Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

19 Janeiro 2001

Um destes dias, ao ler o órgão oficioso duma diocese do nosso país, dei comigo a pensar que os nossos bispos continuam completamente a leste, pelo menos em alguns aspectos da pastoral, dos novos tempos que, felizmente, já estamos hoje a viver. E, com eles, as Igrejas a que presidem. Porque lá diz o provérbio para-evangélico, Se os guias são cegos, todos cairão no barranco. No caso, diremos, Se os bispos são cegos, as respectivas Igrejas locais ficarão fora do seu tempo, como se ainda permanecêssemos em plena Idade Média.
O facto que me levou a pensar assim, é, à primeira vista, insignificante. Mas só à primeira vista. Porque, se formos mais ao fundo das coisas, logo veremos que o insignificante é extremamente significante. Em concreto, tem a ver com a nomeação de padres/presbíteros para determinadas missões pastorais.
Os nossos bispos preferem continuar a enterrar a cabeça na areia e a navegar por um mundo de retrógrados privilégios que, hoje, são mais fantasia do que realidade. Preferem continuar a não ver a realidade nua e crua que está diante dos olhos de toda a gente.
Toda a gente sabe, por exemplo, que cada vez há menos padres. Mas os nossos bispos insistem em proceder como no tempo em que havia padres até dar com um pau. E lá se esfalfam por garantir um padre para cada paróquia.
Entretanto, como não dispõem de número suficiente de padres para poderem continuar a garantir um serviço destes, recorrem ao demoníaco processo de acumular paróquias nas mãos de um único padre que, assim, se vê obrigado a ser uma espécie de super-padre, sem quaisquer possibilidades para ser um homem eclesial com tempo e disponibilidade para viver o essencial da sua missão, que é escutar-anunciar o Evangelho ou Boa Notícia de Deus aos pobres.
Com várias paróquias, que esperam os seus serviços, só resta a cada super-pároco transformar-se num funcionário eclesiástico, tipo bombeiro, que corre de um lado para o outro, como quem apaga fogos pastorais, lá onde eles deflagram.
Mas o mais grave nem é este procedimento episcopal, embora isto já não seja pouco. O mais grave é constatar que este tipo de nomeações revela que os nossos bispos continuam a pensar que ainda estamos na Idade Média, quando as populações nasciam, cresciam e morriam na mesma paróquia; quando a vida das populações permanecia inalterada, gerações e gerações; quando toda a vida das populações girava à volta do campanário. E as monótonas badaladas do sino da torre da igreja paroquial é que marcavam o tempo e o ritmo de vida das populações.
Ora, hoje, tudo é diferente desse então. As populações são essencialmente itinerantes, vivem em situação de permanente diáspora. E o velho campanário paroquial não congrega praticamente ninguém. Os sinos da igreja bem podem tocar-chamar as populações, que elas já não vão mais por ele. Ou, porque saíram da terra para as grandes cidades e seus arrabaldes, ou porque fazem orelhas moucas ao que esse toque outrora dizia, mas hoje já não diz mais.
No entanto, o pároco lá tem de correr de um lado para o outro, para "dar missa" (ou vender?) a horas marcadas e com o tempo de duração bem cronometrado, para poder estar a horas, numa das outras paróquias que lhe estão confiadas.
A missa a que ele preside mais ou menos rotineiramente, é para cada vez menos pessoas, num universo de presenças onde o número dos mais novos, com excepção das crianças, é também cada vez menor. E isto, por mais música que os párocos lhes enfiem. Mas eles parece que nem se dão conta de tal. E continuam a correr duma paróquia para outra.
Chega a ser confrangedor ver homens na força da vida, como são os padres com poucos anos de exercício de ministério, perdidos neste tipo de trabalho pastoral, num lufa-lufa sem sentido e completamente desfasado no tempo. A frustração não pode deixar de, um dia, lhes bater à porta e, nessa altura, ou se conformam a viver na mediocridade, ou, então, sem alternativas pastorais inovadoras e galvanizadoras, abandonam o ministério e, nalguns casos, a própria Igreja, que não soube estar à altura dos oceanos de generosidade que os seus corpos escondiam e escondem. Outros haverá que, embora decidam permanecer no exercício do ministério, mudam radicalmente de projecto de vida. Instalam-se, então, como funcionários eclesiásticos, numa das paróquias e, quais ridículos tiranetes sem escrúpulos, fazem fortuna a olhos vistos, a qual lhes permite mudar de carro quase todos os anos, a denotar um estúpido materialismo eclesiástico, hoje, bastante generalizado, nos velhos países católicos do Ocidente, em tudo semelhante ao que sempre se viveu e continua a viver, mas em ponto grande, na Cúria romana do Vaticano.
Há ainda outro aspecto grave em todo este modo de proceder dos nossos bispos, no que respeita a nomeações. E é este: Os bispos continuam preocupados com garantir um pároco a todas as paróquias territoriais, nem que sejam dez ou mais, para o mesmo padre, mas esquecem que as populações, hoje, são catequizadas mais pelos "media" do que pelo altar e por quem gira em seu redor. Por outro lado, há também, cada vez mais internet, com as pessoas a navegar por ela, a qualquer hora do dia e da noite, sem quererem saber do que pode pensar e dizer o pároco do território geográfico em que residem.
Neste sentido, ainda não se vê um bispo preocupado com o que se poderia chamar paróquias ou dioceses virtuais, aquelas que cada vez mais congregam as pessoas. São paróquias e dioceses sem território e sem templo, mas feitas de pessoas de carne e osso, com fome do novo, da Boa Notícia de Deus. E é triste que não haja quem, das Igrejas, lhes saia fraternalmente ao caminho, quem as acompanhe, se lhes dirija, as oiça e lhes fale.
Provavelmente, os nossos bispos nem sequer se preocuparam ainda em começar a preparar presbíteros para o ministério pastoral na internet. E sem presbíteros preparados, só resta a sua real ausência nestas novas estradas da vida, por onde andam as pessoas deste novo século e milénio.
Mas a internet não é obra do diabo. É uma das mais extraordinárias criações do Espírito Santo, que possibilitará o encontro real entre as pessoas e os povos, como nunca antes foi possível. Pode ser diabólica a sua utilização. Mas mesmo esta corresponde a uma opção, não é inevitável fatalidade.
Haja padres/presbíteros e demais fiéis baptizados, mulheres e homens, preparados para navegar na internet, e o Evangelho poderá voltar a ser anunciado aos pobres, como antes nunca o foi.
É uma desgraça, se as Igrejas, nomeadamente, os seus bispos, continuarem, hoje, a proceder como procederam os bispos na Idade Média. Voltados exclusivamente para as paróquias territoriais e para o templo paroquial. Quando, se tivermos olhos de ver, já teríamos percebido há muito que nem mesmo o Espírito Santo lá está, uma vez que deixou definitivamente de apostar nesse modelo de Igreja. Saltou para fora dos templos e para fora das opressivas estruturas paroquiais e navega, como só Ele sabe, na internet, com a disposição de sempre, que é fazer novas todas as coisas.
Por ver as coisas assim, apetece-me dirigir-me daqui aos meus irmãos bispos, católicos e evangélicos, de Portugal e do mundo, e dizer-lhes/gritar-lhes: Acordem, irmãos! Sejam como aquelas virgens sensatas, de que nos fala o Evangelho de Mateus (capítulo 25), sempre preparadas para acolher o esposo, quando ele chegar. Abandonem de vez velhos hábitos eclesiásticos e pastorais. Enterrem sem saudade velhas rotinas. Vejam que os dias que estamos a viver, como Humanidade, e os dias que aí vêm, são dias do Espírito Santo. Corram, por isso, ao seu encontro, com as vossas consciências cheias de luz e de alegria. Mesmo que sejam envelhecidos os vossos corpos, corram à velocidade da luz.
A internet espera-vos a todos. Deitai fora os vossos caricatos báculos, as vossas cómicas mitras, os vossos ridículos solidéuns, os vossos ricos anéis, tudo isso que é símbolo do poder e reivindicação de privilégios pessoais. Fugi das vossas bafientas catedrais, onde se morre por falta de ar, de luz e, sobretudo, por falta de debate de ideias e de projectos. Mergulhai na vida real das populações e na internet, por onde as populações cada vez mais navegam. E preparai presbíteros para este novo século e milénio, mulheres e homens cristãos em pé de igualdade, para navegarem por essas novas estradas, munidos unicamente do Evangelho libertador de Jesus, nunca mais do bolorento moralismo eclesiástico do passado. E àquelas e àqueles fiéis leigos que crismardes, apontai-lhes estas novas estradas da internet, para que elas e eles as percorram com simplicidade e alegria, à semelhança do cristão Filipe, do princípio do Cristianismo, que, ainda a internet não havia sido inventada, já ele tanto estava a evangelizar o eunuco etíope, alto funcionário da rainha de Candace, na estrada que desce de Jerusalém em direcção a Gaza, como, de repente, se viu noutra região, em Azoto, de onde partiu a anunciar o Evangelho libertador de Jesus, em todas as cidades, até que chegou a Cesareia (At 8, 26-40).
Também hoje, meus irmãos bispos, o Evangelho libertador de Jesus, que é a única Boa Notícia com força bastante para despertar/mobilizar a Humanidade mais empobrecida e mais oprimida, para a inadiável insurreição/ressurreição que está para acontecer em breve, precisa de ser anunciado, a tempo e fora de tempo.
Se, como Igrejas, formos capazes de o anunciar, também na internet, pode acontecer que essa insurreição/ressurreição das empobrecidas e dos empobrecidos do mundo, ainda venha a ser marcada e conduzida pela força do amor, pelo espírito da Paz e pela festa da comunhão universal.
De contrário, será uma insurreição/ressurreição fortemente marcada e conduzida por muita violência, por muito sangue derramado, e por muito sofrimento. Mas será. Duma maneira ou de outra, será. Porque o Espírito Santo é quem mais está a trabalhar para que ela aconteça. Não ouvem já o rufar dos tambores a convocar para ela? Apressem-se, mudem de vida, creiam no Evangelho, vivam de harmonia com ele e anunciem-no. Nem que não façam mais nada na vida, porque para anunciar o Evangelho ou Boa Notícia de Deus aos pobres, é que vocês são bispos da Igreja e na Igreja.

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