Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

24 Abril 2001

Foi já na madrugada de hoje, que teve fim o colóquio/debate sobre "Liberdade Religiosa" que ontem à noite fui convidado a animar em Guimarães, mais propriamente na sede do Círculo de Arte e Recreio. A iniciativa integrou-se nas comemorações do 25 de Abril e congregou um significativo número de presenças, mulheres e homens de todas as idades, que não arredaram pé, apesar de hoje ser dia de trabalho.
No final da minha intervenção inicial, foram múltiplas e variadas as questões levantadas. Curiosamente, nenhuma ousou pôr em causa o que antes as pessoas haviam ouvido. E foi muito radical, a raiar pelo violento, o que eu disse. Não o violento que mata, mas o violento que liberta. Daquele tipo de violento a que se refere o Evangelho, quando coloca na boca de Jesus esta surpreendente afirmação, "O Reino dos céus sofre violência e só os violentos o arrebatam".
Não se trata, evidentemente, da canonização, por parte de Jesus, da violência que mata, mas da violência que liberta. Por isso, a violência desarmada, a violência da palavra que foge de ambiguidades e, de repente, revela que o rei vai nu, deixa a descoberto e em assustador desconforto os poderosos e as suas habilidosas fraudes, dessacraliza todo o tipo de poder - já que não há nenhum poder que seja bom – e, sobretudo, grita o grito dos oprimidos, dos famintos, dos sem eira nem beira. Um grito que chega a ser escutado por Deus, mas que é causado pelos deuses deste mundo, tanto os deuses da religião idolátrica, como os deuses das multinacionais que se alimentam de gente e gostam de vítimas humanas, quantas mais, melhor.
Houve quem, surpreendentemente, perguntasse, por exemplo, sobre a confissão. Concretamente, se faz sentido que um homem se confesse a outro homem, em que um está sentado e perdoa, como se fosse Deus, e o outro está de joelhos diante do primeiro e é perdoado por ele.
A pergunta deu-me oportunidade para sublinhar que a confissão, tal como a conhecemos hoje, é uma invenção da Igreja católica, não é invenção de Deus. De Deus, só o perdão, que vem até nós, ininterruptamente, e sem necessidade de mediações de qualquer espécie. Deus é perdão, por isso, perdoar é o que Deus sabe fazer. E fá-lo em directo. Nem precisa de recorrer à internet, ou ao e-mail.
A pergunta em causa foi formulada por um homem de meia idade alta. Pareceu-me que tinha por detrás um "sermão" do arcebispo de Braga, dias antes referido nos jornais diários e que terá sido pregado por D. Jorge Urtiga aos padres da arquidiocese.
Também eu li excertos desse "sermão" e, de repente, vi-me transportado outra vez à Idade Média, quando os bispos eram senhores feudais e donos das terras que constituíam a sua diocese. E quando os párocos eram funcionários seus, nomeados por ele e sustentados por ele. Sem qualquer capacidade de iniciativa, por melhor que pudesse ser. Apenas obedecer e executar as ordens do bispo/patrão.
Aproveitei para dizer, igualmente, que com a invenção da confissão, a hierarquia eclesiástica, ou poder eclesiástico, conseguiu uma vergonhosa proeza que mais nenhum poder conseguiu, inclusive a Pide e outras polícias políticas criadas por regimes ditatoriais e repressivos. Conseguiu entrar no reduto mais íntimo de toda a pessoa humana que, alguma vez, tenha caído na asneira de se aproximar de um eclesiástico para esse fim.
Todo o poder oprime o corpo da pessoa, toca-lhe na pele, mas não consegue penetrar, devassar, a consciência. O próprio Deus é incapaz de invadir o reduto mais íntimo de cada pessoa. O mais que faz é ficar à porta e bater. Só entrará, se a pessoa lhe abrir a porta.
O poder eclesiástico, ao contrário de Deus, invade a consciência das pessoas. O chamado sacramento da confissão é o momento privilegiado para isso. Mas devassar o reduto mais íntimo de alguém, é sempre um crime de lesa-dignidade, que tem de ser denunciado e combatido.
Claro que o "sermão" do actual arcebispo de Braga não se teceu com estas e outras ideias semelhantes. Foi mesmo um sermão no pleno sentido da palavra. Totalmente eclesiástico, tradicionalista e moralista. A denunciar saudades de um passado em que o clero era rei e senhor das consciências das pessoas que viviam subjugadas ao seu incontestado poder. E a não hesitar repreender os padres da arquidiocese, por darem sinais de algum desleixo na prática pastoral da confissão, tanto no sentido de não promoverem um regular serviço de confissões, nas paróquias, como no sentido de eles próprios recorrerem cada vez menos à prática da confissão.
Por outras palavras, D. Jorge Urtiga mostra-se aflito por os padres não confessarem as pessoas e por não se confessarem uns aos outros. Em lugar de se alegrar com isso, ralhou.
Nem sequer se pôs o problema logístico mais elementar que é este: como é que poderia funcionar um regular serviço de confissões – isto, no caso de ser um serviço a estimular em Igreja, o que não é verdade – se não há um número suficiente de padres para o fazer? E, se os poucos padres que existem se ocupassem de um serviço desses, será que poderiam fazer mais alguma coisa, caso os católicos todos, mulheres e homens, passassem a confessar-se com regularidade?
Muitas outras foram as questões trazidas ao debate pelas pessoas presentes. Não vou referir-me a elas todas, para não tornar demasiado extensa esta crónica de Diário-net. Mas não resisto a referir uma que foi levantada, já quase no final do debate.
Foi um outro homem quem perguntou se teria sido mero acaso, pura coincidência, a revelação do famigerado terceiro segredo de Fátima, pela Cúria romana, no mesmo dia em que foi apresentada ao mundo a fantástica descoberta científica da descodificação do genoma humano.
É que – sublinhou com algum sarcasmo - no dia seguinte, os jornais enchiam as suas principais páginas, com dois assuntos apenas: a revelação do terceiro segredo de Fátima e a descodificação do genoma humano.
A pergunta pretendia saber se teria sido mera coincidência, mero acaso, a revelação do chamado segredo de Fátima, nesse dia, ou se não teria sido mais uma das muitas manobras do poder eclesiástico católico, sediado no Vaticano, para, com isso, tentar tirar impacto mediático à descoberta científica e, assim, tentar prolongar por mais tempo a ignorância e o obscurantismo, que o poder eclesiástico tanto gosta de cultivar nas populações.
Reconheci que, a mim, essa questão não se havia posto na altura. Mas, agora, que acabava de a ouvir formulada, e pelo que conheço do que é capaz, em termos de perversidade, o poder absoluto eclesiástico, não estranhava nada que tudo tivesse sido programado pelo Vaticano. Não tenho provas que mo confirmem. E admito que tenha sido mera coincidência. Mas que alguém chegue a levantar uma tal hipótese, diz bem, só por si, do que será capaz o poder eclesiástico, nomeadamente, da maquiavélica perversidade com que será capaz de actuar.
Só que – e isso também o meu interlocutor reconheceu – se a Cúria romana escolheu propositadamente esse dia para divulgar ao mundo a chamada terceira parte do segredo de Fátima, e, assim, ensombrar a descoberta científica sobre o genoma humano, então tenho de reconhecer que os cardeais que estão à frente dela são mesmo obtusos e destituídos de qualquer sentido de oportunidade.
Vir confirmar que havia um segredo de Fátima e que o seu conteúdo era o que então foi divulgado, precisamente, no mesmo dia em que o genoma humano foi descodificado, é a prova provada de que a Igreja católica, nas suas cúpulas, é uma Igreja totalmente à margem da Ciência, por isso, totalmente, à margem de Deus. É uma Igreja que se alimenta de mentiras, de obscenidades teológicas, de disparates, de beatices. Como tal, é uma Igreja que só serve para ser lançada fora e pisada pelos seres humanos que se prezem.
O contraste não podia ter sido maior entre o que diz e faz a Igreja e o que diz e faz a Ciência, acerca dos seres humanos. Só que Deus está com a Ciência e não com o obscurantismo eclesiástico que chega a não ter vergonha de envolver o santo Nome de Deus com torpes e obscenas mensagens como a da chamada terceira parte do segredo de Fátima.
Aproveitei, igualmente, a questão levantada, para esclarecer que a Fé cristã, ao contrário do poder eclesiástico, não só não teme a Ciência, como a estimula. E, se alguma censura tem a fazer

à Ciência é que ela não o seja tanto quanto é desejável. Ou que se deixe instrumentalizar pelo poder económico e pelo poder político, em lugar de sempre se colocar ao serviço da verdade que liberta.
De resto, Deus, na perspectiva da Fé cristã, nunca é o rival do ser humano, nem o ser humano experimenta Deus como obstáculo ao seu desenvolvimento. Pelo contrário, o que Deus mais quer – e para tanto habita misteriosamente no mais íntimo de todos os seres humanos, ateus incluídos - é que o ser humano se desenvolva e cresça de tal modo, que, um dia, quase possa dispensá-lo a Ele. Essa será a maior alegria de Deus!
Mas o colóquio/debate abriu com uma comunicação, assumidamente, provocadora, que previamente escutei, para proferir naquela altura. É esse texto-base que passo agora a divulgar aqui na íntegra.
É claro que, no calor da comunicação, com alguma frequência, saltei fora do texto e disse coisas que não estavam nas folhas manuscritas que tinha diante de mim, como guião. Como não fiz gravação, não posso reproduzir aqui tudo o que disse. Tenho de limitar-me ao texto, tal e qual. E já não é pouco polémico, como poderão verificar, se se derem ao trabalho de ler. Façam um esforço, que não se arrependerão. Eis:
Na minha missão presbiteral de Evangelizar os pobres, deveria iniciar esta intervenção sobre Religião e sobre a Lei da Liberdade religiosa, com uma Boa Notícia – é isso Evangelizar – e que essa Boa Notícia fosse sentida como tal pelos pobres, os esquecidos e marginalizados da sociedade, precisamente, todos esses que não costumam participar em iniciativas como esta.
Mas, sobre Religião e sobre a Lei da Liberdade Religiosa que está para ser aprovada pela Assembleia da República, que boa notícia há para dar, para anunciar?
Assim, à primeira vista, não há nenhuma. Porque, dizer Religião, é dizer doença infantil da Humanidade; é dizer culto dos demónios (deisidaimonia, isto é, medo dos demónios/deuses, chamavam as primeiras gerações cristãs às múltiplas Religiões politeístas, das quais se haviam separado, quando aderiram à via original vivida e anunciada por Jesus de Nazaré, o Cristo); é dizer idolatria, templos, basílicas, santuários, clero, sacerdotes, promessas, pagamento de promessas, peregrinações a pé a Fátima, à Penha, ao S. Bentinho da Porta Aberta, ao Sameiro, ao Bom Jesus; é dizer rastejar no recinto das deusas e dos deuses; é carregar com o andor onde vai a imagem da deusa ; é despojar-se do dinheiro que se tem e que se não tem, para o deixar no templo/santuário; é despojar-se da dignidade e humilhar-se perante a imagem das deusas e dos deuses. Para que elas e eles se dêem por satisfeitos e nos sejam, finalmente, favoráveis.
Mas dizer estas e outras coisas semelhantes, é dizer sofrimento, desgraças, roubalheira, alienação, degradação humana, humilhação. Por isso, o contrário de Boa Notícia!
Para se poder proclamar uma Boa Notícia, quando se fala de Religião, só se proclamar com todas as forças, A Religião acabou. Só se proclamar às populações empobrecidas, Daqui em diante vocês estão livres da Religião! Só se proclamar, A Religião morreu! Os deuses morreram! Este pesadelo que é a Religião e o medo dos deuses que ela alimenta, já não existem mais. Só se proclamar, Já não há mais clero, nem sacerdotes (andam os bispos aflitos com a falta de sacerdotes e deveriam andar alegres, porque os sacerdotes só estorvam e impedem a Igreja de ser o que deve, isto é, laical e toda ministerial); já não há mais santuários, templos, cultos, rezas, sacrifícios, imolações humanas.
Mas, se eu disser uma Boa Notícia destas, será que os pobres a entendem como Boa Notícia, ou como má notícia? Por outro lado, podem os pobres, como tal, e no tipo de mundo que temos tão injusto e desigual, viver sem Religião? Sem a senhora de Fátima? Sem o S. Bentinho da Porta Aberta? Sem a Penha? Sem o Sameiro? Sem o Bom Jesus? Sem fazerem promessas e sem as cumprirem? Sem se despojarem do seu dinheiro em favor dos deuses e das deusas, como a deusa/senhora de Fátima?
Para compreendermos o alcance da pergunta, pensemos, paralelamente: Pode um drogado, como tal, viver sem a droga? Um alcoólico sem o álcool?
E, no entanto, como presbítero da Igreja católica, que participa de modo especial na missão que ela tem na História, que é Evangelizar os pobres – e, por eles, com eles e neles, Evangelizar toda a Humanidade - a Boa Notícia que tenho a dar a propósito de Religião, é precisamente esta: A Religião acabou!
Muita gente ainda não sabe – sempre nos esconderam a verdade e nos ensinaram a mentira – mas tenho de dizer sem hesitação, que Deus não gosta de Religião, não gosta de missas, nem de confissões, nem de terços, nem de rezas, nem de santuários, nem de clero, nem de sacerdotes.
Todas estas coisas são invenção nossa, da Humanidade mais ou menos assustada. Não são invenção de Deus. Basta dizer que o último livro da Revelação bíblica de Deus – Apocalipse - quando descreve a cidade ideal, isto é, a cidade plenamente humana, diz sem hesitar, "Não vi templo algum na cidade". O que indica que a cidade/sociedade ideal, justa e integralmente humana, será uma cidade/sociedade sem Religião! Tal como uma pessoa saudável vive sem morfina, sem ópio, assim a cidade/sociedade saudável, justa e fraterna, viverá sem Religião, ópio do povo.
Só que os pobres ainda não conseguem dispensar a Religião. Enquanto não forem pobres com Espírito, que o Evangelho de Mateus chama "bem-aventurados", até costumam ficar furiosos, se alguém lha tira. Como o drogado, se lhe tiram a droga. Como o paralítico, se lhe tiram as canadianas ou a cadeira de rodas. Ou como o alcoólico, se lhe tiram o álcool.
As dores, as angústias, dos pobres são tantas e tão profundas, que eles, impotentes para mudar o rumo às suas vidas e às sociedades, não dispensam o ópio que é a Religião, toda a Religião. E compreende-se. Mas não se deve aceitar como prática saudável e libertadora. O que se deve é tudo fazer para acabar com as fábricas de produção de pobreza e de pobres em massa.
Os pobres sem Espírito e com Religião são como aquela pobre viúva do tempo de Jesus, que foi ao Templo de Jerusalém, e deu tudo o que tinha para o tesouro do templo. Enquanto os ricos davam do que lhes sobejava, ela deu o que lhe fazia falta. E, com isso, ajudou a engordar o tesouro do Templo, tesouro que era gerido, comido e digerido pelos sacerdotes e suas famílias, uns 18 mil, no total, à época de Jesus.
O mais dramático deste episódio é que, até hoje, o clero de todas as Igrejas, e os próprios pobres, interpretam-no como se ele fosse um comportamento exemplar do que sempre se deve fazer, e não como uma indignidade inominável. Que é o que ele foi!
Ao chamar a atenção para o facto, Jesus não disse que ele era exemplar e, por isso, deveria ser reproduzido através dos tempos. Melhor, disse que ele era exemplar, mas apenas no sentido de que reproduzia uma prática que nunca deveria ser seguida, muito menos, a coberto do santo Nome de Deus.
Entendamos: que uma pobre viúva dê (seja levada a dar) o que lhe faz falta, para, com isso, ajudar a enriquecer ainda mais o tesouro do templo – hoje, o santuário de Fátima, por exemplo - é a indignidade das indignidades. Só por isso, o templo que aceita e promove gestos destes, é classificado por Jesus como "covil de ladrões" e é simbolicamente destruído por ele. Para que não seja mais possível prosseguir com tais práticas, sacrilegamente, lesivas da dignidade e do bem-estar dos pobres!
É a existência de templos/santuários, verdadeiros covis de ladrões, eufemisticamente, chamados "casas de Deus", que faz com que os pobres continuem a reproduzir, até à exaustão, gestos de degradação como o desta viúva pobre do Evangelho.
"Destruí o templo!". A ordem é de Jesus. Ele próprio o destruiu, simbolicamente, quando, depois de ver uma cena daquelas, pega em cordas e faz um chicote, derruba as mesas e os postos de venda dos comerciantes e expulsa-os a todos de lá para fora. Com este gesto, Jesus acabou com o templo. Acabou com a religião que o templo promovia e alimentava. Só que esta foi, precisamente, a principal causa da sua morte na cruz.
Com esta referência ao gesto e à posição de Jesus sobre a Religião, entramos já no segundo ponto desta minha intervenção: a Lei da Liberdade Religiosa. Será aprovada esta semana. Apenas para as chamadas Igrejas minoritárias, já que a católica fica de fora e acima da Lei, com o privilégio da Concordata de 1940.
Pergunto: deveria haver uma Lei da liberdade religiosa? À luz do gesto de Jesus de Nazaré, no templo de Jerusalém, e à luz de toda a sua doutrina, tenho de responder, Não! A Religião deve desaparecer; não deve ser promovida. Pode ser tolerada; não deve ser protegida. Muito menos estimulada.
Legislar sobre a Religião, é protegê-la, é reconhecê-la, é estimulá-la. Bastaria a Constituição da República. E que as Religiões fossem tratadas como associações. Não se justifica uma Lei especial de liberdade religiosa, numa sociedade que se tem por democrática e civilizada.
A Lei que vai ser aprovada esta semana, no Parlamento, visa conceder privilégios às Religiões e às Igrejas minoritárias. Visa alargar a elas o que, desde 1940, é reconhecido à Igreja católica.
Neste ponto, tenho de criticar tanto as Igrejas minoritárias, como a Igreja católica. Mais esta, evidentemente. E tenho de criticar aquelas e esta, porque as Igrejas minoritárias, em lugar de combaterem os privilégios, e exigirem o fim dos privilégios da Igreja católica romana, querem passar a usufruir deles. Nisso, são muito pouco, ou nada, protestantes!
Ora, a Boa Notícia que eu, como presbítero da Igreja católica, teria a dar aos pobres, a este propósito, e nos pobres, a toda a Humanidade, seria esta: A Concordata de 1940 acabou; a Igreja católica finalmente desistiu dos privilégios e, por isso, renunciou à Concordata que os sancionava. E esta Boa Notícia seria completa, se, entretanto, eu pudesse acrescentar: Igualmente, as Igrejas cristãs minoritárias rejeitam o prato de lentilhas que o Estado português lhes quer oferecer, ao abrigo da Lei da Liberdade religiosa.
Infelizmente, não posso dar esta Boa Notícia. Porque nem as Igrejas cristãs minoritárias estão dispostas a desistir dos privilégios, nem a Igreja católica está disposta a renunciar à Concordata de 1940. Pelo contrário, reclama a sua revisão, na esperança de ainda vir a obter mais privilégios do que aqueles de que já usufrui.
Só Igrejas cristãs sem concordatas e sem uma lei especial de protecção aprovada pelo Estado é que podem ser Igrejas proféticas, martiriais, social e politicamente, combativas, bem à altura da arriscada missão de Evangelizar os pobres, que é a única missão das Igrejas cristãs!
Fazer concordatas, acordos, com o Estado, é assumir-se como poder eclesiástico, como parceiro do Estado, do poder de turno. E isso nunca foi, nem há-de ser, o papel das Igrejas que se reivindicam do nome de Jesus e do título de cristãs.
Direis: mas o Poder existe. Está aí. É preciso entender-se com ele. Eu sei que o Poder existe. Sinto-o todos os dias na minha pele. Mas – atenção! - não é para que as Igrejas cristãs alguma vez negoceiem com ele, cooperem com ele, muito menos, o canonizem, o abençoem. Isso foi o que fez a Igreja católica, ao assinar a Concordata de 1940 com o Estado Novo. Canonizou o regime de Salazar. A troco de regalias, muitas, que ele lhe concedeu. E assim a amordaçou. De tal maneira que nunca da boca da hierarquia da Igreja católica portuguesa – o caso do Bispo do Porto foi a excepção que confirma a regra - se ouviu uma palavra profética de denúncia e de condenação da Pide, do Tarrafal, da guerra colonial, da total falta de liberdade de expressão, de associação, no País.
O Poder existe. Está aí. Mas é para ser vigiado, denunciado, combatido e, se for caso disso, derrubado pela força profética das Igrejas cristãs. Nunca para ser reconhecido e abençoado por elas. Foi assim que fez paradigmaticamente Jesus. Nunca negociou com o Poder do seu tempo e país. Sempre o enfrentou. Desarmado. Melhor, apenas armado com a fecunda e invencível força da Verdade, que é ele próprio, tanto a sua prática, radical e universalmente, libertadora, como a sua palavra.
As vergonhosas ameaças que os bispos católicos portugueses hoje fazem, de que erguerão os altares do país contra o Governo, caso ele retire à sua Igreja os privilégios que o Estado Novo lhe concedeu, é a postura que as Igrejas sempre deveriam ter, frente ao Poder, mas só quando os direitos e a dignidade das pessoas, a partir das mais pobres, estivessem em perigo, fossem pisados. Não quando os privilégios dela estão em perigo.
Infelizmente, não é isto que se vê. Os bispos só levantam a voz, quando os privilégios da sua Igreja são ameaçados. Dos pobres e das pessoas em geral, não querem saber, contanto que os privilégios eclesiásticos estejam assegurados.
Em Portugal, dizer Igreja católica, foi sempre, e ainda é, dizer Igreja do regime. Ela é a grande canonizadora do regime.
Hoje, o Estado é laico, mas a verdade é que basta os bispos tossirem, arregalarem os olhos, levantarem a voz, como fez o cardeal de Lisboa, tanto no dia de Páscoa, como no dia de ontem, respectivamente, na homilia da missa e na abertura de mais uma Conferência Episcopal em Fátima, para que os representantes do Estado laico já não saibam onde se meter. Mais parecem meninos de coro, ou de catequese, diante do senhor abade, de vara em punho.
É uma vergonha o que se está a passar nestes dias no nosso país entre os Bispos católicos e os representantes do Estado laico. Os bispos tomam atitudes de Poder autoritário, por isso, de anti-bispos. Os representantes do Estado laico tomam decisões políticas que são a negação da laicidade do Estado e da Política. Nem uns nem outros são dignos do povo que dizem representar.
Se aprovarem a Lei da Liberdade religiosa, sem que esta se aplique à Igreja católica (tudo indica que é isso que irá acontecer, apesar de, nesse caso, estarmos perante uma lei manifestamente inconstitucional); e, se, simultaneamente, mantiverem a Concordata entre o Estado laico de Portugal e o Estado católico do Vaticano – há, pelo menos, 27 anos, que ela deveria ter sido abolida, com a Revolução libertadora do 25 de Abril de 1974, que derrubou a ditadura fascista de Salazar e, por isso, deveria automaticamente abolir a Concordata de 1940, cujo parto só foi possível dentro desse maldito regime - deveriam ser todos excomungados das respectivas funções, como indignos dos lugares que ocupam.
Os bispos católicos, porque, com esse comportamento, insistem num modelo de Igreja – a Cristandade – que o Concílio Vaticano II aboliu em 1965. Com isso, de certo modo, auto-excomungam-se da Igreja-comunidade-de-comunidades, iniciada no Vaticano II, a única que, a partir de então, pode chamar-se Igreja católica, e regressam obstinadamente à velha Igreja Cristandade, ou Igreja-Poder, que existiu, desde o século IV até 1965!
Os representantes do Estado laico, porque não têm a audácia de ser laicos até ao fim. Preferem ir à missa dos bispos católicos, participar, com o papa João Paulo II, na beatificação das duas crianças de Fátima que foram vítimas da perversa deusa e senhora lá do sítio – não foi o que fez, por exemplo, o Presidente da República, Jorge Sampaio?! - numa palavra, preferem ser laicos nos princípios, mas católicos nas práticas, pelo menos, nas mais mediáticas. Consequentemente, são todos uns mentirosos!
Mas, então, que fazer com estes bispos católicos, e com estes governantes, com estes presidentes da República, com estes deputados, com estes representantes do Estado laico que assim procedem?
A Boa Notícia que, a este propósito e como presbítero, deverei anunciar aos pobres e, neles, às populações em geral, só pode ser esta: Fujam a sete pés destes bispos e destes representantes do Estado laico, que assim procedem. Todos eles se comportam como lobos com pele de cordeiro. Só existem – como, dos pastores do povo que vieram antes de Jesus, diz o Evangelho de João (capítulo 10) - para roubar, matar e destruir. Fujamos de todos eles, enquanto é tempo. Deixemos de confiar neles. Não frequentemos mais as suas iniciativas. Combatamos a Ordem Mundial dominante em que eles se inserem e que ajudam a perpetuar no nosso país. Corramos de vez com todos eles dos postos que ocupam indevidamente. Sobretudo, ousemos criar uma alternativa concreta a eles. Melhor, ousemos ser, cada uma e cada um de nós, verdadeira alternativa a todos eles.
Depois, se for caso disso - e tudo indica que sim - voltemos a fazer a Revolução que implantou a República e separou a Igreja do Estado. E, se esta Revolução ainda não for suficiente, ousemos fazer outra vez a Revolução do 25 de Abril. Não, evidentemente, uma simples reprodução do que se fez, respectivamente, em 1910 e em 1974, mas, agora, duas revoluções numa só, e com os novos ingredientes e os novos conteúdos revolucionários que este início do século XXI e do terceiro milénio exigem.
Tamanha prepotência eclesiástica católica e tamanha claudicação dos representantes do Estado laico perante essa prepotência, exigem-nos isso. Levantemo-nos. Indignemo-nos. Ousemos um Novo Começo, rumo a um Portugal mais humano, mais civil(izado), mais igualitário, mais autónomo, totalmente independente das Igrejas. E em que as Igrejas, em lugar de serem poder, sejam discreto e fecundo fermento na massa, vigoroso sal da terra e consciente luz do mundo.

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