Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

25 Janeiro 2001

O texto quase me dá vómitos, mas, antes de me debruçar sobre ele para o comentar com humor e amor, vou primeiro transcrevê-lo na íntegra. Para que outras e outros possam sentir a mesma náusea que eu senti ao lê-lo. Por sinal, é um texto, assinado por uma amiga minha, Angélica Silveira, professora, esposa do meu amigo e condiscípulo, Boaventura Silveira, hoje, padre casado e chefe de redacção do mensário regional "O Futuro", dirigido por Manuel Domingos da Silva Lopes, pároco de Lavra, concelho de Matosinhos.
Para melhor se perceber o texto, convém esclarecer que Angélica Silveira assina, em cada edição de "O Futuro", uma local, que dá pelo genérico título, "Migalhas de Cultura". É nesta local que vem, na edição de Janeiro 2001, a crónica, "O que significa ou quem é a Imaculada Conceição". Se aguentarem, leiam até ao fim. Atentem, depois, no meu comentário. E discutam-no, se quiserem. Eu gosto da polémica.
«No dia 8 do passado mês de Dezembro, em todo o mundo católico se celebrou, festivamente, a Imaculada Conceição da Virgem Maria, ou seja, a festa de Nossa Senhora da Conceição.
Mas... que significa a expressão IMACULADA CONCEIÇÃO?
É um dogma da fé católica que todo o ser humano nasce com o pecado original; mas que houve uma pessoa apenas que nunca esteve sujeita ao poder do demónio, pelo pecado – Maria, Mãe de Jesus. Por isso, Ela é chamada a Imaculada, isto é, a sem mácula.
Na verdade, para vir a ser a Mãe do Salvador, Maria "foi adornada por Deus com dons dignos de uma tão grande missão". O Anjo S. Gabriel, no momento da anunciação, saúda-a como "A cheia de graça" (Lc 1, 28), isto é, Aquela em quem nunca existira qualquer mancha de pecado.
Esta saudação do anjo supõe e exige que a bem-aventurada Virgem Maria tenha sido preservada intacta de todo o pecado, desde o primeiro instante da sua concepção (= conceição), por uma graça e favor singular de Deus omnipotente, em previsão dos méritos de Jesus, Salvador do género humano.
Desde os primeiros séculos do Cristianismo e até ao século XIX, muitos e célebres pensadores e teólogos defendiam que Nossa Senhora fora concebida sem mácula (= pecado), ou seja, que fora imaculada na sua concepção e que sempre tinha vivido sem cometer qualquer pecado até ao fim da Sua vida terrena. Por exemplo:
* Os professores catedráticos da Universidade de Coimbra, desde a sua fundação, em 1290, e pelos séculos fora sempre juravam, no acto de posse, defender a "Imaculada Conceição da Virgem Maria".
* Em Dezembro de 1531, apareceu em Guadalupe (México) ao Beato João Diogo a "Senhora sem mancha". Foi assim que Ela se definiu a uma pergunta dele.
* A 27 de Novembro de 1830, vestida de azul e branco, apareceu a Santa Catarina de Labouré, ensinando-lhe a seguinte jaculatória, com o pedido de ela e todas as pessoas a rezarem muitas vezes: "O Maria concebida sem pecado, rogai por nós, que recorremos a Vós".
* Em 1854, o Papa Pio IX (há poucos meses beatificado por Sua Santidade João Paulo II na vasta basílica de S. Pedro, em Roma), a pedido instante da maior parte dos bispos e cardeais do mundo inteiro, definira, como dogma de fé católica, o ter Nossa Senhora nascido sem mácula original, que o mesmo será afirmar que a Virgem Maria fora Imaculada (isenta de pecado) na sua conceição. A partir daí, nossa Senhora começaria a ser tida e tratada como a IMACULADA CONCEIÇÃO.
Aparições em Lourdes
Daí a 4 anos, em 11 de Fevereiro de 1858, na gruta de Massabielle, nos arredores da cidade francesa de Lourdes, apareceria a Virgem Maria a uma humilde pastorinha de 14 anos de idade, filha de uma família muito cristã, mas extremamente pobre. Essa menina, pura e piedosa, chamava-se Marie Bernardette (hoje, stª Maria Bernardete, a partir do momento em que o Papa Pio XI a canonizou, a 8 de Dezembro de 1933).
Pois Nossa Senhora aparecer-lhe-ia 18 vezes, entre 11 de Fevereiro e 16 de Julho desse referido ano de 1858, a quem prometera fazê-la feliz não neste mundo, mas sim no outro.
Bernardette descreveria desta forma a aparição que teve:
"Tem as feições de uma donzela de 16 ou 17 anos. Traja um vestido branco, que lhe cai até aos pés, cingido com uma faixa azul, à cinta. Traz na cabeça um véu, também branco. Vem descalça, mas, na ponta de cada pé, sobressai uma rosa de oiro. Do braço direito pende um terço de contas brancas, encadeadas em fio de oiro brilhante".
Na aparição de 25 de Março, festa da Anunciação, solicitou-lhe três vezes: "Ó minha Senhora, querei Ter a bondade de me dizer quem sois?" E continua Bernardette a sua descrição/narração: "À terceira vez que lhe pedi, tomou um ar grave e humilde. Em seguida, juntou as mãos, ergueu-as... olhou para o céu; depois, separando-as lentamente e inclinando-se para mim, deixando tremer um pouco a voz, respondeu: "Eu sou a Imaculada Conceição".
Quatro anos antes, o Santo Padre Pio IX tinha definido o dogma da Imaculada Conceição. Agora, o céu como que confirmava a definição pontifícia.
A mensagem que Nossa Senhora deixou foi a da oração (nomeadamente o terço). Convidou Bernardette a rezá-lo sempre.
Pediu também para ela dizer aos sacerdotes que queria que se construísse, naquele local, uma capela, para que os fiéis ali fossem em jornada de fé.
Numa das suas aparições, a Imaculada Conceição (como se intitulou), pareceu dar uma volta à terra com o seu olhar. Depois fixou, com um ar triste, Bernardette e pediu-lhe: "Rezai a Deus pelos pecadores. E fazei penitência".
Fazer penitência quer dizer arrependermo-nos da vida menos santa que levamos, mudando-a para melhor.»
O meu comentário
Tudo, neste texto, é sinistro. Pior, diabólico, pelo menos, no sentido teológico que o autor do Evangelho de João (8, 44) dá a este termo. Tudo nele é mentira. Tudo nele é um atentado à inteligência humana e, sobretudo, à Fé cristã.
Pode ser um texto muito religioso, escrito com muita devoção, mas é sinistro e diabólico. É uma das maneiras, muito eclesiásticas e muito religiosas, de atentar contra o Espírito Santo, pois faz passar por verdade, o infantilismo mais ingénuo. Como se os seres humanos, para darmos glória a Deus, tivéssemos que ser estúpidos e crescer totalmente desprovidos de espírito crítico.
Ora, se eu já não posso aceitar que, no século 19, estas coisas tenham sido apresentadas nos termos em que o foram - já tinha havido, senhoras e senhores, a Revolução Francesa e estava na ordem do dia a Modernidade, sem dúvida, um dos mais belos frutos do Espírito Santo, dado à luz fora do nefasto mundo da Cristandade - muito menos posso suportar que, no primeiro mês do terceiro milénio do Cristianismo, se escreva um "pedaço de cultura" nos termos e nos conteúdos em que esta crónica se apresenta escrita.
No meu modo de ver e no modo de ver próprio duma Fé cristã iluminada e evangelizada, esta crónica, tal como se apresenta, é um atentado contra a cultura, contra o Cristianismo, contra Maria, mãe de Jesus, contra a Modernidade e contra a inteligência humana. Para lá de um manifesto mau gosto.
Continuem a falar assim das coisas de Deus e de Deus, e depois espantem-se que o número de ateus, mulheres e homens, cresça cada vez mais. Com catequeses destas, é inevitável. E, se querem que lhes diga com franqueza, é até saudável.
Primeiro, é preciso que se saiba que tudo quanto a narrativa de S. Lucas diz sobre Maria, nos dois primeiros capítulos do primeiro volume do seu Evangelho, não é dela que o diz, mas de Jesus. Sempre deveríamos ter sabido isto, uma vez que o autor do Evangelho de Lucas se propôs escrever o Evangelho ou a Boa Notícia de Jesus, filho de Maria e de José, e não escrever o Evangelho ou a Boa Notícia de Maria.
Deste modo, quando, concretamente, se refere a Maria e fala de um anjo que, segundo o relato deste Evangelho, teria ido a casa dela e a saudou do modo que a crónica acima transcrita diz, o respectivo autor não está a fazer uma reportagem sobre a vida quotidiana de Maria, menos ainda, está descrever um facto histórico.
De contrário, teríamos de dizer que, ou o autor do Evangelho de Lucas mente, ou mente o autor do Evangelho de Mateus. Na verdade, este último autor não só não nos relata nada de semelhante, nos dois primeiros capítulos do seu Evangelho, como, pelo contrário, até nos apresenta o anjo a falar - e só em sonhos! - mas exclusivamente com José, o esposo de Maria. Com ela, nunca quer nada, nunca lhe dirige a palavra. Pura e simplesmente, a ignora! E, mesmo quando é posto a falar com José, nunca se refere à esposa dele, Maria, como a "cheia de graça", menos ainda, como a Imaculada conceição!...
Porém, é preciso que se saiba que os dois relatos evangélicos das, mal denominadas, "narrativas da infância", que estão à nossa disposição nos Evangelhos sinópticos de Mateus e de Lucas (há um terceiro Evangelho sinóptico, o de Marcos, por sinal, o primeiro a ser escrito e, por isso, o que está mais próximo do Acontecimento de salvação, que é Jesus de Nazaré, o Cristo crucificado/ressuscitado, mas que, para provável espanto geral, não nos dá uma palavra sequer sobre a concepção e o nascimento de Jesus, muito menos, sobre a concepção de Maria, sua mãe, pelo contrário, o que nos diz de Maria, sua mãe, é até bastante desfavorável a ela!...) não são, como pensa muito boa gente da nossa Igreja católica, papa, bispos e padres incluídos, relatos mariológicos, a partir dos quais se pode construir uma mariologia. São, sim e só, relatos cristológicos, a partir dos quais se pode e deve construir uma cristologia radicalmente libertadora e desalienadora.
É assim que, por exemplo, embora as duas narrativas digam ou sugiram que Maria é virgem, não pretendem, com isso, atribuir um predicado a Maria, que as outras mulheres e os homens nunca puderam ter. O que pretendem é revelar algo de fundamental sobre Jesus, sobre quem, aliás, tanto Mateus como Lucas estão a escrever o respectivo Evangelho ou a Boa Notícia.
Por outras palavras, ao dizer ou sugerir que Maria é virgem, as duas narrativas não estão a querer dizer que Maria, mãe de Jesus, é sexualmente virgem, antes, durante e depois do parto, como, erradamente, veio a definir dogmaticamente a nossa Igreja católica. O que querem dizer é outra coisa teologicamente muito mais importante, a saber, que Jesus - apesar de ser filho carnal de Maria e de José, como qualquer de nós, mulheres ou homens, somos filhas ou filhos duma mulher e dum homem, respectivamente nossa mãe e nosso pai carnais - é, ao mesmo tempo e misteriosamente, o Filho de Deus, é Deus entre nós e connosco, é o Emanuel. De tal modo que, no dizer teológico do Evangelho de João (14, 9), sem dúvida, o mais teológico dos quatro Evangelhos do Novo Testamento bíblico, o respectivo autor põe o próprio Jesus a revelar a Filipe, "Quem me vê, vê o Pai".
Igualmente, o autor do Evangelho de Lucas, ao referir-se a Maria como "cheia de graça", não está a querer dizer que a mãe de Jesus foi imaculada desde a sua conceição, como refere o dogma da nossa Igreja católica, proclamado pelo Papa Pio IX e que é fruto de um outro dogma não menos disparatado, o da infalibilidade do Papa.
Como se trata dum relato cristológico e não mariológico, o autor, ao recorrer a esta expressão literária, está, habilmente, a sugerir/dizer/revelar algo sobre Jesus e só sobre Jesus, e não sobre Maria, sua mãe. Concretamente, está a sugerir/dizer/revelar que este ser humano, Jesus, que saiu das entranhas de Maria e que, mais tarde, pelos trinta anos de idade, se tornou conhecido entre os seus concidadãos (na altura da sua concepção e do seu nascimento, trinta anos antes, ninguém soube de nada, nem sequer a sua mãe!), é nem mais nem menos do que o Santo de Deus, o Único, o Protótipo do Ser Humano, em quem toda a Humanidade, crente ou ateia, deverá pôr os olhos, e abrir-se ao mesmo Espírito que plenamente o habita, até chegar a ser Humanidade a valer, à imagem do Deus vivo que ainda agora nos está a criar, no decorrer dum processo histórico que mal começou e, por isso, está longe, muito longe, de ter terminado.
É, por saber, querida Angélica, minha amiga e irmã, na Fé cristã que nos é comum, que estas coisas hão-de ser vistas assim, que eu, aqui digo, sem eufemismos, mas com muito amor à verdade e a ti, que o teu texto é uma mentira pegada. Tem por pai, não o Espírito Santo de Deus, que é o Espírito de Verdade, que nos está a guiar para a verdade (= liberdade/responsabilidade) total, mas sim o Diabo, ou seja, a Mentira.
Claro, que tu não tens culpa do que escreveste. Tu limitaste-te a reproduzir uma certa catequese eclesiástica que te foi superficialmente ministrada na infância e, depois, aprofundada, no convento de freiras que, durante anos, frequentaste, como uma freira mais entre tantas outras, na estúpida convicção – outra mentira pegada que te meteram na cabeça! - de que eras "esposa" de Cristo! Uma catequese manifestamente diabólica, mentirosa, da qual, pelos vistos, ainda te não libertaste, nem mesmo depois de, em finais da passada década de setenta, teres tido a audácia de abandonar o convento e o estatuto de freira, para casares com o meu condiscípulo, amigo e irmão no presbiterado, e, desde então, teu esposo, Boaventura Silveira.
Aliás, é essa mesma diabólica catequese eclesiástica que impede o teu esposo e meu condiscípulo, padre Boaventura Silveira, de exercer o ministério presbiteral, só porque, ao chegar à maturidade, optou pelo sacramento do Matrimónio e celebrou-o contigo.
(Também aqui, estamos perante uma decisão eclesiástica que tem por pai, não o Deus revelado no Cântico dos Cânticos e, mais tarde, em Jesus de Nazaré, o Cristo de Deus, mas o Diabo, que é mentiroso e pai de mentira, e assassino desde o princípio).
Sim, minha amiga e irmã Angélica, é essa diabólica catequese eclesiástica que sempre viu, e ainda continua a ver, no sexo realizado por dois corpos que se amam (casados ou não, tanto faz!), não uma coisa tão sagrada como, por exemplo, rezar e celebrar a Eucaristia, mas uma coisa menos boa e até feia, que impede de exercer o ministério ordenado de presbítero ou de bispo, quem, além disso, decide avançar para o casamento de facto, mesmo sob a forma eclesial de Sacramento do Matrimónio!
Tu e o Boaventura conheceis na carne quanto isto que aqui escrevo é verdadeiro, porque, desde que ambos decidistes avançar para o sacramento do Matrimónio, foi como se caísse o Carmo e a Trindade, tanto entre os vossos familiares, como à vossa volta. E, sobretudo, no interior da Igreja do Porto, de que sois membros notoriamente dedicados, ainda hoje.
Nunca mais fostes olhados como antes pelos responsáveis da coisa católica (neste caso, nem a palavra Igreja me atrevo a pronunciar!), tal mal eles vos trataram. E tu, Angélica, sabes tão bem como eu, que o Boaventura, desde que se tornou teu esposo, nunca mais pôde, para grande mágoa para ele, presidir publicamente à Eucaristia e exercer o ministério presbiteral, apesar de para isso ter sido ordenado, precisamente, no mesmo dia e no mesmo ano que eu, 5 de Agosto de 1962.
Ainda assim, querida Angélica, deixa que te diga uma coisa mais: Espanta-me que escrevas uma crónica tão desgraçada como esta que aqui transcrevi e acabo de comentar. É que pelo menos tu e o Boaventura tendes obrigação de conhecer o meu último livro, NEM ADÃO E EVA, NEM PECADO ORIGINAL, no qual toda esta diabólica doutrina do pecado original é denunciada e escalpelizada.
Provavelmente, ainda não o tereis lido. Mas sabeis que ele saiu, até porque recebeis o Jornal FRATERNIZAR, em cujas páginas, o livro foi já várias vezes referenciado. Nomeadamente, as palavras muito elogiosas que sobre ele disseram, na sessão de apresentação, tanto no Porto, como em Lisboa, respectivamente, o Padre Doutor Anselmo Borges e o Pastor da Igreja Presbiteriana, Dimas de Almeida. De resto, bastava o simples título do livro, para te fazer pensar duas vezes, antes de escreveres esta crónica, nos termos em que a escreveste.
E, já agora, a terminar, peço-te que não fiques melindrada comigo, por te dizer estas coisas, assim, com tanta frontalidade, neste meu diário na internet. Porque, se há dureza nas minhas palavras, não é contra ti, como pessoa, mas contra a doutrina diabólica que te meteram na cabeça e na consciência, e da qual, pelos vistos, ainda te não libertaste, nem um bocadinho.
(Aquela tua referência às chamadas aparições de Lourdes, e com a seriedade com que tu o fazes, é mesmo de rir a bom rir. Desde logo, pelo nome que a "aparição" se dá a si mesma: Eu sou a imaculada conceição! Mas então isto é nome que se apresente? É nome de gente? É nome de mulher? Ou será o nome de mais uma mítica deusa que, pelos jeitos, fala francês, como, anos mais tarde, a mítica deusa de Fátima falou português, por sinal, para dizer basicamente as mesmas tretas da de Lourdes?!...).
Acredita, querida Angélica: O que mais desejo, com esta página do meu diário na internet, é ver-te liberta desta mentira, deste diabo. Para que as tuas próximas crónicas no "Futuro" sejam libertadoras. Em verdade te digo: Não tens outra maneira de, ao escrever, dares glória a Deus!

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