Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

16 Abril 2001

Por mais cristã que se diga, a festa da Páscoa continua pagã. Inclusive, a Páscoa celebrada pelas Igrejas cristãs, com destaque para a nossa Igreja católica. Basta analisar com atenção como todas elas insistem em celebrá-la, nos respectivos templos, para termos de concluir que desconhecem por completo a Páscoa cristã jesuânica. Os ritos a que recorrem, nestes dias, para a celebrar, são ainda os ritos do Paganismo religioso, como já eram pagãos os ritos da Páscoa dos hebreus, no tempo de Moisés e de Aarão, e eram pagãos os ritos da Páscoa dos judeus, no tempo de Jesus de Nazaré, o Cristo. Foi por Jesus, na sua vida histórica, ir por outra via, que não a do Paganismo religioso, que ele acabou como acabou, assassinado na Cruz do Calvário. Os três Poderes – religioso, económico e político (no fundo, são um só) – não lhe perdoaram o atrevimento e mataram-no. Sem apelo nem agravo. Para, assim, poderem continuar, com mentirosa legitimidade, a alienar, a explorar e a oprimir/matar as pessoas e os povos, sob os auspícios duma Ordem mundial que é verdadeira desordem. E para a qual, sempre nos querem convencer de que não há sequer alternativa.
Este meu ponto de vista sobre a Páscoa das Igrejas cristãs pode ser chocante. Mas a verdade é que, enquanto, não tomarmos consciência deste facto, jamais iniciaremos o êxodo ou saída do Paganismo e dos seus falsos valores, em que, como Igrejas cristãs, temos ingenuamente vivido instaladas. Muito menos daremos o passo seguinte, que é acolhermos, nas nossas vidas e nas nossas sociedades, Jesus de Nazaré, o Cristo crucificado/ressuscitado, mai-la sua original via. Uma via ousadamente espiritual, não religiosa, que, por isso mesmo, tem tudo a ver com o deixarmo-nos conduzir, no Tempo, pelo Espírito Santo de Deus, em lugar de tudo fazermos para tentar alcançar Deus pelos nossos próprios meios, a fim de o colocarmos ao serviço dos nossos egoístas interesses corporativos, como sempre fez e faz a via religiosa do Paganismo. De resto, só assim, chegaremos a reconhecer a Páscoa de Jesus - escândalo e loucura sem igual, dentro do mundo dos falsos valores do Paganismo – como a única Páscoa que verdadeiramente interessa à Humanidade, também e sobretudo, à Humanidade deste terceiro milénio.
A Humanidade só tem a ganhar e a agradecer, se as Igrejas cristãs derem todos estes passos. Embora possa começar por não compreender e, até, perseguir as Igrejas cristãs que ousarem remar contra a corrente do Paganismo instalado, a Humanidade deste terceiro milénio acabará por agradecer às Igrejas cristãs que o fizerem. E mais agradecerá, se elas não apenas ousarem remar contra a corrente do Paganismo, mas também e sobretudo ousarem ser Igrejas cristãs jesuânicas, isto é, do mesmo jeito de Jesus de Nazaré.
A Semana que findou e que a Igreja católica gosta de chamar Semana Maior ou Semana Santa, é uma semana tipicamente pagã. Dentro do quadro do Paganismo religioso, politeísta. Durante ela, abundam as cerimónias religiosas nos templos, tanto nos pequenos templos das aldeias, como nas grandes catedrais e basílicas das grandes cidades-sedes episcopais, de que Roma é o exemplo mais acabado, com o papa a presidir a todos os solenes ritos religiosos, e com as televisões a difundir o espectáculo, urbi et orbi.
Bem sei que o nome de Jesus Cristo é o mais invocado e o mais proclamado, nestas cerimónias pascais. Igualmente, os textos bíblicos lidos e comentados são mais do que muitos, uma verdadeira overdose. As preces multiplicam-se, como as contas de um rosário. O tom dos cânticos é triste e plangente, primeiro, e, depois, alegre e entusiasta. A Via Sacra, supostamente, de Jesus, merece especial destaque, num dos dias. As trevas neutralizam a luz, até que, na chamada Vigília Pascal, a Luz volta a dissipar as trevas. Enquanto cá fora, pelo menos, nas paróquias onde o mundo rural ainda persiste, os foguetes cortam os ares, sobem e estouram lá no alto, numa manifestação de suposta alegria popular. E os sacerdotes anunciam, Cristo ressuscitou! Cristo ressuscitou, Aleluia! Aleluia!, exactamente, como os sacerdotes das velhas religiões do Paganismo, anunciavam, A vida voltou, a Primavera chegou, a Luz do sol venceu as densas trevas do inverno, Aleluia! Aleluia!
A Semana Santa ou Semana Maior que desagua na Vigília Pascal e no Domingo de Páscoa é, porventura, a semana mais pagã das 52 semanas do ano. A simples repetição do nome de Jesus e a rotineira leitura da Bíblia, as preces multiplicadas dirigidas a Deus e, finalmente, as teatrais proclamações de Ressurreição e de Aleluia não bastam para tornar cristã a Páscoa. Ela é pagã, apesar de tudo isso. Porque não bastam uns quantos rótulos cristãos, para tornar cristã a realidade. O que contam são os conteúdos. E estes continuam a ser manifestamente pagãos, não cristãos.
Quer isto dizer que o Paganismo conseguiu sobreviver ao Cristianismo. Mudaram-lhe o nome, passaram a chamar-lhe Cristianismo. O Paganismo não se importou com isso. Os três Poderes, legitimados por ele, desde cedo perceberam que essa era, até, a melhor estratégia para que o Paganismo pudesse perpetuar-se no tempo, sem esforços de maior. E como, nestas coisas, o que conta são os conteúdos e não os rótulos, esses mesmos Poderes, que subsistem, graças à subsistência do Paganismo, de bom grado aceitaram que ele passasse a chamar-se Cristianismo. Contanto que esta mudança de nome não alterasse os conteúdos específicos do Paganismo. E, até ao presente, não alterou. Até os solidificou ainda mais.
Chegamos assim ao início do século XXI e do terceiro milénio do Cristianismo, sem que a Humanidade conheça o Cristianismo. O mais curioso é que não falta por aí quem já escreva e apregoe aos quatro ventos que a Humanidade vive no pós-Cristianismo, quando, afinal, o Cristianismo ainda não teve verdadeiramente a sua oportunidade histórica. E, dificilmente, a terá, pelo menos, a nível planetário, porque as gerações presentes pensam que já sabem tudo sobre ele. Quando o que elas conhecem é o Paganismo sob a designação de Cristianismo.
Regressemos à Semana Santa ou Semana Maior que culminou na Vigília Pascal, e à qual se seguiu o Dia de Páscoa propriamente dito, o qual, este ano, foi celebrado na mesma data por todas as Igrejas cristãs do mundo, incluída a Igreja ortodoxa oriental separada de Roma.
Disse e repito que a Semana Santa ou Semana Maior é o exemplo mais acabado do Paganismo, a começar pelo próprio nome com que é designada. Bispos e párocos, com o bispo de Roma, à cabeça, foram incansáveis, nestes dias, a presidir a cerimónias litúrgicas, todas elas demoradas e pesadas. Fizeram-no, sem se aperceberem sequer de que estavam a dar continuidade aos cultos e às liturgias do Paganismo, outrora, florescentes nas sociedades, quando estas eram acentuadamente rurais, e o ambiente que se respirava era inevitavelmente sagrado e não secular.
Se atentarmos bem, estes ritos têm o condão de tornar ainda mais inquestionável os três Poderes, a começar pelo religioso. Mesmo que os representantes do Poder religioso, aqui e ali, teçam críticas ao Poder Político (ao Económico, nunca o criticam, porque é ele quem lhes fornece a bandeja dos privilégios e paga muitas das suas vaidades), ainda é para que ele se comporte bem e, assim, se perpetue. Nunca é para o fazer desaparecer. Quando muito, e no pior dos casos, é para fazer substituir os seus representantes por outros, mais subservientes a ele.
Foi, precisamente, o que aconteceu, nesta Páscoa de 2001, com as homilias de alguns bispos portugueses, com destaque, para as homilias do (recém) cardeal patriarca de Lisboa e do Bispo do Porto, que as aproveitaram para criticar o Parlamento português (este não estava sequer representado nas respectivas catedrais e, que estivesse, não poderia nunca tomar a palavra para se defender ou para se explicar, já que, nessas alturas, a palavra é exclusivamente do presidente da celebração, ou daquele em quem ele delegar), por ele querer legislar sobre Liberdade Religiosa e pretender, muito justamente, tratar a Igreja católica, não acima da Lei, mas sim como uma entre as demais Igrejas cristãs que actuam em Portugal.
Fiéis a participar, nestes ritos pascais pagãos, houve alguns, por sinal, muito poucos, sobretudo, se pensarmos na esmagadora maioria das pessoas e das populações que não puseram lá os pés. E, dos poucos que ainda lá vão, são sempre mais as mulheres do que os homens.
Tão significativo desinteresse vem dizer que os tempos que vivemos, não são mais os tempos rurais de outrora, em que o campanário do templo pagão/cristão é que marcava o ritmo da vida das populações. Vem dizer igualmente que o sagrado de outrora deu lugar ao secular e ao profano, de hoje. E vem dizer ainda, que a dramatização teatral litúrgica em que insistem as Igrejas cristãs, de tão repetida, já cansa e satura.
É, pois, natural que as pessoas, na sua esmagadora maioria, prefiram cada vez mais o Paganismo em versão secular e profana, que hoje sobrevive e se expande sem qualquer necessidade das velhas Igrejas ditas cristãs e das velhas Religiões, ao Paganismo em versão religiosa e sagrada, alimentado por umas e por outras e que foi florescente, quando as sociedades eram estruturalmente rurais.
Bastaria termos consciência da existência de sacerdotes e de cultos religiosos, estes, invariavelmente, presididos por aqueles, em lugares especialmente concebidos e exclusivamente utilizados para esse fim, para vermos, nesse simples facto, a prova provada de que estamos perante a permanência do velho Paganismo religioso em toda a sua pujança.
Sacerdotes e culto religioso, templos e tempos litúrgicos, são realidades típicas do Paganismo, completamente estranhas e até desconhecidas do autêntico Cristianismo. Mais. São realidades denunciadas e combatidas pelo autêntico Cristianismo, o qual, lá onde estiver bem activo, quer ver a Humanidade cada vez mais liberta para a liberdade, cada vez mais autónoma, secular, humana e sororal/fraternal, não-religiosa, a viver em cidades/comunidades sem templos e sem sacerdotes, sem deuses de nenhuma espécie, apenas com o Deus Vivo e totalmente outro, por isso, inominável e imanipulável, a viver no mais dentro de cada um dos seus membros, os únicos e verdadeiros templos vivos e a única realidade verdadeiramente sagrada, que há-de ser infinitamente respeitada por todas as instituições, Estados laicos incluídos.
A juntar a este facto, estão os cultos e as liturgias propriamente ditos. Só o Paganismo se alimenta de cultos e de liturgias. E cultos e liturgias manifestamente sacrificiais. Mas é isto mesmo que as Igrejas cristãs hoje mais promovem. Cultos e mais cultos, todos eles sacrificiais e a apelar ao sacrifício das pessoas. É praticamente a sua actividade específica. Que, pelos vistos, carece de ser regulada por lei, protegida e acautelada pelos Estados, quando estes se tornam laicos.
Cultos sacrificiais foram todos os cultos da Semana Santa ou Semana Maior. Em que se chegou ao cúmulo de apresentar Jesus de Nazaré, o Crucificado/Ressuscitado, como o cordeiro imolado pelos pecados da Humanidade, o bode expiatório que carregou com os pecados da Humanidade e, por isso, teve de ser sacrificado em nosso nome, para apaziguar a ira e a fúria de Deus contra nós!...
Perante comportamentos destes, protagonizados pelas Igrejas cristãs, é caso para dizer que nunca o Paganismo foi tão longe. Nunca a mentira foi tão bem urdida e se fez passar por verdade. Nunca os três Poderes se viram tão legitimados e solidificados. Assim como as suas práticas de produção de vítimas humanas. Podem continuar a alienar, a explorar, a mentir/oprimir/assassinar à vontade, que todas essas suas práticas são justificadas como inevitáveis, para fazer progredir a Humanidade, são o preço a pagar para que haja progresso e desenvolvimento!...
Está ainda por chegar, o tempo em que o Paganismo desapareça. Nem sei se alguma vez desaparecerá de todo. Porque a Humanidade é pagã desde o princípio. Na sua fragilidade e nos seus medos, começou logo por imaginar e criar deuses, bons e maus, conforme as necessidades. E desenvolveu cultos cada vez mais sofisticados e cada vez mais caros, para os apaziguar e "forçar" a ser benéficos para com ela e para com as suas iniciativas e os seus projectos.
Hoje, o Paganismo veste mais de secular e de profano. Mas é o mesmo de sempre. Com religião nos templos, ou sem ela, ele prossegue aí em força. Os seus falsos valores é que imperam, sob a chamada Ordem Mundial dominante, sempre apresentada como intocável e incontestada.
Por isso, o Evangelho de Deus, quando foi vivido e anunciado pela vez primeira em Jesus de Nazaré, o Cristo, falou, inevitavelmente, em conversão, em metanoia, em nascer de novo, melhor, em nascer do Alto, entenda-se, do Espírito Santo, esse misterioso Sopro que sempre sopra de fora de todos os sistemas e seus respectivos Poderes, e jamais se identifica com nenhum deles, todos eles concebidos, gerados e alimentados pelos medos humanos e pelos nossos interesses corporativos.
Converter-se, no dizer do Evangelho, é fazer o êxodo ou saída do Paganismo, é sair da Ordem mundial dominante, é resistir aos seus falsos valores. É, sobretudo, abrir-se ao Reino de Deus, isto é, à Nova Ordem mundial que está aí já misteriosamente a crescer, apesar de invisível aos olhos, edificada sobre os valores da vida e vida em abundância para todas as pessoas e para todos os povos, numa comunhão sem fronteiras, inclusive, as fronteiras da família de sangue.
A Humanidade que conhecemos e de que nos falam e testemunham toda a literatura, toda a arte e toda a cultura, toda a religião, é ainda a Humanidade segundo o Paganismo.
As Igrejas cristãs, quando aconteceram, alguns anos depois da Morte/Ressurreição de Jesus, traziam outra marca, outro Sopro. Por isso, foram de imediato reprimidas, perseguidas e proibidas pelo Império romano.
Com elas, aconteceu, por momentos, na História, uma alternativa à Humanidade segundo o Paganismo. Na verdade, as comunidades cristãs primitivas eram constituídas por mulheres e por homens de outra estirpe, de outro Espírito, a estirpe e o Espírito de Jesus Ressuscitado.
Mas, quando esta alternativa começou a dar nas vistas e a atrair, nomeadamente, as vítimas dos três Poderes legitimados pelo Paganismo, eis que o Império de turno, no caso, o romano, habilmente, estendeu às Igrejas cristãs a irrecusável bandeja dos privilégios, se elas o reconhecessem e entrassem em aliança com ele, em lugar de continuarem a resistir-lhe, a desmascará-lo e combatê-lo. E foi o que, para desgraça das Igrejas e da Humanidade, veio a consumar-se.
As Igrejas capitularam, perante a irrecusável bandeja dos privilégios oferecidos pelo Império. E nunca mais a Humanidade conheceu verdadeira alternativa global (= católica) ao jeito pagão de ser Humanidade. Nunca mais foi possível pensar/gerar/realizar uma Humanidade outra. Por falta de suficientes comunidades-semente duma Humanidade outra. O que há, desde então, é o Paganismo e uma Humanidade edificada segundo os seus falsos valores. Para cúmulo, o Paganismo alcunhado de Cristianismo.
Podemos, pois, dizer, com toda a propriedade, que o fim da História, insistentemente proclamado, depois da queda do Muro de Berlim, por alguém sem olhos para ver o Futuro e o Invisível, aconteceu, já, muitos séculos antes, quando o Cristianismo nascente capitulou perante o Paganismo e aceitou ceder-lhe o seu próprio nome. A Humanidade deixou de ter, desde essa altura, visível e fecunda alternativa, com a agravante de que, em todos estes séculos para trás, vivemos na convicção de que o Cristianismo era o que as sociedades ocidentais nos mostraram, quando, afinal, o que elas nos mostraram foi sempre o Paganismo, sob o falso nome de Cristianismo.
Está, então, tudo perdido? Não há mais lugar para a Esperança? É impossível a Utopia? Efectivamente, a História chegou ao fim? Não há mais futuro que não seja a perpetuação do presente?
É aqui, no meu entender, que entra, em cheio, a Páscoa cristã jesuânica. Ela tem sido espezinhada, vilipendiada, ostracizada, impedida de se afirmar. Tem sido traída, negada, deixada sem seguidoras e seguidores. Mas não desapareceu totalmente da História. A História tem sido um inverno de séculos. Mas, mesmo assim, não conseguiu matar de vez o Espírito, que continua a soprar onde quer.
O terceiro milénio está, por isso, carregado de Futuro, apresenta-se grávido de alternativa à Humanidade segundo o Paganismo. Por sua vez, o Paganismo, vestido de Cristianismo, está cada vez mais esgotado. Digamos que já deu o que tinha a dar. Está falido. As soluções que avança para os problemas com que a Humanidade, deste início do século XXI, se vê confrontada, são soluções manifestamente falidas.
A Humanidade vai ter mesmo de acordar e de cair em si. Vai ter de dar-se conta de que se afastou da via libertadora de Jesus de Nazaré, o ser humano por antonomásia, a única via que poderá fazer dela uma humanidade totalmente outra, finalmente autónoma, espiritual, sororal/fraterna, comunitária.
As próprias Igrejas cristãs hão-de acordar também. Redescobrirão Jesus de Nazaré, o Cristo. Regressarão a ele. O seu entendimento há-de abrir-se. Reconhecerão o erro histórico que cometeram, ao aceitar a bandeja dos privilégios que o Império lhe colocou na mão. Reconhecerão a traição iscariótica que protagonizaram, durante todos estes dezasseis séculos para trás. Aceitarão nascer do Alto, do Espírito totalmente outro, o Espírito Santo. Converter-se-ão. Passarão ao deserto. E resistirão a toda a tentação, tal como Jesus, em seu tempo histórico, resistiu.
Se não forem todas as Igrejas cristãs a fazê-lo, algumas serão. As suficientes. As que o fizerem, de bom grado desaparecerão, como grandes instituições. Tornar-se-ão invisíveis como o fermento e o sal da terra. Tornar-se-ão luz do mundo, com as suas práticas libertadoras e alternativas, constitutivamente comunitárias. Deixarão o Paganismo entregue a si próprio.
O Paganismo prosseguirá, certamente, mas já sem a cumplicidade da totalidade das Igrejas cristãs. Estas afirmar-se-ão como real alternativa a ele. As mulheres e os homens que as integrarem serão mulheres e homens outros, Humanidade ao jeito de Jesus de Nazaré, Humanidade possuída e animada pelo Espírito Santo, não mais possuída e dominada pelo espírito do medo, da submissão, da escravatura.
Serão, por isso, comunidades pequenas e fortemente sororais/fraternas, onde os bens serão progressivamente comuns, segundo as necessidades de cada pessoa. E a missão de Evangelizar os pobres será o único culto que elas aceitarão praticar. Porque é o único que realiza a efectiva consciencialização e libertação das pessoas e dos povos e põe umas e outros em estado de êxodo, de saída, do Paganismo e dos seus falsos valores.
É desta Páscoa verdadeiramente cristã que os relatos evangélicos nos falam. Num género literário vincadamente teológico, não histórico. É dela que testemunham. É para ela que nos pretendem conduzir, ao testemunharem, em toda a parte, até nos Tribunais, que aquele mesmo Jesus de Nazaré que foi crucificado pelo Império, é, desde o momento da sua morte, o Ressuscitado.
Não pretendem afirmar, pura e simplesmente, como as catequeses das Igrejas cristãs sempre nos enganaram, nestes dias de Páscoa, que a vida venceu a morte. A Páscoa de Jesus proclama muito mais do que isso.
Ao proclamarem que o Crucificado é agora o Ressuscitado, as Comunidades cristãs que escreveram esses relatos da Páscoa estão a proclamar que Jesus de Nazaré é quem está certo, é quem tem razão. Elas estão a proclamar que Deus está com o Crucificado/Ressuscitado. Não está com os Poderes que o mataram. Não está com nenhum desses Poderes, nem com a sua Ordem mundial dominante. Menos ainda com o Poder religioso que o condenou à morte em nome de Deus!
Ora, se Deus não está com os Poderes que crucificaram Jesus de Nazaré, segundo as suas leis e os seus tribunais, mas está apenas com aquele que eles crucificaram, então todos esses Poderes são ilegítimos, são mentira, são perversos, são assassinos. Como tal, não merecem obediência, não merecem respeito. Têm de ser desmascarados. Têm de ser combatidos. Têm de ser aniquilados e derrubados. Igualmente, a Ordem mundial dominante que os legitima tem também de ser derrubada, substituída por uma Ordem totalmente outra, segundo outro Espírito, precisamente, o Espírito do Ressuscitado. Para que a Humanidade passe a ser constituída por mulheres e homens não religiosos, mas espirituais, mulheres e homens abertos ao mesmo Espírito que habitou plenamente Jesus de Nazaré e fez dele o primeiro ser humano integral, paradigma de todo o ser humano a valer.
Infelizmente, as Igrejas cristãs não têm sabido ler/interpretar os relatos evangélicos da Páscoa. Têm-nos tomado à letra. Como se fossem relatos jornalísticos, ou reportagens sobre o Ressuscitado. Quando eles são uma inspirada e multifacetada catequese destinada a despertar a Fé no Ressuscitado que havemos de ver como quem vê o Invisível e que, quando isso acontecer, logo nos tornamos nova criatura, espiritual, não-religiosa, autónoma, livre, responsável, em quem o Espírito de Deus tem oportunidade de ser o que é.
Com esse não saber interpretar os relatos evangélicos da Páscoa, as Igrejas cristãs, em lugar de ajudarem as populações a abrir-se ao Espírito do Ressuscitado, continuam a alimentar-lhes a tendência pagã que elas têm para o maravilhoso e para o miraculoso, e acabam por fazer delas, populações boquiabertas e de olhos fechados. Por isso, facilmente manobradas pelos Poderes e seus representantes, hoje, sobretudo, os representantes do Poder Económico. Também alguns representantes do Poder Político que fazem da demagogia a sua principal arma. Quanto aos representantes do Poder Religioso, são, hoje, cada vez menos temidos pelas populações, felizmente, a crescerem longe deles, embora continuem estranhamente a ser temidos pela generalidade dos representantes do Poder Político estabelecido.
Nesta Páscoa 2001, o Evangelho de Lucas esteve mais em destaque, por Lucas ser também o evangelista do ano litúrgico. O capítulo 24, o último do primeiro volume do seu Evangelho (o segundo volume não vem logo a seguir, no Novo Testamento, mas depois do Evangelho de João, e é apresentado como um livro autónomo e com outro título, não como o segundo volume do Evangelho, o que, diga-se, é bastante lamentável, pois contribui para enganar ainda mais toda a gente), foi, por isso, o mais escutado nas celebrações católicas de ontem, Domingo. Mas, como de costume, não foi aprofundado.
Os párocos, nomeadamente, os do Norte de Portugal, estavam com pressa e fizeram tudo a despachar, para dar todo o tempo ao Compasso, ou Visita pascal, uma fonte de receitas que eles não dispensam, mesmo que fiquem em casa e enviem, em seu lugar, grupos de pessoas de opas vestidas, com a cruz e a imagem do crucificado pregado nela (querem mais sacrificialismo do que este símbolo?), uma bolsa, a lembrar a bolsa de Judas, para os folares que cada casa há-de "oferecer" ao pároco, e uma pagela com uma curta fórmula de oração pagã que eles hão-de repetir, mecanicamente, em cada casa que tiver o azar de lhes abrir a porta!
Custa a crer, mas a verdade é que, depois de dois mil anos de Igreja católica, as populações catequizadas por ela, continuam a pensar que o Ressuscitado Jesus é a simples reanimação do cadáver de Jesus crucificado. E que a expressão "terceiro dia", significa, exactamente, o terceiro dia depois da morte na cruz. Ninguém lhes diz que Jesus é o Ressuscitado, desde o instante em que expirou na cruz, independentemente do cadáver ainda pregado na cruz. E que a expressão "terceiro dia" indica um período de tempo, variável de pessoa para pessoa, exactamente, aquele período de tempo que cada pessoa leva a passar do Crucificado Jesus à Fé no Ressuscitado Jesus.
As populações continuam a pensar que o cadáver de Jesus foi sepultado num sepulcro por estrear e que, na madrugada do Domingo imediatamente seguinte, saiu, sepulcro fora, e voltou à vida. Ninguém lhes diz que o cadáver de Jesus foi atirado à vala comum e nunca mais foi encontrado. Aliás, como cadáver de um maldito ("Maldito aquele que morre na cruz", reza o Deuteronómio da Bíblia hebraica), ninguém, nem a família, se aproximava para lhe dar sepultura. O maldito ficava condenado ao ostracismo mais abjecto. E é por essa situação infame que Jesus também passou. Igualmente, ninguém lhes diz que a alusão ao túmulo novo, onde teria sido depositado o cadáver de Jesus já Ressuscitado, apenas pretende dizer que Jesus Ressuscitado é o primeiro da nova Humanidade que não morre mais, não é o único, mas o primeiro e a garantia de que Deus fará com todas e com todos nós, o mesmo que fez com ele.
As populações continuam a pensar que houve mesmo aquela viagem de Jerusalém até Emaús, protagonizada por um casal de discípulos, uma mulher e um homem, ao qual se juntou o próprio Jesus, sem que o casal soubesse quem ele era. Ninguém lhes diz que essa é uma viagem, realizada no interior da consciência de todas aquelas pessoas que, a partir dos caminhos das suas vidas, tentam abrir-se ao Ressuscitado e ao seu Espírito, até se tornarem pessoas totalmente outras, como Jesus de Nazaré. E que essa viagem interior é mais ou menos longa, demorada, passa pela criação ou integração numa comunidade congregada em nome de Jesus (dois ou três reunidos em seu nome), pela escuta e por um entendimento outro das Escrituras, só possível à luz do acontecimento mais revelador de todos, que é o acontecimento Jesus Crucificado/Ressuscitado. Mas não só. Passa, igualmente, pela comunhão de mesa, pela expropriação dos próprios bens (é o que significa a expressão "abençoou o Pão"), de modo que esses bens possam ser Partidos e repartidos ao serviço da vida.
As populações continuam a pensar que as mulheres foram mesmo ao túmulo e que, em lugar de verem o cadáver, viram dois homens vestidos de luz que lhes falaram e lhes deram uma oportuníssima catequese, graças à qual, elas, finalmente, entenderam Jesus e creram nele Ressuscitado, sem jamais o verem, a não ser com os olhos da Fé, os únicos que podem ver o Invisível. Ninguém lhes diz que esses dois homens vestidos de luz eram exactamente os textos dos livros da Bíblia hebraica atribuídos a Moisés e a Elias, que elas, em comunidade, leram e releram, a partir do que viram e ouviram, quando andaram com Jesus, desde a Galileia até à sua morte crucificada, em Jerusalém. Foi esta leitura/escuta da Palavra e o novo entendimento que o Espírito Santo misteriosamente fez acontecer nelas, após a morte de Jesus, que as levou a ver o Invisível e a experimentar Ressuscitado aquele mesmo Jesus que elas tinham acompanhado e, finalmente, viram ser crucificado.
As populações continuam sem se dar conta da existência do grupo de três mulheres, todas com nome próprio – Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago – em contraste com o grupo de Doze/Onze homens, todos também com nome próprio. E como não se dão conta da existência deste grupo de mulheres, continuam a pensar que só havia o grupo dos Doze/Onze e, pior, que só este grupo é importante, nos caminhos da Fé cristã. Ninguém lhes diz que, se os homens do grupo dos Doze/Onze chegaram á fé no Ressuscitado, foi graças ao grupo das mulheres, as primeiras a dar-se conta de que o Crucificado de ontem é, agora, o Ressuscitado. Igualmente, ninguém lhes diz que Maria, mãe de Jesus, não integra este grupo de três mulheres, porque ela, só mais tarde, é que despertou para Fé no Ressuscitado que, antes, havia sido o filho das suas próprias entranhas. Assim como ninguém lhes diz que o grupo das três mulheres, liderado por Maria Madalena, é muito mais importante, nos caminhos da Fé no Ressuscitado, do que o grupo dos Doze/Onze, tal como o número bíblico três é o número mais perfeito que a Bíblia tem para classificar uma realidade acabada, perfeita, íntegra. Além disso, e tal como o número três indica, é um grupo que, ao contrário do grupo dos Doze, sempre se manteve intacto, nunca traiu Jesus, nunca o abandonou, nunca o negou, e, desde a primeira hora, deu a sua adesão a Jesus e passou a servi-lo com os seus próprios bens (cf. Lucas 8), sinal inequívoco de que as mulheres que o constituíam eram já discípulas fiéis de Jesus e suas companheiras de Projecto.
As populações continuam a pensar que o apóstolo Simão Pedro é que é o principal companheiro de Jesus e que foi o primeiro a dar-lhe a sua adesão. Ninguém lhes diz que, quando Jesus lhe mudou o nome de Simão para Pedro, quis indicar que ele era como uma pedra, não entendia nada do seu Projecto e da sua via ou caminho; andava com Jesus, mas sempre a sonhar com a tomada do poder em Jerusalém, por isso, era um homem sempre armado para o que desse e viesse, e que logo abandonou Jesus, quando viu que ele nem sequer se defendeu, no momento da prisão, e logo o negou por três vezes, isto é, de forma completa e total. Ninguém lhes diz que o próprio Evangelho de Lucas sempre chama Pedro a Simão, quando este segue posições distintas das de Jesus e chama-lhe Simão, quando ele se abre à Fé em Jesus Ressuscitado.
No entanto, todas estas coisas estão contidas no capítulo 24 do primeiro volume do Evangelho de Lucas. Assim saibamos abri-lo e interpretá-lo correctamente. Aliás, todas estas coisas foram escritas, não para nos impressionar ou para nos deixar boquiabertos e de olhos tapados, sim para nos indicar os passos que havemos de dar para, também nós, chegarmos à Fé em Jesus Ressuscitado, sem nunca mais querermos saber do seu cadáver para nada.
As comunidades cristãs primitivas que escreveram o Evangelho de Lucas sabiam, por experiência, que quem chegar a ver, no Crucificado Jesus, o Ressuscitado Jesus, logo sentirá ganas de ser mulher/homem do mesmo jeito dele, conduzido pelo mesmo Espírito que o habitou integralmente e fez dele um Homem-para-os-demais, Pedra angular da Nova Humanidade constituída na comunhão e na partilha dos bens, a única Humanidade que dará todas as oportunidades à vida para todas as pessoas e para todos os povos.
É por aqui que vai a Páscoa cristã. Logo se vê que segue um caminho diametralmente oposto ao da Páscoa pagã que as Igrejas cristãs insistem em celebrar todos os anos, como se Jesus, uma vez Ressuscitado, pudesse de novo morrer e voltar a ressuscitar. A exemplo dos imaginados deuses do Paganismo que todos os anos morriam e ressuscitavam!
O início do terceiro milénio é, pois, a grande oportunidade para as Igrejas cristãs mudarem de rumo. Se o fizerem, então podemos dizer que o início do terceiro milénio é um kairós, ou tempo favorável.
Por mim, o que mais desejo é que as Igrejas cristãs, a começar pela Igreja católica de que sou membro, mudem de rumo, se convertam do Paganismo e dos seus deuses que exigem vítimas humanas, e se abram ao Espírito Criador e libertador do Crucificado/Ressuscitado Jesus de Nazaré, o Cristo. Esse dia será verdadeiramente o primeiro dia do resto da vida da Humanidade.
É para ajudar a fazer chegar esse dia, que aqui deixo o Cântico que escutei, no passado sábado de manhã e que foi cantado, pela primeira vez, ao fim da tarde desse mesmo dia, durante o encontro-celebração, realizado na Casa da Comunidade de Macieira da Lixa. Na altura, cantámo-lo com a música popular de "Vareira, linda vareira". Mas pode ser cantado com outra música popular, por exemplo, "Ó rama, ó que linda rama". Cantemo-lo como um pedaço de Evangelho de Páscoa cristã. Eis:
1. É grande a minha alegria
na páscoa dois mil e um
rompi com todos os deuses
não tenho medo nenhum
Rompi com todos os deuses
não tenho medo nenhum
é grande a minha alegria
na páscoa dois mil e um
2. O medo criou os deuses
os deuses, religião
quem se liberta dos deuses
instaura a comunhão
Quem se liberta dos deuses
instaura a comunhão
o medo criou os deuses
os deuses, religião
3. Não me arrastes para os templos
essas casas de terror
vem partilhar os teus bens
encontramos Deus-Amor
Vem partilhar os teus bens
encontramos Deus-Amor
não me arrastes para os templos
essas casas de terror
4. A dor e o sofrimento
são males a combater
nosso Deus é o Deus da vida
não quer ver ninguém sofrer
Nosso Deus é o Deus da vida
não quer ver ninguém sofrer
a dor e o sofrimento
são males a combater
5. A quem sofre nunca digas
que o sofrer é redentor
junta a tua à sua mão
e acabem com essa dor
Junta a tua à sua mão
e acabem com essa dor
a quem sofre nunca digas
que o sofrer é redentor
6. O mundo onde vivemos
é das multinacionais
transformá-lo é preciso
p’ra sermos/vivermos mais
Transformá-lo é preciso
p’ra sermos/vivermos mais
o mundo onde vivemos
é das multinacionais
7. Não estranhes que os poderosos
não possam com teu viver
só querem à sua mesa
quem dê força ao seu poder
Só querem à sua mesa
quem dê força ao seu poder
não estranhes que os poderosos
não possam com teu viver
8. És homem/mulher liberto
liberto p’rá liberdade
avanças feliz na vida
na vida em comunidade
Avanças feliz na vida
na vida em comunidade
és homem/mulher liberto
liberto p’rá liberdade
9. Com Jesus nós aprendemos
a ser homem/ser mulher
enfrentamos os poderes
sem ter medo de morrer
Enfrentamos os poderes
sem ter medo de morrer
com Jesus nós aprendemos
a ser homem/ser mulher
10. Quem segue e vive a verdade
é assim como Jesus
liberta p’rá liberdade
mas pode acabar na cruz
Liberta p’rá liberdade
mas pode acabar na cruz
quem segue e vive a verdade
é assim como Jesus
11. P’ra quem faz da sua vida
uma vida em comunhão
a morte quando chegar
é também ressurreição
A morte quando chegar
é também ressurreição
p’ra quem faz da sua vida
uma vida em comunhão
12. Dancemos com o universo
a dança da liberdade
somos irmãs e irmãos
e filhos do Deus-Verdade
Somos irmãs e irmãos
e filhos do Deus-Verdade
dancemos com o universo
a dança da liberdade.

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