Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

9 Abril 2001

O Jornal FRATERNIZAR esteve em debate este fim de semana. A iniciativa partiu de um grupo de assinantes e integrou-se no 3.º Encontro de Leitoras e de Leitores do Jornal. Na minha qualidade de director da publicação, agora trimestral, também fui convidado a participar no debate. E avanço aqui o meu ponto de vista não só sobre o Jornal, mas também sobre o debate. Outras pessoas poderão ter outros pontos de vista e ter chegado a outras conclusões. Não vou, por isso, fazer uma reportagem jornalística sobre o evento. Apenas realçar os meus pontos de vista.
Seria benéfico que todos os jornais e todos os outros "media" passassem por uma operação como esta. Que houvesse, da parte das leitoras e dos leitores, das e dos radiouvintes, das telespectadoras e dos telespectadores, a liberdade de promoverem uma iniciativa como esta que as Leitoras e os Leitores do Jornal FRATERNIZAR têm já à vontade para realizar.
Infelizmente, não há memória duma coisa dessas, nos grandes "media" portugueses, nem mesmo do mundo. Nem sei se alguma vez haverá. Não está nos nossos hábitos. E as direcções e administrações dos "media" também não se têm mostrado sensíveis a uma iniciativa assim. Menos ainda, têm sido capazes de a sugerir e de a proporcionar.
O Jornal FRATERNIZAR sempre sonhou com esta iniciativa. Porque não é uma publicação com fins lucrativos. O que mais deseja é congregar as pessoas e torná-las próximas umas das outras. Para que se descubram parte duma imensa família, não de sangue, sim de projecto. Para que se descubram e experimentem irmãs e irmãos de caminhada, possuídos do mesmo Espírito criador que nos faz ser pessoas com causas, pessoas com projectos, nomeadamente, com o projecto de transformar este nosso mundo de selvagem em humano e de humano em sororal/fraterno, segundo o coração de Deus Mãe/Pai universal.
Os dois primeiros encontros foram iniciativa da Direcção do Jornal. Acaba de ter lugar o terceiro, da total iniciativa de um punhado de leitoras e de leitores que, no encontro anterior, se constituíram em grupo promotor.
O encontro, terceiro na ordem de realização, mas o primeiro, como iniciativa exclusiva de leitoras e de leitores, foi um êxito. Por mim, nunca imaginei que as coisas chegassem onde chegaram. E só tenho razões para estar feliz. Ser director de um Jornal que tem leitoras e leitores desta qualidade, é consolador e compensa todos os esforços que se façam para que o Jornal saia com regularidade, a tempo e horas.
Uma constante em todas as intervenções, durante o debate, foi que o Jornal FRATERNIZAR não pode acabar. No meio de tanta unanimidade, terei sido o único que não levei as coisas para aí. E, já na hora do encerramento do debate público, quando me foi dada a palavra, pela última vez, aproveitei para sublinhar que, pessoalmente, não estava nada preocupado com a possibilidade de desaparecimento do Jornal.
Disse mais. Disse que, para mim, o ideal é que o Jornal FRATERNIZAR deixe de ser necessário e, por isso, possa até desaparecer com toda a naturalidade. Ou seja, para mim, seria motivo de muita alegria que o Jornal FRATERNIZAR deixasse de sair, que acabasse, devido a já não ser mais preciso.
Alguém me perguntou, depois, em particular, se eu, com esta posição, estava determinado a acabar com o Jornal. Não!, apressei-me a esclarecer. O que quis dizer é outra coisa bem mais exigente e bem mais difícil de realizar.
O que eu pretendo é que o Jornal FRATERNIZAR possa vir a deixar de se publicar, porque, entretanto, nós que o fazemos e o lemos e o divulgamos, já nos tornamos mulheres e homens-FRATERNIZAR, isto é, já somos capazes de realizar, ao vivo, a missão que o Jornal FRATERNIZAR, ao longo destes quase 14 anos já decorridos desde o seu aparecimento, tem querido levar à prática: - ser uma presença maiêutica, uma espécie de parteira que faz vir cá para fora o que há de melhor, de mais sororal/fraternal, em cada uma e cada um de nós, e também nas Igrejas e nas sociedades de que fazemos parte.
Se as leitoras e os leitores do Jornal FRATERNIZAR passarem do simples e fácil papel de consumidoras e de consumidores do Jornal, a provocadoras e provocadores de sororidade/fraternidade junto das demais pessoas, lá por onde decorrem as vidas de cada uma e de cada um de nós, o Jornal FRATERNIZAR pode até desaparecer, porque, em seu lugar, já há pessoas-FRATERNIZAR.
Reconheço que, neste momento, ainda não estamos maduros, como sociedade em geral, para uma acção desta envergadura. Mas é preciso apontar e avançar decididamente para aí. E outra coisa não tem querido o Jornal FRATERNIZAR. A Teologia que cultiva não é apenas um reflectir/saber sobre Deus, muito menos, sobre um qualquer Deus.
Como toda a teologia, também a teologia que perpassa pelo Jornal FRATERNIZAR é um reflectir/saber sobre Deus, no caso, o Deus que se nos revelou, paradigmática e definitivamente, em Jesus de Nazaré, o Cristo. Mas é muito mais do que isso. É sobretudo, um ser/viver do jeito de Jesus de Nazaré, o Cristo.
É, por isso, uma Teologia que implica uma prática de vida essencialmente sororal/fraternal no mundo. Ao mesmo tempo que procura ser uma prática maiêutica junto das demais pessoas, para que elas progressivamente se tornem também pessoas sororais/fraternais, em lugar de serem fechadas, egoístas, insolidárias, cruéis, indiferentes, individualistas.
Ao fim de quase 14 anos de Jornal FRATERNIZAR, já com 141 números publicados, começa a ser tempo de concluir que ele tem a sua missão histórica quase cumprida. As pessoas que o têm lido, se não forem apenas consumidoras do Jornal, mas sim pessoas que se alimentam com o Jornal, podem muito bem começar a sentir-se desafiadas a serem, cada uma delas, um Jornal FRATERNIZAR de carne e osso, vivo e interveniente.
Para tanto, terão de viver na História de olhos e ouvidos bem abertos, viver os acontecimentos de que ela é feita, tantos os astres como os desastres, numa postura maiêutica, não numa postura de medo ou de passividade, menos ainda de fuga ou de alienação. Havemos de ser capazes de estar na História como pessoas de corpo inteiro, bem adultas, em toda a nossa dimensão humana. E abertas ao Espírito Criador de Deus que está sempre misteriosamente presente nos acontecimentos, pronto a fazer deles, acontecimentos de libertação e de salvação. Assim encontre pessoas, mulheres e homens, que se deixem inspirar e conduzir por Ele.
Às leitores e aos leitores presentes no debate público, disse da minha convicção pessoal, no que respeita à História. Entendo que a História anda grávida e em contínuas dores de parto. O Novo quer saltar cá para fora. O Futuro tem de rebentar com o status quo do Presente que pretende ser o Fim da História, quando, afinal, a História ainda mal começou, ou nem sequer começou. Provavelmente, ainda estamos na pré-História, na pré-história do que seremos como seres humanos. O melhor de nós e do mundo ainda está para vir. Ainda é invisível aos olhos.
Mas se a História anda grávida, ela carece de pessoas e de práticas essencialmente maiêuticas, não só por parte das Igrejas, mas também por parte das políticas e das economias, infelizmente, coisa ainda bastante rara entre nós, neste início do século XXI e do terceiro milénio, totalmente dominado pelo estúpido e cego neoliberalismo, que quer que as pessoas o sejam cada vez menos, para serem cada vez mais coisas, objectos, consumidores, a viver de alienação em alienação até à alienação total, que é a morte!
Não é pessimista este meu ponto de vista. Porque também digo com toda a convicção que o neoliberalismo, hoje ainda reinante, está ferido de morte e toda a sua fúria actual é própria de quem sabe que tem pouco tempo mais para reinar. A sua morte está anunciada e vai chegar em breve.
O século XXI e o terceiro milénio serão femininos e, como tal, terão as mulheres como principais protagonistas. Elas ocuparão todos os centros de decisão e substituirão os órgãos de poder, criados por homens, por serviços, criados por mulheres. E um dos serviços principais que as mulheres - e também os homens nos quais o feminino seja a grande característica - mais realizarão, será precisamente o serviço maiêutico, da parteira. Elas ajudarão a Humanidade e a História a darem à luz o Novo, que tem estado prisioneiro, acorrentado, impedido de sair cá para fora. Haverá dores, muitas dores, mas são dores de parto, nas quais as mulheres são peritas e, por isso, não se assustam com elas, antes se apressam a sair delas, para logo celebrarem a festa do Novo que acaba de chegar, de vir à luz.
É por aqui que também tem passado a aposta do Jornal FRATERNIZAR. A Teologia cristã que cria e divulga é visceralmente libertadora e, por isso, maiêutica. Apela ao que há de melhor nas pessoas e nas instituições, nomeadamente, das Igrejas cristãs, para que esse melhor salte cá para fora. E o mundo seja um mundo cada vez mais humano, sororal/fraterno. Capaz de viver, ao mesmo tempo, as duas vertentes características dum mundo à medida dos seres humanos: a vertente do trabalho e a vertente da festa, ou, se se quiser, a vertente da luta e a vertente do amor.
Uma outra coisa que disse, já no dia seguinte, no decorrer do debate que prosseguiu, em ambiente de mais intimidade, na sede da Associação Padre Maximino, foi para comentar/rebater uma acusação que, muitas vezes, tem sido feita ao Jornal FRATERNIZAR, nomeadamente, ao seu estilo jornalístico que certas pessoas classificam de agressivo e de inconveniente.
Tais pessoas gostam, até, de lembrar, a propósito, um velho ditado português que diz: "Não é com vinagre que se apanham moscas". Como quem diz: Se queres ter muitas pessoas contigo, muitas pessoas a apoiar os teus pontos de vista, cuida-te do que dizes e do modo como dizes, porque, se o teu falar for como o vinagre, afastas as pessoas e corres o risco de ficar a falar sozinho.
O ditado é, efectivamente, muito repetido. E é popular. Mas é retintamente pagão, não cristão. Disse-o com firmeza às companheiras e aos companheiros presentes. E foi manifesta a surpresa delas e deles, habituados que andamos todas e todos a pensar que tudo o que é popular é correcto, é de Deus. Até se costuma dizer por aí, à boca cheia, "Voz do povo, Voz de Deus". E não está garantido que seja assim, sempre. Quase nunca o é. Voz do povo, muitas vezes, é voz do Paganismo, do acomodamento, do deixa-correr, do não-te-rales, do não-te-metas-nisso. Ou então, é um ditado sempre certeiro, mas se entendermos o Deus nele referido - Voz do povo, voz de Deus - como o Deus (Deuses) do Paganismo, que é, invariavelmente, o Deus do Sistema dominante, o Deus dos senhores que bem se governam no status quo da Ordem mundial dominante. Mas que não tem nada a ver com o Deus revelado em Jesus de Nazaré, o Cristo.
Neste aspecto, temos que reconhecer que o Cristianismo de Jesus de Nazaré, ou jesuânico, não é popular. É via de porta estreita. Ora, no sábio dizer do Evangelho de Mateus, do que o povo mais gosta, é de vias de porta larga. Por isso, o Cristianismo jesuânico é via de elite, não de massas. Em lugar de o encararmos como via popular, Havemos de o encarar como via de pobre. Via de elite, sim, mas de elite pobre, melhor, elite de pobres, daqueles que o Evangelho de Mateus (cap. 5) chama de "pobres com Espírito", de "marginalizados felizes", porque não embarcam no Sistema dominante, nem fazem parte dele, por isso, de "excomungados alegremente assumidos", de minorias abraâmicas e cristãs, capazes, como Jesus de Nazaré, o Cristo, de darem a própria vida pela vida do mundo.
Também o ditado popular, "Não é com vinagre que se apanham moscas", não é cristão. No seu enunciado, este ditado popular apela reiteradamente à conciliação. E, numa sociedade neoliberal, agressiva e excluente, como a nossa, apelar à conciliação é o mesmo que apelar à capitulação. Daí o carácter pagão deste ditado.
Por isso, a quem, mesmo no decorrer do debate, se fez eco desse ditado popular, eu disse: Mas, afinal, o que é que queremos? Será que alguém de nós está interessado em caçar moscas? É verdade que, com vinagre, não se caçam moscas, mas isso é um mal ou um bem? Será que alguém está interessado nas moscas como companhia, e em viver rodeado de moscas? Não são as moscas portadoras de doenças, causa e ocasião de graves doenças? Não andam as moscas por ambientes corruptos, pantanosos, sujos, doentios, onde se respira fedor e morte? Por que havemos de querer caçar moscas? Não estamos mais vocacionados, como cristãs e cristãos, em afugentar as moscas, em enxotar as moscas e, se possível, em fazer desaparecer aqueles ambientes que são propícios à criação/desenvolvimento de moscas? Quem diz moscas, não diz corrupção, ambientes contrários à vida de qualidade e de abundância para todas as pessoas?
Por outro lado – digo eu ainda - é bom não esquecer que o vinagre é coisa boa, serve para temperar saladas e outros alimentos. É também medicamento. Colocado sobre uma pisadura, ajuda a fazer desaparecer o sangue podre. Tem efeitos curativos.
É, pois, caso para recorrer ao velho ditado, mas não como uma advertência, uma censura, sim como um alerta/incentivo, estilo: Já que com vinagre não se caçam moscas, usa-o com equilíbrio e sabedoria, para que as moscas nunca se aproximem de ti, isto é, os corruptos, os que vivem da mentira, da hipocrisia e da morte de outras pessoas, te evitem, jamais suportem sentar-se à tua mesa, jamais vivam em comunhão contigo. Sinal de que a tua prática de vida e a tua palavra, o teu viver e o teu discurso não favorecem as moscas do nosso mundo, todas as moscas dos privilégios que gostam de sobrevoar e reinar nos ambientes de podridão, de doença, de morte anunciada, que elas próprias criam e alimentam.
Ser vinagre é, pois, coisa boa e necessária. Uma publicação que se preze, nomeadamente, uma publicação de inspiração cristã que se preze, há-de ser sempre como o vinagre, que espanta e denuncia as moscas. Não há-de contemporizar nunca com a corrupção, a podridão e a mentira, porque se o fizer, logo atrai as moscas, ou seja, aquelas pessoas e instituições, que estão aí apostadas em corromper e matar lentamente as populações e os povos.
Esclareci, ainda, que a vocação das cristãs e dos cristãos no mundo e na História, não é, ao contrário do que sempre nos têm dito, de sermos boas pessoas. Jesus de Nazaré nunca foi boa pessoa. Se o tivesse sido, não tinha acabado crucificado como um maldito, um rebelde, um terrorista, um subversivo, um agitador social, um blasfemo. Aliás, foram as boas pessoas do seu tempo e país, que o prenderam e mataram, sinal inequívoco de que ele não era do bando delas.
A vocação das cristãs e dos cristãos no mundo e na História é ser "o sal da terra". Quem o disse foi o próprio Jesus, na versão do Evangelho de Mateus. "Sal da terra e luz do mundo". Duas posturas altamente incómodas para quem tem de as viver toda a vida. Ninguém, dos instalados e corruptos, dos privilegiados e mentirosos, poderá suportar as cristãs e os cristãos que o formos de forma consequente. E, se nos suportam, pior, se até nos convidam para enfeitar as suas festas, frequentar os seus banquetes, e para abençoar as suas empresas e iniciativas, então é sinal de que somos sal que perdeu a força e só merece ser pisado pelas pessoas de bom senso e de sensibilidade humana. Porque, nessa altura, tornamo-nos cúmplices da corrupção do mundo, em lugar de presenças anti-corrupção, como o sal!
Vinagre e sal, eis duas maneiras de ser/pensar/dizer, que o Jornal FRATERNIZAR tem cultivado, ao longo destes quase 14 anos de intervenção. Há títulos nele que fazem doer? Que incomodam? Que perturbam? Que tiram o sono? Que nos fazem estremecer? Que nos obrigam a pensar? Que nos questionam? Que nos desassossegam? Que nos desinstalam? Pois, ainda bem. Não se espera outra coisa do sal da terra. Dói, mas ajuda a curar. Arrelia, mas ajuda a acordar. Enfurece, mas ajuda a libertar. Aprendamos, então, a gostar do Jornal FRATERNIZAR assim.
Aliás, não faltou quem, entre as leitoras e os leitores presentes, dissesse que o Jornal FRATERNIZAR, se deixar de ser assim, torna-se uma publicação como as demais. E, nessa altura, deixa de ter sentido a sua publicação. Porque, para dizer o que dizem os demais órgãos de comunicação social, já há muito quem o faça e, por sinal, de modo tecnológico muito mais eficiente e atraente.
Mas não é essa a vocação do Jornal FRATERNIZAR. Não foi para isso que ele nasceu. Não é para isso que ele existe. Sal da terra, vinagre, eis duas belas imagens para dizer o que deve ser uma publicação de cristãs e de cristãos.
Quem, de entre os humanos, foi mais sal da terra e vinagre do que Jesus de Nazaré, o Cristo, nomeadamente, contra os fariseus do seu tempo e os chefes dos sacerdotes? Ninguém foi mais sal da terra e vinagre do que Jesus. Por isso, Deus o constituiu como o Senhor, ao ressuscitá-lo da morte ignominiosa que eles lhe deram. Com essa ressurreição, Deus quis deixar bem claro que Jesus é que está certo, não os seus assassinos; que a via vivida e ensinada por ele é que é exemplar e paradigmática, não a dos seus assassinos. Por mais religiosos e oficialmente santos que estes fossem (ou sejam), em nome de Deus e da Lei de Deus!
Um outro ponto com que o debate se ocupou bastante, foi o da possibilidade/necessidade de ser criada uma equipa de redacção, para que eu, na minha qualidade de director, não esteja tão sozinho na concepção e confecção de cada número do Jornal FRATERNIZAR.
Devo dizer que esta perspectiva não me perturbou, pelo contrário, até me alegrou. Uma equipa redactorial pode garantir mais tempo de vida ao jornal e torná-lo ainda mais acutilante nos assuntos a abordar. Assim como pode "agarrar" outros assuntos, até agora, porventura, menos atendidos.
Mas do que mais gostei a este propósito, foi da intervenção duma companheira da Comunidade cristã de base de Macieira da Lixa, e que também integrou o grupo promotor deste terceiro Encontro de Leitoras e de Leitores do Jornal FRATERNIZAR. Não se opôs à ideia da equipa, mas mostrou-se reticente quanto ao tipo de pessoas que haverão de a constituir. Sublinhou, e bem, que não basta que sejam pessoas que saibam escrever e com disponibilidade para o fazer. Têm de ser pessoas tocadas pelo Espírito Santo, pessoas que nasçam do Alto, dos pobres, que se deixem guiar pelo Sopro do Espírito, Aquele mesmo que tocou e encheu integralmente Jesus de Nazaré e fez dele o Cristo de Deus e o Libertador da Humanidade. Sem mulheres e homens assim, a equipa que se venha a criar poderá fazer um jornal muito mais apresentável do que é hoje o Jornal FRATERNIZAR, mas será outro jornal, ainda que com o mesmo título. E o que importa é que o Jornal FRATERNIZAR continue a ser o que tem sido até agora.
A intervenção desta companheira, sem estudos superiores, surpreendeu e incomodou. Emudeceu, até, por momentos as leitoras e os leitores presentes. Tocou no essencial. No mais difícil. E, se a registo aqui, é para que seja tida e achada, na hora de se avançar para a criação da referida equipa de redacção. Porque se este alerta não for tido e achado, e a equipa não for constituída por pessoas desta fibra, não servirá para nada. Em lugar de promover mais e melhor o Jornal FRATERNIZAR, será, na verdade, o seu coveiro, ainda que assegure a continuidade do título.
Entretanto, para o debate público sobre o Jornal FRATERNIZAR, realizado na tarde do dia 7, no Auditório Municipal de Gondomar, tive o cuidado de escrever um apontamento que, depois, li, quando me foi dada a palavra, na respectiva sessão. É esse apontamento que quero partilhar aqui também. Para que o debate prossiga entre as leitoras e leitores.
Por sinal, as pistas que aqui sugiro não foram muito retomadas, na altura do debate alargado, apesar de serem bastante distintas das sugeridas pelas intervenções que me precederam. A carga fortemente teológica e evangélica que perpassa nelas pode justificar esse facto.
As pessoas, duma maneira geral, continuam, infelizmente, muito pouco preparadas e muito pouco profundas em teologia. De resto, ainda se confunde por aí Teologia com coisa de padres, o que só aproveita aos beneficiários da Ordem Mundial dominante, toda ela só possível, porque a teologia que lhe subjaz, continua escondida e ninguém, nem mesmo as Igrejas cristãs, a desmascara, a refuta e a combate. Eis, pois, o que então disse:
Não fosse um anjo popular, daqueles que não sabem falar bem a língua portuguesa (também há anjos populares e não apenas anjos aristocráticos, como sempre nos têm querido convencer), e o meu nome, em lugar de ser Mário, como é, seria Amaro. Que esse era o nome do meu padrinho de Baptismo. Mas o meu pai – o ti’ David, operário não especializado – e a minha mãe – a ti’ Maria do Grilo, jornaleira quase analfabeta – pronunciavam Mário, em vez de Amaro, quando se referiam ao homem que foi escolhido para ser o meu padrinho, e, por isso, o meu nome ficou Mário. (Mário, logo faz lembrar Maria, Míriam, amada de Deus, por isso, amado de Deus, que somos todas e todos nós, não apenas Maria, mãe de Jesus!).
Esse é um dos sinais teológicos que rodeou o meu natal em Março de 1937 (todas e todos temos sinais teológicos que rodearam o nosso natal, só que as igrejas nunca no-los fizeram ver, apenas nos fazem ver os sinais teológicos que rodearam o natal de Jesus, como se ele fosse tudo e nós não fôssemos nada!...) e que parece estar a dizer, desde então, que eu nasci e vim ao mundo para Evangelizar os pobres. Na verdade, eles, os pobres, mai-la sua forma de falar e de pronunciar os nomes, marcaram o meu nome.
Na altura, ninguém, muito menos eu, sabia que eu nasci e vim e ao mundo para Evangelizar os pobres. Mas hoje, 64 anos após, tudo isto me parece claro.
Depois, para Evangelizar os pobres, fui ordenado presbítero na Igreja católica. E tinha, naturalmente, de ser jornalista, não um jornalista de más notícias, mas jornalista de boas notícias, as boas notícias de Deus.
Ser jornalista aconteceu, algum tempo depois de ter sido expulso de capelão militar na Guiné, ao tempo da Guerra colonial; depois de ter sido exonerado da Paróquia de Paredes de Viadores, ao fim de 14 meses; depois de ter sido preso duas vezes pela Pide, como pároco de Macieira da Lixa; e depois de, por via disso, ter perdido o título de pároco. Se eu não podia continuar a Evangelizar os pobres na paróquia, podia e devia fazê-lo como jornalista. E foi o que aconteceu. Longe dos altares, mas próximo da vida real, concretamente, próximo dos pobres, dos que não têm lugar nas hospedarias dos senhores do poder e do dinheiro.
Evangelizar os pobres, foi também o título do primeiro livro que publiquei. Um título programático. Quando o baptizei com esse nome, ainda não era totalmente claro em mim que para isso nasci e para isso vim ao mundo. Mas Aquele que me chamou desde o ventre da minha mãe e me assinalou para essa missão, sabia. E isso basta, mesmo que as hierarquias eclesiásticas nem sequer o suspeitem e por isso me tratem como me têm tratado!
O Jornal FRATERNIZAR aparece dentro desta minha missão de Evangelizar os pobres. Como um dos meios de a realizar. Por isso é uma publicação, propositadamente, pobre, despretensiosa, sem publicidade nas suas páginas, sem fins lucrativos. É uma publicação sempre surpreendente, algo repetitiva, tal como o Evangelho de Jesus (dos quatro Evangelhos, três são chamados Sinópticos, exactamente, porque dizem quase a mesma coisa. Mesmo assim, todos fazem parte do Novo Testamento). É uma publicação com títulos e desenvolvimento de temas que são escândalo, aos olhos/ouvidos de uns, tanto mulheres como homens, e loucura, aos olhos/ouvidos de outros, tanto mulheres como homens.
Quando nasceu, há 14 anos, ninguém lhe augurava tão longa vida. E, se quereis que vos diga, ainda hoje, nem eu sei como tudo isto foi e continua a ser possível. Como não sei, só me resta reconhecer que não é obra minha, mas do Espírito que, desde o ventre de minha mãe, me chamou e assinalou para Evangelizar os pobres.
Eu digo que é obra do Espírito Santo. Outras pessoas têm dito e continuarão a dizer que é obra de Belzebu, do Diabo (perdoem este recurso à linguagem mítica, mas ela continua a ter muita força no nosso jeito cultural/católico/pagão de ser português).
Esta talvez seja a grande questão que o Jornal FRATERNIZAR levanta. E que deixo para o debate alargado. Nas suas palavras, nos seus títulos, no desenvolvimento dos seus temas, perpassa a Força libertadora e sororal/fraterna do Espírito de Jesus Ressuscitado, ou perpassa a Força opressora e assassina, miticamente, atribuída ao Diabo? O Jornal FRATERNIZAR insere-se na missão de Evangelizar os pobres, de Jesus de Nazaré, o Cristo de Deus, e, por isso, é uma publicação que desmascara, desarmado, a Mentira institucionalizada, também a Mentira do sistema eclesiástico dominante, ou, pelo contrário, reforça o Poder que fabrica os pobres, contribui para adormecer os pobres, para aterrorizar os pobres com a má notícia de um Deus criador de infernos eternos?
Apenas mais uma palavra, para terminar: É minha convicção pessoal, ao fim destes quase 14 anos de Jornal FRATERNIZAR, que todos os seres humanos, ateus incluídos, tanto mulheres como homens, temos, no mais fundo do nosso inconsciente colectivo, uma teologia pela qual pautamos o nosso ser/viver e fazemos as nossas opções de vida, particularmente, as opções de fundo. É por isso que podemos dizer, Diz-me como é a tua teologia/o teu Deus (ou o teu Não-deus), e dir-te-ei como és e como vives.
Quer dizer, ainda antes do económico, está o teológico. Vejam um exemplo, muito actual. Não fosse sacrificial a teologia que comanda a generalidade das populações, fosse, em seu lugar, libertadora, a teologia que comanda a generalidade das populações, e outras, muito outras, seriam as nossas sociedades, porque outras, muito outras, seriam também as economias e as políticas.
Neste duelo de teologias (de deuses) o Jornal FRATERNIZAR procura estar activo na produção e na divulgação da teologia visceralmente libertadora, como compete a uma publicação que, à semelhança do seu director e co-fundador, nasceu e veio ao mundo para Evangelizar os pobres.
Por vezes, o Jornal FRATERNIZAR chega a ser tão provocadoramente libertador, que choca e assusta as leitoras e os leitores, mesmo os mais progressistas, integrados no Sistema, catequizados/educados que fomos todas e todos para ajudar a manter um tipo de sociedade de gente submissa, infantilizada, ingénua, dependente, acrítica, subservientemente dócil, bem comportada, respeitadora dos senhores, tanto dos senhores clérigos, como dos senhores presidentes disto e daquilo, numa palavra, das excelências e das reverências.
Pergunto, a concluir. A esta luz, é o Jornal FRATEERNIZAR que tem de mudar de linguagem, de estilo e de temáticas? É o Jornal FRATERNIZAR que tem de passar a exercitar a contenção e tornar-se, política e eclesiasticamente, correcto, ou somos nós, leitoras e leitores dele, que temos de mudar e ousar viver a liberdade responsável até à plenitude?
Afinal, a Páscoa – este encontro ocorre em clima de páscoa eclesial, daí a pergunta que formulo, a concluir – o que é? Canonização dos sucessivos status quo, da Ordem vigente e dominante, na qual a nossa Igreja católica e uma certa imagem de Deus são peças fundamentais, ou é Levantamento, Insurreição/Ressurreição, Ruptura, Nova Criação, Novo Começo?
Não quero terminar esta crónica para o Diário-net, sem me referir ao parecer da Alta Autoridade para a Comunicação Social, acerca do Jornal FRATERNIZAR, e que nos foi oficialmente comunicado, há dias. Para minha surpresa, o Jornal passou a ser classificado como publicação "especializada de carácter religioso". Devido a esta classificação, mesmo que continuássemos a ser uma publicação mensal e não trimestral, como agora decidimos ser, perdemos automaticamente o PORTE PAGO, que sempre tivemos desde o princípio.
Como director do Jornal, reagi a esta deliberação, dentro do período de dez dias que a lei me conferia para o poder fazer. Até ao momento, ainda não tive qualquer resposta. Aguardo.
Mas não resisto a divulgar aqui, na íntegra, a posição que remeti, via fax, à Alta Autoridade para a Comunicação Social. Leiam:

Instituto da Comunicação Social
Palácio Foz
LISBOA

Assunto: PORTE PAGO
Fiquei deveras surpreendido com a decisão da Alta Autoridade para a Comunicação Social. Pelos vistos, classificou o Jornal FRATERNIZAR como publicação especializada de carácter religioso.
A publicação está já no seu 14º ano de publicação. E, desde o primeiro número, nunca se assumiu como uma publicação de carácter religioso. Tem sido e quer continuar a ser especializada de carácter cultural. Assim reza o seu Estatuto Editorial. E, sobretudo, assim testemunham todos os números editados até ao presente.
Não sei em que é que os Ex.mos Membros da Alta Autoridade para a Comunicação Social se basearam, para chegarem à douta e brilhante conclusão a que chegaram!... Será que se deram ao trabalho de ler, ao menos em diagonal, algum dos números do Jornal FRATERNIZAR? Ou limitaram-se a olhar para o nome da respectiva Proprietária e Editora – Associação Padre Maximino – e, por verem lá o nome de um padre, logo concluíram que era uma publicação de carácter religioso? Será que também contribuiu para essa douta e brilhante conclusão, o facto do director do Jornal FRATERNIZAR – Mário de Oliveira – para lá de ser jornalista com a carteira profissional, devidamente regularizada, também ser padre católico, por sinal, mais ou menos renegado pela hierarquia da sua Igreja, mas padre? Será que, para os Ex.mos membros da Alta Autoridade para a Comunicação Social, quem diz, Padre, diz, automaticamente, Religião?
Se se derem ao trabalho de lerem em diagonal alguns números do Jornal FRATERNIZAR, logo concluirão que se trata duma publicação que não só não é de carácter religioso, como até denuncia e combate a religião, como alienação humana.
Por favor, Ex.mos Membros da Alta Autoridade para a Comunicação Social, sejam um pouco mais cultos e não confundam Teologia com Religião, debate teológico com Religião.
No Jornal FRATERNIZAR, procuramos fazer Teologia libertadora, divulgamos Teologia libertadora, promovemos o debate teológico, combatemos todo o tipo de religião, como doença infantil da Humanidade, somos pela Ilustração, batemo-nos pela Modernidade, fazemos recensão crítica de livros de Teologia e outros, batemo-nos por uma hermenêutica bíblica radicalmente libertadora, denunciamos e combatemos o neoliberalismo selvagem, cujas multinacionais fabricam vítimas humanas aos milhões e dão cabo do Planeta Terra, chamamos e estimulamos as pessoas a viverem em pequenas comunidades fraternais/sororais, fazemos questão de nos expressarmos
sempre em linguagem inclusiva, defendemos ferozmente as minorias e os seus direitos, incluídas as minorias (?) homossexuais e lésbicas, defendemos a lei da despenalização do aborto e batemo-nos para que ela fosse plenamente aprovada, etc. Digam lá, Senhores: Se isto não é próprio duma publicação especializada de carácter cultural e até político, então o que é cultura e o que é a política?
Ou será que os Ex.mos Membros da Alta Autoridade para a Comunicação Social classificaram o Jornal FRATERNIZAR como publicação especializada de carácter religioso, pela simples razão de que ele é politicamente incorrecto e altamente incómodo?
Além disso, Senhores, somos uma publicação que, por força do seu Estatuto Editorial, não incluímos publicidade nas nossas páginas, exactamente, para podermos ser totalmente livres, como é timbre de pessoas e de órgãos de comunicação social verdadeiramente cultos!
Perdoem o tom quente desta contestação. E a ironia. Mas acreditem: Aqui na Direcção do Jornal FRATERNIZAR o parecer da Alta Autoridade para a Comunicação Social sobre a nossa publicação só podia desencadear uma resposta neste tom, tamanha foi a indignação que nos causou.
Apesar de tudo, aceitem a nossa amizade, porque essa jamais a recusamos seja a quem for. Até a quem nos interpreta mal. E nos faz mal, sem querer, ou por querer. É o nosso jeito de sermos pessoas. E não queremos outro.

Um abraço.
(Mário de Oliveira, director do Jornal FRATERNIZAR)

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