Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

18 Janeiro 2001

Estou profundamente surpreendido e não menos indignado com o que certo sector da Igreja católica a que pertenço, insiste em fazer no escandaloso campo da pobreza e dos pobres. Os "media", nestes últimos dias, fazem-se eco duma proposta do "patrão" da União das Instituições Particulares de Solidariedade Social (UIPSSs) que, certamente, deixará muito satisfeitos os fabricadores de pobreza e de pobres em massa.
"SOS-Cais", é o nome de guerra da proposta. Visa, em síntese, a utilização de edifícios públicos inactivos, nomeadamente, escolas do interior, para acolher de passagem os pobres que não tenham onde cair mortos. Para tanto, os edifícios deverão beneficiar de obras de restauro e ser adaptados para o fim em vista.
A iniciativa pressupõe alguns milhões de contos, que podem muito bem ser buscados aos fundos da União Europeia, também ela, muito empenhada em acabar com o escândalo dos inúmeros pobres que não têm onde cair mortos e que disponibiliza verbas para iniciativas que visem, não acabar com a pobreza e as causas geradoras de mais e mais pobreza e mais e mais pobres, mas apenas acabar com o escândalo de pobres que não têm onde cair mortos. Para que estes, sem deixarem de ser pobres, conheçam um mínimo de assistência que lhes prolongue, por mais alguns anos, a situação de pobreza que lhes coube em sorte.
Compreendo que o número cada vez maior de pobres ao deus-dará preocupe o meu colega Pe. Maia, da UIPSSs. Como preocupa o Papa João Paulo II. E, certamente, preocupa todos os bispos de todas as Igrejas. Também todas as pessoas, ateus incluídos, com o mínimo de sensibilidade social e o mínimo de sentido dos outros.
Só que a luta pelos direitos humanos não pode limitar-se a soluções como a criação de múltiplos SOS-Cais. Nem à edificação de albergues para os sem-abrigo. Nem à distribuição duma refeição quente, noite dentro, a quem se viu obrigado a viver-dormir na rua.
Por mais boa vontade que tenha a auto-proclamada Legião de Boa Vontade e outras organizações do género, não é por aí que havemos prioritariamente de ir. Mesmo a impressionante dedicação de todas as Madres Teresas de Calcutá que trabalham, hoje, um pouco por toda a parte do mundo, com hábito de freira ou sem ele, não pode aparecer coma a principal, muito menos, como a única via de saída para o escândalo da pobreza no mundo.
Todas essas soluções são sempre falsas. E só servem para iludir o verdadeiro problema. São poeira lançada aos olhos. Ópio com que sossegamos consciências que deveriam ser salutarmente perturbadas. E, em muitos casos, servem também para ajudar a criar postos de trabalho para pessoas que passam a poder viver bem e em razoáveis níveis de conforto, à custa de se ocuparem com os pobres. Para não falar já de inúmeras IPSSs e outras instituições do género que enriquecem a pretexto de ajudarem os pobres. E que dão grandes lucros, em termos de influência e prestígio social, a minorias dirigentes que já não podem viver sem a existência de pobres, uma vez que a não existência de pobres retirar-lhes-ia o prestígio e a auréola de benfeitores que brilha sobre as suas cabeças.
É conhecida a história verdadeira daquele grande empresário espanhol, com fama, entre os seus concidadãos, de grande benfeitor. Um dia, preocupado com a existência de tantos pobres que não tinham onde cair mortos, muito menos, tinham um hospital que lhes prestasse assistência nas contínuas doenças que costumam assediar os pobres, tomou a altruísta decisão de mandar construir um hospital para os pobres. Mas – escreveu o cronista politicamente incorrecto, na altura – foi esse mesmo senhor empresário quem, antes, fabricou os pobres!
Tenho para mim que a iniciativa do meu colega Pe. Maia, da UIPSSs, tão badalada nos "media" nacionais e com tempos de antena nas principais televisões à hora dos telejornais, vai muito por esta linha do empresário espanhol. Os pobres, cada vez em maior número, são motivo de preocupação generalizada. Até o Governo e a Presidência da República se mostram preocupados com o facto. E chegam a referir-se-lhe com invulgar frequência. Porém, todos o fazem do mesmo jeito. Como se a pobreza e o número cada vez maior de pobres fossem uma fatalidade inevitável. Ou como se fossem um erro da Natureza. Ou uma certa forma de Deus castigar a Humanidade, pelos seus pecados, segundo um esquema teológico demoníaco em que os pobres ocupariam o lugar de bodes expiatórios.
Ninguém, destas instâncias, diz, preto no branco, que a pobreza e a existência de pobres em massa é obra nossa, nomeadamente, das multinacionais cada vez mais poderosas, e do sistema económico intrinsecamente perverso que elas adoptam e praticam como se fosse um dogma, uma revelação do Céu, que ninguém pode pôr em causa, sem ser acusado de blasfemo.
Entendo que Jesus de Nazaré, o Cristo de Deus, que as multinacionais do seu tempo acabaram por condenar à morte e matar na cruz como blasfemo e maldito (então, elas ainda não se chamavam assim, mas o Império e o Templo já lá estavam, como justificação última de todas as tropelias contra a maioria dos seres humanos e da manutenção dos privilégios das minorias dirigentes e outras afins), nunca foi por aí, nem alguma vez se pode rever na via que o meu colega Pe. Maia e todos os pequenos patrões das IPSSs tanto gostam de seguir.
No tempo de Jesus, havia milhares de leprosos e ele nunca construiu uma leprosaria. Havia muitos famintos que morriam de fome e ele nunca criou uma padaria que lhes matasse a fome. Havia muita miséria e ele nunca deu uma esmola a um pobre. Havia muita doença, e ele nunca construiu um hospital. Assim como nunca construiu um templo, uma sinagoga, uma casa para os sem-abrigo. Nunca entrou pela via do benfeitor. Se o tivesse feito, nunca teria sido reconhecido e proclamado o Cristo de Deus, o Libertador de Deus. Nem nunca teria acabado os seus dias crucificado num madeiro, fora da cidade, como o maldito dos malditos. Teria, isso sim, recebido homenagens, como o grande benfeitor.
É verdade que o segundo volume do Evangelho de Lucas, mais conhecido por Actos dos Apóstolos, proclama, com desassombro, que Jesus passou fazendo o bem. Mas teve de o fazer duma maneira muito distinta da seguida pela Madre Teresa de Calcutá, que, no seu funeral, até teve honras de chefe de Estado, ao passo que Jesus foi condenado e executado pelo Estado de então. Igualmente, teve de fazer o bem duma maneira distinta da adoptada pelas nossas actuais IPSSs, que as paróquias católicas e protestantes tanto gostam de patrocinar e apoiar. Ao ponto de algumas delas acabarem por transformar-se em verdadeiras empresas de serviços sociais, sem tempo e oportunidade e liberdade para alguma vez anunciarem o Evangelho da libertação que Jesus anunciou e por causa do qual foi assassinado.
Importa fazer o bem, mas fazê-lo bem. Não fazê-lo mal. Todas as iniciativas que visem alimentar os pobres, em lugar de desmascarar e combater eficazmente as fábricas de fazer pobres, são iniciativas muito aplaudidas pelos "media" e pelos grandes e ricos deste mundo, mas não actualizam a via do Evangelho de Jesus. Como tal, são iniciativas que, em última instância, prejudicam os pobres que pretendem ajudar. Porque é uma vergonha e um crime de lesa-humanidade a existência de pobres entre nós. Uma sociedade que se preze, jamais permitirá a existência de pobres no seu seio. Atacará, sem dó nem piedade, o sistema económico que os fabrica, de modo que jamais seja possível a sua proliferação em massa.
O sistema económico neoliberal que hoje é dominante e único, também se mostra interessado em acabar com os pobres, mas mediante a sua eliminação física pura e simples. Ao crime dos crimes, que é fabricar pobres em massa, não hesita em acrescentar outro igualmente hediondo: a eliminação física pura e simples dos pobres! É a isto que estamos hoje a assistir. Sem que os Governos e os Estados, ditos civilizados e defensores dos Direitos Humanos, se oponham com eficácia. O máximo que fazem, é retirar algumas migalhas dos seus Orçamentos, para fazer caridadezinha, como esta de patrocinar iniciativas do género SOS-Cais. Mudar radicalmente de sistema económico e de política, não é com eles. As multinacionais que os financiam, jamais lho permitiriam.
Por isso, ou as pessoas que dão corpo aos Governos e vida aos Estados ousam praticar uma política com tudo de profecia e ousam assumir posturas de afrontamento às multinacionais, sem temerem a feroz perseguição que elas lhes moverão, ou continuaremos a assistir ao aumento assustador do número de pobres em massa.
Temos de ousar meter um pauzinho nesta engrenagem neoliberal. E acabar com o sistema que alimenta as multinacionais. E quem mais pode vir a protagonizar esta PÁSCOA a valer, hão-de ser os próprios pobres. O seu levantamento em massa está cada vez mais próximo. Dos Governos e dos Estados, que se têm na conta de civilizados e de defensores dos Direitos Humanos, só se espera uma coisa: que, em lugar de continuarem a colocar-se ao lado das multinacionais contra os pobres, se coloquem ao lado dos pobres em massa contra as multinacionais.
A luta será renhida. Haverá muito sangue. Mas será uma luta redentora. Ao terceiro dia, a Humanidade encontrar-se-á na madrugada de um dia novo, de uma era nova, em que será para sempre impossível a existência activa de um sistema económico intrinsecamente perverso. E em que iniciativas como SOS-Cais passarão a fazer parte do museu da História, e que eram próprias duma Humanidade que ainda tinha mais de selvagem do que de humana.

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