Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

9 Fevereiro 2001

1. Ainda está para nascer um governo que, sobre o problema da droga e da toxicodependência, diga, alto e bom som, "É o narcotráfico, estúpido, é o narcotráfico!". E que o faça, antes de tomar qualquer outra medida. E que não deixe de o repetir, sempre, mesmo quando passar a actuar no terreno com medidas profilácticas concretas e de apoio às vítimas humanas da droga.
Se os governos de todos os países do mundo o fizerem, não como simples discurso, mas como palavra de ordem e como grito de guerra, para serem, uma e outro, tomados a sério, conseguirão, de certeza, mobilizar em seu redor toda a sociedade, todas as instituições, a começar pelas famílias e a acabar nas Igrejas, e todas as pessoas, individualmente consideradas, para o grande combate, porventura, o mais duélico dos combates que, neste princípio de século XXI, todas e todos havemos de travar, para erradicar de vez o flagelo da droga, sem dúvida, o maior e o mais grave que nos está a minar por dentro sem dó nem piedade.
Uma coisa é certa: Se não agimos, já, e com eficácia, para acabar com o narcotráfico, em toda a terra, será o narcotráfico que acabará connosco, com a Humanidade. E não tenhamos medo de reconhecer que tudo o que possamos fazer, no mundo da toxicodependência, se não começa e acaba pelo duélico combate contra o narcotráfico, não passará de meros paliativos, cortinas de fumo e boas intenções, reveladoras, estas últimas, da falta de lucidez e da falta de coragem políticas. Duas faltas que nos hão-de sair caro, muito caro, melhor, que já nos estão a sair caro, muito caro.
Infelizmente, não é ainda por aqui que avança o actual Governo português. Nem os outros governos da União Europeia. Persistem ainda nos paliativos, nas cortinas de fumo e nas boas intenções. A que se pode juntar copiosas lágrimas de crocodilo, publicamente choradas, sempre que novas vítimas humanas caem na rede do narcotráfico, por sinal, uma rede habilmente montada e que tem contado, desde sempre, com a cumplicidade dos governos dos países do mundo, onde o narcotráfico já assentou arraiais e impunemente faz das suas, a toda a hora e momento.
Fala-se, agora, na criação das chamadas "salas de chuto", no interior das quais os drogados poderão vir a injectar-se, de forma assistida e controlada. A medida legislativa, que prevê a sua criação, acaba de ser posta à discussão pública. E, ao que dizem os jornais de hoje, é uma medida legislativa que, à partida, conta já com o sim da maioria das portuguesas e dos portugueses.
Também eu vejo vantagens, na abertura das "salas de chuto", lá, onde o número de toxicodependentes for em tão elevado número que as justifique. As desvantagens pesarão sempre menos do que as vantagens. Isto, é claro, se as coisas forem feitas com inteligência e muita determinação, e a iniciativa vier a contar com pessoal altamente competente e de dedicação exclusiva, que encare o serviço a prestar, não como um simples emprego, mas como uma missão.
Mas já não vejo com bons olhos que se avance nesta direcção, sem, antes e ao mesmo tempo, se ter mobilizado toda a sociedade e todas as instituições da sociedade, a começar pelas famílias e a acabar nas Igrejas, e todas as pessoas individualmente consideradas, contra o narcotráfico.
Sem este duélico combate, aquela medida continua a ser, objectivamente, válida, mas manifestamente insuficiente e pode, até, acabar por ter efeitos contrários aos das legítimas expectativas geradas em volta das "casas de chuto".
Ao contrário do que parece – e esta é uma daquelas verdades de La Palisse que, mesmo assim, permito-me aqui sublinhar – o narcotráfico não é uma fatalidade. Não é uma fatalidade como são, por exemplo, as catástrofes naturais.
Aliás, hoje, cada vez há menos catástrofes naturais. Até aquelas que ainda designamos como tais, cada vez o são menos.
Cada vez são mais catástrofes provocadas em consequência das economias e das políticas que, desde a chamada revolução industrial, teimamos em prosseguir, e que são completamente autistas, em relação aos gritos da Natureza, sistematicamente violada, esventrada, massacrada por nós.
Para mais, estúpidos que somos, nem sequer nos damos conta de que, também nós somos natureza e que, violá-la, esventrá-la e massacrá-la, é o mesmo que nos violarmos a nós próprios, nos esventrarmos e nos massacrarmos.
As catástrofes, hoje, já começam a ser tão tremendas e tão frequentes, que o nosso autismo não pode prosseguir mais como até aqui. Porque já ninguém consegue escapar das respectivas consequências, de tão descomunais que elas são. E, porque até os mais privilegiados do mundo já estão a ser afectados por elas, eis que começam, finalmente, a ouvir e a dar-se conta de que temos de mudar radicalmente as nossas economias e as nossas políticas (o recente encontro dos ricos do mundo, em Davos, deixou transparecer, cá para fora, algo de novo, neste ponto, o que é um bom presságio), para que a nossa casa comum, que é o Universo, com a Terra dentro, tenha futuro e, com ela, também nós tenhamos futuro.
De contrário, nem os ossos dos nossos antepassados e, amanhã, os nossos próprios ossos, se aproveitam, como, há dias, tivemos oportunidade de ver o que aconteceu, numa zona de grandes cheias, em que as águas invadiram tudo, até o cemitério, e puseram tudo a descoberto.
Até hoje, nenhum governo do mundo apontou o narcotráfico como o inimigo público número um de qualquer sociedade. Todos se têm comportado, nas medidas económicas e políticas de fundo que tomam, como se o narcotráfico fosse uma fatalidade. No género das verdadeiras catástrofes naturais que possam vir a ocorrer.
Por isso, tudo o que fazem, na área da toxicodependência, todas as medidas legislativas e todas as iniciativas concretas que tomam, incidem praticamente sobre as consequências do narcotráfico, nomeadamente, junto das suas inúmeras vítimas humanas. Não se vêem sérias medidas legislativas e consequentes iniciativas concretas que visem o narcotráfico, como tal, para o suspenderem, de imediato, e, finalmente, acabarem com ele.
A dificuldade, reconheço-o, é grande, porque não há narcotráfico por geração espontânea. Há narcotráfico, porque há narcotraficantes. E estes são mafias super-organizadas, que estão no terreno e tudo dominam e controlam. Podem, inclusive, estar dentro dos próprios governos dos países, sem que ninguém dê por isso. Porque nenhum narcotraficante se confessa, muito menos, traz uma tarjeta ao peito a dizer, Sou narcotraficante.
Pelo contrário, o narcotraficante de maior peso, aquele que movimenta fortunas e legiões de médios e pequenos narcotraficantes, respectivamente, motorizados e peões, veste limpo, frequenta os locais jet-set e vip do planeta, mantém relações cordiais (é um modo eufemístico de falar, porque o verdadeiro narcotraficante não tem coração!) com os membros do poder, tanto económico, como político, como eclesiástico/religioso, ocupa os primeiros lugares em todo o sítio onde há primeiro lugar para ocupar, faz-se saudar por tudo o que, na sociedade de hoje, se tem na conta de gente importante, é benfeitor em grande escala, financia grandes empreendimentos desportivos e religiosos, não falta a uma missa presidida pelo papa, ou, na sua ausência, pelo cardeal, numa palavra, é um verdadeiro senhor que consegue pôr de joelhos diante dele todos os outros candidatos a senhores (e há tantos, por aí, quer na sociedade em geral, quer nas Igrejas e Religiões, em especial!...).
Daí a enorme dificuldade em fazer frente ao narcotráfico, porque ele não existe sem o narcotraficante. E este, embora não seja invencível, actua de tal maneira, que parece invencível. E, muitas vezes, consegue até convencer o comum das pessoas de que é invencível. E não só o comum das pessoas. Também o comum dos membros dos governos dos países do mundo, uma vez que consegue tê-los a todos, ou quase a todos, sob o seu férreo controlo. O que impede que eles concebam medidas legislativas e iniciativas concretas e eficazes que acabem com o narcotráfico.
Como poderão fazê-lo, se o todo-poderoso narcotraficante é que dita as economias e as políticas dos governos do mundo, financia os privilégios dos governantes, com o seu espampanante estilo de vida, as suas confortáveis e contínuas viagens, os seus requintados luxos, as suas vaidades, as suas intrigas e os seus jogos de poder? Como poderão fazê-lo, se os governos e os governantes vivem do narcotraficante e do poder que ele lhes garante, na condição, é claro, de que eles não se atrevam sequer a pensar em dar a entender às cidadãs e aos cidadãos que ele existe e que está por trás do narcotráfico?
Quando muito – e já é uma generosa concessão do narcotraficante – os governos e os governantes dos países do mundo podem dar-se ao luxo de falar dos pequenos e dos médios narcotraficantes, com a condição de deixarem nas cidadãs e nos cidadãos, que são apenas esses que existem e actuam no planeta. Para que o ódio das vítimas e, sobretudo, dos familiares e amigos das vítimas, se vire inteiro contra estes, nunca contra o narcotraficante a sério, pai de todo o narcotráfico!
E, no entanto, é preciso, imperioso e urgente, acabar com o narcotráfico. Portanto, é preciso, imperioso e urgente acabar com o narcotraficante, pai de todo o narcotráfico. E temos que agir já. Antes que o narcotráfico acabe connosco, com a Humanidade.
Para tanto, é preciso, imperioso e urgente, acabar com o preconceito de que não podemos fazer mais nada, que não seja acompanhar as vítimas e cuidar delas o melhor possível, até com a criação de salas de injecção assistida. Para que as vítimas do narcotráfico possam continuar a injectar-se, sem escândalo público e sem tantos perigos para terceiros, como, inevitavelmente, sucede, quando tudo se faz na via pública, inclusive, junto de crianças.
Em seguida, é preciso, imperioso e urgente que todos os governos do mundo e os respectivos governantes de turno queiram, com um querer efectivo e consequente – querer é poder, diz o nosso sábio ditado popular – acabar de vez com o narcotráfico, por mais poderoso e temido que seja o narcotraficante, pai de todo o narcotráfico que existe no mundo.
Já o Evangelho de Jesus, perante situações de desumanidade que parecem insuperáveis e invencíveis, sempre pergunta a quem mais directamente é afectado por elas: Queres sair da situação? Queres ficar curado? Queres deixar de ser leproso? Queres ver? Queres andar? As perguntas, de resposta, aparentemente, tão óbvia, justificam-se, porque, se formos a verificar, as pessoas quase nunca querem. Ou querem, mas como quem não quer. Porque querem, mas não querem agir em consequência. Apenas esperam que outros venham agir por elas, substituí-las. Como, de resto, mostra claramente o caso-parábola daquele paralítico do Evangelho de João (cap. 5, 1 e sgs) que, há 38 anos – praticamente, toda a sua vida! – jazia à borda da Piscina de Betzatá, à espera que as águas se agitassem e alguém, nessa ocasião, o lançasse à água, para ficar curado. Até que aparece Jesus, entra em relação de intimidade com ele e pergunta, "Queres ficar são?" e, depois de lhe explicar que a transformação depende, antes de mais dele próprio, e não dos estranhos, logo acrescenta a revolucionária palavra de ordem que pode mudar montanhas: "Levanta-te, toma a tua enxerga e anda". Mesmo que, como era o caso, seja proibido pela Lei sabática, levanta-te e sai dessa tua condição de sub-humano.
Hoje, já não é a Lei sabática que nos proíbe de andar, de sermos livres, de sermos pessoas com dignidade. Hoje, e no caso que estou aqui a analisar, são as leis das multinacionais, nomeadamente, das multinacionais do narcotráfico, que nos impedem de andar, de vivermos com dignidade. Porque, hoje, a crescente miséria e a progressiva degradação da sociedade e da Humanidade são a riqueza e o poder das multinacionais do narcotráfico, então, quanto mais a gente se aninha e se resigna à degradação, mais elas crescem em riqueza e em poder. Ao ponto de nos convencerem, depois, que não podemos nada contra elas, a não ser submetermo-nos às suas economias e às suas políticas.
E aqui está talvez o ponto mais difícil de suspender, de imediato, o narcotráfico e, depois, acabar com ele de vez. É que os governos do mundo e os respectivos governantes de turno, continuam sem querer acabar com ele de vez. Porque também não querem acabar de vez com todos os privilégios que o grande narcotraficante, isto é, as grandes multinacionais do narcotráfico, lhes garantem. Não querem voltar mais à condição de seres humanos como os outros. Não querem viver do salário mínimo que, entretanto, têm o descaramento de aprovar e de impor à maioria dos seus concidadãos, trabalhadoras e trabalhadores. Menos ainda, estão dispostos a viver de reformas como aquelas que impõem à generalidade dos reformados e idosos, mulheres e homens, em tudo iguais às avós e aos avôs deles. Numa palavra, não querem mais ser simplesmente seres humanos.
Quando chegam àqueles lugares cimeiros, o poder sobe-lhes tanto à cabeça, que logo se transformam em executivos, passam a viver em palácios, por cima dos demais cidadãos e cidadãs, como se não fossem mais seres humanos, mas monstros em forma humana, aos quais as cidadãs e os cidadãos comuns, quando se lhes dirigirem, têm de tratar por "V. Excia" e outros títulos que tais!
Ora, o poder alimenta-se de poder. Um governo e os respectivos governantes, quando aceitam distanciar-se dos homens e das mulheres comuns, que fazem a sociedade, e aceitam colocar-se sobre elas e eles, como superiores, infalivelmente, acabam por cair nas malhas das multinacionais, também, das do narcotráfico. Não como toxicodependentes – nem seria o pior, reconheço - mas como seus cúmplices executivos. E nunca mais se libertam delas, a não ser que caiam em si, tenham um salutar ataque de humanidade e regressem à condição de seres humanos. Dificilmente, porém, o poderão fazer, porque, no dia em que, enquanto governos e governantes, revelarem tais propósitos, logo as multinacionais do narcotráfico, lhes saem ao caminho e os dão como incompetentes, como loucos varridos e os substituem por outros que lhes façam o jogo.
"É o narcotráfico, estúpido, é o narcotráfico". O combate a travar é tremendo e duélico. Quem se meter nele a sério, pode acabar por perder a vida e, antes de perder a vida, pode perder o bom nome, a tranquilidade, a saúde, o bem-estar. E tem toda a sua família com a cabeça a prémio.
Mas não temos outra via, se quisermos acabar com o flagelo que nos devora por dentro e nos rouba os nossos melhores filhos e as nossas melhores filhas. E mais: Para lá de fazer do nosso presente, um inferno, ainda nos rouba o futuro. E, com o tempo, transformará a terra que hoje habitamos, num imenso deserto, sem mulheres e sem homens saudáveis que cuidem dela e a transformem no paraíso que ela está chamada a ser.
2. Já os toxicodependentes, mulheres e homens, como tais – o seu número, pelos vistos, não tem parado de crescer! – têm de ser olhados e tratados como as vítimas maiores do narcotráfico e das multinacionais do narcotráfico.
Quando caem nas malhas do narcotráfico, tornam-se, não criminosos, que têm de ser metidos na cadeia (se calhar, as cadeias não deveriam sequer existir para ninguém, muito menos, para toxicodependentes), mas doentes que urge acompanhar e tratar. Com muita inteligência e muita dedicação. Mas também com muita firmeza e muita verdade. Por isso, nunca como umas coitadinhas/uns coitadinhos.
Salvos os casos de doentes terminais ou paraterminais, todos os toxicodependentes, mulheres e homens, hão-de ser olhados como os sujeitos principais, para não dizer, únicos, de um possível processo de recuperação. Todos os outros intervenientes – desde o pessoal técnico especializado, aos familiares e amigos – têm de relacionar-se com elas e com eles, sempre ao jeito da parteira, na sua relação com a mulher que está para dar à luz.
Se nem elas nem eles acreditam nisso, isto é, que são, elas e eles, os principais sujeitos, então, o primeiro passo a dar, antes de qualquer outro, é despertar nelas e neles esta fé. É uma fé que move montanhas.
Não é, necessariamente, uma fé religiosa num deus qualquer que viria substituir-nos no esforço que havemos de fazer para alterar as situações e mudarmos o rumo aos acontecimentos (hoje, há Igrejas e Religiões que entram por aí, reclamam-se de incríveis sucessos de cura e de recuperação, mas eu fico sempre de pé atrás. E sou inclinado a ver em tudo isso, propaganda, oportunismo sem escrúpulos, que se aproveita do sofrimento e da dor alheia, para fazer peditórios, recolha de fundos, alcançar subsídios e, com isso, fazerem crescer ainda mais as suas já chorudas contas bancárias).
É, antes de mais, fé nas próprias capacidades. Isto é, a toxicodependente tem de acreditar nela própria e o toxicodependente tem de acreditar nele próprio. Porque, ou ela e ele se assumem como sujeitos, no longo e difícil processo de recuperação e de libertação da droga, ou não há recuperação e libertação que venham a ser efectivas e para durar.
Deus não existe, aí, para suprir a nossa falta de querer, para agir por nós, em nosso lugar. Um deus assim seria um demónio, tremendamente perverso, que nos diminuiria ainda mais, nos infantilizaria ainda mais. Seria um deus das multinacionais em geral, e em especial das multinacionais do narcotráfico, também das multinacionais da religião, que as há, hoje, aos montes, no mercado mundial das religiões, e que fornecem overdoses de falsas doutrinas teológicas, que alienam consciências, criam dependências dos respectivos "pastores", e, se as pessoas não fogem de lá a tempo, acabam, até, por matar a dignidade humana que todas e cada uma das pessoas somos.
Deus existe, sim, mas no mais íntimo de cada uma e de cada um de nós. Por isso, nunca O vemos, nem faz falta que O vejamos. E quem diz que O vê, é mentiroso/é mentirosa. Ou sofre de graves perturbações mentais, que estão a pedir urgente e profundo tratamento psiquiátrico.
Basta que nos vejamos a nós próprios e aos outros, mulheres e homens, que ousemos todos ser mulheres e homens que não se vendem, que não se deixam subornar, que não se ajoelham diante de nenhum poder, nem de nenhuns desses múltiplos seres com aspecto de humano e que se prestam a dar rosto humano ao poder, mas que não passam de cruéis lobos, sempre prontos a subjugar e a devorar quem os reconhece e aplaude.
Na verdade, quando ousamos ser mulheres e homens assim, Deus já está a ser glorificado, em nós e por nós, mesmo que, durante toda a nossa vida histórica, não entremos nunca num templo, nem pronunciemos nunca uma dessas desajeitadas e tolas fórmulas de oração, em que são peritos os chefes das Igrejas e das Religiões. Porque a glória de Deus não é outra senão a afirmação da nossa dignidade de seres humanos, traduzida em práticas solidárias que revelem bem as companheiras e os companheiros que somos, todos os dias, uns dos outros/umas das outras.
É por eu ver as coisas assim, que não pude deixar de ficar estupefacto, quando, hoje, no telejornal, oiço um representante da Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico, de Lisboa, a exigir, perante as câmaras da televisão, a pena máxima para o jovem toxicodependente da capital, que terá assassinado, com arma branca, um outro jovem estudante daquele mesmo Instituto e que, nesta altura, já foi detido pela Polícia Judiciária, ao ser apanhado em flagrante, quando tentava roubar uma outra pessoa, em pleno dia e na rua, sob a ameaça da mesma arma branca.
E não posso deixar de ficar estupefacto, pelo seguinte: Andamos todas e todos, fora destas dramáticas circunstâncias, a apregoar aos quatro ventos, e muito bem, que um toxicodependente, mulher ou homem, é um doente grave, que carece de ser acompanhado e tratado, com toda a inteligência e com todos os meios que a ciência, hoje, nos proporciona, e, depois, quando ele ou ela, comete distúrbios, concretamente, pratica assaltos, para arranjar dinheiro com que há-de pagar ao narcotraficante peão que lhe vende a droga que ele já não consegue dispensar, e, como no caso em presença, chega a puxar da navalha e mata o assaltado que, provavelmente, terá oferecido resistência, já não exigimos que ele/ela seja tratado, como doente grave, mas sim que seja condenado à pena máxima, numa prisão. E só não exigimos a pena de prisão perpétua (o presidente do PSD, pelos vistos, já diz que é a favor dela, pelo menos, para os casos de crimes contra a Humanidade...), ou a pena de morte, porque o nosso Código Penal português, felizmente, não admite nenhuma delas!... (e oxalá nunca venha a admitir).
Haja modos, estudantes! Haja modos, portuguesas e portugueses! Então, um toxicodependente, mulher ou homem, não é uma vítima do narcotráfico e dos narcotraficantes? Se já desceu tanto na sua condição de ser humano, que rouba para poder consumir e, pior, mata quem lhe oferece resistência, ainda vamos exigir que o condenem à pena máxima numa prisão, ou à pena de prisão perpétua? Então a vítima do narcotráfico, essa mulher ou esse homem, a quem o narcotráfico roubou tudo, até a dignidade e a consciência do que é certo ou errado, ainda por cima tem de ser condenada? Ainda acham pouco a inominável condenação a que o narcotráfico já o tem submetido?
Não teremos, pelo contrário, de virar toda a nossa raiva, todo o nosso ódio (às vezes, é bom e, por isso, é cristão, odiar!) contra o narcotráfico? E – audácia das audácias!... – não teremos de odiar tanto o narcotráfico, que acabemos de vez com ele e, assim, libertemos/salvemos, finalmente, os próprios narcotraficantes que se movimentam na sombra e lhe dão vida, não como seres humanos, mas como monstros, em forma humana em que se transformaram, desde que aceitaram ir por essa via?
Pensemos nisto. E ousemos todas e todos nascer de novo, do Espírito de Deus. Para que a selva que alimentamos e da qual tentamos, os mais espertos e os menos escrupulosos, tirar proveito, dê lugar, finalmente, a uma sociedade verdadeiramente humana, onde possamos viver como irmãs e irmãos que se amam, em casas de portas permanentemente abertas e sem necessidade de qualquer policiamento nas ruas!...

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