Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

27 Abril 2001

Só hoje tive acesso ao texto integral da Nota Pastoral dos Bispos católicos portugueses. Trata-se de um documento aprovado ontem, no final de mais uma assembleia plenária da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), realizada, durante esta semana, em Fátima. Os bispos intitulam-na; "Crise de Sociedade, Crise de Civilização". Os jornais de hoje referem-se-lhe, alguns com títulos bombásticos, nos quais o verbo "arrasar", estilo, "Bispos arrasam Governo", "Bispos arrasam políticos", é o mais conjugado. Os bispos, quais lobos feridos, mostram, aqui, toda a sua fúria. Atiram-se, concretamente, aos governantes e ao Parlamento, por um e outro terem, ultimamente, legislado sobre matérias que os bispos católicos tinham como um feudo exclusivo deles. Sobretudo, por terem legislado em direcção oposta à que eles sempre têm defendido.
Os bispos não hesitam em incluir essas novas leis, no que eles chamam, juntamente com o papa polaco, João Paulo II, "cultura da morte". No entender deles, essas novas leis são um sinal inequívoco de que essa "cultura da morte" está em franco desenvolvimento na sociedade portuguesa, contra a "cultura da vida", que, pelos vistos, tem na Igreja católica, em geral, e nos bispos católicos, em especial, os principais paladinos.
Li a Nota Pastoral com atenção. Como quem procura nela a Boa Notícia que os bispos, enquanto voz da Igreja, têm por missão anunciar, a tempo e fora de tempo, aos pobres e, neles, a todas as pessoas de boa e de má vontade.
Eu sei que não foi a pensar nos pobres, que os bispos redigiram, aprovaram e divulgaram esta Nota Pastoral. Mesmo assim, logo pensei neles e procurei ler o texto, metido na pele deles. Mas, como o texto não foi redigido, aprovado e divulgado a pensar nos pobres, é claro que a Boa Notícia que eu aí procurei, não podia estar lá. E é pena. Muita pena. Porque, se as comunicações da Igreja, mesmo uma simples Nota Pastoral, não anunciam Boas Notícias aos pobres, é caso para perguntar, Então para que é que a Igreja comunica?
O texto é classificado pelos signatários como Nota Pastoral. Mas é uma verdadeira declaração de guerra. Não tanto contra o Governo e o Parlamento, enquanto tais, embora pareçam estes os mais visados. É uma declaração de guerra contra a Sociedade civil, que, felizmente, dá inequívocos sinais de estar disposta a organizar-se e a avançar, rumo ao futuro, sem consultar previamente os bispos.
Ora, os bispos portugueses, como a generalidade da hierarquia católica da Europa e do mundo, não estão dispostos a perder nenhum dos múltiplos privilégios que, desde Constantino, no século IV, adquiriram.
É certo que, depois da Revolução Francesa, têm perdido muitos. Mas têm adquirido outros em troca. Depois, há privilégios que eles têm como intocáveis. São aqueles que têm a ver com o seu poder, ao nível duma certa moral e duma certa ética, duma certa concepção da vida e dum certo modo de conduzir a sociedade.
Os bispos não suportam perder, por exemplo, o controlo ideológico e moral da sociedade. Eles sabem que, no dia em que isso acontecer, nunca mais a Igreja católica será o que sempre foi, ao longo dos últimos dezasseis séculos. O que é, objectivamente, um bem para a Igreja, como tal. Mas um mal, para o tipo de bispos católicos que hoje ainda temos de suportar.
Por isso, os bispos católicos portugueses perdem a cabeça, sempre que a Sociedade civil e o Estado que esta reconhece, ousam dar passos em direcção a uma autonomia cada vez maior, relativamente a eles, até chegarem à total independência deles e de todas as Igrejas.
Sempre que são dados passos nesta direcção, os bispos católicos portugueses, em lugar de se alegrarem, transformam-se de distraídos pastores, que habitualmente são, em furiosos lobos. Constituem-se, de imediato, em alcateia, preferencialmente, em Fátima, a terra portuguesa, simbolicamente, mais idolátrica, mais infantilizada, mais subalternizada e mais anti-Modernidade de Portugal. Uma vez aí, todos juntos, arreganham os dentes, uivam, mostram as suas afiadas garras e atiram-se à Sociedade e ao Estado que esta reconhece, numa verdadeira declaração de guerra.
Foi sempre assim, no século XX que terminou, nomeadamente, desde que, em 1910, aconteceu a Revolução de 5 de Outubro, que derrubou a Monarquia, implantou a República e, logo depois, fez acontecer a separação entre a Igreja e o Estado. Mas não será mais assim, no século XXI e pelo terceiro milénio além. As novas gerações não estão mais para aí viradas. Felizmente. E protagonizarão a Sociedade de outro jeito, na linha da autonomia e da independência, relativamente às Igrejas, também a Igreja católica e, sobretudo, a sua castradora hierarquia eclesiástica.
A Nota Pastoral dos bispos fala de crise, logo no título: "Crise de Sociedade e crise de Civilização". Aqui, os bispos estão certos. Estamos mergulhados em plena crise de sociedade e de civilização. Mas este facto não é motivo para alarme. Os bispos pretendem que seja. E por isso fazem ouvir a sua voz, nesta hora. Só que o fazem como lobos que uivam, ao verem ameaçados, sem retorno, os privilégios de séculos, até agora, intocáveis. Não o fazem como pastores.
O que pretendem é manter privilégios. Não perdê-los, a favor da Sociedade cada vez mais autónoma e independente. Declaram guerra à Sociedade. Não se declaram dispostos a dar a própria vida por ela. São lobos. Não são pastores.
Disse que o facto de estarmos mergulhados em plena crise de sociedade e de civilização não é motivo para alarme. E não é. Quando muito, é motivo para redobrada vigilância. Mas à mistura com redobrada alegria.
Os bispos católicos portugueses esqueceram-se que toda a crise é sinal de que estamos no fim de um ciclo e no início de outro. Há alguma instabilidade, mas é saudável. Toda a crise tem a ver com a Páscoa ou Passagem de Deus pela História. É o Espírito de Deus que está sempre por detrás das crises, tanto as grandes, como as pequenas.

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