Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

17 Fevereiro 2001

Minha querida Amiga, Maria Rosa

Não merecias aquilo que, hoje, te fizeram. Estavam os teus restos mortais em "câmara ardente", na igreja paroquial de Barcelinhos, Arquidiocese de Braga, (expressão, no mínimo, estranha, esta de "câmara ardente, sobretudo, para momentos e locais como este em que nos encontramos, já que é uma expressão com tremenda carga erótica, ou não fosse verdade que quem diz "câmara", diz "quarto de dormir", diz "cama", e, se, depois, ainda se lhe junta o adjectivo "ardente", é o mesmo que dizer que se trata dum espaço super-erótico, onde os corpos se fundem, num arrebatamento sem limites, até desaparecerem, não no nada, mas no imaterial, no invisível, no espiritual, que é – poucos sabem disso – a realidade mais real, a realidade no seu melhor) à espera da respectiva cerimónia litúrgica, marcada para as 16 horas, e à qual se seguiria, de imediato, o respectivo funeral. Familiares, amigas e amigos teus, entre os quais eu próprio me conto, encontrávamo-nos, por ali, em recatada conversa, feita de palavras mais ciciadas do que sonorizadas (falar baixinho, em ocasiões assim, é uma praxe estabelecida, que eu nunca consegui entender, e que sempre tento subverter, na parte que me diz respeito. Até parece que os cadáveres das pessoas que acabaram de morrer/ressuscitar não gostam que se fale em tom normal, à sua beira. Ou será que somos nós, os vivos, que experimentamos sérias dificuldades em lidar com a morte/ressurreição, e, por isso, perdemos, nesses momentos, todo o jeito e todo o à vontade com que costumamos viver, no dia a dia, uns com os outros, e, assim como não sabemos, nessas alturas, onde havemos de pôr as mãos, nem que roupa havemos de vestir, tão pouco somos também capazes de falar com naturalidade e, instintivamente, baixamos o tom, ciciamos palavras, mais do que as dizemos, como quem receia que o cadáver possa ser perturbado com as vibrações da nossa voz, possa decompor-se ou, quem sabe, até, explodir, como acontece com uma granada, se lhe tocarmos sem as devidas cautelas!) quando, de repente, nesse mesmo templo, e pela parte cimeira (talvez as pessoas nunca tenham reparado nisso, mas os templos católicos e outros locais religiosos tradicionais são construções cheias de ideologia patriarcal, concebidas para esmagar por dentro, na consciência, quem lá entrar. Em lugar de serem construções em forma de comunhão, com uma grande mesa redonda no meio, são construções em forma de navio, com o topo reservado ao clero e aos seus auxiliares leigos - uma espécie de subclero de terceira classe – de cujo pedestal o clérigo de turno sempre pontifica, bem sobranceiro às pessoas que calham de lá entrar e permanecer) entra um homem mal humorado, (pelo aspecto, tinha todo o ar de sacristão, alguém condenado a viver à sombra dos templos, metido nas sacristias, sob a alçada do clero, debaixo das suas saias e dos seus discursos moralistas, por isso, alguém oprimido e reprimido, inconscientemente, à espera duma oportunidade de também poder oprimir os outros que calhem de entrar naquele espaço, mentirosamente, dito sagrado, quando, efectivamente, o que ele é, é verdadeira casa de opressão) e, de lá de cima, diz, em tom autoritário, dogmático e definitivo, não como quem cicia, mas com quem grita ordens a escravos ou a súbditos, "Silêncio! Então não sabem que não se pode falar dentro da igreja?".
Do meu sítio, lá ao fundo
(o fundo dos templos é sempre o lugar reservado aos samaritanos, como eu, que, desde há mais de 35 anos, fui oficialmente dado como indigno de me aproximar dos altares, só porque, quando, um dia, me puseram lá, eu tudo fiz para que os altares simplesmente fossem banidos para sempre, pois não passam duma invenção das diversas castas sacerdotais, que se constituem à parte das outras pessoas, a pretexto de que têm de viver no sagrado de Deus e não no profano do mundo, como se Deus, o Deus que vive e nos faz viver, não fosse Deus-profano, Deus-connosco, Deus-entre-nós, Deus-encarnado, Deus-no-mundo, Deus-companheira-e-companheiro, Deus-político) resmunguei, protestei, em tom que se ouvisse, embora sem qualquer intenção de fazer guerra e armar escândalo. Houve até quem olhasse na minha direcção, me sorrisse com alguma cumplicidade, mas nada mais do que isso.
Como por encanto, as conversas ciciadas suspenderam-se, por breves instantes, mais em resultado do efeito surpresa daquela prepotente e completamente despropositada ordem, do que em resultado do seu acatamento. E a prova é que, pouco depois, as conversas ciciadas lá voltaram e mantiveram-se, até à hora prevista para o início da cerimónia religiosa.
Não merecias, minha querida Amiga, Maria Rosa, que te fizessem isto, sem qualquer sensibilidade e respeito pelos teus restos mortais e, sobretudo, pela tua presença de Mulher ressuscitada que, desde o momento da tua morte, já és para sempre. E menos ainda merecias o que te fizeram depois, quando, às 16 horas em ponto, aparece o pároco de Barcelinhos e logo dá início à esperada cerimónia fúnebre!
Entrou paramentado a rigor, de cores tristes e pesadas, sem esperança. Como quem nos quer esmagar ainda mais na dor e no desespero, no luto e no desânimo. Entrou com aquelas vestes talares que tornam os párocos que, durante os chamados actos litúrgicos, ainda as vestem, externamente semelhantes às mulheres de outros tempos, quando elas eram obrigadas pela moral clerical católica, a cobrir os seus corpos com vestidos compridos, até aos pés, e suficientemente largos, para que as formas do corpo feminino, nomeadamente, os seios e as ancas, jamais aparecessem aos olhares das outras pessoas, especialmente, dos homens - entre os quais, se incluíam os clérigos celibatários à força - não fosse o diabo tecê-las!
Tu própria, minha querida Amiga, Maria Rosa, deves lembrar-te desses tempos e dessa forma de vestir, já que tiveste a dita de viver entre nós e connosco, durante mais de 80 anos, uma bonita idade, e sempre lúcida, consciente, mordaz, bem humorada, contundente, mulher do povo que sabe ler e interpretar o que lê, e que lê tudo o que lhe cai debaixo dos olhos, por isso, uma daquelas mulheres do povo que nem políticos profissionais, nem clérigos eclesiásticos conseguem alguma vez vergar e submeter.
(Ironia das ironias: os padres que, por força da estúpida e criminosa lei do celibato eclesiástico – no Oriente, a mesma Igreja católica sempre teve outra disciplina! – estão proibidos de viver com mulher, de tocar em mulher, de olhar para mulher com desejo de se aproximarem dela, sob pena de logo contraírem pecado grave e ficarem em risco de condenação eterna – mas há lá pecado mais grave do que proibir estas coisas a alguém e, sobretudo, fazê-lo em nome de Deus?! – são, depois, obrigados a vestir de mulher, quando se trata de presidir ao culto, às cerimónias litúrgicas!... E, se, agora, após o Concílio Vaticano II, já deixaram de ser obrigados a isso, a verdade é que, até então, eram também obrigados a andar na rua, vestidos de batina preta, uma espécie de vestido preto, com muitos botões, do pescoço até aos pés, o que fazia deles algo assim como o fantasma duma ave de mau agoiro anunciadora de desgraça e de morte!)
O pároco dá início à cerimónia. E, tal como eu próprio já calculava, minha querida Amiga, Maria Rosa, fá-lo sem sequer pronunciar uma palavra de carinho e de ternura, de simpatia e de ânimo aos teus familiares, amigas e amigos. Muito menos, foi capaz de um gesto de companheirismo e de fraternidade, como seria, por exemplo, ter tido a simplicidade de entrar no templo, pela porta do fundo e saudar, cumprimentar, abraçar, se não todos, pelo menos algumas e alguns dos teus familiares, amigas e amigos presentes.
Em vez disso, e como bom funcionário do religioso, que é (não consigo entender como é que ainda há homens escolarizados, ao nível do chamado ensino superior, que continuam a prestar-se a este papel, que continuam a aceitar ficar reduzidos a vida inteira a esta dimensão de funcionário religioso, que continuam a consentir que outros, que eles têm por mais homens de Deus do que eles, lhes roubem a alma e façam deles autómatos, sempre prontos a executar o que o Sistema eclesiástico e os seus donos mandam. Mas a verdade é que ainda há e, aqui, no templo de Barcelinhos, acabo de encontrar mais um, por sinal, já de idade avançada, a indicar, por isso, toda uma vida humana vivida ao contrário, às avessas, na ilusão de que sempre esteve mais próximo de Deus do que as outras pessoas, de que era, naquela povoação, o homem de Deus, de que o que ele ligasse na terra ficava para sempre ligado no céu, e o que ele desligasse na terra ficava para sempre desligado no céu) abre o Missal e passa a ler o que lá está escrito para momentos como aquele. Fá-lo como um autómato. Como quem cumpre um dever. Sem alma. Sem coração. Sem entranhas. Sem uma ponta de comoção. Sem um embargo na voz.
Do meu sítio, nem cheguei a perceber as primeiras palavras que ele proferiu, apesar da instalação sonora estar a funcionar. Disse-as, como quem se limita a reproduzir o que lá está escrito. Não como quem tem fome de comunicar, de ser ouvido, de se dar, de se partilhar, de tocar as pessoas por dentro. Disse-as, por isso, com toda a frieza e todos os tiques do funcionário.
Depois, já no início da celebração propriamente dita, lá vem a repetição até aos vómitos do estafado discurso eclesiástico católico da nossa condição humana, desgraçada, desde o princípio. Por causa do pecado original. Deus, no dizer do pároco, até fez bem as coisas, mas nós, seres humanos, perversos, estragamos tudo com a nossa liberdade. E, por isso, agora, a vida humana é breve e cheia de sofrimentos e de trabalhos. Em consequência do pecado das origens e como castigo desse pecado.
(No seu rotineiro arengar, o pobre do meu colega nem se dá conta da contradição em que acaba de cair, melhor, em que vive permanentemente caído. E as pessoas presentes, de tão habituadas a estes rituais eclesiásticos católicos, também não. Não se dá conta de que, se Deus fez tudo bem feito, como é que nós, seres humanos, criados por Ele, saímos assim tão perversos que, mal Deus nos acabou de criar, não perdemos tempo e estragamos logo toda a sua obra?! Ou seja, como é que aquela criatura que Deus cuidou em criar com mais esmero – Façamos o ser humano à nossa imagem e semelhança, diz, a propósito, o relato bíblico das origens, ao qual o pároco de Barcelinhos, se estava a referir, embora nunca o citasse explicitamente – vem a ser, precisamente, aquela que vai dar cabo de toda a obra de Deus e estraga, irreparavelmente, o que Deus tanto havia aprimorado?!...)
Na sequência deste seu arengar contraditório, o pároco convida, então, as pessoas a reconhecer e a confessar os seus pecados. E ele próprio avança com a estafada fórmula, "Confesso a Deus todo poderoso e a vós irmãos..."
(o templo conta com a presença de muitas mulheres, mas elas nunca são tidas nem achadas no discurso do pároco, a não ser, no final, quando ele, como funcionário eclesiástico, anuncia a missa do sétimo dia. Aí, pela primeira e única vez, diz, "A missa de sétimo dia por esta nossa irmã será...". Fora desta ocasião, nunca as mulheres foram referidas, o pároco refere-se exclusivamente aos homens, como neste momento, quando diz, "E a vós irmãos", sem acrescentar, como deveria, "E a vós irmãs")
Depois, bate repetidamente no próprio peito, ao mesmo tempo, que diz, "Por minha culpa, por minha culpa, por minha tão grande culpa".
Com ele, as pessoas presentes dizem e fazem o mesmo. Como autómatos. Telecomandados. Todos a uma só voz, "Por minha culpa, por minha culpa, por minha tão grande culpa".
(Por mim, observo tudo, em silêncio. Sem participar em nada daquilo. Estou estarrecido com o que oiço e vejo. Se não visse com os meus próprios olhos, não acreditava. E penso, entre a indignação e a revolta: a que indignidades o clero católico continua a submeter as pessoas que continuam a andar nas proximidades dele e sob a sua influência. Esta acção, por sinal, repetida no início de cada missa, por isso, realizada milhares de vezes ao dia, em todo o mundo católico, é uma indignidade. É aviltante. É o oposto do Evangelho de Deus que Jesus nos anunciou e, por causa do qual, foi assassinado na cruz, por decisão da casta sacerdotal do seu tempo e país. Casta sacerdotal que tem nos párocos católicos de hoje, bons sucessores, tanto ao nível do discurso moralista e terrorista, como ao nível da prática litúrgica. É verdade que os párocos, hoje, já não sacrificam carneiros e ovelhas, nem pombas nem cabritos, da melhor qualidade, nos cultos oficiais nos templos, como faziam os sacerdotes do tempo e do país de Jesus. Mas fazem ainda pior: Sacrificam, pelo menos, simbolicamente, Jesus de Nazaré, o Cristo. Não é verdade que eles concebem a missa como a renovação e a actualização do sacrifício de Jesus Cristo, em expiação dos nossos pecados? Não é verdade que valorizam, como redentor e salvador, o sangue dele que outros, criminosamente, derramaram? Não é verdade que falam de Jesus e da sua morte violenta na cruz – o crime dos crimes, o sacrilégio dos sacrilégios, a aberração das aberrações – como a Vítima de expiação pelos nossos pecados? Não é verdade que a missa a que presidem e pela qual, geralmente, cobram bom dinheiro, eles a aplicam como acção de sufrágio pelos que morreram? Não é verdade que ensinam que a missa garante a salvação das pessoas por quem for aplicada? Não é verdade que, assim, eles têm garantida a sua subsistência, porque as pessoas que se deixam ir nesse discurso terrorista, sempre fazem questão de que os seus familiares falecidos tenham missa de corpo presente e missa de sétimo dia, como sufrágio pela respectiva alma? E, no entanto, toda esta prática católica, que já se faz há séculos, não pode ser mais perversa, mais sacrílega, mais blasfematória!)
Olha, minha querida Amiga, Maria Rosa, tenho de fazer enorme esforço para me aguentar até final da missa. Há muito que, pessoalmente, não entro num templo paroquial, nem via uma acção litúrgica deste calibre. E não entro num templo paroquial, pela simples razão de que Deus, aquele Deus que nos ama e anda permanentemente connosco, no mais íntimo de nós, não mora lá e nunca morou.
Permaneço, no entanto, até final, mas como quem bebe um cálice amargo, de fel. Para, ao menos, poder, depois, denunciar o que, em nome de Jesus e de Deus, continua a realizar-se por essas paróquias católicas fora.
O que vejo e oiço causa-me vómitos, que procuro conter. E só por amor à Igreja católica de que sou presbítero, chamado e ordenado, não para fazer coisas destas, mas para anunciar o Evangelho ou a Boa Notícia de Deus, a exemplo e na sequência do que fez Jesus de Nazaré, há dois mil anos, na Palestina, é que consigo aguentar até ao final.
Por isso, o que aqui estou agora a escrever não é um manifesto contra a Igreja, de que faço parte, menos ainda um libelo contra o pároco de Barcelinhos, homem com quem nunca falei pessoalmente e que só hoje pude conhecer, deste jeito, mas a quem amo como irmão, na tríplice qualidade de irmão, ou seja, segundo a natureza, segundo a Fé cristã e segundo o Presbiterado. O que aqui escrevo é um manifesto de amor à Igreja, para que ela tenha a audácia de parar para reflectir, tenha a audácia de deixar de ser autista, tenha a audácia de se abrir ao mundo e às críticas que o ateísmo lhe faz e que os seus membros mais críticos e mais comprometidos com as Causas da Humanidade – não com as causas eclesiásticas! – não só secundam, como, até, levam bastante mais além. Exactamente, porque quem ama a Igreja não pode suportar vê-la assim tão nos antípodas da via libertadora e dignificadora de Jesus de Nazaré, o Crucificado pelo clero do seu tempo, mas a quem Deus ressuscitou e constituiu como o Cristo, o Libertador, o Senhor e o Mestre.
Mas o pior, minha querida Amiga, Maria Rosa, ainda estava para vir. No momento das leituras bíblicas, sobe ao respectivo ambão, uma mulher. A escolha duma mulher é, em si, positivo e agrada-me. Só que a mulher escolhida chega ao ambão e lê para nós um extracto da Carta de S. Paulo aos Romanos, mas num tom tão encolhido e tão triste, tão para dentro e tão sem convicção pessoal, que eu próprio, que conheço quase de cor toda aquela Carta do Apóstolo dos pagãos, não chego a entender quase uma palavra. E do que entendo, tenho de concluir que os responsáveis pela escolha de textos para momentos como este que estamos ali a viver, em comunhão contigo, minha querida Amiga Maria Rosa, agora, para sempre ressuscitada e, por isso, já distinta do cadáver que nos preparamos para semear na terra, tiveram muito mau gosto nesta escolha. Melhor seria que não houvesse texto nenhum para ler e que, em vez de leituras bíblicas sem qualidade, se tivesse dado a palavra aos presentes, para que dissessem como Deus passou na tua vida de mulher combativa e insubornável, durante os muitos anos que viveste fisicamente entre nós e connosco.
A minha esperança reservou-se, então, para a leitura seguinte, extraída de um dos quatro Evangelhos canónicos. Porém, quando o pároco deixa o cadeirão em que estava sentado, como entronizado, e vem até ao mesmo ambão para, daí, proclamar o Evangelho, a minha desilusão foi total.
O extracto era do Evangelho de Mateus 25, 31-46. Refere-se à conhecida parábola, habitualmente apresentada, como do "Juízo Universal", ou do "Juízo Final". O relato, tal como está concebido e escrito, parece dividir a Humanidade em bons e em maus. Os bons estão à direita de Jesus, o Rei. Os maus à sua esquerda. Os bons são chamados de "Benditos de meu Pai" e avançam para o Reino. Os maus são chamados "Malditos" e avançam para "o fogo eterno que está preparado para o diabo e para os seus anjos".
Para lá do mau gosto que tem, hoje, ler um relato escrito há quase dois mil anos, num contexto cultural e político totalmente distinto do que é hoje o nosso, neste início do terceiro milénio, concretamente, um relato que fala em bons à direita do Rei, Filho do Homem, e em maus, à sua esquerda, ou seja, que parece insinuar a quem ouve, que a direita política é o espaço das boas pessoas e dos crentes em Deus ("ovelhas", no texto), e a esquerda política é o espaço das pessoas más e não crentes em Deus ("cabritos", no texto), houve ainda o infeliz e desajeitado comentário do pároco de Barcelinhos, que presidia ao acto.
Foi um comentário que, praticamente, não o chegou a ser. E isso é que é terrível. Porque se ele se atreveu a proclamar aquele extracto do Evangelho de Mateus, tal e qual ele está na Bíblia, vai para dois mil anos, tinha, depois, a obrigação de o traduzir para linguagem de hoje, em lugar de o deixar na parabólica e mítica linguagem de há dois mil anos.
Sem este serviço maiêutico, melhor teria sido, também, que não lesse o texto. Porque quem ouve ler um relato como este e não sabe nada de hermenêutica bíblica, a conclusão que tira é mais ou menos esta: se não nos pomos a pau, estamos tramados, porque Deus lá está, como tremendo juiz, para, no final da vida de cada um e no final da História, nos dar o pago, se não tivermos acreditado nele, se não tivermos feito caridadezinha, se não tivermos andado nas proximidades e sob a influência dos clérigos, se não tivermos ido à missa ao domingo, se não tivermos matriculado os filhos e as filhas na catequese da paróquia, se não formos baptizados e crismados, se não casarmos pela Igreja, se não deixamos em testamento que queremos enterro religioso e católico, se não deixarmos dinheiro para que os nossos familiares mandem celebrar missas em sufrágio da nossa alma, etc, etc.
Ora, nada mais falso e nada mais anti-evangélico, do que uma mensagem assim, por mais que ela pareça saltar da parábola que o pároco leu na missa de corpo presente, "em sufrágio da tua alma", minha querida Amiga, Maria Rosa. E por mais que ela pareça saltar do azarado comentário que ele fez e que se resumiu a meia dúzia de considerações vagamente moralistas e sem qualquer Boa Notícia que nos alegrasse e, sobretudo, nos mobilizasse para aquelas acções e intervenções que urge desencadear no mundo e na História, para que um e outra sejam, respectivamente, espaço e oportunidade para acolhermos/produzirmos a libertação e a salvação da Humanidade.
Primeiro, é preciso que se saiba que, na Bíblia, nomeadamente, no dizer e agir dos Profetas, a designação de "Juiz" atribuída a Deus, ou, como no caso desta leitura de Mateus, a Jesus, o Filho do Homem, ou o Ser Humano por antonomásia, revela sempre a face libertadora e salvadora de Deus. Nunca a face condenatória de Deus, por sinal, uma face que não existe em Deus.
Quer isto dizer que, a esta luz, a parábola de Mateus, ao contrário do que sempre têm dito as catequeses eclesiásticas e a homilia do pároco de Barcelinhos, hoje, pelo menos, insinuou, de modo algum, pretende proclamar que Deus salva umas pessoas, no céu, e condena outras, no fogo eterno do inferno. Nada disso.
Aliás, Deus nunca foi nem será criador de infernos. Deus só pode ser o destruidor de todos os infernos que os Sistemas económicos/religiosos/políticos e seus fiéis servidores criam e aos quais, depois, condenam a esmagadora maioria da Humanidade, como acontece, hoje, nos países do Sul e, inclusive, em muitas franjas de países do Norte. Esses Sistemas sempre o fazem, com a cobertura do Nome de Deus e, por isso, se rodeiam de sacerdotes e fazem questão de patrocinar cultos e a construção de templos, assim como promover a assinatura de Acordos e de Concordatas com os chefes das Igrejas e das Religiões. Assim como fazem questão de dar-se bem com os respectivos chefes, cujos privilégios pessoais não só não contestam, como até reforçam cada vez mais.
A única coisa que Deus sabe fazer é libertar e salvar o que está perdido, tanto as vítimas que caem e morrem na miséria e no lixo, como as que, cegamente, se deixam ludibriar pelos jogos e pelas seduções dos Sistemas económicos/religiosos/políticos e vivem na sobreabundância e no luxo, sempre prontos para realizar os projectos assassinos e de mentira, e de desfraternização/dessororização total da Humanidade, que esses mesmos Sistemas continuamente dão à luz e querem ver realizados.
Aliás, a parábola é clara, quando diz expressamente, na linguagem mítica a que então era imprescindível recorrer, que o fogo eterno "está preparado para o diabo e para os seus anjos". Não é para os seres humanos, os quais Deus, a todo o custo, quer fazer de todos e de cada um deles, filhas suas e filhos seus. E nisso, está tão empenhado, que, em Jesus de Nazaré, chega a enfrentar duelicamente os Sistemas económicos/religiosos/políticos, do tempo histórico dele, para que eles, ao matá-lo sem apelo nem agravo, apesar de ser manifesto que ele é o Ser Humano justo por antonomásia, mostrem bem e de forma inequívoca toda a iniquidade e toda a perversidade de que são portadores, por mais que se disfarcem de "bons pastores" e promovam muita caridadezinha entre algumas das muitas vítimas que continuamente estão a produzir!
Para o "suplício eterno", isto é, para a destruição completa, irão, finalmente, não as pessoas, mulheres e homens com ou sem Fé, crentes ou não crentes em Deus, mas os Sistemas económicos/religiosos/políticos, responsáveis, em última instância, por, ainda hoje, dois mil anos depois de Cristo, continuarmos a habitar uma Terra com tanta gente sem pão, com tanta gente sem água, com tanta gente sem roupa, com tanta gente sem casa, com tanta gente sem escola, com tanta gente emigrante/imigrante, com tanta gente sem saúde, com tanta gente sem paz, com tanta gente nas prisões, numa palavra, com tanta gente sem vida digna, quando deveríamos ser, há muito, uma Terra habitada só por irmãs e irmãos que se amam, como Jesus nos amou a todas e a todos.
A referida parábola de Mateus faz parte da grande Boa Notícia de Deus, que Jesus proclamou e viveu entre nós e connosco. E, por isso, só pode apontar, e de forma inequívoca, para este horizonte, para esta Utopia. Constitui, por isso, o grande chamamento dirigido a toda a Humanidade, para que se una toda numa prática económica e política com Espírito Santo, como tal, nos antípodas duma prática económica e política com Diabo.
A prática económica e política com Espírito Santo - que tem por pai o Espírito Santo - é intrinsecamente libertadora e universalmente integradora e salvadora. A prática económica e política com Diabo – que tem por pai o Diabo - é intrinsecamente opressora/alienadora e excluente. A prática com Espírito Santo foge da caridadezinha, e aposta tudo na destruição dos Sistemas económicos/religiosos/políticos com Diabo, os quais preferem uma prática económica e política que faz da caridadezinha a sua bandeira, para melhor poderem continuar a produzir vítimas em série e indefinidamente.
Como sabes, minha querida Amiga, Maria Rosa, o pároco de Barcelinhos não nos disse nada de semelhante. Aterrorizou-nos ainda mais, quando tentou convencer as pessoas ali presentes, de que a nossa vida é breve e cheia de sofrimentos e trabalhos, por causa dos nossos pecados. Nem parece que vive neste mundo, totalmente dominado, controlado e dirigido pelas multinacionais, geradoras de Sistemas económicos/religiosos/políticos com Diabo, em lugar de com Espírito Santo.
Em lugar de nos consciencializar para os grandes combates a travar, e de nos mobilizar a todas e a todos para sermos como tu, minha querida Amiga, Maria Rosa, mulheres e homens que não se submetem, que não se vendem por um prato de lentilhas, que não se deixam assustar nem mesmo com as habituais e estafadas ameaças de morte, esmagou ainda mais as pessoas presentes com vagas afirmações moralistas e ocas, pueris e ingénuas.
Claro, as multinacionais do mundo – também estão vigorosas e super-activas entre nós – agradecem e são capazes de lhe fazer chegar algum dinheiro para as periódicas obras de restauro da sua igreja paroquial e para as festas sem festa, ao longo de cada ano. Também algum dinheiro para a caridadezinha paroquial, que fica sempre bem e dá ao pároco que vai por essa prática, um apreciável ar de benfeitor!
Por isso, volto a dizer-te, minha querida Amiga, Maria Rosa: Tu não merecias nada isto que hoje te fizeram. Mas que queres? Os teus familiares, amigas e amigos ainda não foram capazes de mandar para o diabo o templo paroquial e as cerimónias rituais e tontas em que os párocos católicos, na sua generalidade, para tua e minha vergonha e para vergonha de muitas e de muitos outros cristãos católicos que já não nos revemos nada em toda esta pantomina pseudoteológica e pseudopastoral, continuam a ser peritos.
Por mim, se me tivessem consultado e acolhido, tudo teria sido diferente. Mas que queres? A sociedade portuguesa ainda não está suficientemente madura para dar este salto e fazer este corte com todo o tradicional ritualismo católico fúnebre. Ainda não está madura para buscar alternativas cristãs e humanas, verdadeiramente cultas e dignas. E prefere ir na onda da rotina, do deixa-correr, do não-te-rales.
Fico com pena. Não tanto por ti, minha querida Amiga, Maria Rosa, mas pela sociedade, pelas pessoas, mulheres e homens, crianças e velhos deste início do século XXI e do Terceiro Milénio. É que, enquanto não ousarmos cortar com o peso desta tradição católica, intrinsecamente perversa, porque intrinsecamente alienadora e politicamente desmobilizadora, continuaremos a gemer e a chorar, como se o mundo fosse um tremendo vale de lágrimas, quando ele, desde o início, está projectado para ser um paraíso, uma fraternidade/sororidade universal.
Eu sei que, por ti, minha querida Amiga, Maria Rosa, tudo, hoje, teria sido diferente, sobretudo, se todos os teus familiares, amigas e amigos, já tivéssemos sido capazes de te ouvir/acolher, como Mulher ressuscitada que és, desde o instante em que a Morte te tornou invisível aos nossos olhos. Mas, pelos vistos, a maior parte ainda não te viu nem vê assim. E, por isso, não só foram meter-se no templo católico de Barcelinhos, com os teus restos mortais, como também apresentaram-se lá chorosos, de luto vestidos, tristes, sem capacidade de sonhar e de voar, sem capacidade de ver o Invisível e ouvir o Inaudível.
Mesmo assim, não desanimo. Continuarei o meu combate pelo Evangelho de libertação para a liberdade, que é também a minha festa. E, agora, também contigo, com a tua companhia, com a tua Amizade, feita energia. Quem poderá deter-nos? Pois, se nem a Morte pode deter-nos, quem o poderá fazer?
Uma coisa houve, minha querida Amiga, Maria Rosa, que me alegrou, no meio de todo aquele pesadelo que foi a missa de corpo presente, no templo da paróquia de Barcelinhos. Estou certo de que também te alegrou a ti. Já sabes o que foi, não é verdade?
Exactamente, foi a presença do carro dos bombeiros que apareceu, no final, junto da porta da igreja, do lado de fora, para transportar o caixão que continha os teus restos mortais. Não. Não foi o carro em si, evidentemente. Mas o casual pormenor de ser um carro todo vermelho, da cor do sangue que nos corre nas veias, da cor da vida feita combate e festa, da cor da revolução libertadora, da cor do futuro, numa palavra, da cor do Amor que se esquece de si e se dá sem medida. E alegrou-me, por o vermelho ser a tua cor preferida, a cor dos teus combates, a cor dos teus sonhos, a cor da tua Utopia. No meio de todo aquele luto pesado, do negro que mata e nos afoga a esperança, nem imaginas a minha alegria, quando vi que os teus restos mortais eram transportados num carro de cor bem vermelha. Assim, até os teus restos mortais se tornaram um sacramento do Futuro, um grito silencioso no meio da noite, da escuridão, uma aclamação ao dia novo que está em gestação na História e que, apesar das multinacionais, há-de ser realidade, mais tarde ou mais cedo!
Termino por aqui esta Carta Aberta, que escutei de ti. Tu própria ma sugeriste e inspiraste. Mas não termina aqui a nossa conversa pelas estradas de Emaús, que são, todos os dias, as estradas da minha vida, na companhia de todos os Ressuscitados e de todas as Ressuscitadas, a começar, evidentemente, por Jesus de Nazaré, o Cristo. Essa continuará, sempre, dia e noite. Até que, também eu, me torne invisível aos olhos e te veja, como sou visto por Deus-Amor, que é o Deus de Vivos, e não de Mortos. E, por isso, não quer "missas de sufrágio" por ninguém, porque a todas e a todos acolhe de braços abertos. No seu imenso e infinito coração.

P. S. Afinal, minha querida Amiga, Maria Rosa, devo-te ainda uma palavra mais. Peço-te que digas ao pároco de Barcelinhos – tu, mulher ressuscitada, sabes bem como é que essas coisas se fazem - que tudo quanto acabo de escrever sobre o que, hoje, se passou na sua igreja, não é contra ele que escrevo. Ele foi apenas o rosto e a voz do Sistema eclesiástico católico que continua a proceder deste jeito. É este Sistema que tem de ser denunciado, a tempo e fora de tempo. Também por amor à Igreja. Como poderia escrever contra o pároco de Barcelinhos, se ele, no meio de tudo isto, é uma vítima mais do Sistema eclesiástico católico, por sinal, uma das maiores, juntamente com os outros párocos que ainda se não libertaram dele? A minha esperança é que, também ele, se vier a ler esta Carta Aberta que tu me estimulaste a escrever, acorde na sua consciência, abra os olhos, caia na real e compreenda que Deus é sempre Deus-que-salva, nunca Deus-que-castiga-e-condena. E, como um menino, deixe-se abraçar por Ele. Sabes bem que, se isso vier a acontecer, então, a minha alegria será completa!

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