Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

17 Janeiro 2001

P1. A frase já tem mais de uma semana. Mas vale a pena reproduzi-la aqui e comentá-la com humor e amor. É do actual Bispo do Porto e diz assim: "Todos temos lugar nesta Diocese que precisa de nós todos e que quer ser para todos fonte de optimismo, de felicidade, de Esperança, porque o «ano de graça» aberto por Jesus na sinagoga de Nazaré (cf. Lc 4, 16-21) de facto nunca foi fechado nem jamais se encerrará. Graças a Deus".
A frase faz parte dum curto documento, de 6 de Janeiro, assinado por D. Armindo Lopes Coelho, a propósito do encerramento do Ano Jubilar 2000. É precisamente a última frase do documento. O jornal diocesano que divulga, na sua edição de 10 de Janeiro, o documento na íntegra, não lhe dá qualquer destaque, nem sequer chamou a frase para título do documento. Poderia e deveria ter feito dela a principal manchete da edição, mas quem é responsável por essas coisas na "VP", não terá sido sensível à força desta afirmação, nem lhe terá percebido o alcance libertador e revolucionário que ela contém.
Não sei mesmo se o próprio Bispo se deu conta do que escreveu e assinou, mas a verdade é que a frase é uma daquelas afirmações teológicas que, se for tomada a sério e levada às últimas consequências, obrigará a uma radical mudança, não só na Igreja católica que está no Porto, mas também na Igreja católica que está em qualquer outra parte do mundo.
Às vezes, o Espírito Santo consegue destas proezas. Passar através de um bispo residencial católico romano, protótipo do poder clerical e monárquico, sem que o próprio se dê conta. E serão as suas irmãs e os seus irmãos na mesma Fé eclesial, porventura, mais atentos a tudo o que o Espírito está continuamente a dizer às Igrejas e, por elas, a toda a Humanidade, que se dão conta e se alegram. Nomeadamente, as irmãs e os irmãos que esse mesmo poder clerical e monárquico mantém à margem, ou, pior ainda, faz de conta de que nem existem.
A afirmação de D. Armindo até parece ter sido influenciada pelo Jornal FRATERNIZAR, nomeadamente, pelo destaque da nossa edição de Janeiro/Março. Aí se diz, expressamente: "No Evangelho de Lucas (capítulo 4), o solene e definitivo Jubileu, anunciado por Jesus, na Sinagoga de Nazaré, e já plenamente realizado na pessoa dele, deixa-nos com a boa notícia de que, por mercê do Espírito de Deus-Amor, a História é, infalivelmente, o tempo da Graça ou salvação para todos os seres humanos e para todos os povos, a começar pelos mais oprimidos e excluídos, ignorantes e empobrecidos. Sem que ninguém, para dele beneficiar, tenha de ir em peregrinação a Roma ou a Jerusalém, ou a uma basílica ou catedral designada para o efeito pela autoridade eclesiástica".
Tivesse a "VP" chamado a frase a manchete, na primeira página, devidamente enquadrada num contexto jornalístico, por exemplo, com um curto Editorial do respectivo director, e, certamente, teria provocado profunda e fecunda agitação nas fileiras católicas, não só da Diocese do Porto, mas também das restantes dioceses do nosso país, quiçá, da Europa e do mundo.
É que, a afirmação diz, sobre o Jubileu, tudo o que, durante o ano jubilar 2000, ninguém na nossa Igreja católica, com responsabilidades pastorais maiores na sua condução, Papa incluído, foi capaz de dizer de forma tão rasgada. Mais. A afirmação deita por terra tudo o que, durante o ano jubilar 2000, andou a ser oficialmente dito e feito pelas paróquias e dioceses católicas do mundo.
Na verdade, durante o ano jubilar 2000, as paróquias e as dioceses católicas fizeram tudo o que puderam para mobilizar as pessoas a visitar determinados templos, na mira da obtenção do que a Igreja tem chamado, a meu ver, erradamente, a "indulgência plenária". Como se o perdão total que Deus é e ininterruptamente oferece às pessoas, crentes ou não crentes, alguma vez dependesse de peregrinações e estivesse limitado a esse tipo de formalidades mais ou menos burocráticas.
O que as paróquias e dioceses sempre deveriam ter dito aos quatro ventos, a tempo e fora de tempo, durante o Ano Jubilar 2000 e para lá dele, é que todas e todos estamos a ser continuamente perdoados por Deus e a única coisa que se espera de nós é que, com simplicidade e espírito eucarístico, nos disponhamos a receber esse Perdão. O que, ao contrário do que se pensa, não é coisa fácil e, pelos vistos, até pouco terá acontecido, no decorrer do Ano Jubilar 2000, uma vez que, acolher o Perdão que é Deus, é tornarmo-nos mulheres e homens perdoados e, por isso, mulheres e homens que, no dia a dia, também perdoam sem condições.
Ora, uma transformação destas não resulta automaticamente da visita a uma basílica ou catedral, qualquer que seja a cidade onde uma ou outra estejam abertas ao culto. Nem resulta das preces ritualizadas que, por essa ocasião, as pessoas lá atraídas são convidadas a fazer e a pronunciar. Tais visitas e tais preces podem até dificultar o acolhimento de Deus e do Perdão que Ele é.
O Evangelho de Mateus (6, 6) tem o cuidado de nos advertir para os gostos de Deus. Diz, expressamente, que Deus gosta que nós nos recolhamos no "quarto mais secreto e, fechada a porta", rezemos "em segredo" ao Pai, "pois Ele, que vê no oculto", recompensar-nos-á, isto é, será Deus em nós e, como tal, fará de nós, seres humanos, mulheres e homens, à sua imagem. Ora, de mulheres e de homens à imagem de Deus, tal como Ele se nos revelou definitivamente em Jesus de Nazaré Crucificado/Ressuscitado, é do que todo o nosso mundo, hoje, mais precisa. Aliás, é para aí que a Humanidade irreversivelmente avança, até se tornar, toda ela, Humanidade Nova com Deus dentro, numa comunhão sem limites e numa dinâmica interior sem ocaso. Uma Humanidade perdoada e que perdoa, em lugar de retaliar. Uma Humanidade reconciliada e que promove a reconciliação, em lugar de promover a guerra. Uma Humanidade que partilha o que possui, em lugar de traficar seres humanos e concentrar a riqueza nas mãos de alguns. Uma Humanidade que cultiva a consciência crítica e ilustrada em todos os seus membros, em lugar de promover a alienação, o infantilismo e o obscurantismo.
Provavelmente, nem o Bispo D. Armindo se terá dado conta da revolucionária afirmação teológica que escreveu e assinou. E que é profundamente verdadeira e profundamente cristã. Porque, se ele se tivesse dado conta, teria também mudado radicalmente a sua prática pastoral. E já teria corrido, pessoalmente, para aquelas e aqueles que, na Igreja local de que ele é, institucionalmente, o rosto mais visível, continuam aí postos à margem, só porque, por actos e palavras, têm ousado a salutar dissidência. E correria, não para os integrar no sistema eclesiástico, de que elas e eles andam arredados, mas para, juntamente com elas e com eles, mais depressa o derrubar. Porque é ele, o sistema eclesiástico, que exclui ou excomunga quem não trabalha para o perpetuar. Assim como é ele, o sistema eclesiástico, que faz dos bispos e dos presbíteros, clérigos e funcionários seus, mais ou menos poderosos e autocráticos. Numa palavra, é ele, o sistema eclesiástico, que leva uns a pensar que são mais Igreja do que os outros e que, assim, sanciona a divisão, lá, onde o Espírito Santo faz a comunhão na salutar diferença.
Por outro lado, se o Bispo D. Armindo tivesse consciência da afirmação teológica que escreveu e fez publicar, teria de imediato convocado toda a Igreja local a que preside, para uma grande festa jubilar, onde todas e todos, depois de um ano jubilar feito de frios e estéreis ritos nos templos, finalmente nos abraçaríamos e comungaríamos do mesmo Pão e do mesmo Vinho da Unidade, por mais vincadas que sejam as divergências que existem entre nós. Porque também Deus, como mãe/pai criador de fraternidade/sororidade que é, não olha nunca às divergências que podem existir nas mulheres e nos homens, filhas suas e filhos seus, pelo contrário, alegra-se com elas e tira partido delas. Para enriquecimento delas e de deles e de toda a Humanidade.
Não aconteceu nada disso por enquanto. Nem parece que esteja para acontecer. A revolução seria copernicana. E revoluções dessa profundidade e largueza, não costumam ser feitas pelos bispos que se têm na conta de donos da Igreja, em vez de serem os últimos de todos, os criados de todas e de todos.
Mas, mesmo assim, não deixo de me alegrar com esta afirmação do actual Bispo Armindo, o bispo que, neste momento, preside à Igreja de Deus que está no Porto e da qual também sou um dos seus membros mais dissidentes, mas, por isso, mais fiéis. Ou não fosse na dissidência que o Espírito de Deus mais se manifesta, tal como o exemplo de Jesus de Nazaré deixou, paradigmaticamente, claro para sempre.
Por isso, não posso deixar de felicitar o Bispo do Porto. E de lhe reafirmar a minha inteira comunhão, no essencial da Fé, que esta afirmação teológica que ele acaba de escrever e divulgar, tanto faz sobressair. E daqui lhe digo: Meu caro irmão e companheiro: avance com audácia pelo caminho que essa afirmação soprada pelo Espírito, veio, qual sacramento, revelar ou pôr a descoberto. Conduzirá, então, a Igreja de Deus que está no Porto para fora dos templos, e ajudá-la-á a mergulhar no seio da Humanidade deste século XXI, que ora está a começar, a partir, é claro, da mais sofrida. Como ambos sabemos, é esta Humanidade mais sofrida o verdadeiro templo vivo onde Deus mora e onde sempre nos espera. Por isso, avance, fiel e lucidamente, por aí. E nem precisa de vir, fisicamente, a esta casa onde moro, nem eu preciso de ir fisicamente à catedral, onde, até agora, tem presidido a tradicionais e estéreis ritos da religião católica. Será na vida doada de todos os dias que nos encontramos, numa Eucaristia sem paralelo, na qual os nossos corpos gratuitamente doados e entregues são também corpo de Cristo, para a libertação e a salvação de muitas e de muitos, e para a libertação e a salvação do mundo.
2. Inicia-se, amanhã, em todas as Igrejas cristãs, católica romana incluída, a primeira Semana Ecuménica do terceiro milénio. Como é tradicional e até já rotineiro, as Igrejas, sobretudo, os seus chefes voltam a juntar-se, ora num templo católico, ora num templo protestante, para pedir a Deus a Unidade das Igrejas. Para tanto, vestem os seus exóticos e mais do que cómicos trajes paralitúrgicos, que de imediato os distinguem dos restantes fiéis, ocupam os lugares cimeiros dos templos, e mostram-se todos muito compungidamente preocupados com o problema da falta de unidade entre as respectivas Igrejas. Não sei se chegam, alguma vez, a sentar-se à mesma mesa, para partilhar, com simplicidade e alegria, uma refeição fraternal e de compromisso militante com a Humanidade (como não são ainda capazes de fazer juntos o rito eucarístico, se calhar também sentem grande dificuldade em sentar-se à mesma mesa e partilhar uma refeição em memória de Jesus de Nazaré, o Mestre comum a todas elas e a toda a Humanidade, que ganhou fama de grande comedor, bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores públicos e até de mulheres de má fama, tudo gente com quem ele gostava de passar longas e intermináveis horas em banquetes, à mistura com conversas radicalmente consciencializadoras e libertadoras, para escândalo dos fariseus e dos teólogos ortodoxos da época e, sobretudo, para escândalo dos chefes dos sacerdotes de então).
Por mim, nunca entendi esta iniciativa, dita ecuménica, dos chefes das Igrejas cristãs. Muito menos, que eles se juntem num dos templos de que um deles é o "patrão-mor", para, juntos, pedirem a Deus a unidade. Até parece que a unidade que as Igrejas ainda não conseguem viver entre elas depende de Deus. E que só Deus a pode conceder. Quando a falta de unidade entre as Igrejas é um problema das próprias Igrejas. Querem a unidade? Então, deixem-se de hipocrisias e façam-na, quanto antes. Sobretudo, deixem de pedir a Deus que a faça.
Aliás, a Unidade das Igrejas cristãs nem sequer é uma prioridade do Espírito Santo de Deus, pelo menos, a julgar por tudo o que dEle nos revelam a prática e a palavra paradigmáticas de Jesus de Nazaré, o qual, como se sabe, acabou crucificado, devido a essas mesmas prática e palavra.
E como é que a unidade das Igrejas havia de ser uma prioridade do Espírito de Deus, se Jesus, o ser humano por antonomásia do Espírito de Deus, nem sequer fundou a Igreja, muito menos as Igrejas que por aí, hoje proliferam, como cogumelos? Na verdade, Jesus apenas proclamou que estava próximo o Reino ou Reinado de Deus e incitou as pessoas, todas as pessoas sem excepção, a converter-se, isto é, a corrigirem o seu olhar e o seu jeito de estar/actuar no mundo e na História, e a acreditarem, com alegria, nesta Boa Notícia que ele, inesperadamente, nos trouxe.
Que haja divisões entre as diversas Igrejas cristãs, não é, de modo algum, a prioritária aflição de Deus. A única divisão que verdadeiramente aflige Deus é aquela que, desde o princípio, flagela a Humanidade e faz com que as suas filhas e os seus filhos, crentes e ateus, vivam separados e dispersos, uns ricos e outros pobres, uns cultos e outros ignorantes, uns poderosos e outros indefesos, uns no luxo e outros no lixo, uns carrascos e outros vítimas, uns com tudo e outros sem nada. O que verdadeiramente aflige Deus é o fosso que divide a Humanidade e o mundo, e que faz com que a imensa maioria esteja condenada a viver na pobreza e na miséria, a morrer antes de tempo, sem hipóteses sequer de sair da alienação que é a religião e chegar à Fé cristã, essa dimensão maior da vida humana, que nos abre ao outro, ao estranho, ao que não é da nossa carne e sangue, ao mesmo tempo que nos abre também ao infinitamente Outro que é o próprio Deus, não um Deus distante e indiferente, mas o Deus-connosco, o Emanuel, o Deus que nos habita e nos potencia para sermos em plenitude o que havemos de ser, isto é, mulheres e homens em tudo iguais a Jesus de Nazaré, o Cristo de Deus.
Esta divisão entre o rico privilegiado e o Lázaro empobrecido, entre o Primeiro e o Terceiro-Quarto Mundos, é que verdadeiramente aflige Deus e O leva a ser Deus-connosco, Deus-entre-nós, Deus-feito-ser humano, Deus-crucificado/ressuscitado.
É por isso que não vou nessa cantilena da Semana de Oração pela unidade das Igrejas. Não quero brincar à oração. Muito menos quero invocar o santo Nome de Deus em vão. Também não quero deixar a impressão nas pessoas minhas contemporâneas de que a divisão entre as Igrejas é a divisão que mais aflige Deus. Não é.
Quando o autor do Evangelho de João escreve o capítulo 17 da sua obra, classificada pelas Igrejas, se calhar, interesseiramente, como "Oração sacerdotal" de Jesus, e aí coloca a questão da unidade como central, nas preocupações de Jesus, ao ponto de o levar a pronunciar, "Pai, que todos sejam um como Tu e eu somos um", não era nas Igrejas que ele estava a pensar, mas na Humanidade. As Igrejas que vieram depois da Ressurreição de Jesus, só têm sentido se fizerem sua esta preocupação central de Jesus de Nazaré, até darem, como ele deu, a própria vida, para que, finalmente, haja uma só Humanidade, uma só Mesa, sem ninguém excluído dela.
Para que o mundo creia em Jesus e, por ele, com ele e nele, reconheça como verdadeiro o Deus que no-lo enviou e que nele se nos revelou definitivamente como Deus-connosco, é preciso, imperioso e urgente, que haja uma só Humanidade, que seja abolida esta sacrílega e monstruosa divisão entre ricos e pobres, que hoje impera escandalosamente no mundo, que seja abolida de vez a pobreza generalizada e a riqueza concentrada.
Enquanto isso não suceder, nem sequer podemos, como Igrejas, rezar o "Pai Nosso", a não ser que o rezemos como quem combate com todas as nossas forças contra o anti-Pai Nosso que é o assassino sistema neoliberal, hoje, ferozmente à solta e, qual besta do Apocalipse, a fazer vítimas humanas e ambientais em série. E que façamos deste combate social e político a razão de ser das nossas vidas, quer como pessoas, quer como Igrejas cristãs.
Sem uma prática assim, as Semanas de oração pela unidade das Igrejas serão uma contribuição mais, para cavar o fosso entre minorias ricas e maiorias pobres. E, em lugar de contribuírem para a diminuição do ateísmo – "para que o mundo creia que Tu, ó Pai, me enviaste" – hoje, muito justificadamente generalizado, contribuirão, muito pelo contrário, para que o ateísmo seja cada vez mais prática corrente entre nós. Porque ninguém de bom senso e com sentido de justiça, pode crer num deus que seja cúmplice da existência de pobreza e de pobres, um deus que apareça preocupado com a falta de unidade entre as Igrejas ditas cristãs, mas se mostre indiferente perante a escandalosa e monstruosa divisão entre ricos e pobres, que está a levar ao desaparecimento da Humanidade e até do seu meio ambiente.

Voltar ao menu DIARIO

Início Livros Publicados Textos do Fraternizar Dados Biográficos

e-mail de contacto
© Página criada 17 Janeiro de 2001