmente, as pessoas que nela vivem, costumam comer.
É aí que, mês após mês, partilhamos a Palavra, dialogamos a Palavra, sempre na sua relação com os acontecimentos de que é feita a nossa vida e a vida do nosso povo, cantamos e partimos o Pão e o Chã, em memória de Jesus. Tudo no meio da maior das simplicidades. Mas num ambiente de muita fecundidade.
A notícia, "O Rui morreu", salta-me do telefone, quando a luz do dia está já a chegar ao fim. Procuro saber outros pormenores e assumo o compromisso de me deslocar lá, pessoalmente, depois do jantar. Não para alimentar o velório, que costuma realizar-se em momentos como este, mas para comungar com a mãe do Rui e as demais pessoas presentes, aquele acontecimento. E, se possível, lê-lo e interpretá-lo. Sobretudo, apanhar-lhe a Mensagem, a Boa Notícia, que dele salta, como um grito.
Entretanto, e tal como o Evangelho de João diz que Jesus fez, quando foi informado da morte do seu amigo Lázaro (atenção, o relato é teológico e não jornalístico; é uma espécie de parábola teológica, através da qual o autor do Evangelho procura tirar o véu ideológico e mesmo religioso que, sempre, está aí a cobrir a realidade, para que os olhos das pessoas, nomeadamente, das pessoas que são vítimas em qualquer sociedade organizada, deixem de continuar fechados e se abram, de modo a passarem a ver toda a arbitrariedade e toda a prepotência que, a coberto do nome de Deus ou do Estado, ou da Lei, ou da Ordem estabelecida, ou das Boas Maneiras, ou do Politicamente Correcto, são constantemente praticadas contra elas e as reduzem à condição de cegas, de doentes, de marginalizadas, de excluídas e, finalmente, de mortas), também eu, após receber a notícia da morte do Rui, prossigo serenamente na actividade em que ela me encontra ocupado.
Depois de acolher a notícia, deixo que ela, como orvalho que fecunda a terra, me trabalhe por dentro, na consciência. Por outras palavras, deixo que a notícia penetre bem em mim, me fale e me transforme por dentro.
De modo que, quando, depois do jantar, tomo a carrinha do Jornal FRATERNIZAR e me dirijo à capela do Cemitério de S. Martinho de Campo, já não sou a mesma pessoa que era antes da notícia. Todo eu vou, pelo caminho, à escuta do que a notícia, "O Rui morreu", me diz. Para que, ao chegar lá, possa partilhar com a mãe dele e com as demais pessoas que lá se encontrarem com ela, o que o Espírito Santo, que faz novas todas as coisas, me disser para eu proclamar como a Boa Notícia ou o Evangelho de Deus, para aquela circunstância.
(Se pensarmos bem, todos os acontecimentos são também sacramentos, isto é, revelam-nos algo de fundamental e de essencial que teima em estar escondido aos olhos da nossa consciência. Assim haja quem capte essa misteriosa dimensão de que todos os acontecimentos andam grávidos. Mesmo os acontecimentos que, à primeira vista, nos parecem mais trágicos e totalmente negativos. Feliz, por isso, quem, mulher ou homem, cresce por dentro, até chegar a captar esta profunda dimensão da vida quotidiana e gostosamente vive nela e dela. A sabedoria que, então, respira e transmite - não se trata de tudo fazer para subir na vida e na carreira, mas, ao contrário, de alegremente descer, sem se importar de ser olhado e tratado como o último dos últimos - não é coisa que os grandes deste mundo e da sua Ordem estabelecida, conheçam e partilhem. Aos olhos deles, tal sabedoria é pura loucura, que combatem com toda a ferocidade. É por isso que os grandes deste mundo podem tolerar todos os disparates, todas as aberrações, todas as tropelias à Lei e à Ordem, mas jamais toleram e suportam um tipo de Sabedoria que eles nunca chegam a possuir, muito menos a controlar e a manipular. Daí, todo o ódio que nutrem contra quem não frequenta as suas escolas, nem as suas universidades, nem os seus palácios, nem os seus templos, e prefere frequentar e até habitar os subúrbios, as periferias, as margens, onde a vida é feita de dor e de clamor, de desespero e de sem-sentido. Também de insondável e de indizível utopia. E aí vive, com serenidade, não como quem busca o reconhecimento e a gratidão das vítimas humanas que sistematicamente são atiradas para esses infralocais, mas aí vive como uma simples parteira. A sua prática, feita de incomensurável ternura e de infinita tolerância, mais a sua palavra tecida da sabedoria que os grandes do mundo não conhecem e que tanto odeiam, podem não fornecer especiais conhecimentos académicos às outras pessoas, mas despertam consciências, até então adormecidas e alienadas, abrem olhos até então cegos ou encandeados, rebentam ouvidos, até então surdos para a Palavra que liberta e salva, soltam línguas, até então mudas, levantam corpos, até então paralisados, numa palavra, sublevam e ressuscitam pessoas, até então mortas.)
Chego a S. Martinho do Campo. Deixo a carrinha e avanço, resoluto, para a capela do Cemitério, onde jaz, num caixão, o cadáver do Rui. Não o Rui, evidentemente, que esse é já corpo ressuscitado, recriado, tornado nova criação, totalmente invisível aos nossos olhos carnais, impotentes para ver o essencial.
Um Vento me habita e me empurra. Um Sopro que não posso controlar, faz-me avançar. E eu deixo-me conduzir, sem resistência. Alegre e feliz. Como um menino.
Mal chego à porta, as pessoas dão de imediato por mim. Como damos logo conta, quando o vento sopra com força e entra pelas portas ou janelas da casa e desassossega o que estava sossegado e parado.
Reconhecem-me algumas, outras não. Mas depressa todas sabem quem eu sou. Nuns rostos, decifro alegria, feita sorriso, rasgado sorriso, impróprio dum velório. Sinal de que o velório acabou com a minha chegada. E começou algo de novo, muito bom, com sabor a Boa Notícia. Noutros rostos, leio interrogações, do estilo, Que vem este padre aqui fazer, se não é o pároco de S. Martinho do Campo e não tem qualquer ofício pastoral, confiado pelo Bispo da Diocese?
Vejo a mãe do Rui. Beijo-a. A avó não está ali. A doença obriga-a a permanecer em casa, meio paralisada. O rosto da mãe do Rui abre-se para mim, num discreto sorriso. Como quem diz, Bem-vindo, Mário, meu irmão e companheiro, vem comungar da minha dor e confortar-me com o Evangelho ou a Boa Notícia que andará neste acontecimento de dor que se abateu sobre a minha alma e me quer prostrar. Vem, ajuda-me, como a parteira ajuda a mulher que está para dar à luz. Ajuda-me a descobrir o sentido deste acontecimento sem-sentido, que, desde há anos, me persegue e que, agora, chegou ao fim. Mas que dói muito, no meu corpo de mãe.
Digo a todas as pessoas ali presentes ao que vou. E convido-as a orar. Não a recitar fórmulas, mais ou menos adaptadas para ocasiões como esta. Detesto as rotinas, os formulários esteriotipados, as palavras sem Palavra. Por isso, já não consigo abrir um missal e ler o que lá está escrito. Como não consigo subir a um altar, sempre o mesmo, e, lá de cima, como um superior incontestado, começar a dizer palavras que não saltam cá de dentro, porque nem sequer são minhas, muito menos foram pensadas e escutadas para aquele momento. Por isso, também já não suporto as missas que os meus colegas insistem em papaguear, todos os dias, na tola ilusão de que estão a celebrar a Eucaristia. Como se a Eucaristia tivesse alguma coisa a ver com essa espécie de teatro religioso de mau gosto que se repete até à náusea, por essas paróquias fora, tanto de Portugal, como da Europa e do mundo onde está presente a nossa Igreja católica romana.
Abro o Evangelho de Lucas. Podia ser o de João, capítulo 11, onde vem o espantoso e altamente subversivo relato teológico que tem Lázaro e suas irmãs e Jesus como principais protagonistas. Ainda cheguei a pensar nele, mas o Espírito levou-me para outro relato, dos Sinópticos, precisamente, o Evangelho de Lucas, por sinal, também no capítulo 11, versículos 14-23. Olho nos olhos as pessoas e, com naturalidade e solenidade, proclamo o que lá está escrito.
"Jesus estava a expulsar um demónio mudo. Quando o demónio saiu, o mundo falou e a multidão ficou admirada. Mas alguns dentre eles disseram: É por Belzebu, chefe dos demónios, que ele expulsa os demónios. Outros, para o experimentarem, reclamavam um sinal do Céu. Mas Jesus, que conhecia os seus pensamentos, disse-lhes: Todo o reino, dividido contra si mesmo, será devastado e cairá casa sobre casa. Se Satanás também está dividido contra si mesmo, como há-de manter-se o seu reino? Pois vós dizeis que é por Belzebu que eu expulso os demónios. Se é por Belzebu que eu expulso os demónios, por quem os expulsam os vossos discípulos? Por isso, eles mesmos serão os vossos juizes. Mas, se eu expulso os demónios pela mão de Deus, então o Reino de Deus já chegou até vós. Quando um homem forte e bem amado guarda a sua casa, os seus bens estão em segurança; mas se aparece um mais forte e o vence, tira-lhe as armas em que confiava e distribui os seus despojos. Quem não está comigo está contra mim, e quem não junta comigo, dispersa." (Nova Bíblia dos Capuchinhos)
Esta Palavra, apesar dos quase dois mil anos que já conta, não é uma fórmula para recitar. É uma Palavra que vem prenhe daquele Espírito que faz novas todas as coisas. Por isso, escutada junto do caixão que contém o cadáver do Rui, e na presença da sua mãe e de outras pessoas mais, vizinhas e amigas dela, desencadeia uma explosão, com força de ressurreição. È proclamada, não para deixar tudo na mesma, mas para iluminar a realidade em que estamos envolvidos, e erguer-nos na dimensão de novas criaturas.
Infelizmente, as Igrejas, todas as Igrejas, temos reduzido o Evangelho a letra sem Espírito. E, como já disse, oportunamente, o Apóstolo Paulo, a letra sem Espírito, mata. Mesmo a letra da Bíblia. É um diabo. Homicida como ele, pai de mentira como ele. E, se a letra sem Espírito nem sempre vai tão longe, acaba muitas vezes por ser, pelo menos, pedra de tropeço para os ouvintes, nas múltiplas assembleias litúrgicas que por aí acontecem. Impotente para tirar os pobres da sua pobreza, até os leva a ficar resignados nela. O que perfaz um crime de lesa-humanidade. E de lesa-Evangelho. Infelizmente, muito frequente, nos dois mil anos de Cristianismo, já vividos.
A Palavra acolhida e escutada faz-nos falar, quase gritar, a Boa Notícia que a vida/morte/ressurreição do Rui traz escondida. E que antes ninguém ainda escutara. Nem ele. Nem a mãe. Como a provar que não basta a comunhão da carne e do sangue, para nos tornarmos nova criatura. É preciso nascer do Alto, do Sopro que não sabemos donde vem nem para onde vai, mas que nos deixa reduzidos ao essencial, libertos para a liberdade. É preciso nascer do Espírito Santo (cf. João 3). Como Jesus de Nazaré que, por isso mesmo, se tornou o Ser Humano por antonomásia, o primogénito da Nova Criação que está a crescer na História, sem a gente saber bem como. À semelhança da semente que alguém deitou à terra. E que cresce, mesmo quando dormimos e não pensamos nela.
E que boa notícia é essa que escutamos, nesta hora e neste local? A vida do Rui, que tão precocemente termina, é um sacramento. E quem diz sacramento, diz mistério. E quem diz mistério, diz uma coisa que não se entende. Mas diz mais. Diz, sobretudo, uma coisa que estava escondida e, de repente, se nos revela.
Por outras palavras, a vida do Rui, tão precocemente ceifada, é um sacramento, isto é, tirou o véu que mantém encoberta a intolerável realidade que é o tipo de sociedade que hoje temos. E que, assim escondida, acaba por ser tolerada, conservada, respeitada, como se fosse uma sociedade aceitável. Quando não é.
Perante o sacramento que é a vida do Rui, ou seja, perante o que nos revela a vida/morte do Rui, fica claro que, afinal, a sociedade que temos e na qual vivemos, é intolerável. É uma sociedade que devora seres humanos. Que produz traficantes (de drogas e de armas), que desgraçam pessoas e famílias inteiras, sem dó nem piedade. É uma sociedade que não pode continuar a ser sustentada por nós. Tem de ser desmascarada e transformada de raiz. Para que não continue a desfigurar seres humanos indefesos, como o Rui, que lhes caem nas malhas sem saberem bem como. É uma sociedade que não olha a meios para alcançar os seus fins. E fins que são de perdição, não de salvação e de dignificação das pessoas.
A vida/morte do Rui aí está a revelar o que teimamos em não ver: uma sociedade que comete crimes em série como o que cometeu na pessoa do Rui, é uma sociedade que tem por pai o diabo, a mentira. É uma sociedade opressora, mentirosa, enganadora, assassina. Mata a frio os seus membros mais fragilizados e, porventura, mais sensíveis e mais emotivos. Atrai-os para o abismo, não sem antes pintar com lindas cores esse abismo, para que pareça um paraíso, a felicidade, o bem-estar. Mas tudo isso é engano, mentira, ilusão, que a vida/morte do Rui acaba de desmascarar, de um só golpe, para que ninguém mais tenha dúvidas e não se deixe arrastar.
Não se trata, pois, de tudo fazermos para conservar uma sociedade como esta em que vivemos, mas, sim, tudo fazer para a derrubar, para a transformar de raiz, para a substituir. Para que, em seu lugar, ganhe corpo uma sociedade outra, feita de verdade e de justiça, de liberdade e de amor, uma sociedade que faça crescer em idade e em estatura, em sabedoria e em graça, cada um dos seus membros, mulheres e homens, indiscriminadamente. Uma sociedade de paz, não a opressiva paz dos impérios, mas a paz que é fruto natural da justiça e que anda sempre de mãos dadas com a dignidade das pessoas e dos povos.
A vida/morte do Rui é um sacramento. Revela-nos que a sociedade em que ele nasceu e cresceu e tão precocemente morreu, é uma sociedade dominada por Belzebu, esse espírito ou sopro contrário à vida e vida em abundância em todas as mulheres e em todos os homens, seja qual for a cor da sua pele e a sua religião. Belzebu é outro nome, o nome mítico, para dizer império, a besta do Apocalipse que tudo domina, que tudo controla, que tudo esmaga. E, mesmo àqueles que mais dedicadamente o servem, arranca-lhes a alma, rouba-lhes as entranhas humanas e faz deles uns monstros, porventura, cheios de dinheiro e de poder, de luxo e de prestígio, mas uns monstros que se alimentam de gente, vampiros à rédea solta que sugam o sangue dos que, mais ou menos ingenuamente, acabam por cair nas suas garras.
Mas a vida/morte do Rui revela-nos mais: Revela que há, felizmente, um mais forte, que pode derrubar e destronar o império, e criar tudo de novo, fazer novos céus e nova terra. Ao ressuscitar o Rui, no momento em que a morte o fez sucumbir definitivamente, o Espírito Santo, ou Espírito Outro, destronou o poder do império. Também aqui o Rui é um sacramento. E que sacramento! Ficamos a perceber que nem todo o Espírito é criador de comunhão e de fraternidade/sororidade, de liberdade e de igualdade. O espírito que anima o império é diabólico, é mentiroso e pai de mentira, é homicida, assassino, desde o princípio.
Infelizmente, nem sempre temos percebido as coisas assim. Andamos de olhos tapados. Deixamo-nos encandear pelas luzes do império. E acabamos por sancionar o que deveríamos combater com todas as forças. Acabamos por cooperar, tácita ou mesmo abertamente, com o império, quando havíamos de lhe resistir, até o liquidar para sempre.
A vida/morte/ressurreição do Rui grita-nos, hoje e aqui, esta verdade que liberta. Deixemo-nos, então, fazer por ela e seremos nova criatura, construtores duma sociedade que faz viver as pessoas, por mais indefesas e fragilizadas que elas sejam. Em lugar de as comer, como faz o império, cria-lhes oportunidades sobre oportunidades de viver com dignidade e na mais entusiástica das comunhões.
Cumpre-nos agir, na História. Mas agir com o Espírito de Deus dentro, que é criador de fraternidade/sororidade, de irmãos e de irmãs, de comunhão, de mesa comum, sem ninguém ficar de fora. Nunca mais, com o espírito de Belzebu, que é o espírito que faz os impérios contra as pessoas e os povos, cria maiorias empobrecidas e minorias ricas, cava abismos intransponíveis entre umas e outras, desencadeia ódios e vinganças, numa palavra, semeia devastação e morte.
A História é sempre a nossa hora. A hora de Deus só começa verdadeiramente, quando termina a nossa. Por isso, não atiremos para Deus as culpas dos males do mundo, que esses males são da nossa exclusiva responsabilidade. Esta é nossa hora. Enquanto durar a História, dura também a nossa hora. Apenas se nos pede uma coisa: que nos abramos ao Espírito de Deus, que consintamos que Ele viva no mais íntimo de nós, em lugar de abrirmos as portas ao pai de mentira que é capaz de criar impérios, mas para melhor e mais eficientemente nos comer a todas e todos. A vida/morte/ressurreição do Rui lança-nos este salutar e libertador alerta.
Infelizmente, na pessoa do Rui, o poder do império foi rei e senhor. Apoderou-se dele, a dada altura, e fez dele gato sapato. Naqueles que estão directamente ao seu serviço, o império chega a dar a impressão de que até é bom. Os seus fiéis servidores vivem no luxo e no fausto. Mas no Rui, o império mostrou bem, e sem disfarces, do que é capaz. Apoderou-se dele, desgraçou-o. Sugou-o até à medula. Desfigurou-o. Reduziu-o a nada. E, por fim, matou-o sem dó nem piedade. E o que fez ao Rui, é o que faz em todos os Ruis, raparigas e rapazes, mulheres e homens, que por aí encontra desprevenidos, e que se deixam ir na sua cantilena e no seu discurso tecido só de mentira, mas que se faz passar por verdade.
Felizmente, para o Rui e para todas e todos nós, não há só a nossa hora, a hora do império. Do poder das trevas. Há também a Hora de Deus. Que começa, quando a hora do império termina. Por isso, quando mais parecia que o Rui estava completamente perdido, totalmente desfigurado, eis que entra em plena acção a Hora de Deus.
Ao ressuscitar o Rui, no exacto momento em que o império o matou, Deus fez do Rui um filho seu, vestiu-lhe a melhor roupa, colocou-lhe o anel no dedo, fez o banquete e a festa da vida em plenitude. Nenhuma censura, nesse momento do Encontro do Rui com Deus. Nenhuma recriminação. Nenhum castigo. Quando muito, uma queixa cheia de lágrimas: Meu filho, o que fizeram de ti, os narcotraficantes do império! Como te maltrataram. Como te desfiguraram. Vem, pois, filho meu, deixa-te cair nos meus braços. Constituo-te, para sempre, na dignidade e na plenitude da vida. E não há império algum que te arrebate de mim. Esta é a minha Hora, Rui, meu filho bem-amado, a Hora da Vida para sempre ressuscitada, recriada.
À medida que a Palavra é assim proclamada, verifico que os rostos das pessoas presentes se transfiguram. Mesmo os rostos das pessoas que, no início, se mostraram mais renitentes e incomodadas com a minha chegada. O sorriso e a surpresa são generalizados. A própria mãe do Rui mostra-se abertamente radiante. Nunca antes havia olhado assim para o seu filho. Nunca o tinha visto assim.
A Ressurreição do Rui é real, ainda que invisível aos nossos olhos carnais. Mas os efeitos dela, nós os sentimos, no mais dentro de nós. E o sinal inequívoco, é que o velório virou profunda alegria. E todas e todos nos experimentamos, ali, próximos uns dos outros, como nunca até então. Até um adolescente, vizinho da mãe do Rui e que já tem participado nos encontros da pequena Comunidade cristã de Base que reúne em casa dela, resplandece de alegria e de felicidade. Como quem acaba de fazer a descoberta maior da sua vida e que, amanhã, dará pleno sentido ao seu viver quotidiano. Uma descoberta que fará dele alguém que resistirá às seduções do império, até se tornar um homem-para-os-demais, como Jesus, o Ser Humano em quem o império nunca conseguiu entrar, nem por um momento. E, por isso, Deus o constituiu o Senhor, o Libertador ou o Cristo, o Salvador.
Mas o momento de oração não termina com a escuta da Boa Notícia aqui sintetizada. Prossegue, noutra expressão ainda mais festiva, quase dançante, feita cântico. Com música que, originalmente, é cantada no Alentejo. E com uma letra que, em tempos, escutei e escrevi e que as pequenas Comunidades cristãs de base muito gostam de fazer sua também. Porque lhes diz muito. E as motiva a viver na resistência ao poder do império e na abertura e na solidária comunhão com as suas vítimas. Transcrevo a letra. Ousem fazê-la vossa. E cantem-na com frequência, mas sempre com a frescura da primeira vez. Ao mesmo tempo, deixem-se fazer pelo Espírito que a inspirou e vive nela. Eis:
1. Bendita, bendita seja
para sempre a vida
que nos põe de pé
Os pobres quando se unem
Mudam seus destinos
Co’ a força da Fé.
2. Tu que hoje te vês caída/o
sem vontade alguma
de seguir viagem
estende a tua mão a outra/o
inda mais caída/o
e tereis coragem.
3. É hora de despertar
que a vida te grita
na dor do irmão
Viver é unir esforços
Em torno a um projecto
De libertação.
4. Quem luta por uma terra
de fraternidade
não conhece a morte
Comunga a dor do seu povo
Mas ressuscitar
É a sua sorte.
5. Nunca poderás esquecer
que este mundo está
em transformação
As dores são dores de parto
pr’a que o mundo chegue
à Ressurreição.
6. Feliz de quem dá a vida
para que a vida
cresça no irmão
Seu corpo como o de Cristo
traz mais paz à Terra
gera comunhão.
7. Agora que já conheces
toda a Boa Nova
que a Páscoa anuncia
Entrega teu corpo e sangue
como fez Jesus
sê Eucaristia.
Obrigado, Rui, por teres sido um sacramento para nós. Obrigado por teres bebido até ao fim o cálice amargo que o império te fez beber e, finalmente, te deixares acolher pelo Deus que derruba os impérios e despede de mãos vazias os ricos. Obrigado, por nos revelares, no terrível calvário em que se tornou a tua vida, que o império é uma mentira pegada, é homicida, assassino, como o seu pai, o Diabo.
Durante os últimos anos, olhávamos para ti, e tu cada vez menos tinhas aspecto de ser humano, tão desfigurado e maltratado os narcotraficantes te deixavam. Roubaram-te tudo: o dinheiro, a saúde, a dignidade, a alegria de viver, o sonho, a utopia e, por fim, a vida.
Obrigado, Rui, porque, hoje, graças a ti, percebemos de forma inequívoca que a nossa sociedade, que insiste em deixar-se fazer pelo império e pelo seu espírito cainita, anti-fraternidade/sororidade e anti-dignidade, anti-liberdade e anti-vida, é uma sociedade que havemos, não de continuar a defender e conservar, mas sim de desmascarar como inumana, monstruosa, fabricadora de vítimas humanas, assassina. É uma sociedade que, por isso, havemos de subverter, transformar de raiz e substituir por outra, informada pelo Espírito Outro que faz novas todas as coisas, novos céus e nova terra.
Obrigado, Rui, pela mãe que, há 29 anos, te deu à luz e que, agora aqui está, como Maria junto à cruz de Jesus, de pé, a receber o Evangelho ou a Boa Notícia que a tua vida/morte/ressurreição nos está a gritar. Os anos já lhe pesam, as dores que sofre têm sido muitas, o império e os seus narcotraficantes arruinaram-lhe o filho das suas entranhas, mas ela aqui está, nesta hora final, que, em ti, é já a Hora de Deus, para receber a Boa Notícia que a tua vida/morte/ressurreição, qual sacramento ou mistério, nos está a gritar.
Obrigado, Rui, pela coragem que a tua mãe revela e pela dignidade com que sabe estar aqui, nesta hora, na comunhão mais profunda contigo já ressuscitado, definitivamente constituído na dignidade plena de filho de Deus.
E, agora, Rui, iluminados pela Boa Notícia que a tua vida/morte/ressurreição nos grita, vamos prosseguir na História, mas, de olhos ainda mais abertos, de consciência ainda mais iluminada, alegremente disponíveis para enfrentar o poder do império, lá onde ele está activo, seja nos seus assassinos sistemas de economia que produzem pobres e excluídos em série, seja nas políticas que apenas existem para realizar os seus monstruosos projectos, seja, até, nas Igrejas e nas Religiões que, tantas vezes, em lugar de lhe resistirem, em nome de Deus e da Dignidade Humana, como paradigmaticamente fez Jesus de Nazaré, prostram-se diante dele e prestam-lhe público culto. A troco de envenenado prato de lentilhas.
Obrigado, Rui.

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