Diário
Um olhar sobre a Igreja e a sociedade feito de humor e amor

1 Abril 2001

O episódio ainda hoje é conhecido como "da mulher adúltera". Vem no Evangelho de João 8, 1-11, embora não faça parte do texto original. Segundo alguns exegetas bíblicos, deveria integrar o Evangelho de Lucas, logo a seguir ao capítulo 21, versículo 38. Mas a verdade é que não integra.
Durante os primeiros duzentos anos do Cristianismo, nenhuma das comunidades cristãs primitivas que escreveram as quatro narrativas evangélicas canónicas do Novo Testamento, quis que este episódio "da mulher adúltera" passasse a fazer parte delas. Até que, no século III, o episódio lá acabou por cair na narrativa evangélica de João.
Se lermos o episódio, não como um facto histórico - que não é - mas como uma espécie de parábola ou dramatização teológica - que é o que ele é – logo nos damos conta de que até nem fica mal neste Evangelho, todo ele tecido de parábolas ou dramatizações teológicas.
O local escolhido para a sua inserção no Evangelho de João é que - sempre no entendido dizer dos exegetas bíblicos - não parece ser o mais correcto; mas, se calhar, até nem está mal lá onde está, embora pareça interromper, abruptamente, uma tremenda discussão teológica entre Jesus e os fariseus, retomada logo a seguir ao episódio.
Porém, bem vistas as coisas, o episódio, lá onde está, pode até contribuir para dar mais vivacidade e radicalidade libertadoras à discussão teológica de Jesus contra os fariseus, não só os de então, mas também os de todos os tempos, inclusive os fariseus que hoje abundam na nossa Igreja católica romana, e nas nossas sociedades neoliberais de raiz católica, feitas, todas elas, de hipócritas e de moralistas de todos os gostos e feitios, tanto clérigos como laicos, sempre prontos a lançar a primeira pedra a quem eles têm por pecador ou pecadora, ou, como hoje se diz, por politicamente ou eclesialmente incorrecto. Sem jamais terem a simplicidade e a humildade humanas de olharem por si abaixo e de perceberem que, pecadores, somos todas e todos, e quem pensar que o é menos, porventura, o é mais.
No que diz respeito à liturgia católica, o episódio em causa só começou a ser aceite, por volta do século V. E, certamente, porque nessa altura, já começou a ser lido e interpretado em chave moralista e não teológica, que é aquela em que ele foi escrito. Mesmo assim, nenhum dos padres gregos da Igreja ousou comentá-lo antes do século XII!...
O primeiro comentário que se conhece sobre este episódio, entre os escritores eclesiásticos gregos, é de Eutimio Zigabeno, no século XII. O autor, porém, tem o cuidado de advertir que o texto em causa não aparece nos melhores exemplares do Evangelho de João.
Pois bem, apesar de todas estas peripécias, o episódio, sobejamente conhecido, também entre nós, como "da mulher adúltera", é proclamado, hoje, primeiro Domingo de Abril de 2001 e o V da Quaresma, em todos os milhões de missas, que a nossa Igreja católica romana faz celebrar por esse mundo fora, lá, onde houver uma igreja ou capela, com um padre disponível para presidir ao culto dominical, por sinal, um culto altamente, rendoso para quem a ele preside, uma vez que o preço da missa costuma ser actualizado todos os anos e por uma bitola bastante acima da média da inflação de cada país.
(Por exemplo, cá na paróquia de S. Pedro da Cova, freguesia e vila onde resido, uma das missas deste V Domingo da Quaresma, teve nada mais nada menos do que trinta intenções. A mil escudos cada uma, perfaz um total de 30 mil escudos. Mas este preço até está desactualizado. Na Diocese do Porto, já há orientação da cúria episcopal, para que o preço de cada missa seja, no mínimo, de 1500 escudos. Párocos há, porém, que acham pouco, e exigem o mínimo de dois mil escudos por cada missa. E é para quem quer. Infelizmente, ainda continua a haver quem queira, sem se dar conta de que, com este procedimento, estão todos e todas a fazer de Deus um negociante mais, por sinal, dos piores, já que só recebe e não dá qualquer produto em troca para as pessoas levarem para casa).
Não pude, evidentemente, sair por aí a ouvir todos os disparates que, a propósito deste episódio, terão sido proferidos, hoje, nas homilias, por essas igrejas e capelas do mundo católico romano além. Bastou-me ouvir o que se disse durante toda a missa celebrada na igreja de S. João de Brito, uma das principais paróquias da cidade de Lisboa, e que, como acontece todos os domingos, foi transmitida em directo pela Antena 1, uma emissora do Estado português que se diz oficialmente republicano e laico, mas que continua a fazer fretes destes e outros ainda mais escandalosos, à Igreja católica romana do nosso país.
Por outro lado, constatei, com negativa surpresa e alguma tristeza, que até o meu queridíssimo amigo e companheiro, Frei Bento Domingues OP, na crónica dominical que assina no PÚBLICO, desta vez, não dissentiu da postura, política e eclesiasticamente correcta, e escreve uma crónica que reforça, e muito, a interpretação tradicional moralista do episódio "da mulher adúltera", como se Jesus, alguma vez, se tivesse deixado envolver em questões moralistas sobre vida sexual-matrimonial, tão do gosto dos fariseus do seu tempo e país, como dos fariseus de todos os tempos e países.
Confesso que o episódio "da mulher adúltera" nunca me caiu lá muito bem. E, desde sempre, tenho vivido à escuta do que o Espírito Santo quer dizer às Igrejas com este Evangelho ou Boa Notícia e, através delas, às sociedades onde elas se inserem.
Recordo-me, como se fosse hoje, do escândalo que causei, há uns dezoito anos, quando, em Braga, assinei uma crónica no diário regional "Correio do Minho", onde trabalhava, como redactor principal, a propósito deste episódio evangélico, que, hoje, volta a ser lido nas liturgias das igrejas católicas do mundo.
O escândalo que causei, tinha e tem a ver com o próprio Evangelho de Jesus. Ou seja, se, ao ser proclamado, o Evangelho não desencadeia escândalo, é porque não é o evangelho de Jesus. Porque é da natureza do Evangelho de Jesus, ser sempre escândalo para os judeus (ou quem está por eles, em cada tempo e lugar) e loucura para os não-judeus (ou quem está por eles, em cada tempo e lugar).
Foi S. Paulo quem viu esta dupla vertente, de escândalo e de loucura, do Evangelho de Jesus. Na sua desassombrada convicção, foi ao ponto de dizer que, se alguém, Igreja ou papa que sejam, pregar um Evangelho que não seja captado pela generalidade das pessoas do mundo, como escândalo e loucura, esse não é de modo algum o Evangelho de Jesus Cristo Crucificado/Ressuscitado.
Não vou repetir aqui o que então escrevi. Até porque já se passaram 18 anos. Mas reconheço que, já então, a minha crónica apontava para uma interpretação outra, que tem a ver com adultério no sentido profético-teológico, e não com adultério no sentido sexual-matrimonial. É por aqui que ainda vou hoje. E, depois de todos estes anos, ainda com maior convicção e mais fundamentação exegética.
O episódio insere-se no contexto duma longa e tremenda discussão teológica que Jesus, na versão do Evangelho de João, travou com os judeus, a propósito de uma outra acção realizada por ele, e narrada com todos os pormenores, no capítulo V, a qual tinha a ver com a cura de um paralítico, que o era há 38 anos, ou seja, praticamente, toda uma vida.
(Também aqui, o paralítico do relato evangélico de João não é um paralítico, no sentido corporal, mas no mais profundo da sua consciência. Pelo que a paralisia, de que veio a ser libertado/curado, tinha a ver, não com uma deficiência corporal, sim com um certo tipo de doutrina teológica que os doutores da lei e os sacerdotes ensinavam no templo de Jerusalém e que, pura e simplesmente, tolhia quem se deixasse levar por ela. Quem se deixasse levar por ela, nunca mais chegava a ser alguém autónomo, livre, independente, sujeito, responsável. Sempre teria de viver à mercê dos sacerdotes e demais prepotentes chefes do povo e, ainda por cima, tinha de lhes pagar para eles continuarem a oprimi-lo, a tolhê-lo e a esmagá-lo, bem como a todo o povo mais ou menos ignorante e ingénuo!).
A discussão parece interminável. E tem resultados surpreendentes, isto é, muitas pessoas começaram a olhar para Jesus com outros olhos e a reconhecer que ele, ao contrário dos fariseus, apresentava uma doutrina/teologia com todo o sabor a Evangelho ou Boa Notícia de Deus, que liberta as pessoas e faz delas sujeitos, protagonistas, pessoas vivas e com iniciativa criadora.
Os chefes dos judeus souberam disso e não gostaram. Chegaram, inclusive, a enviar guardas para o prenderem. Só que os guardas, depois de ouvirem Jesus, ficaram tão impressionados, que não foram capazes de executar a missão para que haviam sido enviados. E apresentaram-se aos seus chefes – os sumos sacerdotes e os fariseus – de mãos a abanar, isto é, sem Jesus.
Quando, de imediato, interpelados e ameaçados por estes, por não terem executado a missão que lhes havia sido confiada, defenderam-se desta forma espantosa: "Nunca homem algum falou como aquele homem". Ao que os fariseus, incomodados com esta resposta, logo tentaram contra-argumentar nestes termos: "Será que também vós ficastes seduzidos? Porventura, creu nele algum dos chefes ou dos fariseus? Mas essa multidão que não conhece a Lei é gente maldita".
Ora, é no calor desta discussão teológica e deste duélico debate teológico, que virá a trazer a morte a um dos contendores, precisamente, a Jesus de Nazaré, o Cristo, que surge, inopinadamente, o episódio que ficou tristemente conhecido por "da mulher adúltera".
O mais chocante é que, ainda hoje, as traduções do Testamento cristão ou Novo Testamento, inclusive, a célebre Bíblia de Jerusalém, fazem anteceder o episódio com um título, a negro, que não faz parte do texto evangélico e esse título é nem mais nem menos do que, "A mulher adúltera".
Com tanta manipulação eclesiástica, é difícil, evidentemente, chegarmos a apreender a Boa Notícia ou Evangelho que o episódio esconde/revela. Sem darmos por isso, somos levadas e levados a pensar como os eclesiásticos querem, ou seja, somos levadas e levados a pensar que se trata de facto duma mulher adúltera, bem concreta, apanhada em flagrante adultério.
E não é. Pelo menos, eu defendo que não é. Não pode ser. Porque não estou a ver Jesus de Nazaré preocupado com questões moralistas de tão baixo nível, embora, na época e por força do que está escrito nos livros da Bíblia hebraica do Levítico e do Deuteronómio, sobre o adultério, a situação não fosse de pouca monta, pelo menos, para as mulheres, consideradas propriedade do pai, enquanto solteiras, e do marido, depois de casadas, por sinal, ao mesmo nível do boi e do jumento ou da casa.
Mas o que está em causa no Evangelho de João não é uma discussão moralista sexual-matrimonial. É uma discussão teológica. Para Jesus, a moral também é importante, evidentemente, mas só vem depois. Tanto assim, que podemos dizer: Diz-me como é a tua teologia e dir-te-ei como é o teu Deus; diz-me como é o teu Deus e dir-te-ei como é a tua moral.
Não foi de questões morais que Jesus prioritariamente se ocupou, sim de questões teológicas. Para ele, a concepção de Deus, que o Templo de Jerusalém materializava e que os chefes religiosos veiculavam nas suas catequeses, é que estava em questão. O resto viria por acréscimo. E para Jesus, enquanto aquela concepção de Deus, materializada no Templo de Jerusalém, não fosse radicalmente alterada, também a moral o não seria. E o povo continuaria à mercê de minorias privilegiadas e sem escrúpulos, constituídas exclusivamente por homens, todos, aparentemente, muito devotos e santos, mas para melhor poderem continuar a levar a água ao seu moinho, isto é, melhor poderem garantir a perpetuação dos inúmeros privilégios que sacrilegamente mantinham sobre o povo.
Inclino-me, por isso, a ler/interpretar este episódio "da mulher adúltera", em chave teológica e não em chave moralista sexual-matrimonial. A interpretação em chave moralista é a única que os fariseus de todos os tempos gostam de fazer.
Jesus, que não é moralista, sim libertador, nunca será capaz de ir por aí. Por isso é que eu vejo nele o Messias, o Libertador, o Mestre, o Senhor, o Ser Humano por antonomásia. E quando, hoje, o confesso como o meu Senhor e o meu Mestre, não estou a reconhecer que ele manda em mim. Porque o verdadeiro Senhor é, antes de mais, senhor de si próprio, é alguém capaz de se afirmar, capaz de ser por si mesmo, não é alguém que logo domina e oprime os outros, ou manda nos outros.
Isso fazem os senhores e os mestres que o são ao jeito do poder e segundo a escola do poder. Não ao jeito de Deus criador, o qual, ao contrário deles, sempre gera filhas e filhos, isto é, pessoas autónomas, maduras, criadoras, responsáveis, que não precisam de ser controladas, vigiadas, ameaçadas, para se portarem bem.
O episódio em causa é uma dramatização teológica, altamente bem conseguida. É algo do que de melhor, até hoje, a literatura teológica mundial produziu. E, como, no episódio, a mulher não tem nome, podemos dizer que ela está lá por todo o povo que então vivia a mercê dos fariseus e dos chefes dos sacerdotes. Um povo totalmente oprimido, esmagado, explorado. Acorrentado.
A doutrina que os fariseus e os chefes dos sacerdotes lhe ensinavam não passava de meros preceitos do poder vigente, o deles e da sua corporação. Mas eles, sacrilegamente, apresentavam-na como se fosse doutrina de Deus. Que tinha de ser cumprida até ao mais pequeno pormenor. Nem que, com isso, matassem as pessoas. A Lei, nesta concepção, típica do poder, está sempre acima das pessoas. Não é a lei para as pessoas, sim as pessoas para a lei.
O episódio, neste particular, não pode ser mais expressivo e eloquente. E, como dramatização teológica, vale mais do que mil discursos. Vejamos.
Diz o texto que Jesus estava a ensinar no Templo. Se estava a ensinar no templo, não estava a ensinar a doutrina dos fariseus, nem dos sacerdotes, nem dos doutores da lei. Tinha de ser a sua doutrina, que é alternativa à dos chefes religiosos. Por isso, uma doutrina/teologia libertadora, como só a Verdade é capaz de conseguir. Nunca uma doutrina/teologia feita de mentira, como a dos chefes que, por melhor articulada e sistematizada que esteja, é uma doutrina destinada a defender e a justificar o status quo, a Ordem vigente, dentro da qual, quem a ensina usufrui de privilégios sem conta. Por isso, só pode ser uma doutrina/teologia diabólica, que tem por pai o Diabo e, como ele, é uma mentira pegada e assassina desde o princípio ao fim!
É por causa desta doutrina/teologia radicalmente outra, libertadora e dignificadora dos seres humanos sem excepção, que Jesus é ferozmente perseguido e odiado, até acabar por ser preso, julgado, condenado à morte e executado na cruz. Os chefes não lhe perdoaram que ele atentasse assim contra a Ordem vigente, que eles tanto defendiam e que lhes garantia tantos e tão suculentos privilégios.
O texto avança e pormenoriza: "Então os doutores da Lei e os fariseus trouxeram-lhe uma mulher apanhada em adultério, colocaram-na no meio e disseram: Mestre, esta mulher foi apanhada a pecar em flagrante adultério. Moisés na Lei mandou-nos matar à pedrada tais mulheres. E tu que dizes?".
Está tudo claro. Na chave teológica em que foi escrito este episódio, e em que, hoje e através dos tempos, deve ser lido/interpretado pelas Igrejas cristãs, Jesus não foi propriamente interrompido no seu ensinamento. Foi confrontado, por parte dos seus adversários, fariseus e doutores da Lei, com uma objecção muito concreta. (É a única vez que o Evangelho de João usa, no seu texto, o termo grego hoi grammateis = os doutores da Lei). Ou seja, nesta altura, a discussão teológica chega ao rubro, atinge o seu clímax. Os adversários argumentam com um caso concreto. E invocam, contra Jesus, a autoridade de Moisés, em defesa das suas próprias posições, que eram também as posições da instituição religiosa oficial, o Templo de Jerusalém!
Mas a dramatização diz muito mais. A cena – mais parece um filme em texto ao vivo – diz bem quem são os fariseus e os doutores da lei. Diz bem como eles são monstros. Como são cruéis. Como são bichos sem coração, sem o mínimo de sentimentos. Sem entranhas de misericórdia (como, hoje, os homens da Cúria romana e de quase todas as cúrias eclesiásticas católicas). Eles são os antípodas de Jesus!. Falam de Deus, andam com o nome de Deus sempre na boca, mas são o anti-Deus em acção. São a personificação histórica do mítico Diabo. Têm por pai o Diabo, não têm por pai, Deus!
A narrativa está de tal modo bem tecida, que faz um retrato da sociedade farisaica e adúltera, do tempo de Jesus. O povo (representado na dramatização pela mulher sem nome) encontrava-se completamente à mercê dos chefes religiosos. A sua vida, mesmo a sua vida mais privada, era totalmente controlada e devassada por eles, dia e noite. Os chefes religiosos eram bem piores do que foi a Pide em Portugal, no tempo do fascismo salazarista. Até os actos mais íntimos eram vigiados, controlados e devassados. O povo não tinha o mínimo de privacidade. Os chefes invadiam tudo, vigiavam tudo, devassavam tudo, sempre à cata de quem não cumprisse o mais pequeno detalhe da Lei.
Não lhes interessava para nada a vida do povo. Só lhes interessava a Lei (de Moisés) e o cumprimento rigoroso dela. Porque era assim que entendiam Deus. Deus como poder absoluto. Deus como legislador. Deus como autoridade. Deus como superior. Deus como faraó. Deus como imperador. Deus como rei absoluto.
Uma teologia assim concebida justifica um comportamento social como o que aqui se descreve sucintamente, mas também paradigmaticamente. E é contra esta teologia e um Deus assim que Jesus está e se levanta. Por isso, ensina a toda a hora e momento. É o mestre por antonomásia. E, se ensina no templo, é o mesmo que dizer que está lá a subverter a instituição, está dentro dela para a subverter, para a desacreditar, para a desautorizar, para a derrubar. De modo que o povo que é vítima dela, seja libertado e possa finalmente ser ele próprio e viver com dignidade, que é o que Deus Criador mais gosta em nós, seres humanos.
Por isso, o adultério de que aqui se fala não há-de ser entendido em sentido moralista, sexual-matrimonial. Tem de ser entendido em sentido profético-teológico. A mulher, isto é, o povo, no dizer dos fariseus e dos doutores da lei, só porque não conhecia e não cumpria a Lei, era uma multidão "maldita", o mesmo é dizer, blasfema, idólatra. Se não conhecia a lei, menos ainda a cumpria. Portanto, era uma multidão que não seguia o Deus que os fariseus e os doutores da lei tinham por único verdadeiro. Era, no entender deles, um povo idólatra, seguia outros deuses. Em linguagem dos profetas, era um povo que vivia em flagrante adultério, ou seja, em permanente idolatria, em permanente infidelidade a Deus! Como tal, não deveria viver. Deveria ser todo morto à pedrada. Era um povo "maldito", amaldiçoado, pecador, idólatra, por isso, desprezível, com quem não se deveria manter qualquer contacto, um povo impuro, com quem não se podia comer nem relacionar. Era um povo excomungado. Portanto, um povo a desprezar e a matar sem dó nem piedade.
Postas assim as coisas, o que faz/diz Jesus? Vai por essa cruel e diabólica teologia de um Deus legalista/moralista? Reconhece como verdadeiros, uma teologia e um deus, que assim justificavam comportamentos contra o povo, como os que todos os dias ele via, da parte dos fariseus e dos sacerdotes e dos doutores da lei, numa palavra, da parte dos chefes do povo?
Perante uma teologia assim, feita de crueldade e de mentira, de ódio e de morte, uma teologia em nome da qual se podia e devia oprimir o povo e até matá-lo, para glória de Deus, Jesus, na dramatização, começa por ficar em silêncio. Nem sequer responde a tamanha crueldade. Trata-se duma teologia tão desumana, que não há que argumentar contra ela. É a teologia que está por trás de todos os Auschwitz, de todos os Holocaustos, de todos os Goulags, de todas as Cruzadas, de todas as Santas Inquisições, de todas as Fogueiras em nome da fé, de todas as guerras das pedras e das balas, de todas as intifadas, de todas as guerras de religião.
Ao pôr Jesus a escrever no chão, o autor evangélico dá aos ouvintes e espectadores da dramatização, uma preciosa indicação. Remete-os para o Profeta Jeremias 17, 13, onde se proclama esta teologia nos antípodas da teologia dos fariseus: "Tu Senhor, és a esperança de Israel [entenda-se, do povo], todos os que te abandonam serão confundidos. Os que de ti se afastam [na dramatização, os fariseus e doutores da Lei], serão escritos na terra dos mortos, porque deixaram o Senhor, fonte das águas vivas".
Tal era a teologia dos fariseus e dos doutores da Lei. Quem a ensinasse e praticasse, era escrito na terra dos mortos. Em lugar de ser uma teologia para ajudar a salvar o povo, para o arrancar da sua ignorância, porventura, até da sua idolatria, era uma teologia que levava os fariseus, coerentes com ela, a matarem o povo à pedrada. Eram coveiros do povo, em nome de Deus. Em lugar de serem ressuscitadores e libertadores do povo, em nome de Deus, fonte das águas vivas. Deles e da sua doutrina teológica, não brotavam águas vivas. Nem nenhuma outra água, um simples copo de água para refrescar o viandante.
(Recordar que é este mesmo Evangelho de João que, no capítulo II, fala em seis talhas de pedra, símbolo das instituições de Israel de então, presentes nas bodas de Canã, as quais nem água tinham, quanto mais vinho = vida em abundância e em festa!).
Deles e da sua doutrina só provinham mentira, opressão, terror e morte. Como aqui se vê, na dramatização. O povo, nas mãos deles, está votado ao ostracismo e condenado à morte à pedrada!
Prossegue a narrativa. Perante a insistente e insolente cegueira interesseira e corporativa dos fariseus e doutores da lei, que nem a indicação que Jesus lhes faz, ao remetê-los para o Profeta Jeremias, com o seu gesto de escrever na terra, os cala e os faz cair na real, eis que ele se levanta e, com toda a solenidade, proclama a mais libertadora afirmação teológica para a humanidade, em todos os tempos e lugares: "Quem de vós estiver sem pecado atire-lhe (à mulher, ou seja, ao povo ignorante e, porventura, pecador/idólatra), a primeira pedra!".
Nem aqui se trata duma proclamação moralista. Trata-se duma proclamação teológica libertadora. Remete-nos para aquele Deus que não se compraz com a morte do ímpio e do pecador, mas que apenas quer que ele se converta e viva, pela simples razão de que é um Deus de vivos e não de mortos, é um Deus Vivo e que faz viver em abundância, não é um ídolo que se alimenta de gente, da morte de gente, como, hoje, acontece com o Deus que justifica as multinacionais e a sua Ordem neoliberal, que tudo devoram e produzem pobreza e miséria e morte aos milhões!
Entende-se melhor esta afirmação de Jesus, com a continuação da dramatização. O texto reconhece que nenhum dos acusadores foi capaz, naquela ocasião, de atirar uma pedra à mulher (ao povo), embora todos, um a um, foram-se à sua vida, tal como vieram, isto é, sem se converterem, sem reconhecerem o seu erro, e toda a dimensão idolátrica da sua teologia.
De modo que Jesus ficou sozinho com a mulher (este pormenor do texto indica bem que estamos perante uma dramatização teológica e não perante um facto histórico. Num acontecimento real, nunca esta situação teria este desfecho. Alguém sempre ficaria para ver o que sucederia a seguir, ao menos, para depois, poder contar). Jesus ficou sozinho com a mulher, isto é, nenhum dos fariseus e dos doutores da Lei que o enfrentaram, aderiu a ele e ao Deus Vivo, sobre quem ele dava e dá testemunho, em forma de Boa Notícia, e que constitui o que podemos chamar, com toda a propriedade, teologia jesuânica. Entre eles, Jesus não despertou nenhum seguidor. Por isso, ficou sozinho com a mulher
Entretanto, toda a dramatização está orientada para este momento. De modo a dar toda a oportunidade a Jesus para ele poder proclamar, com solenidade, a teologia por que se orienta, o Deus que dá sentido à sua prática quotidiana de libertador e de salvador do povo, não de opressor e de condenador do povo, como era a prática dos fariseus e dos chefes dos sacerdotes.
"Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou? Ela respondeu: Ninguém, Senhor. Disse-lhe Jesus: Também eu não te condeno. Vai e de agora em diante não voltes a pecar".
Esta conclusão diz-nos claramente que, no confronto teológico de Jesus com os fariseus, Jesus levou a vantagem, ou seja, a única teologia que interessa o povo e o pode libertar e salvar, é a dele, a teologia jesuânica, não a dos fariseus e dos chefes dos sacerdotes. A teologia de Jesus e não a destes, é que serve ao povo e à humanidade de todos os tempos.
Trata-se duma teologia que, infelizmente, nem sequer as Igrejas cristãs, a começar pela Igreja católica romana a que pertenço, foram capazes, até hoje, de fazer sua. Continuam aferradas à teologia dos fariseus e doutores da lei, a única que justifica, por exemplo, a existência do Código de Direito Canónico, do Estado do Vaticano, do papa como santo padre e chefe de estado, dos bispos como hierarquia ou poder sagrado sobre o resto do povo de Deus, a cruel lei do celibato eclesiástico, a existência de mosteiros e de conventos de frades e de freiras, com votos temporários e perpétuos de pobreza, de obediência e de castidade, a exclusão da mulher dos ministérios ordenados, as concordatas com os poderosos do mundo, etc, etc, etc.
"Nem eu te condeno". Ou seja, em nome de Deus, ninguém e nenhuma instituição podem condenar outra pessoa. Ninguém e nenhuma instituição podem excomungar outra pessoa. Ninguém e nenhuma instituição podem pôr à margem outra pessoa. Em nome de Deus, jamais haverá pretexto para excluir, marginalizar, condenar seja quem for. E se alguém, mulher ou homem, apresenta comportamentos desviantes (e comportamentos desviantes, à luz desta teologia de Jesus, são apenas e só aqueles que prejudicam a vida, o desenvolvimento da vida em todos os seres humanos e na própria natureza, não são comportamentos sexuais, vividos num clima de liberdade e de recíproco respeito, seja por quem for), nem por isso há-de ser desprezado, mas mais e mais acarinhado, mais e mais acolhido, mais e mais estimado, para que rapidamente se reencontre a si mesmo e possa voltar a viver em completa autonomia pessoal e em completa liberdade e responsabilidade.
"Nem eu te condeno. Vai em paz e não voltes a pecar". Numa chave moralista e não teológica, estas palavras de Jesus tiveram e continuam a ter um efeito perverso, totalmente nos antípodas do Evangelho de Jesus. Só em chave teológica estas palavras de Jesus alcançam todo o seu vigor libertador/salvador/humanizador.
Em chave moralista, é assim: A pobre da mulher casada que foi apanhada em flagrante com outro deveria ser morta à pedrada (ainda hoje, há quem faça isso, se não à pedrada, a tiro, à facada, ou com gasolina a arder). Na altura, valeu-lhe Jesus, que lhe perdoou. E ela safou-se, daquela vez, mas nem por isso deixa de ouvir uma certa reprimenda final de Jesus: "De agora em diante, não voltes a pecar", ou seja, não te metas noutra, vê se tens juízo e nada de andar por aí com outros homens sem ser o teu marido!
Vejam como esta interpretação é diabólica, é farisaica, opressora, assassina. Mostra a condescendência de Jesus (e, por tabela, da instituição Igreja que se arroga o direito de, agora, falar em nome dele e de perdoar pecados em nome dele!).
Mas, se assim fossem as coisas, continuaríamos ainda na mesma situação de antes. Os fariseus, agora, com novos nomes mais sonantes, continuariam aí a oprimir o povo, a ensinar doutrinas justificadoras do poder de alguns sobre os demais, como se fossem doutrina de Deus, e o povo apenas poderia contar com alguma condescendência dos representantes dEle, hoje, o papa, os bispos, os párocos.
Aliás, não é isto que sucede ainda por todas essas paróquias fora, durante todo o ano, especialmente, nestas longas semanas da quaresma, durante as quais as pessoas devem aproveitar para se confessar aos padres, os quais, depois de as terem ouvido ajoelhadas a seus pés (que vergonha e que indignidade, um homem/uma mulher de joelhos diante de outro homem e, para mais, clérigo celibatário mais ou menos à força!), logo lhes dizem, com todo aquele ar de quem está convencido de que as coisas são mesmo assim, Eu te absolvo dos teus pecados, vai em paz e não tornes a pecar!
Mas não é nada disto que esta dramatização teológica do Evangelho de João pretende. Se fosse, não seria Boa Notícia, Evangelho. Seria a reprodução do farisaísmo, porventura, um bocadinho mais humanizado, menos cruel, mas farisaísmo! Não seria alternativa radical e libertadora ao farisaísmo.
Tudo é então diferente, se encararmos este episódio como ele deve ser encarado, ou seja, como dramatização teológica. A Boa Notícia ou Evangelho que aqui se esconde/revela é escandalosamente libertadora e radical. Não admira, por isso, que as comunidades cristãs primitivas não quisessem incluí-la nos Evangelhos que escreveram e que vieram a ser reconhecidos como canónicos pela igreja católica romana, mas só depois desta ter conseguido que tanto este episódio, como praticamente todos os quatro Evangelhos, fossem lidos/interpretados em chave moralista e não em chave teológica libertadora, que é aquela em que todos eles foram escritos.
Aquele, "Não voltes a pecar", dito por Jesus à mulher (entenda-se, ao povo oprimido e esmagado, assassinado à pedrada pelos fariseus e chefes dos sacerdotes) significa esta Boa Notícia ou Evangelho, radical e escandalosamente, libertador: Vai em paz e livra-te de voltares a meter-te debaixo do domínio dos sacerdotes, dos fariseus, dos doutores da lei, numa palavra, dos donos do Templo. Livra-te de voltares a frequentar as suas catequeses feitas de mentira e, por isso, assassinas. Livra-te de voltares aos ambientes onde eles pontificam e são reis e senhores. Isso é que é pecar. E é pecar, porque se fores de novo por aí, eles voltarão, com mais ódio ainda, a oprimir-te, a esmagar-te, a sugar-te com as suas doutrinas interesseiras, de poder e de privilégios, às quais eles chamam doutrinas de Deus, mas que só podem ser do deus-Diabo, como é o pai deles e o pai dessas doutrinas que querem a morte do pobre, do ignorante, do pecador, em lugar de tudo fazerem para que ele viva, se liberte, seja autónomo, adulto, livre, responsável.
Nesta perspectiva teológica jesuânica, até o chamado "adultério" sexual-matrimonial não chega a ser considerado pecado. Na verdade, só uma doutrina farisaica e moralista foi capaz de conceber e ensinar tamanho disparate. Como se, alguma vez, para Jesus, o Cristo, a relação de amor entre duas pessoas responsáveis, casadas ou não, pudesse ser classificada de pecado! Para os fariseus de todos os tempos, sim, porque tudo é impuro aos olhos deles. E os olhos dos fariseus são impuros, porque a doutrina moralista e idolátrica, por que se orientam, assim os torna, ao mesmo tempo que os cega e desenvolve neles sentimentos de crueldade e de ódio contra as pessoas livres, criadoras, autónomas, responsáveis, prontas a viver segundo a própria consciência, e não segundo as normas que eles pretendem ditar a toda a terra, como se fossem de Deus, quando são apenas deles e da sua poderosa corporação religiosa e eclesiástica.
Infelizmente, é ainda esta doutrina moralista que, neste início do século XXI e do terceiro milénio, continua a ser ensinada às pessoas e aos povos, por parte das Igrejas cristãs todas, também e sobretudo, por parte da católica romana. Uma doutrina que não vem de Jesus, nem do seu Espírito. Vem dos fariseus do tempo de Jesus e que ele não só não aceitou, como duelicamente combateu até ao sangue.
Por isso nós, cristãs e cristãos que procuramos seguir a sua via ou caminho, não a via ou caminho dos fariseus moralistas, reconhecemo-lo e confessamo-lo como o nosso Libertador e o nosso Salvador!
É tempo de arrepiar caminho. Deixar de vez o caminho dos fariseus e entrar pelo caminho de Jesus, o Ser Humano por antonomásia, o Libertador, que foi crucificado pelos chefes religiosos do seu tempo e país, mas a quem Deus ressuscitou, isto é, a quem Deus deu razão!
Vamos, pois, por ele. Pelo seu Evangelho. Não voltemos a submeter-nos à doutrina dos fariseus e doutores da lei, dos teólogos moralistas católicos e laicos, que também os há por aí fariseus, e muito. Cresçamos em maturidade, em sabedoria e em graça. Tornemo-nos adultos na Fé. Pessoas de maioridade. Vivamos, no mundo, como filhas e filhos adultos de Deus criador e libertador, que, pelo seu Espírito, nos faz cada vez mais livres e responsáveis, autónomos e independentes, na comunhão fraternal/sororal e no combate pela edificação duma terra de justiça, de pão em abundância, de liberdade, de amor e de paz.
Por favor, não voltemos à idolatria e aos ídolos. Nem aos clérigos que estão por trás deles, a enriquecer à custa deles. Não voltemos a permitir que nos pisem. Que nos maltratem. Que nos oprimam. Que nos enganem. Que nos aldrabem. Menos ainda permitamos que nos façam tudo isto em nome de Deus. Numa palavra, não voltemos a pecar!
Porque, se alguma coisa é "adúltera", não é a mulher casada ou não casada que vive, livre e responsavelmente, o amor e a intimidade; não é o povo que tem sido enganado, oprimido, explorado, excluído, condenado como pecador pelos fariseus de todos os tempos. Se alguma coisa é "adúltera", é esse moralismo sexual-matrimonial que os clérigos de todas as Igrejas teimam em ensinar como doutrina de Deus, é essa teologia própria de um deus-Diabo, que nos mente e engana, nos oprime e castiga, faz de nós gato-sapato e ainda nos ameaça com castigos eternos num inferno que só mesmo a sua crueldade é capaz de conceber e de anunciar.
Fujamos de tudo isso. Vamos em paz e não voltemos a pecar, isto é, não voltemos a este moralismo, a esse teologia, a esse deus-Diabo, nem aos seus clérigos, nem aos seus templos. Ousemos ser mulheres e homens adultos, livres, responsáveis, filhas e filhos de Deus, bem ao jeito de Jesus de Nazaré, o Cristo!

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