Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

21 Janeiro 2001

1. Acabo de chegar de um encontro de cristãs e de cristãos do Norte, realizado no Porto, mais precisamente, numa sala emprestada da Casa dos Padres Jesuítas. Os imigrantes em Portugal estiveram no centro das preocupações de todas e de todos os presentes, algumas dezenas.
Para animar o debate, o grupo promotor do encontro conseguiu a presença de duas companheiras de Lisboa, que trabalham em outras tantas instituições confessionais católicas, no acolhimento/orientação de imigrantes recém-chegados a Portugal, os quais, sem ninguém que os oriente, logo se sentem perdidos num país pequeno, cuja língua não falam nem entendem.
Saudavelmente polémica foi uma outra presença não confessional, de elementos da Associação "Olho Vivo", do Porto (Tela. 22 208 34 34), que se fizeram acompanhar de dois imigrantes ucranianos, com alguns meses de permanência no nosso país, e que deram testemunho do modo abaixo de cão como têm sido tratados por empresários portugueses sem escrúpulos, por repartições públicas do Estado que procedem como se eles fossem portadores de doença contagiosa e transmissível pela simples presença física, e também por compatriotas seus que servem de intermediários, mas só para os comer como canibais.
O debate que se desenvolveu, ao longo da manhã e da tarde, foi de tirar o apetite ao mais insensível. Só foi pena que não resultasse num levantamento e numa manifestação de rua, para que a cidade toda, durante este ano de 2001, capital europeia de cultura, tivesse vergonha desta e doutras situações de desumanidade que alberga no seu seio, e compreendesse, duma vez por todas, que não há cultura digna deste nome, enquanto os nossos quotidianos comportamentos para com o estrangeiro, o diferente, no caso, os imigrantes que aqui tentam a sua sorte e a sua sobrevivência e a dos seus, forem de insensibilidade, de rejeição, de desprezo, de exploração, de portas fechadas, de incomunhão.
Quando a cultura não nos faz abrir ao outro, ao diferente, ao estrangeiro, ao que não é da nossa nacionalidade nem da nossa família, ainda que todos eles e elas sejam seres humanos em tudo iguais a nós, e o sangue que lhes corre nas veias seja em tudo igual ao nosso, então não é cultura, mas incultura e selvajaria. Por mais óperas que leve à cena em grandiosas e majestáticas salas de espectáculos, por mais música erudita que execute, por mais peças de teatro que apresente, por mais filmes de qualidade que projecte, por mais ballés que encene, por mais romances que escreva, por mais pinturas e esculturas que exiba em requintadas exposições.
No decorrer do encontro, dei comigo a pensar, espantado: como é que o ser humano é capaz de tratar outros seres humanos, seus iguais, como os múltiplos países da Europa, entre os quais Portugal, estão a tratar, neste início do século XXI e do terceiro milénio do Cristianismo, os estrangeiros que vêm até nós, por trabalho e pão, para eles e para os seus?!
Uma vez que é pelos frutos que se conhecem as árvores, temos de reconhecer, para vergonha nossa, que a Europa de que fazemos parte, está longe de ser uma Europa civilizada, culta. É, antes, uma fortaleza que olha para o seu próprio umbigo, que sente apenas os seus problemas e se fecha aos outros povos, quando eles nos procuram com a intenção de passarem a partilhar do nosso chão, das nossas oportunidades, dos nossos bens.
Os imigrantes que, hoje, vivem ou aspiram viver entre nós não são ladrões que vêm roubar o fruto do nosso trabalho, ou apoderar-se das nossas casas e das nossas coisas. Esses crimes cometemo-los nós, há 500 anos e durante os séculos da colonização, nas terras de outros povos que, na altura e depois, repetida e mentirosamente, dissemos que havíamos "descoberto", quando, na verdade conquistamos e subjugamos pela força das armas e da alienação religiosa.
Os imigrantes que, hoje, vivem entre nós não são nada do que nós fomos outrora. São companheiros que vêm viver connosco, trabalhar connosco, fazer-se próximos de nós. E não vêm de mãos vazias, a não ser de bens materiais. Vêm até nós com toda a riqueza cultural e espiritual dos seus povos, com toda a riqueza das suas diferenças. Vêm oferecer-nos a oportunidade de nos enriquecermos com eles e de, todos juntos, construirmos uma Europa e um mundo que incluam todos os povos e todas as pessoas, sem exclusão de ninguém.
Infelizmente, nós, Europa unida, nem sequer somos capazes de entender isto. Muito menos, estamos à altura do momento histórico que nos é dado viver. De modo que procedemos como selvagens, quando nos temos na conta de darmos lições de civilização ao mundo. Cegos, de barriga cheia e apetrechados de alta e sofisticada tecnologia, é o que somos. Desgraçados que desgraçamos o mundo em que tocamos. Produtores de armas e traficantes de drogas, sem escrúpulos. Miseráveis que temos onde cair mortos, por sinal, mausoléus de luxo, mas, entretanto, incapazes de vivermos, cada dia, a festa contínua da comunhão das línguas e das culturas, das cores da pele e dos usos e costumes dos mais diversos povos do planeta.
Em lugar de olharmos para o estrangeiro que nos bate à porta por abrigo, por trabalho, por companhia, por humanidade, e lha franquearmos num abraço sem fim, como é próprio de irmãos e de irmãs que se amam e se entreajudam, apressamo-nos a fazer leis que dificultam toda esta boa notícia em acção. E nem sequer nos damos conta de que, com procedimentos destes, por mais "legais" que eles possam ser – há uma certa legalidade que só serve para dar cobertura a comportamentos perversos e totalmente iníquos, como é o caso em presença! – estamos, pura e simplesmente, a hipotecar o nosso futuro, como Europa e, até, como Humanidade.
Nenhum país e nenhum continente, hoje, podem viver sem os outros países e os outros continentes. Estamos todos embarcados na mesma nave. Por isso, quantos mais muros levantarmos, mais cavamos a nossa própria prisão e a nossa própria sepultura. A não ser que arrepiemos caminho, já. O que ainda não parece estar para acontecer. E talvez só venha a acontecer, quando os povos da fome que demandam as nossas fronteiras, perderem o ar de mansidão que, por enquanto ainda têm, e se perfilarem como insubornáveis juizes nossos, prontos a julgar-nos e a condenar-nos como criminosos contra a Humanidade, que é o que, já hoje, somos, quando decidimos comportar-nos com outros povos iguais a nós, ainda que também saudavelmente diferentes de nós, do jeito que estamos a fazê-lo.
Infelizmente, não foi muito por estas águas que o encontro de cristãs e de cristãos navegou. Deveria ter sido. Porque, embora seja muito importante ver as situações dos imigrantes em Portugal, à luz das leis em vigor e dos direitos humanos, é de todo imprescindível ver esta dolorosa realidade humana e social, também à luz da Fé cristã e da Teologia que dela decorre. De resto, este é, sem dúvida, o olhar que vai mais ao fundo da realidade que somos e que nos cerca, que vai à sua raiz, essa dimensão sempre oculta e que escapa ao olhar das chamadas ciências positivas, incapazes que são de perscrutar o coração e a consciência dos seres humanos, no que um e outra têm de mais íntimo e de mais misterioso.
Aliás, como o encontro foi de cristãs e de cristãos, por maioria de razão deveria ter sido privilegiado este olhar de Fé cristã e teológico sobre a realidade em debate, no que é suposto sermos peritos, nós, as cristãs e os cristãos, católicos e não católicos.
Bem sei que há por aí, hoje, bem dominante, uma certa teologia que bebe mais na Religião do que na Fé cristã, e que, por isso, acaba por ser uma teologia demoníaca, isto é, feita de mentira. É, por isso, uma teologia opressora e justificadora de todo o tipo de situações de opressão, tanto das pessoas como dos povos.
Trata-se da teologia produzida e divulgada pelas multinacionais e suas religiões, a qual não só não dispensa os sacrifícios humanos e as vítimas humanas em honra do seu deus, conhecido, desde o princípio, por "Moloch" e por "Mamona" (= o Dinheiro olhado como o valor absoluto, por isso, o ídolo por antonomásia), como até exige esses sacrifícios e essas vítimas humanas.
Tal, porém, não aconteceu. O que empobreceu, e muito, o debate, felizmente, bastante oportuno e esclarecedor, nas outras dimensões e nos outros olhares que soube desenvolver, ao longo do dia e que, em boa hora, fez vir ao de cima.
Esta falha é tanto mais de lamentar, quanto, hoje, as pessoas e os povos estamos confrontados, a todos os instantes, com a teologia demoníaca, elaborada pelas multinacionais e suas Religiões. Com a agravante de, até certas Igrejas locais, auto-assumidas como cristãs e católicas, mais não serem do que Religiões, informadas, elas também, da mesma teologia demoníaca, ou seja, tecida de mentira, justificadora de intoleráveis situações de opressão de pessoas e de povos, e de todo o tipo de outras situações de desumanidade.
Tivesse estado presente o olhar da Fé cristã e da teologia radicalmente libertadora que dela decorre, e tudo teria sido muito mais rico do que foi e muito mais subversivo e revolucionário. Também muito mais mobilizador de energias e de esforços, traduzidas num crescente levantamento individual, familiar e social cada vez mais organizado e imparável, contra a desumana situação dos imigrantes em Portugal e no resto da Europa unida.
Não tenho dúvidas em afirmar: A presença/intervenção de uma teóloga cristã ou de um teólogo cristão, ou de ambos, teria, qual parteira, ajudado as e os presentes no encontro, a dar à luz um movimento libertador e salvador, porventura, politicamente incorrecto, mas que iria fazer o seu curso junto dos novos escravos do século XXI, que são os milhões e milhões de imigrantes nos países da Europa, e, depois, já na intimidade com eles, despertar-lhes-ia a consciência, ao mesmo tempo que mobilizaria todas as suas energias, para, em conjunto, nós e eles, resistirmos aos interesses das multinacionais e dos Governos que estão ao serviço delas, até provocarmos a Páscoa ou Passagem, da presente situação de opressão para a situação do Deserto, onde todas e todos haveremos de reaprender a viver como mulheres e homens livres, responsáveis, protagonistas, sem deuses nem chefes, sem intermediários, como sujeitos que se assumem até ao limite das suas forças.
Haveria, então, ocasião de nos recordarmos de outros escravos que, há mais de três mil anos, conheceram na carne o que, hoje, muitos irmãos nossos e muitas irmãs nossas dos países de Leste e de África, também conhecem, nestes nossos velhos países da Europa, transformada, de repente, num gigantesco Egipto, não dos faraós, mas das multinacionais.
Penso, até, que ainda teríamos conseguido ir muito mais longe e muito mais fundo. Porque, como Moisés outrora, chegaríamos a perceber a presente situação dos imigrantes no nosso país e nos demais países da Europa, como verdadeira "sarça ardente" que está aí para nos queimar a consciência, ao ponto de nos tirar o sono e de nos levar a abandonar, de vez, as rotinas e as mediocridades em que temos vivido, também por imposição das multinacionais, que têm nas mãos os "media" mais influentes e nos empanturram, a toda a hora e momento, com "Big Brothers" e "Acorrentados" e "Novelas", enquanto os seus donos, hábeis como só os filhos das trevas e da mentira sabem ser, continuam, impávidos e incólumes, a executar, em toda a parte, os seus projectos de dominação, de exploração e de exclusão em massa.
Finalmente, em lugar de nos limitarmos a ficar, esterilmente revoltados, no encerramento do encontro, com a presente situação, e a barafustar ruidosamente contra ela, haveríamos de escutar o chamamento de Deus vivo - o único que não faz parte da Ordem dominante nem do Sistema neoliberal em que operam as multinacionais - a dizer-nos, como, outrora, disse a Moisés, na terra de Madian: "Eu vi a opressão do meu povo que está no Egipto [hoje, Portugal e o resto da Europa unida] e ouvi o seu clamor diante dos seus inspectores; conheço os seus sofrimentos. Desci a fim de o libertar da mão dos egípcios [hoje, os donos das multinacionais e seus privilegiados colaboradores] e de o fazer subir desta terra para uma terra boa e espaçosa, que mana leite e mel, terra do cananeu, do hitita, do amorreu, do perizeu, do heveu e do jebuseu. E, agora, eis que o clamor dos filhos de Israel [hoje, os imigrantes de Leste, de África e de outros continentes criminosamente empobrecidos pelas multinacionais] chegou até mim, e vi também a tirania que os egípcios [hoje, as multinacionais e os Governos do Ocidente que com elas colaboram] exercem sobre eles. E agora, vai: Eu envio-te ao faraó [hoje, aos donos das multinacionais e, de modo especial, aos governantes dos países da Europa, que lhes obedecem] e faz sair do Egipto [da opressão gerada pelo perverso sistema neoliberal] o meu povo, os filhos de Israel".
Então, um misterioso Sopro perpassaria pelo mais fundo das nossas entranhas e da nossa consciência, e nunca mais seríamos como até aqui. Os imigrantes, mulheres e homens, que vivem, trabalham e sofrem entre nós, depressa saberiam que não estavam mais sozinhos. As nossas casas seriam também as suas casas. As nossas mesas seriam também as suas mesas. E, depois, sem sabermos bem como, haveríamos de cair nos braços uns dos outros, numa comunhão sem fissuras, que se constituiria como Sinal ou Sacramento duma Terra outra, já em acelerada criação, nos antípodas da Terra dominada e controlada pelas multinacionais.
Até as dores que viéssemos a ter de suportar, seriam entendidas como dores de parto, anunciadoras do amanhecer de um Futuro outro, em que todas as pessoas e todos os povos se reconhecerão irmãs e irmãos. A viver a paz, feita de sucessivos combates em prol de cada vez mais justiça, de cada vez mais igualdade, de cada vez mais liberdade, de cada vez mais riqueza partilhada.
Como já disse, o encontro não navegou por estas águas libertadoras, as águas do Espírito Santo, esse Sopro de Deus vivo que está continuamente a trabalhar na História, para renovar a face da Terra e fazer dos animais racionais que somos, irmãs e irmãos que se amam.
O salto a dar, de animais racionais, a irmãs e irmãos que se amam, é infinito. De modo que só chegaremos a esta nova e última condição, por pura Graça de Deus, não pelo nosso simples querer.
Mas não é do lado de Deus, que o empreendimento em curso falha. E, pelo que o caso concreto dos imigrantes em Portugal e no resto da Europa põe a descoberto, somos levados a concluir que o processo, para lá chegarmos, apresenta-se ainda muito atrasado, talvez porque nós, animais racionais, não temos tido a humildade bastante para acolher a Graça, ou Acção de Deus vivo em nós, isto é, não temos consentido que o Deus vivo seja Deus em nós e connosco.
Em vez disso, queremos, a todo o custo, fazer-nos sozinhos a nós próprios, quais novos Prometeu. E logo sai asneira da grossa. Mas, nem que seja à custa de asneiras sobre asneiras, havemos de aprender que o que havemos de ser, está nas nossas mãos consegui-lo, sim, mas mãos nas quais, desde o princípio. já anda, de forma misteriosa e discreta, a Graça ou Vida/acção de Deus.
Por isso, em lugar de avançarmos, como cegos e como tanques de guerra que esmagam tudo o que encontram pela frente, havemos de avançar, mas com a Luz que misteriosamente brilha na nossa inteligência e a faz ser consciência. Ao mesmo tempo, havemos de avançar alertados pela Voz ou Clamor das vítimas humanas que nos abre os ouvidos do coração, ao ponto de, finalmente, passarmos a escutar e a acolher as próprias vítimas que clamam, concretamente, os imigrantes, os empobrecidos, os oprimidos e os excluídos, tanto mulheres como homens.
É esse clamor escutado e acolhido, que mexe com as nossas entranhas e, logo, nos põe a caminho, de braços abertos e com incontida alegria, ao encontro dos outros, distintos de nós, prontos a partilhar com eles e com elas, tudo o que somos e temos . Quando isto for prática de todos os dias em toda a Terra, poderemos, então, dizer que os animais racionais tornaram-se, finalmente, seres humanos a valer. E esse será o primeiro dia da Humanidade.
2. Mas este dia não se reduziu, para mim, ao encontro de cristãs e de cristãos do Norte, no Porto. Aliás, quando, ao princípio da noite, sintonizei, já em casa, os telejornais portugueses, nem sequer foi desse acontecimento eclesial que eles se fizeram eco (para os "media" portugueses de grande dimensão, a Igreja reduz-se à hierarquia católica e nem sequer a toda, mas apenas a alguns bispos que governam dioceses politicamente importantes). Do que os telejornais se fizeram eco e durante bastantes minutos, foi de um outro acontecimento, por sinal, mais eclesiástico do que eclesial, e que tem a ver com a nomeação anunciada, por parte do Papa João Paulo II, de dois novos cardeais portugueses, a saber: o Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, às mãos de quem, ainda há bem poucos anos, o canal de televisão da Igreja veio a abortar, depois de ter sido arbitrariamente concedido a essa mesma Igreja pelo Governo do Prof. Cavaco Silva (é bom termos memória e não passarmos por cima dos factos mais relevantes como o gato por sobre as brasas); e o arcebispo D. Saraiva Martins que, também recentemente, "cozinhou", em Roma, a piedosa aldrabice canónica, que dá pelo nome de beatificação das duas crianças portuguesas que, em 1917, foram vítimas mortais das chamadas aparições de Fátima (a terceira criança sobreviveu, mas não se livrou de um outro tipo de morte, porventura, mais sádica e cruel, que foi ter sido obrigada por certos clérigos de então a entrar num convento de clausura, de onde nunca mais pôde sair, para levar uma vida como as demais raparigas da sua idade e da sua aldeia!).
Embora esta dupla nomeação cardinalícia já fosse esperada por mim, a verdade é que a sua materialização nem por isso deixa de me perturbar. Ela vem revelar que a nossa Igreja católica parece que já não tem emenda. Desviou-se, há dezasseis séculos atrás, da via de Jesus, o Cristo de Deus e o Libertador da Humanidade, para se atirar de cabeça aos meandros do poder do Império romano. E a verdade é que tomou-lhe de tal modo o gosto, que, até hoje, nunca mais regressou ao Evangelho e à via do serviço libertador da Humanidade.
O Concílio Vaticano II reconheceu esse desvio. Confessou esse pecado. Corrigiu a rota. Pelo menos, ao nível da doutrina e da declaração de intenções. Mas, pelos vistos, não foi além disso. A prática eclesial de todos os dias, tal como a Cúria do Vaticano a assume aos olhos do mundo inteiro, revela que a Igreja continua a preferir os caminhos do poder e dos privilégios, das dignidades mundanas e seculares, próprios de todo e qualquer Império, em oposição ao caminho ou via de Jesus, o Mestre, que toda a sua vida resistiu ao Poder e aos privilégios que ele garante a quem o adorar, e jamais se tornou idólatra do Dinheiro e do deus do Templo, mesmo quando os grandes do mundo e da Religião oficial de então não hesitaram em caluniá-lo, prendê-lo, julgá-lo, condená-lo à morte e, finalmente, executá-lo na cruz.
É claro que os grandes "media" não perderam a oportunidade e deram a esta decisão do Bispo de Roma, já em fim de mandato, devido à idade avançada e ao grau de doença que lhe toma quase todo o corpo, enorme destaque.
Estou mesmo a ver os bispos portugueses a esfregar as mãos de contente (à excepção daqueles que, roídos de inveja, não perdoam ao Papa que os tenha esquecido, nesta hora, quando eles têm sido zelosos defensores da Cúria Romana, bons negociantes da coisa eclesiástica, sempre em prol do Vaticano, para cujo Estado têm contribuído com avultadas verbas, todos os anos). Mas os bispos deveriam chorar de vergonha e de arrependimento. Porque, se os grandes "media" dedicam tanto tempo do telejornal a este facto, é precisamente pelo que ele tem de anti-eclesial e de anti-Evangelho de Jesus.
Como quem diz: Com uma Igreja assim, ainda tão alinhada pelos falsos valores que os poderosos têm por verdadeiros e únicos, não há nada a temer. Ela continua a ser uma Igreja que canoniza as nossas opções e abençoa os nossos projectos de dominação, de exploração e de exclusão. Ela não passa duma Igreja à nossa imagem e semelhança, poderosa e rica, de anéis de ouro nos dedos, vestida de púrpura, sedenta de privilégios. Podemos estar à vontade com ela, porque uma Igreja assim jamais terá assomos de profeta, quando muito, encarregar-se-á de distribuir pelos empobrecidos que nós produzimos com as nossas iniciativas económicas e com as nossas políticas, as migalhas que, hipocritamente, deixaremos cair das nossas fartas mesas. E, no fim, ficamos todos a ganhar. Ganhamos nós, os poderosos e ricos, porque não temos necessidade de recorrer aos métodos, sempre aborrecidos e incómodos, de denegrir a Igreja, prendê-la, julgá-la, condená-la à morte e, finalmente, executá-la, por Ter a audácia de ser profeta, como o seu Mestre Jesus. E ganha a Igreja católica, porque com as migalhas que deixamos cair das nossas fartas mesas, e colocamos nas mãos dela, ela poderá ajudar os empobrecidos que nós produzimos, a ser empobrecidos conformados. E, ainda por cima, damos-lhe a oportunidade de passar por benfeitora aos olhos de toda a gente.
Mas é por estas e por outras, que esta nomeação anunciada e agora confirmada, me deixa triste e espantado. Não há maneira da nossa Igreja católica aprender. E, embora se reivindique, sucessivamente, do nome de Jesus, o Cristo, a verdade é que, depois, quase sempre procede nos antípodas dele. Em lugar de ser o seu Sacramento no mundo, é a sua vergonha e leva-o cada vez mais ao descrédito. E depois ainda se admira do número de ateus, mulheres e homens, estar a subir em flecha, no planeta. Com práticas eclesiais desastradas como esta, que outro resultado será de esperar?
Um pormenor, porém, me surpreende, em tudo isto. É ver como os meus irmãos de Fé eclesial se pelam quase todos por estas coisas. Parecem crianças grandes, sempre em bicos de pés, para que reparemos neles. E, quando lhes acenam com o rebuçado do poder, um estranho frenesim apodera-se deles e lá vão a correr agarrar o rebuçado. Como se, em Igreja, as honrarias e as dignidades valessem de alguma coisa.
Entretanto, é com homens assim, crianças grandes, sempre ávidos de poder e de primeiros lugares, que a Igreja continua a ser dirigida. Como tal, só pode avançar para o abismo. Ou Jesus, nosso Mestre e Senhor, não nos alertasse que quem, entre nós, quiser ser grande, faça-se o mais pequeno de todos. E quem entre nós quiser ser o primeiro, faça-se o último de todos.
Decididamente, que ser nomeado cardeal e correr a receber o chapéu cardinalício, não é, julgo eu, fazer-se o mais pequeno de todos, nem fazer-se o último de todos. Mas os que aceitam ir por aí lá sabem as linhas com que se cosem!

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