Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

13 Janeiro 2001

Por entre buracos, cada qual o mais incómodo e inestético, abre hoje a Porto 2001, capital europeia de cultura. O título é pomposo. E mais pomposos são alguns dos actos inaugurais. Até rainha mete, não de Portugal que, felizmente, a monarquia (= poder duma só família sobre todas as demais) foi derrubada pela República (= tudo de todos), há quase um século, em Portugal, mais propriamente, em 1910, depois de mais de sete séculos em que ela foi preponderante, juntamente com o clero católico. A rainha vem da Holanda, a outra capital europeia de cultura, juntamente com o Porto, e o povo vai sair à rua para a ver, como quem, hoje, vê ranchos folclóricos a reproduzir danças que foram de outras épocas e de outros modos de viver. Haverá também uma grande sessão de fogo de artifício, sobre as velhas pontes de D. Luís, ontem e hoje interrompidas ao trânsito, para que tudo esteja pronto como deve ser.
O Porto será, a partir de hoje, uma cidade de múltiplos e variados eventos culturais. Não sei se chegará a ser uma cidade culta. Porque, uma coisa são eventos culturais, mais ou menos eruditos ou populares, que foram agendados para ocorrer, durante um ano, no Porto, outra coisa é uma cidade do Porto culta, um Portugal culto, uma Europa e um mundo cultos.
Pelo andar da carruagem, vamos ter muitos eventos culturais, mas, provavelmente, não chegaremos a ser uma cidade culta, mais culta, um país culto, mais culto. E tudo o que está programado mais parece pensado para servir de fachada e esconder a realidade culturalmente pobre que somos, tanto no país, como na Europa. Iniciativas como esta, são para as populações ver, não para as populações ser. São convidadas a ver cultura, mais do que a serem cultas. Porque de populações cultas, os senhores do mundo não estão assim tão interessados. Ou não fosse sabido que populações cultas são populações dificilmente governáveis, manipuláveis.
Dizer populações cultas, é dizer populações conscientes, de olhos bem abertos, sem ingenuidade de nenhuma espécie, exigentes, reivindicativas, com alto sentido de dignidade pessoal e colectiva, incapazes, por isso, de aceitar viver nas condições de miséria imerecida em que vivem, de analfabetismo a que têm sido condenadas, em casas que são mais barracas e armazéns de gente do que espaços humanos e humanizadores, onde dê gosto viver e conviver.
Nem os governos, nem as hierarquias das Igrejas, nem os chefes das religiões, nem os ricos, nem os chefes militares, nem os grandes empresários, nem os donos das multinacionais, nem as minorias privilegiadas gostam de populações cultas. Mas já gostam de iniciativas como a Porto 2001 capital europeia de cultura, nomeadamente, do jeito que esta, à semelhança de outras do género, está programada.
Vai ser assim. Durante um ano, vão vender-nos overdoses de espectáculos raros, ditos culturais, acessíveis a quem tiver poder de compra. A cultura reduz-se a objecto de consumo. E quem tiver poder de compra pode entrar e ver, entusiasmar-se e regressar a casa mais satisfeito (feliz, não sei se regressa), com possibilidade de dizer aos colegas e amigos que esteve lá, que viu e ouviu, que conheceu de perto, que esteve nos lugares da frente, que obteve um autógrafo do artista tal, etc. Ou seja, todas essas coisas de cultura que os incultos com poder de compra gostam de ostentar, do mesmo modo que ostentam o carro novo último modelo, quanto mais caro e mais raro melhor, ou as férias que passaram em locais inacessíveis à maior parte das pessoas comuns, para não falar já dos mais pobres do nosso mundo.
Bem sei que os programadores destes eventos, não se esquecem de todo das populações sem poder de compra. E para elas pensam alguns espectáculos gratuitos, de rua, como, por exemplo, a sessão de fogo de artifício, com que hoje à noite a Porto 2001, capital europeia de cultura, vai ser inaugurada nas ruas. Mas até estas iniciativas têm o seu quê de amargo de boca. E são bem uma parábola da incultura desta iniciativa de cultura. Durante uma hora, as populações ficam paradas a ver o espectáculo de fogo, de múltiplas cores e feitios. É um espectáculo de luz e de som, obra de arte de pirotécnicos especializados e bem pagos, mas que, quando acaba, deixa a cidade e as consciências das populações ainda mais às escuras. A escuridão, no final da sessão, é a escuridão em que as populações vivem todos os dias. Uma escuridão interior, que é uma acusação a quem organiza estes eventos, sem querer saber das degradadas condições em que as populações têm de viver todos os dias.
Não pode haver cultura sem populações cultas. E mais do que falar de cultura, deveremos falar de indivíduos e de povos cultos. Cultura, como produto de supermercado, ainda tem a ver com a concepção capitalista da vida e da sociedade. Uma concepção intrinsecamente perversa, por mais espectáculos que consiga promover e financiar. Cultura, sem indivíduos e povos cultos, tem algo de prostituição, de compra e venda, quando ser culto sempre tem algo a ver com qualidade de vida todos os dias, com arte de viver duma forma nova, em que o ser humano, cada ser humano, é pessoa, é sujeito, é protagonista, é alguém, é criador.
Basta de fazerem de nós consumidores de supermercado e também consumidores de cultura. Basta de cultura para consumir, especialmente, por quem tem poder de compra. Basta de cultura, como ocasião para as minorias privilegiadas da sociedade terem oportunidade de se mostrarem, de ocuparem os primeiros lugares, de serem ovacionados pelas populações, mais ou menos, proletarizadas e servos de gleba. Basta de cultura, para esconder a cruel realidade social, que é termos populações inteiras incultas, analfabetas, ou quase, incapazes de ler e de interpretar uma simples carta que lhes chega das Finanças ou da Segurança Social, ou do Tribunal, ou até de um filho ou duma filha emigrante. Mas é esta cruel realidade que perdura em Portugal, na Europa e no mundo, por mais iniciativas do género da Porto 2001 capital europeia de cultura.
É por isso que, por mim, não estou tão eufórico assim, com esta iniciativa. E ninguém me vai ver nem na sessão de abertura, nem na sessão de fogo de artifício, de boca aberta, Ó patego olha o balão. Não vou por aí. Prefiro prosseguir a minha aposta no desenvolvimento integral das pessoas, para que cresçam, como Jesus cresceu, em sabedoria e em graça, à medida que crescem em idade e em estatura. Prefiro prosseguir na minha aposta de ajudar as pessoas a crescer por dentro, em consciência.
Os espectáculos ditos culturais, como os da Porto 2001 capital europeia de cultura, só me interessariam, se suscitassem nas pessoas que dispõem de dinheiro para pagar as respectivas entradas, a consciência de quanto ainda somos tão pouco cultos, ainda que, porventura, já sejamos - um significativo número de nós - pessoas com razoável ou elevado poder de compra, até poder de compra de entradas em espectáculos de cultura.
Indivíduos e povos cultos, cada vez mais cultos, sim. Eventos culturais para consumo de quem tem poder de compra, é outra coisa. Não é a minha aposta. Nem o meu caminho. Gostaria que também não fosse a aposta e o caminho dos meus concidadãos e das minhas concidadãs.
Com indivíduos e povos cultos, vamos longe, de certeza. Abrir-nos-emos a uma arte de viver, até agora, impensável. Uma arte de viver que não dispensa a comunhão e a fraternidade/sororidade solidária. Uma arte de viver que respira liberdade e responsabilidade. Uma arte de viver que assenta na prática do amor, na luta por um mundo cada vez mais humano, e na festa cada vez mais inclusiva. Até que o Pão esteja em todas as mesas. E todas as pessoas vivam em casas dignas e sem necessidade de trancas à porta, porque sem medos de nenhuma espécie.
Quando deres um banquete - diz o Homem por antonomásia, Jesus de Nazaré, integralmente culto na sua arte de viver com os demais, a partir dos mais empobrecidos, oprimidos e excluídos, e com a Natureza - não convides os teus amigos, nem os teus irmãos, nem os teus parentes, nem os teus vizinhos ricos, não vão eles também convidar-te, por sua vez, e assim retribuir-te. Quando deres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos. E serás feliz por eles não terem com que te retribuir; ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos (Lc 14, 12-14).
Quando a cultura consegue dar ainda mais visibilidade aos ricos, aos poderosos, aos grandes, aos privilegiados de todo o tipo, e deixa ainda mais às escuras e na penumbra do não-ser a grande maioria das populações, esmagadas na falta do essencial para viverem com o mínimo de dignidade e de autonomia, é uma cultura elitista que só prejudica e cava ainda mais fundo o abismo que separa ricos e pobres, minorias de privilégios e pessoas roubadas de tudo, sobretudo, da consciência crítica. É uma cultura assassina, feita de mentira, que deixa ainda mais oprimidos os que já vivem oprimidos.
Por isso, digo: Por mais eventos culturais que a Porto 2001 capital europeia de cultura promova, durante os próximos 365 dias, não conseguirá fazer-me esquecer a cidade real que é o Porto e a sociedade real que é Portugal e a Europa. Não conseguirá fazer-me esquecer os sem-abrigo, os sem-afecto, os sem-escola, os sem-universidade, os sem-saúde, os sem-trabalho, os sem-casa digna, os sem-amigos, os sem-razões de viver, os sem-dinheiro para viver e estudar, os sem-mesa abundante e variada, os sem-esperança, os sem-alegria, numa palavra, os sem-vida a sério. E são muitos os que se incluem neste estatuto. A maioria do país e do planeta. Não existem por geração espontânea. Nem por fatalidade. Nem por vontade de um deus qualquer. Nem por acaso. Nem por defeito da Natureza. Existem porque o sistema que continua a informar as nossas sociedades, os produz. Impunemente. Esse mesmo sistema que habilmente promove iniciativas como a Porto 2001 capital europeia de cultura.
Não me tomem por amargo, por escrever-dizer estas coisas. Tomem por alguém que não se deixa enganar. Podem atirar muita poeira aos meus olhos, que eu, mesmo assim, procuro viver com eles bem abertos, sem me deixar encandear com os fogos de artifício com que nos querem cegar.
É incómodo escrever-dizer estas coisas? É desagradável? É politicamente incorrecto? Deixem lá. Pensem um pouco e digam-me se há coisa mais politicamente incorrecta do que promover uma iniciativa com a Porto 2001 capital europeia de cultura, durante a qual serão gastos milhões e milhões de contos, para, no final, continuarmos a ser um povo de olhos fechados, sem condições para viver com o mínimo de dignidade, de consciência ingénua, à mercê duma certa classe política e duma certa classe eclesiástica e religiosa, ao serviço, uma e outra, de multinacionais, cujo projecto maior é fazer de algumas pessoas robots, consumidores sem consciência, animais entretidos com o seu próprio umbigo; e das multidões, pobres à força, excluídos, gente excedentária, condenada, por isso, a desaparecer do chão que pisam, sem deixar rasto.
Quem quiser ir por aí que vá. Mas não contem comigo. Nem a classe política. Nem os donos das multinacionais. Nem os chefes das religiões. Nem os eclesiásticos que fazem carreira dentro das Igrejas. Deixem-me ser politicamente incorrecto, a única maneira de ser humano, de ser político a valer, de amar o meu próximo. Sem ingenuidade. Com alegria. Com entrega da vida. De graça. Como é timbre de gente minimamente culta!

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