Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

10 Janeiro 2001

A questão do urânio empobrecido está na ordem do dia em Portugal e nos demais países da União Europeia. Não se fala noutra coisa. De repente, parece que toda gente acordou para o problema da guerra em geral e nos Balcãs, em particular. E não pode suportar que o urânio empobrecido esteja a matar lentamente - se é que está - de leucemia e de outras formas de doença, os militares que, voluntariamente, se inscreveram para as assim oficialmente chamadas "missões de paz", naquela zona da Europa.
Enquanto integrar essas "missões de paz" dava um bastante dinheiro a ganhar a quem nelas participava, ninguém se afligiu. Nem os soldados que voluntariamente se inscreveram, nem os seus familiares e amigos. Agora que se descobriu que pode haver certos perigos para a saúde de quem por lá anda (também há perigo, e muito mais, para as populações que lá vivem, mas isso não parece afligir ninguém, nem nenhum governo europeu!...), aqui d'el rei, que as coisas não podem prosseguir. E já há até quem grite, nos grandes "media" nacionais, Nem mais um soldado para a Bósnia!
Em tempos que já lá vão (ainda não tantos que já tenham desaparecido todas as suas vítimas mais directas), os soldados portugueses estiveram, anos e anos, envolvidos na vergonhosa Guerra Colonial, em África. Poucos, muito poucos, ousaram desertar. E os que, então, o fizeram, tiveram de carregar o ferrete de "desertor", uma espécie de antípoda do "herói" que eram todos os que foram para lá combater, em nome dos valores da civilização ocidental e cristã!
Não eram voluntários, mas obrigados. Todos obrigados. E muitos foram os que morreram em pleno campo de operações no mato. Os familiares, porém, nunca se ergueram contra o ditador Salazar e a sua política genocida. Pelo contrário, acorriam ao cais de embarque, em Lisboa, a chorar lágrimas de saudade e a dar o último ânimo aos "heróis" que partiam. Nunca esses familiares dos militares aproveitaram essa ocasião, para gritar, em pleno cais de embarque, Nem mais um soldado para as Colónias! Pelo contrário, de boa vontade entregavam os seus filhos à Guerra Colonial.
Nem todos morreram por lá. Mas todos regressaram de lá afectados psicologicamente. E muitos milhares vieram também afectados fisicamente. Muitos ainda hoje sobrevivem em cadeiras de rodas e com o stress de guerra. Mas ninguém parece importar-se com isso. E, quando, hoje, se movimentam a exigir mundos e fundos em prol dos soldados que podem ter sido vítimas do urânio empobrecido, ainda ninguém se lembrou de exigir mundos e fundos em prol dos antigos militares que estão aí com todas as marcas negativas da Guerra Colonial. E, volto a lembrar, nenhum deles foi para essa vergonhosa Guerra como voluntário, como agora sucede nos que avançam para a Bósnia e redondezas. Haja modos, senhoras e senhores!
Uma coisa nova, porém, está agora a vir ao de cima. E com a qual só me posso congratular. É que, nesta altura, já ninguém se lembra de correr para Fátima e para a sua senhora ou deusa, como fizeram, no tempo da Guerra Colonial, quer os soldados, quer os seus familiares. Agora, é para o Governo que se viram e para as demais instituições oficiais. Neste particular, tenho de reconhecer que já fizemos grandes progressos. E só tenho a louvar e alegrar-me com isso. É sinal de que já estamos mais conscientes, menos alienados. É sinal de que já estamos mais maduros e adultos, e menos infantis. O que indicia que a antiga influência da poderosa e nefasta senhora ou deusa de Fátima começa a estar em baixa. O que só nos dignifica e dignifica a Fé cristã.
Mas é preciso ir muito mais além. Porque do que se trata, não é se há ou não perigosidade da parte do urânio empobrecido, na região dos Balcãs. É muito mais do que isso. Embora apurar isso, já não seja pouco.
Do que se trata é de acabar de vez com a guerra, com todo o tipo de guerra, em todo o planeta. É de declarar que todo o tipo de guerra é um crime de lesa-Humanidade e de lesa-Natureza. Mesmo as assim chamadas - cinicamente chamadas - "guerras humanitárias". Do que se trata é de reconhecer que toda a guerra é inumana. E de reconhecer que recorrer a qualquer tipo de arma, com potência de matar, superior á das nossas próprias forças individuais, coloca-nos, como Humanidade, infinitamente abaixo dos outros animais que nós, os que nos temos na conta de racionais, imbecilmente, teimamos em chamar de "irracionais".
Mas haverá algum animal mais irracional do que o ser humano que se atreve a conceber e a fabricar armas com uma potência de destruição e de morte, como as que, hoje, continuamos a fabricar nas nossas indústrias de armamento? Mais. É com armas de destruição maciça que pensamos fazer a paz e salvaguardar a vida das populações? Como é que podemos dizer que vamos em missões humanitárias, se vamos para o terreno armados até aos dentes e com bombas e armas de destruição maciça? Pode ser humanitária, uma missão que, para proteger uns quantos seres humanos, se apressa a matar outros, só porque estão do outro lado da barricada que previamente definimos como a nossa e a única correcta?
Acabámos de entrar no terceiro milénio do Cristianismo. Pois bem, é mais do que tempo de termos a inteligência e o discernimento bastantes, bem como a coragem suficiente, para percebermos que a única palavra de ordem digna dos seres humanos que somos e dos povos que nos temos na conta de civilizados, não é, Nem mais um soldado para a Bósnia, ou para os Balcãs, mas sim, Nem mais uma fábrica de produção de armas e de bombas a operar, em nenhum ponto do planeta. Completada com uma outra, Nem mais um homem/uma mulher armado para a guerra, para nenhuma guerra.
É mais do que tempo de, como seres humanos racionais que nos prezamos de ser, de darmos início a uma nova Era, a da pós-selva, a Era da Humanidade adulta. E que pode resumir-se numas quantas posturas constitucionais, assim formuladas:
Fica decretado que todas as fábricas de armamento são hoje definitivamente encerradas.
Fica decretado que o tráfico de armas é definitivamente coisa do passado.
Fica decretado que todos os conflitos que venham a surgir entre seres humanos e entre povos, serão resolvidos pelo diálogo desarmado.
Fica decretado que o máximo de violência a que, de hoje em diante, se poderá recorrer, nos conflitos entre seres humanos e entre povos, é a um par de estalos. Mas, mesmo estes, terão de ser dados como quem ama, não como quem odeia.

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