Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

28 Janeiro 2001

Tudo sobe, até os preços das missas católicas. Com a entrada em 2001, as missas passaram a custar 1.500$00 cada uma. E cada trintário de missas (ainda há quem acredite que 30 missas celebradas em outros tantos dias consecutivos, sem qualquer interrupção, tiram, infalivelmente, do purgatório, a alma por quem ela for aplicada!...) passa a custar 50.000$00. Os aumentos podem ainda não estar em vigor em todo o país, mas já estão em vigor na Organização pública universal dependente da Santa Sé, "Ajuda à Igreja que Sofre", também com sede em Portugal (Rua Joaquim António de Aguiar 43 –1º E, 1070-150 Lisboa).
"Como é do vosso conhecimento – reza um ofício recebido por mim, enquanto responsável pelo Jornal FRATERNIZAR, e assinado pelo respectivo Director nacional, Paulo Bernardino – a nossa Organização vive exclusivamente da ajuda de amigos e benfeitores... e em muitos casos, os meios de comunicação social são os nossos melhores colaboradores na divulgação das nossas acções e dos nossos projectos sócio-pastorais."
O ofício fala, depois, da campanha, "Intenções de Missa", para informar, não que ela acabou, o que seria da mais elementar honestidade pastoral evangélica, mas sim que irá prosseguir como até aqui, "agora com os estipêndios actualizados".
E adianta uma justificação, que mais parece areia lançada aos olhos das pessoas, uma vez que com essa justificação, nada mais faz do que sancionar uma prática evangelicamente aberrante e intolerável, como é esta prática eclesiástica católica de ganhar dinheiro com as missas: "A nossa ajuda às missões... paróquias ou comunidades cristãs em forma de estipêndios de Missa representa uma grande ajuda para aquelas zonas do mundo onde a pobreza... a miséria... a perseguição religiosa e as necessidades primárias são uma constante. Ao longo deste ano queremos criar uma onda de grande solidariedade em forma de recolha de fundos, de intenções de Missas e de oração pela Igreja mártir de Angola".
Por sua vez, o Padre Luís Rocha e Melo, SJ, presidente da Organização em Portugal, apresenta o folheto da referida campanha. Antes de falar em números, assina uma nota de abertura, onde diz, expressamente, que "as intenções de Missa são uma ajuda fundamental para a vida quotidiana dos sacerdotes, sobretudo para os que exercem o seu apostolado nas zonas onde a Igreja está em dificuldade devido à falta de meios ou à discriminação religiosa".
E acrescenta, logo depois, o referido padre jesuíta: "Esta antiquíssima forma de sustento é, também, uma ajuda indirecta para as comunidades paroquiais que beneficiam da presença dos sacerdotes, ponto de referência na formação religiosa e no apoio social e caritativo. Para os crentes que desejam recordar os seus caros defuntos, vivos em Deus, esta intenção de Missa tem o significado de um acto de comunhão. Centenas de sacerdotes em necessidade, disponíveis para celebrar Santas Missas ou Trintários Gregorianos (30 Missas consecutivas) segundo as intenções dos nossos amigos e benfeitores, pedem-nos ajuda deste modo. Se desejar ajudá-los, pode confiar a estes sacerdotes a celebração de Santas Missas, segundo a sua intenção, tendo em conta as indicações que se encontram no verso."
Ora, as indicações que se encontram no verso, informam-nos sobre os novos preços das missas (a designação "estipêndio", em lugar de "preço" não passa de um jogo de palavras e duma tentativa de esconder o grave pecado de simonia e o enorme escândalo que a prática de vender missas em série materializa, para, com ela, fazer dinheiro, muito dinheiro).
E não só. Aquelas indicações esclarecem também que "no ano passado foram-nos confiados 6.121.845,47 Euros de estipêndios de Santas Missas que foram repartidos da seguinte forma: Europa Oriental 32,9%; Ásia 21,3%; África 19,2%; América Latina 26,6%."
O que mais me choca
O que mais me choca em tudo isto é o à vontade com que se avança por uma prática que a Igreja primitiva não teve dúvidas em condenar como simonia, um crime resultante da tentativa de comprar com dinheiro o que, na dimensão da Fé cristã, é, em si mesmo, puro Dom, pura Graça.
Ora, é da natureza da Graça, chegar às pessoas, a todas as pessoas, de graça. Nunca mediante o dinheiro. De contrário, sós os endinheirados poderiam ter acesso à Graça. E quanto mais endinheirados fossem mais Graça poderiam alcançar.
Há outra coisa chocante em tudo isto: Quem nos garante que o dinheiro enviado à Organização "Ajuda à Igreja que Sofre", bem como a outras instituições do género, é sempre dinheiro honesto, limpo, e não uma hábil maneira de "lavar dinheiro sujo"? E de descarregar consciências mais ou menos pesadas?
Por outro lado, para que serve uma pessoa mandar rezar missas e, por esse meio, "recordar os seus caros defuntos", se estes, como a própria Nota de abertura do folheto, assinada pelo Padre Luís Rocha e Melo, SJ, já estão "vivos em Deus"? Então as pessoas não podem recordar os seus "caros defuntos", a não ser por meio de missas que mandam celebrar e que têm de pagar previamente? E, se os "caros defuntos" das pessoas estão vivos em Deus, será que ainda precisam que os recordemos, por meio de missas que custam, cada uma, 1.500$00? Não tem, toda esta linguagem, algo de oportunismo, quando, habilmente, faz referência aos "caros defuntos" das pessoas? Não se pretende com ela apelar à emoção e à sensibilidade das pessoas, e jogar com esses sentimentos, para mais facilmente as levar a entregar o seu dinheiro à Congregação em causa?
Ainda a propósito do estipêndio. Se não é um preço, mas uma esmola ou uma oferta, como pretendem convencer-nos a Congregação "Ajuda à Igreja que sofre" e a generalidade do clero da nossa Igreja católica, então por que determinam os que estão à frente duma e doutra, que, a partir de agora, quem quiser que um padre lhe celebre uma missa ou trintário de missas pelos seus "caros defuntos", tem de pagar, no mínimo, as quantias fixadas neste folheto? Quando o estipêndio é fixado e exigido por igual a todas as pessoas que pretendam missas pelos seus "caros defuntos", ainda se pode falar em estipêndio? Não estamos perante um preço fixo, como num qualquer supermercado, onde só se abastece quem tiver dinheiro para pagar?
Por mim, sempre achei que isto de ter de dar dinheiro, para se poder ter acesso à Graça que Deus dá de graça a toda a gente, tem tudo de diabólico e nada de evangélico. Podem os padres, meus colegas no presbiterado, argumentar que esta é uma forma de ajudar à sua própria sobrevivência, nomeadamente, quando são párocos a tempo integral. Nunca me convenceram, nem convencem. Pelo contrário, quanto mais argumentos elaboram para justificar uma tal prática - sinal evidente de que a situação é embaraçosa e nada transparente - menos me convencem.
De resto, o Evangelho de Jesus, quando envia os primeiros seguidores, mulheres e homens, em missão, não pode ser mais inequívoco e transparente: Não leveis bolsa nem alforge. Daí de graça o que de graça recebestes. Comei do que vos derem, porque o trabalhador merece o seu sustento. Nada mais do isto. E o apóstolo Paulo nem isto aceitou, como prática habitual, só excepcional. A prova é que fazia gala de trabalhar com as próprias mãos, para não ficar pesado a ninguém, nem comer o pão de ninguém. E não se cansa de repetir, como um título de glória pessoal, anunciar o Evangelho de graça!
A este propósito, nunca esqueço a experiência pastoral que vivi, no fim da passada década de sessenta e princípio da década de setenta, como pároco, respectivamente, de Paredes de Viadores (Marco de Canaveses) e de Macieira da Lixa (Felgueiras). Uma das regras que fixei, para mim e, logo à entrada, anunciei ao povo que ia servir, foi a de não cobrar dinheiro a ninguém, por qualquer serviço pastoral que prestasse. Tudo tinha de ser de graça, a começar, evidentemente, pela Missa. E assim foi.
Mas pensam que foi fácil? Nada disso. Se, no princípio, os pobres se alegraram, a verdade é que, mais tarde, nem esses se mostravam lá muito satisfeitos com uma tal prática pastoral. Achavam que, se a missa, por exemplo, era de graça, não tinha valor! E alguns houve que passaram a mandar rezar missas pelos seus "caros defuntos", nas paróquias das redondezas.
A experiência revelou, igualmente, que os meus colegas párocos, das redondezas, depressa se tornaram nos meus principais inimigos (houve, felizmente, honrosas excepções, tanto num concelho como noutro). E terão sido eles quem convenceu os paroquianos que eu servia gratuitamente, de que, se eu não recebia dinheiro pelas missas, elas não tinham valor!
Vejam até onde é capaz de chegar a perversão do Evangelho. E do que são capazes os que aproveitam dessa perversão, só para manter o status quo eclesiástico, que lhes garante avultados rendimentos.

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